Fora de Protocolo - concluída
8 8. O Impacto do Golpe
O som da porta do elevador batendo no andar de baixo ecoou pela cobertura como um tiro de misericórdia.
Depois disso, o silêncio que se instalou na sala foi absoluto, pesado e sufocante.
Eu ainda estava perto da porta, com a mão estendida no vazio, sentindo o ar frio.
Minha mente, aquela máquina analítica que eu me orgulhava de manter sob controle milimétrico, simplesmente travou. Entrou em pane geral.
Um passatempo divertido para quebrar o jejum. O pós de vocês é incrivelmente cansativo. A mística acabou bem mais rápido do que eu esperava.
As palavras dela flutuavam no ar condicionado da sala, cortando o meu orgulho como navalhas afiadas. Eu nunca, em toda a minha vida profissional ou acadêmica, havia sido reduzido daquela forma. Eu era o especialista em Ciência Comportamental. Eu lia pessoas para viver. Eu antecipava reações de mercado e desarmava blefes de CEOs veteranos. Mas eu falhei miseravelmente em ler aquela mulher.
— Caralho... — praguejei alto, passando as mãos pelo rosto, puxando o ar com força.
— Rapaz... Se o objetivo dela era te arrancar a alma pelo pescoço, eu diria que ela foi certeira.
A voz veio de trás do balcão da cozinha americana. Eu tinha até esquecido que não estava sozinho.
Marcos estava encostado no mármore, segurando o copo do liquidificador com uma mão e me encarando com uma diversão escancarada que me deu vontade de quebrar alguma coisa. Com sua pele parda, os cabelos castanhos médios desalinhados pelo pós-treino e os olhos castanhos brilhando de deboche, ele era a última plateia que eu queria para o meu funeral de ego.
— Não fode, Marcos — rosnei, caminhando em direção ao sofá e me jogando ali, encarando o teto de gesso.
— Não fodo eu, Montserrat! — Marcos soltou uma risada alta, caminhando até a sala e sentando-se na poltrona em frente, sem o menor pingo de pena. — Eu corro na praia com você há três anos, frequento essa cobertura e nunca achei que viveria para ver o grande Gustavo Montserrat, o homem que calcula até o tempo de resposta de um bom dia, ser descartado como um "passatempo cansativo de uma noite". Na minha frente! Na frente da testemunha!
— Ela entendeu tudo errado — resmunguei, a rigidez no meu maxilar quase dolorosa. — Eu só estava te dando um conselho lógico. Mulher com filho...
— Cara, ela não quer saber do seu conselho lógico e, sinceramente, depois daquela cortada, acho que ela não quer saber nem se você respira — Marcos tomou um gole do shake, balançando a cabeça, os olhos castanhos fixos no meu estado deplorável. — "O pós de vocês é incrivelmente cansativo". Essa vai ficar gravada na minha mente por anos. Você ofereceu carona de Porsche e ela te mandou guardar a carona como se você fosse um motorista de aplicativo entediante. Que mulher, Montserrat. Que mulher.
— Você veio aqui para treinar ou para infernizar a minha vida? — perguntei, a voz fria como gelo, mas ele nem se abalou. Marcos me conhecia bem demais para se assustar com a minha pose.
— Vim para treinar, mas esse bônus de ver o seu orgulho virar poeira cósmica fez o meu sábado valer a pena — ele se levantou, batendo no meu ombro ao passar. — Vou tomar um banho no quarto de visitas e sumir daqui antes que você tente me analisar para se sentir melhor. Boa sorte aí com o fantasma da "passagem de jejum".
Quando ele se afastou, o silêncio voltou, mas a provocação dele ficou flutuando. O cheiro dela, o jasmim, as notas cítricas misturadas à luxúria da madrugada, ainda estava impregnado no ambiente.
E eu estava ali, estático, processando o maior e mais violento soco no ego que já havia levado na vida.
Eu sabia que tinha estragado tudo. O problema é que a minha lógica se recusava a aceitar o porquê.
Na minha cabeça, eu estava apenas oferecendo uma solução pragmática para o amigo. O comentário sobre mulheres com filhos era apenas estatística de risco e custo de oportunidade no meu mundinho fechado.
