For the love of her
6 Visitas inesperadas
Notas iniciais
Apesar de estar quase convencida da frase de Emma, antes mesmo de reencontrá-la, eu travo diante dela fitando um par de olhos esperançosos por mais que haja um par de olheiras enfraquecendo sua beleza. Me pergunto se eu devia me sentir apaixonada por ela, se aquilo que inventei dela ser filha dos meus clientes é uma grande asneira e que talvez eu possa dizer que existe algo entre nós maior que generosidade. Emma não usou a palavra paixão, ela disse que me ama, é diferente. Não sei se concordo com sua declaração, não acho que ela esteja mesmo me amando, é cedo para dizer isso. Se eu fosse ela, não diria nada sem ter certeza do que estou pensando, como é o caso de Kris toda vez que falo dela. Não gosto de Kris e ponto. Agora Emma... Não consigo definir o que me bloqueia responde-la, talvez seja isso que eu sinta por ela e não sei o nome. Felizmente ela entende o que há comigo e deixa a necessidade de resposta implícita para sua declaração.
— Não precisa se dar o trabalho de dizer que estou errada. Eu nunca tive tanta certeza de algo na minha vida. Digo “acho” porque a cada dia que passa os meus níveis de carência de você se tornam um vício, e é diferente das drogas. Tem duas semanas que a gente se conhece, desde a primeira vez em que te vi eu soube que havia alguma coisa em você feita pra mim. As insinuações que faço da gente se pegando não são nada comparadas ao que imagino. Hoje entendo a Kris, ela não é só possessiva, ela teve experiências boas o bastante ao seu lado para sentir a mulher maravilhosa que existe aqui. — ela fala essas coisas deixando uma mão sobre meu peito, o seio esquerdo onde bate o coração. Ela está sentindo a reação imediata dele a tudo o que me confessa. — Se vai demorar pra você se confessar, tudo bem, sou paciente. Mas o que me fez querer te dizer foi o fato de você ter ido me buscar no hospital. No começo não queria pensar, então você veio e depois que foi embora eu percebi que nenhuma outra pessoa no mundo ia me querer tanto. Você também gosta de mim, eu sei, só esse seu ego gigante não deixa que enxergue. Pode me chamar de convencida, de tudo. Isso só vai contribuir para que eu sinta mais certeza.
Minhas pernas estão tremendo mais que as dela. Emma me deixa bamba, estranha e ao mesmo tempo leve. Ninguém me disse palavras tão diretas, nunca uma pessoa se declarou para mim dessa maneira. Ela me põe em um caminho sem volta, e o caminho não é o que ela tomou. É um caminho que eu escolhi sem querer há malditas duas semanas. É o momento exato para beijá-la. Ela me olha com seus olhos pidões e brilhantes, eu toco nas maçãs de seu rosto pálido, ambas as bocas sedentas para se tocarem, mas meus olhos se fecham e me solto dela, me viro voltando ao quarto. Eu sofro por não conseguir beijá-la.
— Emma... Não torne nossa convivência complicada.
— Quem está tornando isso complicado é você. — Ela vem atrás de mim.
Me sento na beira da cama, meu cotovelo se apoia na coxa e minha mão alcança minha testa. Esfrego-a como se pudesse livrar minha cabeça dessa história maluca de amor.
— Só não sei... São apenas duas semanas, nos tornamos amigas, você está apegada a mim, pode ter se enganado.
— Você vai continuar acreditando que somos amigas? Não me incomoda, sério. Não estou te obrigando a gostar de mim, de dizer que também sente a mesma coisa. Estou avisando que quando olhar para si e se der uma chance quero que me enxergue como mulher. A mulher que você tanto procura e não se deu conta.
Ela sai devagar do quarto, não consigo olhar para ela. Ouço quando fecha a porta do quarto de hóspedes. Fico restrita a um silêncio ensurdecedor a partir de então, nem lá embaixo na rua ouço o barulho das buzinas e da cidade funcionando a todo vapor.
Preciso aceitar o amor de Emma se quero continuar ajudando, isso não significa que eu precise retribuir. Passo uma hora refletindo na cama. Talvez eu devesse ir trabalhar, mas há Emma um pouco indisposta depois da alta do hospital, decido ficar.
