O problema de passar duas semanas afiando as garras e revisando cada aditivo contratual para se proteger de um homem é que, quando você finalmente entra no território dele, o universo decide mudar as regras do jogo sem te avisar.

Eu estava pronta para o pior na sala do conselho da Fundação Montserrat. Tinha erguido uma muralha invisível ao meu redor, antecipando o cinismo corporativo do Gustavo ou o olhar condescendente de alguma dondoca da elite carioca que ocupasse uma cadeira ali por puro sobrenome.

Quando vi a tal Beatriz Vasconcellos sentada na ponta da mesa de jacarandá, impecável num conjunto de alfaiataria tom pastel e anéis minimalistas, meu radar de autodefesa apitou tão alto que quase deu microfonia. Lá vem o vírus da dondoca corporativa, pensei, endireitando a postura e apertando a minha pasta de couro embaixo do braço.

Só que a Bia simplesmente quebrou a minha armadura no primeiro movimento. Em vez de me olhar de cima a baixo, ela sorriu, cruzou a sala com passos firmes e disse que estava desesperada por alguém com pulso firme para alinhar as clínicas. E quando ela ridicularizou o verniz de Gustavo na minha frente, brincando que ele tentava resolver logística de resgate com planilha de custo marginal, precisei morder o interior da bochecha para manter a pose.

A dondoca arrogante não existia. Ali estava uma profissional assustadoramente pragmática que, em vez de marcar território, me empurrou o cronograma de marketing e pediu para eu destruir tudo o que estivesse tecnicamente errado.

Fui desarmada antes mesmo de a reunião começar.

Quando os outros três coordenadores de área se acomodaram e a apresentação do plano diretor de fato começou, eu engoli o meu choque e fiz o que sei fazer de melhor: trabalhei. Se o Gustavo achou que o valor do meu novo salário ia me deixar acuada ou grata demais a ponto de aceitar qualquer métrica dele, ele quebrou a cara.

— O cronograma de vistorias dos abrigos parceiros está frouxo — pontuei, interrompendo o slide que mostrava um belo gráfico de Gantt projetado na parede. Apoiei os cotovelos na mesa, cruzando os dedos. — Vocês agendaram as auditorias técnicas com trinta dias de antecedência. Isso não é fiscalização, é visita social. Dá tempo de qualquer clínica maquiar superlotação e esconder falta de insumo básico. As vistorias precisam ser surpresa, com um teto de quarenta e oito horas de aviso para os casos de reavaliação.

Gustavo, posicionado na cabeceira da mesa, inclinou-se ligeiramente para a frente. O terno cinza-chumbo estava impecável, e ele girava uma caneta de metal entre os dedos compridos, me encarando com aqueles olhos verdes estritamente focados.

— Uma janela de quarenta e oito horas pode travar o fluxo operacional das clínicas que também atendem o setor privado, Dra. Coimbra — ele rebateu, a voz grave e pausada, o puro suco da moderação financeira. — Precisamos de previsibilidade para não inflacionar o custo da hora técnica dos veterinários terceirizados. O orçamento da holding exige eficiência.

— Eficiência, Montserrat, é não gastar o dinheiro da fundação com abrigo que mantém bicho em baia úmida e sem protocolo de vacinação em dia — retruquei na mesma moeda. — Se a clínica parceira é boa, ela não precisa de trinta dias para se arrumar para mim. Se eles chiarem com o prazo, a gente corta o repasse e transfere o lote para quem trabalha direito. O centro cirúrgico que eu desenhei para a sede vai absorver a demanda de alta complexidade de qualquer forma.

Ao meu lado, notei o movimento sutil da Beatriz. Ela tinha deixado o iPad de lado, apoiando o queixo na mão, os olhos castanhos alternando entre mim e o Gustavo com um brilho de puro entretenimento.

Gustavo sustentou o meu olhar por alguns segundos. Havia um silêncio denso na sala, os outros coordenadores quase segurando a respiração enquanto o CEO da holding era confrontado de frente. Por fim, ele assentiu duas vezes, anotando algo no tablet.

