For the love of her
23 Uma irmã em vão
Notas iniciais
Sempre que me deparo com um grande problema para solucionar, estou disposta a tudo para vencê-lo – afinal, minha profissão nunca me deixou escapar de problemas, sejam eles meus ou dos clientes, ainda que no fim eu não ganhasse. Meu grande problema agora é reencontrar Emma e tornar isso possível o quanto antes. Talvez eu esteja completamente enterrada quando voltar a Nova York. Talvez eu a reencontre ainda me amando, porém, entregue aos seus vícios do passado depois da enorme desilusão. Há também a possibilidade de Emma se envolver com outra pessoa na busca por me esquecer, como meu pai já andou dizendo, e eu sinceramente não gosto de pensar que a perdi tão fácil.
Desesperada por encontrar uma forma de sair dessa casa, Ingrid me pede prudência. Não vejo Zelena e Robin há dois dias, apenas meus pais com suas visitas e ordens para a enfermeira. Por enquanto ainda estou em observação e literalmente presa ao quarto. Ingrid sempre leva as chaves quando me deixa sozinha e de tão exausta da minha ansiedade já especulei fugir pela saída de ar no teto, mas certamente o espaço do cano é muito curto para o corpo de uma mulher adulta.
Quanto mais faço perguntas, mais Ingrid se fecha e as dores de cabeça voltam. Os remédios me dopam, me fazem dormir por longas horas e quando começo a planejar me levantar já não tenho mais forças.
— Você pode parar de me dar esses remédios? Eu me sinto bem, as dores estão diminuindo, por que ainda querem me ver dormindo?
— São ordens médicas, não apenas ordens da sua irmã. — Ingrid segura um copo com água e um comprimido na outra mão e sofro imaginando mais um dia que perco.
Me resta olhar a foto de Emma que tenho comigo novamente e pedir que esteja bem, porque não existe no mundo quem a ame mais e infelizmente só me dou conta nesse momento que não tenho ela comigo. Preciso dizer que sinto muito por ela ter perdido parte de sua vida para o vício, que também nunca planejei estar longe dela.
— Ela é muito importante pra você e sei disso apenas pela forma como olha para essa foto. — Diz Ingrid, comovida. — Como ela é de verdade? Por que você a ama tanto?
— A Emma é a mulher mais bonita que eu já conheci, e olha que já conheci muitas mulheres belas. Mas ela é diferente, ela é suave e agressiva, as duas coisas ao mesmo tempo. Ela sente demais, não tem vergonha de demonstrar, não tem medo de dizer o que é preciso escutar. Ela me amou, ela só me amou e me fez querer estar viva de novo. Emma amou os meus defeitos e os quebrou pra que eu fosse uma pessoa melhor quando era apenas eu que queria vê-la bem. Apesar dos problemas dela, ela lutou do meu lado quando achei que não fosse aguentar.
— Onde quer que ela esteja agora tenho certeza de que ela sente o mesmo.
— Eu espero que ela ainda sinta quando eu voltar. — Torno a pousar meus olhos sobre a foto e penso nela. É meu ritual da noite, olhar para a foto e dar boa noite para ela. — Boa noite, Emma.
Até então, não houve um momento em que eu não acordasse sozinha ou que encontrasse a porta do quarto encostada. Por algum descuido Ingrid deixou a porta aberta de forma que fosse a primeira coisa que meus olhos enxergassem quando abrissem hoje. Pensando ser um sonho eu coço eles e vejo que não é apenas uma ilusão, a porta está mesmo aberta. Dane-se se foi um descuido da enfermeira ou se vou desmaiar quando colocar os pés pra fora do quarto, essa é uma oportunidade que não deve surgir tão fácil. Me levanto jogando o lençol para o lado e corro até a porta. Não há ninguém no corredor, não ouço vozes, nada a não ser um barulho de talher batendo em talher vindo lá de baixo. Olho do cercado e não há pessoas na sala, Cora e Henry não estão em lugar algum. A casa está estranhamente quieta e devo ter sido deixada aos cuidados de Ingrid enquanto todos estão fora. Dá tempo de voltar ao quarto e me vestir, procurar algo no armário e ver que na mala de Ingrid há coisas minhas como as chaves do meu Audi acidentado, minha carteira de identificação e meu blazer rasgado do dia do acidente. O que aquelas coisas faziam com ela? Ouço mais barulhos de talheres e me assusto, tenho que ser rápida. Há sapatos no armário que visto depressa supondo que são meus pelo tamanho perfeito nos meus pés.
Não havia muito tempo para pensar em nada, eu só queria sair dali e minha vontade é tão grande que não consigo nem imaginar se isso não pode ser um teste. Eu deixo o quarto sem tentar fazer barulho, ainda ouvindo o som dos talheres vindo lá de baixo. Desço degrau por degrau da escada, passo a passo, ofegando. Não sabia o que estava por vir e nem queria saber, eu precisava tentar. Nem um sinal e cheguei ao andar de baixo, na sala. Olhei ao redor, podiam haver câmeras me vigiando, mas como pensar nisso na minha condição? Temendo que algum alarme me pegasse no flagra ando vagarosamente até a porta da sala. Ao lado há uma janela com vista para a rua e mais uma vez percebo que não estou numa vizinhança comum. Casas idênticas para todos os lados e sequer uma alma viva andando na rua no lindo dia ensolarado. Mas antes de especular as razões para isso, toco no molho de chaves da porta e destranco. Estou livre? Não. Literalmente não.