A imaginação voa longe enquanto espero o almoço que peço chegar. Não quero colocar um ponto final nas esperanças de Emma, eu sou a esperança dela, mas acho que seu sentimento por mim abre um leque de dúvidas, mais minhas do que dela; O talento de Emma em me provocar questões internas é uma arma poderosa. Estive esses dias todos me questionando sobre quem eu era e o que queria sentir de verdade, me policiando o tempo inteiro para não ultrapassar barreiras com ela, quando na verdade eu só criava um muro ainda maior em minha volta. É por essa razão que não quero ninguém, não gosto de ninguém, como a própria Emma me alertou, não preciso de ninguém. Ou eu precise e não esteja querendo abrir mão da autossuficiência. Estou convencida de que não sou livre. Há um ano me encontro com mulheres e as dispenso após um drinque e uma noite de sexo. Desde quando isso é ser livre? Estou cada vez mais distante de quem ambicionei ser. Volta a retrospectiva da minha vida e onde aquela vida de mulher solteira independente começou, ou eu devia dizer, mulher solteira e amargurada?
Volto a pensar em Emma.
Ela pode muito bem ter surgido em minha vida para derrubar a barreira. E se ela conseguir? Minhas obrigações para com ela se tornam maiores, imensas. Tenho a necessidade de arrancar o vício dela, e ela de me domar como se convivesse com uma fera machucada. Emma não é exclusiva de ajuda, eu também preciso. Não estou gostando de compreender o quanto. Vamos tratar desse assunto como trato astrologia, uma grande descoberta inútil. Existem muitas verdades inúteis para mim que não são para os outros, não quero desmerecer a crença de ninguém. Então penso em respeitar Emma se ela acredita tanto que me ama, continuar sendo a pessoa que ela conheceu há duas semanas, como se essa declaração de amor não tivesse acontecido para que não haja chances de ocorrer nada amoroso entre nós. Mas assim como o horóscopo que acabo lendo sem querer quando abro uma revista feminina, a declaração de Emma não é mais uma verdade inútil a partir do momento em que me agrada. Ser amada por alguém é bom, é excelente, talvez eu nunca tenha me dado conta do quanto e minha barreira construída pedra sobre pedra me protege de sentir qualquer grandeza dessa em completude.
O almoço chega, eu paro de pensar no assunto por instantes até que preciso chamar a loira para almoçar. Me lembro que ela está fraca, seria mais gentil servi-la no quarto, dessa forma eu espalho a comida em um prato, coloco sobre uma bandeja e levo com um copo d’água para ela.
A porta do quarto não está fechada, eu empurro com tranquilidade entrando e vejo Emma dormindo, coberta até o ombro com o lençol que não troquei desde que ela sumira. Não são mais os efeitos do sedativo que a mantém adormecida, é o próprio cansaço por ter vagado tanto pelas ruas à minha espera. Deixo ela em paz e volto com a bandeja para a cozinha, guardo seu almoço e decido trabalhar em casa essa tarde. Não vai ser um dia perdido afinal.
Emma acorda quase dez horas depois, é tarde e ela aparece na porta do escritório do apartamento sorrindo para mim, ainda que seu sorriso seja torto e esquisito.
— Boa noite. — ela diz, apoiando a mão na porta.
— Boa noite, Emma. Se sente melhor? — pergunto parando o que faço no mesmo momento.
— É, até que sim. Sinto muita fome, o que tem para comer?
— Encomendei o almoço, mas você dormiu antes de chegar. Guardei o seu prato no forno.
Me levanto assim que falo, largando os documentos na mesa para trás e seguro Emma pela mão a levando até a cozinha. Sirvo sua janta – o almoço de mais cedo – enquanto ela me observa quieta, sentada no banco da divisória entre a sala e o outro recinto. Ela está serena, sorrindo como Monalisa ao me observar, não consigo definir se me admira ou está com raiva, mas ela está ali vestida com uma camisa de dormir. Sei que não está vestindo uma calça ou short, apenas a calcinha para se sentir confortável e não me aborrece que ande assim pela casa, pois ela vem passando os dias assim desde que a trouxe.
Entrego o prato e busco a jarra com água gelada, sirvo em um copo grande de vidro e ela agradece.
— Obrigada. — em seguida começa a jantar, muito educada, tomando cuidado para não encostar os cotovelos na bancada.
Dá para ver o quanto Emma foi bem criada pelo casal Swan. Ela não se portaria desse jeito se não tivesse aprendido, não cortaria a carne como se o talher fosse feito de cristal e não mastigaria de boca fechada com tanta calma com a fome que dizia estar. Conheço mulheres muito educadas, mulheres finas e frescas, mas gosto como Emma parece uma princesa ainda que seu estado físico e emocional não mostrem isso.