— Janela de quarenta e oito horas incluída no protocolo de compliance. Prossiga, Dra. Coimbra.

— Obrigada, senhor presidente — soltei, com um pingo de ironia que o contrato não proibia explicitamente.

Durante o restante da reunião, eu desarmei cada objeção financeira dele com dados técnicos irrefutáveis. Reduzi o custo de compra de medicamentos em 15% apenas sugerindo a importação direta via holding e mudei a disposição das baias de isolamento para evitar contaminação cruzada. Gustavo me acompanhou em cada linha, anotando, questionando com precisão, mas cedendo sempre que a minha lógica médica engolia a lógica matemática dele. Ele estava satisfeito. Eu via isso na rigidez controlada do seu maxilar, no jeito como ele não desviava o olhar quando eu falava.

Mas o que me incomodou de verdade não foram os gráficos. Foi a Bia.

Ao longo das duas horas, ficou claro o nível de intimidade entre ela e o Gustavo. Não era nada vulgar, era pior: era convivência.

A Bia decifrava os silêncios dele. Ela sabia exatamente quando o pigarrear dele significava contrariedade, quando ele estava apenas calculando riscos de cabeça ou como interrompê-lo sem que ele achasse ruim. Eles compartilhavam um código social, uma linguagem de anos de convivência e um universo do qual eu estava estritamente afastada por escolha e por autodefesa.

Olhando para os dois, o abismo entre a minha realidade de mãe solo e o mundo deles parecia gigantesco. E ver aquela facilidade de longe deixou um gosto estranho na minha boca, um amargor incômodo que eu me recusei a batizar com o nome de ciúmes.

— Bom, por hoje é só — Gustavo declarou, fechando o tablet e se levantando. O movimento fez os outros coordenadores recolherem suas coisas rapidamente, ansiosos para sair da sala após o embate. — Beatriz, preciso que você alinhe o release de imprensa com a assessoria da holding. Lívia, os aditivos dos fornecedores de Botafogo já estão na sua mesa para assinatura.

— Vou verificar agora — respondi, organizando as minhas folhas com agilidade.

— Ótimo. Eu tenho uma reunião com o conselho da Montserrat Air em dez minutos. Com licença, senhoras.

Ele ajeitou o botão do paletó, nos deu um aceno polido e cruzou a porta de vidro com aquela imponência natural que parecia mover o ar da sala junto com ele.

Ficamos apenas eu e a Bia. Eu estava enfiando a minha caneta digital na pasta, pronta para levantar e ir até o almoxarifado, quando notei que ela não tinha feito menção de sair. A Bia estava encostada na quina da mesa de jacarandá, com os braços cruzados, me encarando com um sorrisinho ladino que me deu um leve calafrio.

— Você janta ele vivo no café da manhã, não janta? — ela soltou, direta, sem nenhum preâmbulo.

Parei o movimento do zíper da pasta, piscando.

— Eu só defendo as necessidades técnicas da fundação, Beatriz. O Gustavo é focado em números, eu sou focada em salvar os bichos. É um equilíbrio necessário.

— Ah, claro. O equilíbrio — Bia inclinou a cabeça, os anéis brilhando sob a luz da sala. Ela deu um passo na minha direção, me avaliando com uma sagacidade assustadora. — Lívia, deixa eu te fazer uma pergunta bem direta... Vocês dois já ficaram, não já?

O choque elétrico percorreu a minha espinha na hora. Minhas pupilas devem ter dilatado tanto que daria para ver do espaço. Minha primeira reação foi acionar o modo defensivo padrão, endireitando a espinha e adotando a minha melhor cara de indignação profissional.

— O quê?! Beatriz, por favor, eu acabei de fechar o meu contrato, sou uma profissional séria. O que você viu ali foi apenas um debate acalorado sobre diretrizes operacionais...

— Lívia, para — a Bia me cortou, soltando uma risada alta, limpa e absolutamente genuína. Ela ergueu as mãos no ar, divertida. — A sua cara de pânico te entregou no primeiro segundo. Relaxa. Eu não sou do comitê de ética e muito menos a sua fiscal de recursos humanos.

