Fora de Protocolo - concluída
24 Pulsante e Vivo
Quando terminei de falar, sustentei o olhar do Gustavo, esperando para ver qual seria o impacto das minhas palavras. A reação dele foi um espetáculo à parte. Gustavo piscou, processando o acordo casual por alguns segundos em silêncio, e então um sorriso lento começou a desenhar o canto dos seus lábios.
Relaxei os ombros na cadeira, sentindo um alívio imediato no peito.
Eu conhecia aquele tipo de sorriso. Era o semblante de um homem ouvindo exatamente as palavras que queria ouvir. Para o Gustavo, aquilo devia ser o cenário ideal: ele continuaria tendo o meu corpo, a minha companhia, mas sem nenhuma dor de cabeça, cobrança ou o peso de um compromisso que atrapalhasse a rotina dele. Na cabeça dele, eu tinha acabado de tirar um fardo enorme dos seus ombros.
Dei um sorriso de canto, achando graça da pose de quem gostava de dar a última palavra.
Enquanto ele chamava o garçom e pagava a conta com aquela elegância natural de quem não se importa com números, puxei o celular da bolsa com uma ponta de ansiedade de mãe. Disparei uma mensagem rápida para a Malu: "Tudo bem por aí? O gordinho deu trabalho?"
Menos de um minuto depois, a tela piscou com uma foto. Era o Téo, completamente capotado na cama da dinda, abraçado com a naninha azul e com o bumbum empinado para cima. Abaixo da imagem, a mensagem da Malu: "Dormindo igual a um anjo desde as 21h. Para de ser neurótica e vai curtir a sua noite!"
Guardei o aparelho, sentindo o peito leve. O processo da pensão estava encaminhado, meu filho estava seguro e eu estava bem ali, jantando com o homem mais gato que já tinha cruzado o meu caminho.
O caminho de volta para a casa foi completamente diferente de todas as outras vezes em que estivemos no mesmo carro. Não havia mais barreiras defensivas da minha parte. O Gustavo passou o trajeto inteiro me fazendo rir com comentários ácidos e inteligentes sobre o mercado de luxo e as excentricidades das reuniões da holding, e eu me peguei olhando para o perfil dele sob a luz dos postes da rua com uma percepção totalmente nova.
Ele era... gente boa. Cuidava dos seus, prestava atenção nos detalhes e tinha uma generosidade que me surpreendia cada vez mais. Minha guinada em relação ao caráter dele tinha sido completa.
Quando ele finalmente estacionou o carro na rua deserta do meu prédio, o motor continuou ligado, preenchendo o silêncio confortável entre nós. Gustavo soltou o cinto de segurança e se inclinou na minha direção, colando nossos lábios.
Foi um beijo diferente dos outros. Não tinha aquela fúria selvagem da mesa da diretoria, nem a provocação do blefe da cobertura. Foi um beijo calmo, lento e profundo, daqueles que desarmam qualquer um. Havia urgência ali, claro, mas havia também uma quantidade absurda de carinho e desejo que me fez segurar os ombros dele para não derreter no banco do carona.
Quando ele se afastou alguns centímetros, seus dedos traçaram a linha do meu maxilar com uma suavidade que me pegou desprevenida.
— Estarei de olho em você essa semana na fundação, doutora — ele murmurou, a voz rouca contra a minha pele. — Obrigado pela ótima noite. A sua companhia é... rara.
Olhei para ele, achando a atitude e o tom dele a coisa mais fofa do mundo. O coração parecia uma bateria desregulada no meu peito. E foi olhando para aquele rosto perfeito que eu percebi que não precisava encerrar a noite ali. Eu não tinha nenhuma desculpa para dar.
— Sabe... — comecei, com um sorriso de canto, sustentando o olhar dele. — O apartamento é só meu hoje. O Téo está com a madrinha e só volta amanhã de manhã.
Fiz uma pausa de um segundo, vendo a reação imediata acontecer diante dos meus olhos.
— Você quer subir?
