O trânsito da tarde no Rio de Janeiro era um teste de paciência, mas a minha mente corria em uma velocidade muito maior do que as rodas do meu carro popular. O documento de alta gramatura com o logotipo em relevo da Montserrat Air pesava dentro da minha bolsa no banco do carona, como se emitisse algum tipo de radiação.


Assim que abri a porta de casa, o aroma de sopa de legumes fresca me recebeu, junto com o som agudo e cristalino da risada do Téo. Minha mãe estava sentada no tapete da sala, equilibrando o meu filho nos joelhos enquanto ele tentava, com uma determinação adorável, agarrar as orelhas de pelúcia de um urso velho.


— Olha quem chegou, Téo! A mamãe! — minha mãe exclamou, abrindo um sorriso cansado, mas caloroso.


O Téo largou o brinquedo imediatamente.


Ele firmou as perninhas gordinhas no chão, balançando os braços abertos em minha direção, soltando um som animado misturado com pura empolgação.


— Mamãe, mamãe.


Todo o peso do plantão, toda a raiva acumulada pela audácia do Gustavo Montserrat e toda a exaustão física pareceram evaporar por um segundo.


Joguei a bolsa no sofá, me ajoelhei no tapete e o puxei para o meu colo, afundando o rosto no pescoço dele, respirando aquele cheiro de bebê e colônia infantil que era o meu porto seguro.


— Oi, meu amor. Que saudade que a mamãe estava — sussurrei, distribuindo beijos pelas bochechas fofas dele, que gargalhava alto, apertando o meu rosto com as mãozinhas pequenas.


— Ele se comportou muito bem, Lívia — minha mãe disse, levantando-se devagar com a mão na lombar. — Mas o dente de cima está querendo romper, dois molares. Ele ficou um pouco enjoadinho no meio da tarde, chorou um pouco, mas depois que dei o mordedor gelado e a sopa, ele acalmou.


Olhei para o rosto da minha mãe.


As olheiras profundas e a postura curvada entregavam que cuidar de um bebê de um ano e três na idade dela era uma tarefa hercúlea.


Ela nunca reclamava, fazia tudo por puro amor a nós dois, mas a culpa invisível e esmagadora que eu carregava por deixá-la sobrecarregada voltou a apertar o meu peito.


Eu pagava ela um valor que não chegava a ser um salário, estava mais perto de algo simbólico e eu sabia que ela merecia muito mais. A ideia inicial era colocá-lo em uma creche, mas dona Teresa insistiu que seu neto deveria ficar com ela.


— Obrigada, mãe. De verdade — falei, com sinceridade na voz. — Pode ir descansar. Eu assumo o guri a partir de agora.


Depois de dar banho no Téo, fazê-lo mamar e niná-lo até que ele adormecesse profundamente no berço, o silêncio finalmente se instalou no apartamento. Caminhei até a cozinha, passei um café fresco e ralo e fui para a mesa de jantar.


Era a hora de encarar a minha verdadeira realidade.


Abri a gaveta do aparador e puxei a pasta onde organizava a minha vida em papel. Coloquei o copo de café de um lado e, do outro, comecei a empilhar os boletos do mês.


Mensalidade do plano de saúde da minha mãe, reajustado recentemente. O condomínio, que havia subido por causa de uma reforma na fachada do prédio. A fatura do cartão com os gastos da farmácia e das fraldas do Téo. E, coroando a pilha, o extrato bancário impresso na manhã anterior, exibindo o mesmo espaço em branco onde deveria estar o depósito da pensão do Lucas.


Duas semanas de atraso. Nenhuma mensagem de justificativa.


Nada.


Meu relógio rodava no fuso horário do meu filho, mas os juros dos boletos rodavam no fuso horário dos bancos.


Peguei a proposta do Gustavo que estava na bolsa e a desdobrei sobre a mesa, lado a lado com as contas. Meus olhos foram direto para a cláusula de honorários. O valor numérico que a Montserrat Air estava disposta a me pagar por metade da minha carga horária atual era, sem exagero, obsceno.


