For the love of her

16 A impressão do perdão


Notas iniciais
Olá, leitoras. Mais um capítulo para agradecer o retorno de vocês e compensar o tempo que deixei de postar. Vamos continuar nesse ritmo. Leiam, tirem suas conclusões e não me escondam nada depois. Boa leitura.


A carta de Margaret Swan está em minhas mãos quando subo o elevador. Não posso, não tenho o direito de omitir uma notícia dessas de Emma. Somente esse pensamento me deixa suando frio com medo de acabar assustando-a, sendo que eu já estou assustada. Se eu esperar, pode ser tarde. Se eu contar, Emma vai querer conversar com sua mãe, esclarecer se ela tem mesmo um tumor e corre risco de vida. O elevador chega e não é mais o momento de dilemas. Eu tenho que escolher.

— ... Tá bem, eu dou o recado... Por nada. — Encontro Emma no momento em que ela desliga o telefone. Está com um avental, certamente preparando o nosso jantar e me vê na porta, olhando para ela e sentindo meu rosto ferver. — Oi, babe. — ela vem na minha direção e sorri, não sei exatamente se sorrio ou se devo beijá-la, porque não sei se haverá tempo para isso depois.

— Oi. — digo e assim que fecho a porta a toco, pegando-a num beijo caloroso, quase enlouquecido. Ela gosta, retribuiu e enrosca os braços em minha volta. É um beijo delicioso, pouco condizente com o momento, mas tentamos aproveitar o máximo possível.

— Uau! Quase esqueci o que eu precisava falar. — ela se desvencilha dos meus lábios e segura meu queixo. Me rouba alguns pequenos selinhos e diz: — Sua secretária ligou avisando que você deixou um documento sem assinar.

Desde o momento em que eu decidi abrir a carta de Margaret Swan, em nada eu pude me concentrar de novo. O documento em questão não devia ser uma sangria desatada, pois eu mal conseguia me lembrar, mas como toda perfeccionista, deixar algo que talvez seja importante passar é um erro grotesco.

— Onde eu estava com a cabeça?! — viro o rosto e abano a cabeça.

— Acho que em outro mundo. — Emma brinca e sorri. — Tá tudo bem?

Olho para ela e tomo ar, suspiro e resolvo mostrar o que venho trazendo comigo.

— Não, meu bem, não está tudo bem. Senta um pouco, a gente precisa conversar.

Ela se assusta e se afasta de mim instantaneamente.

— Que que é? O que houve? O que eu fiz?

— Não, nada que você tenha feito. Senta, por favor.

Emma obedece e me espera querendo fugir, como se soubesse que tenho algo grave a contar. Entrego o envelope com a carta e ela quer me perguntar o que significa aquilo, apenas faço que sim e ela escolhe começar a ler.

Me sento ao lado no sofá e espero. Emma demora um tempo lendo, relendo. Não esboça uma reação rápida, isso custa e quando ela retorna para mim, está evidentemente abalada.

— A minha mãe... Ela... Ela está doente?

— É um tumor pelo o que ela diz.

— Minha mãe... Eu não tô entendendo essa carta.

— Achei melhor mostrar para que tirasse as próprias conclusões, porque depois pode ser tarde, Emma. Sua mãe deve estar em um hospital agora, mas não dá pra ter certeza. Ela quer que eu não fale nada, só que eu não posso mentir, não para você.

A ficha de Emma começa a cair e ela fecha os olhos, faz uma prece no escuro e concorda.

— Se ela estiver mentindo pra mim, ela vai se arrepender tanto.

— Acho muito difícil sua mãe querer brincar com algo tão sério. Era por isso que ela queria falar comigo aquele dia, ela queria me encontrar sozinha no escritório. Era por isso que insistiu em te dar dinheiro, ela está correndo risco de vida e queria assegurar o seu futuro.

— Faz todo o sentido agora. — Emma enfia as mãos pelos próprios cabelos. — Ela queria me deixar numa situação confortável.

