For the love of her
24 Pelo o amor dela
Notas iniciais
Nova York sempre me pareceu uma cidade cinza mesmo em dias de verão ou essa era apenas uma impressão que a minha mente criara para intensificar mais ainda as minhas tristezas. Olhei para o céu da Georgia e me lembrei de Nova York, eu simplesmente não me lembrava de viver uma sequência de dias ensolarados tão grande. Seria isso um presságio do que me espera? Na verdade espero que seja, mas confesso estar com medo. Queria admitir para o espelho retrovisor: estou apavorada. Penso em tudo, menos no que está prestes a acontecer nas próximas horas. Penso na Nova York acinzentada, nos prédios que cansei de frequentar, os advogados que fui vencendo ao longo da carreira, as mulheres com quem me deitei, as mais de 150 vezes que chamei o delivery de comida, as raras vezes em que me senti completa no meu imenso apartamento. Há tempo para recapitular tudo e pensar numa boa desculpa que justifique minha ausência para todas essas pessoas que acreditaram na minha morte. Não chego a uma conclusão, porque a única pessoa que merece explicações é a mulher que desejo encontrar e agora me restam algumas horas para revê-la.
Quinze horas se foram desde que deixei a casa onde estava, dirigi até a capital e cheguei ao aeroporto. Apesar do cansaço que a aventura impõe, não consigo pregar os olhos, pois já fiz isso tempo suficiente enquanto estava naquela casa longe de tudo e de todos.
Bastou eu pôr os pés no aeroporto JFK para meus sentidos virem a flor da pele como nunca em momento algum. Caminhei pelos corredores com a mochila nas costas, me lembrando da identidade falsa que recebi do FBI – uma espécie de passaporte para viajar enquanto o governo não revelava minha verdadeira condição. — constando com o nome de Roni Mills, também filha de Henry e Cora, irmã de Zelena Mills. Era eu o tempo inteiro, como se fosse uma nova irmã incluída na família e nunca fez tanto sentido ser uma outra pessoa. A medida que Nova York se abria para mim enquanto eu caminhava de volta, isso crescia, Emma também crescia dentro de mim e eu sabia o porquê. Era o meu ponto de partida, a chance de mudar tudo por ela e por mim, foi ter descoberto essa mulher que me trouxe razões para viver de novo e de longe eu não podia mais ser aquela Regina covarde que tentou se matar tantas vezes.
Ao longo do dia enquanto eu atravessava Nova York de metrô, o episódio do acidente me voltou a mente algumas vezes. Eu piscava e lembrava do carro girando no ar, do meu corpo sendo arremessado e no breu. Gostaria de não ter uma memória tão trágica no momento, até porque eu sabia que as marcas do atentado estariam para sempre nas minhas costas e não lembrar seria muito difícil. Finalmente compreendia Emma, que carregava não só marcas na pele, como infinitas marcas internas dos seus anos vivendo nas ruas. Quando ela me contava o que havia sofrido e vivido, era uma espécie de desabafo, de expurgar os sentimentos que aquelas memórias traziam. Se antes eu me orgulhava por ser a primeira a ouvir os seus lamentáveis feitos de quando era viciada, hoje eu me coloco em seu lugar. Anteriormente já havia me imaginado vivendo nas ruas como Emma, mas nunca com a intensidade que imaginava agora. Coisa que é compreensível, pois há fatos dos outros que só respeitamos quando vivenciamos algo tão trágico quanto.