Se eu aceitasse aquele contrato, eu poderia pagar todas as contas no dia do vencimento sem precisar fazer malabarismos.


Poderia finalmente pagar a minha mãe o valor justo pelo trabalho árduo de cuidar do Téo, não uma ajuda de custo simbólica que me envergonhava, mas um valor que desse a ela a independência financeira que merecia. E, o mais importante, a percepção bateu no meu estômago com uma força avassaladora: eu poderia largar os plantões noturnos de emergência.


Não haveria mais madrugadas frias lavando as mãos no expurgo da clínica enquanto meu coração sangrava de preocupação em casa. Não haveria mais o medo de o celular vibrar no bolso do jaleco no meio de uma cirurgia com a minha mãe avisando alguma emergência sobre Téo. Eu estaria em casa. Eu veria o meu filho dormir e acordar todos os dias. Eu estaria lá quando ele precisasse.


Eu queria odiar o Gustavo Montserrat.


Queria manter o meu orgulho intacto, a minha armadura de concreto erguida, e mandá-lo de volta para a sua cobertura em Copacabana com o seu cinismo e as suas teorias sobre a vida. Mas o orgulho não pagava o plano de saúde da minha mãe, e a minha prepotência não comprava o tempo que eu estava perdendo longe do meu filho.


— Droga, Gustavo... — resmunguei para as paredes vazias da cozinha, sentindo o gosto amargo da rendição, mas também um alívio absurdo que quase me fez chorar.


Ele tinha vencido aquela rodada. Ele tinha mudado o terreno sob os meus pés, exatamente como disse que faria. Mas se eu teria que jogar o jogo dele, eu jogaria sob as minhas próprias condições. Eu não seria um capacho ou um peão para a família Montserrat.


Peguei o celular, respirei fundo para engolir o resto de orgulho que ainda tentava me travar e disquei o número que estava impresso no cartão de visitas minimalista. Tocou apenas duas vezes antes que a voz pausada, grave e irritantemente segura dele ecoasse no receptor.


— Montserrat — ele atendeu, direto.


— Sou eu, Gustavo. Lívia — respondi, mantendo o tom de voz profissional, frio como o metal da minha mesa de cirurgia.


Houve uma fração de segundo de silêncio do outro lado, seguida por um sopro de risada que revelava que ele já esperava aquela ligação.


— Dra. Coimbra. Fico feliz que tenha feito as suas contas antes do prazo de quinta-feira.


— Eu analisei os termos, Gustavo. E aceito a diretoria técnica da fundação — disparei, cortando qualquer espaço para o tom de deboche dele. — O orçamento e o impacto do projeto são grandes demais para eu recusar por pura divergência pessoal. Mas preciso que você saiba: eu não assinei nada ainda. Só coloco o meu nome na folha de papel se nós estabelecermos termos rígidos de convivência. E eu faço questão de ditar as cláusulas.


— Sou um homem de negócios, Lívia. Estou acostumado a negociar diretrizes — o tom dele mudou, assumindo aquela frequência executiva afiada que eu vi na mansão dos pais dele. — Quais são as suas condições?


Apoiei os cotovelos na mesa, encarando os meus boletos enquanto ditava a minha armadura:


— Primeira regra: a nossa relação é estritamente corporativa e técnica. Eu gerencio os veterinários, as clínicas e os insumos; você gerencia os números e o conselho. Não quero gracinhas, não quero intimidades e não quero comentários sobre a minha vida pessoal no meio do expediente. O que aconteceu há pouco mais de trinta dias morre aqui. Estamos entendidos?


— Justo. Eficiência operacional exige foco. Próxima? — ele respondeu, sem hesitar.


— Segunda regra: as reuniões de alinhamento serão feitas exclusivamente em horário comercial e em ambiente profissional. Nada de jantares tardios, nada de reuniões na sua cobertura ou visitas surpresa na minha clínica de Botafogo usando o cachorro como desculpa. Se precisar falar comigo, agende com a secretaria da fundação.


Ouvi o som dele ajustando a postura do outro lado da linha, o tecido da roupa roçando no telefone.


