Notas iniciais
Olá, leitoras. Vou deixar um aviso sobre esse capítulo: Leiam com calma. Assim como qualquer capítulo dessa fanfic, eu gostaria muito que compreendessem a mensagem que essa história dessas duas mulheres quer passar a vocês. Se estiver desgostando, não aprovando, eu vou ter o maior prazer em saber dessa opinião. A autora está aqui para isso. Boa leitura.


Três semanas se vão desde a conversa com David. Sinto como se alguma parte de mim tivesse sido afetada mais do que devia ou isso era um efeito tardio dos meus sentimentos pela filha dele. Não se tratava de algo que deixei de dizer ao sr. Swan naquela noite, mas desde então há uma trava me incomodando o peito, desconfiada de que esteja fazendo alguma coisa errada. Por mais apaixonada que ela esteja por mim, por mais apaixonada que eu esteja por ela, minha capacidade de aceitar nosso envolvimento está começando a ter dúvidas. É como se eu não fosse tão capaz de sobreviver as crises ao lado dela, como se eu não fosse o bastante que ela precisa.

Na verdade, essa é uma questão muito profunda para chegar a conclusões precipitadas. Ainda há assuntos inacabados que me recuso a esquecer ou resolver e esses assuntos são totalmente meus mais do que Emma poderia imaginar. Mágoas não cicatrizadas, indiferenças, escolhas e uma tristeza profunda que de vez em quando tornava a me seguir pelas ruas de Nova York. Eu amanhecia bem, ia para o escritório e quando buscava meu café na lanchonete lá estava aquele frio corroendo meu peito. Minha pergunta era se o amor de Emma seria capaz de curar aquela sensação de que eu estava sozinha. Eu ignorava minhas dores para cuidar das de Emma, me esquecendo que ninguém é feito de aço e que aqueles resquícios de depressão voltariam se eu não me cuidasse. Curada? Era o que eu julgava, não o que na realidade acontecia dentro de mim.

— Sorrisos escondem lágrimas, Regina. Emma te deu uma razão para viver fora do escritório, mas quando você percebe que ainda não está totalmente curada, tudo volta com uma força ainda maior e nem o que está vivendo com ela pode ajudar.

— Você estava certo quando me disse que eu não devia parar de vir. A Emma é tudo o que eu tenho no momento, mas não posso me apegar a ela assim. Vou sugar suas únicas energias, as únicas que ela tem para lutar contra o vício.

— Já reparou que vocês duas tem dores na mesma proporção? Ela em uma escala pior, pois desenvolveu uma dependência química, enquanto você desenvolveu uma tristeza que some por alguns meses. Mesmo dessa forma, são dores similares. Assim como os opostos se atraem, minha querida, semelhante atrai semelhante. E só para que você saiba, Emma também suga as suas energias quando tem crises.

— Quando é que vou me ver livre disso? Eu devia estar feliz, Gold. Eu tenho clientes, recupero o dinheiro investido no meu escritório todos os dias, tenho Emma e uma vida confortável. Por que não esquecer o que passou e ponto?

— Você lembra como se planta uma árvore? Pois bem, tudo começa por uma semente, então ela cresce e vira uma muda, cresce e cresce até que chegue no tamanho de uma árvore. Algumas árvores são floridas, outras são simplesmente árvores e todas têm sua importância. Há uma semente dentro de você que depende das mãos de alguém para puxá-la. Não é uma semente boa, claramente faz mal, porém, já se tornou parte de você. Quando entra eu sempre vejo ela nos traços da sua personalidade. Você a adotou, Regina e vive em função dela, procurando arrancá-la. Usou pessoas para tentar tirá-la de você momentaneamente, não funcionou, até que apareceu outra pessoa com uma semente tão grande quanto a sua.

— Emma me disse que quer me ajudar a superar, porém, me sinto tão pequena em comparação a ela. É uma perda de tempo.

— Foi uma escolha sua colocar dentro de casa uma dependente química e sofrer com ela cada crise, mas era exatamente o que você precisava fazer. Jamais poderia ter se dado alta do seu tratamento antidepressivo só porque não precisava mais dos calmantes e decidiu nunca mais tentar se matar. Consegue perceber que Emma é uma representação das suas sombras?

— Não. Ela não é uma má pessoa.

— De fato não é, eu percebo, não se trata disso. O que eu quis dizer é que Emma tem crises a flor da pele, você conteve tanto as suas que absorveu e luta com ela para vencer as dores que são de ambas.