Me sento a frente dela no outro lado da bancada e belisco cookies de mel por já ter jantado. Em uma pausa estratégica, após limpar os lábios com um guardanapo achado ali ao lado, Emma levanta os olhos para mim, vai fazer uma pergunta certamente.
— Braba pelo o que falei com você hoje de manhã?
— Não. Nem um pouco. — falo a verdade. — E não se preocupe, nada muda entre nós, não vou expulsá-la daqui.
— Obrigada. — diz ela, voltando ao prato de comida quase vazio. Um minuto depois ela volta a perguntar: — Se estivesse no meu lugar, o que faria?
— Depende do que você está falando.
— Me refiro a se apaixonar pela pessoa que vive sob o mesmo teto que o seu.
— Eu? — levanto o copo de água que sirvo para mim e levo aos lábios sem deixar de olhar Emma. — Acho que eu iria embora.
— Hum. — Emma faz um bico para baixo, volta a comer e termina pouco tempo depois. Limpa a boca, bebe o resto de água que há no copo dela e suspira. — Não ia nem contar para a pessoa o motivo de estar indo embora?
— Não acho que seria útil.
— E se essa pessoa fosse o amor da sua vida?
— Como eu saberia?
— Simplesmente sabendo. Essas coisas a gente descobre por um acaso. Quando é a pessoa vai aparecer na situação mais inusitada, da maneira mais estranha e mesmo assim a gente sabe que é.
— Talvez eu escolhesse ficar se eu tivesse essa certeza. — mudo minha opinião.
— Eu já tomei minha decisão, consegue imaginar qual é? — da forma como ela pergunta, sei que não preciso responder. Ela se levanta sorrindo do banco e recolhe o prato sujo, o copo vazio.
A campainha do apartamento toca nos dando um susto. Ela me olha perguntando se eu espero por alguém a essa hora. Vou até a porta e vejo um casal nada contente do lado de fora.
Os Swan me olham e não entendo o que fazem ali. Margaret e David parecem uma dupla de detetives da polícia prestes a me mostrar seus distintivos e começarem um interrogatório.
É David quem começa:
— Lamentamos precisar vir até seu apartamento, só nos explique por que trouxe Emma para cá sem nos informar?
Não tenho a mínima noção de como souberam que eu havia trazido Emma para casa. Os Swan me olhavam com decepção, especialmente Margaret que cruzara os braços quando abri a porta e não desfez-se mais do nó na altura do busto.
— Senhor Swan, deixe-me explicar...
— Seja breve, Mills. — Margaret fala me interrompendo.
Coloco minhas mãos na cintura e ergo o rosto o suficiente para encará-los de igual. Emma, da cozinha, olha para mim mais pálida do que parecia antes.
— A filha dos senhores não tinha para onde ir. Ofereci meu apartamento por alguns dias caso ela quisesse aceitar a ajuda. — explico.
— Ora, sua aproveitadora! — Margaret não interpreta bem minha explicação e fala entre os dentes, David precisa contê-la.
— Onde ela está? Vamos leva-la imediatamente. — David diz segurando sua mulher que tenta de todas as formas não me dizer mais um monte de coisas a cerca da minha sexualidade.
— Ela trouxe Emma para se aproveitar dela, não vê, David? Ter contratado essa mulher foi um erro! — uma hora não consegue.
— Margaret, essa ideia foi sua. — ele a lembra. Volta a me olhar. — Diga a Emma que estamos aqui fora e queremos conversar com ela, queremos que venha conosco para casa.
— Acho muito difícil que ela queira conversar com os senhores. — olho para ela de relance.
— Emma está sendo mantida refém, David. Essa mulher sequestrou a nossa filha! — Margaret disparou sua metralhadora de absurdos. — Se não fizermos alguma coisa Emma vai continuar sendo abusada por essazinha aí. Gostou da minha filha porque é diferente das mulheres que conhece. Gente baixa, David, da pior qualidade. Um horror o que essa mulher faz só porque é famosa e endinheirada. Se eu soubesse desde o começo... Os jornais me enganaram.
— Aconselho a senhora a diminuir o tom ao se referir a mim ou o que eu faço da minha vida. Sobre sua filha, ela está sendo tratada da melhor maneira possível dentro do meu apartamento, se for o caso, pergunte a ela mesma.
