For the love of her
19 Paranóia
Notas iniciais
Nos quatro dias seguinte, Zelena acompanha minha rotina e a de Emma como se fosse uma agente do serviço social. Apesar de bastante anormal viver numa situação desse tipo, Emma parece muito à vontade enquanto minha irmã finge não estar nos vendo pelo canto do olho. Zelena está de férias e aproveitou a viagem do marido para visitar a irmã mais nova na cidade grande, além de dar o recado que o FBI certamente não poderia me mandar diretamente.
Ainda é estranho para ela que eu tenha me convertido – de acordo com as próprias palavras dela – para o lado homossexual da vida. Minha irmã não esconde sua estranheza ao me ver beijando uma mulher, embora respeite Emma e a mim. Acredito que é uma questão de costume. A convivência deve estar mostrando que o meu relacionamento com aquela mulher não é um famigerado fogo de palha ou uma confusão temporária e sim a maior certeza que já tive na vida. É bom que Zel perceba a diferença e entenda o básico, que existem diversas maneiras de amar. Para ser bastante otimista eu creio que no retorno a Atlanta minha irmã vá chegar com boas impressões em casa, querendo contar, como a boa linguaruda que ela é, sobre a descoberta que fez ao meu pai, e deve colocar na cabeça dele e de Cora Mills que mudei muito desde a última vez em que estive por lá.
São tantas diferenças que a ruiva faz questão de lembrar: Regina não é mais uma criança; O certo seria ela dizer que não sou mais ingênua e essa nova etapa da minha vida começou logo após o BCCI cruzar o meu caminho de advogada. Quanto a Emma, sabemos que ela é meu refúgio e responsável para uma nova mudança ainda mais gigante, mas na realidade não sou a Regina que Zelena sempre conheceu há muito tempo.
Falta um dia para ela voltar e estamos discutindo sobre o tratamento da loira. Assim como todos que sabem dos problemas de Emma, ela questiona se não devo manda-la para um tratamento fechado.
— Dá para compreender que esteja gostando dela e queira o bem dela, eu só não concordo que com tantos problemas essa moça ainda esteja no convívio social. Ela devia estar em uma clínica. Seria até bom para ela mostrar aos pais que está se tratando da maneira certa.
— Acha que a maneira correta de se tratar de um vício seja se internando? Não é a única opção, Zelena. Quantas pessoas com diversos transtornos, doenças e síndromes não fazem isso de outras formas? Você não está raciocinando fora da zona de conforto. Emma teve opção de ir a uma reabilitação fechada, os pais dela diversas vezes tentaram leva-la, mas ela optou por fazer isso por conta própria. Ofereci ajuda de um terapeuta, ela está frequentando reuniões com outros ex viciados, tomando calmantes quando tem crises e sendo muito corajosa. Tenho orgulho de como ela está progredindo. — gesticulo, voltando ao meu café sobre a mesa onde estamos sentadas.
— Se você está me dizendo... É que para mim esse assunto é um grande tabu. Nunca coloquei um cigarro na boca, bebo socialmente e nunca dei vexame. Eu não sei como as pessoas podem se viciar nessas coisas. — Ela dá de ombros.
— Devia ler um pouco sobre o assunto, eu recomendo. É extremamente difícil para uma pessoa com dependência química se livrar completamente do vício. Emma não faria nada se não tivéssemos nos conhecido, tenho de admitir. Mesmo assim ela está lutando muito e até tem dado um rumo a vida dela. Você pode ver, ela voltou a estudar, está procurando trabalho, quer ser uma pessoa normal.
— Então muito da cura dela tem a ver com você? Isso é muito bonito.
— Acho que sim, da mesma forma que preciso dela para me sentir completa. — olho para o lado de fora da lanchonete pela janela e lembro do dia em que encontrei com Emma em SoHo e a trouxe para casa.
— Isso é muito bonito mesmo, maninha, mas será que esse amor resiste a uma separação? Será que ela vai continuar se curando se você não estiver com ela? — Zelena me questiona mais com os olhos do que com a boca.
— Ela disse que sim, mais de uma vez. — bebo o café para disfarçar que meus lábios tremem.
