For the love of her
18 Ficar a qualquer custo
Notas iniciais
Desde o inusitado esbarrão com o homem estranho que eu suspeitava ser um dos meus ex adversários dos tribunais, nada de incrivelmente assustador ocorreu. Já suspeitava de que a qualquer momento eu seria surpreendida por uma carta repressora ou algum recado ameaçador por parte dos investidores do Banco de Crédito e Comércio Internacional, que havia fechado as portas após o escândalo que me tornou uma advogada requisitada. E enquanto nada acontecia desse lado da minha vida, do outro eu me permitia ser feliz com a mulher que havia conquistado meus dias. Eu não estava preocupada comigo, estava preocupada se alguém faria mal a ela. Sim, Emma era meu ponto fraco e eu mesma reconhecia isso. Talvez alguém tenha me visto andando com ela pelo Central Park nos domingos pela manhã ou então nos viu jantando no restaurante Chinês que gostávamos de frequentar. Se isso realmente aconteceu, tenho que ficar de olho nela mais do que já fico ao mesmo tempo que não posso tornar essa situação em uma paranoia.
Fugindo um pouco dos velhos inimigos, preciso admitir que não há nada mais confortável do que chegar em casa em um dia cheio, como andavam os meus, para receber os beijos de Emma. Não precisamos dizer nada. É eu entrar, me desfazer do terno e ser recebida por ela. Seu cheiro, seus lábios, suas mãos e olhos. Tudo o que preciso e o que me mantém cheia de vontade para viver. Desde que me abri com ela aquela relação fortalecia nossa busca pela cura. Emma secava as minhas lágrimas e me dava motivos para sorrir. Quando ela sofria pelas crises e perdia o controle, era minha vez de criar os motivos para fazê-la sorrir e quase sempre a saída era pensar em algo inusitado, como na noite em que cantei aquela música da Mariah Carey que ela insistia em dizer ser a nossa canção. Foi uma ideia péssima ao meu ver, mas eu soube que ela havia gostado quando na manhã seguinte me disse que minha voz era no fundo boa e que eu só precisava de algumas aulas de canto. Ainda que aquilo tivesse funcionado por um momento, Emma tinha um remorso muito grande sobre si. Ela achava que era a maior culpada por ter se drogado boa parte daqueles anos em que viveu nas ruas. Cada crise trazia seu remorso à tona e cada vez era um novo desafio para nós.
Cansada de se sentir mal, mesmo com tantos esforços para vencer cada batalha, ela aceitou o conselho de Gold sobre ir a um grupo de discussões e desabafos com pessoas que sofriam o mesmo drama que ela.
— Quer a minha companhia?
— Não, obrigada. Eu preciso entrar sozinha aqui. É uma questão de me fazer entender que a decisão de ficar boa parte primeiramente de mim.
Toco o rosto dela e a beijo no carro antes dela abrir a porta e descer. Vejo Emma andando para um beco, uma porta nos fundos de uma igreja. Ela me olha antes de entrar e sorri timidamente. Uma hora se passa e eu faço uma reflexão sobre ela, o quanto tem evoluído por minha causa e principalmente pela vontade própria. Emma é jovem, bonita, certamente se daria bem com qualquer outra mulher ou homem, mas apenas uma pessoa teve a capacidade de estender a mão para ela. Eu; Ainda me questionava o que havia me levado a ajudar aquela mulher e eu entendia que inconscientemente eu estava buscando por ajuda também. Uma mão lava a outra. Nesse caso, eu estava salvando a vida dela e ela a minha. Sou feliz com ela, por ela e por nós duas, mas essa é uma felicidade totalmente diferente da felicidade que eu já senti. É uma felicidade que preenche todos os espaços vazios da minha alma, que me enche de esperança e mata a ansiedade de esperar por uma novidade, pois cada momento vale a pena ser vivenciado. Não é preciso mais correr para fazer tudo, me arrumar em cinco minutos, comer uma salada sem graça de almoço porque tenho horários a cumprir, enfrentar o engarrafamento e chegar tarde em casa. Até isso parece proveitoso, porque Emma está lá no fim do dia me esperando.
Algumas pessoas deixam o beco após a sessão de terapia em grupo terminar. Emma é uma das últimas a sair e vem andando com os braços cruzados, meio sorridente, meio séria, não sei definir. Ela entra no carro, bate a porta e me olha.