Senti minhas bochechas queimarem de leve. Percebendo que a negação tinha sido uma burrada que só me fazia parecer culpada, mudei de tática. Soltei a pasta na mesa, cruzei os braços e encarei a diretora de comunicação, estreitando os olhos. Se ela achava que ia me encurralar, não me conhecia.

— E você e ele, Beatriz? — devolvi a pergunta na mesma moeda. — Vocês dois têm alguma coisa? Porque a intimidade de vocês lá dentro deu para notar de longe.

Eu esperava que ela desviasse, ficasse sem graça ou assumisse uma postura defensiva. Mas a Bia apenas sorriu de canto, sem um pingo de hesitação, e deu de ombros com uma naturalidade desconcertante.

— De vez em quando, a gente se relaciona, sim — ela disparou, na maior honestidade do mundo. — Mas já tem um tempinho desde a última vez que a gente teve alguma coisa. Acima de tudo, nós somos muito amigos.

Pisquei, um tanto atordoada com a franqueza desarmante dela.

— E vocês não misturam as coisas? — questionei, franzindo a testa, genuinamente confusa com aquela dinâmica. — Trabalhar sob o mesmo teto, no mesmo grupo financeiro, tendo esse tipo de histórico?

— Olha, o Gustavo pode ser um monte de coisas, mas ele é um cara extremamente honesto. Ele não mente, joga limpo, sabe o que quer e, vou te contar, é incrivelmente bom de cama — ela soltou, dando uma piscadela divertida que me fez prender a respiração por um segundo. — Nós dois somos adultos, Lívia. Sabemos conversar. Nós sabemos exatamente onde estamos pisando porque nenhum de nós faz joguinhos emocionais. Somos apenas dois adultos perfeitamente funcionais se relacionando quando dá vontade e mantendo a parceria de sempre.

— E não rola ciúmes? — insisti, buscando uma rachadura naquela pose de desapego moderno, sentindo uma pontada incômoda dar um nó no meu estômago. — De nenhuma das partes?

Bia soltou um suspiro nasal, dando uma risada leve enquanto descruzava os braços.

— Nós nos gostamos muito, mas não desse jeito. Não existe sentimento romântico ali, Lívia. E para falar a verdade... — Ela deu um passo à frente, me avaliando com aqueles olhos castanhos perspicazes. — Na verdade, nós nem saímos mais desse jeito há uns três meses. Você não precisa ter medo de mim por causa do que nós tivemos, e muito menos sofrer da síndrome da escolhida só porque me viu rindo com ele. O Gustavo não é um prêmio exclusivo, e eu não estou disputando nada. Na realidade, ele é só mais um homem no meu harém, se você quer saber. Eu tenho a minha própria vida, os meus próprios interesses, e o Montserrat é só uma engrenagem muito bem lubrificada em uma parte dela.

Ela deu de ombros. Alguma coisa estalou dentro de mim.

— Talvez para vocês seja simples.

A Bia franziu a testa.

— Como assim?

— Porque vocês já fazem parte desse mundo. Eu não. Eu passei anos construindo uma carreira para que olhassem primeiro para o meu trabalho, não para a minha vida pessoal. Eu sou a melhor cirurgiã de pequenos animais daquela clínica de Botafogo. Passei os últimos anos virando noites em plantão de emergência, operando bicho com os nós dos dedos congelados de frio e cuidando do meu filho sozinha. Eu estou sentada naquela cadeira porque a minha competência técnica é inquestionável, e não porque eu dormi com o dono da holding. Se o Gustavo Montserrat acha que contratou um peão para o tabuleiro dele, está muito enganado. E se você acha que eu...

— Ei, calma! — a Bia me interrompeu de novo, mas dessa vez o olhar dela mudou completamente. Não tinha deboche; tinha um respeito real, quase admiração. — Lívia, eu sei disso. Todo mundo naquela sala sabe o quanto você é boa. O projeto do centro cirúrgico que você mandou na semana passada é uma obra-prima de logística. Ninguém está questionando a sua capacidade ou o seu mérito.