— Considerável. Mais alguma exigência, Dra. Coimbra?


— Terceira e mais importante: o foco é o bem-estar animal. Se em algum momento eu perceber que a Montserrat Air está usando a fundação para mascarar relatórios falsos, desviar verba ou se a auditoria tentar intervir na minha autonomia para economizar centavos em cima do sofrimento dos bichos, eu me demito na mesma hora e coloco a boca no trombone para a mídia. Eu não sou fachada para CNPJ.


Um silêncio pesado durou três segundos. Eu quase podia ver as engrenagens da mente analítica do Gustavo calculando o risco daquela ameaça. Quando ele voltou a falar, o tom dele não tinha deboche; tinha uma pitada de legítima admiração.


— Suas cláusulas são rígidas, Lívia. Mas são perfeitamente viáveis. Eu aceito todas as suas condições. Eu não coloco o meu nome em sistemas amadores, e a sua ética é exatamente o que eu comprei para blindar essa holding. O contrato com os aditivos contratuais com as suas regras estará na sua mesa amanhã às nove da manhã.


— Ótimo — respondi, sentindo o meu coração dar uma batida mais forte, uma mistura de adrenalina e a certeza de que a minha rotina estava prestes a virar um campo minado definitivo. — Até amanhã, Montserrat.


— Até amanhã, Dra. Coimbra. Tenha uma boa noite de sono... já que agora as suas noites estão livres.


Desliguei o telefone antes que ele pudesse notar o impacto daquela última frase no meu peito. Olhei para a mesa da cozinha. Os boletos continuavam ali, mas o peso deles parecia menor. Eu tinha erguido novos muros, tinha colocado arame farpado nas regras de convivência e estava pronta para enfrentar o herdeiro de olhos verdes no terreno dele.


Gustavo Montserrat achava que o jogo tinha mudado de dono, mas ele ainda não fazia a menor ideia do tamanho do problema que tinha acabado de contratar para operar ao seu lado.


Na manhã seguinte, o sol mal tinha acabado de tocar a janela da cozinha quando me sentei à mesa com a minha mãe.


Entre o vapor de duas canecas de café e o som do Téo balbuciando no cercadinho da sala, joguei as cartas na mesa. Contei sobre a diretoria da fundação, o orçamento e, finalmente, o valor do salário.


Antes que ela pudesse expressar qualquer choque com a cifra, segurei suas mãos, que carregavam as marcas de quem passou a vida cuidando dos outros.


— Mãe, tem mais uma coisa. A partir do mês que vem, nós vamos oficializar as coisas por aqui. Você vai receber um salário real, fixo e justo por cuidar do Téo. Não é ajuda de custo, não é favor. É o seu trabalho, e agora eu finalmente posso pagar o que ele vale. Quero que você respire, que compre as suas coisas e planeje a sua vida sem precisar contar moedas.


Minha mãe piscou, os olhos marejando instantaneamente. Uma lágrima solitária escorreu pelas rugas finas ao redor dos olhos dela, e o suspiro que soltou foi de um alívio tão profundo que pareceu tirar um piano de suas costas. Ela


não conseguiu falar muita coisa, apenas apertou as minhas mãos de volta, mas o clima dentro daquele apartamento mudou no mesmo segundo.


O ar pareceu ficar mais leve.


Mais tarde, o peso da transição se deslocou para a clínica de Botafogo. Esperei o final do turno para me reunir com a Dra. Camila na sala da administração. Eu sempre fui correta com o meu trabalho e não deixaria a equipe ou os pacientes na mão por puro deslumbre com a nova oportunidade.


Fui direta: anunciei que havia aceitado um cargo de diretoria institucional na Fundação Montserrat. Dra. Camila lamentou a perda da minha melhor técnica cirúrgica, mas entendeu o tamanho do salto profissional. Alinhamos que eu cumpriria rigorosamente o aviso prévio de duas semanas, cobrindo todos os plantões noturnos já fechados daquela quinzena. Dali para a frente, minha relação com a clínica se resumiria a casos cirúrgicos específicos e agendados, estritamente durante o dia.


Seria a minha última quinzena de exaustão.