Para onde ir primeiro? A casa dos Swan, é claro. Emma estaria lá, ela estaria me esperando, ela sabia que eu estava viva a essa altura. Pensava no seu rosto, no brilho dos olhos e do choro ao tocar o meu corpo. Eu tinha voltado por ela e nada mais, eu precisava dela não importava o resto. Não queria pensar na possibilidade dela estar me odiando, de me xingar e me expulsar da sua vida em dois minutos. Não cabia esse tipo de pessimismo em mim, não hoje, não agora, nunca. “Por favor, me perdoe por tudo o que fiz você passar.” Ensaiava, na esperança de ouvir dela um sim. Foram tantas vezes repetindo a súplica que não me dei conta de saber o caminho da casa dela de cor. De repente era a rua onde os pais dela mantinham uma casa, a vizinhança com ar amigável e familiar, cheia de crianças brincando na rua. Passei pelas crianças na calçada, uma família de latinos que fiz questão de cumprimentar e um rapaz passeando com um bando de cães antes de avistar a casa dos Swan. Estive ali por duas vezes, e eu tinha a sensação de que em algum momento de sua vida, Emma foi feliz naquela casa, talvez quando era pequena. Também sentia que ainda iria voltar mais vezes, se não por Emma, voltaria pelos pais dela, Margaret e David Swan, o casal que um dia me procurou com o intuito de reencontrar a filha perdida.
Sinto medo de novo, tanto que minhas pernas tremem e eu fraquejo em um degrau de meio fio. Penso em voltar de onde vim, posso deixar para amanhã, mas isso seria uma sabotagem, seria a minha entrega ao fracasso e mais um dia que eu daria a Emma para sofrer.
Levanto, as penas continuam a tremer. Ao invés de voltar o caminho sigo até o outro lado da rua e subo os degraus da casa. Levo um minuto para tocar a campainha e não tenho coragem de olhar para frente. Preciso tocar mais uma vez para não sair correndo e acreditar que não há ninguém em casa. Parece demorar um século, imagino que Emma já tenha me visto e está sem coragem de abrir a porta. Sinto um nó na garganta, me controlo para não chorar e aperto os olhos já fechados.
— Regina! — A voz é de Margaret e eu ergo o rosto para vê-la. Devo estar branca como papel, não consigo dizer nada. — O quê... O que faz aqui? — A mãe de Emma me olha com muita surpresa, como de alguém que não esperava me ver (viva). Ela olha ao meu redor, procura algo ou alguém que não vê e continua não entendendo o que há.
— Me deixe ver Emma, por favor... — Solto, muito cansada e ela mexe a cabeça negativamente. Margaret passa um tempo me avaliando. Ela abre a porta, mostra o caminho para dentro de sua casa e obviamente eu entro.
A casa dos Swan parecia um lugar infinitamente diferente do que visitei há alguns meses. Está repleto de vasos com flores pelos móveis, as janelas abertas permitindo que a luz entre e as fotos de família em nova ordem nas paredes. Margaret encosta a porta, vem até mim e me pega pelo braço. Ela se veste como uma senhora idosa, sendo que parece muito jovem para sua real idade. As asas do xale que ela usa roçam no meu braço e me obrigam a olhar para ela. Sei que ela vai me dar uma notícia e eu confesso não estar preparada para ouvir. Meu coração se aperta quando ela me olha com pena. Recebo uma nova avaliação dos seus olhos e entendo que na verdade deve pensar que eu estou diferente da advogada que ela conheceu.
— Não preciso perguntar se você está bem, ou preciso? Sabemos de tudo, até o que sua irmã fez. — diz ela, pedindo que eu me sente no sofá.
— Eu não queria que tivesse sido desse jeito.
— Nós também não, principalmente Emma. Antes que me pergunte, ela não está aqui. — Margaret fala calmamente.
— Meu cunhado me disse que ela estaria aqui. — Sinto minhas mãos suadas e frias de nervoso.
— Seu cunhado esteve aqui há dois dias, ele nos contou o que aconteceu, depois eu conversei com Emma e disse a ela sobre você. Lamento, Regina, ela não quis esperar.
— Como assim? Você disse que estou viva a ela? O que aconteceu depois que Robin veio?