— Pensei em procurá-la antes de contar a você, mas ela ia implorar de qualquer maneira para não dizer nada.

— Opinou por me contar, ignorando tudo o que ela pediu... Acho que fez o que eu faria. — ela enxuga o canto dos olhos e funga. Quase não percebo que chorou um pouco.

— O que você pretende fazer agora? — aliso um de seus ombros.

— Procurar o hospital onde ela está, não é? É o melhor que posso fazer. Temos que conversar, tenho que tirar essa história a limpo. Não quero o dinheiro dela, quero entender o que ela está sentindo.

— O que ela precisa é do seu perdão. Sua mãe está pensando que vai morrer sem ele.

— Não, ela não vai morrer. Ela não pode morrer.

Emma se levanta e tira o avental.

— Vamos, vamos procurar saber onde ela está. Por favor, vem comigo. — ela pede.

Me ergo e explico que na verdade nós não vamos encontrá-la tão rapidamente.

— A essa hora não vamos conseguir saber de nada. Deixe que amanhã logo cedo eu mesma ligarei para cada hospital atrás de informações, coloco a Belle para me ajudar... Eu prometo fazer o impossível para encontrarmos ela.

— Tenho medo que seja tarde quando a gente souber de alguma informação.

— Fica tranquila, não vai acontecer nada até a gente conseguir, tenho certeza.

— Se ela morrer e eu não chegar a tempo eu não vou suportar. — Emma morde um dos dedos abafando um urro. Ela chora e preciso ampará-la. Eu não posso esquecer que qualquer contrariedade ocasiona em uma crise, ela se torna dez vezes mais sensível e todos aqueles sintomas ruins voltam.

Só a ideia de pensar na mãe morta a deixa frágil e preciso acalmar aquele coração ansioso.

Cuido da janta enquanto ela pede um tempo sozinha para refletir sobre sua vida, a última conversa que Margaret e ela tiveram e os arrependimentos. Faço um macarrão com queijo, a coisa mais prática que consigo preparar, e levo para ela no quarto. Emma está deitada, pensativa, não consegue deixar de lembrar de sua mãe, acho até que pensa no pai e na relação um pouco conturbada dos dois como Margaret advertira. Talvez ela estivesse pensando em como seu pai estaria reagindo, em como ele se sentia com a possibilidade de perder a esposa e como ele devia estar com medo de ficar sozinho. O relacionamento de Margaret e David nunca foi questionado pela loira, ela sentia que os dois se amavam muito além da conta e desejava um dia poder encontrar alguém com quem dividir amor tão igual quanto o deles. Eu a entendia e desejava profundamente um relacionamento desse jeito, eu queria ter alguém como David tinha Margaret e lutaria se minha esposa ou marido estivesse morrendo, por isso compreendia a confusão mental de Emma naquele instante.

Deixo a bandeja sobre os pés dela e ajoelho perto de onde ela deita. Emma está tão absorta que mal percebe a minha presença.

— Emma, você precisa comer um pouco. — sussurro.

Ela suspira, vira o corpo e se senta, olhando o prato que trago na bandeja. Me devolve um sorriso acanhado e começa a comer bem devagar. Ela não consegue esconder que está sem fome e eu entendo que esteja mesmo depois de receber uma notícia do tipo que recebeu.

— Não sei por que me sinto culpada pelo o que minha mãe está passando. — ela diz depois de engolir um pouco do macarrão e mexer no prato. — Como se o tumor dela fosse um castigo por ter me deserdado ou uma punição pelos erros dela como mãe, a falta de compreensão, tudo.

— O que a sua mãe está passando é apenas um problema de saúde que qualquer mulher é capaz de sofrer. Você se sentir culpada por ela estar doente não faz muito sentido. Ela já pagou pelo o que fez com o remorso e a culpa que ela teve.

— Tô arrependida de ter sido rude com ela aquele dia no escritório. Se eu ao menos soubesse...

— Ela não queria que ficasse preocupada.