Então Emma era uma tradução da minha depressão, um retrato do que eu evitei e evitava. Por isso tudo aconteceu tão rápido, por isso a atração, a busca por vê-la bem e querer muito que ela ficasse boa. Nada mais era do que uma busca por me ver bem da mesma forma. Eu sempre dizia que se Emma estivesse bem, eu também estaria. Fazia sentido agora.

Saí do consultório de Gold com um alívio melancólico no peito, um estado de paz e vontade de dizer a Emma que a amava muito mais do que ela podia imaginar, que eu me sentia sortuda por tê-la encontrado. Diria tudo aquilo e outras coisas quando chegasse em casa, até mesmo o buquê de rosas eu havia comprado, mas de novo aquela trava, um bloqueio e só fui capaz de sorrir com meus olhos marejados quando ela me viu na porta do apartamento.

— São pra mim? — diz ela de onde quase sempre a encontro, na cozinha com o avental na cintura. Ela larga o que está fazendo, o avental e me beija deliciosamente.

— Claro que são. — respondo após o beijo e mostro as rosas. Estou prestes a desabar num choro, a falha que me impede de dizer tudo o que preciso para Emma, inclusive contar o que conversei com Gold, por isso me afasto quando ela resolve colocar as rosas em um vaso.

— Obrigada, são lindas e o que eu fiz para merecer um presente desses? — Emma volta para a cozinha, terminando a janta.

— Pensei que fosse gostar, passei na floricultura e trouxe. — digo com um tom nervoso, tentando controle.

— Eu amei. — Emma sorri e não percebe, acho eu, meu problema. Talvez ela pense que estou cansada, que não tive um bom dia no fórum, que quero compensar o dia com as flores. Ao mesmo tempo que aquela ingenuidade para notar como me sentia incomodava, me causava um alívio que evitava questionamentos.

Me sento no sofá e respiro me lembrando da conversa com Gold.

— Meu lado sombrio... — penso em voz alta, viajando naquela reflexão profunda do terapeuta.

— O que foi que você disse? — Emma estende a mão e chama para o jantar.

— Nada, estava pensando alto, coisa do escritório. O que foi?

— O jantar está pronto. — e sorri para mim, mostrando sua mão, esperando que eu vá com ela, só que não consigo. Não levanto, apenas a olho e toco sua mão.

Ironicamente, Emma faz o contrário do que espero, como se percebesse a tensão instaurada no ar. Seus olhos criam uma expressão preocupada e o sorriso se desfaz enquanto ela se ajoelha diante de mim. Ela me toca as coxas por cima da calça e a pergunta é bastante óbvia, por isso trato de responde-la antes que seja feita.

— Nada. Não houve nada. — respondo com a velha mania de sussurrar quando estou com a voz embargada.

— Então por que essa cara?

Não consigo dizer absolutamente nada nesse momento e uma ideia insana se cruza com as dela. Toco em seus cabelos, olho para seu rosto e respiro o ar ao nosso redor. O cheiro dela me excita, e excitada era tudo o que eu não queria estar agora, mas é inevitável.

Talvez Emma tenha sentido a mesma coisa e põe seu plano em prática. Me consultando com os olhos ela sorrateiramente sobe a mão até o botão da calça, abre, puxa o zíper para baixo e para sem tirar seus olhos de mim. Quer saber se eu vou deixar ela seguir em frente. Faço que sim, séria, dando permissão para ela por abaixo a minha roupa inteira. Trocamos alguns beijos na boca enquanto ela apressada puxa minha calça, me livra do terno e desabotoa a camisa. Emma me beija dos lábios ao umbigo, em etapas e me dou conta de que não vai haver no mundo uma pessoa que me deixe da maneira como ela me deixa.

— Oh, meu Deus, está tão molhada... — suspira ela me tirando a calcinha e enfiando sua boca onde achava que devia. É, ela devia e podia fazer aqueles movimentos com a língua e me chupar como se não houvesse amanhã. Relaxo no sofá com uma mão estendida no encosto e outra se embrenhando com os cabelos dela.

Fecho meus olhos e permaneço acarinhando os cabelos da loira quando descubro o prendedor que segurava as mechas que sempre caiam na frente de seu rosto. Eu solto aquelas duas mechas e ambas fazem uma cócega ligeira sobre a virilha, é o auge dos meus arrepios. Me doo para os lábios de Emma, já não é mais tão fácil segurar a vontade de prendê-la entre as minhas coxas. Eu me mexo, jogo os cabelos para trás, respiro, me abro mais no sofá e isso parece instigar minha mulher, minha vida, minha sombra, minha em absolutamente todo o meu ser. Estou ali para ela, assim como ela para mim e não quero que isso acabe, mas se eu continuar cavalgando na boca dela vou explodir em prazer e o sexo acaba, pelo menos por enquanto.

