Fora de Protocolo - concluída
14 14. A Teoria do Caos
O Bóson de Higgs, na física quântica, é a partícula que teoricamente confere massa a todas as outras coisas no universo, transformando o caos de energia em matéria sólida.
O Bóson que estava atualmente na minha sala de estar, no entanto, pesava exatamente dezenove quilos, tinha o pelo desalinhado que parecia um caroço de manga chupado, uma cor de branco que mesmo limpo parecia encardido e estava, naquele exato momento, tentando roer o pé de uma mesa lateral de jacarandá do século XIX que pertenceu ao meu bisavô.
— Ele tá marcando território, Montserrat. É a dominância do vira-lata sobre o mercado de antiguidades — o Marcos comentou, rindo baixo enquanto girava o gelo no copo de uísque. Ele estava largado no meu sofá de couro italiano, com as pernas esticadas, assistindo ao meu desastre doméstico como se fosse o melhor programa da TV. — Quatro mil reais em cirurgia para o bicho usar a sua cobertura como playground de destruição. Poético.
— Ele não tá roendo, Marcos. Só tá testando a densidade da madeira — respondi, tentando manter a voz controlada.
Abaixei-me com um suspiro, cuidando para não amarrotar a calça de alfaiataria, e enfiei as mãos embaixo do cachorro, tirando-o de perto do móvel. O Bóson nem se abalou. Ele inclinou a cabeça, me encarou com aqueles olhos castanhos de quem já mandava no apartamento e me deu uma lambida molhada no queixo.
— Que beleza. Agora você tem saliva de rua na cara — o Marcos gargalhou, batendo a mão no joelho. — Quem te viu e quem te vê. O cara que brigava com a tripulação do jatinho por causa de uma dobra no lençol agora virou refém de um bicho que anda torto. Você realmente está se esforçando para conquistar a doutora.
Olhei feio para ele.
— Não estou tentando conquistar ninguém. Eu compliquei a vida do bicho, acho justo tentar alinhar.
Isso não pareceu convencer nem mesmo o cachorro. Do outro lado da sala, encostado no aparador, o Arthur observava a cena com um meio sorriso contido. Ele deu um gole no uísque, acompanhando o trajeto trôpego, mas bem determinado, que o cachorro fez em direção ao tapete persa assim que o coloquei de volta no chão.
— Eu conversei com a Helena ontem à noite — o Arthur falou, a voz mansa, mas cirúrgica. — Ela me disse que a Lívia passou as últimas duas semanas limpando a agenda da clínica e bufando pelos cantos porque você aceitou todas as regras absurdas que ela impôs no contrato.
— Eu sou um homem pragmático, Arthur. O projeto da fundação precisa do rigor técnico dela, e as cláusulas eram viáveis — argumentei, caminhando até o balcão para pegar um copo de água. — Eu atropelei o bicho. Adotá-lo era o movimento mais lógico para resolver a situação.
— Lógico? — o Marcos se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos e apontando o copo na minha direção. — Arthur, você precisa entender o nível do buraco onde o nosso amigo Montserrat se meteu. Você não estava aqui no dia em que ela deu um fora nele, logo após aquela única noite deles.
Girei o corpo devagar, fuzilando o Marcos com o olhar, mas o infeliz nem piscou.
— Marcos, já chega — avisei, a rigidez no meu maxilar quase dolorosa.
— Chega nada, o Arthur merece saber! — Marcos ignorou completamente o meu aviso, virando-se para o nosso sócio com uma alegria genuína no rosto. — Cara, a mulher acabou com ele exatamente aqui nessa sala. Eu estava na cozinha tomando o meu shake pós-treino e ouvi tudo. Ela simplesmente arrancou a alma dele pelo pescoço e jogou no lixo. Olhou bem na cara do grande Gustavo Montserrat e disse, com todas as letras, que o pós dele era "incrivelmente cansativo".
Arthur soltou uma risada curta, claramente surpreso, e arqueou a sobrancelha na minha direção.