— Então, como foi? — pergunto.
— Impressionante. Eu não fazia ideia de que tanta gente se sentia como eu me sinto. — responde ela após um suspiro.
— Pretende voltar na semana que vem?
— Sim, acho que sim, mesmo que eu tenha que falar sobre os meus problemas abertamente na sessão.
— Você não é obrigada a dizer nada.
— Eu sei, mas a minha história pode ajudar os outros de alguma forma. — ela prende os lábios.
— Tem razão. Vamos pra casa?
— Vamos.
Ela me contou as duas histórias que ouviu naquela noite, ex viciados que sofreram na pele os males que as drogas fizeram deles. Histórias tão tristes quanto as de Emma. Inocências perdidas, abusos, violências. Confesso que eu ainda me assustava ouvindo os episódios obscuros da vida de Emma e pouco havia percebido que ela não era a única. Equivocadamente eu pensava que Emma sofrera mais do que qualquer outra pessoa, até mais do que eu às vezes, quando na verdade haviam casos e casos, alguns idênticos outros distintos e piores.
Passei algum tempo refletindo sobre isso enquanto Emma frequentava as reuniões e se consultava com Gold. Porém, numa dessas semanas ela oscilou e tive medo da sugestão do psicólogo ter influenciado no estado dela.
Cheguei no apartamento numa quarta-feira a noite e parecia que um furacão havia passado por ali. A porta estava escancarada, os móveis revirados, vidros quebrados e no fundo eu ouvia o choro de alguém. Entrei em desespero.
— Emma?! Emma, cadê você? — corri apartamento a dentro. Tudo estava no chão, minhas roupas, meus perfumes e água... Um som de água caindo junto a soluços.
Emma estava no meu banheiro, sentada dentro do box sob uma poça de água vermelha. Ela tinha se cortado no pulso numa tentativa idiota de se machucar. Olhava para o próprio braço e chorava.
— Eu me odeio... Isso tem que acabar... Eu odeio o que eu fiz...
Me aproximei com o coração disparado, eu tremia de medo da cena que estava vendo, devia estar com os olhos arregalados. Emma se encolheu ainda mais no canto do box, eu entrei e a peguei no colo, ela chiava de dor, seus lábios começavam a ficar roxos e a pele ficava mais pálida do que já era. O ritual que acontecia às vezes, tirá-la de dentro do box e leva-la para se deitar na minha cama, dar o calmante e esperar até que ela dormisse. Hoje foi mais radical do que das outras vezes e eu entendia porque ela estava ferida no pulso, não era um mistério saber, tanto que não deitei Emma e esperei desta vez. O corte estava profundo, se não estancasse o que vazava ela desmaiaria a qualquer momento. Perdi um terno na tentativa de tampar seu pulso até o hospital. Emma veio o caminho todo gemendo da dor que ela mesma havia causado em si.
Na emergência, uma hora mais tarde, um médico de plantão a liberou e envergonhada ela não queria me olhar. Nós duas sozinhas na vasta sala cheia de camas, a não ser por um paciente que dormia profundamente numa cama lá no fundo e suspeito que estava bêbado porque roncava alto e infestava o ar com cheiro de álcool. Emma olhava o braço, o curativo feito em cima dos pontos sobre o pulso e eu sabia que não podia perguntar nada para ela, nem devia, era mais fácil deixar que ela falasse.
— Se eu fosse você me deixava aqui hoje. — sua fala é triste. — Nem pergunte o porquê, você sabe. Tem dias que eu morro de vontade de colocar um cigarro na boca e o inferno começa a partir daí. Penso que se eu posso fumar um cigarro, não faz mal tentar fumar um baseado depois, só um tapa, por que não? E começo a lembrar da descarga de animo que eu sentia quando usava pó. Conheço tantas pessoas na faculdade com acesso a basicamente tudo o que eu já usei, e fico pensando se não faria mal cair na tentação só uma vez, para comprovar a merda que é ser um drogado de novo. É um dilema todos os dias, Regina. Ou eu volto a fumar e cheirar ou eu penso em você. Sempre prefiro você porque enfiar pó pelo meu nariz me dá uma sensação momentânea, já você tem me dado carinho há quase seis meses. Acho que não é só isso, você se apaixonou por mim e isso deve ser amor mesmo, mas até onde você suporta? Coloque numa balança o seu amor e a sensação de estar viajando, o que é melhor? O que pesa mais? Seu amor não é droga, é sentimento e não quero perder ele por nada, embora eu sinta que uma hora ele vai se cansar e você vai me deixar.