Minha irmã estava falando de algo que já havia notado, e que parecia crescer a cada dia: a maturidade de Emma. Se decidisse terminar, o que ia acontecer? Não, eu não queria pensar nisso, eu não queria dizer a ela que existia essa possibilidade como em todo relacionamento. Eu enxergava uma linha reta no meu futuro e Emma estava comigo caminhando sobre ela. Não havia apenas a Regina na linha, havia Emma e uma família que podia ser a minha e dela. Então podia-se crer que o que eu queria no fundo era fazer parte de um plano, o dela e ser aceita, ir vivendo como eu já vivia, mas com ela sempre. Eu via Emma curada, linda e fazendo muito sucesso em sua profissão. Felicidade, sorrisos abertos, sem medo, calma, amor. Só de imaginar que nunca mais eu sentiria uma gota de tristeza, meu coração ia a garganta de ansiedade. O que eu tinha que fazer para chegar ao fim da linha? Ou a linha não tinha fim?
Demos uma volta pelos quarteirões até o escritório que Zelena ainda não conhecia. Satisfeita com o que estava vendo ela reconhece que minha ideia de sair da firma pode ter sido realmente boa.
— Se você está bem com a mudança de escritório, acho que não tem muito o que se discutir. — diz ela, colocando a foto que havia sobre minha mesa no lugar.
— Foi uma decisão bem tomada, eu não me arrependo. — me sento.
Zelena observa a vista, suspira.
— Estou bem por você estar bem, mana. Nossos pais vão gostar de saber que finalmente tem seu escritório. — ela olha na minha direção e me assusto com a semelhança que percebo existir entre ela e nossa mãe, aquele mesmo olhar maternal e preocupado. — Promete que vai se cuidar? Que qualquer coisa você nos avisa?
— Prometo. Óbvio que prometo. — sorrio para ela. — Vou me cuidar.
— Nossa mãe sabe o que tá acontecendo, ela implorou que eu viesse com Robin. Claro que sentia a sua falta e queria vir, porém se eu não fizesse o que a mamãe pediu ela não ia me perdoar.
— Entendo a preocupação de todos vocês, agradeço inclusive. Vou ficar de olho, vou me cuidar. Diga a Cora que ficarei bem e que amo ela e o Henry.
— Até hoje acho graça de como consegue chama-los pelo nome. Eu sei que você os ama.
— Muito, e amo você também, irmã.
Ela me devolve o sorriso.
De noite Zelena passou no apartamento para buscar sua mala, já que Robin mandaria um carro apanhá-la. Minha irmã podia ser uma pessoa completamente diferente de mim, mais extravagante, mais milhares de coisas, e eu ainda gostava dela. Nunca senti que havia diferença na forma em que éramos tratadas por Cora e Henry Mills, porém, sempre houve uma grande dúvida da minha parte sobre Zelena ser, um pouco, a mais querida por ser filha biológica. Como se esperassem muito mais dela do que de mim. Pelo menos ela respondeu a altura todas as expectativas.
Zelena não esperou por Emma, mas lhe deixou um presente para quando ela chegasse. Mais tarde nós abrimos a caixa fina com um laço bem feito. Emma se sentou comigo no sofá, curtimos o momento a sós novamente como se não pudéssemos namorar do jeito que queríamos por causa de Zel, por mais que ela estivesse dormindo no quarto de hóspedes. Emma abriu o presente, encontrando um livro de culinária requintada. Havia um bilhete incluso na primeira página, era de minha irmã.
“Emma, faça bom proveito dessa singela lembrança. E que na próxima vez em que eu visita-las, você já esteja trabalhando no seu restaurante. Atenciosamente, Zelena”
A loira deu um sorriso colocou o presente sobre a mesa de centro ao lado do sofá e me chamou para um abraço. Ficamos meia hora falando sobre a minha família, ela queria saber se todos eram como Zel, se seria bem-vinda caso um dia eu inventasse de ir até Atlanta. Disse que apenas pelo presente da minha irmã ela podia ter certeza daquilo.
Voltando ao motivo pelo qual recebemos a visita dela, não sabia como contar a Emma sobre as possíveis perseguições que eu estava sofrendo. Não achei prudente acabar com nosso momento no sofá, por duas razões: estava bom ficar ali com ela recebendo seus carinhos e eu tinha medo de criar uma paranoia. Muito porém, como uma espetacular vidente, Emma sabia interpretar meus toques, meus medos, especialmente sabia ouvir as batidas do meu peito quando algo não estava totalmente bem. Eu estava prestes a convidá-la para uma ducha comigo no instante que ela apertou meus dedos com os seus.