— Bem, se eu tivesse no lugar dela eu também não ia querer que se preocupassem comigo. Como será que o meu pai está reagindo?

— Ele deve estar tão chateado quanto nós.

Ela continua comendo, preferindo se calar para deixar de remoer suas dúvidas.

Apesar de preocupada, Emma acaba adormecendo antes de mim e sou eu quem custo a dormir. Meus dedos se embrenham nos cabelos dela enquanto olho para o teto e sua cabeça repousa entre meus seios. Não há clima para continuarmos falando sobre seus pais, nem clima para nos distrairmos fazendo amor ou simplesmente nos beijando lentamente. É seguro que ela continue dormindo, roubando meu sono e descansando, se esquecendo brevemente das preocupações que andam nos rodeando. E, penso me incluindo naquela situação, afinal, Margaret me pediu segredo, um segredo muito difícil de ser guardado, acreditando nos meus sentimentos pela filha dela, finalmente. Me pergunto se não é tarde ou injusto para Margaret perdoar a filha e compreendê-la. Por que desse jeito? Por que nessa condição? Mas novamente vejo um exemplo da sensação de perda influenciando nossas escolhas. Foi assim comigo para assumir a mim mesma que amo Emma, hoje é com Margaret deixando tudo o que lhe restava para a filha.

. . .

— Promete que vai me avisar se descobrir qualquer coisa?

— Prometo. — beijo Emma antes que deixe o carro. Ela me espera sair e sua expressão é de cortar o coração, mas ela sabe que não podemos pôr os pés pelas mãos e aceita esperar que eu encontre seus pais.

Depois de deixa-la na estação de metrô, vou para meu escritório a poucas quadras e chego pedindo para Belle verificar uma lista de hospitais em Nova York. Passamos a manhã inteira ligando para esses hospitais buscando informações sobre uma paciente chamada Margaret Swan, porém parece que ela está mesmo decida a não permitir que Emma a veja internada, como se soubesse que eu não resistiria e acabaria abrindo a boca.

Me sento no sofá da recepção e coço a cabeça, começando a pensar que não vou conseguir cumprir com a promessa que fiz a Emma. Belle me traz um copo d’água e me aconselha:

— Fica calma, Regina, ainda faltam cinco hospitais para checarmos, ela vai estar em um desses.

— Como é que eu vou dizer para Emma que não sei onde a mãe dela foi internada?

— Você não vai dizer porque vai achar.

Belle volta ao seu lugar e disca o próximo número da lista de hospitais que já está no fim. Eu não presto atenção na conversa entre Belle e a atendente do hospital até o momento em que ela me acorda do transe.

— Regina! Regina! A senhora Swan está nesse hospital!

Olho para Belle e me levanto na mesma hora, roubando o telefone da mão dela para falar com a pessoa do outro lado da linha.

— Alô! Sim, eu estou procurando Margaret Swan, sou uma amiga da família e gostaria de fazer uma visita. Sim? Hum... Certo. Das três às nove. Perfeito. Tudo bem. Muito obrigada! Muito agradecida mesmo! — desligo, depois disso corro até minha sala, busco o blazer e corro para a porta.

— O que digo se alguém procurar por você? — pergunta Belle, pouco confusa.

— Diga que atendo amanhã sem falta. — abro a porta e saio, mas antes volto me lembrando de dizer algo importante a minha secretária. — A propósito, você vai ganhar um aumento.

Fui buscar Emma na universidade, tendo a melhor notícia do dia para ela. Tirando o fato de estar chamando atenção e ver com os meus próprios olhos a realidade da loira pelos corredores e pátios do lugar, aquele bando de jovens consumindo cigarros, bebidas escondidas sem que alguém tome uma providência, eu não pretendia encontrar Emma naquele bolo de pessoas mal intencionadas. Enquanto me olham por estar muito bem vestida, maquiada, carregar um lenço no pescoço por conta do frio, ela está apenas lendo em um canto perto de uma escada durante o intervalo das aulas. Emma gosta de Brownie e depois que aprendeu a fazer é esse seu almoço todos os dias. Quando a encontro ela está estudando para uma prova e segurando um dos seus bolinhos solados na outra mão. Em algum momento ela perde a concentração e larga o que come e o livro, é quando levanta a cabeça, me percebendo olhando para ela.

