Fora de Protocolo - concluída

12 12. Alinhamento de Interesses


Existe um conceito clássico chamado viés de confirmação: a tendência humana de ignorar qualquer dado que contradiga uma convicção já estabelecida. Eu passei a última década construindo um modelo de gestão de riscos impecável para a minha vida pessoal. Minhas diretrizes eram claras, matemáticas e imunes a sentimentalismos. E a regra de ouro desse protocolo, solidificada após observar os destroços dos casamentos dos meus amigos, era categórica: jamais se envolver com mulheres que já têm filhos.

Uma conta que não fecha. Uma logística que não me pertence. Um investimento de alto risco e retorno imprevisível.

O problema das regras absolutas é que elas funcionam perfeitamente no papel, até que o universo decide testar a sua rigidez com uma exceção. E a Dra. Lívia Coimbra era uma exceção com olhos castanhos desafiadores, um jaleco impecável e uma audácia que havia implodido o meu orgulho. Ela tinha jogado as minhas próprias palavras na minha cara, e o gosto do meu próprio veneno ainda amargava a minha garganta.

Pelo meu próprio manual de sobrevivência, o movimento correto seria bater em retirada, recalcular a rota e sumir. Mas o mercado ensina que, quando uma variável desconhecida sabota o seu sistema, você não foge; você assume o controle. Eu não ia aceitar o prejuízo daquele fora. Se envolver com ela fugia completamente do meu protocolo, mas se a realidade dela era um muro de concreto intransponível, eu simplesmente mudaria o terreno onde ela tinha construído as suas defesas.

Foi com essa equação inacabada orbitando a minha mente que estacionei no Jardim Botânico.

O jantar de segunda-feira na mansão dos meus pais no Jardim Botânico seguia a mesma coreografia das últimas duas décadas. A mesa de jacarandá estava posta com a louça brasonada, o vinho francês preenchia as taças na proporção exata e a conversa orbitava o mesmo eixo de sempre: expansão de rotas, mercado internacional e os passos previsíveis do clã Montserrat.

Pai e mãe já tinham se retirado para a biblioteca para tratar de um fundo de investimento familiar, deixando o restante da noite para nós três. Era o único momento em que o ar daquela casa ficava respirável.

— Se eu tiver que ouvir mais uma frase sobre o balanço patrimonial do segundo trimestre, eu juro que saboto as turbinas do jato particular do papai — Isabel disparou, jogando o corpo para trás nas almofadas do sofá da ante-sala e girando uma taça de vinho entre os dedos. A franja desalinhada e o deboche no olhar entregavam que a "rebelde" da família já estava no seu limite de etiqueta dominical.

— Não seja dramática, Bel. É a governança da empresa — Clara rebateu de imediato, sem tirar os olhos do iPad onde revisava um documento.

Clara era a personificação da perfeição: o coque impecável, o casamento de comercial de margarina, o currículo que faria qualquer headhunter chorar de inveja. Ela existia basicamente para absorver toda a radiação de expectativas dos nossos pais, funcionando como um escudo humano para mim e para a Isabel.

— Ela tem razão, Bel — comentei, ajustando os punhos da camisa enquanto me acomodava na poltrona em frente a elas. — Sem o balanço patrimonial, a Clara não tem como justificar o orçamento do novo brinquedinho corporativo dela. O que é aquilo que você estava tentando esconder do papai durante a sobremesa, Clara?

Clara ergueu os olhos do tablet, soltando um suspiro que tentava parecer cansado, mas que trazia o brilho de quem adora comandar um projeto.

— Não é um brinquedinho, Gustavo. É o novo braço de responsabilidade social da Montserrat Air. Uma ONG voltada para animais de rua — ela explicou, endireitando a postura, a postura de executiva assumindo o controle. — O projeto vai estruturar campanhas de castração em massa, distribuição de vacinas importadas, fornecimento de alimentação de alto padrão e a criação de uma rede de lares temporários focada em adoção responsável.

Isabel soltou uma risada curta, ácida, e tomou um gole do vinho.

— Traduzindo o juridiquês e o marketing para a realidade: o foco principal é uma redução de impostos para a empresa e colocar a cara da nossa mãe na capa da Vogue como a grande benfeitora dos cachorrinhos de rua. O importante é fingir que se importa com os vira-latas enquanto limpa a imagem da empresa na mídia.