Quando penso em tocar a maçaneta sinto o cano frio da arma encostar na minha cabeça.
— Se você não ficar por bem, ficará por mal.
Não me deixo levar pelo medo e só penso na minha liberdade. Viro o corpo bruscamente e seguro a arma da mão dela, agarrando seu pulso num movimento que aprendi com as aulas de defesa pessoal. É Ingrid ali comigo, cara a cara lutando contra mim e minha vontade. Ela larga a arma e puxo seu braço para baixo, mas ela enrosca uma das pernas entre as minhas e me derruba no chão. “Ai!” Sou vencida em poucos segundos.
— Pensei que fosse mais esperta. O que estava tentando fazer? — diz ela, me trazendo de volta.
— Não posso ficar aqui, não posso mais... — digo, cansada.
— Não me obrigue a te machucar.
— Então me ajuda a sair desse lugar. Me ajude a voltar para minha casa!
— Eu não posso.
— Pode sim! Você disse que estaria do meu lado.
Ela recolhe a arma do chão e me leva de volta ao quarto com pressa.
— Sim, eu disse que estaria com você, mas não posso fazer muita coisa por enquanto. — Ela nos fecha e guarda a arma na cintura. — Eu trabalho com o Robin e se ele desconfiar que estou te ajudando, serei delatada e expulsa do FBI.
— Você é enfermeira e agente... Então é isso? — Ainda ofego.
— Mais agente do que enfermeira. Escuta bem, Regina. Sua irmã também é agente, ela trabalha junto do Robin e esconde isso de você. Ela não é engenheira, ela é uma agente que quer se qualificar, está usando a sua situação para ser promovida.
— Ah não, não... Isso não!
— Sim, Regina, isso, é isso sim. Foi Robin quem colocou ela lá dentro e eu vi quando tudo aconteceu, quando ela assumiu o seu caso e fez questão de tomar as providências. O FBI tinha tudo na mão: os homens do banco de crédito e comércio, os advogados, todo mundo. Não havia mais a necessidade de você sair de Nova York. O caso estava solucionado.
É muita informação para digerir. Me sento na beira da cama e me sinto estarrecida.
— A Zelena... Como ela pôde?
— Não sei e não entendo tanto quanto você. Mas eu creio que ela esteja começando a se arrepender. Quando ela viu o seu estado quando trouxemos você, ela se sentiu culpada.
— Meu Deus — desabafo, colocando as mãos na cabeça.
— Antes que me pergunte porque não fiz nada, fiquei com medo de desconfiarem. Não é fácil ser agente dos federais, nem compactuar com ideias esquisitas como as da Zelena e do Robin. Algumas coisas acontecem de vez em quando e temos que aceitar. Já perdi amigos, já perdi alguém importante para mim por causa desse trabalho.
— A Zelena me paga. — Sussurro.
— Não, não queira o mal dela. — Ingrid se ajoelha diante de mim. — Algo que diz que ela não vai mais adiante com o plano que eles tiveram.
— Afinal, o que eles querem me escondendo?
— Querem que você trabalhe para eles. Zelena queria o posto de diretora, contrataria você com uma nova identidade. Todos sabem que você solucionou um caso muito importante em Nova York, talvez você fosse inteligente o bastante para trabalhar com o governo. A propósito, o governo sabe que você está viva. Ainda não declararam a sua morte oficialmente.
— Que loucura — suspiro, horrorizada. — Eu jamais imaginei que ter aceitado advogar pro BCCI fosse me dar tanto trabalho. Pela primeira vez queria nunca ter ganho o caso. — Sinto uma dor de cabeça terrível, uma angustia me aperta o peito. Ingrid despeja todas aquelas verdades que acabam comigo e me desmontam. Já não sei mais o que quero fazer, para onde vou ou se acho um absurdo tudo o que estão fazendo comigo. Quero ter morrido no acidente, quero ter acabado com os planos de Zelena, quero ter explodido com Cora e Henry, minha irmã e Robin.
— Fica calma, por favor. Ninguém pode saber que contei a você tudo isso. — Ingrid me pede.
— Como vou olhar para Zelena agora? Eu quero matá-la.
— Não vai matar ninguém. Vou te ajudar a voltar para Nova York, mas precisa confiar em mim. Isso pode levar um tempo.
— Quanto? Será que ao menos eu posso avisar Emma que não estou morta?
— Estou tentando fazer isso, mas sua irmã e o marido dela não têm aliviado. Não consigo sair daqui sob a ameaça de perder meu emprego de agente.
— Estão sendo cruéis com você e comigo.