Quero me conter, tanto quando os homens fazem para aproveitar ao máximo o clímax, assim perco a conta de quantas vezes estive prestes a gozar na boca dela e não o fazia por puro capricho de querer mais. A boca de Emma deve estar dormente, já está inchada do jeito que fica quando nos beijamos por muito tempo, mas ela não para, ela continua com o mesmo desejo, indo e voltando dentro de mim, me chupando como se eu fosse a mais doce das uvas. Suas unhas me apertam as coxas, me marcam e volta a ser bruta, impondo mais velocidade a língua e os chupões. É impossível resistir agora. De tanto me conter aquele orgasmo cinematográfico vem e meu grito ecoa único pela sala. Junto dele um nó se dissipa da minha garganta e derramo lágrimas quando abro meus olhos.

Emma sorve tudo que deixei para ela de mel, – a maneira poética de chamar o gozo feminino – volta meu corpo com beijos e encara uma lágrima escorrendo pelo lado. Nos olhamos e ela limpa aquilo com o polegar.

— Por que está chorando?

— Porque foi bom. — respondo ofegante a mirando.

Ela sabe que não estou bem, não totalmente. Não sou a Regina que ela está acostumada a ver, eu sou uma outra Regina desde que cheguei.

Nos deitamos no sofá por um tempo, trocamos os mesmos beijos e carícias sem perguntar nada, sem se precipitar. Emma alisa a fina linha da minha calcinha, acho que é uma ameaça se não pararmos.

— O jantar já deve ter esfriado. — fala quebrando o silêncio.

— Não estava com fome naquela hora.

— Percebi. Não duvido que esteja agora.

— Agora sim.

Ficamos nas meias palavras, conversa rápida, e Emma me serve o jantar ali mesmo, no meio da sala, sentando ao meu lado. Ela me serve um pouco de vinho e pasta com molho branco. Usamos a mesa de centro como apoio e o sofá de encosto, é a primeira vez que janto somente com roupas de baixo além da camisa de seda aberta e não há um minuto que eu não sinta os arrepios da brisa entrando pela sacada. Notando meu desconforto, Emma dá uma risada baixa e sai para buscar um roupão.

— Pronto. Só os meus braços não vão te aquecer do frio Nova Iorquino. — brinca ela me vestindo.

— O inverno está chegando cada dia mais forte. — olho para ela.

— Sim, é uma época cruel. Já passei maus bocados quando vivia na rua. — a fala dela é desapontada.

— Consigo imaginar. — Volto a comer.

— Ah, esqueci de contar que minha mãe já recebeu alta, fui vê-la hoje.

— É verdade? Isso é muito bom, Emma.

— Sim, tá tudo legal com ela, a cirurgia deu certo e ela não corre risco de vida. Felizmente o que ela escreveu na carta era um engano.

— Sua mãe pensava que havia perdido você. Que bom que ela estava enganada. E o seu pai? Tem falado com ele?

— Não ainda, ele é um cara mais fechado e por enquanto estamos só nos vendo a distância, mas depois da conversa que teve com ele, eu sei que uma hora ou outra ele vai me procurar.

— Sim, não duvide disso. Seu pai também precisava de compreensão.

Emma puxa sua taça e bebe um gole grande de vinho, em seguida me diz:

— Olha, Regina, o que você fez foi uma coisa de outro mundo. Eu sei que gosta de mim, que quer me ver bem e tem me dado provas disso todos os dias. Mas você pode não saber que estou entendendo bem o que vem acontecendo desde que falou com o meu pai. Se eu fiz alguma coisa errada...

— Emma, não. Não foi você, nem ele, nem ninguém. Sou eu. — respondo a pergunta que ela sequer teve tempo de fazer. — Eu é quem estou falhando. — Agora sou eu quem preciso do gole de vinho.

— Falhando em quê? — ela pergunta, mansa.

— Falhando em viver. São tantas coisas acontecendo e eu querendo resolver todas que me esqueci de mim. Há um vazio, um buraco que precisa ser preenchido, mas eu não sei como vou fazer isso.

Sinto que Emma fica sem chão, provavelmente colocando toda a culpa da minha confissão em si. Ela esteve mal e fiz de tudo por ela, agora é como se ela quisesse voltar no tempo para ser diferente, só que é impossível.