— Chame Emma, por favor. — pediu David, tendo dificuldades para conter a esposa.
Ia acenar para Emma com a cabeça quando ela desapareceu da cozinha. Emma estava atrás de mim antes mesmo de me dar conta. Os pais abriram a boca com o susto de ver a filha no estado em que se encontrava. Ambos nunca tinham visto Emma tão abatida. Dou azar de entregar a filha deles na pior das condições, sendo que prometi encontra-la sã e salva.
— Minha filha, o que foi que aconteceu? — Margaret tira as mãos da boca após um breve momento de desamparo ao ver Emma. — Onde está sua roupa? — se refere a falta de roupas de baixo em Emma.
Ela toma a dianteira da porta e se endireita para mostrar a eles que na realidade aquilo é apenas uma fase.
— Estou bem. Me meti numa encrenca semana passada, mas Regina me buscou no hospital, ela está muito preocupada comigo como podem ver.
Margaret tenta tocar na filha, ela alcança seu rosto, seus cabelos. David também quer abraçar a filha, mas só consegue segurar seu pulso fino.
— Não é o que parece, Emma. — ele fala.
— Você precisa vir com a gente, meu amor, vamos para casa... — Margaret insiste.
— Eu não vou voltar com ninguém para aquele lugar. Não quero voltar. — a voz de Emma saiu decisiva.
— Mas Emma, essa mulher...
— Não fala da Regina, ela salvou a minha vida. — Emma aperta os braços da própria mãe. — Pensa muito antes de falar qualquer coisa dela, tá ouvindo? A Regina me encontrou, me trouxe pra cá e me ajudou quando eu pensava que não havia mais motivo para continuar vivendo, então cala essa boca, porque esse seu preconceito é muito feio.
— Não fale assim com sua mãe, Emma. — David diz, autoritário.
— Falo sim se ela continuar inventando coisas. Saibam vocês que não quero voltar pra casa, eu estou bem morando aqui por enquanto. Me deixem em paz.
— O que essa mulher tem te dado, hein, minha filha? — Margaret começa a chorar, mas não vejo uma gota escorrendo de seus olhos.
Emma solta um riso irônico.
— Uma coisa que vocês em todos esses anos nunca foram capazes. Compreensão.
— Você tem usado alguma coisa forte, Emma? — David quer acreditar na filha.
— Só cigarro. Regina não gosta muito que eu fume, então até isso eu ‘tô tentando evitar.
O casal me olha, eu estou atrás de Emma, parada com as mãos na cintura esperando a conclusão daquela inesperada visita tarde da noite. Margaret perde a pose, não vai adiantar falar o que for, Emma não quer voltar.
— A minha vontade é de chamar a polícia e tirar você daqui.
— Se você fizer isso, mãe, eu juro que eu sumo, eu vou sumir pra tão longe que nem a C.I.A. me encontra, nem o F.B.I. nem o Papa! — Emma fala com tanta convicção que chega a tremer. — Eu sei que é difícil de acreditar, ainda mais porque Regina me trouxe para o apartamento dela e vocês são os clientes. Mas eu garanto que ela tem feito coisas boas para mim. Não, mãe, ela não abusa de mim, ela é muito respeitosa para abusar de mim. Ela é a única que se importa, diferente de vocês que na primeira oportunidade vão me colocar em uma clínica e depois me mandar pra Londres só para ser o pau mandado de vocês. Me deixem em paz! Eu tô bem se é isso que querem saber.
Os dois estão sérios, não se conformam, mas não falam nada. Margaret e David levantam a bandeira branca dando as costas. Antes de entrarem no elevador, ele se vira e dirige a palavra a mim:
— Seus serviços não são mais necessários. Vamos enviar a sua parte em dois dias, agradecemos pelo esforço em achar a nossa filha.
Ele entra no elevador junto da mulher e a porta se fecha. É possível ver Margaret desabando nos braços dele, obviamente abalada com a recusa de Emma. Acho que é a última vez que o casal Swan tem uma conversa com a filha. Não há como leva-la de volta, eles a perderam. O mais irônico é que não perderam a filha para as drogas como presumiam. Presunçosamente penso que perderam Emma para mim.
— Como esses dois descobriram o meu endereço? — faço a pergunta enquanto Emma fecha a porta do apartamento, ela volta até mim e suas olheiras estão mais fundas de cansaço só pela mínima discussão que teve com a mãe.
