Fora de Protocolo - concluída
16 Visita técnica
Existe uma diferença fundamental entre sistemas complicados e sistemas complexos.
Os complicados obedecem ao planejamento. Você desmonta um motor, entende cada peça e, quando monta de novo, ele funciona exatamente como antes.
Os complexos não.
Neles, pequenas variáveis produzem consequências completamente desproporcionais. Um atraso de cinco minutos muda uma reunião. Uma ligação perdida muda um contrato. Um cachorro atropelado muda uma rotina inteira.
A teoria chama isso de sensibilidade às condições iniciais.
Eu sempre achei esse conceito fascinante.
Porque, na prática, bastava eliminar as variáveis.
Planejar. Antecipar. Controlar.
Era um método que funcionava para empresas, investimentos e praticamente todas as pessoas que cruzavam o meu caminho.
Até conhecer a Dra. Lívia Coimbra.
Ela era a primeira variável da minha vida que parecia produzir mais caos quanto mais eu tentava controlá-la.
A solução mais lógica era simples: se eu não podia controlar o sistema, controlaria o único elemento sobre o qual eu ainda tinha domínio. Eu.
Era um experimento relativamente simples: eliminar qualquer margem para erro do meu lado e observar o comportamento do sistema.
Dizer que eu estava mantendo o profissionalismo na primeira semana da Fundação Montserrat seria um eufemismo.
Eu estava sendo um santo.
Segui cada uma das linhas milimétricas do contrato invisível da Lívia. Mantive-me à distância regulamentar no escritório, assinei cada uma das requisições técnicas dela sem pestanejar e engoli o meu orgulho quando ela me jantou viva na frente do conselho por causa de uma janela de quarenta e oito horas para auditoria de clínicas.
Eu estava jogando o jogo de longo prazo.
Tolerando os silêncios, as respostas curtas no WhatsApp e até a audácia dela de me chamar de "senhor presidente" com aquele pingo de ironia que quase me fazia perder a postura no meio da sala de reuniões.
Mas o sábado chegou.
E a física quântica adora colapsar sistemas perfeitamente controlados.
Eu tinha acabado de subir de uma corrida de dez quilômetros na areia de Copacabana com o Marcos e o Arthur. O sol de fim de tarde no Rio ainda castigava, e eu estava cruzando a sala da cobertura descalço, vestindo apenas uma bermuda de moletom escura, com a pele ainda quente do esforço e uma garrafa de isotônico na mão, quando a campainha tocou.
Eu sabia que era ela. O Bóson também sabia. O vira-lata, que estava deitado no tapete emborrachado que comprei por exigência médica, ergueu as orelhas e começou a dar uma surra de rabo no chão antes mesmo de eu abrir a porta.
Quando destranquei a fechadura, dei de cara com a Lívia.
Ela usava uma calça jeans justa, uma blusa de alças simples e prendia o cabelo castanho em um coque alto, meio desfeito, com alguns fios soltos na nuca. Estava linda. E visivelmente desarmada pela minha completa falta de vestimenta superior.
Os olhos castanhos dela desceram pelo meu peito, mapeando o suor que ainda brilhava na minha pele, antes de subirem rapidamente para os meus olhos. Ela engoliu em seco, as bochechas ganhando um tom sutil de rosa.
— Dra. Coimbra — cumprimentei, encostando o ombro no batente, permitindo-me um meio sorriso que eu vinha guardando há cinco dias. — Pontual como um relógio suíço.
— Montserrat — ela respondeu, a voz um pouco mais alta do que o normal, tentando recuperar o foco profissional enquanto apertava a alça da sua bolsa. — Eu vim fazer a avaliação pós-cirúrgica do Bóson. É uma visita técnica.
— Claro. A visita técnica. Entre.
Assim que ela passou por mim, o perfume dela me rodeou, quebrando qualquer resquício do meu autocontrole. Mas ela não perdeu tempo. Deixou a bolsa na poltrona e se jogou direto no chão de mármore ao lado do cachorro, que já choramingava de empolgação.