— Você a encontrou? — ela se levanta, faço que sim e seu sorriso é o mais aliviado possível.

Nos encaminhamos para o hospital Mont Sinai, excelência em tratamentos clínicos onde Margaret Swan estava internada. É horário de visitas, mas pelo o que tudo indica o sr. Swan não está presente. Deixamos nossos nomes na recepção e entramos em um corredor polido do teto ao chão e cheiro de desinfetante. Como eu odeio hospitais. Emma segura minha mão e aperta com medo do que vai ver. É a primeira vez que ela vai ver sua mãe operada, então não tem noção se ela estará com boa aparência. Encontramos o quarto e escolho eu mesma abrir a porta para Emma entrar.

— Você quer que eu entre? — sussurro.

— Por favor, mesmo que ela brigue com você. — Sem outra escolha, abro, Emma entra e venho logo atrás.

Há um médico, suponho que seja pelo jaleco branco, escrevendo algo numa prancheta e levando consigo.

—... senhora Swan, a partir de amanhã poderá dar os primeiros passos sozinha, por enquanto nossos enfermeiros tem a incumbência de ajuda-la. — ele fala. — Acredito que a senhora tenha visitas. Com licença.

— Está bem, doutor. — A mulher repete com o tom de voz mais desanimado possível. Ela não parece muito feliz por estar acordada e quando nos vê, no momento em que o médico deixa o quarto, é como se fosse tomada por uma vergonha sem limites.

— Mãe! — Emma caminha lentamente até ela, constatando o que ela dizia na carta, estava doente e precisava se tratar. Para o nosso alívio, Margaret estava bem, não tinha sinal algum de problemas, mas estava triste, infinitamente triste. Ela me dirige o olhar como se dissesse que eu não havia cumprido com minha promessa, como se eu tivesse quebrado nosso acordo.

— O que está fazendo aqui, Emma? — questiona ela, pálida, com os lábios roxos e olhos caídos.

— Foi tentando me esconder que estava com um tumor que você pensou na ideia idiota de me dar toda a sua fortuna. Caramba, mãe, por que não me contou quando me viu no escritório da Regina?

— Se você leu a carta você sabe porquê. — Margaret olha só para a filha.

— Achou que ia morrer? Ou isso foi um plano mesmo para me dar seu dinheiro e sentir menos remorso?

Toco no ombro esquerdo de Emma, pedindo para ela se controlar. Não era hora para lavar a roupa suja.

— Vai com calma, tá bem?

— E você, entregou a carta com o meu pedido para Emma, exatamente como eu disse para não fazer. — Margaret falou comigo e eu não dei resposta de volta. Baixo o rosto atrás de Emma.

— Não culpa a Regina, ela opinou por me mostrar a sua carta porque me ama também. Se ela não contasse eu ia ficar muito chateada e até me culparia quando soubesse o que você fez.

— Escolhi te dar o dinheiro porque não haveria razões mais honestas para usá-lo. A minha vida acabou, eu não tenho nada a perder.

— Você tá louca? Como diz uma coisa dessas? Você ainda tem ao papai, tem a empresa onde podem trabalhar juntos e pode doar esse dinheiro para quem você quiser. Por que está dizendo um absurdo desses?

— Desde que você saiu de casa eu perdi o rumo. Se você não percebeu ainda, estou procurando trazê-la de volta há muito tempo. São anos tentando convencer a minha filha a voltar e um marido amargurado por conta do mesmo motivo. Seu pai está à beira da loucura, nós brigamos com frequência porque ele acredita que é culpa dele você ter ido embora. A cada dia que passa a nossa dor aumenta. Nós buscamos por você da forma errada, queríamos impor as nossas condições e não estamos conformados com a sua escolha atual mesmo sabendo que está bem com a Regina.