— Ela disse isso? — Arthur perguntou, o divertimento brilhando nos olhos.
— Palavra por palavra! — Marcos continuou, rindo alto. — Chamou ele de "passatempo cansativo de uma noite". Ele ofereceu carona de Porsche e ela mandou ele guardar a carona como se ele fosse um motorista de aplicativo entediante. Deixou o orgulho do homem virado em poeira cósmica bem na minha frente. E agora olha ali: o cara aceita aditivo contratual limitando até o oxigênio que respira perto dela e adota o cachorro vira-lata branco para morar na cobertura.
— Gustavo, para de tentar enfiar lógica corporativa onde não tem — o Arthur balançou a cabeça, achando graça da minha desgraça. — Eu conheço a Lívia através da Helena. Aquela mulher é um trator. Ela é focada, não tem paciência para joguinho e detesta playboy. Você sempre gostou de um problema complexo para solucionar, mas dessa vez você arrumou um dos grandes. O fantasma da "passagem de jejum" voltou com tudo.
O Bóson soltou um espirro longo e se deitou com um baque pesado bem em cima do tapete de seda que eu tinha trazido de Istambul, como se concordasse com os dois.
— Eu não tô usando o cachorro para nada — retruquei, sentindo o meu rosto esquentar de leve enquanto tentava recuperar a pose de CEO intocável. Peguei o celular em cima da mesa para fingir que checava os e-mails da holding. — Nós temos um acordo estritamente profissional. O expediente dela começa depois de amanhã. Na fundação. E eu pretendo seguir cada uma das cláusulas dela.
— Sei, estritamente profissional — o Marcos levantou do sofá, deixando o copo vazio no aparador e caminhando até a porta para ir embora junto com o Arthur. Antes de sair, ele parou perto do Bóson e deu um tapinha na cabeça do bicho. — Boa sorte, Higgs. Você é a única coisa que separa o seu novo dono de uma ordem de restrição. Cuida bem dele, porque o cérebro desse aí tá operando com metade da capacidade desde que aquela veterinária olhou feio para ele.
O Arthur parou no batente da porta, olhando para mim por cima do ombro com aquele olhar de engenheiro que sabe exatamente onde a estrutura está rachada.
— Ela vai estar lá na quinta-feira, às nove da manhã, certo? — ele perguntou.
— Sim.
— Tenta não chegar usando aquele perfume importado que você só usa em ocasiões especiais, Gustavo. Vai ficar óbvio demais — ele aconselhou, piscando antes de fechar a porta.
Fiquei sozinho na imensidão da sala. Olhei para o chão. O Bóson tinha mudado de posição e agora estava com o queixo apoiado exatamente em cima do meu sapato social de couro de vitelo, soltando um ronco baixo, completamente dono do espaço.
Suspirei, deixando o corpo afundar na poltrona.
Peguei a cópia do contrato da Lívia que estava em cima da mesa e encarei a assinatura dela, firme e decidida. Ela achava que aquelas cláusulas rígidas e o ranço histórico daquela primeira manhã iam me manter do lado de fora. Mas ela não fazia a menor ideia de que, ao deixar o Bóson comigo, ela já tinha me dado a chave do território.
A quinta-feira de manhã chegou com o céu limpo do Rio de Janeiro. Às oito e quarenta, eu já estava na sede da fundação, cruzando o corredor de vidro temperado e divisórias industriais.
O ambiente cheirava a café fresco e mobília nova.
Eu não estava usando o perfume importado, como o Arthur sugeriu de forma petulante, mas passei um tempo considerável escolhendo a gravata cinza-chumbo antes de sair de casa. Pura exigência de imagem.
Quando o relógio marcou exatamente nove horas, a silhueta da Lívia Coimbra cortou a porta de vidro da recepção.