— Peço que tenha um pouco de paciência, aos poucos eu vou dobrando os seus pais e ganho a confiança deles. — De repente escutamos um barulho, uma porta batendo.
— Ingrid? — É a voz de Cora Mills.
— É a sua mãe. — Ela se levanta e vai até a porta do quarto. — Aqui em cima, Sra. Mills. — Ela estica a cabeça para fora e diz, voltando rápido para me ajudar na cama. — Finja que está dormindo, eles precisam pensar que conversamos pouco.
Faço o que ela pede e fecho os olhos assim que minha mãe entra. Fico limitada a somente escutar a conversa que não demora muito.
— E como ela está hoje?
— Ainda não acordou.
— Está dormindo demais, não acha? Vou falar com Zelena sobre as medicações. Ela melhorou, não vejo necessidade de deixa-la tão dopada.
— Concordo. Estou começando a ter pena dela.
Mamãe se aproxima, sinto suas mãos no meu rosto, alisando minhas bochechas. Fica um bom tempo comigo, e não posso negar que gosto do carinho dela apesar da minha raiva.
— Ela parece mais corada, menos mal.
— Em pouco tempo vai poder fazer muita coisa.
— Assim espero. — Suas mãos me deixam e ela se afasta. Ouço a porta fechando e abro os olhos.
Ingrid me olha, suspira aliviada.
Passo o resto do dia tentando entender as razões de Zelena em me declarar como morta. Há muita coisa em jogo, há sua reputação no FBI, há seu casamento, sua ambição e nós que somos da família. Zelena não pensou em mim, na irmã que foi visitar há alguns meses e para quem deu força quando soube que cuidava de uma mulher drogada. Pensei que minha irmã fosse minha amiga, mas talvez ela tenha levado em consideração a pouca afinidade que demostrei com ela ao longo do tempo. Eu gostava dela, às vezes mais do que dos meus pais, só quando haviam comparativos entre nós duas eu entendia que nunca teria o mesmo prestígio que ela. Sendo a filha biológica Zel nunca seria criticada, nunca teria empecilhos para fazer o que quisesse e seria perfeita aos olhos dos Mills. Em todos os aspectos eu era a ovelha negra, diferente dela. Meus pais me amavam, porém também amavam Zelena acima de tudo e o que parecia ser um ciúme infantil, se tornou um grande incômodo que perdura até hoje. Agora me sinto a pessoa mais errada do mundo em ter inveja de Zelena até certo ponto, no entanto sou a mais correta em ter me afastado quando pude.
Mais um tempo se passa enquanto finjo que durmo e recebo visitas de todos. Em algumas dessas vezes, ela aparece no quarto, pedindo que Ingrid nos deixe a sós. Por vários momentos estive prestes a abrir os olhos e apertar seu pescoço, cobrar o que ela me deve, explicações, mas não faço isso com admirável controle sobre mim mesma. Ela não diz nada, funga como se chorasse de arrependimento que não acredito ser real. Na última vez em que aparece, ela repete o gesto de mamãe, toca meu rosto e segura uma das minhas mãos.
— Eu não sei se você vai me perdoar... Foi a coisa mais estúpida que eu fiz e só estou me dando conta hoje. Eu não quero mais nada com o FBI, não quero mais ser um peão do jogo deles, muito menos me fazer de vítima. Se você passar a me odiar daqui em diante, vou entender, Gina.
Ingrid tinha uma grande suspeita do arrependimento dela, embora eu ainda pensasse que aquelas eram palavras que Zelena diria na intenção de me enganar novamente. Zelena estava certa em pensar que eu não iria compreender sua ambição ou suas razões. Não havia como entender nada. Não houve pena dela quando planejou me levar de Nova York, então não haverá pena da minha parte quando ela se arrepender.
Precisei me controlar ao extremo para não despejar minha decepção, contar que já sabia de tudo e que estava muito chocada com tudo o que ela havia feito e que certamente estaria deixando as piores consequências com Emma. Zelena não era mais uma irmã para mim, era como uma sombra que entrava naquele quarto todos os dias.
Mas a rotina de fingir que estava dopada durou pouco mais de uma semana, até porque eu não suportava mais esperar uma atitude de Ingrid para conseguir me tirar dali. Diversas vezes, fui pega pela enfermeira enquanto caminhava no quarto de madrugada. Não havia sono, só havia uma angustia imensa me torturando mais que as cicatrizes que eu carregava. Falando nelas, todos os dias Ingrid as esfregava com imensa delicadeza. Parecia estranho, pois eu já podia ficar de pé e tomar meu próprio banho, embora não alcançasse os lugares mais críticos atingidos pelos cacos de vidro. Por isso ela se dispunha a acalmar as minhas dores com aquela pomada milagrosa de Aloe Vera. Muito porém, uma coisa que eu não queria que acontecesse se tornou verdadeira. Eu começava a enlouquecer. Sem conseguir andar por um espaço maior que o quarto que me deram, eu não sabia mais do que vinham me contar ou o que Ingrid dizia. Decidi despertar para meus pais primeiro e a insanidade lhes foi algo latente quando me viram de novo.