— Eu estou ótima vivendo com a Regina e ainda assim posso continuar sendo filha de vocês. Foram vocês dois que decidiram me deserdar.

— Sim, foi uma frase besta dita em um momento de raiva. E eu me arrependo. Na realidade nunca foi nossa intenção deserdar nossa única herdeira. Sabemos que o dinheiro não importa para você e se pararmos para pensar, não é tanto dinheiro assim, mas garantiria o seu futuro. Mandei a Regina tomar conta porque confiei nela, achei que era a pessoa certa para te ajudar a se manter.

— Você disse na carta que percebeu o quanto ela me ama.

— Pois é, eu percebi.

Estou apenas escutando, meio de lado, meio de costas para as duas.

— Eu também amo ela, sabia? Foi ela quem me tirou da rua e se preocupou, foi ela quem me deu forças para aceitar o desafio de melhorar e me livrar das porcarias que eu usava. A única coisa que a senhora deve entender é que não escolhemos ficar juntas, aconteceu porque era para acontecer. — Emma para um pouco, cruza os braços e se aproxima da cama. Ela pega uma das mãos de Margaret e beija delicadamente. — Se a sua preocupação é comigo, com o meu perdão, pode ficar calma. O mal já passou, foi uma fase ruim para nós três, você, meu pai e eu. O meu coração está bem mais leve hoje, depois de algumas crises e do carinho da Regina. Estou aprendendo a ser alguém melhor e, se você quiser, a gente pode se falar sempre daqui para frente.

Margaret se emociona e as lágrimas que ela deixa cair Emma enxuga com os polegares.

— É impressão minha ou está me perdoando?

— Não é impressão não. Eu perdoo você e o meu pai.

Acho bonita a forma como Emma fala e perdoa a mãe. Esse é um importante caminho que ela constrói na direção da sua recuperação.

Um minuto depois, enquanto observo as duas sorrindo emocionadas, David entra no quarto de súbito e nos surpreende. Ele segura um buque de flores para Margaret e fica bastante confuso nos vendo ali.

— Boa tarde.

— Pai... Eu... — Emma se vira para ele, com medo.

Ele olha Emma da cabeça aos pés, me observa em seguida e fecha a porta. Sua cara não é lá a mais amigável do mundo, também não é a mais fechada.

— Com licença. — ele anda até o outro lado da cama, coloca as flores dentro de um vaso próprio para isso em cima da cômoda e se aproxima da esposa, depositando um beijo em sua testa. Muda de assunto, nos trata como se fossemos conhecidas e não nos dirige a palavra. Vai ser um pouco mais complicado convencê-lo de que estamos ali por bem.

Emma não pretende continuar a conversar com o pai presente. Me sinto covarde de não ter forças para encarar o sr. Swan nesse momento e acabo incentivando Emma a deixar aquele assunto por enquanto.

— Emma, acho que não somos mais bem-vindas. — falo, me dirigindo até a porta, olho para David e aceno com a cabeça. Ele permanece calado, imaculado.

— Até logo, mãe. Prometo voltar para visita-la mais vezes, a gente ainda precisa conversar muito. — Emma alisa os dedos da mãe e olha seu pai que não esboça qualquer reação. Isso torna tudo mais complicado e Emma se fecha visivelmente triste.

Margaret olha para a filha com gratidão e não diz mais nada, nos observando sair do quarto.

. . .

Não sei por qual motivo privei Emma de falar com o pai, até mesmo me privei de falar com David. Eu poderia ter questionado a postura dele, dizendo que era ridícula a forma como ele pensava e agia. Talvez Margaret o convencesse depois dessa conversa com Emma e o faria compreender que as escolhas da filha não são as escolhas deles dois. Mas as coisas não tem acontecido bem como gostaria que fossem. Há dois dias, descobrimos que o homem proibiu nossas visitas e Emma parece arrasada com a decisão. Margaret nada pode fazer enquanto estiver de cama, ela não pode se impor, não pode simplesmente mandar David para o inferno e quem acaba sofrendo é Emma.