A mudança de expressão do Gustavo foi quase instantânea. O controle calculista dele vacilou por uma fração de segundo, e eu vi os olhos escuros dele brilharem intensamente com a proposta. A fachada de CEO aliviado deu lugar ao homem que me desejava com cada fibra do corpo.
— Você tem noção do perigo que é fazer um convite desses para um homem de negócios, Lívia? — ele provocou, a voz descendo uma oitava, embora o sorriso no rosto entregasse a diversão. — Eu costumo aceitar de imediato quando a oferta é irrecusável.
Soltei uma risada clara, desabotoando o meu cinto enquanto ele desligava o motor do carro com uma pressa que me fez arrepia. Nós nos demos mais um beijo rápido e cúmplice dentro do carro, antes de abrirmos as portas.
Caminhamos lado a lado em direção à portaria de ferro, e enquanto eu girava a chave na fechadura antiga do meu prédio, percebi que o meu plano de manter as coisas no "estritamente casual" ia ser muito mais difícil de gerenciar do que eu imaginei .
Assim que a porta do meu apartamento se fechou atrás de nós, o silêncio da casa sem o Téo nos envolveu. Gustavo deixou o paletó sobre o aparador sem desviar os olhos dos meus. Havia desejo ali, claro. Muito. Mas havia algo novo também. Uma calma que eu ainda não conhecia nele.
Aproximou-se devagar, como se me desse tempo para mudar de ideia. Não mudei.
Me puxou pela cintura, colando meu corpo ao dele com uma urgência deliciosa. Quando nossas bocas se encontraram outra vez, o beijo não tinha urgência. Tinha descoberta. E ele me beijou como se tivesse todo o tempo do mundo.
Entramos no meu quarto quase sem nos soltarmos. A iluminação vinha apenas da luz da rua que passava pela fresta da cortina, desenhando sombras suaves pelo ambiente.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Gustavo segurou o meu pescoço com as duas mãos. O toque quente e firme dos dedos dele na minha pele subiu pela minha nuca, fazendo um arrepio forte descer por toda a minha espinha. Inclinei a cabeça para trás, completamente entregue à sensação, enquanto ele começava a me beijar de um jeito que me tirou o chão.
Não era apenas desejo cru. Havia uma entrega ali que me desestruturou por completo.
Ele distribuiu beijos calmos pelo meu rosto, descendo pela linha do meu maxilar até encontrar os meus lábios em um beijo profundo, lento e cheio de paixão. Minhas mãos subiram para os ombros dele, agarrando o tecido da sua camisa cinza enquanto eu correspondia com a mesma vontade, sentindo meu corpo amolecer contra o dele.
— Você é linda, Lívia... — ele sussurrou contra a minha boca, a voz rouca e carregada de uma admiração que me fez piscar, atordoada. Ele desceu os lábios para o meu pescoço, deixando beijos molhados e quentes ali, fazendo minha respiração falhar. — Tão linda.
Passei os dedos pelos cabelos dele, puxando-o para mais perto, sentindo-me completamente desarmada.
— Eu adoro beijar você — ele murmurou perto do meu ouvido, a respiração quente me arrepiando inteira antes de voltar a selar nossos lábios com um carinho que eu não esperava, mas que estava adorando receber.
Aos poucos, as nossas roupas começaram a se tornar um obstáculo. Mas não havia pressa. Nos despimos devagar, sob o ritmo suave dos nossos próprios suspiros e carícias. Cada pedaço de pele revelado era recebido com um toque demorado, um elogio silencioso ou um beijo intencional.
Eu estava inteiramente entregue àquela sensação. Sentir as mãos firmes dele mapeando o meu corpo com tanto cuidado, enquanto eu explorava os ombros largos e as costas definidas dele, transformou o quarto em um universo onde só existia nós dois. Havia apenas o toque apaixonado do Gustavo e a certeza de que eu estava exatamente onde queria estar.
Nos deitamos na cama, os corpos já conectados pelo calor da pele e pela respiração acelerada. Gustavo se apoiou sobre mim, olhando bem no fundo dos meus olhos com uma intensidade que quase me fez esquecer como respirar.
