Fora de Protocolo - concluída

29 A primeira cláusula que dói


Eu tinha ido até o terceiro andar da holding, o que já era raro, porque as minhas reuniões costumavam ser resolvidas por telefone ou por e-mail, mas o financeiro precisava de uma assinatura física minha num aditivo antes do fim do expediente, e a secretária do Gustavo tinha mandado subir.


Foi por isso que eu estava no corredor de vidro da presidência, com a pasta debaixo do braço, quando ouvi a voz dele vindo de dentro da sala, a porta entreaberta o suficiente para as frases escaparem sem querer.


— Sexta, oito horas, no Fasano — a Bia dizia, com aquele tom animado e cheio de intimidade que ela sempre teve com ele. — Não falta dessa vez, Montserrat. Da última vez você me deu perdido em cima da hora.


— Eu vou, Bia. Já falei que vou.


— É que você sempre diz isso — ela riu, um riso baixo, cúmplice, do tipo que só existe entre pessoas que já dividiram cama e sabem exatamente como provocar uma a outra. — Mas tudo bem. Confio em você dessa vez.


Fiquei parada no corredor, com a mão a meio caminho da porta, sentindo alguma coisa gelar dentro do peito antes mesmo de o meu cérebro processar direito o que tinha acabado de ouvir.


Sexta. Oito horas. Fasano.


Não ouvi mais nada depois disso, porque a secretária apareceu atrás de mim, perguntando se eu já tinha o aditivo em mãos, e eu me afastei da porta rápido demais, com o coração batendo num ritmo que não tinha nada a ver com a assinatura que eu tinha ido buscar.


O resto da manhã foi um borrão.


Eu sabia, evidentemente, que a Bia e o Gustavo tinham um passado. Ela mesma tinha me contado, na primeira reunião do conselho, com aquela franqueza desarmante que era típica dela: de vez em quando a gente se relaciona, sim. Ele é só mais um homem no meu harém, se você quer saber.


Na época, eu tinha achado aquilo maduro, quase inspirador. Duas pessoas adultas, sem drama, sem cobrança, se relacionando quando dava vontade.


Era exatamente o modelo que eu tinha copiado para mim e para o Gustavo.


E era exatamente por isso que a cena no corredor doía tanto.


Porque eu nunca tinha considerado, nem por um segundo, que o "sem exclusividade" que eu mesma tinha redigido pudesse significar isso. Eu sabia da regra na teoria. Nunca tinha imaginado precisar senti-la na prática.


Voltei para a minha sala com o aditivo assinado e a cabeça girando, fazendo as contas que eu não tinha vontade nenhuma de fazer. Sexta. Oito horas. Fasano. Um lugar caro, elegante, o tipo de restaurante que se reserva para uma ocasião, não para um jantar qualquer entre amigos. E a Bia, com aquele tom de quem cobra alguém que já falhou antes.


Eu precisava confirmar. Não porque eu tivesse o direito de perguntar. Mas porque a incerteza estava me consumindo mais do que qualquer resposta poderia consumir.


Encontrei uma desculpa qualquer no fim da tarde, um relatório que eu podia perfeitamente ter mandado por e-mail, e voltei ao terceiro andar. O Gustavo estava sozinho, de mangas dobradas, revisando alguma coisa na tela.


— Você tem planos para sexta? — perguntei, tentando soar casual, apoiando o relatório na mesa dele. — Pensei em fazer aquele risoto que você gostou, se você estiver livre.


Ele ergueu os olhos, e por um segundo, achei que tinha visto ali uma hesitação, algo que não costumava existir entre nós.


— Sexta eu não vou poder, Lívia. Eu tenho um com...


— Tudo bem — cortei, antes que ele terminasse a frase, a voz saindo mais rápida e mais fria do que eu pretendia.


Ele parou, com a boca ainda entreaberta, evidentemente surpreso com a interrupção.


— Eu ia só explicar que...