Ela não diz, embora eu sinta que está triste. Não há nada que eu possa fazer, nem abraça-la, nem dizer o quanto a quero e o quanto ela é importante, nada vai ajudar Emma a se sentir melhor. Ela precisa do perdão de David para se sentir completamente em paz. O que fazer para um cabeça dura como esse homem entender? Era o que eu vinha pensando ao mesmo tempo que Emma usava os trabalhos da faculdade de desculpa para não pensar nos pais.

Estou no escritório do apartamento, conferindo alguns processos antigos na hora em que ela chega e despeja sua mochila sobre o pequeno sofá. Me olha, coloca as mãos nos bolsos de trás da calça e me joga um beijo.

— Tudo bem?

— Melhor agora. — deixo os papéis e caminho até ela. — Como foi o trabalho?

— Terminamos ele hoje mesmo, compensou ter ido no fim de semana adiantar tudo. Apresentamos amanhã.

— Que bom. — belisco seu queixo e me aproximo desejando um beijo. Ela me dá com carinho e me pega pela mão, me tirando dali de dentro. Vamos para a cozinha, Emma faz um café expresso de máquina e bebemos enquanto ela me conta sobre o estúdio de experiências culinárias que há na faculdade. Pelo menos a distração funcionou naquele momento e ela me parece mais animada, talvez conformada.

— Eu gosto tanto das aulas práticas que não ia me incomodar se fosse um dia todo só delas. — ela toma mais um gole do café e se apoia na bancada de frente para mim. — Mudando um pouco de assunto. Vamos sair hoje? Jantar fora, fazer algo de noite.

— Hum, desculpa, meu bem, acho que tenho um compromisso muito importante hoje.

— Ah, que pena. — ela fala, desapontada.

Olho bem para Emma e ela ergue o rosto de novo, sabendo que vou explicar o compromisso.

— Meu compromisso é ter uma conversa com o pai da minha namorada.

Ela se endireita e não entende a princípio.

— Você tá falando sério?!

— Muito.

— Então... Regina, ele... Ele não vai aceitar.

— Vai sim, ele vai conversar comigo de uma maneira bem educada, eu não vou para agredi-lo ou exigir nada. Só quero conversar civilizadamente.

— Ele é muito cabeça dura, é rígido e tudo mais.

— Não há rigidez que resista a uma boa conversa. Vou tentar convencê-lo a pelo menos te deixar ver a Margaret.

— Mas o que você vai dizer pra ele?

— Não sei, na hora eu procuro o jeito certo de falar. Ser advogada me dá um pouco de noção no improviso essas horas. Confia em mim.

A loira morde os lábios, sorri. Eu termino meu café e pouso a xícara na bancada.

— Sei como é importante essa reconciliação com a sua família, Emma. — eu digo.

— É o que eu mais quero nesse mundo hoje. Não deixa ele te dizer nada ruim, tá? Não quero que ele te ofenda.

— Tenho certeza de que vai ficar tudo bem depois que eu conversar com ele.

— Assim espero. — ela suspira, cruzando os braços.

De noite, Emma me acompanha até a casa onde morou antes de decidir se arriscar nas ruas. Era dentro de um bairro cheio de pequenos prédios e ruas com casas germinadas. Não se podia negar que ela vivia bem, nas melhores condições antes de começar a se drogar. Sua casa é uma com fachada antiquada porém muito bonita. Estaciono o carro na calçada oposta e olhamos para as luzes que ficam perto da entrada da casa.

— Não vou perguntar se você tem certeza porque pela sua cara acho que não voltaria atrás.