Fiquei de pé, com os braços cruzados, observando a cena.
A Lívia de jaleco na clínica era impressionante, mas a Lívia de joelhos no chão, com os nós dos dedos tocando a bacia do bicho com uma delicadeza, era covardia. Ela testou a estabilidade dos pinos, flexionou as patas traseiras dele devagar e checou a cicatrização externa.
— A evolução dele está impecável, Gustavo — ela disse, olhando para cima, ainda ajoelhada. O uso do meu primeiro nome, sem o verniz do "Montserrat", fez meu estômago dar um nó esquisito. — O tecido regenerou perfeitamente e ele já está apoiando o peso de forma simétrica. Você realmente seguiu os tapetes emborrachados e a restrição de escadas. Parabéns. Você cuidou dele muito bem.
Soltei uma risada curta, dando um passo à frente, diminuindo a distância entre nós enquanto ela se levantava devagar.
— Espere um pouco. Eu acabei de receber um elogio genuíno da Dra. Lívia Coimbra? Sem nenhuma nota de rodapé irônica ou ameaça de processo por quebra de protocolo? Preciso anotar a data de hoje.
Lívia limpou as palmas das mãos no jeans, dando um meio sorriso defensivo, mas não recuou. Seus olhos voltaram a trair seu foco, descendo de novo pelo meu abdômen antes de fixarem no meu rosto.
— Não se acostume. Ele está bem, o que significa que o meu trabalho de acompanhamento intensivo acabou — ela rebateu, a respiração começando a ficar perceptivelmente mais curta à medida que eu dava mais um passo. — Agora é só a fisioterapia. Nós só temos a fundação.
— Nós temos o agora, Lívia.
Eliminei os dois metros regulamentares. Deixei o isotônico de lado na mesa de centro e parei a um centímetro dela.
O calor do meu corpo parecia puxar o dela.
Ergui a mão, os meus dedos ainda meio úmidos tocando a linha macia do maxilar dela, inclinando o rosto dela para cima. A Lívia estancou. Os olhos castanhos dilataram, fixos na minha boca, e a mão dela subiu, espalmando contra o meu peito nu, não para me empurrar, mas para se segurar, os dedos arranhando levemente a minha pele quente.
Eu conseguia ouvir o coração dela batendo contra a minha palma.
Inclinei o meu rosto, roçando os meus lábios nos dela, sentindo o hálito quente de baunilha, pronto para incendiar aquela cobertura e esquecer qualquer cláusula contratual que ela tivesse inventado para nos afastar.
— Cara, o Arthur esqueceu o fone de ouvido de corrida aqui no... Opa! Caralho, malzaço!
A porta do elevador da cobertura se abriram, revelando o Marcos.
O estrago foi instantâneo.
Lívia deu um sobressalto para trás, quase tropeçando no tapete do Bóson, com o rosto completamente escarlate e os olhos arregalados de pânico.
Eu fechei os olhos por dois segundos inteiros, respirando fundo pelo nariz, controlando o impulso de jogar o meu amigo pelo parapeito do décimo quinto andar.
Girei o corpo devagar. O Marcos estava parado no hall de entrada, vestindo regata de corrida, segurando um par de tênis na mão e ostentando uma expressão de puro choque misturada com uma diversão cafajeste que eu ia fazê-lo engolir.
— Marcos — a minha voz saiu tão fria que poderia congelar a praia de Copacabana inteira. — O que você está fazendo aqui dentro?
— Cara... eu juro que achei que você ia estar no banho — ele se defendeu, erguendo as mãos, mas o sorrisinho no canto da boca o entregava totalmente. Ele olhou para a Lívia, que estava fingindo uma arrumação obsessiva na sua bolsa de couro, de costas para a gente. — Dra. Coimbra! Que... surpresa. Monitoramento de rotina do paciente?
