A minha primeira providência ao entrar no consultório 4, logo após o Gustavo me deixar no corredor, foi trancar a porta, me apoiar contra a madeira e respirar fundo.


Eu precisava de oxigênio. Precisava que os batimentos cardíacos registrados no meu próprio peito fizessem sentido clínico novamente. Mas a verdade é que, desde a noite anterior, a minha lógica vinha falhando miseravelmente.


O sexo com o Gustavo na mesa tinha sido avassalador. Uma grande loucura. Não havia outra palavra. Não havia nenhuma marca visível na minha pele. Nenhum hematoma, nenhum arranhão que denunciasse a noite anterior e mesmo assim tinha sido uma colisão que derrubou todas as minhas barreiras, mas, ironicamente, o que me mantinha sem ar no meio do expediente não era o remorso.


Era um orgulho imenso, quase selvagem, que eu não sentia há quase dois anos.


Sob o toque faminto dele, eu não tinha sido apenas a mãe do Téo, exausta e sobrecarregada, e nem a Doutora Coimbra, fria e analítica. Eu tinha sido apenas uma mulher. Desejada, viva e dona do próprio corpo.


Eu tinha resgatado uma identidade que achei que a maternidade e a rotina do hospital veterinário tinham engolido para sempre.


Claro que a minha mente tentou me punir logo em seguida. Você transou com o presidente da fundação onde trabalha, Lívia. No escritório da diretoria.


Mas eu era uma mulher adulta. Sabia separar as coisas. O Gustavo e a Bia conseguiam conviver no ambiente sem misturar as dinâmicas de poder; por que diabos eu e ele não conseguiríamos? Nós éramos perfeitamente capazes de manter o profissionalismo durante o horário comercial.


O problema é que o Gustavo se recusava a seguir o roteiro que eu tinha escrito para ele.


Passei o resto da manhã atendendo na triagem, mas a minha atenção estava fragmentada. Eu ouvia os relatos dos tutores, examinava seus pets, assinava receitas de medicamentos, mas uma parte do meu cérebro continuava presa no corredor da administração.


Sempre que o ambiente ficava em silêncio por alguns segundos, eu sentia o fantasma do polegar dele roçando a linha do meu maxilar tenso. Lembrava da firmeza da voz dele dizendo que eu não precisava mais jogar no vermelho. "A partir de hoje, você não precisa mais jogar no vermelho para cobrir o erro de um amador."


Aquilo me desmontava.


Eu passei semanas construindo a imagem de que o Gustavo Montserrat era um homem egoísta, um cara obcecado por controle que só queria me dominar por capricho. Mas ele não tinha me provocado na frente dos residentes. Ele não tinha tentado usar o que aconteceu na noite anterior para me subjugar. Ele simplesmente me defendeu. Ele estendeu a mão para me ajudar a carregar um peso que eu vinha sustentando sozinha há tempo demais.


E isso era mil vezes mais perigoso do que qualquer investida arrogante.


Para piorar, eu me culpava. Me culpava por ter baixado a guarda, por ter deixado que ele ouvisse aquela ligação humilhante com o Lucas e, principalmente, por ter cedido e dado o nome do escritório de advocacia. Eu estava perdendo o controle da situação, e a sensação de depender da boa vontade de um homem me dava náuseas.


Às duas e meia da tarde, meu celular vibrou sobre a mesa de atendimento, interrompendo a digitação de um prontuário. O visor exibia um número com o prefixo do Centro do Rio.


— Dra. Coimbra.


— Boa tarde, Doutora Lívia. Meu nome é Ricardo, sou o diretor do departamento jurídico da Montserrat Holding — a voz do homem era o próprio estereótipo da eficiência corporativa. — O senhor Gustavo Montserrat me repassou a sua demanda referente à execução de alimentos do menor Teodoro Coimbra. Dois dos nossos melhores advogados de direito de família já foram destacados para o seu caso. Eu acabei de enviar um e-mail para a sua conta pessoal com a lista de documentos necessários para ajuizarmos a ação ainda esta semana. A senhora poderia conferir?