— Eles são dois parasitas querendo sugar energias. Meus pais não estão preocupados comigo, eles estão preocupados com o futuro do dinheiro deles, e para eles eu sou esse futuro. Vão me caçar até no inferno. Não deve ter sido difícil te achar se você apareceu em jornais. Eles fuçam mais do que duas ratazanas no lixo.
Abano a cabeça e ando pela sala.
— Isso está errado, pensei que confiassem em mim.
— Ah, você não conhece a minha mãe, ela é a mais hipócrita dos dois. — Emma se aproxima o máximo que pode, tenta segurar minha mão, mas estou andando sem parar de um lado para o outro. — Desculpe pelas coisas ditas por ela, eu não ligo. Acho que você ficou chateada.
— Um pouco, vai passar. — eu olho para ela, paro e ela vem até mim.
— Ela pensa que temos alguma coisa, que estamos juntas. Desculpe por isso também.
— Ficou bem evidente o que ela pensa. Não se desculpe por nada, na verdade obrigada por me defender.
Emma alisa os próprios braços e deixa escapar um sorriso lindo e carinhoso.
— É a minha forma de retribuir o abrigo. — Emma se aproxima do meu rosto, me beija a bochecha e volta para o quarto de hospedes como se nada daquela visita dos pais dela tivesse acabado de acontecer.
Gostaria de me sentir tranquila como ela após reafirmar que não quer voltar para casa. Se David e Margaret não estivessem tão preocupados com ela teriam a levado a força, penso eu. Até onde o que Emma acredita é verdadeiro? Ou até onde o que seus pais acreditam é verdadeiro? Deixo as perguntas quietas e vou dormir.
Na segunda pela manhã, quando não há sinais de polícia atrás de mim por ter “sequestrado” Emma, ou qualquer recaída dela, vou trabalhar bem cedo a fim de voltar à minha velha rotina. Chego com um grande copo de café na mão acompanhada pelos estagiários da firma, fazemos algumas piadas no elevador sobre como defender um caso de fraude e como facilmente somos ludibriados por programas de justiça nos canais da Discovery. As piadas cessam quando me despeço dos rapazes e moças, me dirigindo ao meu escritório, e a primeira pessoa que vejo é Belle, minha secretária, sentada me olhando impaciente.
— Sei que não gosta de receber ninguém a essa hora da manhã, mas ela deu bons argumentos para esperar dentro da sua sala. — e aponta para o escritório, a porta fechada.
Entro olhando-a desconfiada, há uma mulher sentada na cadeira que se encontra de frente para minha mesa. O cabelo preso, o cheiro do perfume, é tudo familiar. Kris vira o rosto enquanto despejo minhas coisas sobre a mesa.
— Bom dia, querida. — é cínica o bastante para me dirigir a palavra.
Paro e olho para ela, ainda de pé e não pretendo me sentar enquanto não vê-la fora do meu recinto.
— Como vai, Kris?
— Melhor agora, com certeza. Podemos conversar? — sua voz aspira a inocência, não me atrevo a negar, essa pode ser uma excelente oportunidade de dispensá-la.
— Claro, mas, por gentileza, seja direta.
Kris tenta me comover com seus olhos maquiados em excesso, mas essa estratégia está dando errado.
— Vim pedir perdão pela noite do coquetel. — ela fala sem graça, é a primeira vez que acredito em uma timidez da parte dela. — Agi muito mal com você. Compreende que sinto ciúmes, querida?
— Kris, você não acha que está um pouco tarde para pedir perdão? Poderia ter conversado comigo uma semana atrás.
— Como se não te encontrava, não conseguia entrar em contato com você?! Entendo que esteja com raiva de mim, só não havia necessidade de bloquear o meu número de celular.
— Quer mesmo saber por que bloqueio suas ligações e evito me encontrar com você? Bem, isso é evidente, não quero me encontrar com você, não quero falar com você, não quero estar envolvida com nada que tenha a ver com você.
No mesmo segundo ela se ergue e me enfrenta, mas não é rude, ou agressiva, ela é aflita.
— Temos uma ação em andamento na justiça, pedi que me representasse, como consegue dizer uma barbaridade dessas?
— Porque desde que passamos a nos encontrar nosso relacionamento passou de ser algo entre cliente e advogada. Você queria mais de mim, um tipo de relacionamento que não posso oferecer.
Ela desmonta, sua aflição se transforma em obsessão. Kris me agarra pela gola de repente, quer me sufocar.