— Não estou decepcionada com você, Emma.
— Você não entendeu. É perigoso lidar comigo hoje, não vale a pena ficar aqui tentando me acalmar porque eu já fiz a besteira da vez. Essa cicatriz que vai ficar no meu braço é mais uma lembrança dessas crises e a cada vez que eu passo por uma eu acho que na próxima eu não vou suportar. Você não entende porque seu problema é outro, suas crises são bem diferentes, você chora, fala e pronto...
— Emma, para! — levanto a voz sem paciência. Eu sei que as palavras dela nesse momento são desculpas para nos afastarmos, para que eu não sofra por ela e acabe mal de novo, e isso me irrita profundamente. A preocupação de Emma em não querer que eu viva as crises com ela me ofende. — Eu sei o que está querendo me dizer e eu tenho uma coisa para falar. Nós duas temos que enfrentar os seus e os meus problemas juntas, queira você ou não. Só porque o Gold te disse que eu sofro tanto quanto, não quer dizer que vou piorar. Eu estou de peito aberto para vencer o seu vício e aceitei a sua ajuda quanto a minha depressão, não me priva da dor, porque algo aprendido nela nós jamais vamos errar de novo. Eu estou sabendo de tudo, Emma, estou ciente do seu sentimento por mim e a ficha finalmente caiu quanto ao que eu sinto por você, não são essas crises que vão me afastar, muito pelo contrário, isso só vai me aproximar. Hoje foi só um dia ruim, amanhã você vai ver que tudo será diferente.
Ela abre aqueles olhos esverdeados para mim, funga e olha minha camisa com respingos do seu sangue.
— Aquelas pessoas na terapia em grupo... Todas aquelas histórias só me fazem ter certeza de que eu não te mereço.
— Não? Alguém ali por um acaso é melhor que você?
— Eles conseguiram superar, eu ainda não. — ela diz.
— Mas você vai, Emma. Põe na sua cabeça que você vai. É uma fase ruim que está tentando superar, eu tenho certeza que vai. — Ao mesmo tempo que eu sabia das mudanças de humor de Emma quando ela sofria com crises, eu também me assustava. Ter certeza de que ela ficaria boa não era garantia de que isso de fato ia acontecer. Emma era outra em horas como essa, era a vilã de si mesma e se enfrentava com bravura. Eu também sabia que quando acordasse na manhã seguinte ela seria a Emma que conheço e me pediria perdão.
Passamos aquela noite juntas no hospital. Pela manhã a levei para casa, arrumei a bagunça e ela dormiu o restante do dia, não trocamos palavras. Ela acorda apenas na outra manhã enquanto me arrumo para ir atrás de uma pasta importante no escritório.
Emma apalpa o lado oposto da cama, não me acha e abre os olhos inchados, me vendo de pé colocar o relógio de pulso e o perfume.
— Para onde você vai? Hoje é sábado. — diz ela, completamente exausta.
— Vou ao escritório buscar uma pasta que esqueci, um caso que tenho que resolver na semana que vem. — me aproximo da cama sorrindo para ela de maneira doce e sento ao seu lado, beijando seus lábios quentes de sono. — Como é que está se sentindo? — pergunto.
— Melhor do que ontem, com certeza.
— Passou?
— Sim. Venci mais uma. — ela suspira, abana a cabeça e lembra de tudo o que fez. — É tão ruim ficar fora de mim. Como você suporta?
— Você sabe a resposta. Não vou te deixar sozinha quando isso acontecer, nem em todos os outros momentos que se sentir mal.
— Eu sei. Desculpa pelas coisas tolas que te disse.
— Você não tem culpa de nada. — Volto a beijá-la e afasto seus cabelos do rosto. — Agora descansa mais um pouco, eu volto com o almoço e de tarde se estiver se sentindo bem vamos ao cinema.
— Não, eu vou levantar, tomar um banho e estudar. Preciso de distração e se não for cozinhar ou transar com você eu começo a pensar besteira.