Minhas bochechas arderam de imediato. Uma onda de irritação misturada com incredulidade subiu pelo meu peito.


Ele realmente tinha feito. O homem tinha mobilizado o corpo jurídico de uma das maiores holdings financeiras do país para resolver uma pensão alimentícia atrasada na Zona Norte.


— Boa tarde, Dr. Ricardo — respondi, tentando manter a voz o mais neutra possível, embora estivesse cravando a caneta contra o papel da mesa. — Eu agradeço a presteza, mas o senhor Montserrat se precipitou. É uma questão particular, eu já tenho um advogado e...


— Com todo respeito, doutora, o doutor Vasconcelos, seu antigo patrono, cometeu três erros de rito processual na última petição, o que atrasou a sua liminar em quatro meses — o advogado da holding cortou, com uma polidez cirúrgica. — Nós já entramos em contato com o escritório dele, assumimos o substabelecimento do caso e a nossa equipe está revisando o histórico de depósitos do polo passivo. Só preciso que a senhora anexe os itens que faltam. O resto nós resolvemos.


Pisquei, completamente sem resposta.


— Tudo bem... — cedi, a voz saindo quase em um sussurro. — Eu mando os documentos.


— Perfeito, doutora. Tenha um bom dia de trabalho.


Desliguei o telefone e o joguei sobre a mesa, encarando a tela apagada enquanto o silêncio do consultório voltava a me cercar.


O meu primeiro pensamento veio carregado do orgulho que sempre me manteve de pé, aquela defesa automática que eu usava como escudo contra o mundo desde que o Lucas tinha me deixado grávida: Eu não preciso dele. Eu nunca precisei de ninguém.


Mas, logo em seguida, enquanto olhava para a tela do computador e percebia que, pela primeira vez em meses, eu não precisaria passar o final de semana implorando por direitos básicos, a verdade crua caiu sobre mim como um balde de água fria.


Então por que... por que eu senti tanto alívio quando o telefone tocou?


Prendi o choro na garganta, cobrindo o rosto com as mãos. O Gustavo Montserrat estava invadindo a minha vida por todas as frestas possíveis, e o pior de tudo não era a audácia dele. Era o fato de que eu estava começando a gostar da sensação de ser protegida.


Fiquei ali, imóvel, até que o som do bipe do ar-condicionado me trouxesse de volta à realidade do consultório.


Afastei as mãos do rosto. Olhei para o reflexo embaçado na tela do monitor e respirei fundo, forçando os meus ombros a relaxarem. Passei os dedos pelos cantos dos olhos, garantindo que não havia nenhum rastro de um colapso emocional. Eu ainda era a chefe daquele setor. Ainda tinha trinta residentes para orientar, duas cirurgias eletivas para agendar e um filho que dependia exclusivamente da minha estabilidade.


Abri a minha gaveta, puxei o celular pessoal e cliquei no ícone de anexos. Um por um, selecionei os extratos bancários com os saldos em vermelho, as mensagens ignoradas pelo Lucas e o boleto do colégio do Téo. Enviei tudo para o e-mail do Dr. Ricardo.


Capitulação total. Mas, pela primeira vez na vida, não tinha gosto de derrota. Tinha gosto de espaço para respirar.


Bloqueei a tela do celular e o guardiuno bolso do jaleco. Antes de me levantar, olhei para a pasta azul que o Gustavo tinha assinado naquela mesma mesa, algumas horas antes. Ele tinha dito que assinaria quantas vezes fosse preciso, desde que o final do expediente fosse sempre nosso.


Eu passei anos acreditando que ser forte significava carregar o mundo nas costas sem pedir ajuda a ninguém. O Gustavo não tinha quebrado apenas as minhas regras contratuais; ele estava quebrando a minha definição de sobrevivência.


Ajeitei o colarinho do jaleco, destranquei a porta do consultório e saí para o corredor movimentado da fundação. O cheiro de antisséptico me acolheu de volta.


