Fora de Alcance
2 A Primeira Morte
Notas iniciais
SALEM , VIRGINIA
RESIDÊNCIA DE CHARLES NORTON
DOIS DIAS DEPOIS
9:35 p.m.
A casa dos Norton estava agitada naquela noite, como todas as outras nas redondezas. Era o dia das bruxas, e os filhos do senhor Norton estavam excitados; todos vestidos em fantasias e prontos para andar pela cidade em busca de doces. A senhora Norton ajudava-os com o mesmo entusiasmo que os filhos. O senhor Norton, por sua vez, estava claramente contrariado com tudo isso. Mais de uma vez ele dissera que aquilo tudo era uma grande palhaçada e que não participaria de nada. A senhora Norton chegou a inciar uma discussão com o marido, mas desistiu.
Ela e os filhos saíram, e o senhor Norton ficou sozinho em casa. Antes de sair com os filhos a senhora Norton viu as muitas fitas de vídeo sobre a mesinha em frente a TV, viu também o marido separar a cerveja na cozinha, ao mesmo tempo que falava com alguém no telefone. Do pouco que conseguiu ouvir ela captou os nomes de Liam Parker e Otto Fontaine, seus melhores amigos. Dando um leve suspiro, ela saiu para a rua com os filhos. Pouco mais de uma hora haviam se passado, as fitas continuavam na mesinha, a cerveja na geladeira e a TV estava desligada. Não havia sinal do senhor Norton, ou de seus amigos na sala, quando a porta da casa foi arrombada. Ouviu-se o barulho de passos na sala, mas quem estivesse lá não ia ver ninguém. A porta do porão foi aberta e o senhor Norton saiu de lá.
-São vocês rapazes? – ele olhou em volta e viu a porta arrombada, não teve tempo de fazer nada, pois uma força invisível o atirou pela escada do porão, com o senhor Norton rolando até atingir o chão.
-Quem sou eu? – ele ouviu alguém perguntar, mas não conseguiu ver ninguém – Diga o meu nome! – a voz invisível insistia. Uma onda de pânico tomou conta do senhor Norton.
-Isso não é possível! Não é possível!!
Wagner Norton gritou o mais alto que pôde. Foi então que ele viu o machado vindo na sua direção. Tudo durou apenas alguns segundos, mas ele pôde ver que o machado cortava o ar como se mãos invisíveis o conduzissem. Sentiu sua testa rachar, o sangue descer por seu rosto em grande profusão, e então ele morreu. Seu corpo caiu no chão daquele porão. Um chão de piso cimentado dos mais comuns, exceto pelo pentagrama desenhado justamente onde o seu corpo sem vida tinha caído. Haviam alguns símbolos escritos no pentagrama. Junto a parede, uma palavra surgia, como se escrita por uma mão invisível. Em letras garrafais, essa palavra era escrita com o sangue do senhor Norton: MOUQUESEU.
SEDE DO FBI – WASHINGTON DC
DOIS DIAS DEPOIS
Mônica Reyes tinha acabado de chegar no prédio do FBI. Atrasou-se um pouco, pois foi buscar seus pais no aeroporto de Washington. Antonio Reyes e Marieta Reyes decidiram morar na capital junto de sua filha. Isso a deixou muito feliz, a companhia dos dois era mais que bem-vinda para ela. Mônica encontrou seu parceiro falando ao telefone, ele fez sinal para ela sentar-se, Doggett desligou o aparelho no mesmo instante.
-Bom dia Mônica. Demorou um pouquinho hoje.
-Esqueceu que fui buscar meus pais no aeroporto?
-É mesmo, tem razão. E como eles estão?
-Estão bem. Finalmente estão vindo morar comigo. Fico muito grata por perguntar.
-Ótimo. Depois que resolvermos este caso que Skinner acabou de indicar, eu irei visitá-los.
-Que caso John?
-Um homem foi assassinado em pleno dia das bruxas em circunstâncias bastante estranhas.
-Um arquivo X?
-É o que parece, na verdade parece que é um caso dentro de sua especialidade – a face dele ficou enrugada de repente, como se estivesse preste a dar uma péssima notícia – só que nós vamos ter que “arrastar” alguém conosco nesse caso. Segundo o Skinner, uma questão de política interna.
-Do que você está falando? – Doggett nem teve tempo de responder a pergunta. Reyes virou-se em direção a porta e viu uma jovem loura parada ali. Ela parecia um tanto insegura e ansiosa, ao mesmo tempo via-se um brilho em seus olhos por estar naquela sala.
-Com licença... – ela disse, um sorriso nervoso nos lábios enquanto carregava com ela várias pastas – o diretor Skinner mandou que eu trouxesse o material a respeito do caso – ela colocou tudo sobre a mesa como quem se livrava de um imenso peso.