Pisquei, engolindo o resto do meu discurso de autodefesa, um pouco desorientada pelo elogio sincero.

Bia soltou um suspiro divertido, olhando para a porta por onde o Gustavo tinha saído há poucos minutos.

— Eu só perguntei porque... bom, porque eu conheço o Gustavo desde que ele usava aparelho e tentava entender equações de segundo grau na escola. E eu nunca, em toda a minha vida, vi aquele homem ceder uma margem de orçamento ou gaguejar por causa de uma porcentagem de anestesia. Ele é um bloco de gelo focado em métricas, Lívia. Ele calcula até o tempo de resposta de um bom dia. Mas quando você fala, ele simplesmente esquece de piscar. Você sabe qual é o problema do Gustavo?

Ela deu um passo atrás, pegando o seu iPad com uma leveza elegante, mas manteve os olhos castanhos fixos nos meus.

— Qual?

— Quando ele decide alguma coisa, ele vai até o fim.

Fiquei encarando-a, completamente sem fala. A antipatia e o medo que eu sentia de ser diminuída desmoronaram ali.

A Beatriz não era a dondoca territorialista que eu temia; ela era apenas uma mulher inteligente que sabia ler o ambiente e que, por algum motivo, achava o colapso do ego do Gustavo o melhor entretenimento.

— Nós só temos o trabalho em comum. E o cachorro que ele atropelou. — resmunguei, pegando a minha pasta de volta, sentindo um calor esquisito subir pelo meu pescoço.

— Sei, o cachorro — Bia piscou para mim, caminhando em direção à saída. — Só toma cuidado, Dra. Coimbra. O Gustavo costuma ser muito bom em conseguir o que quer, mesmo quando finge que não está tentando. Vejo você no almoço de amanhã?

— Vemos... vejo sim — respondi, ainda assimilando o golpe.

— Ótimo. Até amanhã, Lívia. E parabéns pela reunião. Você foi incrível.

A porta se fechou atrás dela com um clique suave. Fiquei sozinha na imensidão da sala do conselho, olhando para as cadeiras vazias. Caído. O Gustavo? Não. Ele era apenas um homem obstinado que detestava perder e que estava acostumado a ter o mundo aos seus pés.

Mas, enquanto eu caminhava em direção à minha nova mesa, precisei respirar fundo para acalmar o ritmo do meu próprio coração. O expediente tinha começado muito bem, a minha competência estava provada e eu tinha ganhado uma aliada inesperada. O jogo estava sob controle.

Eu só precisava garantir que, além do orçamento da fundação, eu também conseguisse manter o controle sobre o perigo verde daqueles olhos sempre que eles cruzassem o meu caminho.

Após o furacão que foi aquela primeira reunião com a Beatriz, o restante da minha primeira semana na fundação seguiu em uma calmaria surpreendente e ligeiramente irritante.

Gustavo manteve a distância regulamentar de dois metros no escritório, assinava todas as minhas requisições técnicas sem chiar e mantinha uma postura tão profissional que estava começando a me dar nos nervos. O homem simplesmente não dava uma única bola fora.

A única coisa que quebrava o verniz estritamente corporativo eram as mensagens curtas que ele me mandava no WhatsApp no fim da tarde. Todas puramente técnicas, claro. Ou pelo menos era o que ele queria que parecesse.

"Dra. Coimbra, o Higgs passou a tarde inteira deitado na varanda. O fisioterapeuta disse que o repouso é normal, mas ele se recusou a comer a ração seca. Devo entrar com o sachê úmido que você prescreveu ou isso vai desregular o intestino dele?"

Eu olhava para a tela do celular no meio do expediente, mordendo o lábio para esconder um sorriso, e respondia com o rigor de uma bula médica: "Pode dar metade do sachê misturado, Montserrat. Ele só está fazendo drama para testar os seus limites. Não ceda ao terrorismo psicológico de um vira-lata."

A resposta dele vinha minutos depois: "Tarde demais. Ele me olhou com os olhos castanhos e eu já entreguei o sachê inteiro. O compliance da cobertura faliu."