Eu ainda não sabia como gerenciar o homem que tinha trancado aquela porta ontem à noite, mas enquanto caminhava em direção à ala de observação, com os passos firmes ecoando pelo linóleo, uma certeza se impôs: Eu podia até tentar manter a distância regulamentar durante o dia. Mas a armadura da Dra. Coimbra nunca mais teria o mesmo peso.


O celular vibrou outra vez no bolso do meu jaleco.


Por um segundo, meu coração deu um salto ridículo, completamente sem autorização.

Gustavo.


Puxei o aparelho rápido demais para alguém que vinha repetindo a si mesma que não estava esperando nada de ninguém.


Mas era a Malu.


Malu: Vou passar aí na fundação mais tarde. Como você está?


Soltei o ar pelo nariz, uma risada soprada e cheia de frustração comigo mesma. Eu estava esperando uma mensagem dele. E admitir aquilo, mesmo no silêncio da minha mente, era um problema gigantesco.


Guardei o celular de volta no bolso e me obriguei a encarar a tela do computador, tentando focar no prontuário à minha frente. Não consegui.

A minha cabeça não estava ocupada em calcular como pagar uma conta atrasada, ou em prever qual seria a próxima humilhação vinda do Lucas.


Uma parte de mim, pequena, teimosa e inconveniente, estava em paz. E o pior era saber que aquela trégua no meu peito tinha o nome de Gustavo Montserrat.


Engoli em seco, sentindo a garganta apertar. Talvez fosse justamente isso o que mais me assustava. Não era o desejo acumulado, nem a lembrança avassaladora do que tinha acontecido sobre aquela mesa. Era a facilidade com que aquele homem estava encontrando espaço em frestas da minha vida que eu tinha jurado manter trancadas a sete chaves.


O aparelho vibrou de novo.


Dessa vez, a luz na tela indicava uma notificação de e-mail corporativo.


Assunto: Documentação recebida. Daremos andamento ao processo de execução ainda hoje.


Fechei os olhos por um instante, deixando a cabeça tombar para trás. Eu não estava acostumada a prazos cumpridos com tanta agilidade. Não estava acostumada a promessas que não vinham acompanhadas de cobranças, mentiras ou desculpas esfarrapadas. Nunca ninguém tinha olhado para um problema meu e simplesmente... resolvido. Sem alarde. Sem exigir nada em troca.


Passei a mão pelo rosto, sentindo o peso do cansaço mental me cobrar o preço.


— Você está ficando mole, Lívia — murmurei para o consultório vazio, precisando ouvir o som da minha própria voz para tentar recuperar o prumo.


Mas, enquanto encarava o timbre da holding no topo daquela mensagem, a verdade nua e crua se impôs. Eu não estava ficando mole.


Eu estava começando a confiar. E para uma mulher que sobreviveu construindo muros, aquilo era infinitamente mais perigoso do que qualquer noite de capricho.


/////


O indicador direito batucava em um ritmo pausado contra o couro da minha poltrona, fazendo eco na vastidão da minha sala na Montserrat Holding. À minha frente, na tela do monitor, os gráficos de desempenho do terceiro trimestre da empresa se estendiam em linhas verdes e planilhas perfeitas.


Eu era um homem que vivia de métricas. De controle. De antecipar riscos e calcular lucros antes mesmo que os contratos fossem redigidos.


Mas a verdade crua, que eu não admitiria nem ao conselho administrativo, era que eu estava encarando a mesma linha de projeção financeira há vinte minutos sem absorver uma única palavra. A minha mente estava presa a alguns quilômetros dali, trancada no consultório 4 da fundação. Mais especificamente, no rastro de fúria, orgulho e alívio que a Lívia Coimbra tinha deixado no corredor quando a deixei mais cedo.


O telefone fixo da minha mesa bipou, cortando o silêncio do escritório. Apertei o viva-voz.


— Senhor Montserrat, o Dr. Ricardo está na linha dois — anunciou a secretária.