— Diz. Apenas diga, eu sei que tem alguma coisa errada acontecendo. O que é?
Acompanhei a sombra da minha mão entrelaçar na dela. Estamos de costas uma para a outra. Ela espera pacientemente, eu suspiro, de repente me acalmo.
— Talvez... e esse é um talvez bem grande, eu esteja sendo vigiada por algumas pessoas que não estão conformadas com uma decisão judicial.
Emma encosta o queixo sobre meu ombro.
— Um caso que você ganhou, estou certa?
— É, um caso que eu ganhei e rendeu muito dinheiro a firma, a nós como um todo. Se as pessoas me conhecem na cidade de Nova York hoje, é por conta dessa história.
— Andei lendo algo a respeito, foi um escândalo econômico. — Nunca pensei que Emma fosse se mostrar tão pacífica. — E o que, por um acaso, querem de você? Cobrar o que perderam?
— Querem me acusar de ter recebido por fora ou se vingar, dar o troco. Zelena está casada com um agente do FBI, e de acordo com ele, tenho que me cuidar, por mais que a polícia federal esteja de olho em cada envolvido.
— Então é isso que vem te preocupando há dias? Pensa que não percebo? Você fala enquanto dorme às vezes, se não sabe, eu acordo com você balbuciando, dizendo para se afastarem de mim. É desses caras que quer me proteger?
— Sim, é deles que quero protege-la e farei isso. Você não é mais apenas uma hóspede na minha casa, Emma. Você faz parte da minha vida, está aqui vivendo comigo, dividindo o espaço que já virou seu. Se eles derem conta vão entender que você significa muito para mim.
— Sou mais que uma hóspede... — Emma pensa, gosta do que digo. — Eu entendo a situação, é que ouvir você dizendo essas coisas me deixou tão feliz.
Me encosto mais nela e suspiro, fecho os olhos, pensando que algumas coisas já deviam começar a ser ditas. Seis meses não equivalem a um ano, mas equivalem a tempo suficiente para estar amando e disso nós tínhamos certeza todos os dias. Guardava comigo algumas verdades incontestáveis sobre o namoro, alguns sentimentos que confesso nunca ter sentido antes, algumas provas de coragem e determinação, e tudo graças a ela. Até quando eu manteria esses segredos comigo e para que se ela mais do que ninguém merecia entender a importância que tinha em minha vida?
— Tenho muitas coisas como essa para dizer, meu amor. Só acho que não sei como confessar.
— Só de assumir que há muitas coisas para dizer você está confessando. Sei que não tem a mesma facilidade que eu tenho para despejar sentimentos, ainda que eu sinta olhando nos seus olhos o quanto me ama. Desde o primeiro momento eu soube, por mais clichê que fosse, amor à primeira vista.
— Na verdade me apaixonei pela sua foto, aquela que os seus pais me deram e serviu para te caçar pelos cantos da cidade. — brinco.
— E ainda mais quando me viu pessoalmente. — Emma se lembra daquele momento e se lembra do que falávamos antes. Ela fica séria, se cala.
— Vai ficar tudo bem, Emma, eu prometo. Custe o que custar vamos passar por isso.
— Não estou preocupada comigo, mas com você. Se acontecer algo a você eu não sei se suporto, nem respondo por mim.
— Calma. Vou me cuidar. — sussurro.
— Vou ficar com o coração na mão quando for a hora de você voltar pra cá depois do trabalho todos os dias. — Ela segura meu rosto e me beija de lado.
A insegurança suspeita se torna um combustível manso para o restante da noite. Não houve sexo, mas houve carinho. Um carinho tão intenso ao ponto de nos dar o mesmo prazer. Dormimos ali no sofá, enrocadas para caber no mesmo espaço. Emma sempre se levanta antes, é hábito ela me deixar dormir até mais tarde.
Hoje nos despedimos brevemente na porta, antes mesmo da minha ducha matinal e de me aprontar, porque Emma queria, por alguma razão suspeita, chegar mais cedo na universidade. Pela cara dela eu sabia que estava aprontando alguma, talvez indo a uma entrevista de emprego. Me dou conta quando vejo o jornal do dia sobre a bancada e uma página rasgada no meio na sessão dos classificados. Eu não ia segurar Emma em casa, nem devia, ela precisava trabalhar para garantir ainda mais sua independência. Eu me esquecia que lidava com uma mulher orgulhosa, ao mesmo tempo convicta de que me provaria seu valor e que também me daria orgulho.