— Não precisa — falei de novo, forçando um sorriso que eu sabia que não enganava ninguém, muito menos ele. — Você não me deve satisfação nenhuma sobre a sua agenda, Gustavo. Foi exatamente isso que eu pedi, lembra? Sem cobranças, sem "onde isso vai dar". Fica tranquilo.


— Lívia...


— Preciso voltar lá embaixo — interrompi de novo, já pegando o relatório de volta, embora não houvesse motivo nenhum para levá-lo comigo. — Depois a gente se fala.


Saí da sala antes que ele conseguisse dizer mais alguma coisa, sentindo os olhos dele nas minhas costas o corredor inteiro, uma mistura de confusão e alguma coisa que eu não tive coragem de olhar para trás e identificar.


\* \* \*


O resto do dia foi horrível.


Não perguntei mais nada. Não pedi explicação. Não tinha esse direito, e a última coisa que eu queria era confirmar, em voz alta, que a Bia ia jantar com ele às oito da noite de sexta-feira num restaurante caro, provavelmente vestindo alguma coisa impecável, do jeito que ela sempre vestia tudo, enquanto eu ficava em casa dando banho no Téo e fingindo que aquilo não me afetava em nada.


Eu tinha construído aquele acordo como uma armadura. Cada cláusula, cada item numerado, tinha sido pensado para me proteger de exatamente aquele tipo de dor. E ali estava eu, protegida por regras que eu mesma tinha escrito, sentindo pela primeira vez que a armadura não estava me defendendo de nada. Estava só me impedindo de reagir.


À noite, já em casa, o celular vibrou em cima da mesa da cozinha enquanto eu lavava a louça do jantar do Téo.


**Gustavo:** Terminei tudo aqui. Você está bem? Ficou estranha hoje à tarde.


Olhei para a mensagem por um bom tempo, com as mãos ainda molhadas, tentando decidir o que responder. Qualquer coisa que eu escrevesse ia soar carente, ou ia soar mentirosa, e eu não tinha energia para nenhuma das duas.


Lívia: Só cansada. Boa noite.


A resposta dele demorou um pouco mais do que o normal.


Gustavo: Boa noite, Lívia.


Nada de piada, nada de provocação, nada do "isso é um cachorro ou uma antena parabólica" que costumava aparecer sem aviso. Ele tinha percebido que alguma coisa estava errada. Eu via isso na formalidade seca da resposta. Só não sabia o quê, e eu não estava disposta a contar.


\* \* \*


No sábado de manhã, o Téo brincava no tapete da sala com os blocos de montar enquanto eu tomava café com a Malu, que tinha aparecido sem avisar, o que já era, por si só, um mau sinal.


— Você está estranha desde ontem — ela disse, direto, apoiando os cotovelos na mesa. — E não me venha com "só cansada", porque eu conheço essa sua cara.


Não tive tempo de responder, porque foi nesse instante que o celular da Malu vibrou em cima da mesa, e ela, por puro hábito, virou a tela para checar a notificação. Um segundo depois, ela ergueu os olhos para mim, com uma expressão estranha.


— A Isabel postou uma foto — disse, devagar, virando o celular na minha direção.


Peguei o aparelho com as mãos meio trêmulas.


Era uma foto de mesa de jantar, tirada de cima, com um bolo de aniversário no centro, velas ainda acesas, e uma legenda que dizia: "Feliz aniversário para a irmã mais chata e mais amada do mundo. 🎂 Fasano nunca mais vai ser o mesmo. #FamíliaMontserrat". Na foto, dava para ver pedaços de rostos ao redor da mesa: a Isabel com a língua para fora, a Clara séria como sempre, os pais do Gustavo, o próprio Gustavo com uma taça de vinho na mão, e, ao lado dele, a Bia, rindo de alguma coisa que a Bel tinha acabado de dizer.


Sexta à noite. Oito horas. O Fasano. O aniversário da irmã dele.


Encarei a tela por um bom tempo, sentindo o alívio subir pelo peito como uma onda de água morna.