— Se você não sabe, existe um tumulo com o seu nome no cemitério e Emma o visita quase todos os dias. Quando o Robin esteve aqui em casa, Emma não soube porque foi levar flores para você. Ele me deu autorização para contar tudo o que houve e foi o que eu fiz quando ela voltou. Mesmo sabendo que você estaria de volta assim que possível, Emma não quis esperar, pediu desesperadamente que eu arranjasse passagens para Atlanta e foi o que eu fiz.
— Está dizendo que Emma viajou para Atlanta atrás de mim?
— Sim, foi o que ela fez. Robin deixou a localização de onde você estava e Emma não levou dois minutos para fazer uma mala depois que contei. Ela chorou muito, ficou emocionada e disse que te traria de volta.
Não consigo prosseguir, muito menos perguntar se ela está bem, o que aconteceu enquanto estive fora, não posso, não tenho forças. Abaixo a cabeça e esfrego o rosto.
— Meu Deus...
— Lamento muito, também preferia que ela ficasse, mas eu não podia recusar um pedido depois do tanto que ela sofreu com a sua ausência. — Margaret realmente parece solidária e me resta aceitar que me desencontrei com sua filha por ter demorado demais para voltar.
Nunca me passou pela cabeça que talvez Emma tivesse a ideia de ir atrás de mim quando soubesse que eu estava viva. Eu sempre tive receio de suas atitudes por impulso, mas não podia negar que as vezes essa era uma de suas qualidades. Agora eu me preocupava com Emma pelo fato dela conhecer meus pais. Como eles a tratariam? Como reagiriam com sua visita? O que diria a Zelena quando se vissem? Tive medo só de imaginar.
Um momento após Margaret oferecer sua mão para me acalmar, David Swan sai do escritório por uma porta dupla e me vê sentada no sofá da sala, no mesmo lugar onde um dia paramos para conversar sobre Emma e acertar as contas sobre ter me envolvido coma filha dele. Ele arregala os olhos e teme se aproximar, engoli seco e respira fundo. Parece ter visto um fantasma.
— Então você está mesmo viva.
— Até mais do que parece. — Replico.
— Ela veio procurar nossa filha, David. — Margaret se põe de pé.
— Emma viajou há dois dias, pensei que já estivesse com ela. Nós ainda não recebemos nenhuma mensagem, Emma ficou de avisar quando chegasse na Georgia.
— Estou sabendo, nos desencontramos.
— Pensei que talvez Regina precise de um lugar para ficar hoje, por que não hospedamos ela aqui, meu bem? — Margaret interrompe e se aproxima de David, o chamando para concordar com sua ideia súbita.
— Não acho uma ideia ruim, pode passar o tempo que precisar, o quarto da Emma está vago enquanto ela não volta.
Os Swan, assim como eu, haviam passado por um longo processo de mudanças. A forma como me tratavam hoje devia ser o resultado de um grande impacto que tiveram lidando com uma filha desajustada por uma perda. Tive vontade de perguntar como se sentiam em relação a Emma, o quanto de trabalho ela havia dado e quanto se dedicaram a cuidar dela. Pela maneira serena como falavam e não me julgavam, eu acreditava que Emma conseguira se manter firme nos últimos meses da minha ausência. Algum milagre a segurou, isso não podia ser mais confortante para o meu coração. Eu ainda notava um pequeno receio nos olhos de David, uma vergonha ou talvez uma falta de tato com o assunto. Ainda havia nele um preconceito enraizado que ele talvez jamais perderia, mas, que por amor a filha, ele tentaria não demonstrar. Margaret por outro lado já compreendia a importância que eu tinha para sua filha. Se ela não me aceitasse estaria indo contra Emma e colocando tudo o que construíram nos últimos dias a baixo.