Ao lado do jornal havia um cartão do meu velho amigo Gold, o terapeuta que vinha nos ajudando a enfrentar tempos difíceis em busca da cura de Emma, além de me guiar para longe da tristeza nos momentos de aperto. Faz mais de um mês que não o visito para uma breve conversa.
No fim da tarde decido ir ao consultório e ele me atende no intervalo de uma consulta e outra, só porque o conheço há bastante tempo, o que nos torna mais amigos no fim das contas. Sabendo de todos os acontecidos no último mês depois que explico resumidamente o que houve, ele me sugere algo que em outrora eu havia pensado.
— Muito bem, Regina, há possivelmente uma gangue atrás de você e ainda não pensou em se proteger?
— Estou atenta, Gold, eu não sou aquele personagem da mitologia que tinha olhos por todo o corpo, mas estou observando, tomando cuidado. — digo, sentada na poltrona que ele me oferece perto de sua mesa.
— Não falo nesse sentido. Estou sugerindo que faça aulas de defesa pessoal. — diz ele, juntando as mãos.
— Olha, eu sinceramente já pensei nisso, antes dessa bomba estourar na minha cabeça.
— Então faça, por que não? É mais uma garantia de que não devem se meter com você caso tentem.
— Acho que você tem razão. — Faço que sim, murcho os lábios concordando com o terapeuta.
É muito simples, enquanto Emma frequenta a terapia em grupo eu me matriculo em uma academia de luta. Ideia aceita. Tudo no esquema. Todo dia, por uma hora, passo a frequentar as aulas de defesa pessoal. Um mês mais tarde, meu corpo está em cacos, porém me sinto imensamente bem. Devia mesmo ter começado isso antes e não preterido manter a forma correndo no Central Park aos fins de semana.
A questão agora é, o quanto aprendi a me defender e o quanto preciso saber para me defender bem? Ainda não fiz o teste na realidade, mas estou ansiosa para tal. Defesa pessoal não era um luxo, era uma necessidade, pelas palavras do meu professor. Tentava explicar a Emma como se esquivar. Montamos um tatame de edredons no meio da sala e eu acabo mostrando para ela como parece fácil se proteger de engraçadinhos na rua.
— Vamos, pegue este braço e puxe para baixo com bastante força. — Ela age rapidamente e puxa da forma como pedi. — Isso, agora tente força-lo para o lado, chama-se torsão.
— Não é complicado como eu pensava. — diz ela, fazendo perfeitamente. — Estou pensando em fazer aulas de defesa agora.
— Por enquanto o que eu for aprendendo eu passo a você. Agora vem, a gente já treinou demais, estou suada e preciso de um lanche. — Saio andando em direção a cozinha, apanhando a toalha que deixo de reserva.
— Ah, espera, tenho uma coisa para contar. — diz ela, amarrando os cabelos mais no alto.
— Que foi? — me viro de volta.
— Recebi uma ligação hoje de um casal que precisava de uma babá em Chelsea. É um pouco longe, mas gostaria de aceitar a oferta deles.
Afinal, eu estava certa sobre o emprego que ela andava procurando.
— Chelsea não fica mais distante que a sua faculdade. — digo.
— Pois é, fica no caminho. Só por alguns dias, sabe? Não é sempre que precisam de babá, apenas quando há ocorrência. São policiais.
Mordo os lábios, ainda pensando se era necessário ela trabalhar, mas se era da vontade dela, quem era eu para impedir?
— Entendo. Bem, se você quer mesmo...
— Sei que não gosta da ideia por enquanto, mas eu não posso viver as custas dos meus pais a vida toda.
— Você está certa. Faça isso, veja esse emprego. Lamento apenas não ter você para esquentar os meus pés todas as noites a partir de agora. — dou de ombros.
— São só algumas noites, não todas. Você tá muito mal acostumada, viu? — ela cruza os braços.
— Quem manda? Estou assim por sua culpa. — Saio rindo.
