Fora de Alcance
1 Prólogo
Notas iniciais
SALEM , VIRGINIA
7:10 a.m.
Já tinha amanhecido, estava claro e o sol reinava acima de todos. Tinha tudo para ser um dia muito bonito. Quando Charles percebeu isso ficou ainda mais irritado. Para ele era só mais um dia de trabalho num lugar em que nem era notado, onde as pessoas o tratavam como se fosse invisível. Sentiu-se apossado por uma ligeira onda de raiva ao pensar nisso. A cada dia que passava ele odiava mais a sua vida, e principalmente aqueles que a tornavam tão insuportável e sem propósito: Wagner Norton, Liam Parker e Otto Fontaine. Esses nomes surgiam em sua mente como se fossem uma maldição. Sempre tentou entender o porquê de ter sido escolhido por aquelas pessoas para ser tratado desse jeito, ser ignorado como se não existisse. No começo achava que fosse uma daquelas típicas brincadeiras que se faziam com quem era novo num trabalho, mas o tempo foi passando e tudo continuou na mesma. Charles continuou a ser ignorado, na verdade, as coisas ficaram ainda piores com o tempo. Ele tentou de tudo para se enturmar com os três, mas nada dava certo, acabou desistindo com o tempo.
É claro que não havia só aqueles trio na empresa. Charles bem que tentou fazer amizade com os outros empregados. Em especial, havia uma mulher chamada Leslie. Ela trabalhava no Departamento Pessoal e sempre o tratava bem quando ele ia buscar o cheque do pagamento. Charles, no entanto, sempre fora muito tímido e pouco sociável. Era sempre um problema, e o comportamento dos colegas com quem tinha mais contato só piorou tudo. Aos poucos ele foi se isolando completamente, já não falava com mais ninguém, fazia o seu trabalho e ia embora, como se ninguém mais existisse.
A frustração que sentia com tudo em torno daquele emprego, e de sua vida, só crescia. Por que não se demitia? Por que não procurava trabalho em outra empresa onde as pessoas o notassem? Ele passava horas pensando nisso até se convencer de que seria bobagem procurar outro emprego. A verdade é que ele sempre fora ignorado em sua vida. As pessoas pareciam não vê-lo. Charles dirigia a elas perguntas que não eram respondidas, dizia coisas que as pessoas não pareciam ter ouvido. Isso sempre aconteceu ao longo de sua vida.
Essa sensação de invisibilidade só aumentou com a morte de seus pais. Charles era filho único, não tinha mais nenhum parente no mundo. Ele nunca se casou, teve poucas mulheres, e elas sempre duraram pouco tempo em sua vida, não tinha filhos, não lembrava mais de ter tido uma amizade verdadeira e profunda com alguém. Uma ponta de tristeza tomou conta dele, ao pensar que, provavelmente, ninguém daria por sua falta se morresse. Charles só não esperava que as coisas pudessem piorar ainda mais, até que arranjou esse emprego, começando a conviver com os colegas do departamento onde trabalhava. O modo como o ignoravam era absolutamente ostensivo. O trio conversava como se só os três estivessem naquela sala, não respondiam suas perguntas, não o ajudavam em nada. No começo Charles tentou se fazer notar, chegou mesmo a ser agressivo com eles, e mesmo assim continuou a ser tratado como se não existisse.
Ele poderia ter pedido transferência de departamento, poderia ter se demitido, mas Charles não fez nada disso. Por uma estranha razão, ele aceitou o modo como era tratado, começando a comportar-se como se não existisse para eles. Aos poucos, quase sem perceber, começou a fazer o mesmo com todos à sua volta. Ele pensava nisso enquanto tomava café, tomando a firme decisão de tentar mudar isso. Seu primeiro pensamento se dirigiu a Leslie. Charles respirou fundo, decidindo ir falar com ela hoje.
CRAWFORD & FILHOS CORRETORA
8:15 a.m.
Tudo se passou como uma estranha névoa diante dele naquela manhã. Charles não entendeu direito como foi de casa para o trabalho. Quando deu por si já estava em frente ao prédio onde ficava a sua empresa. Ele entrou como fazia normalmente, não cumprimentou ninguém e ninguém o cumprimentou. Sentiu-se mais invisível do que nunca naquele dia. Ainda assim, não estranhou nada até chegar no andar onde trabalhava e ver Leslie. Charles sentiu um tremor em seu íntimo, a decisão que tomara durante o café pesava sobre ele como uma bigorna. Ainda assim, manteve-se firme. Foi naquele momento que se deu conta de que não falava com ninguém a tempos, precisava mudar isso, precisava desesperadamente saber que ela não o ignorava como os outros. Ao vê-la chegar perto tratou de tentar um cumprimento.