— Independente do motivo fiscal, o projeto é bom — Clara defendeu-se, embora um sorriso cínico de canto confirmasse que ela concordava com a análise da irmã. — É uma jogada de relações públicas perfeita. E o orçamento é substancial. Só precisamos de alguém com estômago para gerenciar o comitê inicial e formatar a estrutura de lançamento antes de passarmos para um conselho terceirizado. Papai quer que eu assine a diretoria geral no papel, mas eu já estou afogada com a expansão da malha aérea da América Latina.

Fiquei em silêncio por alguns segundos, observando o traçado das informações no meu cérebro. As peças do tabuleiro do Rio de Janeiro, que até trinta dias atrás pareciam dispersas, moveram-se em uma velocidade assustadora, alinhando-se com uma precisão matemática perfeita.

Castração. Vacinas. Lar temporário. Orçamento sem limite da Montserrat Air.

— Eu assumo — disse, a voz saindo limpa, calma, cortando o burburinho da sala.

O silêncio que se instalou foi instantâneo.

Isabel quase se engasgou com o vinho, firmando a taça na mesa de centro a passos rápidos. Clara travou o dedo na tela do iPad, piscando duas vezes como se tentasse processar se tinha ouvido o irmão correto. Eu nunca, sob hipótese alguma, me envolvia diretamente com os projetos internos da Montserrat Air. Minha vibe sempre foi a consultoria estratégica independente e os meus próprios fundos.

— Repete, Gustavo? Acho que o vinho me deu alucinação auditiva — Isabel zombou, inclinando o corpo para a frente, os olhos brilhando de pura curiosidade.

— Você quer gerenciar uma ONG de bem-estar animal? — Clara franziu o cenho, avaliando o meu rosto em busca de alguma pegadinha. — Gustavo, você não distingue um pinscher de um cão de guarda. Na semana passada você reclamou que o pelo do gato da vizinha estragou o seu terno de alfaiataria. Qual é a razão por trás disso?

— A razão é otimização de tempo e recursos — respondi, sustentando o olhar analítico da Clara com um sorriso de lado. — Você está sem braço para tocar o projeto, o papai quer isso rodando antes do fechamento do trimestre para bater as metas, e eu tenho interesse em mapear esse mercado de atuação. Eu pego a diretoria geral. Como vai funcionar a transição? O que você já tem pronto?

Clara me encarou por longos segundos, tentando decifrar a real razão por trás do meu interesse repentino. Ela era boa nisso, mas eu era melhor em manter as minhas motivações escondidas.

— O estatuto social está pronto, a dotação orçamentária já foi aprovada pelo conselho administrativo e nós temos o selo de isenção fiscal pré-aprovado — Clara cedeu devagar, digitando algo e virando a tela do tablet na minha direção. — Mas há uma condição do papai. Não pode ser um projeto de fachada amador. Para o mercado comprar a ideia e a auditoria não encher o saco, nós precisamos de uma Diretoria Técnica. Alguém do meio veterinário que tenha uma reputação absolutamente inabalável, pulso firme e que não seja associado a escândalos de desvio de verba de outras ONGs. Um nome de peso para dar legitimidade ao negócio.

— Perfeito — curvei os lábios, pegando a minha própria taça e sentindo a gravidade jogar a meu favor. — Eu cuido de encontrar esse nome.

— E você já tem alguém em mente, Montserrat? — Isabel semicerrou os olhos, aquela inteligência afiada dela captando que havia algo muito mais instigante flutuando na minha mente do que simples dedução fiscal. — Esse seu olhar de psicopata não me engana. Você achou uma alguém bem interessante, não foi?

— Digamos apenas que eu conheço a profissional perfeita para o cargo — respondi, bebendo o vinho devagar, saboreando a projeção dos próximos dias. — Ela é extremamente técnica, tem pulso de ferro, comanda uma sala de emergência como ninguém e tem uma ética profissional que beira o insuportável. É o nome ideal para blindar a Montserrat Air.

— E como ela se chama? — Clara perguntou, já puxando a caneta digital para anotar.

— Lívia. Dra. Lívia Coimbra — pronunciei o nome dela, sentindo o peso daquela escolha.