— Podiam ter mandado me matar, não acham? Não faz sentido vocês dois confabularem contra a sua própria filha. — Minha voz está em um tom normal.
— Você só pode sair do quarto se estiver acompanhada de Ingrid, ainda assim foi pedido que ficasse pelo menos mais um mês em observação. — Papai insiste, sentado.
— Qual é o seu problema? Eu já me sinto ótima! Veja, eu me sinto maravilhosamente bem! — Tiro o lençol de cima do corpo e me levanto bruscamente para assustá-los. Ando pelo quarto atrás de algum objeto que comprove minha teoria, mas não vejo nada que possa me ajudar.
— Regina, volte já para a cama, você está fraca. — Cora ameaça me buscar.
— Ah é? Onde? Eu juro que pensei ter engordado uns cinco quilos desde que cheguei nesse lugar. Vocês me entopem de comida e remédios, se ao menos eu pudesse correr pela vizinhança para queimar as calorias...
— Cora, ela não está sã. — Meu pai fala, abanando a cabeça.
Eles trocam olhares preocupados.
— Vamos falar com Zelena. — Ela fala apertando as próprias mãos.
— Isso! Muito bom! Falem com a filhinha número um! Podem ir, falem bastante, digam que a Regina ficou louca e que vai matá-la, podem falar. A culpa é dela por eu estar nessa merda de quarto, presa, maluca e com o mundo inteiro pensando que morri! — Digo mais alto que o normal e decido descontar a frustração nos vidros de remédio que empilham na estante. Jogo o braço com força sobre tudo que está ali em cima e derrubo os fracos um a um.
— Oh, meu Deus! Regina! — Cora e Henry tentam me segurar de imediato, um de cada lado, me trazendo para a cama, mas resisto.
— Me larguem, seus palhaços! — grito, fazendo força. — Eu odeio vocês, odeio todos vocês!!
— Chame Ingrid, eu seguro ela. — Papai me pegou pelos punhos enquanto eu tentava desferir golpes com os pés. Ele é homem, mais forte do que eu apesar da idade, não tenho chances.
Cora sai correndo e grita Ingrid no corredor. Não sei quanto tempo leva, mas estou com absoluta certeza suada e vermelha de raiva, pensando em uma maneira de escapar das mãos de Henry para correr e fugir. Isso não acontece e muito menos conseguem me dopar, já que quebrei todos os vidros de remédios e agora eles escorriam pelo chão do quarto. Ingrid e Henry usam força bruta comigo, mas não sou do tipo que desiste tão rapidamente nessa circunstância.
— Prenda ela na cama. — Diz Henry.
— Não posso fazer isso, senhor. — Ingrid reluta, e eu continuo me debatendo entre eles.
Vejo minha mãe de relance, ela está assustada na porta do quarto quando Robin aparece com minha irmã. Ele entra na frente para ajudar a me conter, me olha nos olhos tentando distrair a minha atenção, acabo o chutando e arranco um chiado dele. Não foi uma boa ideia, pois mais do que depressa ele tira do bolso uma seringa e prepara a mesma. Entrega a Ingrid que não tem escolha e aplica no meu braço sem dó nem piedade. É algum sedativo forte que me obriga a cair de joelhos depois de perder a força. Permaneço acordada, mas vejo tudo ao meu redor com uma intensa neblina. Sinto angustia, sinto medo e frio, tudo junto. Caio no chão, olhando para Robin. Ele espera o remédio fazer efeito.
— Por quê? Por que tinha de ser a irmã da sua mulher? — Balbucio.
— Sinto muito, Regina.
— Eu não vou desmaiar. O sedativo não vai fazer efeito...
— A dose é muito pequena para te derrubar. Entenda que se não for do jeito que queremos, não vai dar certo. No fim, será bom para você também, Regina.
— Robin, não diga isso. — Zelena puxa ele pelo braço. — Para.
— Uma hora ela vai precisar cair na real, Zel. — Eles discutem enquanto os vejo em câmera lenta. — Ela vai trabalhar conosco, foi esse o trato.
— Mas nós não pensamos que talvez ela não queira ser uma agente.
— Zelena, ela desmontou o maior caso de um rombo financeiro do país, não há ninguém como ela. Você quer desistir agora? Quer perder a sua grande chance? — O sotaque britânico de Robin está mais carregado hoje.
— Nós não vamos transformá-la em um 007, amor. Regina já mostrou que não quer. Eu abro mão dessa ideia maluca de leva-la para os federais, mesmo que me custe a chefia. Chega. Olha pra ela. — Zelena começa a chorar. — Olha o que fizemos com ela.