Sorrio porque sei que ela está brincando. Obviamente há inúmeras formas de distração, não apenas transar ou fazer o jantar. Há algum tempo Emma e eu não trocamos carinhos mais enérgicos na cama, como se um ciclo estivesse acabando e precisássemos de menos ritmo, mais atenção.
— Tudo bem, só me promete que se sentir qualquer coisa vai me ligar. — estou pertinho dela, aliso seu braço e no fim chego em seu curativo no pulso. Nós olhamos juntas para a atadura e ela faz que sim.
— Eu prometo. — ela se senta na cama e me observa. — Escuta, por que precisa se arrumar toda para ir no escritório? Até parece que vai a um evento, uma audiência.
— Sou uma mulher vaidosa. — dou uma risada.
— Até que eu gosto de te ver assim. Foi desse jeito que te conheci e com esse mesmo perfume.
Paro e fico olhando para ela, me lembrando que quase a beijei naquela ocasião e mal tínhamos nos conhecido.
— Aquela noite no cassino... É, eu me lembro.
— Eu te amo, Regina.
— Eu também te amo.
Saio após falar o que ficava cada dia mais fácil, que amo ela.
Eu de fato precisava buscar a pasta no escritório em pleno sábado, mas também tinha outra intenção ao sair do apartamento. Deixei o carro a um quarteirão da floricultura mais famosa de Nova York e mandei prepararem um buque com as rosas mais bonitas da loja, era meu presente para Emma, para ver os olhos dela brilhando e mais uma vez aquele sorriso lindo quando está contente. Enquanto eu escolhia o cartão que iria junto, senti um toque bruto sobre meu ombro e no susto me virei. Se eu estivesse armada, Killian teria um grande problema. E, sim, era ele. Ele estava ali esbaforido, me olhando com seus grandes olhos azuis inquietos.
— Até que enfim, Regina!
— Killian? O que é isso? — estranho a presença dele, por que diabos ele veio me procurar dentro da floricultura? O que ele fazia me vigiando para saber que entrei ali?
— Perdão, eu não queria assustar ninguém. — diz ele quase sussurrando, olha para os lados e confirma que não há muita gente por perto. — Você está bem?
— Sim, estou bem. O que faz aqui?
— Não me leva a mal, tá bem? Eu só preciso te avisar uma coisa...
— Do que é que está falando? — começo a franzir o cenho.
— É muito importante que se cuide...
— Killian, que palhaçada é essa?
— Shh... Fala mais baixo, tem um deles aqui dentro! — Killian parece se desesperar e eu finalmente entendo o que é que ele quer me dizer. Ele me pega pelo braço com certa delicadeza e me traz para perto do balcão. — Os caras do BCCI estão atrás de você, tenha cuidado.
— Como é?!
— Disfarce, pois um deles está lá na frente te olhando. Veja bem, eu vou dizer uma só vez, fuja de Nova York enquanto é tempo, estão atrás de você.
— Como você sabe disso?
— Tem um boato rodando pelas firmas. Esses caras querem dar troco nos envolvidos do caso que você ganhou, se alguma coisa esquisita ainda não aconteceu deve ocorrer. Toma cuidado, até porque agora você trabalha em um escritório próprio, está sozinha.
Olho para todas as direções rapidamente. É incrível como não vejo ninguém me observando e a sensação de pânico se instaura em mim.
— Eu já suspeitava, há uns dias esbarrei com um cara na rua e tenho certeza que ele fez de propósito. — repito no tom de Killian.
— Pois é, então eles já estão dando as caras. Tenho tentado falar com você há dias, mas nunca encontro a oportunidade.
— Por que simplesmente não denunciam esses perdedores para os federais?
— Não adianta, eles são bons em não deixar pistas. Regina, vai por mim, sai da cidade por uns tempos. — ele tenta fingir que está tranquilo colocando as mãos nos bolsos da calça e do terno.
— Eu não posso. — afirmo, tentando disfarçar, sorrindo para a vendedora que recolhe as flores do buque.
— Por que não?
— Tem alguém que precisa de mim, sair agora não seria bom.
— Leve ele com você, faça alguma coisa.
— Não é ele, é ela.
— Ah... Ela... Okay, Regina, que seja, mas tô avisando, você está com problemas e esses caras não vão querer relevar a derrota.