— Sim! Exatamente. A avaliação pós-cirúrgica do... do Bóson— Lívia se atrapalhou, a voz saindo uma oitava acima, jogando a alça da bolsa no ombro sem nem conseguir olhar na minha direção. — Mas o quadro está estável. Eu já terminei por aqui. Com licença.
Ela passou pelo Marcos como um rastro de vento, batendo a porta da cobertura atrás de si antes que eu pudesse sequer dar um passo para impedi-la.
O silêncio que ficou na sala foi quebrado apenas pelo Bóson, que soltou um bocejo longo e deitou a cabeça nas patas.
— Porra, foi mal... — o Marcos quebrou o silêncio, me encarando com os olhos castanhos arregalados, mas com aquele sorrisinho de deboche que entregava que ele estava adorando cada segundo. — Atrapalhei você no momento sem camisa e suado com a doutora? Caralho, virei um empata foda.
— Eu vou quebrar o seu pescoço, Marcos — rosnei, caminhando até o sofá e pegando uma camiseta preta qualquer jogada ali, vestindo-a com uma fúria cega.
— Não quebra não, seu animal! Eu acabei de salvar o resto que sobrou do seu orgulho — ele deu uma gargalhada alta, jogando-se na poltrona e apontando o par de tênis na minha direção. — Você passa a semana inteira dizendo para mim e para o Arthur que o lance de vocês ia ser estritamente profissional, que ia seguir cada uma das cláusulas dela na fundação... e na primeira visita médica você tenta encurralar ela seminu?
Fechei os punhos, sentindo o meu rosto esquentar, exatamente como no dia em que ele e o Arthur me encurralaram com o uísque na mão.
— Você não sabe do que está falando — retruquei, tentando recuperar o verniz intocável, mas a verdade é que o meu sistema nervoso ainda estava em pane.
— Não sei? — o Marcos cruzou os braços. — Então responde uma pergunta.
Suspirei.
— Não.
— Você ia beijar ela?
Mantive o silêncio.
— Certo. O silêncio já respondeu.
Continuei encarando a parede.
— Segunda pergunta. Você chamou a veterinária para revisar o cachorro... ou o cachorro foi uma desculpa para chamar a veterinária?
— Ela marcou a consulta.
— Claro que marcou. E você coincidiu de atender a porta sem camisa.
— Eu acabei de voltar da corrida.
— Coincidência extraordinária.
— Marcos...
— Não, espera. Deixa eu entender o método científico. Você adotou um cachorro, colocou tapete emborrachado pela casa inteira, seguiu todas as recomendações médicas e ainda correu dez quilômetros antes da consulta. Tudo isso porque é um tutor responsável.
— Exatamente.
Ele assentiu devagar, segurando o riso.
— E eu sou o Papa.
Revirei os olhos.
— Você terminou?
— Ainda não. Tem mais uma curiosidade acadêmica.
Apontei para a porta.
— Nem começa.
— Você percebeu que ela ficou olhando para o teu abdômen umas três vezes?
Fiquei em silêncio por um segundo.
— Quatro.
O Marcos me encarou. Depois começou a gargalhar.
— Caralho... você contou?
— Marcos, pega a porcaria do fone do Arthur e some da minha casa — avisei, a rigidez no meu maxilar quase dolorosa.
— Tô indo, tô indo! — ele ergueu as mãos, pegando o fone em cima do aparador, mas parou perto do Bóson e deu um tapinha na cabeça do bicho. — Valeu pela escolta, Higgs. Juízo, Montserrat!
A porta da cobertura finalmente se fechou, e o silêncio voltou a reinar, quebrado apenas pelo Bóson, que soltou um espirro longo e se ajeitou em cima do tapete de Istambul.