Margaret pediu que eu a acompanhasse até o andar de cima, no quarto de Emma. Pela primeira vez entrei no recinto que Emma sempre falava quando recordava a infância e adolescência. Era ali onde ela chorava quando algo não dava certo como queria, ou quando ela se interessava por alguém e levava um fora, ou quando queria fumar seus baseados em paz e até de onde fugia para não atender as exigências que os pais impunham. Paredes brancas, prateleiras completamente vazias e uma cama impecavelmente limpa e arrumada. Foi assim que Emma deixou o quarto antes de viajar. Margaret apontou para a escrivaninha, mostrando os livros da faculdade de gastronomia, um notebook novo e um porta retrato com nossa foto no Central Park. Pude ver uma Emma colocando as mãos naquela foto, a olhando diversas vezes ao dia e lamentando minha morte.
— Deixe suas coisas aqui, Regina, pode descansar se quiser, nós não vamos atrapalhar.
— Obrigada.
— Quer comer alguma coisa? Posso servir um lanche, você parece ter fome.
— Estou bem. — Respondo rápido, assim como penso. Acho que preciso fazer o tempo passar antes que Emma retorne e não deve ser nesse quarto. — Margaret — Chamo antes que ela encoste a porta por fora. — Você sabe me dizer se o apartamento onde eu vivia ainda está ocupado?
Ela sorri brevemente e faz que sim.
— Emma pediu que cobríssemos as despesas dele. Suas coisas ainda estão lá, ela estava decidindo o que fazer com tudo, está praticamente intocado desde que você sumiu. Ela mantém as chaves numa das gavetas do camiseiro, bem ali. — Margaret se vira e sai do quarto, me deixando livre para escolher.
A chave está mesmo onde ela disse que Emma guardara, em baixo de um fundo falso. Bagunço algumas blusas de Emma ou seriam minhas blusas de dormir? A verdade é que, ela trazendo ou não, tudo ali tinha seu cheiro, desde as camisas às meias limpas tudo tinha um cheiro bom, o cheiro que eu estava acostumada a sentir em seus cabelos e nuca quando a beijava. Não resisti em levar uma das camisas ao nariz e respirar, era como ter Emma nos meus braços e pedir para ela nunca mais me soltar. Viajei por alguns segundos em uma linda ilusão, mas acordei para a realidade logo.
Quando desço as escadas ouço David e Margaret conversando na sala, mas não me atrevo a entrar, apenas ouço:
— Como você acha que Emma vai reagir?
— Ela vai perdoar, com certeza.
— Só não quero que ela se magoe, David. Foi tanta dor, não sei como aguentamos.
— Talvez tudo isso tivesse um propósito para ela e para nós dois.
Eles se calam e deixo a casa sem avisá-los.
Em um primeiro momento, caminho pensando que devo ir ao apartamento, mas é cedo e estou mais curiosa para ver outra coisa. Acabo fazendo um passeio de barco até Staten Island o lugar onde haviam me enterrado simbolicamente. O cemitério Moravian é um imenso espaço arborizado, que mais se parece com um recanto espiritual. Não há movimento algum quando chego, somos apenas eu e grandes sepulturas espalhadas por todos os lados num silêncio pacífico demais para meu gosto. Regina Mills está enterrada numa subdivisão de túmulos, um lugar mais abaixo dos terrenos, próximo a outros tantos pilares com nomes diversos que não quero tentar ler. O chão está abarrotado de flores que eu creio serem das árvores, mas também de quem visita seus entes queridos. O clima começa a ficar convenientemente melancólico e sei que quando ver o meu nome em uma lápide vai doer.
Então o encontro; Uma lápide recente, bem no meio da grama recém aparada, com coisas escritas em cima: “Aqui descansa Regina Victoria Mills, nascida a Fevereiro 1º de 1984, falecida em Maio 22º de 2017. Em memória da filha amada e dedicado ser humano. Nunca será esquecida.”