Meus olhos caminham pelo quarto e encontram mamãe encolhida próxima a porta, roendo as unhas e chorando tanto quanto Zelena. Eu tinha um plano de me levantar e machucar Robin com um daqueles cacos de vidro espalhados no chão, mas depois de ver minha mãe naquele estado, eu sabia que ela não estava de acordo com o que foi planejado para mim, mas se sentia na obrigação de colaborar com Zelena por achar que seria o melhor para nós duas. Eu queria ir até ela, queria dizer que ficaria tudo bem, que eu não sentia mais raiva dela por ter me escondido a verdade. Zelena era outra pessoa que, naqueles últimos segundos, havia me surpreendido. Eu certamente teria muita coisa para conversar com ela.
Zelena me tira do chão, coloca um braço em volta do meu corpo e me carrega até a cama. Com um sinal, ela manda Ingrid limpar toda a sujeira que fiz ao derrubar os remédios, pede ao nosso pai que saia e pede a Robin que faça o mesmo. Eles obedecem levando Cora. Ela me entrega um copo com água, depois limpa o suor do meu rosto com uma toalha a disposição e espera Ingrid acabar para pedir algo.
— Onde está a foto de Emma que encontramos na roupa dela? — Pergunta.
A enfermeira fica sem reação e a alternativa é defende-la.
— Ela já me entregou. — Falo antes que Ingrid possa dizer qualquer coisa precipitada. — Ingrid me deu a foto porque teve pena de mim.
A ruiva observa a enfermeira por alguns segundos e entende, voltando a me olhar em seguida.
— Eu devo uma explicação a você, Gina.
— Não precisa se dar ao trabalho de explicar, Ingrid me disse tudo e você também todas as vezes em que veio me ver, pensando que eu estava dormindo. Eu sei o que você fez e o que você e Robin planejavam. — Falo manso, devagar, suspirando por fim. — Uma vida nova, a promoção no FBI e o prestígio como agente. É uma proposta tentadora, concordo, só que você teve muito sangue frio para aceitar. Forjou a minha morte, tentou me iludir, prejudicou a mim e a mulher que eu amo só porque queria ser promovida.
— Eu entendo a sua mágoa e quero pedir o seu perdão por tudo o que aconteceu. Fugiu do meu controle, completamente e eu só soube quando te vi arrasada pelo acidente.
— Tarde...
— Tarde sim, e você tem todo o direito de me odiar por isso.
Ia demorar para ter uma conversa decente com minha irmã, o efeito do tranquilizante era mais rápido que meu raciocínio, nem na minha mais profunda sanidade eu diria coisa com coisa. Ela se levantou, limpou o canto dos olhos e deixou o quarto. Ingrid se aproximou da cama com os braços cruzados, me olhou e não hesitou com sua pergunta:
— Por que não descontou em mim a sua raiva?
— Não aguento mais, Ingrid. Estou enlouquecendo.
— Eu também. — Ela diz, pegando o que tinha de levar para fora do quarto e saindo.
Não entendi o sentido e o drama na voz dela, na verdade, eu não entendia a dedicação dessa mulher comigo. Se eu estava bem, se não precisava mais de sua ajuda, porque ela ainda se prestava a esse serviço? Acho que por disfarce, por realmente ser boa e querer o meu bem, por ter notado a injustiça feita comigo. Fazia sentido se fosse por essas razões. Ninguém inteligente o bastante aceitaria esse tipo de trabalho, ainda que ganhasse para tal. Cuidar de uma pessoa como eu não era tarefa para qualquer ser humano.
Passado aquele dia turbulento, meus pais, Zelena e Robin se reuniram a fim de definir o que fariam comigo. Era outro daqueles dias em que ficava parada diante da janela, olhando para os telhados da vizinhança imaginando o que Emma estaria fazendo, onde ela estaria agora ou como estava se sentindo. Pensava em como seria quando soubesse que estou viva, sua reação, seu abraço e seu choro. Os sustos em me ver coberta de marcas quando eu tirasse a roupa para ela na hora do sexo e, desse pensamento, acabo me lembrando de algo que era muito capaz de ter ocorrido nesse tempo em que estou ausente. Emma pode ter encontrado outra pessoa, por isso corro o sério risco de tê-la perdido para sempre. Mas quem no mundo se importaria com Emma como eu me importo? É um pensamento egoísta, eu sei, mas não há quem queira tanto uma pessoa quanto eu quero essa mulher hoje. Se Emma tiver encontrado outra pessoa e esteja apaixonada, não terei alternativas a não ser deixa-la ir, ainda que isso me destrua uma segunda vez.