Fiquei parado no meio da sala, encarando a porta trancada por onde a Lívia tinha saído como um rastro de vento e perfume de baunilha. O Marcos achou que tinha estragado o jogo, e com certeza ia passar os próximos trinta minutos gastando a minha paciência no grupo com o Arthur, mas ele só tinha adiado o inevitável.
Eu conhecia os sinais.
o jeito que ela prendeu a respiração e o modo como os dedos dela arranharam a pele quente do meu peito nu antes de o Marcos entrar me deu a única métrica que eu realmente precisava.
O incêndio entre nós não ia ser apagado por uma interrupção. Ela podia me chamar de cansativo o quanto quisesse para tentar se proteger, mas nós dois sabíamos que, na próxima vez que eu estivesse perto daquela boca, eu ia garantir que o Marcos estivesse em outro continente.
/////
Sair da cobertura do Gustavo foi fácil.
Difícil foi lembrar como se respirava.
Cruzei o hall do elevador em passos largos, agradecendo mentalmente por não ter cruzado com mais ninguém além do Marcos. Minhas mãos tremiam levemente quando destravei o carro na calçada e me joguei no banco do motorista, batendo a porta com mais força do que pretendia. O som abafado do interior do veículo foi o primeiro alívio do dia.
Agora eu só precisava convencer meu cérebro que nada relevante tinha acontecido lá em cima. Tudo aquilo foi apenas uma visita clínica. O paciente estava bem. Os exames estavam bons. Os pinos estavam estáveis.
Todo o resto era irrelevante.
O problema é que o meu corpo parecia não ter recebido o memorando.
Minhas mãos ainda estavam quentes. E eu conseguia sentir, com uma nitidez irritante, a textura da pele dele sob a minha palma. Fechei os olhos por um segundo. Foi só porque ele estava sem camisa. Só isso. Qualquer pessoa teria olhado.
Eu olhei porque precisava avaliar se ele tinha acabado de sair da corrida. Mentira.
Eu olhei porque ele era absurdamente bonito. Bufei para mim mesma.
— Parabéns, Lívia. Excelente capacidade de autodiagnóstico.
Apoiei a testa no volante, fechando os olhos. O cheiro de baunilha do meu próprio perfume parecia misturado ao aroma de mar e suor que emanava da pele do Gustavo. Que inferno.
Forcei-me a respirar fundo, contando até quatro, tentando reidratar o cérebro que parecia ter entrado em curto-circuito no momento em que ele tocou o meu maxilar.
— Profissionalismo, Lívia. Você é uma profissional.
Abri a bolsa de couro com pressa, buscando meu bloquinho de anotações para descarregar os dados técnicos da avaliação do Bóson. Precisava documentar a evolução da bacia, a simetria do apoio, a cicatrização técnica...
Minha caneta travou no papel em branco.
Eu não lembrava de metade. Eu tinha certeza de que tinha verificado a flexão da pata direita, mas o resultado? Sumiu. Minha memória recente tinha sido deletada e substituída por imagens em alta definição do abdômen definido do Gustavo Montserrat, brilhando sob o sol da tarde.
Respirei fundo. A culpa era exclusivamente do Gustavo Montserrat. Ou melhor... Da completa falta de camiseta do Gustavo Montserrat.
Soltei um rosnado de pura frustração e joguei o bloco no banco do passageiro. Eu mapeei cada músculo dele enquanto ele falava sobre "o agora". Que tipo de médica eu era? Eu passei duas semanas revisando aditivos contratuais para me proteger dos jogos mentais dele, e sucumbi na primeira vez que ele apareceu sem camisa. Patético.
E o Marcos... Um xingamento mental bem direcionado ao timing desastroso do amigo dele atravessou o meu pensamento. Se ele não tivesse aberto aquela porta, se ele tivesse demorado mais trinta segundos...
Travei a mandíbula na mesma hora, sentindo uma onda de auto-ódio me atingir. Não. Eu não podia estar pensando isso. Eu não podia estar irritada pela interrupção. O Marcos não tinha estragado nada; ele tinha me salvo. Ele tinha impedido que eu cometesse o maior erro da minha vida profissional.