Lívia queria muros de concreto? Queria usar o filho, o pragmatismo e o orçamento da clínica como escudos para me manter à distância? Ótimo. Eu não ia tentar pular o muro dela com folhas de cheque ou visitas inconvenientes na recepção. Eu ia reconstruir o terreno onde ela pisava.

Se ela achava que o Téo e a sua rotina de mãe solo eram a sua "vida real" e que homens como eu viviam em uma bolha de privilégios, eu mudaria as regras do jogo. Eu daria a ela a estrutura que o ex-marido covarde não foi homem o suficiente para dar, mas faria isso através do mérito dela, da competência dela. Eu colocaria o maior projeto de resgate animal do estado nas mãos dela, com verba ilimitada para ela salvar quantos caramelos quisesse.

E, para isso acontecer, a Dra. Coimbra teria que assinar o contrato comigo. Ela teria que gerenciar o projeto ao meu lado.

— Lívia Coimbra... — Isabel testou o nome na boca, um sorriso astuto e cheio de expectativa desenhando-se nos seus lábios. Ela não sabia dos detalhes, mas me conhecia o suficiente para saber que o jogo que eu estava armando era de alto nível. — Já gostei dela. Se ela consegue fazer você se mexer da sua cadeira para cuidar de cachorro de rua, essa mulher é uma entidade. Mal posso esperar para conhecer a minha nova diretora.

— Você vai conhecer, Bel — olhei para o relógio de pulso, vendo que já passava das dez da noite. — No devido tempo.

Clara apenas balançou a cabeça, enviando os arquivos para o meu e-mail institucional.

O investimento não era mais uma tendência de alta no mercado de ações. Era uma tomada de controle total. Amanhã cedo, na clínica, a Dra. Coimbra descobriria que o Rio de Janeiro não era apenas um ovo pequeno cheio de coincidências infelizes. Era o meu quintal.

O domingo à tarde na mansão dos meus pais serviu para organizar o tabuleiro, mas a segunda-feira de manhã na clínica foi um teste de resistência. Lívia tinha erguido uma muralha de Berlim entre nós na recepção, usando a prancheta como escudo e esticando um arame farpado invisível assim que mencionei o filho e o pai do garoto. Ela me achava um herdeiro entediado jogando dados com a realidade dela. Eu conseguia ver o desdém naqueles olhos castanhos, a forma como ela se blindava para proteger o seu mundo de números apertados e responsabilidade solo.

Eu não luto contra muros; eu mudo o terreno onde eles foram construídos.

Na terça-feira, o plano da Montserrat Air já estava no meu bolso, minuciosamente detalhado. Era hora de fazer a minha jogada.

Estacionei o Porsche na vaga lateral da clínica pouco antes das dez da manhã. Eu não usava o terno completo da reunião de diretoria que teria mais tarde, mas a camisa de linho azul-claro e a calça de alfaiataria cinza impunham o limite exato entre o cara que recolheu um cachorro na estrada e o homem que comanda orçamentos de sete dígitos.

Passei pela recepção com um aceno rápido para a equipe, que já nem se dava ao trabalho de pedir meu sobrenome para liberar a entrada. Caminhei direto para a ala de internação. Eu precisava ver como a minha primeira variável estava se comportando.

Quando entrei na baia, o vira-lata caramelo estava deitado de lado. No segundo em que meus sapatos ecoaram no piso vinílico, as orelhas dele se ergueram. O bicho firmou as patas dianteiras, erguendo o corpo com uma agilidade que me surpreendeu, e começou a bater o rabo contra o protetor emborrachado com uma força rítmica e barulhenta. Um ganido agudo, quase uma reclamação pela demora, saiu pelo focinho dele.

— Calma, garoto. Não força a bacia — contive o bicho, agachando-me ao lado do colchoado.

Esqueci a calça cara e apoiei um dos joelhos no chão, usando a mão direita para coçar a base das orelhas dele. O cachorro fechou os olhos, soltando um suspiro longo, e começou a lamber os meus dedos com uma intimidade que eu nunca permiti a nenhum animal de raça dos meus conhecidos. Havia uma honestidade brutal na criatura; ele não se importava com o meu saldo bancário, apenas com o fato de que eu era o cara que parou o carro na chuva.

— A evolução dele desafia a média estatística da clínica — a voz texturizada de Lívia ecoou atrás de mim.