Ela estava deslumbrante na sua armadura de trabalho. Calça de alfaiataria escura, uma camisa de linho leve e um salto alto que anunciava cada passo seu no piso vinílico. O cabelo estava preso em um coque firme, alguns fios escapando perto do pescoço, e ela trazia uma pasta de couro legítimo embaixo do braço. Os olhos castanhos estavam atentos, varrendo o espaço com aquela postura defensiva de quem está pronta para o combate.
— Bom dia, Dra. Coimbra — cumprimentei, parando a uma distância regulamentar de dois metros, mantendo as mãos nos bolsos da calça. — Seja bem-vinda à Fundação Montserrat.
Ela parou, me encarando por dois segundos antes de relaxar minimamente a linha dos ombros.
— Bom dia, Montserrat. Obrigada — respondeu, o tom de voz limpo, profissional e desprovido de qualquer resquício da intimidade que dividimos no passado. — O espaço ficou excelente. Onde começamos?
— Na sala do conselho. Toda a equipe técnica e de comunicação já está posicionada para a apresentação do plano diretor. Venha comigo.
Caminhei um passo à frente, indicando o caminho, sentindo o olhar dela queimar as minhas costas.
Quando entramos na sala de reuniões principal, a mesa de jacarandá estava cercada pelas quatro pessoas-chave do projeto. Mas foi a figura sentada na ponta oposta que fez a Lívia tensionar os músculos do pescoço instantaneamente.
Beatriz.
A Bia estava impecável, como sempre. Usava um conjunto de alfaiataria em tom pastel, os cabelos castanhos perfeitamente modelados e uma fileira de anéis minimalistas nos dedos que batiam de leve na tela do iPad. Ela era a diretora de comunicação da holding e a mente por trás do posicionamento de marca da fundação.
Percebi o exato momento em que a Lívia acionou o seu radar defensivo. Ela não conhecia a Bia, mas conhecia o tipo. Mulheres como a Lívia, que construíram a vida no soco e na base do esforço próprio, entram em salas de reuniões da elite carioca esperando o pior: a dondoca herdeira, condescendente ou territorialista, pronta para olhar o seu sapato em liquidação de cima a baixo. Eu quase podia ler a armadura se fechando ao redor dela.
— Pessoal, esta é a Dra. Lívia Coimbra, nossa nova diretora técnica — anunciei, ocupando a cabeceira. — E esta é a Beatriz Vasconcellos, responsável pelo nosso comitê de comunicação e relações públicas.
Bia levantou-se devagar, abrindo um sorriso que, para a surpresa visível da Lívia, não tinha nada de falsidade ou superioridade aristocrática. Era o sorriso de uma mulher que sabia exatamente quem era e o que valia no mercado.
— Finalmente, Lívia! — Bia estendeu a mão, cruzando a sala com passos firmes. — O Gustavo não parava de falar sobre o seu rigor técnico nas reuniões do conselho. Estávamos desesperados por alguém com pulso firme para alinhar as clínicas parceiras. Seja muito bem-vinda.
Lívia apertou a mão dela, os olhos castanhos analisando a postura da outra com uma seriedade analítica.
— Obrigada, Beatriz. Espero que a visão de mercado da holding não tenha engessado o planejamento de campo de vocês — Lívia soltou, com uma firmeza polida que deixou claro que ela não estava ali para ser figurante.
Bia soltou uma risada limpa, genuína, e olhou para mim com uma informalidade de quem quebrava todo o meu verniz em um segundo.
— Ah, você não tem ideia, Lívia. O Gustavo tenta resolver logística de resgate com planilha de custo marginal. É um caso perdido — Bia brincou, voltando para a sua cadeira e empurrando um relatório impresso na direção dela. — Mas senta aqui. Eu organizei o cronograma de lançamento da campanha de adoção e preciso que você destrua tudo o que estiver tecnicamente errado na comunicação. Não tenha pena do nosso marketing.
Lívia piscou, ligeiramente desarmada. Ela entrou armada para enfrentar um vírus de dondoca corporativa, mas encontrou uma profissional pragmática que a tratava de igual para igual.