Se aquele beijo tivesse acontecido, se os meus lábios tivessem tocado os dele... como eu entraria na fundação na segunda-feira? Como eu assinaria um aditivo de fornecedor olhando nos olhos verdes dele sem lembrar da temperatura do corpo dele contra o meu?
Eu precisava agradecer ao Marcos, não xingá-lo.
O problema não era a física quântica colapsando sistemas, como o Gustavo gostava de filosofar. O problema era simples, biológico e dolorosamente previsível: atração.
E a solução também era simples, puramente lógica: distância operacional. O protocolo médico do Bóson estava encerrado. Agora, era só o expediente na fundação. Duas mesas de jacarandá de separação, ar-condicionado no máximo para esfriar qualquer clima e zero visitas técnicas fora do horário comercial.
Girei a chave na ignição, fazendo o motor do carro roncar. Eu ia para casa, daria banho no Téo e revisaria prontuários até que a imagem do peitoral do Montserrat fosse varrida da minha mente por dados de vacinação.
Eu estava no controle. De novo.
Duas horas depois, a atmosfera no meu apartamento era o oposto exato da tensão que quase me consumiu na cobertura.
O Téo, com seus catorze meses de pura energia, cruzava a sala de um lado para o outro com aquela marcha meio desengonçada e decidida de quem acabou de dominar a arte de andar. Ele segurava um dinossauro de plástico em uma das mãos e exibia um sorriso largo que deixava seus quatro únicos dentinhos da frente perfeitamente à mostra. O carisma dele era o meu porto seguro; era impossível olhar para aquele gordinho e continuar pensando em caras arrogantes.
— Dá! — Téo balbuciou, parando na minha frente e esticando o dinossauro. No segundo seguinte, ele mudou de ideia, puxou o brinquedo de volta e soltou um sonoro: — Não!
— Não? Então tá bom — ri, me agachando para apertar aquelas bochechas.
A campainha tocou, cortando o som das gargalhadas dele. Fui até a porta e, ao abrir, dei de frente com a Helena. Ela não esperou nem o meu "oi"; entrou na sala exalando a energia, com um brilho diferente nos olhos.
— Oi, meu amor mais lindo! — Helena se abaixou, enchendo o Téo de beijos e fazendo ele soltar aquela risada gostosa que preenchia a casa. Ela se levantou, ajeitando o cabelo castanho, e me encarou. — Ainda bem que ele está acordado. Eu precisava mesmo pegar vocês dois juntos.
— O que foi? Aconteceu alguma coisa? — perguntei, estranhando o tom ligeiramente solene dela enquanto ela tirava uma caixinha de veludo texturizado, num tom de verde-oliva profundo, de dentro da bolsa.
— Conversamos sobre o buffet e as flores depois. Primeiro, o mais importante. Toma — ela disse, estendendo a caixinha para mim.
Peguei o objeto, sentindo o peso do estojo nas mãos. Olhei para a Helena, confusa, e depois voltei os olhos para a caixinha. Levei alguns segundos para processar o que aquilo significava. Quando puxei a fita de cetim e abri a tampa, vi um pingente delicado de ouro e, logo abaixo, um cartãozinho escrito com a caligrafia elegante da minha melhor amiga: "Para a dona do meu coração e a melhor parceira de vida. Aceita ser a minha madrinha de casamento?"
Meus olhos marejaram instantaneamente. O nó que estava na minha garganta por causa do estresse do dia se transformou em uma onda de pura emoção. Olhei para a Helena, que já estava com os olhos vermelhos também.
— Finalmente. Eu já estava começando a achar que você ia me trocar pela Malu.
Helena riu.
— Vocês duas já estavam escolhidas antes mesmo de o Arthur comprar as alianças.