Emma enfim aceitou o emprego de babá oferecido pelo casal de Chelsea. Nas noites em que precisava cuidar do menino de cinco anos, eu fazia questão de leva-la, mas isso era uma grande justificativa para me tirar de casa depois de um longo dia de trabalho, só para ir as aulas de defesa pessoal. Pelo menos umas três vezes na semana a cama fica mais fria sem ela para dormir comigo e a hora de deitar parece vazia. Leio meus livros, recolho meus óculos e espero dar sono, não tanto o momento em que conversamos ou fazemos amor até pegar no sono. O único fato que andava me ajudando a dormir era o cansaço físico das aulas, mas depois de alguns dias eu estava acostumada e quando Emma não estava ali minha terapia de ASMR com a voz dela ia para o espaço.
Não era o fim do mundo, não era um problema, nem uma dependência absurda de Emma, era apenas um costume bom que me fazia falta. No fundo era interessante ficar acordada até um pouco mais tarde, ver televisão, ouvir música e ter um tempo apenas para mim naquele imenso apartamento.
Eu não sabia que Emma gostava de crianças, pelo visto além de gostar ela cuidava bem deles, pois o casal de policiais também demonstrava estar satisfeito com o trabalho dela. O menino que Emma tomava conta ia ganhar uma irmã dentro de quatro meses e o trabalho dela como babá era apenas provisório, sendo que os patrões pensavam em efetivá-la quando a bebê nascesse. Era uma grande aventura para Swan estar trabalhando, estudando e se relacionando sério comigo, ainda assim eu via brilho nos olhos dela e há semanas não havia um episódio de crise. Ela estava feliz e isso para mim já me acalmava de maneira sem igual.
Depois de ler até às duas da manhã, consigo pegar no sono lá pelas três. É uma madrugada fria, sinto meus seios se arrepiarem como se fossem tocados pelo frio e de repente um calor me abala. Duas mãos tiram minhas roupas, a calça que eu visto, o moletom do busto e a calcinha. Sou explorada por beijos mornos. Emma está ali. Não entendo como, mas ela está ali. É a boca dela, as unhas dela, o jeito dela me apertar. Ela me lambe, me obriga a puxar seus cabelos que se espalham pelas minhas coxas. Lambe, brinca, puxa, chupa até me ver gozar agarrando o travesseiro. Perco a respiração por um momento e volto do orgasmo sentindo os beijos dela subindo meu corpo.
— Emma, como voltou? — pergunto, sem fôlego.
— Shh... Fica quieta. Apenas me beija, me ama, vem... — pede ela, me arrancando os lábios em um beijo sedento.
Não durmo, não me interesso mais, mesmo que isso me custe um dia ruim amanhã. Porém, é difícil que seja ruim com ela ali adiantando o encontro que teríamos no dia seguinte. Ela me beija, eu retribuo, coloco ela por baixo e sou ainda mais maliciosa. Eu sentia falta dela, essa é a verdade, eu queria morder aqueles seios pequenos e chupá-la até amanhecer, quando eu sabia que depois dela gozar três vezes nós duas íamos gargalhar ao ponto de acordar os vizinhos.
Emma é linda quando está entregue a mim, quando me pede com a respiração e os olhos para eu descer. Ela cavalga, treme, me entrega seus gemidos, está tudo bem, ela está ali tanto para mim quanto para ela mesma. Assim como penso, estamos rindo e conversando quando volto com os lábios úmidos do gosto dela. Pergunto porquê resolveu voltar para casa no meio da madrugada.
— Peguei um taxi. É claro que eu poderia ficar até amanhã de manhã, depois iria para a faculdade, mas eu estava sentindo falta de dormir nessa cama.
— E comigo, não?
— Com você principalmente. — Aliso Emma ao meu redor. Ela me explica que seus patrões foram dispensados do plantão e ela aproveitou para voltar. Não gostei de saber que ela veio sozinha para casa quando podia ter esperado amanhecer, embora a surpresa de recebe-la no meio da madrugada também tenha sido ótima. — Pensei que você fosse me dar uma bronca, desistiu?
— Sabe que não pode ficar andando de madrugada por aí, ainda mais sozinha.
— Desculpa, não faço de novo, eu só queria ficar um pouco com você. A gente passa um dia inteiro sem se ver, não me acostumei ainda. Não faça essa cara.
— Todo bem, também sinto sua falta quando é assim. Você ao menos podia me ligar e eu ia te buscar, hum?