Reyes examinou a jovem de alto a baixo, elas já haviam se encontrado antes, mas as circunstâncias não permitiram uma observação mais apurada a seu respeito. Ela era bonita, o que já não contava a seu favor, embora Mônica não gostasse de admitir isso. No entanto, o que realmente chamou a atenção nela foi o seu ar desajeitado e assustado, tudo isso somado a sua evidente fascinação por estar ali. Era o tipo da coisa que poderia gerar num homem como Doggett um instinto de proteção que teria repugnado Reyes se fosse dirigido a ela. O problema era a ideia de que Doggett poderia fazer isso com outra mulher, essa possibilidade a deixava mais furiosa do que gostaria de admitir.
-Como vai agente Harrison? – Mônica deu o seu melhor sorriso ao dizer isso.
-Eu estou ótima agente Reyes. Estou muito feliz por estar aqui! – Mônica sentiu seu coração afundar um pouco diante do sorriso dela. Não notara qualquer sinal de fingimento, aquela moça estava realmente feliz por estar ali, e entender isso só fez com que se sentisse muito mal por sua má vontade com ela.
-Quanto a mim, acho que não preciso de apresentações agente Harrison. – disse Doggett – a jovem agente entendeu claramente o que ele quis dizer, e em poucos minutos preparou os slides com tudo a respeito do caso em questão.
-Esse é Wagner Norton – disse a agente Harrison, mostrando o cadáver de um homem, morto com uma machadada na cabeça – ele foi encontrado morto no porão da casa dele em Salem, no dia das bruxas.
-Esse pentagrama no chão... – Mônica aproxima-se para ver melhor – tem coisas escritas nele. – ela olha para o corpo de Norton – Você tem algo que mostre os dedos dele? – alguns slides foram passados até chegar num que mostrava os dedos do morto, eles estavam com uma coloração azul.
-Acha que foi ele quem escreveu aquelas coisas no pentagrama? – Doggett pergunta confuso.
-Precisamos ir lá para ter certeza – Reyes responde.
-Há uma outra coisa que vocês precisam ver. – a agente Harrison passa mais alguns slides até mostrar a palavra escrita na parede – foi escrita com o próprio sangue do morto; havia impressões digitais no machado e na parede. Elas foram passadas no sistema, mas não encontramos nada.
-O que será que isso quer dizer? – Doggett voltou-se para Reyes.
-Eu não faço a menor ideia de que palavra seja essa John.
RESIDENCIA DE WAGNER NORTON
11:35 a.m.
Uma grande movimentação ocorre na casa dos Norton. A polícia isola a área e John Doggett está do lado de fora, conversando com os policiais que montam guarda para impedir a entrada de estranhos. Ele dá por encerrada a conversa e entra na casa, indo direto até o porão onde já está a sua parceira Mônica Reyes e a agente Harrison. Elas olham com bastante interesse, tanto o pentagrama quanto a palavra escrita na parede.
-Sentindo alguma presença maligna Mônica?
-Difícil dizer John, – ela sorriu pra ele, não conseguia ficar irritada com o tom ligeiramente sarcástico com que Doggett costumava se referir às coisas que sentia – o que sei é que esse é um pentagrama usado em rituais satânicos.
-Acha que ele foi sacrificado num ritual? – Leila Harrison fez-se notar, ela não queria ficar de fora das discussões – isso está me lembrando um caso que Mulder e Scully investigaram uma vez. Um praticante de satanismo que foi morto num porão como esse. Havia evidências de que ele fora engolido por uma enorme cobra.
-Eu li esse arquivo agente Harrison, mas não há sinais de pele de cobra em lugar algum. Além disso, já está comprovado que o senhor Norton morreu com uma machadada na cabeça.
-É verdade John, mas há claras evidências ritualísticas nesse caso – disse Reyes, certa do que estava falando – o problema é que porta da casa foi arrombada, mas não há sinal de que tenha sido invadida por mais do que um homem.
-Pelo que disse a perícia, somente um homem esteve aqui com ele – disse a agente Harrison.
-E rituais satânicos de sacrifício normalmente são feitos na presença de muitas pessoas – completou Mônica – eu diria que esse homem foi mais do que uma simples vítima.
-E quanto a essa palavra escrita na parede? Que língua será essa?
-Nenhuma que eu já tenha ouvido falar. – disse Reyes – Não me lembro de tê-la visto em nenhum dos casos em que trabalhei.
-O que eu acho interessante são essas coisas escritas dentro das pontas do pentagrama – a agente Harrison abaixou-se para ver melhor. Mônica fez o mesmo – esse caractere solitário na última ponta foi escrito pelo senhor Norton e se repete nas outras pontas. Acho que podemos concluir que ele também escreveu o mesmo caractere nas outras pontas.
-Pode ser agente Harrison, – disse Reyes– se bem me lembro dos meus estudos sobre rituais de satanismo, essas marcas nas pontas do pentagrama significam um feitiço em andamento, talvez uma oferenda a Satanás.
-Uma oferenda? – havia um tom de ironia na voz de Doggett – Então o que significa o fato de que a última ponta do pentagrama esteja incompleta?
-Significa que a oferenda não foi concluída. – Mônica Reyes continuava olhando atentamente para os símbolos escritos no pentagrama.
-Talvez ele tenha sido morto justamente para garantir isso – disse a agente Harrison.
-Acha isso também Mônica? – Doggett tinha se abaixado junto a elas.