Não espero que me chamem, não preciso perder mais tempo depois do transtorno que causei nesse quarto. Saio dali descalça com as roupas que me mandaram vestir, uma camiseta escura e uma calça confortável para se andar dentro de casa. Ouço as vozes de cada um deles conversando entre si e de repente param quando apareço no alto da escada. Desço devagar até me encontrar no centro da sala e sem querer passar os meus olhos por uma foto de Zelena e Robin no dia em que se casaram. Na minha cabeça um pequeno flash do dia em que soube que Zelena se casaria se formou; Eu estava com Killian quando ela me ligou, tinha transado com ele depois de uma das últimas brigas que tivemos e ele passava a mão nas minhas costas com insistência enquanto de bruços eu tentava conversar com ela. Minha irmã me contou que havia conhecido Robin em uma convenção para engenheiros, que ele era galanteador e charmoso e que estava apaixonada. Enquanto eu achava graça das qualidades em excesso do meu futuro cunhado, Killian descia mais sua mão esquerda, apertando o lugar onde ele mais gostava de passar a mão. Em algum momento da conversa, Killian esfregou sua ereção, subiu nas minhas costas e excitada demais para falar com alguém da família, pedi licença e desliguei o telefone. Sei que Zelena não entendeu até hoje o que eu estava fazendo naquele momento e sendo sincera eu me arrependo de não ter dado os parabéns para ela da forma correta, assim como me arrependo de não ter ido a festa de seu casamento porque eu havia terminado o meu noivado e estava apavorada com a possibilidade de pegar o buquê.
Levanto os olhos finalmente e vejo minha mãe limpando as lágrimas com um lenço, com os olhos inchados e o nariz vermelho de tanto fungar. Papai está ao lado dela, envolvendo-a com um braço, ele me olha, mas não esboça reação. Robin permanece de pé ao lado de Zelena, que joga um papel sobre a mesa.
— Minha carta de demissão. Nós viemos discutir sobre as consequências dos meus atos, Gina. — Revela. — O meu desligamento vai ocorrer dentro de algum tempo, não imediatamente, mas assim que encontrarem um substituto para minha função. — Zelena tenta deixar claro, mas não me interessa ver se sua demissão é uma verdade ou uma mentira.
— Foi você quem levou ela para trabalhar com os federais, não foi? — Dirijo a pergunta a Robin e ele não esconde que estou certa.
— Sim, fui eu. — Ele coça a barba recém crescida e parece abatido.
— O que foi que sentiu quando me viu depois do atentado?
— Me senti frustrado por não ter alcançado os outros homens que te perseguiam. — Ele é sincero.
— Não é culpa dele, irmã, foi minha. — Zelena diz. — Eu sugeri trazer você, eu sugeri forjar a sua morte, eu fiz tudo. Robin foi apenas o meu comparsa.
— Pode dizer que fiz parte disso tanto quanto você. — Ele intervém. — Eu quis transformá-la em líder. — Ele me olha de novo. — Zelena tem um grande potencial dentro da unidade, ela é uma agente muito dedicada, salvou a vida de muitas pessoas em tão pouco tempo conosco.
— Só não foi capaz de salvar a vida da própria irmã. — Retruco.
— Regina, se lembra do atentado no metrô de Chicago? O acidente com o avião Grego no Texas? A bomba no estádio dos Broncos? Eu estava lá. Eu evitei tudo isso. — Zelena põe a mão no próprio peito e fala orgulhosa. — Foi muito egoísmo ter pensado que você daria uma boa agente e que teria que recomeçar do zero para trabalhar comigo, foi com certeza uma atitude imbecil, reconheço. Eu estava deslumbrada com os prémios, o reconhecimento, com a vida de tanta gente dependendo da minha. Achei que fosse bom para todos nós.
— Quem é você para saber o que é bom ou ruim pra mim? Nós não somos nem irmãs de sangue.
Devo ter soado cruel, pois Cora afunda o rosto no ombro de Henry e desata a chorar.
— Eu sei, mas para mim era como se fosse. O sangue não ser o mesmo que o seu não importa, nós fomos criadas juntas e era isso que fazia sentido.
Suspiro e passo as mãos pelo rosto me sentindo ligeiramente tonta.
Cora soluça, provavelmente apavorada com as palavras que Zelena e eu trocávamos. Quando caminho para o outro lado da sala ela levanta o rosto e olha a filha mais velha.
— Acabe logo com isso, Zelena, deixe sua irmã voltar, chega dessa história. Desde o começo eu sabia que não daria certo.
— Se sabia por que não me disse nada? — A ruiva pergunta.
— Porque eu acreditei que quisesse fazer o melhor por Regina.
— Nós acreditamos e ajudamos vocês dois. — Henry Mills se manifesta. Ele procura consolar minha mãe e está visível na cara dele a vergonha, tanto que não consegue me olhar.
Minha irmã se volta para mim aperta uma das mãos de Robin, como se pedisse ajuda. O britânico desembucha e me conta tudo o que sabe, me pegando de surpresa.
— Avisamos aos pais de Emma que você está viva, mas não demos autorização para contarem a ela. Nesse momento ela está vivendo com eles e acredita que o seu corpo foi massacrado no acidente de carro. Há um túmulo no cemitério Moravian em seu nome que ela visita toda semana.