— Será que você não está exagerando? Se me matarem a culpa logo cai sobre eles.
— Tá, eu posso estar meio equivocado. — ele bufa.
— Meio? Completamente pelo visto. — confiro se ninguém nos olha dentro da loja. — Talvez eles queiram me extorquir, pois então que venham, não tenho medo.
— Que é corajosa eu sempre soube, mas eu não teria o mesmo sangue frio. — Killian passa a mão pelo corte militar que o deixa mais sério.
— Olha, tudo bem, obrigada pelo alerta. Vou ficar de olho, nada vai acontecer comigo ou com a Emma.
— Ah, o nome dela é Emma, hum?
— Não interessa. Muito obrigada pela informação, deixa que eu me cuido.
Killian coça a nuca.
— Deixa a magoa que você tem de mim um pouco de lado e escuta o que eu te falei. Se cuida mesmo, não é por brincadeira que avisei. Desculpa de novo por tudo. Até logo.
Ele fala mais próximo e se afasta por fim. Olho para a porta assim que ele sai e não há ninguém me observando. A sensação de pânico vai embora por enquanto e eu fico em dúvida se acredito no meu ex noivo ou não. Será que é para tanto? Ou estou certa em apenas tomar cuidado? A ideia dele é absurda. Não há como sair de Nova York agora, de jeito algum.
Volto para o apartamento um pouco preocupada, mas não quero assustar Emma então opto em não dizer nada por enquanto. Ela está na sala tentando consertar a bagunça que fez e eu não pude arrumar antes, me vê entrando com as flores e larga tudo para sorrir. Ela abana a cabeça, não acredita e se aproxima toda emocionada.
— Isso é sério? Tá acontecendo de verdade? — diz ela entre um riso.
— Como pode ser mentira? Queria fazer algo melhor, é que eu ainda não tive uma grande ideia e sempre que trago flores você fica tão feliz. — entrego o buque para ela.
— Ai, Regina, eu nunca pensei que fosse me sentir assim, você ainda me traz flores e quer dizer que pode fazer melhor? Nossa! Pra quem nunca ganhou nada assim eu estou no céu. — Emma cheira as rosas. Anda até a cozinha para buscar uma jarra e a sigo. Ela põe as flores sobre a bancada da cozinha e quando se vira para mim nos tombamos, eu a seguro.
Ela passa as mãos pelo meu rosto e nos perdemos num beijo intenso. Emma se sente revigorada, ela é outra de novo, a Emma que eu conheço, a Emma corajosa que não nega seu amor por mim e quer me ter sempre por perto sem me privar de nada, sem se oprimir, sem se render.
Ela me puxa, me prende, me alisa, me bagunça, parece que sabe do perigo que eu corro. Quando paramos ela me olha, está arrepiada e ofegante. Sorri e seus olhos estão brilhando.
— Era para isso afinal que queria ir buscar a pasta no escritório? Você planejou tudo só para me ver feliz. Não te mereço.
— Merece sim, tanto quanto eu mereço você. — falo de volta e nós duas nos olhamos profundamente.
— Esse amor da gente é meio torto, é maluco e nasceu das nossas necessidades. — disse ela bem calma, amansando a minha pele.
— Não sou o tipo de pessoa que acredita em acasos, mas você foi um desses momentos que deu certo e começo a pensar que tudo isso tinha de acontecer.
— É muito bom me sentir amada, melhor ainda amar. A cada dia você se abre mais comigo e se permite ser uma pessoa maravilhosa. Duvido que soubesse que podia ser tão boa.
— Realmente não sabia. — Respiro fundo. — Vamos deixar assim e eu vou descobrindo essa pessoa boa que existe em mim.
Tento não pensar no aviso de Killian e seu desespero aparente ao me ver na floricultura. Olho para Emma enquanto aperto ela contra meu corpo sabendo que mais cedo ou mais tarde eu teria de fazer uma pergunta. O que seria dela se acontecesse algo comigo? Sei de sua maturidade em me deixar caso seja necessário, mas não posso assustá-la com informações sem sentido. Então vou protege-la e me proteger, custe o que custar eu não vou sair de perto dela agora.
