For the love of her
15 Uma maré de empecilhos
Notas iniciais
— Em que posso ajudar a senhora? — digo segurando a porta diante de uma Margaret ao mesmo tempo surpresa e comedida.
— Desculpe, Regina Mills. Antes que diga qualquer coisa, estou tão surpresa quanto você. — Ela olha um pouco por cima do meu ombro e enxerga Emma de longe dentro do escritório. — Emma?! Você está bem? — a pergunta soa preocupada, mas duvido muito que a loira tenha acreditado no tom da mãe.
— O que a senhora está fazendo aqui? — Emma se aproxima de braços cruzados e cara amarrada.
A resposta eu não saberia dizer e tinha tanta dúvida quanto, mas era bastante simples se parássemos para pensar. A mulher explicou e logo compreendemos o susto dela de nos encontrar.
— Você sabe que faço terapia em um consultório desse edifício. — Ela diz olhando para Emma, na mais absoluta normalidade. — Passei por essa placa com o nome da Regina e reconheci. Imaginei que ela estivesse aqui.
— Ah, então veio encher o saco como é da sua natureza. — Emma provoca.
— Não, eu não vim importunar ninguém. — responde a mãe. — Eu vim ter notícias suas.
Emma emudece e fica corada. Volto meus olhos a Margaret e abano a cabeça.
— Achei que a senhora e o seu marido haviam sido bem claros na nossa conversa em Londres.
— Tenham a calma, por favor. — Margaret gesticula brevemente. — Se dependesse do meu marido nós ficaríamos em Londres e a vida recomeçaria como se nunca tivéssemos uma filha. Apenas pedi para voltar porque eu precisava de notícias suas. — Ela volta a olhar para Emma e por uma razão que desconheço sei que está mentindo.
Manter Margaret no corredor do vigésimo quarto andar não parecia elegante da minha parte. Consultei Emma de relance e abri a porta para ela entrar, sem precisar dizer nada, apenas mostrar com a mão o caminho. Ela entrou timidamente, a filha deixou que chegasse perto, porém estava magoada demais para permitir um abraço na mãe.
— A senhora queira se sentar, por favor. — falo mostrando o sofá para ela.
Emma acompanha a mãe com os olhos, reprovando calada tudo o que ela tenta explicar.
— Sei o que quer me dizer, Emma, e acho que você está certa, fomos cruéis com você, erramos, tivemos atitudes muito infelizes. E, para ser sincera, eu me arrependo de deserda-la.
Pois então era por isso que Margaret estava ali, o maior arrependimento de sua vida; a Margaret que conversava conosco era uma mulher menos arrogante, muito mais tranquila, com disposição para consertar o erro e tentar convencer a filha que havia cometido um. Restava-nos saber se aquela não seria mais uma incrível encenação e saberíamos quando ela desse conta de que estávamos mesmo tendo um relacionamento sério. Contudo, da forma como ela olhava para nós duas, eu tinha grandes dúvidas ou Margaret era muito boa atriz.
— Não vem com essa! Você e o papai praticamente me escorraçaram por que não aceitam que eu ame uma mulher. Sai daqui! Viu a placa com o nome da Regina e quis falar seus desaforos. Não basta pra você, não?
— Hey, Emma, calma, ela é sua mãe. — estendo um braço na frente da loira para ela não despejar mais palavras em cima de Margaret, que está muito acuada para revidar. — Ela sabe o que ela fez e essa não é a hora de cobrar. Não tem castigo pior do que o da própria consciência.
A mulher concorda e me olha dos pés à cabeça, toma ar e se dá conta de onde está. Ela olha em volta, em seguida torna a olhar a filha com uma aparência muito melhor do que a de alguns meses, mesmo tendo passado por crises pesadas de abstinência. Margaret não sabia como fazer, muito menos o que dizer para aliviar suas palavras do restaurante em Londres, então ela é apenas direta.
— Tem razão, não há castigo pior que o da nossa consciência. Depois que David e eu saímos do restaurante, eu não pude descansar, não dormi, era impossível. Tudo o que eu via ao fechar os meus olhos era a minha filha entregue as ruas e às vezes até na pior das situações. Morta. Voltei para Nova York rezando para que não estivesse nessas condições. Eu ia procurar por outro detetive, ia fazer o possível para saber o que estava acontecendo entre vocês duas.