-Oi Leslie – disse ele, um sorriso tímido em seu rosto que se desfez quando ela passou reto e sem falar com ele. Charles sentiu seu coração afundar e gritou – Leslie fale comigo, por favor!
Ele a viu seguir em frente e sem olhar para trás, entrando na sala do DP e fechando a porta. Normalmente, Charles deixaria para lá, se algo não tivesse chamado a sua atenção. Ele havia gritado, praticamente implorado por um pouco de atenção. Haviam várias pessoas ali e que certamente o ouviram. Era de se esperar ouvir risadas de escárnio ou mesmo um olhar penalizado, mas todos ali pareciam não ter notado nada e isso era muito pior. Todo mundo continuava a trabalhar como se ninguém tivesse ouvido nada. Charles achou que era hora de acabar com isso e se dirigiu às pessoas que ali estavam.
-O que há com vocês? O que há com todos vocês – ele gritou, mas ninguém parecia notar – falem comigo droga, eu existo ouviram bem? – e gritou mais alto ainda – eu existo!!!
Era como se ninguém pudesse ver ou ouvir o que ele dizia. Charles notou que ninguém reagia aos seus gritos e teve um acesso de fúria, começando a derrubar tudo o que via pela frente. As pessoas ficaram apavoradas e o que elas diziam não era nada do que Charles queria ouvir.
-Que foi isso meu Deus?
-Deve ser o vento, alguém feche as janelas.
-Não tem vento algum...
-Oh meu Deus, será que o lugar está mal-assombrado?
Nada disso era o que ele queria ouvir. Ainda era como se ele não existisse e o alarido das pessoas em volta só o deixava ainda mais nervoso. Foi então que ele os viu entrar: Wagner Norton, Liam Parker e Otto Fontaine. Um tremendo ódio tomou conta de Charles, aquilo tudo era culpa deles.
-Olha só o que vocês fizeram!! – gritou Charles, mas eles passaram direto e o ódio de Charles só fez aumentar; dessa vez ele não ia aceitar ser ignorado.
Wagner Norton sentiu o impacto em suas costas e caiu no chão. Ele olhou pra trás e Charles sentiu um segundo de felicidade ao achar que estava sendo notado, um sentimento que se esvaiu assim que Norton falou.
-Quem foi que fez isso? — ele estava de frente para Charles e este apontou para si mesmo, mas Norton o ignorou e passou a olhar em volta – Eu perguntei quem fez isso!!
-Fui eu quem fiz seu desgraçado! – gritou Charles – pare de me ignorar, parem todos vocês!!
-Calma cara, – disse Parker – você deve ter tropeçado.
-Eu não tropecei, alguém me derrubou – ele virou-se para alguém que tentava arrumar a bagunça em sua mesa – foi você, não foi Ed?
Charles observou a discussão que teve início. Todo mundo falava alguma coisa, eram diálogos disparatados, mas que tinham em comum o fato de que Charles parecia não estar ali. Ele sentia-se tonto e ao mesmo tempo desesperado com aquilo tudo. Charles viu quando seus três colegas foram para sala onde trabalhavam. Os três cochichavam algo que ele não conseguia ouvir, no entanto, os viu olhando em volta. Era possível ver que o medo parecia estampado nos olhos deles antes que entrassem. Será que sabiam que ele estava ali, mesmo sem poder vê-lo? Charles pensou em ir atrás deles, mas todas aquelas vozes à sua volta ainda ecoavam na sua cabeça. A certeza de que não existia para aquelas pessoas o deixava desnorteado e ele correu dali.
Charles andou sem rumo por alguns momentos, até encontrar a porta do banheiro, entrando rapidamente, pois estava suado e respirando com dificuldade. Charles foi até uma pia e lavou o rosto durante mais de um minuto. Pegou a toalha e começou a enxugá-lo, tinha os olhos fechados quando deixou a toalha de lado. Ele estava diante do espelho pensando no que fazer, só precisando de alguns segundos para decidir procurar seus três colegas de sala; sabia que tudo isso era culpa deles.
Charles abriu os olhos, porém não se mexeu de onde estava; sentiu como se o seu coração tivesse parado de bater. Não havia nada no espelho diante dele, nenhum reflexo. Ele simplesmente não podia ver-se, era como se estivesse invisível, como se não existisse. Só que ele existia, ele podia sentir que existia quando começou a esmurrar o espelho com o máximo de força que conseguiu empregar. Charles pôde constatar a própria existência quando viu o seu sangue escorrendo pelo vidro parcialmente quebrado até cair na pia. Ele não podia ver a carne de sua mão sendo rasgada, mas sentia a dor dos cortes na mão invisível que continuava esmurrando o espelho. Ele deu boas vindas a essa dor, era a prova de sua existência afinal. Os outros o ignoravam, mas ele sabia quem eram os culpados por tudo isso, Charles sabia, e os faria pagar bem caro.
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