— Transfira, por favor.


A linha chiou por um segundo antes que a eficiência corporativa do diretor do jurídico preenchesse a sala.


— Boa tarde, senhor Gustavo. Conforme as suas instruções, entrei em contato com a Dra. Lívia Coimbra às quatorze e trinta.


Instintivamente, meu corpo se inclinou para a frente. O batucar do meu dedo na poltrona parou.


— E qual foi a postura dela, Ricardo?


— Houve uma resistência inicial bastante previsível, senhor — Ricardo relatou com a precisão de quem conhece o comportamento humano. — Ela alegou que se tratava de um assunto particular e que já possuía patrono. No entanto, pontuei as falhas técnicas do advogado anterior e o prejuízo processual que o menor estava sofrendo. Exatamente às quinze horas, a doutora capitulou. Ela nos enviou toda a documentação pessoal, extratos bancários e o histórico de mensagens do polo passivo. Os nossos advogados já revisaram o rito e a petição inicial de execução de alimentos com pedido de liminar de urgência acaba de ser protocolada no sistema do Tribunal de Justiça.


Um sorriso lento, quase imperceptível, cruzou meus lábios. Uma onda de satisfação puramente possessiva se espalhou pelo meu peito.


Ela cedeu.


A mulher que preferia sangrar a pedir ajuda tinha me deixado carregar aquele peso por ela. Noite passada, sobre a mesa da diretoria, ela tinha me entregado o seu corpo com uma fúria selvagem que ainda queimava na minha memória. Mas hoje, ao enviar aqueles documentos, ela tinha me entregado algo muito mais valioso: um pedaço do seu controle.


— Excelente trabalho, Ricardo — comandei, e minha voz soou mais sombria do que eu pretendia. — Quero que aperte o cerco. Monitore os bens desse sujeito. Se houver qualquer tentativa de ocultação de patrimônio, entrem com pedido de quebra de sigilo bancário imediatamente. Não deem espaço para ele respirar.


— Entendido, senhor. Manterei a holding e a doutora informadas de cada movimentação. Boa tarde.


Desliguei o telefone, saboreando o gosto daquela pequena vitória.


Duas horas depois, eu tentava descarregar o restante daquela energia acumulada na academia do clube. O som das esteiras e o impacto dos pesos de ferro contra o chão costumavam ser o meu melhor anestésico, mas nem o treino estava dando conta hoje.


— Se você puxar essa barra com mais força, vai arrancar o cabo da polia — a voz arrastada do Marcos ecoou ao meu lado. Ele largou um par de halteres no suporte e pegou a garrafa de água, me encarando com o cenho franzido. — O que foi? O mercado internacional quebrou ou a veterinária durona finalmente te deu um choque de realidade?


Soltei a barra do aparelho de musculação, controlando a respiração enquanto pegava minha toalha.


— Não viaja, Marcos. Só estou terminando a série.


— Não viaja? Montserrat, você passou o aquecimento inteiro olhando para a tela do celular como um adolescente esperando resposta de um direct. O intocável Gustavo Montserrat está orbitando. Você está parecendo um serial killer levantando peso, sabia?


Soltei o ar com força, jogando a toalha sobre os ombros.


— Obrigado pela análise.


— Não, sério. Você está esquisito. Está pensando nela.


Levantei os olhos, encarando-o de frente.


— E você tira essas conclusões de onde, exatamente?


— De vinte anos de amizade. Você nunca presta atenção no celular durante o treino. Hoje já olhou para essa tela umas cinquenta vezes.


Sustentei o olhar dele com a polidez gélida de sempre. Não funcionou. Nós nos conhecíamos bem demais para que minhas fachadas corporativas fizessem algum efeito.


— Eu estava apenas checando um retorno do Ricardo — respondi, adotando um tom desencanado. — O jurídico da holding assumiu o processo de execução de alimentos do filho da Lívia. O antigo advogado dela era um incompetente que estava atrasando a liminar há meses.