— Não sou de voltar atrás no que eu digo. — Aliso os cabelos de Emma, dou a ela um sorriso confiante e desço do carro. Atravesso a rua. Logo a minha frente está a casa dos Swan e pela primeira vez naquela noite sinto minhas pernas bambas. Era um passo muito arriscado tentar convencer David a compreender a filha e minhas intenções com ela. Pelo menos eu estava convicta de que não sairia dali sem que pelo menos Emma pudesse ver sua mãe. Era uma ideia sem volta e com duas soluções possíveis. Ou David aceitava conversar comigo ou bateria com a porta na minha cara.

Na frente da porta toquei a campainha e esperei. Meu coração vinha na boca e o ar parecia muito mais frio que o comum. Enfiei as mãos nos bolsos da minha jaqueta e esperei. Emma me olhava do carro, tão temerosa quanto eu. Precisei apertar o botão da campainha mais uma vez e só assim convenci David a me atender. Parecia que ele estava do outro lado da porta o tempo todo, vendo pelo olho mágico quem estava ali. Rapidamente ele abriu a imensa porta da casa e me olhou como se eu fosse uma incomoda vendedora de Tupperware.

— Em que posso ajudar a senhora?

— Primeiramente, senhor Swan, quero que saiba que não pretendo criar uma guerra entre nós. Gostaria de ter uma conversa séria e civilizada sobre sua filha. — digo com minha astucia de advogada. Para mim aquela conversa poderia facilmente seguir as bases de um julgamento daqueles bem extensos onde uma parte defende, a outra acusa, eu preciso defender minha opinião imparcial ou totalmente a favor do cliente, as regras eu já conhecia, não custava aplicar com uma pessoa difícil como aquele homem parecia.

— Não tenho filha, senhora... Como se chama? Regina Mills, não é? Suponho que há um engano aqui, Regina. A filha que eu tive morreu.

— David, com o perdão de chama-lo somente pelo nome, não vim cobrar seu afeto pela Emma, vim dizer que ela precisa da família nesse momento, tanto ela quanto sua esposa. Por mais dura que a realidade tenha sido com elas, são mãe e filha e precisam uma da outra para se curarem. Não ignore o fato de que ela foi sua filha um dia, ela está viva, muito viva e quer perdoá-lo, assim como eu sei que você deseja perdoar. Ainda que vocês dois nunca mais mantenham a mesma relação, corrigir os erros do passado é importante para ela.

O sr. Swan bufa segurando a porta, tenho a impressão de que ele viu Emma nos observando de dentro do carro do outro lado da rua. Ele para, pensa, me olha da cabeça aos pés e passa uma das mãos no rosto. Margaret já andara amolecendo o coração do marido. Ele andava especialmente abalado com os últimos acontecimentos. Com a esposa no hospital, o fato de nunca mais poder ser pai e o isolamento de Emma da vida dos dois por uma estúpida escolha, não havia razões para ele querer estar vivo. Eu conseguia ver todos os motivos da tristeza dele brilhando nos olhos.

Menos irredutível, David abriu espaço me mostrando o interior da casa, me convidando para entrar. Eu caminho para dentro, ele fecha a porta atrás de nós e mostra onde fica a sala para que eu me sente. Encontro logo de cara um retrato de Emma na parede, ela está pequena na foto, ainda era uma criança da pré-escola. Outra imagem numa cômoda comprida mostra ela e Margaret em um parque. Não há fotos de Emma com o pai, nem fotos dela crescida, passando-me a impressão de que foram todas surrupiadas pelo destino infeliz que a loira escolheu.

David retorna e se senta à minha frente, ele olha para uma fotografia da esposa ao lado daquela de Emma na parede. Margaret está mais jovem na foto e se parece muito com Emma.

— Certamente Margaret disse a você que cresceu em uma família rígida e vive com um homem difícil. Não era essa a impressão que eu gostaria que tivessem de mim. Acontece que tudo o que eu faço não é o bastante para ninguém, não foi para Emma, não foi para minha mulher. — confessa ele, voltando a me encarar.

— E por causa dessa frustração pessoal o senhor prefere manter uma postura firme, daqueles homens de exército, prontos, na defensiva o tempo inteiro. Entendo.

