Fora de Alcance

3 Verdades ocultas


CRAWFORD & FILHOS CORRETORA

DIA SEGUINTE


Otto Fontaine estava francamente irritado enquanto fazia o seu caminho até o departamento pessoal da empresa onde trabalhava. Todos os objetivos que havia traçado nos últimos tempos estavam ameaçados e ele não iria permitir que isso acontecesse. Irritado como estava, Otto nem se deu ao trabalho de bater ao entrar, encontrando Leslie mexendo numa pasta. Ela pareceu bem nervosa ao vê-lo.


-Está colocando de volta o retrato que havia pego? Aquele que você mostrou para os federais ontem?


-Eu só achei que era uma informação importante Otto.


-É senhor Fontaine para você, moça. – havia uma sugestão de ameaça na voz dele – não esqueça que em breve ocorrerão algumas promoções aqui e eu estarei numa posição em que terei o seu emprego nas minhas mãos.


-O que quer... senhor... Fontaine? – ela enfatizou as duas últimas palavras, a expressão no rosto dela não deixava dúvida do quanto era difícil fazer isso.


-Eu quero que você pare de mencionar certos nomes – ele falava num sussurro, um sorriso nada amigável no rosto, enquanto passava as mãos no cabelo dela e depois no rosto de Leslie. Esta não escondia a repulsa que esse gesto causava nela, mas nada fez pra impedi-lo – faça como todo mundo aqui e ignore, para o seu próprio bem.


Otto manteve o sorriso maldoso para ela enquanto deixava a sala. Leslie fechou os olhos com força, relaxou o corpo e deixou-se afundar na sua cadeira. Ao abrir os olhos novamente, algumas lágrimas caíram por sua face, mas ela não estava triste e nem assustada, estava com ódio.


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Liam Parker estava revisando uns relatórios em seu computador, mas os seus pensamentos estavam em outras coisas. Ele estava ao mesmo tempo assustado e irritado com o rumo que a situação tinha tomado. Tudo parecia tão simples e tinha funcionado com absoluta perfeição, até a noite da morte de Wagner. Ele não poderia imaginar que tudo fosse ameaçado por uma investigação do FBI; a morte de Norton naquelas circunstâncias atraiu atenção demais. Lian tinha consciência dos riscos envolvidos. Significava que a vida dele, e de quem estivesse próximo, seria revirada pelo avesso. Mau negócio para quem tem muitas coisas a esconder.

Ao mesmo tempo, ele tinha a sensação de estar sendo vigiado agora. Liam se assustava com qualquer barulho que ouvia. A porta que se abriu sozinha, um lápis que caiu da mesa próxima, justamente aquela mesa, tudo era motivo para assustá-lo. Liam não ficou mais aliviado quando Otto entrou na sala. Na verdade, isso o assustou mais ainda, e seu colega percebeu. Os dois ficaram encarando-se por alguns segundos. Otto colocou seu paletó sobre uma cadeira, deu uma breve olhada para mesa onde Wagner Norton trabalhava. Liam o acompanhou até que os olhares dos dois voltaram a se cruzar.


-O que está acontecendo Otto? Você praticamente nos fez fugir no cemitério como se fossemos criminosos.


-Eu fiz isso, foi? – Otto deu uma boa gargalhada e Liam não pôde evitar um arrepio ao ouvi-la — Talvez eu é que devesse perguntar para você o que está acontecendo.


-Você acha que eu tenho alguma coisa a ver com a morte de Wagner? Eu nunca faria isso!


-Você fez coisa muito pior Liam! Nós fizemos, nós três!


-Você fez isso seu desgraçado, foi você, a ideia foi toda sua!! – ele agarra Otto pelo colarinho e grita – eu sei o que você quer Otto, quer ficar com tudo para você, não é?


-Eu tenho o direito de pensar a mesma coisa de você Liam – Otto parecia calmo, até sorriu – quem me garante que você não achou muito certo dividir os benefícios do nosso trabalho em três?


-Você sempre foi o mais ambicioso entre nós, Otto.


-Você desconfia de mim, pois eu também tenho o direito de desconfiar de você Liam... – Otto desvencilhou-se dele com um empurrão, ele arrumou o paletó – mas apesar de tudo nós temos que concluir o nosso trabalho.