— Era aniversário da irmã dele — falei, mais para mim mesma do que para a Malu. — A Bia estava lá porque é amiga da família há anos. Não era... não era o que eu pensei.


— E o que você pensou? — a Malu me olhou, confusa.


Não respondi de imediato. Porque o alívio, que tinha chegado primeiro, rápido, quase físico, já estava dando lugar a outra coisa. Uma vergonha que subia devagar pela garganta, lembrando da cena no escritório dele, do jeito seco como eu tinha cortado a explicação, da noite inteira que eu tinha passado presa numa história que eu mesma inventei sem dar a ele a chance de contar a verdade.


Eu tinha imaginado o pior antes mesmo de ouvir o resto da frase.


E o pior de tudo veio logo depois, mais devagar, mais frio, e muito mais difícil de engolir.


Porque, mesmo que aquela noite não tivesse nada a ver com a Bia daquele jeito, poderia ter tido. A Bia continuava sendo parte da vida dele, uma parte antiga, confortável, sem cobranças, exatamente como o que eu tinha desenhado para nós dois. Se um dia, numa dessas noites, o Gustavo decidisse que queria voltar para aquilo que ele e a Bia sempre tiveram, eu não teria absolutamente nenhum direito de dizer uma única palavra.


Porque eu mesma tinha redigido o contrato que garantia exatamente isso.


— Lívia? — a Malu chamou, baixinho, a mão na minha. — O que foi?


— Eu acho — comecei, a voz saindo mais fina do que eu pretendia — que eu criei um problema muito maior do que eu imaginava.


O Téo largou os blocos de montar e veio andando na minha direção, esbarrando na perna da mesa no meio do caminho, e eu o peguei no colo por puro instinto, precisando de alguma coisa concreta para segurar enquanto a minha cabeça girava.


— Explica isso direito — a Malu pediu, com uma paciência que ela raramente usava comigo.


— Eu ouvi um pedaço de uma conversa dele com a Bia, sexta de manhã. Sexta, oito horas, Fasano. Só isso. Não ouvi o resto, não ouvi a parte do aniversário. E o meu cérebro simplesmente concluiu o pior, porque não é segredo nenhum que os dois já tiveram alguma coisa. Aí eu fui até a sala dele, convidei ele para jantar comigo na sexta, só para confirmar, e quando ele começou a explicar que tinha compromisso, eu cortei ele antes que terminasse. Disse que ele não me devia satisfação. Passei o resto do dia sem falar direito com ele, e a noite inteira imaginando os dois juntos.


— E ele não fez nada de errado.


— Nada — admiti, apertando o Téo contra o peito. — Nem ele, nem a Bia. Os dois só foram para um jantar de família. O problema inteiro fui eu, sentindo uma coisa que eu não tenho direito de sentir, porque eu mesma escrevi as regras que dizem que eu não posso sentir isso.


A Malu ficou em silêncio por um instante, olhando para mim com aquela expressão de quem está juntando peças de um quebra-cabeça que já conhecia a imagem final havia semanas.


— Sabe o que isso significa, não sabe? — perguntou, por fim, com uma delicadeza que não era típica dela.


— Que eu sou uma péssima negociadora?


— Significa que o acordo que você inventou já não serve mais para nada — ela disse, simplesmente. — Porque o acordo era para te proteger, Lívia. E ele não te protegeu de nada. Só te machucou. E você nem deixou o homem se explicar. Isso não é ciúme normal, Lívia. Isso é medo.


Olhei para o Téo, que já tinha perdido o interesse na conversa e puxava a manga da minha blusa pedindo suco, e depois para a Malu, sentindo o peso daquela frase se acomodar em algum lugar dentro de mim que eu vinha evitando havia semanas.


Porque ela tinha razão.


E eu não sabia, ainda, o que fazer com isso.


Notas finais
Queria dizer que os primeiros capítulos da fic do Marcos e Malu estão prontos hehe, nossos M&M estão vindo aí