Como aquela mente brilhante e afiada tinha transformado aquilo em um ataque pessoal a ponto de me humilhar na frente do Marcos?
A fúria dela não fazia sentido algum. Mas me trouxe uma raiva absurdamente crua. Eu estava puto. Puto por ela ter me desarmado daquele jeito, puto pela audácia de me rebaixar a um "herdeiro previsível", mas, principalmente, porque ela tinha mexido comigo a um nível que eu não conseguia mensurar.
Mulheres iam embora da minha cama o tempo todo. Na verdade, o protocolo Montserrat ditava que eu costumava mandar o carro buscá-las antes que o café da manhã fosse servido. Eu valorizava o meu espaço, a minha rotina, o meu minimalismo. Mas olhar para aquela sala vazia agora causava um incômodo físico no meu estômago. Eu não estava desinteressado. Eu não estava satisfeito. A verdade nua e crua, que o meu orgulho tentava enterrar a todo custo, era que eu queria mais. Queria outra rodada, queria o fim de semana inteiro, queria entender que raio de tempestade era aquela que tinha devastado a minha cobertura.
Olhei para a parede de vidro, onde o sol da manhã agora iluminava o mar de Copacabana. Ir atrás dela? Nem foforificando.
Eu tinha o meu nome, o meu status e o orgulho moldados pela minha trajetória.
Eu não precisava do trono da Montserrat Air, que meu pai ainda comandava com mão de ferro e que minha irmã disputava com unhas e dentes; minha mente analítica tinha construído meu próprio império na gestão de fundos e consultoria estratégica de elite. Eu não ia rastejar atrás de uma mulher que tinha acabado de me usar como um brinquedo de luxo e me descartado antes das oito da manhã.
Se ela achava que eu era previsível, ela que ficasse com a rotina dela.
Eu ia voltar para a minha vida. Para os números. Para o controle.
O inverno de agosto tinha chegado ao Rio de Janeiro, trazendo uma brisa mais fria para o final da tarde na Avenida Atlântica.
Trinta dias haviam se passado. Quatro semanas de planilhas, reuniões de fusão de ativos, voos na ponte aérea e jantares de negócios no Fasano.
Minha vida tinha voltado aos trilhos exatos do modelo de previsão que eu desenhara. Eu não procurei por ela. Não liguei. Eu não tinha movimentado um único contato para descobrir absolutamente nada sobre a Lívia que tinha virado o meu mundo do avesso e me deixado falando sozinho na cozinha.
Ela não tinha me dito o sobrenome, não tinha falado o que fazia da vida e eu mantive a minha palavra de cavalheiro ferido de não rastreá-la.
O problema é que o fantasma daquela noite se recusava a tirar férias.
Eu estava de pé na sala do primeiro pavimento, com um copo de uísque puro na mão, exatamente no mesmo lugar onde ela tinha aberto o meu cinto trinta dias atrás. Olhei para o chão de mármore travertino sob os meus pés.
Nenhuma outra mulher tinha pisado ali desde então. Eu tentei, claro. Saí com duas modelos e uma advogada de direito internacional nas últimas semanas, mas cada toque parecia insosso, cada conversa parecia um roteiro pré-visível e tedioso.
Nenhuma delas tinha o deboche carioca na ponta da língua. Nenhuma delas tinha aquela audácia.
Dei um gole longo no uísque, sentindo o líquido queimar a garganta, os olhos fixos na linha do horizonte onde o mar encontrava o céu escuro.
Eu continuava puto.
Mas a raiva tinha se transformado numa obsessão silenciosa, um cálculo inacabado que a minha mente se recusava a arquivar. Aquela história não tinha terminado. Nós dois sabíamos disso. Eu só precisava de uma oportunidade em que o mercado jogasse a favor do meu orgulho.
Bati o resto do uísque para dentro e deixei o copo pesado de cristal estalar contra a mesa de centro.
Aquela fixação já estava cruzando a fronteira do ridículo. Eu era Gustavo Montserrat, pelo amor de Deus. Não fazia o menor sentido um homem com o meu histórico passar trinta dias orbitando a memória de uma única noite no mármore.