— A senhora duvidou que Emma fosse capaz de se cuidar sozinha? — pergunto.
— Duvidei.
— Mas eu não me cuidei sozinha mesmo, eu precisava de alguém comigo, eu precisava de suporte e a Regina foi a única pessoa nesse mundo com a capacidade de me ajudar. Por causa de uma birra idiota de vocês porque ela me ajudou, vocês perderam a única filha que tinham. — Emma contribui para afundar ainda mais a mãe no arrependimento. — Eu só queria entender, qual a lógica? Acharam que ela fosse me usar, me traficar e depois me largar nas ruas de novo porque roubei as coisas dela e vendi para me vingar? Se foi por causa de um pensamento preconceituoso desses que resolveram me descartar, eu não quero nem que você diga, quero que vá embora e me deixe para sempre. O problema é seu, você é que não serve para ser minha mãe.
A mãe de Emma ficou calada por um momento, pelo visto muito chateada por ela ter acertado em cheio nos motivos pelos quais decidiu deserdar Emma. Para quebrar aquele clima, decido oferecer um copo de água a mulher e não preciso perguntar para saber que ela precisa de um.
— Desculpe-me, por enquanto eu só tenho água com açúcar no escritório. Não inaugurei para clientes ainda. Nós acabamos de decorá-lo hoje.
— Deixou a firma? — ela segura o copo com água e franze a testa.
— Sim, eu pedi demissão ou seria demitida de qualquer forma.
— É, ela saiu da firma porque passou muitos dias se ausentando para ficar do meu lado. — Emma se vira e anda pela sala de visitas do escritório, está impaciente e incomodada. — Tive a minha pior crise dias atrás e ela ficou comigo o tempo inteiro, me ajudando a evitar que eu fizesse uma loucura. Você ainda acha que ela não é a pessoa que eu preciso pra mim? Ainda acha que estamos fazendo coisas erradas por estarmos juntas?
— Emma, eu fui criada em uma família muito rígida, me casei com um homem difícil, embora o David não aparente. Nem todas as atitudes que você toma hoje são compreensíveis de maneira tão fácil. Nós não esperávamos que você fosse recorrer aos “seus baseados” para procurar o conforto que não sabíamos dar. Se lembra como David era super protetor para compensar o tempo ausente de casa? Se lembra como nós duas éramos próximas quando você era pequena? E se lembra do que me disse quando largou a sua primeira faculdade? Sim, com certeza se lembra porque isso me choca até hoje. Não sabíamos mais o que fazer com você se envolvendo com as pessoas erradas, tomando as escolhas erradas porque foi um erro nosso lá atrás e eu sei disso mais do que nunca agora. Você me pedia tanto para que nos colocássemos pelo menos uma vez no seu lugar, mas você não quer tentar se colocar no meu lugar também? — Margaret se levanta e encara a filha de perto quando ela para. — Nós erramos, todos nós. Eu, seu pai, você; Nós te amamos, Emma, ainda que na maior parte do tempo isso tenha sido de uma maneira torta. Sinto muito se não tenho a capacidade de compreender o que está acontecendo entre você e a Regina, que de alguma forma só aconteceu porque fui procurá-la, e, se isso for verdadeiro o bastante entre vocês duas, que continue, só não me force a compreender depressa esse envolvimento, porque eu preciso primeiro ter certeza de que você ficará bem.
Emma está com os olhos marejados e pela primeira vez não tem uma resposta pronta. Ela sofre para achar palavras que caibam no momento e que não martirizem Margaret, mas quem as encontra sou eu.
— Amor não respeita o que a senhora e o seu marido criaram na cabeça de vocês, a propósito, na de ninguém. Não importa o que acharem. Não se preocupe, sua filha está bem e ficará bem estando comigo. — as duas me olham ao mesmo tempo. — Tenho um sentimento muito forte por ela, quero vencer a mesma batalha que ela, o maldito vício e não será a opinião dos outros que vai atrapalhar. Estou fazendo o possível para que Emma se cure e seja feliz e poderia até dar a minha vida por ela, a senhora pode ter certeza.