— É ela não é, a garota de programa que levou para o coquetel? O que ela tem que eu não tenho?
— Posso criar uma lista de exemplos.
Kris me larga, urra entre os dentes, bate nos meus ombros, me empurra.
— Como tem coragem de me rebaixar a gente desse nível, Regina Vitória? Você enlouqueceu!
Falando desse jeito Kris me lembra Margaret Swan comparando sua filha às mulheres com quem me envolvo.
— Enlouqueci mesmo, acertou. E isso tem feito muito bem para mim.
Ser irônica não está me ajudando a afastar Kris de vez, talvez eu deva ser mais enérgica.
— Você já entendeu tudo, não é? Não quero mais ter esse envolvimento com você. Se me quiser como advogada você terá, como amante, nunca mais. Basta, Kris. Não gosto do modo como lida com as pessoas, está sempre no controle de tudo e não sabe perder. Chega a ser desleal. Vá embora. Esfrie sua cabeça. Um dia conversamos melhor sobre esse assunto, se é que não fui clara agora.
A ficha dela demora, mas cai e com o orgulho que lhe resta ela recolhe a bolsa, põe sobre o ombro e sai da sala segurando o choro.
Conheço essa história, embora seja a primeira vez que a vivo para comprovar. Kris é a primeira mulher a levar um fora meu, não é um motivo de orgulho, nenhum, ainda assim é um acontecimento inédito. As mulheres com quem me envolvi pareciam saber que nossos casos durariam só por uma noite. Kris não era dessas. Sinto pena de pessoas como ela, do tipo que nunca se contentam com menos do que acham que merecem. Esse tipo de gente nunca é feliz.
É sete da noite e milagrosamente não pego transito ao voltar para casa. Chego no apartamento sendo seduzida pelo cheiro de comida no forno. Ao entrar o cheiro está realmente fenomenal para alguém que não se alimenta desde uma da tarde, Emma está preparando alguma coisa muito boa, mas não é apenas o cheiro do jantar que me pega desprevenida. O apartamento em si está um brinco; Emma faz o favor de limpar e reorganizar cada canto da sala, antes minimalista e pouco atrativa mesmo que fosse um lugar espaçoso. Todos os móveis estão em posições diferentes e não faço noção de como Emma conseguiu mudar tudo sozinha. Pelo visto ela passou boa parte do dia ocupada com esse trabalho, e de certa forma entendo que queira se distrair para não ocupar a mente com futilidades e pensamentos errados. Estou muito contente olhando minha “nova velha” sala gostando do ar moderno que ficou no espaço, querendo agradecer a loira pelo o que fez.
Olho para todos os lados e a encontro na sacada lendo um livro. Está com o visual despojado de sempre. Uma camisa comprida e calcinha, porém hoje os cabelos estão presos no alto. Se ela usasse um lenço eu a chamaria de gata borralheira.
— Posso saber o que há de tão interessante nesse livro?
Emma ouve a minha voz, me vê por cima do ombro e mostra a capa do livro: As melhores receitas do Programa Martha Stewart. Há uma foto da apresentadora na capa preparando um peru que é metade do tamanho de seu corpo. Meu Deus, Martha Stewart ainda está viva?! Ela deve ter uns cem anos julgando pelo tempo em que está na televisão. Esqueço esse estúpido devaneio e lembro que minha mãe foi uma grande fã da sra. Stewart e consequentemente me presenteou com esse livro no natal de 2007.
— Receitas. Descobri que meu talento para cozinhar está aflorando.
— O cheiro que vem vindo lá de fora é de alguma receita que aprendeu desse livro?
Emma mexe a cabeça positivamente.
— É, mas você só vai descobrir quando eu tirar do forno. — ela vem, me pega pela mão e me traz para o meio da sala. Dá de ombros, esperando que eu diga alguma coisa sobre o grande feito do dia.
— Eu vi! Adorei! Não sabia que ficaria tão diferente com essa arrumação. — mostro entusiasmo.
— Quando acordei olhei pra essa sala e pensei: Que decoração mais sem graça! Então mudei tudo. Pode agradecer, eu fiz de um jeito que você não tinha como não gostar.
— Acertou em cheio. Parece que a senhorita tem mais talentos além da culinária.
— Digamos que eu seja múltipla. — ela suspira. — Me resta encontrar um talento que eu ame muito fazer. Achei que não era possível gostar de trabalhar com algo que se ame fazer, agora começo a pensar que talvez eu seja capaz.