Ela coça a cabeça, apoia os cotovelos na mesa de centro e suspira.

— É muito ingênuo da minha parte pensar que estou te fazendo mal?

— Você não está me fazendo mal. São coisas minhas que empurrei para debaixo do tapete por muito tempo. Talvez eu é quem esteja fazendo mal aqui.

— Não, você está enganada, eu não consigo imaginar como estaria vivendo se não tivesse aparecido. Se estivesse me tratando mal eu nunca teria ficado. Até agora é difícil entender porque você quis me colocar para dentro, porque quis cuidar de mim e me namorar. Eu só tô deixando isso acontecer porque eu não sabia que ia me apaixonar como eu me apaixonei por você. Eu achava que sabia, mas não desse jeito, com essa força, com a loucura que eu sinto.

— Nem eu sabia que ia me apaixonar por você. — Ergo o rosto e a encaro na meia luz da sala. Largamos as taças de vinho na mesa e paramos um segundo para tomar ar. — Fui ao consultório do Gold hoje ele me disse que somos parecidas, Emma. Sentimos dores semelhantes e esse é um ponto que nos une. Estou com a conversa que tive com ele na cabeça e acho que ele tem razão.

— Tô entendendo... As coisas entre a gente, tô entendendo como tudo aconteceu.

— Muito depressa.

— Porque nossas dores exigiam urgência.

— A sua principalmente. Eu sinto como se estivesse te usando para tampar o buraco, igual eu fiz com as outras mulheres, só que com você eu tive coragem de pedir que ficasse. Agora eu te amo e estou com medo de arruinar tudo fazendo uma má escolha.

— Regina, se você quer terminar diz logo. — ela fala de uma vez, sem medo de se magoar. — Eu vou aguentar, eu vou superar e prometo que vou me cuidar. Se tá demais pra você, eu não quero que sofra carregando esse fardo que afinal é um fardo meu. Você nunca devia ter feito o que fez, mesmo assim fez e me fez também a pessoa mais feliz do mundo por alguns dias, me fez ver luz onde eu só enxergava escuridão, me colocou no colo e carregou pra sua cama, me ensinou a transar com sentimento. — ela ri como se o que estivesse dizendo fosse a maior besteira e não fazia sentido comentar. — Eu só não sou mais uma criança, eu tenho vinte e sete anos, porque se não sabe, no dia em que me trouxe pra cá eu estava fazendo aniversário, mas eu ainda devia tá chapada da outra noite e me esqueci de olhar o calendário. Ah é, eu nem tinha calendário pra lembrar que dia era. Então, quatro meses que vivo nesse apartamento e me acostumei com seu gosto, seu perfume, suas palavras, suas poses, é tanta coisa... Tô falando muito. — ela não quer chorar. — Eu só queria que soubesse que eu entendo que tá sendo difícil lidar comigo e eu ando fazendo o possível pra que as crises não voltem. Cada crise e um pedacinho de você vai embora, você não tá vendo, né?

— Não via até hoje, ou eu não queria ver.

— Se você tá com medo do que eu for fazer porque eu disse aquelas coisas antes, não liga, não fica pensando só em mim. Eu tava muito descontrolada, isso deve ter te assustado. É que eu sou assim, eu não seguro tão bem o que eu sinto, não aprendi a ser hipócrita nem disfarçar e naquele momento em que eu dizia que eu morreria por você eu não estava mentindo, só estava extravasando.

É a primeira vez que ouço Emma falar com tanta maturidade, ainda que tentando justificar suas atitudes. Eu entendia o que levava ela a ser boba como uma adolescente, a necessitar da minha proteção e dizer coisas sem nexo às vezes. Parecia que eu estava na vida dela para ensinar o que devia ser feito. Meu orgulho me levava a crer assim e parece que depois desses quatro meses, as várias crises e convivência comigo, ela havia começado a agir como uma mulher de verdade. Jamais pensei que fosse ela a tocar no assunto do término, até porque era o que eu menos queria, o meu medo era de magoá-la por não ter as mesmas forças para lutar ao lado dela todas as vezes. O mal entendimento dessa fala nos levou a um assunto que eu queria evitar e que era completamente possível de ocorrer um dia.

— Nós não vamos terminar, não estou pedindo que vá embora. Eu não quero desampara-la, eu só não sei se vou suportar tanto.

Emma abana a cabeça e me recolhe, me dando seu colo para deitar.