— Se ama tanto a minha filha, seria capaz de dar a ela uma vida confortável, um lar, um futuro? — A senhora Swan me intima.
Não tenho tempo para pensar, eu preciso dizer que já faço tudo isso.
— Eu não compreendi a sua pergunta, senhora.
— Minha pergunta é essa, seria capaz de dar uma vida ao lado da Emma?
— Si-Sim...— Respondo por impulso.
Entendo aquela pergunta como um quase “se casaria com a minha filha daqui a, sei lá, três anos?” Não pode ser outra coisa. Até a própria Emma pensaria nisso e é o que ela deseja, porém, é muito cedo para colocar uma aliança no dedo dela.
— Então você realmente ama a minha filha. — Margaret se afasta até a mesa da secretária e tira um talão de cheques de dentro da bolsa, começa a assinar com a primeira caneta que apanha e entrega a filha. — Emma, fique com isto, sei que vai precisar.
— Não quero. — diz a loira, fechando a cara de novo.
— Você vai precisar, aceite, é de coração.
— Ainda estou muito chateada com você para aceitar o seu dinheiro, não vai comprar o meu perdão com um pouco que seja. Vou ganhar meu próprio dinheiro trabalhando.
Sem alternativa, Margaret se vira e me entrega o cheque que ela mesma fez para Emma. Ela o põe na minha mão e fecha para que eu o guarde.
— Cuida dela com esse dinheiro, é pouco ainda, é apenas o que tenho por enquanto, mas serve para pagar as despesas, os remédios do tratamento, tudo o que ela quiser.
— Eu posso dar a Emma tudo o que ela quiser por minha conta.
— Pois então guarde esse dinheiro como se fosse um presente, não o use por enquanto, faça dele o que bem entender. — Margaret puxa a bolsa mais para cima do ombro e caminha até a porta, ela dá uma olhada em Emma antes de tocar a maçaneta e pisca.
— Espera — chama Emma. — Não quero estar enganada de novo, se eu descobrir que está armando pra cima de mim, você vai se arrepender.
— Já basta o que eu pensei e o quão infeliz eu fiz você ficar, minha filha. Uma das sensações mais terríveis de se sentir é de remorso. Agora eu peço que perdoe o seu pai, ele também não estava fazendo nada por mal. — Ela esconde o rosto.
— É isso que vocês querem, não é? Que eu tenha alguém pelo menos... Que alguém ponha um jeito em mim porque eu mesma não sou capaz, e a Regina caiu como uma luva. O único problema é que ela é mulher e vocês não querem entender.
— O tempo vai tratar de nos fazer compreender, Emma. Não sou completamente aberta a essa opção que existe no mundo moderno de vocês, não ainda. Se a Regina te ama tanto quanto diz, ela vai fazer o que eu pedi e eu vou ser obrigada a entender de uma vez por todas. Até breve, querida. — diz a mulher, abrindo a porta e deixando o escritório.
Emma e eu ficamos paradas depois de presenciar o que acabara de acontecer. Após o choque ela se aproxima e tranca a porta, encostando a testa na madeira pesada. Espero ela ter alguma nova reação, uma palavra, uma pergunta, especialmente uma que esclareça o pedido da mãe louca dela, ou eu diria, arrependida.
— Que que você acha?
— Não sei, não entendo. — guardo o cheque de Margaret dentro do bolso.
— Tenho medo de acreditar nela e ser enganada outra vez.
— Não achei que sua mãe estava mentindo, ela foi bem convincente.
— Mas ela ainda não aceita que estamos juntas.
— Porque na cabeça dela isso requer tempo e por mais clichê que seja, é verdade.
— Ela praticamente perguntou se você seria capaz de se casar comigo. — Emma sorri, corando, se vira e me acompanha. — Não liga pra ela, foi só uma pergunta idiota.
— A mim não pareceu uma pergunta idiota. — ergo uma sobrancelha.
— Não se sinta pressionada a fazer isso só porque minha mãe acha que é o certo. Você provou que me ama cuidando de mim, me dando carinho que nenhuma outra pessoa foi capaz. Pode ficar tranquila.
— Eu sei.
— Se você quisesse eu não recusaria, só pra saber.
Sorrio e beijo a testa dela.
— Talvez esse seja meu sonho de consumo, fazer parte de uma família.