Se o problema era o jejum ou a falta de um estímulo à altura, a solução era puramente lógica: introduzir uma substituta a altura.
Peguei o celular e rolei a lista de contatos até o nome de Beatriz.
Bia era uma escolha segura e, acima de tudo, inteligente.
Nos conhecíamos do circuito de alta sociedade do Rio, o tipo de mulher que sabia a diferença entre um bom fundo de investimento e ações ordinárias, além de carregar aquele charme natural da Zona Sul que nunca passava despercebido.
Tinha um corpo impecável, um rosto simétrico e uma conversa que flutuava facilmente entre o mercado de arte e a economia global. Mesmo que não rolasse nada além de um bom vinho, ela era uma companhia genuinamente agradável.
Mas, sendo bem honesto com o meu próprio pragmatismo, eu esperava que rolasse.
A última coisa que eu queria era lidar com o olhar analítico de Beatriz tentando decifrar um possível distanciamento meu ou, pior, ter que responder a perguntas capciosas sobre por que eu parecia tão artisticamente entediado nos últimos tempos.
Sexo com alguém familiar era o melhor anestésico para fantasmas.
O tom de chamada não durou três segundos.
— Montserrat? — a voz dela veio suave, acompanhada pelo ruído de fundo de algum lounge sofisticado. — Que milagre. Achei que você tivesse sumido do mapa este mês.
— Eu só sumo quando o mercado exige muito de mim, Bia — respondi, adotando o tom pausado e charmoso que costumava funcionar como um cartão de visitas. — E hoje eu decidi que preciso de uma pausa. Está livre para jantar? Pensei em reservarmos uma mesa no Cipriani.
Ouvi uma risada leve do outro lado da linha, o som do consentimento calculado.
— No Cipriani? Você sabe mesmo como negociar um sábado à noite, Gustavo. Me dá duas horas para ficar pronta?
— Duas horas é o tempo perfeito. Passo para te pegar às nove.
Desliguei o celular e caminhei em direção ao closet da suíte principal. Dessa vez, não havia pressa, nem o caos elétrico de uma tempestade azul-marinho revirando os meus sentidos. Era apenas a rotina.
Escolhi uma camisa de linho azul-claro, uma calça de alfaiataria escura e um relógio discreto, mas de engenharia impecável. Borrifiquei o perfume amadeirado na base do pescoço, exatamente na linha da mandíbula onde a boca de Lívia tinha deixado um rastro de incêndio um mês atrás. Encarei o espelho por alguns segundos, ajustando o colarinho. O reflexo devolvia o homem de sempre: focado, alinhado, no controle absoluto da situação.
Peguei as chaves do carro, a carteira — sem talão de cheques dessa vez, uma autocrítica silenciosa que eu me impus — e saí da cobertura. O elevador privativo desceu suavemente até a garagem no subsolo.
No segundo em que dei a partida no motor do Porsche, o ronco grave ecoou pelas paredes de concreto. Eu ia jantar com uma mulher fantástica, o roteiro da noite estava perfeitamente desenhado e não havia margem para erros. Era hora de apagar de vez aquela variável caótica da minha cabeça.
O trânsito da noite de sábado na Zona Sul fluía com aquela lentidão preguiçosa típica do inverno carioca. Mantive o Porsche in segunda marcha, o som do motor Mezger roncando baixo, contido, enquanto eu cortava as ruas internas em direção ao apartamento de Beatriz.
Olhei de relance para o painel digital. 20h42. Eu estava perfeitamente dentro do cronograma.
Tudo sob controle.
O problema de limpar a mente para focar em um roteiro previsível é que o cérebro odeia o vazio. E, ironicamente, quanto mais eu me forçava a passar em revista os assuntos amenos que conversaria com Bia, a nova exposição do Parque Lage, o leilão de arte na Gávea, a oscilação das commodities, mais a porra da imagem de Lívia invadia a minha cabine de comando.
Lembrei do som do riso dela no balcão do bar. Do jeito que os olhos castanhos dela ficaram escuros e perigosos sob a luz da lua. Da audácia com que ela me desarmou na cama. Trinta dias e aquela tempestade ainda parecia um curto-circuito na minha fiação lógica. Foca na estrada, Montserrat, ordenei a mim mesmo, apertando os dedos contra o couro do volante. Lívia foi só uma noite. Bia é o plano de contingência real.