Apoiando o peso do corpo sobre os cotovelos para não me sufocar, Gustavo manteve os olhos fixos nos meus. A intensidade daquele olhar escuro, quase preto sob a penumbra do quarto, era tão magnética que me fez segurar o fôlego. Ele não estava ali apenas para se satisfazer; cada movimento dele exalava a determinação silenciosa de um homem que reivindicava espaço na minha mente, na minha pele e no meu peito.
Ele deslizou as mãos grandes pelas minhas costelas, subindo devagar até segurar meu rosto com uma delicadeza que contrastava com o calor violento que emanava de nossos corpos.
— Olhe para mim, Lívia — ele pediu, a voz grave vibrando contra a minha boca antes de me tomar em um beijo profundo.
Sua língua encontrou a minha em um ritmo lento, possessivo e infinitamente sensual, ditando o compasso da nossa entrega. Eu me curvei em sua direção, entrelaçando minhas pernas nas dele, buscando mais do seu peso, mais do seu calor. A sensação da pele dele contra a minha era um combustível altamente inflamável. A química entre nós não era apenas física; era uma força visceral que parecia fundir nossas respirações em uma só.
Gustavo desceu os beijos pela curva do meu queixo, deixando um rastro úmido e quente pelo meu pescoço, fazendo-me arquear as costas no colchão e soltar um suspiro sôfrego. Suas mãos firmes desceram pelo meu quadril, puxando-me ainda mais contra ele, enquanto sua boca continuava a explorar cada centímetro da minha pele com uma adoração quase devota. Ele beijou o vale entre os meus seios, a curva da minha cintura, descendo até o quadril com uma lentidão torturante que me fazia tremer inteira.
— Você é perfeita... — ele murmurou contra a minha pele, a voz rouca, carregada de um desejo genuíno que me deixava completamente vulnerável. — Cada pedaço seu.
Ele subiu de volta devagar, roçando o nariz pelo meu pescoço, a respiração dele batendo acelerada contra a minha orelha. Senti seus dedos se entrelaçarem aos meus sobre o travesseiro, prendendo nossas mãos enquanto ele se posicionava entre minhas pernas. O contato íntimo e direto fez meu corpo tensionar em uma expectativa deliciosa.
Gustavo inclinou a cabeça, fitando-me com uma mistura de urgência e paciência infinita. Ele queria saber se eu estava na mesma sintonia, se estava tão perdida naquele abismo quanto ele.
— O que você quer, Lívia? — ele sussurrou, a voz áspera rente aos meus lábios, o hálito quente se misturando ao meu. — Diga-me o que você quer.
Apertei meus dedos entre os dele, puxando-o para mim com toda a força que me restava. O controle que eu tanto tentava manter tinha se transformado em cinzas.
— Você — respondi, a voz saindo em um sussurro arrastado, desesperado pela proximidade. — Eu quero você, Gustavo.
Um meio sorriso rouco e satisfeito surgiu nos lábios dele antes que ele me beijasse novamente, um beijo que selou o nosso acordo silencioso de forma irrevogável. Ele se moveu para dentro de mim em um único movimento fluido e profundo, arrancando de nós dois um gemido uníssono que ecoou no quarto silencioso.
A sensação de preenchimento foi tão avassaladora que fechei os olhos, mas Gustavo imediatamente levou os dedos ao meu queixo, forçando-me a encará-lo.
— Abra os olhos. Quero que você me veja. Quero que sinta tudo — ele comandou, os olhos brilhando com uma chama intensa enquanto começava a se mover.
O ritmo dele era uma obra-prima de dedicação. Ele se movia com uma lentidão calculada que prolongava a nossa agonia ao extremo, para logo em seguida acelerar em investidas mais firmes e viscerais, que me faziam agarrar seus ombros largos e enterrar minhas unhas em suas costas definidas. A cada movimento, ele sussurrava palavras de desejo e admiração, elogios baixos e promessas silenciosas que me faziam arrepiar da cabeça aos pés.
A entrega era mútua e absoluta. Eu me movia com ele, encontrando o seu ritmo, devolvendo cada toque e cada beijo com a mesma intensidade febril. A vibe do quarto estava saturada de uma eletricidade espessa, o som de nossas respirações descompassadas e da pele se chocando contra a pele criando a única trilha sonora daquela noite.