Marcos arqueou uma sobrancelha, soltando uma risada soprada enquanto se apoiava no aparelho de musculação.


— O jurídico da Montserrat Holding? O setor que cuida de fusões internacionais de bilhões de reais vai caçar um amador de fundo de quintal na Zona Norte? É um canhão de artilharia pesada para matar uma mosca. O que é isso, Montserrat? Nova política de responsabilidade social ou você só odiou o sujeito de primeira?


— Eu odeio amadores, Marcos. O cara abandonou o próprio filho e deixou a mãe da criança jogando no vermelho para cobrir os rombos dele, tudo isso enquanto ignora ordens judiciais. O jurídico só está colocando a balança no lugar certo.


— Sei... A balança — Marcos caminhou em direção aos vestiários, fazendo um sinal para eu segui-lo. — Você está ferrado.


— Eu não estou ferrado.


— Está, sim. Porque ninguém mobiliza um exército de advogados corporativos para resolver uma pensão atrasada se não estiver emocionalmente comprometido até o pescoço.


— Eu sei gerenciar a Lívia, Marcos — respondi enquanto entrávamos no vestiário, embora a palavra "gerenciar" soasse como a maior mentira do meu ano. Você não gerenciava uma força da natureza como Lívia Coimbra. Você apenas tentava sobreviver ao impacto.


— Se você diz... Te vejo na saída.


Fiquei sozinho diante do espelho, terminando de abotoar as mangas da minha camisa social. Puxei o celular do bolso e encarei a cópia da petição que o Ricardo havia me enviado mais cedo. O rito processual estava perfeito; o tal do Lucas não teria um segundo de paz.


Eu sabia o que aconteceria a seguir. Lívia passaria o restante da semana se culpando por ter cedido e me enviado aqueles documentos. A mente analítica dela provavelmente já estava criando um milhão de arrependimentos por ter baixado a guarda comigo na minha mesa na noite anterior. Se eu a deixasse isolada no hospital, ela passaria os próximos dias construindo uma nova armadura de gelo.


Eu podia dar espaço. Podia esperar. Podia fingir que a noite passada e a ligação daquela manhã não tinham mudado absolutamente nada.


Mas a simples ideia de deixá-la sozinha com todos aqueles pensamentos me irritou.


Porque eu já conhecia o padrão dela. Lívia pegaria qualquer gesto de cuidado, desmontaria em pequenas peças e encontraria uma forma de concluir que não merecia aquilo, ou que estava em dívida. E eu não estava disposto a deixá-la recuar.


Como presidente da fundação, eu sabia exatamente que o expediente dela na tarde seguinte terminaria às dezessete horas. Eu não esperaria o final de semana.


Às dezessete em ponto de quarta-feira, cruzei o corredor da diretoria clínica.


Lívia estava no balcão de enfermagem, assinando a liberação de um prontuário. Quando ela ergueu os olhos castanhos e me viu avançar de terno, o corpo dela retesou de imediato. Ela largou a caneta, cruzando os braços na defensiva.


— Senhor Montserrat? — a voz dela saiu formal, mas o vinco entre as sobrancelhas entregava o alerta. — Aconteceu alguma coisa?


— O Bóson está mal, Lívia — disparei, mantendo a expressão perfeitamente séria.


O verniz profissional dela desmoronou na hora, dando lugar à urgência pura da veterinária.


— Como assim mal? O que ele tem?


— Não sei explicar. Ele está estranho, apático... Não parece o mesmo cachorro que você liberou. Você precisa vir comigo agora para dar uma olhada nele.


— Gustavo, se ele está tendo uma recaída, por que você não trouxe ele direto para a emergência aqui do hospital? — ela perguntou, o tom de voz subindo enquanto já puxava o estetoscópio do bolso do jaleco.


— Porque ele mal queria se mover, achei melhor não forçar o transporte sem você avaliar primeiro. Meu carro está lá na frente. Vamos lá buscar.