— Quer conversar sobre isso? — Emma se anima e nem parece que há segundos atrás sua mãe estava no mesmo ambiente.
— Qualquer dia, se não vou acabar sonhando demais e ficando ansiosa. — me jogo no sofá e relaxo. Penso que Margaret pode ter achado ter algum direito agora que está arrependida. Provavelmente verei essa mulher outras vezes querendo falar sobre a filha dela aqui.
Bastam alguns dias para Regina Mills voltar a ser reconhecida no meio jurídico Nova Yorkino. Enquanto não consigo trazer Belle para trabalhar comigo, eu mesma cumpro as funções de secretária e chefe, e confesso dar um pouco mais de trabalho. Eu precisava ir com cuidado, estabelecer relações comerciais, fazer favores, convencer como freelancer, era muito para se pensar sozinha e nesses dias um pouco da minha esperteza ficou para trás. O telefone toca num desses dias e a voz do outro lado da linha me é muito familiar.
— Procuro por uma advogada muito competente e pelas últimas notícias, a senhora tem se lançado no mercado por conta própria. Li ao seu respeito, quero contratar os seus serviços.
— E posso saber em que os meus serviços seriam úteis? — questiono.
— É um assunto um pouco delicado, gostaria de conversar pessoalmente com a senhora. Seria um inconveniente chama-la para um café nessa tarde? Podemos conversar sobre o assunto e tratar do contrato.
— Certo. Me diga onde preciso encontra-lo e horário.
Na hora combinada apareci num restaurante-café a duas quadras do escritório. Sim, podia ser bem esquisito marcar um encontro com um cliente fora do escritório quando o assunto parecia delicado. Como se tratava de um lugar movimentado de Manhattan, eu não me dei conta da armadilha na qual esse cara queria me envolver. O reconheci no momento em que o vi sentado de costas bem ao fundo, quase escondido. Killian não mudava. Lá estava ele com seu corte militar, roupas de um verdadeiro advogado mauricinho e os expressivos olhos azuis.
O desprezo ao vê-lo embrulhou meu estômago e meu coração saltava de ódio. Ali sentado, me olhando estava o homem que quase acabou com a minha vida.
— Era você no telefone... Que bela interpretação, viu? — me sento de frente para ele, tentando não vomitar.
— Não sabe como senti sua falta. Você está ainda mais bonita do que na época em que noivamos. — ele rouba meu braço de cima da mesa, segura minha mão e beija como cortesia que não permito. Eu puxo minha mão de volta e limpo sem que veja.
— Me chamou aqui por que sentiu minha falta? É sério mesmo que me fez sair do meu escritório para isso?
— Calma, Regina. Achei que tivesse superado nosso relacionamento, e não foi por ele que liguei.
— Ora, certo, então foi pelo o quê?
— Bem, vou explicar direitinho, espero que entenda — ele coça a cabeça e mexe aquelas sobrancelhas grossas. É curioso perceber que não sinto falta do rosto bonito dele, da voz galante com sotaque britânico e do cheiro do perfume francês. Até agora estou impressionada com a audácia de Killian em me procurar. Pelo menos, ele começa a falar sério. — A empresa para qual eu trabalhava em Bufalo me deve algumas boas quantias de atrasados. Pretendo processá-los, mas descobri uma coisa, que pertence ao mesmo dono da firma para qual você trabalhou.
— Está brincando!
— Não, é sério, bem sério. Só não dei entrada em ação alguma porque descobri antes. Foi lá que comecei, foi lá que você fez sua carreira, imagine como me sinto.
— Nós começamos a nossa carreira naquela firma, consigo me imaginar no seu lugar. — coro pensando. — Que mal lhe pergunte, por que foi para Bufalo?
— Se lembra que eu trabalhava para aquela firma no Queens? Pois bem, eles fizeram um cambio, eu ia para Bufalo, ganhava dois anos de experiência e um salário tentador, depois retornava para cá e poderia pensar em me desvincular.
— Isso tá muito confuso, Killian. Processe a firma do Queens então, por que quer me meter nessa história?
Ele coça a barba, prende os lábios e faz inúmeras caras. Quem diria que mais de uma vez eu tentaria me matar por esse homem.