Ainda assim, notei o leve desconforto que permaneceu no olhar da Lívia durante a reunião. Não era uma rivalidade barata, mas sim o choque de ver a facilidade com que a Bia decifrava as minhas reações.
A Bia sabia exatamente quando eu ia fazer uma objeção pelos números, quando eu estava apenas calculando os riscos em silêncio ou como me interromper sem que eu achasse ruim. Era o ciúme da intimidade, a Lívia percebendo que, embora tivesse dividido a cama comigo em uma noite intensa, a Bia compartilhava de um código social e de anos de convivência comigo dos quais a Lívia, por escolha própria e proteção, se mantinha estritamente afastada atrás das cláusulas do seu contrato.
No meio da discussão sobre o orçamento das rações, o meu celular em cima da mesa começou a vibrar no modo silencioso.
Olhei a tela rapidamente. Era uma foto que o Marcos tinha acabado de mandar no WhatsApp.
Involuntariamente, soltei um suspiro pesado, massageando a ponte do nariz.
Lívia, que estava anotando algo em seu tablet, ergueu os olhos e percebeu a minha mudança de expressão. Com um meio sorriso guardado no canto dos lábios, ela largou a caneta digital e se inclinou um pouco para a frente.
— Algum problema, Montserrat? — ela perguntou, o tom formal disfarçando uma curiosidade genuína. — Como foi o primeiro momento de vocês juntos na cobertura? O paciente sobreviveu à primeira noite fora da clínica?
Virei a tela do celular na direção dela, resignado.
O Marcos tinha tirado uma foto do Bóson de Higgs deitado triunfante em cima do meu tapete de Istambul, com os dentes cravados na barra da minha cortina de linho egípcio legítimo. Na legenda, o infeliz escreveu: "O vira-lata não gostou da sua decoração. Quão apegado você era a essa cortina?"
Lívia olhou para a imagem e a boca dela tremeu sutilmente. Ela teve que tossir de leve para segurar a risada que quase escapou diante do meu desespero estético.
— Um colapso, Dra. Coimbra — respondi, tentando manter a voz plana, embora a rigidez no meu maxilar fosse puramente defensiva. — Parece que o paciente desenvolveu uma crítica severa ao meu design de interiores. O pós-operatório dele está gerando danos materiais sérios.
Do outro lado da mesa, a Bia parou de digitar no iPad. Ela franziu o cenho, alternando o olhar chocado entre mim e a Lívia, processando a informação em câmera lenta. Como as nossas famílias eram extremamente amigas de longa data, ela me conhecia bem demais para deixar aquilo passar.
— Espera aí... — Bia interrompeu, os olhos castanhos arregalados de pura incredulidade. — Gustavo, você adotou um cachorro? Você? O cara que mandou dedetizar o jatinho porque uma mosca pousou na poltrona?
— É uma situação temporária de reabilitação, Beatriz. Foco na pauta — tentei cortar, sentindo o clima na sala começar a mudar de rota.
Mas a Bia estava genuinamente chocada e a mente dela começou a conectar os pontos sozinha, sem maldade nenhuma, apenas tentando entender o milagre.
— Não brinca... — Bia soltou uma risada abafada. — Calma. Esse cachorro por acaso é... é o vira-lata que você atropelou? Aquele que fez você cancelar o nosso jantar?
A sala do conselho de repente pareceu perder todo o oxigênio.
A torta de climão foi servida em um prato de alta gastronomia. Lívia, que até um segundo atrás estava sorrindo do linho destruído, tensionou os ombros instantaneamente.
O estrago estava feito.
Os olhos castanhos dela se fixaram no tablet, a expressão endurecendo no mesmo segundo em que processou a frase da Bia. Aquele que fez você cancelar o nosso jantar.
Apertei levemente os dedos ao redor do meu celular, amaldiçoando mentalmente o timing daquela conversa.