— Te prometi cuidar das suas dores e até agora só dei trabalho. Também não quero ir embora, mas se eu precisasse ir pelo seu bem, eu iria. Chora vai, você tá segurando desde que chegou e por causa desse orgulho idiota fica sofrendo por dentro. Sou eu, tá? Não precisa ter vergonha.

Fecho meus olhos com força e elas caem no modo automático. Emma me deita no tapete e faz o mesmo, me abraçando por trás, colocando seus braços a minha volta. Choro em silêncio alguns minutos que eu mesma quebro com soluços. A loira ainda está ali comigo, me aquecendo e me deixando extravasar as dores nas lágrimas. Aos poucos minha vergonha, ou como Emma gosta de dizer, orgulho, vai perdendo a força e decido me abrir para ela. Hoje não vou contar sobre Killian e minha decepção com ele, mas a minha história que quase ninguém compreende do meu ponto de vista.

— Minha mãe conta que não foi difícil querer me adotar depois de me ver na incubadora. Eu era pequena para um bebê de nove meses, ela pensava. Era muito difícil compreender porquê alguém havia me deixado, porquê uma mulher fora embora sem deixar rastros e esquecendo da filha. Eu nunca soube o nome dessa mulher, nunca soube como era seu rosto. — fungo, tentando formar uma imagem na mente de Cora Mills me pondo no colo a primeira vez. A história vai crescendo e Emma vai ser a primeira a ouvir por completo. — Eu tinha seis anos quando meu pai viajou por alguns dias e ligou lá para casa. Estávamos a uma semana do dia das mães e Cora não sabia como tratar daquele assunto. Eu sempre achei que éramos parecidas e dizia para ela, sem saber que estava partindo seu coração. Naquele dia minha mãe pediu para conversar com o meu pai sozinha, pois tinha tomado uma decisão séria. Eu não podia ouvir eles conversando, porém, com crianças quando você diz para não fazerem algo, elas fazem. Me despedi do sr. Henry Mills e fiz o que a minha mãe pediu, mas no meio do caminho eu voltei para ficar atrás da porta. Eu ouvi tudo, Emma, eu ouvi ela dizendo: “Como vou dizer para ela que não é nossa filha de verdade? Ela é adotada. Como vou dizer que a mãe dela a abandonou a sorte?” Não sei o que Henry Mills respondeu, com certeza pediu para ela ter calma. No dia das mães ela me contou tudo e eu passei a amar os meus pais por gratidão. Nós não mencionamos isso lá em casa, me levando a crer que alguns laços são tão fortes quanto os de sangue. Era para ser filha deles, ter uma irmã e me tornar uma advogada.

— Eu não fazia ideia. — sussurra Emma, me dando carinho.

— Eu sei. Mesmo aceitando o fato de ser filha dos Mills, eu ainda carregava alguma coisa muito forte no peito, mágoa talvez, de não entender o abandono, por isso que toda vez que isso acontecia era como uma pequena morte; Amigos que simplesmente não eram mais amigos e sumiam, ser a pessoa mais introvertida da sala de aula no ensino médio, ficar olhando as pessoas de cima de uma árvore invejando a vida delas, meu pai e minha mãe brigando todos os dias, tentar ser uma pessoa diferente para agradar, recomeçar quando algo dava errado, acreditar nas pessoas e estar redondamente enganada... Quando Killian apareceu, eu me sentia carente. Foram meses e anos bons, mas ele não queria o mesmo que eu e de repente eu estava sozinha de novo.

Contar em partes as razões que me empurraram ao meu vazio profundo levou a noite inteira. Emma não dormiu em nenhum momento, ela estava ali ouvindo e me dando a mão, limpando meu rosto sem questionar o que eu poderia ter feito para evitar. Aonde eu queria chegar com aquilo? Não tinha a menor ideia, a única coisa que eu sabia era que Emma ficaria deitada no tapete comigo até o outro dia se fosse preciso. Por muitas noites foram os meus ouvidos que ela precisou e eu dei sem questionar suas atitudes, hoje ela estava provando que eu poderia usar os ouvidos dela.

Quando a história da velha Regina chegou ao fim, ela me deixou dormir um pouco. Acordei com os passos dela vindo na minha direção. Abri meus olhos e a vi pronta, com a mochila nas costas. Ela me dirige um sorriso e me levanto, toda quebrada por dormir no chão.

— Pensei que não precisasse ir hoje. — digo, coçando o rosto.

— Hoje tem aula prática, mas a gente se vê logo mais no consultório do terapeuta.