Eu a abracei apertado, sentindo uma lágrima quente escorrer pelo meu rosto.
— É claro que eu aceito. Vai ser a maior honra da minha vida. Não vejo a hora de usar a cor que você obrigar e te ajudar com os surtos do buffet.
No meio do nosso abraço, sentimos um puxãozinho na minha calça jeans. Olhamos para baixo e o Téo tentava escalar as minhas pernas, olhando para a caixinha de veludo na mesa de centro com os olhinhos brilhando.
— Água? — ele perguntou, chutando o vocabulário para ver se colava. Quando viu que ignoramos, apontou para a caixinha de novo. — Au-au?
— Não é au-au, meu amor — Helena riu, limpando o canto dos olhos e pegando o Téo no colo, enchendo o pescoço dele de cosquinhas. — É o casamento da titia. E você está convidadíssimo. Na verdade, você foi intimado junto com a sua mãe.
— Intimado para quê? — perguntei, fechando a caixinha com carinho.
— Sábado que vem. O Arthur fechou o reservado de um restaurante na Zona Sul para o nosso primeiro jantar oficial dos padrinhos. Eu, você, a Malu... e os padrinhos do noivo. E o Téo vai junto, porque eu faço questão.
Senti o meu estômago dar uma contração tão violenta que precisei apoiar a mão na mesa de jantar. Os padrinhos do Arthur. O círculo íntimo do noivo.
— Quem são os padrinhos do Arthur, Helena?
— E antes que você invente uma desculpa, sim, o Gustavo vai estar lá. O Marcos também. O Felipe também. Então nem vem dizer que não vai. — Helena respondeu com total naturalidade, ajeitando o Téo no quadril.
Olhei para o meu filho, que agora batia palminhas, completamente alheio ao colapso da mãe dele.
O sábado que vem. Um jantar íntimo. Vinho fluindo. O Gustavo Montserrat sentado na mesma mesa, sem o verniz do terno cinza, sabendo exatamente o calor que os meus dedos deixaram na pele do peito dele poucas horas atrás. E, para completar o cenário de caos, o meu filho como testemunha VIP daquela voltagem elétrica.
O problema da entropia, eu pensei, sentindo o meu coração acelerar, é que o caos não espera você estar pronta para recalibrar as defesas. Ele simplesmente acontece.
— Passo te buscar às oito no sábado, tá? Leva uma bolsa caprichada com as coisas do gordinho — Helena avisou, deixando o Téo no chão e me dando um beijo na bochecha. — Te amo, madrinha! Até sábado!
— Até... — respondi em um sussurro, ouvindo o clique da porta se fechar.
Téo andou até mim, segurou a minha mão com os seus dedinhos gorduchos e olhou para a porta.
— Mamãe? — ele balbuciou, tombando a cabeça.
— É, meu amor... — suspirei, pegando-o no colo e apertando-o contra o meu peito. — A mamãe tem exatamente sete dias para reconstruir uma muralha inteira.
Porque no próximo sábado, nós dois vamos entrar direto no olho do furacão.
A segunda-feira começou exatamente como eu temia: um teste de estresse. Cheguei trinta minutos mais cedo na fundação, o coque tão apertado que repuxava a pele da minha testa e o jaleco abotoado até o último botão.
Eu era a personificação da eficiência médica, uma máquina incapaz de lembrar da textura da pele dele.. A primeira provação veio às duas da tarde, na reunião de orçamento.
O Gustavo entrou na sala vestindo um terno sob medida cinza-chumbo, a gravata perfeitamente alinhada e o rosto esculpido naquela impassibilidade típica de quem move milhões com um aceno de cabeça. O oposto exato do homem descalço e de moletom da minha tarde de sábado.