-A casa de Norton está sob vigilância, como vamos chegar ao porão?


-Já não há mais vigilância alguma, eu averigüei – disse Otto – nós temos que terminar o nosso trabalho Liam, investimos muito tempo e esforço nisso para recuar agora.


-Eu não sei se posso confiar em você Otto.


-Eu também tenho motivos para não confiar em você Liam – o sorriso de Otto mantinha-se firme no seu rosto – só que não podemos recuar agora, não quando estamos quase conseguindo.


-Eu vou ter que ficar até mais tarde aqui. Tenho um relatório urgente para terminar.


-Vou esperar por você Liam.


Ambos ouviram um bater de porta e assustaram-se. Eles correram até o corredor onde não havia ninguém ali, já iam entrando na sala quando ouviram um estrondo. O bebedouro no fim do corredor caiu no chão e espalhou água por todo o canto. Algumas pessoas foram atraídas pelo barulho. Liam e Otto acharam melhor entrar na sala.



EDIFÍCIO PRESIDENTE CREVELAND

7:35 p.m.


A porta do apartamento abriu-se e uma sorridente Leslie apareceu diante de Doggett e Reyes. Ela usava um vestido formal e não tinha maquiagem. Era óbvio que não esperava ninguém. Os dois agentes sentaram-se, após recusar o oferecimento habitual de bebida.


-A nossa conversa no cemitério foi meio que interrompida Leslie.


-Eu... não sei se devo falar sobre isso agente Doggett. – Leslie parecia assustada, a voz hesitante.


-Você sofreu algum tipo de ameaça Leslie? – Reyes não parecia precisar da confirmação dela.


-Não, é que... eu não quero me meter em encrenca.


-Você não pode esconder informações a respeito de um assassinato Leslie – disse Doggett – se sabe algo é melhor falar.


-Eu juro que não sei de nada – a voz dela saiu mais alto do que ela pretendia – eu só tenho as minhas desconfianças por causa do sumiço do Charles.


-Nós levantamos a ficha desse Charles Smith e não encontramos nada. – Doggett olhou para ela ao falar.


-Na verdade foi justamente esse nada que mais nos intrigou. – disse Reyes novamente – O que sabe a respeito dele antes de entrar para empresa?


-Para dizer a verdade, eu sei muito pouco sobre a vida dele fora da empresa. Charles sempre foi muito reservado.


-Aí é que está senhorita Swansom, nós não encontramos praticamente nada a respeito dele que não tivesse ligado a empresa onde vocês trabalham.


-É como se os dados de seu colega estivessem sendo apagados. – completou Monica.


-Eu não sei o que dizer agentes, sinceramente não sei mesmo...


-Esse Charles teve algum tipo de problema com Wagner Norton? – Doggett pergunta olhando diretamente nos olhos de Leslie.


CRAWFORD & FILHOS CORRETORA

NAQUELE MESMO MOMENTO


Liam Parker digitava com pressa no computador, pois tinha que entregar aquele relatório amanhã cedo. No entanto, por mais que tentasse se concentrar ao máximo no trabalho, uma parte dele ainda estava inquieto com todos os fatos que tinham ocorrido. Em alguns momentos ele chegou a arrepender-se do que tinha feito, mas sempre chegava a mesma conclusão, não havia mais volta. Ele e Otto teriam de passar por cima das desconfianças mútuas e terminar o que haviam começado com Wagner. E hoje era o dia perfeito para isso. A senhora Norton saíra da cidade com os filhos para fugir de todo o falatório. A casa estava vazia e a vigilância da polícia já devia ter sido relaxada. Em poucas horas eles completariam o ritual. Liam apressou-se para terminar o relatório, queria ir embora dali logo, pois ficar sozinho nessa sala estava dando-lhe arrepios.

Faltavam poucas páginas agora até que o computador desligou sozinho. Liam sentiu um arrepio e uma grande irritação; horas de trabalho estavam perdidos. No mesmo instante, ele teve uma sensação desagradável, sensação esta que virou terror quando objetos de várias mesas começaram a cair no chão. Ele correu até a porta, chegou a abri-la parcialmente, mas ela fechou de repente, como se uma força invisível a tivesse empurrado, a mesma força que jogou Liam no chão. Ele ficou apavorado e começou a murmurar estranhas palavras.