— Não ia mais ser surpresa. — Ela tenta me ganhar nos beijos delicados.
— Tá bem, só hoje não fez mal. Só toma cuidado, por favor. — Conversamos baixo.
— Regina, você não acha que está preocupada demais com algo que não vai acontecer? A essa altura os caras que estão atrás de você já se mancaram. Se os federais estão na cola deles, não precisa se apavorar tanto com quem vive ao seu redor. Daqui a pouco você estará dizendo a sua secretária para ela não receber ligações de números suspeitos ou usar um detector de metais para todos os seus clientes.
— Será que não preciso me preocupar? O escândalo do BCCI envolveu muita gente, muito dinheiro, e tudo que envolve grandes quantias se torna perigoso. Fui a advogada que liquidou aqueles investidores, eles podem muito bem estar esperando uma brecha para me pegarem.
— E o que eles vão fazer? Sequestrar? Matar?
— Eles vão dar um jeito de me prejudicar ou quem quer que seja próximo a mim. Às vezes parece uma paranoia, eu sei, mas enquanto Zelena não me disser nada, eu não posso me sentir tão sossegada.
— Sei lá, eu tenho a impressão de que é isso que eles queriam, te assustar. Se não houve nada até agora, não deve acontecer.
— Queria ser otimista como você, Emma.
Ela alisa meu rosto, dá outro daqueles longos suspiros.
— Você será. — Me beija e perdemos mais uma hora na cama.
É tarde naquele dia e, por incrível que pareça, eu resisti bem a indisposição por ter sido acordada de madrugada. Prometi que buscaria Emma no consultório de Gold às seis e meia, então me despeço de Belle e dirijo até quatro quarteirões depois. Escurece e preciso caminhar uma quadra até o prédio comercial, muitas pessoas dividem a calçada até a entrada de um bairro, o mesmo lugar onde gostamos de comer Yakisoba. Caminho, passo pelas pessoas e aos poucos, assim como as ruas se tornam breus iluminados por faróis de engarrafamento, noto que há algo estranho. É uma sensação aflita, um calafrio, sensor de perigo se aproximando, se é que os humanos tem isso. Completamente compreensível, há alguém me seguindo. Chego à conclusão que não estou andando sozinha. Aquele pavor do qual Emma me preveniu mais cedo se espalha por mim e penso em todas as alternativas. Tenho que escapar. Mas afinal, o que eu havia aprendido nas aulas de defesa? Os passos aceleram, os da pessoa atrás de mim também, começo a ouvir sua respiração me perseguir. Eu tinha certeza, alguém estava me seguindo. O frio no estômago se instaurava, me sentia ofegante, em pânico.
Parei em uma esquina, esperando os carros passarem, um grupo de pessoas estava aguardando, eu entre elas. Sinto a pessoa se aproximar, ele está bem sobre meu ombro, eu quase o vejo pelo canto do olho. O sinal fecha e eu ando depressa, furando os espaços entre as pessoas. E ele vem atrás, ele está atrás de mim. Falta cinco metros até o edifício, estou quase lá, vou pedir ajuda. Mas não! Vamos resolver isso logo de uma vez e mostrar com quem estão se metendo.
Paro de repente, espero ele chegar e o pego no instante em que me viro. Puxo o braço dele para baixo, entorto e o derrubo com uma rasteira, exatamente como aprendi. O homem finalmente dá as caras e reclama de dor na calçada.
— Puta merda! O que foi isso?
Ele chia e eu percebo que não é quem penso que é. Ali na calçada há apenas um cara qualquer, magro com um sobretudo de repórter que nem deve ser dele e um óculos quebrado no chão.
— Me... Me... Me desculpe. Nossa! — tento ajuda-lo, mas ele não quer meu apoio. Se levanta com dor e uma cara muito feia. Recolhe o óculos e nota que está quebrado.
— O que que a senhora tem na cabeça? Por que fez isso?
— Olha, eu sinto muito! Eu pensei que se tratava de outra pessoa. — tento explicar, mas do que adianta?
Ele abana o braço que quase entortei.
— Você é completamente louca! — Ele bate a roupa e esbarra em mim, indo embora todo troncho.
Não era aquele homem, não era ninguém. Será que Emma estava certa então? Eu não devia pegar tão pesado na minha preocupação. Não devia pensar que toda e cada pessoa suspeita era um inimigo.
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