— Você ganhou um dos casos mais complicados da história financeira desse país, não há outra pessoa em quem eu possa confiar.
— É claro que há, Nova York tem mais de um milhão de advogados. Com certeza você tem seus amigos, para que precisava me procurar?
— Pode abaixar o tom um pouco? As pessoas estão olhando, querida. — ele pede e noto que estou de pé, quase em cima dele, pronta para enfrenta-lo em um embate nervoso. Me sento novamente e ajeito meu blazer. — Obrigado. — diz ele, desistindo de chamar um garçom. — Eu pretendia pagar o seu café, mas cafeína vai te deixar mais nervosa. Você não superou mesmo o que tivemos.
— Acha que eu não superei? Claro que eu superei. — falo mais baixo. — O que eu não esqueço é o desgosto de não ter dado certo.
Ele sente meu desdém, não é tão tapado de não perceber que não há nenhum tipo de sentimento bom entre nós.
— Tem magoa de mim?
— Não é mágoa, é algo próximo de frustração. Não tem um nome. — desvio o olhar.
— Não foi uma boa ideia ter procurado você. Sinto muito.
— Olha, Killian, sei que não é má pessoa, que fez suas escolhas e não tenho mais nada a ver com a sua vida, não vamos misturar as coisas. O que eu acho é que não cabe a mim ajuda-lo a processar a firma. Escolha outro advogado e não passe outro trote. — Me levanto, saindo do lugar.
— Regina, por favor, é sério, não há outra pessoa com quem eu possa contar. Todos os outros advogados que conheço estão implicados com as firmas dessa cidade, eles se recusariam a me ajudar.
— Meu Deus do céu, Killian, em que mundo você vive? Não está assistindo Suits? Eles vivem processando as outras firmas concorrentes sem se importar se vão perder os “amiguinhos”. Em que realidade você vive?
— Na mesma realidade em que os seus clientes vivem. Eles acreditam em você, eles querem que advogue para eles. Você é quem não deve levar as coisas para o lado pessoal. Preciso de você, Regina.
Paro ao lado da mesa e fecho meus olhos, respiro fundo, voltando a olhar aquele homem.
— Não, não precisa. Me procurou porque o seu ego pediu. As mulheres que participavam das suas orgias arranjaram outros caras mais interessantes, não é? Você percebeu que eu era a única decente, a mulher que queria um casamento e relação estável. Má notícia. Essa Regina agora tem alguém que mereça ela de verdade e faz por merecer. Eu não posso ajudar você, porque é impossível não me sentir extremamente ofendida olhando pra sua cara.
Ele se levanta e me olha nos olhos.
— Vai mesmo continuar pensando que fui o culpado pela nossa separação?
— Vou. Porque você enterrou o que eu tinha de melhor. — a resposta sai entre os dentes. — Vai por mim, Killian, não posso ser sua advogada.
Dou as costas e saio, pisando forte de maneira que o barulho do salto chame atenção.
. . .
Vou para casa e passo algumas poucas horas refletindo sobre aquele encontro com Killian. Talvez eu tenha exagerado na dose, tenha dito coisas que ele não merecia ouvir. O passado ainda era um fantasma recorrente, uma dor mal cicatrizada que eu insistia em recordar. Killian não tinha culpa de querer ser livre, ter quantos relacionamentos quisesse ao mesmo tempo e também não tinha culpa de ter escolhido me pedir em casamento quando achou conveniente. Ele tentou mudar por mim um dia, só não conseguiu e optou por si. Também fiz minha escolha ao deixa-lo pelo o que eu achava certo. Por que me ofendia tanto lembrar do que aconteceu? Não era simplesmente pelo fracasso, talvez fosse pela sensação de ter sido trocada por uma vida que eu considerava incerta.
Já estava há muito tempo me torturando com as mesmas perguntas, com a raiva que eu sem querer sentia dele, por isso era melhor esquecer e seguir adiante, contar para Emma e ouvir o que ela achava. Fui para o banheiro tirar a maquiagem, a roupa pesada e esperar pela loira que significava a minha vida agora. Ela chegou, mas demorei a perceber que me olhava da porta do banheiro enquanto eu lavava o rosto, tirava o batom vermelho vinho e limpava os olhos dos resquícios negros de lápis e sombra. A vejo do espelho quando ergo o rosto pela última vez.