Gustavo era o amante mais focado e generoso que eu já tinha conhecido. Ele parecia ler as reações do meu corpo, ajustando cada ângulo, cada toque, para me levar ao limite. Quando senti a onda do ápice começar a se formar na base do meu ventre, apertei minhas pernas ao redor do seu quadril, puxando-o com urgência.
— Gustavo... — clamei pelo nome dele, o tom entregando o meu colapso iminente.
— Estou aqui com você. Não solta — ele sussurrou, a voz falhando enquanto acelerava os movimentos, os olhos fixos nos meus, compartilhando cada segundo daquela descida livre.
O espasmo do prazer me atingiu como uma onda de choque, fazendo-me contrair ao redor dele. Gustavo soltou um gemido baixo e rouco, entregando-se ao seu próprio ápice logo em seguida com algumas investidas finais e profundas, antes de desabar o rosto no vão do meu pescoço, a respiração dele queimando contra a minha pele enquanto seu corpo tremia com a força da própria liberação.
Ficamos ali, os corpos ainda conectados, os corações batendo no mesmo ritmo frenético contra o peito um do outro. Gustavo rolou levemente para o lado, puxando-me para o seu peito largo e mantendo-me abraçada contra ele, enquanto distribuía beijos suaves e carinhosos pelo topo da minha cabeça.
Gustavo rolou levemente para o lado, puxando-me para o seu peito largo e mantendo-me abraçada contra ele, enquanto distribuía beijos suaves e carinhosos pelo topo da minha cabeça.
Minha respiração aos poucos ia voltando ao normal, acompanhando o compasso do coração dele sob o meu ouvido. Eu achava que o ápice tinha sido o ponto final, mas, com o Gustavo, o tabuleiro nunca parava de se mover.
Ainda com o corpo colado ao meu, ele se inclinou e roçou os lábios molhados na curva do meu pescoço, arrancando de mim um suspiro involuntário. Senti um sorriso ladino se formar contra a minha pele antes de ele sussurrar:
— Nós ainda não acabamos.
Sua voz rouca e a promessa em seus olhos escuros me fizeram perceber que aquela seria uma noite muito longa.
E realmente foi.
Se eu tivesse que descrever as horas seguintes, "casual" seria a última palavra da lista. A noite inteira com o Gustavo foi intensa, única, pulsante e viva de um jeito que me assustou. Não houve espaço para as minhas defesas ou para os meus protocolos de segurança; houve apenas pele, toque e uma entrega tão profunda que parecia que nossos corpos sabiam exatamente onde se encaixar antes mesmo de tentarmos.
Quando os primeiros raios de sol de domingo começaram a invadir o quarto pela fresta da cortina, eu me apoiei em um dos cotovelos para olhá-lo.
Gustavo dormia de bruços, com metade do rosto enterrado no meu travesseiro, um dos braços pesados jogado por cima da minha cintura de forma possessiva, mesmo inconsciente. O lençol cobria apenas metade do seu quadril, revelando as linhas fortes das suas costas.
Passei a ponta dos dedos pelos meus próprios lábios, sentindo-os inchados e dormentes de tanto beijar. Quando tentei me mover um pouco para o lado, uma dormência gostosa nas minhas pernas moles de tanto prazer me lembrou de cada detalhe do que tínhamos feito.
Aquele homem estava na minha casa. Na minha cama. Onde apenas eu e o Téo costumávamos estar.
Observei o peito dele subir e descer em um sono tranquilo. Aquele homem ocupava metade da minha cama, mas a sensação era de que já tinha ocupado espaço demais dentro da minha cabeça.
Foi então que uma verdade incômoda me acertou em cheio.
Apaixonar-se por Gustavo Montserrat seria ridiculamente fácil.
E talvez esse fosse o meu maior problema.
Porque, olhando para ele ali, dormindo com o braço pesado sobre a minha cintura como se pertencesse àquele lugar, percebi que eu não estava mais tentando impedir a queda.
Eu só não fazia ideia de quando tinha começado a cair.
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