Eu passava o resto do dia tentando focar nas telas de estoque de vacinas, mas a imagem do CEO de Oxford sendo manipulado por um fiapo de manga de três patas funcionais insistia em sabotar a minha seriedade.

Até que a quinta-feira à noite chegou, trazendo o cansaço acumulado daqueles primeiros dias de transição.

O relógio da parede já marcava quase oito horas. A equipe de comunicação e os outros coordenadores já tinham ido embora, as luzes automáticas dos corredores da fundação estavam reduzidas à metade e eu continuava na minha mesa, cercada por três pilhas de relatórios de Botafogo que precisavam ser revisados para o dia seguinte. Meus olhos ardiam sob os óculos de leitura e o meu foco já tinha sumido há pelo menos trinta minutos.

— A persistência é uma virtude, Dra. Coimbra, mas a teimosia contra o cansaço costuma gerar erros na terceira casa decimal.

Dei um sobressalto na cadeira, olhando para a porta da minha sala. Gustavo estava escorado no batente de vidro. Ele já tinha tirado o paletó, as mangas da camisa social branca estavam dobradas até os antebraços e os dois primeiros botões abertos deixavam o pescoço à mostra. Ele segurava duas canecas de cerâmica que soltavam fumaça.

— Eu não erro na terceira casa decimal, Montserrat — respondi, endireitando a postura e empurrando os óculos para o topo da cabeça. — E o estoque veio com uma divergência de lotes. Preciso fechar isso hoje.

Ele caminhou devagar até a minha mesa, contornando a quina e deixando uma das canecas exatamente do meu lado. O aroma forte de café com um toque de avelã invadiu as minhas narinas.

— Macchiato. Duas gotas de adoçante. É o que você pediu na copa na terça-feira no mesmo horário — ele disse, com a voz mansa, dando um gole na própria caneca.

Fiquei encarando o líquido e depois olhei para ele, semicerrando os olhos.

— Você monitora os meus hábitos de cafeína agora? Isso está em qual cláusula do contrato?

Gustavo soltou uma risada curta, aquele som grave e contido que mexia com o meu estômago de um jeito que eu odiava admitir. Ele se encostou na mesa lateral, cruzando os tornozelos, mantendo uma distância confortável, mas perigosamente íntima para uma sala vazia.

— Eu gerencio pessoas, Lívia. Ler padrões é o que eu faço para manter a holding lucrativa — ele inclinou a cabeça, os olhos verdes brilhando sob a luz fraca. — E o seu padrão atual é: maxilar trancado, ombros tensos e uma linha bem fina entre as sobrancelhas que me diz que, se eu esticar esse expediente por mais cinco minutos, você vai jogar esse grampeador na minha testa.

— É uma leitura estatisticamente precisa — brinquei, pegando a caneca e tomando um gole longo. O café estava perfeito. Soltei um suspiro involuntário de alívio e vi o canto da boca do Gustavo se curvar em um sorriso vitorioso. — Maldito seja o seu poder de observação. Mas já que você está no modo analítico... como o Bóson passou o dia hoje? Você não me mandou nenhuma dúvida de enfermagem desde as duas da tarde.

— Ah, o Higgs está ótimo. Inclusive, ele desenvolveu uma teoria muito própria sobre o design de interiores da cobertura. Ele descobriu que o tapete que eu trouxe de Istambul fica muito melhor quando ele usa as unhas para desfiar a borda enquanto tenta alcançar o brinquedo de borracha.

Eu ri alto, cobrindo a boca com a mão.

— Eu avisei que ele era um legítimo cachorro de rua. Você achou que ia adotar um lorde inglês que só dorme e posa para fotos?

— Eu achei que ia adotar um cachorro em reabilitação, não um crítico de arte contemporânea destrutivo — ele rebateu, os olhos fixos no meu riso. O olhar dele desceu por um segundo para os meus lábios antes de voltar para os meus olhos, sustentando a eletricidade que de repente estalou no ar. — Mas, falando sério... ele está se adaptando bem ao piso de mármore. Eu coloquei os tapetes emborrachados no corredor como você mandou, para ele não escorregar. Ele quase não compensa o peso na bacia quando anda até o pote de água.