— Ahm, Emma, eu acho que não vou hoje. Aluguei os ouvidos do Gold ontem, além de que preciso compensar essa manhã no escritório.

— Tudo bem. — ela me segura pela gola do roupão e me beija. Nos empurramos contra a parede mais próxima e logo aquele beijo vira um furor sem tamanho. — Eu quero ficar, foda-se a aula pratica, eu vou de tarde, quero ficar aqui e fazer amor com você a manhã toda.

— Só essa vez, você tem notas boas, eu posso ficar até mais tarde no escritório hoje... Só desta vez. — dizia contra os lábios dela, comprimindo nossas distancias. Eu sabia o que era aquilo, uma confiança mutua, nossa maneira de voltar ao equilíbrio. Depois da longa conversa na noite anterior, nós duas precisávamos destruir as minhas barreiras e liquidar as crises de Emma. Eu ia leva-la para a cama e nós íamos transar com raiva como na primeira vez. Semelhante atrai semelhante. Ter aquela combustão de tesão devia ser um sinal claro da nossa igualdade. Éramos distintas, ao mesmo tempo iguais, nas dores, no amor, na vontade, na cama. Eu não tinha vícios como Emma para precisa-los substituir com sexo, o que acontecia não era mais a paixão como a nova brisa dela, ela fazia por amor, pela química e eu por finalmente estar entregando a minha vida em suas mãos.

. . .

— ... mais forte, vamos... — peço para Emma enquanto monto em sua boca e cavalgo indomavelmente. Ela me aperta, me arranha e me beija, até que eu faça exatamente o mesmo com ela por mais duas vezes.

Quando paramos para tomar o mínimo de fôlego ela está por cima de mim de novo e sorri sobre meus seios, cochichando excitada:

— Só dessa vez, não é? Se eu começar a repetir isso todas as manhãs vou acabar reprovada na faculdade. A sua desculpa para me convencer foi engraçada.

— E não é verdade? Você tem boas notas.

— É, tenho mesmo. Gosto muito das aulas práticas, sinta-se lisonjeada por preferir ficar com você.

Sorrio e aliso suas costas, sua pele macia ao mesmo tempo que ela relaxa sobre mim.

— Quem disse que perdeu alguma aula? Você estava tendo outro tipo de aula prática.

— É verdade. — ela ri e mexe a cabeça para me ver, alisa meu queixo com um dedo avaliando a calma que se instaura entre nós duas após estarmos tão excitadas. Se ela não entendia como íamos do céu ao inferno em questão de segundos, eu muito menos. — Sobre as coisas que você me contou ontem... Você não está sozinha, não mais, nunca mais. As suas dores não são menos importantes que as minhas.

— É muito tarde para dizer que te amo?

— Nunca é tarde. Eu também te amo. — ela se estica e me beija, se levanta e recolhe suas roupas do chão, repondo no corpo.

Também devo levantar, mas ainda há tempo para admirar a mulher que se veste diante de mim e me causa aquele comichão dentro do peito. Esse é o momento que tenho certeza de que nosso relacionamento é muito mais que sexo. Nessas vezes em que fico olhando para ela e tudo o que sinto é uma paz imensa no peito. Acho que fiz certo em contar dos meus receios na noite passada, mostrando o quanto confio nela. Emma mudou ou vem mudando, para o bem dela mesma e consequentemente para mim. Não me perturba mais o amor louco dela, seus sentimentos a flor da pele e sua ousadia. No fundo eu gostava e gosto mais ainda dessa mulher que estou descobrindo.

— Se cuida, hein? — falo enquanto ela fecha a calça no zíper.

— Você também, até mais tarde. Bom trabalho.

— Boa aula.

Quando ela sai suspiro até o ultimo ar que há em mim. De repente a vida volta a ter um sentido, quero estar bem, jamais sentir aquela tristeza infinita de novo, quero ser uma Regina livre do abandono, porém antes quem deve dar os passos sou eu. Sabia que Emma estaria comigo e talvez ela fosse o exemplo a ser seguido. Desde que nos encontramos, quando disse que me preocupava, ela aceitou lutar, por que não me encarar e lutar por mim também?

Me banho, olho no espelho e não me reconheço sem a maquiagem, que nada mais é do que uma máscara para esconder o meu cansaço. Paro um tempo me olhando e observando a Regina, perguntando se Emma enxerga por trás da máscara. É como se ela me conhecesse há muito tempo e estivesse sempre à minha espera, assim como eu a dela. Fazia ainda mais sentido tudo o que Gold me disse, não tinha como negar.