Suspiro fundo, foi ali que encerraram minha vida sem permissão e minha reação é o choque. Passo muito tempo olhando para meu nome, segurando as lágrimas que querem desabar dos meus olhos. Há flores em volta, muitas flores secas que Emma deixou todas as vezes em que esteve ali. Ela esteve ali, eu tive a certeza ao ver a marca que suas pernas deixaram na grama. Ela devia passar muito tempo conversando comigo, acreditando que eu estaria ali para ouvi-la dizendo que me amava muito e que não queria ter me perdido. Eu também não queria ter perdido ela. Saber que Emma atravessava a cidade quase todos os dias para vir a esse lugar, me dilacerava por dentro. Devia muito a ela, devia minha vida de fato agora mais do que nunca. Ela me amava sem esforços, intensamente apaixonada e minha retribuição foi pouca. Nunca desejei tanto ter parado o tempo todas as vezes em que nos olhávamos antes de dormir.
Uma chuva fininha começa e é o aviso para eu me desligar da emoção que me ver “morta” causou. Deixo o cemitério, Staten Island, sem me dar conta de que em pouco tempo ia anoitecer.
Volto a Manhattan, tomo o metrô até Upper East Side e chego ao edifício onde morava antes de tudo acontecer. Olho sua fachada, nada mudou nem fez esforço para ser diferente na minha ausência. Presumindo o que Margaret me disse sobre o apartamento, nada lá dentro também mudou. Ninguém me viu entrar e subir pelas escadas como preferi fazer. As chaves estavam no meu bolso e elas escorregaram da minha mão quando parei diante da porta do apartamento. Como tudo o que eu fazia desde que saí da Georgia ontem, eu suspirava tensa, sem saber o que ia me esperar, mesmo que nada de extraordinário fosse acontecer. Naquele caso, eu não esperava que acontecesse algo, embora uma ideia de ver Emma sentada no sofá me esperando estivesse me passando pela cabeça. Emma não estava ali, eu sabia que não. Abri a porta e o barulho do rangido me arrepiou. Era como voltar ao dia em que deixei esse lugar. Nada, sequer um objeto estava fora do lugar, Emma conservou tudo como deixamos naquele dia e eu não podia me surpreender mais. Caminhei pela minha casa, senti a textura das paredes, sorri sem querer ao ver um dos meus ternos largados sobre o sofá e quando vi a cama do quarto desarrumada, havia uma mistura do meu perfume com o de Emma no ar, o simples e o luxuoso. Me lembrei quando disse que a amava e ela contestava que eu estava cheirando a perfume caro que não era o meu. Tudo isso aconteceu ali naquele apartamento, algumas discussões infundadas, beijos que não tivemos como controlar e onde nasceu grande parte do amor que sentia por ela. Voltei a sala e, na verdade, havia sim algo diferente que não notei ao entrar porque não prestei atenção no móvel perto do sofá. Uma foto das tantas que tínhamos juntas quando andávamos pelo Central Park estava ali. Mas eu não me lembrava de ter tirado aquela foto com ela ou talvez eu lembrasse e tenha esquecido porque estou bastante suada e com roupas de ginastica, nada bem para posar em uma selfie. Emma tirou o celular da minha mão e fez a foto, eu recordava ou isso era uma criação da minha mente para me consolar. Bem, eu fazia uma careta e Emma ria de forma idiota na foto, me deixando feliz porque a única sensação que dava para sentir olhando para ela era essa.
Deixei-me inundar pela alegria que a imagem me causava e ri, gargalhei como se vivesse aquele momento uma segunda vez. Porém, eu mais sinto saudade do que qualquer outra coisa e quando paro de rir sinto as lágrimas escorrendo pelas bochechas. Molho a foto com o choro que eu não consigo controlar, porque eu só queria ver aquele sorriso da mulher que eu amava mais uma vez. Por que teve que ser daquele jeito? Por que doía tanto? Eu sei porquê, e a resposta é uma só: Porque amo Emma.
Eu soluço, esfrego os olhos e não consigo parar, então ouço a porta... A porta range novamente, mas como se eu havia fechado quando entrei? Viro o rosto, limpando-o com a palma. Emma me olha com lágrimas nos olhos assim como eu, e aquele sorriso, o mesmo da foto que eu precisava ver de novo. Ela está ali, é ela, a minha Emma sorrindo, brilhando emocionada pra mim.