— Emma — me viro e ela vem até mim, me abraça desesperadamente carente. — Oi. — sussurro e aliso suas costas. — Tudo okay?
Ela me aperta, esconde o rosto no meu peito e ouço sua voz abafada.
— Não diz nada, não me pede para dizer nada por enquanto, só me abraça, por favor me abraça.
Faço o que ela pede e ficamos um bom tempo apoiadas na pia do banheiro. Levo ela para o quarto, nos sentamos na cama e ela se agarra num travesseiro, está mais tranquila, mais confortável para me contar o que houve, porque com certeza houve algo.
— Se sente melhor? — pergunto, beliscando de leve sua bochecha.
— Uhum, melhor. Sei que você quer uma explicação.
— Se não quiser falar eu vou entender.
— Preciso contar, não ficaria em paz se escondesse o que aconteceu. Foi algo bem pequeno, mas eu me senti tão... mal.
— Então fala, eu tô com você. — digo, alisando as mãos dela, esquentando os dedos finos muito gelados.
Ela se aperta no travesseiro, está com medo da minha reação.
— Alguém hoje na faculdade, eu não sei como, me ofereceu uma pedra você já imagina de quê.
— Alguém? Alguém que você conhece?
— É, foi uma colega do August, aquele carinha que me pegava de moto, lembra? Ela tá traficando. Sabe quando você tem um mal súbito, um surto? Eu vi aquela pedra na mão dela, o bolo de gente em volta, as pessoas dando dinheiro, muito dinheiro em troca daquela porcaria e fiquei balançada. Não senti vontade, eu só fiquei tonta e com vontade de matar aquela garota. — ela cobre o rosto com as mãos e quase chora, mas está tão chateada que nem isso consegue.
— Emma, eu não sei como é a sensação, nada além do que é uma tristeza profunda, mas estou tentando me colocar no seu lugar. É difícil ver as pessoas se drogando, vendendo droga e não poder fazer nada.
— Não quero que tente se colocar no meu lugar, é muito ruim. Todo dia eu tenho que matar um leão para sobreviver. Se não é com uma crise, é com alguém tentando me afundar de novo no vício. Eu faço de tudo para não sentir vontade e daí tem os outros consumindo. Não é como se eu pudesse evitar de ver as pessoas usando, elas me aparecem, elas surgem como se eu fosse um imã. Eu não quero mais, Regina, eu quero morrer nessas horas porque parece insuportável.
De frente para ela, fiz um carinho em seu rosto. Ela se sentia exausta da luta, mas a impressão que eu tinha era de que Emma precisava passar por muitos mais embates. Eu me preocupo com ela, me preocupo em deixa-la sozinha, pelo menos ela está se esforçando ao máximo e sabe onde me encontrar.
— Você está sendo muito forte, ponha isso na sua mente. A maior luta que você tem lutado é contra você mesma.
— Sou minha maior inimiga. — ela diz baixo.
— Não foi você que me disse para me perdoar das minhas tentativas de suicídio? Então. Se perdoe pela fase ruim que você viveu quando usava drogas.
— Se eu não superar isso eu não vou conseguir, eu sinto.
— É, Emma, tem que superar o que já passou e dar um fim no que sobrou de ruim. — baixo o rosto e volto a fita-la. — O que você fez depois que a garota te ofereceu a pedra?
— Disse que não ia rolar e saí de perto, fui tomar o calmante, mas àquela altura eu estava muito mal e demorou pra fazer efeito. Dormi a aula de marketing inteira. Quando acordei eu estava sozinha na sala de aula, todo mundo já tinha ido embora.
— Passou, tá bom? Não fica lembrando. Se afasta dessas pessoas.
Ela faz que sim e lamenta em silêncio. Algo diz que preciso contar do meu dia para ela e a pergunta já é tão comum que eu espero ela fazer.
— E você? O que aconteceu? Andou chorando? Tô vendo que seus olhos tão bem inchados.
— Não, nada, foi a maquiagem, o excesso tem irritado a minha pele.
Não convenci e ela nem precisou falar.
— Tá bom, não ia conseguir esconder mesmo...