Recebo as informações como uma punhalada no estômago que me faz sangrar por dentro. Eu conseguia ver a cena, Emma indo ao meu túmulo no cemitério, levando flores para alguém que ela julga estar morta. Saber disso me parte o coração, me corrói por dentro de maneira tão forte que tonteio de novo. Todos se preocupam, mas asseguro que ficarei bem. Olho para Robin e minha irmã, os odiando de morte, querendo que paguem por tudo, mas antes de cobrar o que me devem preciso voltar, preciso desfazer o mal-entendido e convencer Emma de que tudo não passou de uma história mal contada. E agora meu impedimento era apenas o risco que eu corria sem a ajuda do FBI. Se eu não voltasse com Zelena ou Robin para Nova York, qualquer coisa absurda aconteceria para tirar o mérito deles. Eu não conseguia me convencer de que estavam arrependidos e certamente eles adiariam ao máximo meu retorno para não deixarem o governo pensar que eram os errados naquela história. Eu tinha de ser inteligente e concordar com qualquer proposta que me fizessem e, então, sugeri antes para entramos em um acordo o mais rápido possível.
— Avise que vou voltar aos pais de Emma, quero que ela saiba por eles que estou viva e que vocês forjaram a minha morte. — Estão todos me olhando e não saio enquanto não termino de fazer a minha ultima exigência. — Vocês dois vão assumir que almejavam cargos maiores no governo, caso contrário eu mesma conto aos principais jornais do pais que o FBI tem dois agentes trabalhando por interesse próprio. — Encaro Robin sem hesitar e aponto um dedo em sua direção. — Se você ama a sua mulher, você vai concordar com tudo o que eu disse. Faça alguma coisa pela família dela, pelos pais dela e pela irmã que vocês usaram como objeto de troca. Eu te dou três dias ou saio daqui com a única intenção de destruir vocês dois.
Não havia como soar menos ácida, menos magoada ou menos rude. Deixei Zelena, Robin e meus pais sem palavras para reagir e muito menos queria que levantassem a voz. Subi as escadas e voltei ao quarto, batendo a porta com força e desabando em um choro compulsivo, talvez mais que o de mamãe quando discutíamos ainda a pouco. Puxei a foto de Emma de baixo do meu travesseiro e chorei imaginando seu abraço, seus olhos verdes com medo e em seguida sorrindo de uma alegria gigantesca. Eu voltaria para ela, finalmente eu estava voltando. Pensei em seu choro todas as vezes em que me visitava no cemitério, tendo a única certeza de que eu estava morta. Ela devia acreditar que era muito azarada, que nunca seria feliz e que sua vida era muito injusta. Mas eu confesso que por um lado me comovia saber que ela visitava o cemitério onde eu supostamente estava enterrada. Era a forma como ela lidava com a dor e isso provava, talvez, que seu amor por mim ainda estava vivo.
Esperei aqueles três dias que dei de prazo para Zelena e Robin, e, no fim do terceiro dia, sem respostas, Cora trouxe uma mochila. Ela não disse muita coisa. Disse que eu me cuidasse e que entendia o meu sofrimento, que se colocara no meu lugar e que talvez qualquer hora ela teria as palavras certas para me dizer, que naquele momento ainda estava muito decepcionada consigo por ter concordado com Zelena. Era tarde e eu não queria mais esperar pelo retorno do casal, então, com minha mãe ali prestes a me entregar uma trouxa de roupas novas para a viagem, me despedi dela e pedi desculpas por tudo o que eu pudesse ter causado.
— Não peça desculpas por quem você é, querida. — diz ela, enquanto dobra uma camisa e coloca dentro da mochila. Ela está ao meu lado, me vira e me abraça. — Eu sinto tanto a sua falta.
— Eu também sinto a sua e sinto falta do Henry. Somos diferentes em muitas coisas, mas eu nunca vou deixar de agradecer o que fizeram por mim. Vocês me deram um nome, uma casa, uma família.
— É uma pena que Zelena tenha quase destruído tudo. Perdoe ela, Regina. — Minha mãe pede, se soltando pouco de mim, desamassando a camisa que visto perto dos ombros. — Sua irmã se envolveu demais com as camadas mais profundas do governo, foi iludida com falsas promessas do Robin, não culpe ela.
— Só vou perdoar se Emma estiver bem. Tenho medo de ter perdido a minha namorada para aquele inferno que ela vivia antes. Se você tivesse conhecido Emma na época em que eu conheci, entenderia.
— Não, Regina, para bom entendedor meia palavra basta. Você teve uma atitude da qual me orgulho, se dispôs a ajudar essa mulher sem pedir nada em troca. Ela estará bem, você vai encontrá-la bem.
— Assim espero.
— Quando sua irmã voltar, seu pai e eu podemos leva-la a rodoviária, é mais seguro.
— Tudo bem, tem muito chão pra percorre até o aeroporto da capital. — Digo, mas tenho outro plano que ela não sabe.
— Está bem. Boa noite. — Ela me beija o rosto e sai mais calma.
Fecho a mochila e me arrumo, pronta para ir. Vai ser durante a madrugada, na hora em que ninguém perceber e dane-se se Zelena voltou ou não, eu tenho que sair dessa casa, voltar para Emma de qualquer maneira. Cochilo e quando acordo olho para o relógio de mesa ao meu lado: 3:00 da manhã. Esfrego os olhos brevemente e passo a mão na mochila, me levantando quando dou de cara com Ingrid, parada na frente da porta do quarto. Com as mãos, por trás, ela nos tranca como se acabasse de entrar. Pelo seu jeito, está muito aflita, muito tensa, quer me dizer algo.