-Essas palavras de nada vão adiantar agora! – uma voz gritou para Liam, mas ele não viu ninguém – Diga quem eu sou!!!


-Não pode ser, não pode ser!!! – Liam estava apavorado, as palavras que ele murmurava já não saíam mais.


-Diga quem sou eu.


O grito foi mais alto dessa vez, mas agora havia um monitor de computador aparentemente pendurado no ar. Liam tentou levantar-se, mas o monitor atingiu-o em cheio na cabeça. Vários golpes foram dados até ele estar morto no chão. O sangue de Lian jorrava em generosas quantidades. Uma parte desse sangue foi usado para escrever na parede a mesma palavra que fora escrita antes no porão de Wagner Norton: MOUQUESEU.



APARTAMENTO DE LESLIE SWANSOM


-Eles trabalharam juntos durante mais de dois anos, todos os quatro. – disse Leslie.


-E segundo você, Charles era discriminado pelos outros três.


-Muito mais do que isso agente Doggett, – Leslie andava pela sala enquanto falava – eles o ignoravam completamente.


-Ignoravam como?


-Da pior maneira que puder imaginar agente Reyes. Eles simplesmente não falavam com ele, não o ajudavam em nada, o tratavam como se não existisse.


-E porque isso?


-Vai saber agente Doggett...


-Tratar uma pessoa desse jeito me parece de uma crueldade terrível. – disse Reyes – O que eles ganhariam com isso?


-Já disse que não sei. – Doggett e Reyes olharam um para o outro, sentiam que Leslie escondia alguma coisa.


-Você tinha conhecimento das atividades de Wagner Norton?


-Se está falando daquela história de satanismo... eu nunca tinha ouvido falar agente Doggett.


-Eu creio que já é o bastante por enquanto senhorita Swansom – Doggett levantou-se enquanto falava, Mônica fez o mesmo, nesse exato momento o celular dele tocou – John Doggett! – ele olhou para sua parceira e esta percebeu que algo grave acontecera – Nós já estamos indo.


-O que foi John?


-Acabaram de encontrar o corpo morto de Liam Parker na sala onde ele trabalhava.


UMA HORA DEPOIS


O corpo de Liam Parker estava sendo levado para ser autopsiado. Doggett olhava a palavra escrita na parede da sala, a mesma que vira no porão da primeira vítima. Reyes estava conversando com o vigia que encontrou o corpo. O homem estava nervoso, repetindo a todo momento que ouvira um grande barulho vindo da sala onde a vítima trabalhava, mas ao chegar lá, encontrou apenas o corpo dele. A agente Harrison chegou quando o corpo já tinha sido levado. Após um rápido cumprimento dirigido à Mônica, foi direto para a sala onde ocorreu o crime. Doggett já estava revirando as mesas a procura de algo.


-Encontrou alguma coisa agente Doggett?


-Nada que pareça importante agente Harrison...


-Ainda não consigo entender o que significa essa palavra, – disse Mônica, que tinha acabado de entrar na sala, também encarando a palavra escrita na parede com o sangue da vítima – talvez seja uma espécie de invocação...


-Eu passei o dia todo procurando-a em toda literatura disponível sobre bruxaria e cultos satânicos, mas não achei nada – Harrison reparou em algo que estava sobre a mesa que era de Charles. Era um pequeno livrinho de jogos que chamou a sua atenção e começou a examiná-lo.


-A mim parece mais do que claro que esse assassino é o tal de Charles, – disse Doggett – um caso clássico de vingança.


-Haviam muitas pessoas na rua onde Wagner Norton morava e ninguém viu o assassino arrombar a casa dele – disse Reyes cruzando os braços e observando seu parceiro – e dessa vez ele entrou no prédio passando pela vigilância.


-E isso significa o que Mônica?


-Vamos ver as fitas de vigilância primeiro, depois eu digo o que acho – Mônica já estava saindo com Doggett quando se voltou para a agente Harrison. Ela ainda estava entretida com o livrinho de jogos que achara – Você não vem agente Harrison?