O cronograma estava traçado. Eu tinha exatamente duas semanas para passar os casos da clínica, organizar a papelada e assinar os aditivos contratuais que o motoboy do Gustavo entregou na minha porta na manhã seguinte, exatamente às nove horas, como ele havia prometido. Cada cláusula restritiva que ditei ao telefone estava lá, impressa em preto no branco, blindando o meu espaço.


O Bóson, o vira-lata branco e magricela, legítimo tipo "fiapo de manga", que Gustavo resgatou após o atropelamento e cuja luxação coxofemoral bilateral quase o tinha impedido de andar, já não lembrava em nada o bicho fragilizado de dias atrás. A redução cirúrgica e a fixação interna tinham sido um sucesso. O pelo branco estava limpo, e ele já conseguia se apoiar nas quatro patas com cuidado, dando passos firmes, ainda que lentos, e abanando o rabo freneticamente assim que me viu aproximar do canil.


— Olha só como você está lindo — elogiei, me agachando para receber as lambidas entusiasmadas que ele tentava me dar através das grades. — A cirurgia ortopédica estabilizou perfeitamente, garoto. Você está oficialmente de alta da internação. Mas a sua jornada ainda é longa; vai precisar de fisioterapia rigorosa para garantir aqueles noventa por cento de chance de recuperação total. Só falta arrumar um lar que tenha estrutura para cuidar disso.


— Ele não vai precisar procurar muito — uma voz grave e pausada ecoou às minhas costas, me fazendo sobressaltar.


Girei nos calcanhares e dei de frente com Gustavo Montserrat.


Ele estava encostado no batente da porta da internação, com as mãos nos bolsos da calça de alfaiataria cinza e o terno perfeitamente alinhado. Não usava gravata hoje, e os primeiros botões da camisa social branca estavam abertos, dando a ele um ar menos corporativo e perigosamente atraente.


— Montserrat — curvei as sobrancelhas, me levantando e recuperando a postura profissional. — O que está fazendo aqui? Nosso contrato diz que as reuniões devem ser agendadas na fundação.


— Eu não vim fazer uma reunião, Dra. Coimbra. Assunto estritamente financeiro e legal — ele respondeu, com um meio sorriso contido, enquanto tirava um cartão de crédito black do bolso da calça. — O Dra. Camila me avisou que o Bóson passaria pela última avaliação hoje. Vim quitar os custos finais da internação, fechar a conta dos materiais cirúrgicos e, claro, assinar o termo de adoção como tutor oficial. Tudo dentro do protocolo. E também vim ver como o meu investimento de quatro patas está se saindo. Já que paguei por cada pino nessa bacia, tenho direito a um relatório de progresso.


— Ele está ótimo. Acabei de dar a alta da internação — respondi, cruzando os braços, tentando ignorar a proximidade do perfume dele. — A recuperação pós-operatória foi excelente. Ele é um cão jovem e dócil, mas o tratamento pós-cirúrgico agora exige paciência. Ele vai precisar de sessões semanais de fisioterapia para recuperar a mobilidade total do acetábulo e da cabeça do fêmur. Infelizmente, a maioria das pessoas que procura feiras de adoção quer um animal pronto, que não demande custos contínuos ou idas frequentes ao veterinário.


Gustavo ouviu atentamente, os olhos fixos nas minhas reações antes de descerem para o cachorro. O Bóson, com aquela sensibilidade que só os vira-latas que já sofreram na rua têm, sentou-se, inclinou a cabeça para o lado e soltou um ganido baixo, encarando o CEO milionário como se estivesse cobrando o investimento.


Para a minha absoluta surpresa, Gustavo deu um passo à frente e se agachou. O tecido caro da sua calça roçou no chão de cerâmica da internação. Ele estendeu a mão comprida e firme em direção à grade, deixando que o Bóson a cheirasse primeiro. O cachorro deu duas lambidas rápidas nos dedos dele e começou a esfregar o focinho contra a palma da mão de Gustavo, pedindo carinho.


Gustavo cedeu, coçando atrás das orelhas do bicho com uma suavidade que eu não achei que ele possuía.