Olhei por cima do ombro. Ela estava encostada no batente da porta, os braços cruzados sobre o jaleco branco, os olhos castanhos me avaliando com aquela mistura habitual de desconfiança e rigor técnico.

— O dreno foi retirado hoje cedo e os parâmetros inflamatórios estão cedendo rápido — ela continuou, dando dois passos à frente. — Ele é forte. E parece que escolheu o tutor.

Levantei-me devagar, limpando a palma da mão no tecido da calça e recuperando a minha postura. Olhei para o cachorro, que agora tentava roer o brinquedo de corda que deixei ali na véspera.

— Ele está tendo uma boa recuperação — observei. — Fico satisfeito em ver que ele está bem. Ele ainda está sem nome no prontuário?

— "Sem Nome" — ela confirmou, desviando o olhar para o bicho. — As meninas da recepção tentaram 'Pipoca' ou 'Maradona', mas eu prefiro manter a neutralidade. Facilita o desapego na hora de assinar a alta para a adoção.

— Um pragmatismo desnecessário, Dra. Coimbra. Sistemas precisam de rótulos claros para operar — dei um meio sorriso, pegando a pasta de couro minimalista que havia deixado sobre a bancada de inox. O tom leve da visita ficou para trás; assumi a frequência executiva. — Mas eu não vim aqui hoje apenas para auditar a saúde do nosso amigo. Eu preciso conversar com você. Em particular.

Lívia semicerrou os olhos, captando a mudança na minha energia. Ela olhou para o corredor, certificando-se de que a assistente, Mariana, estava longe o suficiente antes de apontar para a própria sala.

— Minha sala está livre. Entra.

O escritório dela era exatamente como eu imaginava: funcional, limpo, com cheiro de antisséptico e café requentado. Sentei-me na cadeira de plástico estofado em frente à mesa de madeira compensada, enquanto ela se acomodava do outro lado, mantendo o corpo ereto, como um general esperando a declaração de guerra.

Abri o fecho magnético da pasta com um estalo seco e deslizei o documento de alta gramatura sobre a mesa, parando-o exatamente diante das mãos dela. O logotipo da *Montserrat Air* brilhava em relevo seco no topo.

— Eu tenho uma proposta corporativa para você, Lívia — comecei, sustentando o olhar dela.

Lívia leu o cabeçalho: Projeto de Fundação do Terceiro Setor — Diretoria Técnica.

Ela soltou uma risada curta, anasalada, e recostou-se na cadeira, os braços cruzados em pura defensiva.

— Uma ONG de bem-estar animal? Financiada pela Montserrat Air? — O deboche dela era quase palpável. — Gustavo, por favor. Eu conheço a engenharia social de empresas desse porte. Isso é o quê? Uma manobra clássica de dedução fiscal de fim de trimestre ou um projeto de fachada para colocar a cara da sua mãe na mídia fazendo caridade com vira-lata?

Não mudei a minha expressão. Apoiei os cotovelos nos braços da cadeira, juntando as pontas dos dedos.

— É exatamente as duas coisas — admiti, sem hesitar por um milímetro. A honestidade corporativa costuma desarmar os idealistas. — O foco principal do conselho administrativo é uma redução agressiva de impostos e o cumprimento das metas de ESG para manter os fundos internacionais integrados. É uma lógica de mercado pura, fria e focada em números.

— E você achou que eu aceitaria fazer parte desse teatro? — ela rebateu, a voz descendo uma oitava, firme. — Eu sou médica veterinária, Montserrat. Eu opero bichos, limpo feridas e salvo vidas reais em mesas de inox. Eu não assino relatórios falsos para limpar imagem de CNPJ.

— E é exatamente por isso que você é a única variável que faz esse projeto ter sentido — inclinei o corpo para a frente, fixando meus olhos nos dela, eliminando qualquer espaço para gracinhas. — A diretoria geral da fundação está sob o meu comando a partir desta semana. Eu não coloco o meu nome em sistemas amadores, Lívia. O orçamento que a holding aprovou é substancial e exclusivo para o terceiro setor. O que significa que, independentemente do motivo fiscal do meu pai, o dinheiro na conta é real. E ele vai ser revertido em clínicas móveis, campanhas de castração em massa na periferia, vacinas importadas e na maior rede de lares temporários do Rio de Janeiro.