— Algum motivo fez você mudar de ideia?
— Estou esperando ter certeza, assim poderei dizer com convicção que é isso mesmo a razão pra eu ter mudado de ideia sobre mim. Não é um motivo qualquer, é só isso que sei.
Com seu jeito de falar sobre seu motivo secreto Emma me faz sorrir. Toco seu rosto, desconfiando que a razão para ela estar disposta a seguir um rumo diferente na vida seja a visita que seus pais fizeram na semana passada. As coisas que disse a eles deviam estar travadas em sua garganta e a partir do momento em que libertou sua fúria, ela libertou a si mesma.
Faço carinho nela, sua bochecha não possuiu mais o aspecto áspero de quem consume entorpecentes. Aos poucos Emma volta a ser bela como a moça da foto que tenho guardada.
Emma, de olhos fechados, respira fundo, se entregando aquele singelo carinho meu e só não se envolve em mim porque o forno apita e ela desperta.
— O nosso jantar!
Ela corre até a cozinha e tira uma bandeja do forno. Emma diz o nome da refeição, mas eu não ouço por estar prestando atenção nela. Estou parada no meio da sala olhando para ela há tanto tempo que não ouço nem quando me chama para sentar. Ela se aproxima, retira meu terno, o guarda e volta. Ainda estou no mesmo lugar.
— Regina, o que foi?
— Nada. — finalmente abro a boca. — Só... Pensando.
Vamos para a bancada, jantamos entre uma conversa animada até a parte em me lembro de Kris. Um dilema se instala na minha próxima frase. Termino o suco do copo onde bebo; Emma limpa os lábios. Tomo coragem e decido falar sobre a outra visita estranha recebida hoje mais cedo.
— Hoje Kris foi ao escritório. — falo sem olhar nos olhos dela.
Emma para o que está fazendo e seu semblante muda.
— E o que ela queria?
— Pedir perdão.
— Ah, agora ela resolveu pedir perdão. — Emma não gosta nada de saber sobre Kris. Porém, comecei. Tenho que terminar.
— Também não gostei da forma como ela escolheu se desculpar.
— Depois de tudo duvido que essa mulher esteja arrependida. Por favor, me diz que você falou poucas e boas pra ela. — o sangue de Emma ferve, me encarava com medo de ouvir o que não queria.
— Eu disse o que ela precisava ouvir. Nós duas não temos nada que não seja uma relação profissional, se ela quer outra coisa isso não será possível. Acredito que Kris tenha ido me procurar pensando em me convencer do seu arrependimento. Ela questionou se o problema era você. Queria saber o que você tinha que ela não tinha. A questão não é essa, a questão é que nos envolvemos além da conta e ela não soube perder.
— Só falta ela estar pensando que perdeu você pra mim.
— É o que ela pensa.
A loira coça a cabeça, se levanta da mesa e solta uma risada alta.
— Isso é muito engraçado, desculpa.
— Deixe ela pensar o que ela quiser, a partir de hoje ela entendeu que nunca vamos ter nada e a tendência é que eu me afaste mais se insistir.
— Não adianta, ela vai te procurar qualquer hora dessas. Pior, ela vai fazer igual os meus pais fizeram, vai aparecer aí na sua porta e sabe o que vai acontecer? Ela vai me ver morando aqui.
— Eu darei ordens ao porteiro para não deixa-la subir caso ela apareça. É impressão minha ou você tem medo dela?
Emma suspira desapontada com a própria reação exagerada.
— Não gosto dela. — diz, sucinta.
Fico de pé esperando uma explicação de Emma, afinal não enxergo Kris como uma ameaça. Mas não posso contrariar sem entender o que se passa na cabeça dela.
— Já passou, Emma. O que houve no coquetel não vai acontecer de novo.
— Mas pode acontecer coisa pior.
— Como o quê? Dê um exemplo.
Em pouco tempo Emma se mostra muito tensa, não entendo sua inquietação. É justo que ela esteja magoada ainda pelo o ocorrido no coquetel de Kris, porém vejo uma mulher com mais receio de outra apaixonada por mim. Certo, certo... Este é o fator chave do nervosismo dela ao falarmos de Kris, ela receia pela concorrência, especialmente agora que confessou ser apaixonada por mim também. Se ela soubesse que entre ela e Kris existe um abismo, esse medo todo de me ver pendendo para o lado da editora de revista iria por água abaixo.