— Você não estava dormindo no quarto de hóspedes? — Pergunto, um pouco tonta de sono ainda.
— Eu não dormi esta noite. Eu sei qual é o seu plano, só peço que não vá agora. Por favor, fique.
Esfreguei meus olhos novamente e respirei fundo.
— Por que eu devo ficar?
— Porque ainda não é seguro sair daqui. — Ingrid anda com o roupão de seda no corpo.
— Eu esperei a sua ajuda, mas agora que sabem de tudo, não preciso mais.
Ela suspira, tensa, está muito esquisita.
— Me desculpa não ter conseguido ajuda-la antes...
— Ingrid, você fez o que estava ao seu alcance, agradeço por ter cuidado de mim enquanto eu estava muito mal.
— Eu faria duas vezes se fosse necessário.
— Muito obrigada, mas não pretendo me acidentar de novo.
Ela chega perto, para onde a luz do abajur alcança seu corpo inteiro e treme, mas não é de frio.
— Regina, eu... Desde que te vi quando chegou nesta casa... Uma coisa inexplicável aconteceu. Não vá, por favor, não vá embora. Não sem antes me dar uma chance de te dizer... — Ela sussurra e desfaz o laço do roupão, subindo as mãos até as alças nos ombros. Ingrid derruba o que está vestindo e se mostra para mim, absolutamente nua. — Estou louca por você.
Sem dúvidas é uma mulher linda, que em outros momentos certamente me deixaria excitada. Não é o caso hoje. Vejo seu corpo feminino e pálido se empertigando com o que diz. Os seios dela brilham, bicos rosados no meio de duas montanhas fartas de pele. Ingrid parece uma pintura da cabeça aos pés, mas só consigo admirá-la com respeito, não com a vontade que ela quer que eu tenha. Não vejo Emma nela, não consigo enxergar nada além de uma mulher qualquer e por incrível que pareça, não me sinto atraída por esta linda criatura desnuda.
Olho sem medo, sem reações, sem conseguir dizer que ela é sim muito bonita e que não devia se prestar a tal papel. Suspiro longamente, me aproximo dela e ficamos frente a frente. Ela espera que eu a beije, fecha os olhos e me dá sua boca entreaberta, mas eu não vou fazer isso. Abaixo e recolho o roupão desabado do chão, recolocando-o em seu corpo. O fecho e prendo novamente em sua cintura, olhando para os olhos dela em seguida. É difícil ver seus olhos suplicando por carinho, seu sorriso perder a graça em questão de segundos e ela murchar como uma flor sem água.
— Sinto muito, amo outra mulher mais do que a minha própria vida e você sabe disso. Eu não trocaria o que eu sinto por uma noite com você, mesmo que ficasse somente entre nós. Você é bonita, Ingrid, vai encontrar alguém que te mereça e que te ame de verdade. A pessoa que você procura não sou eu.
Me afasto dela, recolhendo a mochila que sem querer derrubei quando ela apareceu. Destranco a porta do quarto e abro, mas ela ainda não havia me dito tudo.
— Há uma passagem e dinheiro em baixo do abajur no aparador na sala. São seus, você vai precisar. Use o meu carro para ir até a próxima cidade, ele está a dois quarteirões daqui. — Ela diz com a voz embargada. Não se vira, nem se mexe. — Preparei comida para levar enquanto não chegar ao aeroporto, você vai encontrar uma bolsa pequena no armário em baixo da escada, assim como uma blusa de lã que eu mesma fiz para usar se sentir frio durante a viagem. As chaves do carro também estão na bolsa. Saia pelos fundos, eu darei cobertura ficando aqui dentro. Boa sorte, Regina.
Eu imaginava que Ingrid daria uma boa desculpa para meus pais amanhã quando não me encontrassem na casa. Ela já havia preparado tudo para minha fuga e sendo assim acabara me ajudando a ir embora como havia prometido. Olhei para trás vendo ela intacta, parada onde a deixei, provavelmente muito constrangida. No lugar dela, se eu tivesse ficado nua para alguém e depois fosse rejeitada também me sentiria péssima. Tive pena de Ingrid, ela se apaixonara por mim de fato e se arriscou só para conquistar o meu amor, mas infelizmente eu não podia lhe oferecer nada melhor do que uma boa amizade.
Saio do quarto e fecho a porta, parando no corredor por algum tempo. Há um espelho no final do corredor, antes da escada, me vejo através dele. Meus cabelos cresceram, estou diferente, por fora e por dentro. Reflito rapidamente, já estou perdendo tempo. Me pergunto se há mesmo coragem correndo nas minhas veias e a resposta é sim, independente da mudança, se foi por Emma ou por mim. Acho que Zelena acabou me matando de verdade, dando uma chance para voltar uma outra pessoa. Definitivamente eu não era mais a Regina que morreu no acidente de carro.
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