Lívia permaneceu em silêncio, a respiração compassada, mas os olhos dela entregavam que a mente estava calculando a escala do impacto que aquele volume de dinheiro causaria na causa que ela defendia.

— Eu preciso de uma Diretoria Técnica com uma reputação absolutamente inabalável — continuei, ditando os termos. — Alguém com pulso de ferro para gerenciar o credenciamento das clínicas parceiras, auditar a distribuição de insumos e garantir que a operação seja cirúrgica. Sem desvios, sem politicagem. Só eficiência técnica.

— A minha carga horária nesta clínica já consome toda a minha capacidade física, Gustavo — ela argumentou, mas a crueza de antes tinha sumido. Ela estava negociando com a realidade. — Eu tenho plantões pesados, cirurgias de emergência e uma vida pessoal que não comporta reuniões corporativas.

— Eu redesenhei a estrutura do cargo pensando nisso — disparei. Abri outra página do documento, apontando para as cláusulas de rotina. — A sua carga horária técnica será reduzida pela metade em relação ao que você cumpre aqui. O contrato prevê uma remuneração que cobre com folga os seus honorários atuais, com uma vantagem estrutural que eu sei que você valoriza: os seus finais de semana e as suas noites estarão sempre livres. Sempre. Sem plantões surpresa, sem madrugadas no expurgo.

Observei o canto da boca de Lívia contrair-se de leve. Eu não mencionei o nome do Téo, nem a rotina dela como mãe solo; eu não precisava ser invasivo para mostrar que tinha entendido a mecânica da vida dela. Eu estava entregando o recurso mais escasso do mundo dela: tempo. Tempo livre com o filho, estabilidade financeira e a segurança de que o relógio dela não seria quebrado por uma emergência de madrugada.

— Além disso — acrescentei, baixando a voz para um tom mais macio — o cargo oferece um nível de networking e influência que essa sala de Botafogo nunca vai alcançar. Você vai negociar direto com a indústria farmacêutica, definindo os termos de compra de insumos em grande escala. Você terá o controle real para mudar a estrutura da medicina veterinária social do estado. É o seu mérito, Lívia. A sua competência gerenciando um orçamento que realmente faz a diferença.

Lívia encarou o papel timbrado por longos segundos. Eu conseguia ver o conflito interno na forma como ela apertava os dedos contra o tecido do jaleco. Ela queria odiar a proposta, queria me empurrar para fora da sala com o meu "cartão black", mas os termos eram perfeitos demais, limpos demais para a sua armadura de pragmatismo resistir.

— Você planejou isso muito bem — ela finalmente disse, erguendo os olhos castanhos, a guarda ainda alta, mas a voz rendida à lógica do negócio. — Descobriu que eu sou amiga da Helena na segunda-feira e, na terça, aparece com um projeto de fundação aprovado e um cargo desenhado para a minha agenda.

— Eu lido com o alinhamento de interesses, Dra. Coimbra — levantei-me da cadeira, fechando a pasta de couro com elegância. — A Montserrat Air precisa da sua ética para blindar o projeto contra auditorias; você precisa do nosso capital para fazer o que sabe fazer de melhor. É uma equação exata.

Caminhei até a porta, mas parei com a mão na maçaneta, olhando-a por cima do ombro uma última vez.

— Quanto ao nosso amigo na internação... acho que deveríamos chamá-lo de Bóson. Como o Bóson de Higgs. A partícula que dá massa e ordem ao caos do universo. Combina com o impacto que ele causou no meu para-choque.

Lívia soltou um sopro de risada, o primeiro sinal de capitulação real daquela manhã.

— Você é um nerd muito esnobe, Montserrat.

— Sou apenas um homem focado, Lívia — respondi, deixando o sorriso de lado assumir o controle antes de girar a maçaneta. — O contrato fica com você. Avalie as cláusulas, faça as suas contas e me dê uma resposta até quinta-feira. Nos vemos em breve.

Saí da sala e fechei a porta com um clique suave, sentindo a descarga de adrenalina de quem sabe que acabou de executar uma jogada perfeita. Lívia achava que a vida dela era um tabuleiro intransponível, mas ela estava prestes a descobrir que, quando os interesses se alinham, o jogo muda de dono.


Notas finais
Nosso vira lata finalmente tem um nome (e sobrenome) Bóson de Higgs 💕