— Te conheço tempo o suficiente para saber quando você tá tentando mentir. Não tenho um bom pressentimento do que houve, mas eu sei que houve alguma coisa.
— Houve. — respiro e abano a cabeça. — Nem sei por onde começar.
— Da forma que decidir contar eu vou entender e não vou julgar. — ela me apoia com as palavras e com o olhar.
— Bem, então, foi uma situação desagradável. — começo. — Killian ligou para o escritório se passando por um cliente interessado no meu trabalho. O encontrei em uma cafeteria e ele me disse que precisa da minha ajuda em um processo. Fui grossa com ele, não consegui esquecer o que aconteceu entre a gente no passado e disse coisas das quais estou arrependida agora.
— Killian, o...
— É, ele, o cara que foi meu noivo, namorado, o cara que eu amei.
Emma fica boquiaberta.
— Ele teve coragem de te procurar. — sussurra ela.
Apoio meus cotovelos nas coxas, coço os cabelos com as mãos e me sinto confusa.
— Não aconteceu nada, ele só queria a minha ajuda e fui eu quem levou pro lado pessoal, mas eu acho que fiz bem tentando afastá-lo mais ainda. Eu não queria vê-lo, eu não queria que fosse ele ali, eu não queria...
Emma chega perto e me toca de lado.
— Já passou, meu amor. Por que que você chorou? Sentiu raiva?
— Não gosto de lembrar do que houve comigo depois dele... Eu custei muito para querer amar de novo, me entreguei a tristeza, a frustração e ao medo, eu achava que estava tudo perdido e enterrado.
— Mas não estava e olha onde você chegou. Está descobrindo que pode amar novamente e se sente amada. Por que você ainda se culpa por uma época ruim da sua vida? Ninguém nunca te disse que a gente tem que enfrentar algumas barras pra ser feliz? Olha aqui, o que você fez foi só se proteger.
— Será?
— É claro que foi. Para de se culpar. Agora isso serve para nós duas. Temos que parar de colocar culpa em nós mesmas pelos fracassos.
— Falei para ele que havia outra pessoa na minha vida agora. Não há mais espaço para ele, para ninguém que não seja você. — me viro para Emma e ela me alisa a face, me beija levemente e sabe o que dizer.
— Quando você me olha eu percebo o quanto me ama. Não é preciso colocar em palavras às vezes, está tudo aqui nesse belo par de olhos castanhos. Está preocupada que eu pense errado sobre você e esse homem, mas eu sei que o que restou dentro de você foi um pouco de rancor dele e isso não é como ódio, isso passará quando eu fizer você esquecê-lo completamente. Logo esse cara vai ser um episódio ruim da sua vida que nem uma gota bem pequena quase invisível. — Ela encosta o queixo sobre meu ombro, me surpreendendo por não pensar algo contrário. Emma confia em mim, ela sente o quanto estou envolvida com essa relação entre nós, para meu alívio. — Não sei porquê, mas eu sabia que esse cara ia procurar por você.
— Talvez ele estivesse mesmo precisando da minha ajuda e eu recusei porque a última coisa no mundo que eu queria era ajuda-lo.
— Mudou de ideia?
— Não sei, Emma, eu não sei. Ter sido rude com ele me pareceu o certo e ao mesmo tempo a forma errada de afastá-lo.
— Acho que você está muito preocupada com o que ele pensa de você. O que ele acha é o que menos importa, sabia?
— Sempre quis ser aceita, sempre busquei compreensão, elogios, admiração e hoje eu dei um dane-se para o que ele pensa, mesmo arrependida.
— Na hora em que você disse aquelas coisas sim, você deu um bom dane-se a ele, então não se sinta mal, você precisava soltar o que ficou segurando por muito tempo no seu coração. Agora pode ter certeza de que muita coisa irá mudar.
Aceitei os carinhos de Emma, oferecendo os meus mutuamente. Nós duas tínhamos nossos demônios do passado e nunca eles pareceram tão ameaçadores. Ela é a prova de que posso confiar em mim mesma, me perdoar e fazer escolhas importantes. A cada conversa que temos, cada confissão em que revelo mais um pedaço da minha alma para ela, entrego um pedaço da minha vida em suas mãos.