Quando nossos olhos se cruzaram pela primeira vez, meu coração deu um solavanco estúpido, mas sustentei o olhar, forçando o meu melhor semblante clínico ao cumprimentá-lo como "senhor presidente". Ele tencionou o canto dos lábios, não chegava nem a ser um sorriso, apenas o suficiente para que eu soubesse que ele via através da minha armadura e respondeu torcendo a cadência da palavra produtivo ao desejar que meu fim de semana tivesse sido bom.
Saí da sala com a certeza de que a minha muralha tinha fundações bem mais frágeis do que eu gostaria de admitir.
Na quarta-feira, descobri que manter distância física não impedia Gustavo Montserrat de encontrar outros jeitos de bagunçar o meu dia.
Eu estava na minha mesa, imersa nos relatórios de auditoria, quando a minha secretária entrou segurando um copo térmico de inox e um pequeno envelope pardo. Dentro, não havia assinatura, apenas uma caligrafia firme, decidida: "Para garantir que os seus sistemas continuem perfeitamente controlados. B. também manda lembranças." O copo continha um macchiato duplo com o toque exato de canela que eu gostava.
Girei a cadeira para encarar a parede de vidro que dava para o corredor da diretoria, sabendo que três andares acima a cobertura da presidência me vigiava.
O Gustavo não precisava estar na minha sala para desestabilizar o meu ambiente; ele fazia isso remotamente, e tomei o café até a última gota, irritada com o fato de que a cafeína dele sabia exatamente como me devolver o foco que eu vinha perdendo.
Até que chegou a sexta.
Eu estava saindo da sala de arquivos médicos, carregando uma pasta pesada de relatórios, quando a porta do elevador privativo se abriu no corredor silencioso. O Gustavo estava lá dentro. Sozinho. Meus pés travaram no carpete por um segundo, mas o pragmatismo me forçou a entrar.
Quando as portas se fecharam, o cubículo pareceu encolher de tamanho. O perfume dele preencheu o espaço instantaneamente, o mesmo aroma de mar que tinha se impregnado na minha pele no sábado. Ficamos sozinhos por alguns segundos que pareceram horas. Nenhum de nós olhou para o visor dos andares. O silêncio era tão denso que eu tinha certeza de que ele conseguia ouvir a minha respiração curta.
Ele não se moveu, não tentou encurtar o espaço, não sorriu. Apenas manteve os olhos verdes fixos no meu perfil enquanto o elevador reduzia a velocidade no meu andar. Quando as portas se abriram, ele deu um meio passo para o lado, estendendo o braço para segurar o sensor.
— Doutora — ele disse. A voz em um tom baixo, raspando na minha nuca.
— Presidente — respondi, a voz firme por puro milagre.
Passei por ele sem olhar para trás, mas a falta de qualquer ação, a ausência de piadas ou provocações, fez a tensão explodir dentro do meu peito.
Ele não precisava me encurralar contra a parede; o fantasma do que quase aconteceu no sábado flutuava entre nós, intacto e perigoso.
Às sete e meia da noite de sábado, eu encarava o meu próprio reflexo no espelho do quarto. O vestido midi de seda verde-esmeralda tinha um corte fluido que desenhava a silhueta com elegância, e o cabelo caía em ondas soltas pelos ombros. No berço portátil, o Téo já estava arrumado, vestindo uma mini camisa azul-claro e um sapatinho de camurça que o deixava parecendo um homenzinho, alheio à ansiedade da mãe.
Peguei a bolsa de couro do Téo, recheada de fraldas e brinquedos, e segurei meu filho no colo enquanto descíamos. Durante sete dias eu tentei convencer a mim mesma de que bastava controlar as variáveis, que a distância no escritório e o jaleco abotoado seriam suficientes para neutralizar o que quer que estivesse crescendo entre nós.
No entanto, quando o carro finalmente estacionou na Zona Sul, o manobrista abriu a porta e eu vi o letreiro iluminado do restaurante, compreendi o erro da minha teoria.
O problema nunca tinha sido controlar o caos.
O problema era que Gustavo Montserrat era o próprio caos.
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