Eu conhecia o terreno, era especialista em ler pessoas sob pressão e o modo como os ombros da Lívia travaram na cadeira me deu o diagnóstico exato do desastre. Aquela menção era a última coisa que eu queria ali dentro. Eu sabia exatamente o que estava passando pela cabeça analítica da Lívia naquele momento, e a última coisa de que eu precisava era que o fantasma de jantares passados e históricos mal resolvidos ficasse flutuando entre nós três na mesma sala de trabalho.
Era hora de usar o bom e velho controle de danos, mas do meu jeito: cortando o assunto de forma inteligente para que a Lívia ouvisse exatamente o que importava.
— O nome dele é Bóson de Higgs, Bia — respondi, deixando um tom suave, charmoso e quase descontraído mascarar o meu total incômodo com a direção daquela conversa. — E se você entende um mínimo de física, sabe que a função dessa partícula é justamente colidir com trajetórias previsíveis para transformar o caos em algo sólido. Digamos que o cachorro cruzou a rodovia no momento exato para recalibrar as minhas prioridades daquela noite.
Bia piscou. Ela me conhecia há anos e estava acostumada com a minha lábia, mas o magnetismo sutil que usei para proferir aquela resposta definitivamente não era direcionado a ela.
O olhar da Bia alternou lentamente entre o meu perfil e a imobilidade absoluta da Lívia ao meu lado. O silêncio que se instalou na sala foi tão abrupto e carregado de eletricidade que a Bia, que não tinha um pingo de maldade na pergunta, sentiu o clique na mesma hora. Ela não sabia o que estava acontecendo, mas a atmosfera que de repente despencou para trinta graus abaixo de zero entregou que ela tinha acabado de puxar o pino de uma granada.
Ficou óbvio que o cancelamento daquele jantar e a forma como o meu foco mudou tinham um peso muito maior do que um simples contratempo corporativo.
— Ah... entendi — Bia pigarreou, o sorriso minguando enquanto ajeitava o iPad na mesa com uma pressa repentina, visivelmente constrangida pelo terreno minado onde tinha pisado sem querer. — Bom... o cronograma de marketing está fechado. Eu preciso correr para uma ligação com a assessoria de imprensa. Com licença, Dra. Coimbra. Gustavo.
E de forma muito sutil, ela praticamente evaporou da sala de reuniões, deixando a porta de vidro balançar atrás de si.
Fiquei sozinho com a Lívia na imensidão da sala do conselho.
Ela não me encarou, nem me deu a chance de abrir a boca, mantendo a pose de quem não queria absolutamente nada comigo fora do protocolo da fundação. Simplesmente começou a juntar os seus relatórios e a guardar a caneta digital na pasta de couro com movimentos precisos, frios e excessivamente focados.
A indiferença dela era a sua melhor armadura, mas a linha tensa do seu maxilar entregava que aquela informação e todas as conclusões que ela tinha acabado de tirar sobre mim e a Bia trabalhando ali, tinha batido onde doía.
— A pauta técnica está encerrada por hoje, Montserrat — ela disse, a voz saindo perfeitamente polida, profissional e gélida, sem me dar um único olhar enquanto fechava o zíper da pasta. — Vou revisar os relatórios do marketing na minha sala. Tenha um bom dia.
Ela se levantou e caminhou em direção à saída, os saltos estalando com força no piso vinílico do corredor, deixando para trás apenas o rastro do seu perfume de baunilha.
Fiquei sozinho na sala vazia.
Olhei para o celular, onde a foto do Bóson destruindo a cortina ainda estava acesa.
O Marcos achava que o cachorro seria o causador do meu maior prejuízo, mas a verdade era que o passado e as aparências tinham acabado de implodir a distância segura que a Lívia estava tentando cavar entre nós dois. Ela podia fingir que o nosso contrato era uma barreira intransponível e se blindar atrás daquele gelo todo, mas o silêncio dela tinha dito tudo. O expediente dela na fundação estava apenas começando, e eu sabia que reconquistar a confiança daquela mulher sob o mesmo teto seria o jogo mais difícil que eu já joguei.
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