Eu estava cruzando uma rua um pouco mais escura, sombreada pelas amendoeiras frondosas da calçada, quando tudo aconteceu rápido demais para considerar qualquer possibilidade.
Bum.
Um vulto de tamanho médio disparou do vão entre dois carros estacionados na esquerda, correndo direto em direção à minha faixa.
Instinto puro. Meu pé esquerdo esmagou a embreagem enquanto o direito travou o freio com força total. Os pneus de alta performance do Porsche cantaram no asfalto, um ruído estridente e violento que cortou o silêncio do bairro, mas a distância de frenagem era fisicamente insuficiente para desafiar as leis da mecânica.
Senti o impacto seco, um baque surdo contra o para-choque dianteiro esquerdo do carro, seguido por um ganido agudo, doloroso, que fez meu estômago revirar de imediato.
O carro estancou. Os faróis de xenônio iluminaram a rua deserta à frente, revelando, caído a poucos metros do capô, um vira-lata caramelo.
O animal tentava se levantar, as patas traseiras falhando, soltando choros curtos e desesperados que batiam na lataria do Porsche e entravam direto pelos meus ouvidos.
Fiquei estático por três segundos, as mãos ainda coladas ao volante, o coração martelando no peito a uma velocidade alarmante. O painel brilhava em azul. O motor murmurava. E ali na frente, por causa de uma distração estúpida causada por um fantasma do passado, eu tinha acabado de quebrar a minha própria regra de ouro: o controle total da situação.
— Que caralho! — esmurrei o volante de couro, a minha voz ecoando na cabine do Porsche como um rugido de pura frustração.
Eu estava furioso. Uma fúria cega que se ramificava em quatro direções. Primeiro, pela humilhação mental de ainda estar pensando na porra da Lívia trinta dias depois daquela noite. Segundo, porque a porcaria do meu roteiro impecável com a Beatriz tinha acabado de ir direto para o ralo. Terceiro, pelo cachorro agonizando ali na frente. E quarto...
Abri a porta e saltei do carro. Quando meus olhos focaram na frente do Porsche, meu estômago despencou. O para-choque de fábrica ostentava um amassado feio na lateral esquerda, com a pintura arranhada pelo impacto.
— O meu para-choque não... Cara, não pode ser — murmurei, passando a mão pelos cabelos, sentindo uma veia pulsar na minha testa.
Era um carro de coleção. Uma peça de engenharia alemã intocada, arruinada por um vira-lata que decidiu cruzar a pista na hora errada.
O cachorro soltou outro ganido agudo, arrastando-se de leve no asfalto. Olhei para o animal, depois para o relógio no pulso: 20h48. Peguei o celular e disquei para a Bia.
— Bia? Houve um imprevisto grave. Atropelei um animal na estrada, preciso resolver isso agora. Vou ter que cancelar o Cipriani, me desculpa.
— Como assim, Gustavo? Você está bem? O carro... — ela começou, mas eu não tinha a menor estrutura cognitiva para dar explicações.
— Estou bem. O carro não. Te ligo amanhã — cortei a ligação antes que ela fizesse mais perguntas.
Voltei para o Porsche e abri o capô dianteiro. Eu não ia colocar um vira-lata de rua diretamente em cima do couro legítimo e imaculado dos meus bancos. Deus me livre manchar ou rasgar aquele estofado. Vasculhei o compartimento até encontrar a minha mala de couro com as roupas de tênis da última partida no saibro. Puxei duas toalhas grossas, um moletom antigo e estendi tudo sobre o banco traseiro, criando uma barreira de contenção tripla.
Aproximei-me do animal com passos calculados. Eu sabia, por pura teoria comportamental, que animais feridos operam por instinto de sobrevivência e podem ser extremamente agressivos.
— Calma, cara. Não me morde, por favor. Eu já estou tendo o pior sábado do meu ano — avisei, a voz saindo num tom baixo e tenso.