Lívia bufou, arrancando o jaleco com pressa e pegando a bolsa. Ela foi o caminho inteiro até a minha cobertura me bombardeando com perguntas técnicas sobre mucosas, vômitos e febre. Eu respondia com monossílabos vagos, apenas mantendo os olhos no trânsito e segurando o riso que ameaçava me trair.


Quando abri a porta social do meu apartamento, Lívia entrou quase correndo, já se abaixando para procurar o bicho.


— Bóson! — chamou, tensa.


Um segundo depois, o vira-lata branco brotou do corredor, derrapando no piso como um míssil desengonçado. Ele não tinha absolutamente nada de apático. O rabo açoitava o móvel da televisão com tanta força que fazia barulho, e o bicho praticamente escalou as pernas da Lívia, soltando ganidos agudos de pura felicidade enquanto tentava lamber o rosto dela.


Lívia travou no meio da sala. Ela olhou para o cachorro magrelo, elétrico e perfeitamente saudável, depois ergueu a cabeça devagar. Os olhos dela se estreitaram perigosamente na minha direção.


— Ele está ótimo, Montserrat — ela sibilou, limpando os pelos invisíveis da calça jeans. — O rabo dele está quase caindo de tanto balançar. Você mentiu para me fazer vir até aqui?


Aproximei-me dela sem pressa, tirando o paletó e jogando-o no encosto do sofá.


— Ele rejeitou a ração de manhã, ficou olhando para o pote com uma cara deprimente. Então eu pensei que ele precisava de um incentivo para comer. Trouxe a veterinária dele para jantar. Sabe como é... o ambiente influencia no apetite do animal.


Lívia soltou uma risada soprada, uma mistura exata de incredulidade e uma ponta de diversão que ela tentou disfarçar.


— Você inventou uma emergência veterinária para me trazer para jantar na sua casa? Você tem noção do quanto isso é ridículo?


— Eu sei que você é mãe e tem uma rotina exaustiva, Lívia — respondi, dando mais um passo à frente, encurtando a distância até sentir o cheiro suave que vinha da pele dela. — Sabia que se eu te convidasse para sair à noite, você daria uma desculpa por causa do horário do Téo. Então juntei o útil ao agradável: te peguei logo na saída do expediente para podermos jantar com calma e você ainda voltar para casa cedo. Eu simplesmente eliminei a opção do seu 'não'.


Lívia balançou a cabeça, rindo alto da minha audácia, o que acabou desarmando completamente a postura defensiva que ela insistia em carregar.


— Você é inacreditável, Gustavo. Podia simplesmente ter me convidado para o final de semana, sabia? Não precisava quase me matar do coração com o cachorro.


Arqueei uma sobrancelha, aproveitando o espaço que ela mesma tinha acabado de abrir na minha frente. Dei o passo final e toquei a linha do seu maxilar com o polegar, sentindo a respiração dela falhar imediatamente com o contato.


— É mesmo? E se eu te convidar para este sábado? Qual vai ser a desculpa?


Lívia engoliu em seco, olhando para a minha mão no seu rosto. O olhar castanho dela amoleceu, perdendo a pose de médica e assumindo a de mulher.


— O Téo dorme às vinte e uma horas em ponto — ela murmurou, com um sorriso de canto que fez meu peito esquentar. — E só acorda no outro dia.


— Ótimo. Sábado, às vinte e uma e trinta, eu passo na sua porta — determinei, inclinando a cabeça para colar meus lábios nos dela em um beijo urgente, que a fez segurar firme na gola da minha camisa para não perder o equilíbrio.


O Bóson soltou um latido alegre ao nosso lado, girando em círculos, mas nenhum de nós dois prestou atenção. A fresta na fortaleza dela estava oficialmente aberta, e eu já estava planejando o final de semana.



Notas finais
O Brasil foi eliminado da copa 😭😭😭 Estou viciada em futebol, galera. O capítulo demorou pq eu acordo e vou dormir vendo jogo e quando não estou vendo jogo, estou falando de jogo kkkkk Enfim, agora que o Brasil rodou, os capítulos seguintes não vão demorar