O resto do dia é comum. Atendo dois clientes com problemas financeiros em suas empresas, mando Belle organizar minha agenda para o dia de amanhã e no entardecer abro as cortinas para dar uma olhada em Manhattan escurecendo. Fico de pé com as mãos no bolso diante da janela do escritório por tanto tempo, pensando que eu poderia ficar olhando para a cidade com mais frequência e começar a dar valor a momentos como esse. Nada pagava essa sensação, mas havia outra tão boa quanto e que me dava a mesma vontade de continuar. Eu sabia qual era.

— É bonito, não é? Esses dias tomei a liberdade de ficar olhando enquanto você não chegava. — Belle diz já dentro do escritório, tirando-me do transe. — Sua agenda. Tudo programado para amanhã. Precisa de mais alguma coisa?

— Não, Belle, obrigada. Pode ir para casa, eu me viro hoje. — digo contente.

— Tá bom então. Até amanhã, Regina.

— Até amanhã. — ela se retira e eu continuo mais um instante. Olho meu relógio de pulso e são quase seis. Mudo de ideia sobre não ir buscar Emma no consultório de Gold hoje.

No consultório resolvo esperar por Emma, fazendo surpresa. A secretária que nada tem a ver com a história, chega à conclusão de que precisa muito ir para casa. Percebo o quão nervosa ela parece e abaixo a revista que estou segurando diante do rosto para falar:

— Hoje está demorando mais do que o normal, não?

— Sim, eu preciso ir, meu marido está me esperando com meu filho lá embaixo. — diz ela, olhando para a porta a cada cinco segundos.

— Vá, pode ir, eu vim buscar a pessoa que está aí dentro, ela não deve demorar.

— É mesmo? Você não se incomoda de esperar sozinha?

— Claro que não e se o Gold disser alguma coisa eu defendo que já estava passando da sua hora.

Ela levanta, recolhendo suas coisas.

— Oh, muito obrigada! Agradeço muito. Boa noite.

— Por nada. Tenha uma boa noite. — me levanto para abrir a porta a ela e ouço a voz de Emma soar mais alto na outra porta.

A curiosidade matou muita gente ao redor do mundo, mas na realidade, se eu quisesse entrar eu podia. Me aproximei da outra porta e escutei com alguma dificuldade a voz macia do terapeuta no meio de uma pergunta.

“O que é que você sentiu quando ela contou tudo?”

“Senti que ela precisa de mim tanto quanto eu preciso dela. Há razões para estarmos juntas, como se fossemos as salvadoras de ambas.”

“Muito bem, Emma, muito bem. Acha que ela se sentiu melhor depois de desabafar?”

“Falei para ela dormir que eu não sairia dali até amanhecer.”

“E quando ela acordou vocês fizeram amor, estou certo?”

“Como sabe?”

“Intuição. Sendo terapeuta dela por alguns anos eu conheço as atitudes. Essa é uma das formas dela de dizer que te ama.”

“Nunca parei para pensar nisso.”

“Emma, me diga uma coisa, seria capaz de deixar Regina se ela pedisse?”

“Foi o que eu repeti ontem. Se ela estivesse sofrendo por minha causa eu poderia ir embora.”

“Deve ter sido uma conversa um bocado madura pelo visto.”

“Foi sim, senhor. Mas nem eu nem ela queremos terminar. Há muitos dias eu dizia que poderia me matar se ela me mandasse embora, agora eu buscaria compreender e viver sem ela se fosse o caso. Eu sei que ela sofre comigo quando tenho crises, tenho mais um motivo para querer ficar boa, para não fazê-la sofrer.”

“Isso vai ser inevitável, querida. Em algum momento a depressão da Regina vai eclodir enquanto ela não se cuidar. Vença o orgulho dela em esconder esses pequenos detalhes, caso contrário ela vai voltar à estaca zero, como quando entrou pela primeira vez nesse consultório. Não é o caso dela precisar de remédios, é de ter alguém em quem confiar e partilhar as frustrações.”

“Eu não vou deixar que ela sofra, nunca mais. Eu fiz uma promessa.”

“Nunca mais é muito tempo e responsabilidade. Você precisa amadurecer muitas coisas ainda para ter tanta confiança, moça.”

“Eu sei. Ela não pode nem merece se sentir menos que eu.”