— Um paciente de alta, com tratamento fisioterápico em andamento e baixa probabilidade de ser adotado... — Gustavo murmurou, usando o seu jargão financeiro de um jeito quase divertido enquanto olhava para o bicho. — Parece o tipo de quebra-cabeça que eu gosto de resolver. Afinal, eu fui o responsável por bagunçar a vida dele, nada mais justo do que ajudar a colocar ordem no caos.


Ele se levantou devagar, limpando a poeira invisível dos joelhos, e voltou os olhos verdes para mim.


— Ele vai para a minha casa. Vou adotá-lo.


Pisquei, em choque completo. Minha boca abriu e fechou antes que eu conseguisse formular uma frase condizente com a minha armadura de diretora técnica.


— Você? Gustavo, você mora em uma cobertura em Copacabana. É um homem de negócios que viaja, que passa o dia em reuniões, que... você tem noção de que um pós-operatório ortopédico dá trabalho? Ele precisa de exercícios controlados, de remédio na hora certa se mancar, de levá-lo à clínica de fisioterapia...


— Eu tenho uma secretária executiva que gerencia a minha agenda com precisão, Lívia. Se eu posso coordenar uma malha aérea, eu garanto que consigo coordenar a agenda de fisioterapia de um vira-lata — ele me interrompeu, a voz mansa, mas inabalável. Ele olhou de volta para o Bóson, que parecia comemorar a decisão batendo o rabo no chão do canil. — Além disso, a cobertura tem uma área externa enorme e plana, perfeita para ele reaprender a andar sem impacto. Mande a lista de recomendações e os horários das sessões para o meu e-mail. Meu motorista passa para buscá-lo e levar os insumos ainda hoje.


Fiquei encarando-o, sentindo os meus argumentos desmoronarem um a um. Eu queria achar que aquilo era apenas marketing, uma jogada para me impressionar, mas a forma como ele olhava para o cachorro... tinha algo ali. Uma ponta de legítima decência por trás do cinismo.


— Tudo bem — cedi, sentindo um calor estranho subir pelo meu pescoço. — Vou preparar o termo de adoção oficial da clínica. Você precisa assinar.


— Traga junto com o meu contrato amanhã às nove — ele disse, dando um passo para trás em direção à saída, mas mantendo o olhar cravado no meu. — Como eu disse ao telefone, Lívia... as suas noites estão livres a partir de agora. Mas os seus dias pertencem à minha fundação. Até amanhã, Dra. Coimbra.


— Até amanhã, Montserrat — respondi, com a voz um pouco menos firme do que gostaria.


Ele se virou e caminhou pelo corredor com aquela imponência natural. Olhei para o canil. O Bóson estava deitado com o focinho apoiado nas patas, parecendo extremamente satisfeito com o seu novo destino de elite.


Eu havia erguido os muros e colocado o arame farpado nas regras de convivência para enfrentar o Gustavo Montserrat. Mas, enquanto via o meu paciente salvo ganhar um lar milionário, percebi que o herdeiro de olhos verdes me dava uma raiva profunda.


Era irritante, na verdade.


Que direito ele tinha de estragar o meu ranço daquele jeito? Seria infinitamente mais fácil lidar com ele se ele fosse apenas o playboy cínico e mimado que eu presumi que era.


Mas não.


O homem tinha sido o responsável por trazer o cachorro, tinha colocado um cartão black sem hesitar para pagar uma cirurgia caríssima e agora estava assumindo toda a responsabilidade de um pós-operatório complexo por pura decência. Ficava muito difícil manter a minha guarda levantada e odiar um cara desses.


E ficava ainda mais difícil quando a minha memória traidora insistia em me lembrar de que, além de ter um coração escondido sob aquela alfaiataria impecável, ele ainda era absurdamente bom de cama.


Peguei a prancheta de alta com mais força do que o necessário, bufando sozinha no corredor da internação. Gustavo Montserrat ia ser o meu maior problema profissional e pessoal pelos próximos meses, mas eu não ia facilitar para ele. Nem um pouco.