Cinco dias mais tarde, nenhum sinal de espiões na minha cola, tudo parece absolutamente normal, tranquilo, até mesmo nos tribunais. Confesso esquecer que eu poderia ser um alvo dos velhos empresários inconformados com a minha vitória. São tantos casos, trabalho e tempo que parece existir uma cúpula de proteção sobre mim, ou de fato Killian havia exagerado em me procurar e falar dos boatos que corriam pelas firmas. Emma me ensinou uma coisa que começo a crer ser verdadeira: Quando damos valor de mais a um pensamento ele pode se tornar real. Como se fingir tanto tornasse a situação verdadeira. Isso faz sentido, pois se eu estivesse preocupada como anteriormente, talvez já tivesse acontecido algo grave.
Então por que diabos Killian estava tão exaltado naquele dia? Da próxima vez eu diria a ele para ser menos enérgico em suas brincadeiras, pois não funcionaram comigo. Além de que isso pode ter sido uma forma dele descobrir com quem ando me relacionando. Muito esperto.
Sem querer e sem saber, puxo de uma das gavetas uma velha agenda com números importantes. Lá pela letra “K” há algo marcando uma página. Folheio e encontro uma foto minha e de Killian na época do namoro. Eu ainda tinha os cabelos compridos, olhar sonhador e um sorriso meigo nos lábios enquanto ele não mudara muito. Não sei porque ainda guardo essa foto, talvez eu tenha apenas esquecido ela aqui. Não sinto nada, nem ódio, nem rancor, nem saudade de quem eu era ao lado dele. É uma das primeiras vezes que não sofro recordando dos sorrisos que esse cara me arrancava, assim como começo a me conformar que nunca daríamos certo juntos. Há uma diferença gritante entre minha foto com Killian e minha foto com Emma no Central Park, que olho sobre a mesa. Enquanto numa eu sorrio, na outra estou me privando disso, embora eu esteja muito mais feliz e sei só pelo meu olhar. Nem sempre sorrisos transparecem a verdade. Já naquela época eu sabia que ia sofrer e tinha uma tristeza profunda me rondando. Com Emma eu comecei a me libertar desse medo de ser infeliz e passei a viver milhares de vezes mais intensamente, portanto os sorrisos não eram para impressionar os outros, eram somente para ela.
Levanto os olhos da foto e como uma aparição mágica ela está ali parada com sua mochila nas costas.
— Oi. — diz baixinho.
— Oi. — penso em me levantar, mas não vejo necessidade.
Emma se aproxima da mesa e observa a foto na minha mão. Ela não reage, apenas olha sem dizer nada. Tomo uma atitude exagerada, rasgando a fotografia ao meio e em vários pedaços, jogando no lixo posteriormente.
— Por que fez isso? — Emma me pergunta sem entender.
— Você não ia gostar de me ver com ele.
— Eu? Você está preocupada com o que vou pensar de uma foto? — Emma sorri levemente sem querer me ofender. — É mesmo?
Me levanto e encaro ela, acho que perdi o jeito.
— Não foi um relacionamento bom no final das contas. Sabe que me aborreci com ele e admito que ainda o odeio.
— Era para sentir ciúmes de você?
— Não sei. Você não gostava da Kris e o que tive com ela foi apenas um caso.
Ela ri de novo, larga a mochila.
— Sei lá, Regina, apesar de você ter se deitado com metade das mulheres lésbicas dessa cidade eu confio cegamente em você. Você tem razão, eu devia sentir ciúmes, espernear toda vez que encontrasse seus indícios de relacionamentos do passado, mas eu não consigo mais ser aquela boba de meses atrás. Eu nunca amei ninguém, nunca senti tanta coisa junto como é agora com você, eu sequer sabia como era lidar com uma mulher experiente. Mas eu também não me sinto errada em evitarmos brigas por posse, porque eu compreendo perfeitamente quem é a mulher que me salvou e por quem me apaixonei, então os seus casos e o seu ex noivo só provam a pessoa que você deixou de ser há muito tempo. É como se fosse outra aqui na minha frente, tão dependente quanto eu de afeto e batalhando para ser a melhor possível.
Sinto o nó prender minha garganta e meus olhos se ensoparem.
— Acho que preciso me lembrar disso às vezes. — digo com a voz embargada, prendo os lábios imitando Emma.
— Sim, você deve.
Ela afasta meus cabelos para trás e me oferece seus braços, mas quando estou prestes a abraça-la, Belle nos interrompe.