-Vão vocês – disse ela enquanto fazia algumas anotações num pedaço de papel – eu vou daqui a pouco.


MEIA HORA DEPOIS


Doggett e Reyes estavam vendo a fitas de vigilância, mas ainda não haviam encontrado nada. Mesmo após um exame minucioso, não havia nenhum sinal de alguém suspeito no prédio.


-É como eu havia dito – o vigia estava junto a eles – eu não vi ninguém suspeito entrar aqui.


-Você lembra de Charles Smith senhor... – Mônica olhou para o crachá na altura do peito dele – senhor Goyle – ela e Doggett notaram o esforço que o homem estava fazendo para lembrar.


-Para dizer a verdade... é estranho porque eu sou um ótimo fisionomista, faz parte do meu trabalho sabe.


-Não consegue lembrar dele? – Monica trocou um olhar intrigado com Doggett.


-Eu sei que parece loucura mas... – ele parecia verdadeiramente espantado – não consigo mesmo... é... é como se ele não existisse sabe, para dizer a verdade se vocês não tivessem falado o nome dele eu... — ele coçou a cabeça intrigado – que coisa estranha...


Doggett e Mônica estavam espantados com aquilo, eles voltaram sua atenção para as fitas de vigilância e Mônica notou algo.


-Pare essa imagem! – ela olhou intrigada a imagem que mostrava a porta da sala onde Liam estava, abrir sozinha – Volte um pouco e coloque no quadro-a-quadro – eles viram a imagem sendo passada um quadro de cada vez até que deram um sorriso vitorioso.


-A maçaneta girou sozinha – disse Doggett – como se a porta tivesse sido aberta!


-Por alguém invisível! – completou Mônica, ela olhou pra ele com um sorriso desconcertante.


-Alguém invisível, rituais de satanismo, um homem que parece ter deixado de existir... – a agente Harrison acabara de entrar e tinha um ar vitorioso no rosto – O que mais vamos ter?


-Achou alguma coisa na sala agente Harrison?


-Descobri o quer dizer MOUQUESEU. – ela mostrou o livrinho de jogos que encontrara – Não era por acaso que não conseguíamos encontrar a palavra em canto nenhum. – ela mostrou um papel onde havia feito algumas anotações, estava cheio de palavras escritas, Doggett e Reyes não precisaram olhar muito tempo para perceber do que se tratava, entre elas, uma frase, que era na verdade uma pergunta: QUEM SOU EU? – Ao que parece Charles Smith adorava anagramas.


-“Quem sou eu”? – Monica disse – uma boa pergunta para alguém que parece estar deixando de existir.


-Eu tinha pego esse livro quando examinei a mesa que era de Charles Smith – disse Doggett – mas não tinha dado importância a ele. – Doggett deu um de seus raros sorrisos para a agente Harrison – Eu lhe devo desculpas, agente Harrison. Quando Skinner me disse que você nos auxiliaria nesse caso eu... achei que não tinha sido uma boa idéia. Eu estava enganado.


Leila Harrison ficou alguns segundos parada, não sabia bem o que dizer. Foi com grande esforço que ela reprimiu a vontade de se atirar nos braços do agente Doggett e agradecer o elogio. Felizmente ela se controlou, não queria perder o respeito conquistado com uma atitude infantil daquelas. Ela apenas sorriu e disse:


-O que é isso agente Doggett, apenas fiz o meu trabalho.


-Temos que encontrar Otto Fontaine, John.


-Acha que ele pode estar por trás disso tudo?


-Ou então pode ser a próxima vítima – disse Reyes – de qualquer forma temos que encontrá-lo.


-Com licença agentes. – o vigia falou timidamente com eles – O senhor Fontaine me incumbiu de dar um recado ao senhor Parker quando ele fosse embora.


-Que recado era esse?


-Bom agente Doggett, ele me disse para lembrar a ele do trabalho que iam completar. – Doggett, Reyes e Harrison olharam uns para os outros.


-O porão de Wagner Norton, – disse Doggett – ele deve estar lá!


Notas finais
Terceiro capítulo postado, como prometido. Próxima atualização será dia 23/03. Aguardem.