O raciocínio clichê de que o tempo vai curar as dores e substituir as frustrações por conquistas estava funcionando. Naqueles últimos dias a maré de empecilhos parecia ter dado uma trégua para nós duas. Emma bem na faculdade, eu voltava a trabalhar como uma máquina. Após conseguir trazer Belle, a secretária, da firma para o escritório que eu havia montado em particular, sua ajuda foi de grande valia. Velhos e novos conhecidos me procuravam, eu fazia visitas ao fórum seis vezes por semana e logo teria o dinheiro investido no meu empreendimento de volta na conta.
Em relação a Killian, eu havia mesmo esquecido dele, só me lembrando uma vez em que estive naquela cafeteria para comprar um cappuccino, inocente como se nunca tivesse entrado naquele restaurante. Hoje eu pensava que havia feito o certo sugerindo que ele procurasse outro tipo de pessoa, outra ajuda que não fosse a minha porque eu fatalmente acabaria o prejudicando por levar tudo para o lado pessoal.
Meus olhos estavam fixos em um contrato importante. Em algumas horas eu devia comparecer a uma audiência de conciliação e para o restante do dia não havia outra obrigação marcada. Belle traz para mim as correspondências uma vez por semana e hoje, no meio das propagandas e boletos de pagamento, a secretária me trouxe um envelope pardo que destoa de todas as cartas. Sabendo do que se tratava o resto, pergunto o que é aquilo, mas ela também não sabe me dizer.
— Quem enviou isto?
— Não sei dizer, Regina, só sei que na hora em que eu cheguei hoje cedo, ele estava atrás da porta como se alguém tivesse deixado aqui ontem.
— Que estranho. — digo, abrindo e encontrando uma carta escrita à mão.
A carta é de Margaret Swan, e só de passar os olhos já sei que ela quer deixar dinheiro para Emma. Sem muita precipitação, começo a ler:
Cara Regina,
Espero que esteja bem e que se permita doar um milímetro do seu tempo para ler esta carta. Quando receber este envelope, já estarei passando por um procedimento cirúrgico. Antes que me pergunte se Emma sabe, não, Emma não faz a mínima ideia de que descobri há um ano ter um tumor no útero, o que me impossibilita de engravidar novamente e me deixa em uma situação delicada. Regina Mills, preciso ser breve, pois meu marido não pode imaginar que estou em contato com você. Estou escrevendo esta carta por um simples motivo e necessito da sua colaboração para minha vontade ser feita.
Caso aconteça o pior e eu deixe a vida durante o procedimento cirúrgico, peço para cuidar das finanças que deixei para Emma. Não se precipite, está tudo acertado no banco. Criei uma conta para Emma e lá há uma boa quantia para que ela desfrute do melhor. Peço para entregar a senha somente quando tiver notícias da minha morte. David não sabe que estou doando tudo o que era meu para Emma e nem irá saber se você me prometer guardar segredo.
Não conte a Emma, não quero assustá-la de maneira alguma nem fazer com que ela se sinta obrigada a me procurar. Conto com a sua colaboração e confio a você a administração dessa quantia, pois sabemos que Emma ainda não está preparada para se cuidar sozinha, muito menos deseja algum dinheiro vindo de mim.
Deposito minha confiança em você mais uma vez, sabendo que irá cuidar da minha filha depois de presenciar a forma como você olha para ela. Se Emma tem alguma chance de se recuperar, acredito que seja por sua causa. Muito obrigada por abrigar e devolver minha única alegria a vida.
Conto com você.
Margaret Swan
Leio e releio a carta incontáveis vezes, estarrecida. Minha primeira reação é de tentar procurar Margaret no hospital, se é que ela está mesmo internada e sendo operada. Mas se eu fizer isso e Emma descobrir depois, a loira ficará muito incomodada e deve pensar que eu estava mentindo. Há um imenso dilema na minha mão, uma carta de Margaret me pedindo para buscar um dinheiro caso ela morra e minha dúvida se conto ou não para Emma. Era por isso que ela esperava me encontrar sozinha no escritório aquele dia e sua atuação foi tão convincente que nos deixou sem compreender absolutamente nada.
Sinto muito, Margaret, mas acho que sua filha nunca vai se perdoar caso não saiba o que está acontecendo.
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