— Regina, desculpe atrapalhar. Seu cliente das quatro horas chegou. — diz a secretária da porta.
— Tudo bem, Belle, peça dois minutos a ele, por favor.
— Sim, senhora. — ela retorna e nos deixa a sós.
Volto a olhar Emma e suspiro.
— Podemos ir embora juntas, só tenho mais esse cliente hoje, que acha de esperar um pouquinho?
— Deixa. Eu vim fazer uma surpresa, tem terapia hoje, esqueceu? — Ela recolhe a mochila para cima do ombro novamente e me beija antes de dar as costas.
— É verdade. — limpo o canto dos olhos.
— Frango grelhado para o jantar? — pergunta por cima do ombro.
— Ahm... E salada Ceasar, molho de mostarda e mel. — peço assentindo várias vezes, Emma sabe do que gosto. Ela sai sorridente e levo um minuto inteiro para me recompor.
Tenho a impressão de que Emma quer me contar algo. Seria uma reconciliação com o pai ou uma nota boa que ela tirou em alguma matéria da faculdade? Não faço ideia e vou precisar esperar um pouco até saber. A verdade é que estou impressionada com tudo o que ela acabou de me dizer. Estou cogitando ter uma conversa com ela sobre os rumos que essa relação pode tomar, embora eu possa demonstrar que estou ansiosa pelo nosso futuro. A cada vez que ela demonstra a maturidade que não tinha antes, eu desfaço um medo recorrente dentro de mim. Isso tem um nome, se chama esperança.
Uma hora de conversa com o cliente depois e mais outra no transito até Upper East Side, estaciono na garagem do prédio. Recebo uma mensagem no celular enquanto ligo o alarme do carro. Tiro o aparelho do bolso e olho o visor, um código de um número que não reconheço. Fico um bom tempo tentando entender o que significa aquilo. Engano? Alguém me passando a senha de um cofre? Mas quem? Subo com mais esse enigma para resolver e quando chego em casa ouço uma voz familiar além da de Emma. Bato a porta sutilmente e quem vejo é uma mulher ruiva se servindo dos meus drinks no pequeno bar do canto da sala.
— Zelena?
A ruiva se vira na mesma hora.
— Regina!
Hoje literalmente foi um dia de muitas informações para compreender e ver minha irmã no meu apartamento era outra que eu fora obrigada a engolir. Pelo o que eu havia escutado, ela havia chegado um pouco antes de Emma e me esperava. Sem saber que eu tinha deixado a firma, Zelena pensava que eu não demoraria tanto. Quando ela descobre meus últimos feitos, levo uma bronca que vale por ela, minha mãe e meu pai juntos. Trago ela para o escritório enquanto Emma termina de fazer o jantar.
— Regina, essa moça está vivendo com você há quanto tempo?
— Seis meses. Nós duas estamos juntas. — me encosto na parede ao lado da janela e fico tentando olhar a rua enquanto Zelena faz seus questionamentos.
— Tá bom, mas a mamãe sabe? — Minha irmã joga os cabelos enrolados para trás dos ombros e cruza os braços, ela não parece muito conformada com minha decisão de viver com outra mulher.
— Há alguns meses também. Emma ligou para ela perguntando quando era meu aniversário, parece que as duas ficaram amigas por telefone. Olha, eu não tenho que ficar dando explicações, estou vivendo com Emma e pronto.
— Tá, tá, eu não tô criticando, eu só quero entender o que aconteceu. Você não gosta mais de homem?
— Zelena, dá um tempo, minha sexualidade não é o tópico agora. — Miro ela sem uma gota de paciência. — O que você veio fazer aqui?
Minha irmã me olhou como se não soubesse, na verdade havia se perdido na conversa e depois de alguns goles de Licor de Anis ela perdia um pouco as ideias.
— Uma visita. — diz ela, afastando as mangas de sua blusa de tricô branco. — Saber de você, porque há muito tempo não visita a família e vim conferir se está tudo bem.
— Está tudo bem como pode ver. Sinto muito não ter dado notícias antes, eu estava cuidando do meu empreendimento com o escritório novo, você deve entender. — explico.