— O mérito é do tutor que está seguindo o protocolo à risca — comentei, sincera, olhando para ele com um respeito que eu vinha tentando sufocar desde que o vi carimbar aquele cartão black na clínica. — A maioria das pessoas ricaças daria o dinheiro e sumiria. Você realmente está cuidando dele.

Gustavo deu um passo à frente. Apenas um. Mas foi o suficiente para o perfume dele me rodear por completo. Ele deixou a caneca dele na mesa e se inclinou ligeiramente na minha direção, apoiando uma das mãos na lateral da minha cadeira.

— Sabe, Lívia... a Beatriz me disse que você deu um depoimento belíssimo para ela sobre o seu mérito técnico e a sua independência no nosso primeiro dia — ele sussurrou, o tom de voz macio, mas carregado de uma intensidade que fez a minha respiração encurtar. — Ela ficou genuinamente impressionada com o seu discurso de posse.

Senti minhas bochechas queimarem instantaneamente. Aquela fofoqueira de grife tinha mesmo contado para ele?

— A Beatriz fala demais — resmunguei, desviando o olhar para os papéis, tentando recuperar o controle. — E eu só disse a verdade. Eu estou aqui pelo meu trabalho.

— Eu sei que é a verdade — a voz dele veio ainda mais perto. Gustavo estendeu a outra mão e, com uma delicadeza que me arrepiou inteira, tocou a ponta dos dedos no meu queixo, trazendo o meu rosto de volta para encarar os olhos verdes dele. — Você é a mulher mais competente, focada e brilhante que eu já coloquei dentro desta fundação. Eu nunca questionaria o seu mérito, Dra. Coimbra. Mas você está errada sobre uma coisa.

— Sobre o quê? — perguntei, a voz saindo quase num sussurro, minha boca seca pela proximidade dos lábios dele.

— Você disse para ela que não aceita ser um peão no meu tabuleiro — ele deu um meio sorriso de lado, os olhos brilhando com um charme predatório, mas absurdamente irresistível. — A questão é que você nunca foi um peão, Lívia. Desde a noite em que você entrou no meu carro e me chamou de passatempo cansativo, eu percebi que você é a rainha do jogo. Eu só estou tentando descobrir qual é o movimento certo para te manter no tabuleiro.

Engoli em seco, o meu coração batendo na garganta. O homem era perigoso demais. Ele lia as minhas defesas, entendia o meu orgulho e, em vez de lutar contra ele, ele o elogiava. Ele me desarmava usando a inteligência.

Afastando os dedos do meu queixo com uma lentidão torturante, ele deu um passo para trás, recuperando a postura e pegando a sua caneca de volta como se não tivesse acabado de implodir o meu sistema nervoso.

— Chega de vacinas por hoje. Vá para casa, Lívia. O Téo está te esperando e os relatórios não vão fugir da mesa — ele disse, voltando ao tom profissional impecável, mas com aquele brilho divertido nos olhos. — Boa noite, Dra. Coimbra.

— Boa noite, Montserrat — respondi, a voz um pouco trêmula.

Ele se virou e caminhou pelo corredor escuro, sumindo em direção ao elevador. Fiquei parada na minha mesa, encarando a caneca de macchiato ainda morna.

Eu passei a semana achando que o contrato e o arame farpado nas regras iam me manter segura. Mas, enquanto eu fechava a minha pasta com as mãos ainda levemente trêmulas, percebi que o Gustavo Montserrat não precisava quebrar os meus muros.

Ele simplesmente sabia como entrar pelas portas que eu esquecia de trancar.

E o pior de tudo? No sábado, depois de amanhã, eu tinha uma visita agendada na cobertura dele para checar oficialmente os pontos e a evolução da bacia do Bóson. E eu já sabia que, quando aquelas portas do elevador se abrissem no fim de semana, as regras da fundação não teriam valor nenhum.