“Regina se rebaixa porque vive em comparações. A vida dela sempre esteve atrelada a comparações, ora com a irmã mais velha e filha de sangue dos pais que a adotaram, ora com as pessoas mais populares da escola e faculdade e mais recentemente com a mulher que o ex noivo preferiu.”

Comparações, verdade. Sempre foi assim, porque o meu sonho era ser popular, ser adorada e famosa. Sempre fui tímida e isso contradizia meus planos e me conduzia a comparações. Gold está certo. E ironicamente hoje tenho uma fama na minha profissão, porém nem isso me preencheu o vazio que eu sentia, só fez aumentar.

Me afasto da porta e reflito vendo a pilha de revistas velhas sobre o sofá. Gold abre a porta do consultório e Emma se despede dele.

— Você tem evoluído muito, Emma. Pense a respeito daquela terapia em grupo que indiquei perto do Central Park. — diz ele.

— Prometo pensar com carinho. — ela fala apertando a mão dele, segurando sua mochila no ombro esquerdo no momento em que me vê. — Oi!

— Oi — sorrio para ela e o terapeuta. — Surpresa.

— Surpresa mesmo, disse que não vinha. O que te fez mudar de ideia?

— Achei que quisesse uma carona para casa. — seguro sua mão e ela demonstra gostar.

— Tudo bem, Regina? — Gold pergunta.

— Sim, Gold, estou bem. Melhor agora.

— Convença sua namorada a participar do grupo de reabilitação, será bom para ela.

— Vamos conversar sobre isso em casa, está okay? — olho ela e Emma faz que sim. — Nos vemos na próxima semana então, meu amigo.

— Como preferir. — ele sorri gentil. Anda até a porta e repara que sua secretária já foi. — Onde a Angela está?

— Não se preocupe, eu disse para ela ir porque estava passando da hora dela.

— É verdade, hoje conversei com Emma por mais tempo. — ele confere a hora no relógio. — Sinal de que muitas coisas estão acontecendo. Boa noite meninas, até a próxima.

Nos despedimos dele e deixamos o edifício no meio de uma das veias de ruas que cruzam as redondezas do Central Park. Emma vem conversando comigo pela calçada, contando que estraguei seus planos de me fazer um jantar romântico quando chegasse em casa.

— Sua sem graça, assim não vale, nunca vai me sobrar tempo para fazer esse jantar.

— Amanhã você prepara e já adianto que quero beber champanhe e que jogue rosas espalhadas pelo chão em direção ao quarto até a cama. — digo e ela se agarra ao meu braço, rindo da ideia.

— Isso devia ser uma surpresa.

— Não vai deixar de ser, não me conte o que vai preparar.

— Como você está engraçada hoje... — Emma continua falando.

Atravessamos uma rua em cima da faixa e algo acontece muito depressa. Um homem de sobretudo e cabeça raspada esbarra em mim com truculência ao ponto de quase me derrubar. Olho para trás e ele segue a calçada oposta com pressa. Uma sensação de que estou sendo observada me preenche causando mal estar. Meu estômago se comprime e tenho que olhar em todas as direções, para os lados, para cima, para as janelas dos carros estacionados. Alguém estava me observando de algum lugar e o esbarrão do homem careca é um aviso. Procuro por ele na calçada oposta, mas o homem desaparece como passe de mágica e à essa altura já se passou tempo o suficiente para uma fila de carros parar atrás de mim e buzinar pedindo que eu saísse do caminho.

— Regina! O que foi? — Emma me chama já na calçada, me olhado assustada.

— Nada, eu só pensei ter visto um conhecido. — saio do meio da rua e volto a andar com ela.

— Tem certeza? Você ficou esquisita parada no meio da rua. Era aquele homem que esbarrou em você?

— Era. Era ele sim. — confirmo para ela mesmo sem certeza. — Bem, deixa pra lá. Que tal jantarmos no Chinês hoje?

— Hum, ideia boa, eu posso pagar. — Emma logo esquece o ocorrido e aceita minha sugestão.

Na verdade, eu tinha inventado uma estratégia para ela não perceber a desconfiança que se forma rapidamente em uma teoria na mente. Talvez fosse preciso ter muito mais cuidado enquanto resolvesse andar pelas ruas, pois velhos inimigos dos tribunais queriam uma revanche.

Notas finais
Eu sinceramente não sei muito o que falar desse capítulo. Um único detalhe que eu posso compartilhar com vocês é que pela primeira vez eu me comovi muito além da conta escrevendo algum texto. Muito obrigada pelo retorno desde já. Um abraço forte, até o próximo e fiquem bem.