— Posso tentar entender, só acho essa sua maneira de se esconder meio ridícula. Parece que está sempre fazendo as coisas por debaixo do pano. A gente entende que seja reservada, discreta, mas para que esconder o que tem acontecido? Parece que não gosta da gente. — Zelena arregala seus bonitos olhos claros para mim.
— Não é nada disso, eu amo vocês...
— Gina, quer saber de uma coisa? Não estou aqui só pela visita. — ela interrompe e se apoia na mesa. Minha irmã de repente parece aflita. — O Robin, você sabe... Ele trabalha no FBI e recentemente eles abriram um caso grande lá em Washington ainda envolvendo o Banco de Crédito e Comércio, você sabe que tem o seu nome no meio dessa história depois que ganhou o caso, não é?
Ando até a porta para ver se Emma está por perto.
— Eu sei que tem uma coisa esquisita acontecendo e que andam atrás de mim, andam me vigiando de vez em quando, mas tenho certeza de que não é nada grave. Os caras perderam, eu salvei o investimento do banco e se alguma coisa acontecesse a mim eles seriam os primeiros suspeitos.
— Não se trata disso, querem acusar você de ter recebido por fora. O Robin me pediu para avisar que eles estão investigando e fazendo o possível para não prejudicar as pessoas que estão envolvidas indiretamente com o caso. Você, os advogados dos investidores, os ex clientes do banco, é muita gente, muitos nomes. — gesticulou ela.
— Então é isso? Querem me acusar de receber dinheiro ilegítimo? Confesso que estou surpresa. — venho andando com as mãos na cintura.
— Fica tranquila, os federais estão nisso, o Robin vai ajudar se for necessário, estão atentos a tudo.
— Sabe qual é a minha única preocupação, Zelena?
— Ela, né?
— É, a Emma. Se acontecer algo a ela eu não vou me perdoar. Um amigo me disse que preciso sair de Nova York por uns tempos até a poeira baixar, mas nesse momento não posso deixa-la de jeito nenhum. Emma teve problemas com drogas, estamos vencendo juntas o vício dela.
— Seu amigo teve uma boa ideia. Se eu estivesse no seu lugar ia me sentir num verdadeiro dilema.
— Não tem dilema, não vou deixar a Emma sozinha. Zel, se fosse o Robin? Se estivesse na mesma situação e você fosse eu, ficaria também?
— Claro que sim.
— Então você entende. Espero que essa situação se resolva logo e que não tenha passado de um susto.
— Eu também espero, irmã. — ela segura minha mão com força. — Não podia deixar de te procurar e contar.
Na hora em que nos sentamos para jantar, Zelena mostrava-se especialmente curiosa com Emma. Virava o rosto enquanto mastigava, me via de relance e depois via Emma, fazendo uma comparação entre nós duas. Por incrível que pareça, a loira não se intimidava com a reação de minha irmã e arriscava fazer uma amizade.
— Regina me falou que você é engenheira na Georgia, é verdade?
Zelena deixou um dos talheres cair de sua mão com a pergunta, mas logo se prontificou a responder.
— É verdade. E você, Emma, estuda alguma coisa?
— Gastronomia. — Emma respondeu e colocou um pedaço de franco na boca.
— Hum... Interessante. — Zelena terminou a salada e se sentiu à vontade para falar mais. — Sou uma negação na cozinha, mesmo que nossa mãe ache que gostamos de fazer comida, não é, Gina?
— Ahm... É, mamãe tem manias estranhas. — falo, terminando o frango do meu prato.
— Então é de família porque a sua irmã também é uma negação, só sabe fazer as saladas dela. — Emma empurra uma pá de terra em cima de mim, com bom humor e apenas observo.
Zelena e ela começam uma conversa sobre minha infância e trapalhadas, com histórias engraçadas e outras nem tanto, daquelas que me causam muita vergonha. Elas duas enfim se dão bem, minha irmã tem uma boa impressão da cunhada e parece convicta de que estou em boas mãos. Espero que quando Zelena volte para casa diga a mamãe e papai que tudo não passa de um mal entendido e que estou bem com minha parceira, que aquele problema está sendo resolvido pelo FBI para o qual meu cunhado trabalha.
A visita surpresa de Zelena me faz pensar em inúmeras coisas, me faz querer contar o que anda acontecendo a Emma. Acho que farei isso, porque não temos segredos e de uma forma ou de outra ela saberá, Emma sempre descobre.
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