— Ela é rica, não é? E se contratar alguém para dar um fim em mim? E se me oferece milhões de dólares só para deixar esse apartamento? E se você lá no fundo do seu peito não sentisse uma coisinha por ela, nem que seja bem pequena? É assim que começam as boas relações, com ódio.
— Você não acha que está inventando coisas demais? Essas ideias são muito surreais para acontecerem.
— Mas existe a possibilidade partindo de uma mulher louca como ela.
Passo a mão pelos meus cabelos, perco a paciência e resolvo dizer algo do qual eu vou me arrepender depois.
— Não sei não, Emma, você está criando problema onde não existe. Acho que ainda está sob os efeitos colaterais das coisas que usou nesses últimos dias.
— Ah, é o que você pensa mesmo?! — Ela fala imediatamente. Está corada, os olhos muito agitados. Ela me fuzila. — Bom saber.
— Não, não é o que eu penso na realidade, é a sua paranoia. — essas palavras simplesmente saem, acabo comprando uma briga de grandes proporções.
— Sua idiota! — ela esbraveja.
Vou me virar para responde-la, mas ela já está perto o suficiente para levantar a mão contra meu rosto. Dá tempo de segurar seu pulso e impedir o tapa na cara.
— Você precisa esfriar a cabeça, menina.
— Me solta!
Largo Emma como ela pede e nos olhamos por vários segundos. Ela sente tanta raiva de mim nesse momento que juro ver fogo brotando de sua pupila dilatada. Só então me dou conta do que falei para ela, toquei em uma ferida aberta. Abro os lábios para dizer o “perdão” mas não consigo falar, minha voz não sai da garganta. O tempo vai passando, ela me olha com um controle incrível apesar da raiva. Quer me empurrar, qualquer coisa e eu desisto envergonhada. Volto pelo corredor até meu quarto e me fecho no closet.
Sou eu quem esfrio a cabeça debaixo de um banho de água fria. Está tudo rodando. O que eu acabei de dizer a ela? Sou tão covarde a esse ponto? Fora da ducha e após uma grande quantidade de minutos na frente do espelho do banheiro, visto o roupão e saio do quarto com a única intenção de me desculpar e precisa ser da minha maneira, por impulso, caso contrário eu nunca mais vou conseguir falar olhando nos olhos de Emma.
— Emma, preciso pedir...
Ela está no sofá, sentada, e quando levanta os olhos para mim noto que esteve chorando.
— ... Perdão.
— Tá tudo bem, não precisa. — Ao tentar passar por mim a seguro. Não vou deixar que escape de mim.
— Precisa sim, eu não pensei antes de falar. — tento dizer com calma.
— Eu acho que é verdade, você está certa, eu usei muita porcaria na semana passada. — ela está sem coragem de me olhar.
— O que eu fiz não foi certo. Vou entender se estiver magoada comigo.
— Deixa quieto, esquece.
— O que posso fazer para consertar o que eu disse?
Ela sorri sem esperança alguma. Se desvencilha de mim e dá as costas.
— O que eu quero que faça você não pode me dar, não agora. — ela funga, limpa o canto dos olhos.
Não vejo como isso se resolva somente no perdão verbal ou em aceitar ouvir o desejo dela. Algo me diz que seu pedido é algo simples como um beijo, e, se for um beijo, se eu não der agora sinto que não vou dar nunca.
Estou a dois passos do quarto, o impulso me leva de volta a sala. Emma tomba comigo na entrada do corredor como se estivesse vindo me procurar. Nos tocamos, respiramos juntas, há um calor inexplicável entre nós; Só sigo o que meu coração pede que eu faça. Abraço Emma com força, sinto seu cheiro, seu corpo contra o meu e tudo faz sentido. Ansiosa eu procuro seu rosto e beijo sua boca. Não há mais mistérios, só o calor nos levando. Ela envolve seus braços em torno de mim, estou mordendo os lábios dela, puxando o beiço dela contra os dentes. Nossas línguas se enroscam, assim como suas mãos afoitas abrindo o nó do roupão e me descobrindo nua ali por baixo. Eu também preciso ser ágil, subo a camisa que ela veste e aperto seus seios firmes e excitados, ela geme quando isso acontece. Não temos tempo a perder. Pego o corpo de Emma no colo e entramos pelo corredor fazendo uma pequena pausa para nos olharmos nos olhos e ansiar pelas horas seguintes.
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