-É bem possível John – Mônica aponta para os outros caracteres – em todas as pontas do pentagrama nós podemos ver três símbolos diferentes escritos e só nessa última é que há apenas um.
-Se Norton escreveu mesmo esses símbolos então ele seria um praticante de magia negra, um adorador do Diabo ou algo assim. – disse Doggett.
-Não acho que ele estivesse nisso sozinho, – disse Reyes, ela aponta para o símbolo solitário na última ponta do pentagrama – por tudo que já estudei sobre esse assunto eu diria que esses símbolos representem nomes. Esse aqui talvez represente o nome que Norton usava nos rituais.
-E os outros símbolos representam os nomes de dois cúmplices dele. – Leila Harrison sentia-se cada vez mais confiante em dar suas opiniões ao perceber que seu pensamento estava em sintonia com os da agente Reyes.
-Exatamente agente Harrison! – Mônica percebe que Doggett esta meio dividido sobre o que pensar a respeito de tudo isso – Será que o mataram depois que fez a parte dele na oferenda?
-E que tipo de oferenda vocês acham que eles estavam fazendo? – Doggett pergunta, Mônica apenas olha para ele.
-Eu não sei dizer...
CEMITÉRIO MUNICIPAL
DIA SEGUINTE
O enterro de Wagner Norton aconteceu numa tarde fria e sem nuvens, muito adequado para tal cerimônia, onde os pensamentos das pessoas normalmente não combinariam com um sol radiante. A esposa e os filhos dele estavam abraçados e choravam bastante. Doggett e Reyes também estavam lá. A agente Harrison tinha ficado no escritório para pesquisar a palavra escrita na parede. Ambos os agentes notaram que haviam poucas pessoas; certamente a maneira como ele foi encontrado morto, e os boatos sobre satanismo, acabaram por afastar muita gente. Antes disso foi muito difícil interrogar a esposa. Ela não parara de chorar e dizer ao mesmo tempo que refutava todas as suspeitas sobre as atividades satânicas do marido. Dizia também que o marido trancara o porão para o resto da família devido a um problema de vazamento de água. Ao final de uma hora eles não haviam conseguido nada de útil no depoimento dela.
Enquanto assistia ao enterro, Doggett reparou num tipo bem elegante junto à viúva. Ele parecia representar a corretora Crawford & Filhos – “Vai ver é um dos filhos do senhor Crawford” – pensou. Outras pessoas também chamaram a atenção dos agentes. Eram todos colegas de trabalho que lá estavam. Eles eram os únicos, além da família, o Padre e os agentes funerários, que apareceram. Dois deles cochichavam todo o tempo enquanto uma mulher não parava de olhar para Doggett e Reyes. Ela parecia louca de vontade de falar com eles e foi exatamente o que fez, na saída do cemitério.
-Vocês são os agentes que estão investigando a morte de Wagner?
-Somos sim, eu sou o agente Doggett e essa é agente Reyes. E você quem é?
-Meu nome é Leslie Swanson – ela apertou a mão dos dois – eu trabalhava na mesma empresa que o falecido.
-Você tem alguma coisa importante a nos dizer? – pergunta Reyes.
-Eu não sei se vocês vão achar importante.
-Deixe que nós julguemos isso minha cara. Porque não nos diz o que é?
-Está bem agente Doggett. – ela tira uma pequena foto da bolsa e mostra aos dois – O nome dele é Charles Smith e está desaparecido a dias.
-Qual a ligação dele com o falecido senhor Norton?
-Eles trabalhavam juntos, agente Reyes.
-O que está fazendo Leslie? – uma voz chama a atenção deles, Doggett e Reyes notam a tensão no rosto da moça bem como o modo ríspido como o dono da voz falou.
-Olá Otto, eu... eu estava falando com os agentes sobre... bem você sabe.
-A quanto tempo conhece Wagner Norton? – Doggett se interpôs entre Otto e Leslie ao perguntar.
-Somos amigos de infância agente, porque?
-Não têm nenhuma ideia de quem poderia fazer isso com ele? – Mônica o encarava fixamente, estudando suas reações.
-Wagner era um bom homem. Ele vivia para família e nunca fez mal a ninguém. – não havia nenhum traço de emoção em Otto Fontaine ao dizer aquilo. Era como se estivesse falando sobre os dados de um relatório.
-O que tem a dizer sobre esse homem? – Doggett mostra a foto de Charles para ele.
-Não tenho nada a dizer. – ele olhava friamente para Leslie ao falar e foi embora logo a seguir. Doggett esperou que ele se afastasse o suficiente.
-Espere aqui Mônica – Doggett foi pelo mesmo caminho que Otto.
O agente do FBI não demorou a encontrá-lo. O viu junto a alguns túmulos, mas não estava sozinho. Ele estava com o mesmo sujeito com quem havia cochichado durante o enterro, mas agora ambos pareciam estar discutindo. Ambos viram Doggett os observando. O homem com Otto tinha um ar visivelmente assustado, mas o agente notou no olhar deste apenas a irritação por ter sido flagrado em algo. Empurrando seu colega, Otto e ele entraram num carro e saíram em disparada.
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