Me viro e largo a foto, indo até ela que já não se aguenta de felicidade. Corremos uma para a outra e a pego nos braços, tirando ela do chão e a rodando no ar. Ela me aperta com força, nos agarramos, nos beijamos e rimos juntas. Finalmente eu consegui, tinha Emma comigo, eu podia ser feliz de novo. Que alívio! Rodo com ela nos braços, rindo, chorando de alegria, amassando sua roupa, mas que se dane a roupa, eu preciso dela, eu amo essa mulher mais do que a mim mesma. Emma pula e enrosca as pernas a minha volta, me permitindo andar com ela até a parede onde a prendo e beijo sua boca, seu queixo e pescoço. Eu me inundo dela, invado aqueles lábios pelo menos mais cinco vezes até me convencer de que aquele não é só um sonho. Colamos os rostos e respiramos em fim, sem fôlego, uma limpando as lágrimas da outra. Ela engole seco enquanto beijo suas mãos que recolho. É tanta coisa, tanto sentimento junto que estamos confusas, mas ela sabe o que dizer, ela quer falar e eu só desejo ouvir.
— Viva... Está viva! Viva por mim. Você não desistiu de mim em momento algum, eu sei. Eu te amo! — A voz dela treme.
— Nunca, jamais ia desistir de você. — Balanço a cabeça, ainda estou sem fôlego. — Nos desencontramos, não foi?
— Por algumas horas apenas. Enquanto você voltava, eu ia. Não sabe como me senti quando cheguei lá e não te encontrei, pensei que estava tudo acabado, que tinha te ganhado de novo e perdido mais uma vez. — Ela prende os lábios.
— Não perdeu nunca. Eu tô aqui, ó... Aqui! — Faço ela me beliscar a mão. — Consegue sentir?
— Consigo. — Ela ri e me olha nos olhos, no rosto, toca minha boca, a cicatriz sobre ela. — Está diferente, parece outra pessoa, ainda assim sei que é você.
— Aconteceu muita coisa, me perdoa.
— Não tem que pedir perdão, não foi sua culpa.
— Foi sim, eu fui teimosa, eu devia ter voltado antes, ter conseguido uma forma de avisar. Te fiz pensar que eu estava morta.
Emma fechou os olhos e os segurou por alguns segundos.
— Doeu muito, você não tem noção do quanto. De repente a minha razão de viver tinha acabado, os meus motivos para continuar lutando se esvaíram e não havia nada que eu pudesse fazer. Eu perdi metade do meu coração, da minha vida por uma morte que não existiu.
Faço que sim, concordando com ela. Limpo as duas lágrimas que escapam dos seus olhos lindos.
— Eu sinto muito.
— Não entendo porquê tanta maldade com a gente, porquê fizeram isso com você. Não entendo e nunca vou querer entender.
— É mais complexo do que se imagina, acho que no fundo não é para se entender.
— Pois saiba que isso pode ter nos separado, mas só fez meu amor por você crescer. Me fez descobrir tantas coisas.
— Então você não está magoada comigo? — Pergunto com inocência.
— Deixa de ser boba. Claro que não estou, só estou mais orgulhosa da mulher que você é, uma mulher que descobri ser indestrutível.
— Mas essa não sou eu, essa é você. Como aguentou esses meses? O que aconteceu enquanto eu não estava aqui, Emma?
— Eu vou te contar, prometo. Agora me deixa te olhar, me deixa ter certeza de que eu tô vendo a Regina de carne e osso, que eu posso tocar ela. — Ela segura meus cabelos, solta eles e enfia as mãos nos fios. Roça o nariz no meu, me beija a boca, então caímos no chão de leve.
Acabou a minha tormenta, o choro de tristeza e a raiva. Eu voltei pra casa, tinha Emma comigo e não importava mais nada.
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