Abaixei-me, usando uma das toalhas para envolver as patas dianteiras do bicho, imobilizando-o de leve. O vira-lata caramelo grunhiu, os dentes à mostra, os olhos castanhos brilhando de pânico e dor, mas ele parecia fraco demais para revidar. Com todo o cuidado do mundo, sustentando a coluna e as patas traseiras dele para não piorar nenhuma fratura, ergui o corpo pesado do asfalto.
Acomodei-o no banco de trás, ajustando-o em cima do meu moletom com uma delicadeza que eu nem sabia que possuía. Eu o vi soltar um choro abafado e encolher-se. Bati a porta, limpei as mãos rapidamente em um lenço e assumi o banco do motorista.
Peguei o celular, abri o Google Maps e digitei na barra de busca: Clínica Veterinária 24h.
O ponto azul indicado uma rota de apenas seis minutos dali, cruzando o bairro em direção a uma clínica de emergência na Zona Sul. Dei a partida no motor, o Porsche roncando forte enquanto eu engatava a primeira marcha e arrancava com os pneus cantando, determinado a encerrar aquele desastre de noite o mais rápido possível.
Estacionei o Porsche de qualquer jeito na vaga de emergência em frente à fachada iluminada da clínica 24 horas. Desliguei o motor, saltei do carro e empurrei a porta de vidro do estabelecimento com o ombro, o estresse acumulado transbordando em cada linha do meu rosto.
— Preciso de ajuda aqui! Agora! — clamei, a minha voz ecoando de forma imponente pela recepção asséptica e silenciosa.
A moça da recepção, que organizava uns papéis atrás do balcão, deu um sobressalto e me encarou com os olhos arregalados.
— Senhor? O que houve? — ela perguntou, já se inclinando para a frente.
— Eu acabei de atropelar um vira-lata na rua de trás. Ele está no meu banco traseiro, ferido, não consegue mexer as patas de trás e está sentindo muita dor — despejei as informações com a rapidez de um relatório de danos, gesticulando em direção à rua. — Mandem alguém pegar uma maca ou o que quer que vocês usem. Eu não posso mover o animal de qualquer jeito.
— Entendido. Só um segundo, vou chamar a veterinária de plantão e os auxiliares — a recepcionista respondeu prontamente, apertando um botão no interfone e correndo em direção ao corredor das salas de atendimento.
Fiquei parado no centro da recepção, passando a mão pelo rosto, tentando acalmar os batimentos cardíacos que ainda insistiam em mimetizar o motor do Porsche. Eu estava desalinhado, com cheiro de asfalto e com a estampa de tênis do meu moletom provavelmente manchada de sangue de rua. Tudo o que eu queria era entregar o cachorro a um profissional, fazer um pix que cobre as despesas e ir para casa digerir o fracasso da minha noite.
Ouvi o som de passos rápidos e firmes batendo contra o piso vinílico do corredor. Dois auxiliares vinham na frente puxando uma maca de metal, seguidos de perto pela médica responsável. Ela vinha prendendo os cabelos escuros em um coque rápido com uma das mãos, enquanto a outra ajustava o estetoscópio no pescoço sobre o jaleco verde.
Quando ela cruzou a porta da recepção e ergueu os olhos castanhos para entender a emergência, o mundo parou pela segunda vez naquele ano.
A expression focada e profissional da mulher congelou no mesmo segundo. Os olhos dela se arregalaram levemente, fitando a minha camisa de linho azul-claro e o meu rosto tenso. No bolso esquerdo do jaleco dela, as letras bordadas em fios brancos brilhavam sob a luz fluorescente: Dra. Lívia Coimbra.
Olhei para ela, totalmente desarmado, sentindo o chão desmoronar por completo debaixo dos meus pés. Um mês inteiro de silêncio, trinta dias remoendo um desfecho histórico sem fazer a menor ideia do que ela fazia da vida, e o destino, ou uma ironia matemática muito perversa, me jogava direto na clínica dela descobrindo que ela era a médica que ia salvar o bicho.
Soltei uma risada curta, seca e incrédula, dando um passo para trás enquanto balançava a cabeça.
— Só pode ser brincadeira... — murmurei, a voz saindo num tom de puro choque.
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