— Compreende mesmo os meus motivos? Não foi intenção minha fazer com que Emma se sentisse expulsa de casa. Ela foi embora porque quis.

— Ela foi embora porque se sentia presa quando na realidade o que ela precisava era de amor. Se opinasse por manda-la a uma clínica, você estaria apenas tirando o corpo do trabalho em cuidar dela. Pense em um órfão que dá trabalho, a família o envia para um internato e quando ele volta, está frio, ainda mais arredio. Nesses casos, senhor Swan, você e sua esposa deviam parar para lembrar que Emma não era o animal de estimação da casa, nem o troféu que vocês gostavam de exibir, ela era e é a filha. Assim como o senhor foi filho um dia, como a sua mulher foi filha, o que é que mais desejavam dos pais de vocês? O senhor sabe. Não sei se estou certa em concluir que talvez tenham vivido a mesma situação e tentaram comprar os sentimentos da Emma com dinheiro. Foi isso? Foi a falta de amor dos pais de vocês que os tornaram dois estranhos para ela?

David parece atingido no peito. É a primeira vez que o vejo comovido. Ele mexe a cabeça positivamente.

— Ainda dá tempo de corrigir? — ele pergunta, claramente atordoado.

— Claro que sim.

— Eu só estava fazendo o que achava certo para Emma.

— Ela sabe, por isso ela perdoa. O senhor só fez o que aprendeu a fazer, mas se esqueceu de dar o que mais lhe faltou quando era filho, amor.

— Foi muito pouco...

— É, muito pouco. Olha, David, eu só estou aqui por ela, por amar a sua filha e não suporto vê-la decepcionada. Ela está lutando para vencer os erros do passado, o vício, as escolhas que ela tomou, estou com ela todos os dias e não pretendo sair de perto enquanto não estiver bem completamente. Sei tudo da vida da Emma e ela tudo da minha. Eu não pretendia ter alguém como eu tenho a ela. Não foi difícil me ver amando a sua filha, apesar de que custei a aceitar. Por mais que a sua educação veja nossos sentimentos com maus olhos, opinei por vir para tentar dar mais uma chance dela se curar. A reconciliação é muito importante.

— Margaret me disse que fomos responsáveis por Emma ter se apegado a você. Indiretamente somos. Depois que levamos Emma para Londres, ela nos disse que estava perdidamente apaixonada por você e nós obviamente não acreditamos. Sinto muito se de alguma forma nós ofendemos as suas atitudes, o seu comportamento, mas nenhum pai espera que os filhos sejam como você.

— Não esperam, mas podem aprender que amor não tem escolha.

Ele respira fundo e me dá a razão. Seu olhar admirado para mim mostra que chegamos a um acordo de paz.

— Diga a Emma que ela pode ir visitar a mãe e que as portas dessa casa vão estar sempre abertas para ela. Quanto a mim, eu ainda preciso de um tempo para me entender com as consequências dos meus atos.

Me levanto e caminho na direção da saída, passando pela foto de Emma na parede novamente, mas David ainda tem uma coisa a dizer:

— Regina — ele chama e paro me virando brevemente. — Obrigado!

Afinal, David me agradeceu ao invés de me expulsar como eu previa. Sorrio sem mostrar os dentes e consinto. Estou sentindo que um peso deixou o coração desse homem depois de conversarmos. Agora posso ver que não fui capaz apenas de ajudar Emma, mas sua família também e eu não posso me sentir menos feliz, pois não há sensação no mundo que pague esse momento.

Notas finais
Acho que a parte em que Regina decide conversar com David é o que mais gostei nesse capítulo. Acredito que os sentimentos por Emma deram a Regina uma coragem que ela não teria por ninguém. Não tenham dúvidas de que ambas podem ir ao extremo por amor. Muito obrigada pelo apoio, espero que ainda confiem na autora aqui e continuem compartilhando suas opiniões comigo. Nos vemos no próximo capítulo, fiquem bem.