For the love of her
5 Paciente: Loira Desconhecida
Notas iniciais
Desta maneira, Emma se distanciou me deixando no frio espaço vazio do observatório daquele imenso prédio, sem me dar alternativas ou palavras para pedir que ficasse comigo. “Não quero ir embora sozinha esta noite”. “Não desejo que você vá embora”. “Apenas fique, esse é meu desejo”. Meu ímpeto de advogada havia morrido no momento em que ela entrou no elevador. Grito com ódio até que me queime a garganta, como se a ilha de Manhattan me ouvisse e tivesse aversão a mim por isso. Não adianta, Emma foi embora e o que resta é voltar para casa sozinha.
Embora fosse início do outono, começa a fazer muito frio, mas eu precisava de ar fresco. Por que aceitei ser o capricho de Kris? Emma não merecia ser chamada de vagabunda na frente de desconhecidos, por mais crítica que sua situação seja. Onde eu estava com a cabeça quando decidi provocar Kris? Essas são algumas perguntas que passam pela minha mente enquanto dirijo para casa, mas também penso nas palavras covardemente omitidas que devia ter dito a Emma antes que ela pegasse o elevador e descesse todos os andares do Empire State. Quando chego, suas coisas ainda estão no apartamento, não houve tempo dela aparecer por ali ainda. Então presumo que esteja fazendo exatamente o que me disse que faria, andar um pouco pela cidade, dar uma volta. Jogo minha bolsa de mão no sofá, desfaço os botões da roupa e me largo ali ao lado, esperando que por alguma sorte ou azar Emma apareça para buscar sua mala. Ela não vem, não ousa voltar. Vejo o dia amanhecer segurando um copo com água na mão, olhando pela janela o conjunto de edifícios que compõe a vista pouco privilegiada que tenho da cidade. Nada de Emma. Nada de água mais no copo. Nada de orgulho de mim. Acho que fui vencida e meu ego ferido.
Está quase na hora de ir a firma, preciso tirar essa roupa, colocar meu terno e trabalhar, mas e Emma? Não posso perde-la quando vier buscar suas coisas. Espero até uma hora depois, ela não aparece. Começo a sentir mais ódio de Kris do que de mim mesma e penso em ir cobrar dela o sumiço de Emma. A princípio é o que faço, então troco minha roupa, tiro a maquiagem em excesso e deixo o apartamento, pedindo ao porteiro do edifício que me avise caso Emma apareça. Parto para a empresa a qual Kris trabalha, mas falho miseravelmente ao notar que isso não vai adiantar para trazer a mulher desaparecida novamente de volta, além de que posso acabar me aborrecendo ainda mais.
Vou para meu escritório na firma, o dia passa e nada do porteiro me ligar avisando sobre Emma. Uma súbita preocupação me domina, um medo absurdo de tê-la colocado em uma situação que só vai piorar seus vícios ou ter provocado nela algo temível. Não gosto de pensar nas consequências do que a frustração de Emma é capaz. Meu dia está perdido. E, para piorar, eu me encontro numa encruzilhada quando Margaret Swan me liga no meio da tarde.
— Perdi sua filha de vista, senhora Swan. Foi uma falha minha, acho que ela está magoada. Não, não mais com os senhores. Comigo. — Respondo de maneira subjetiva e coloco uma centena de questões na cabeça da minha cliente.
Ainda digo no fim da conversa que se eu não encontrasse com Emma de forma normal, que eu iria procura-la naquela noite nos mesmos lugares onde ela poderia estar. A verdade é que não faço ideia de onde procurá-la agora, Emma não iria se esconder no cassino ou no café onde tivemos nossa primeira conversa sóbria.
Em casa no fim da tarde, confirmo a ausência de ligações do porteiro quando vejo a mala de Emma no mesmo lugar onde foi deixada. Ali no quarto de hóspedes também estão os livros que ela furtara do meu escritório no apartamento e as cinzas do último cigarro que fumou lá dentro em cima de um pedaço de papel sobre a cômoda; Algo não parece certo, preciso ir atrás dela.
É sexta-feira, não estou feliz por precisar sair com outra função que não seja me divertir num bar ou ir a um clube. Quando busquei por Emma no cassino, eu estava no fundo aproveitando a ocasião para conhecer novos lugares onde possivelmente voltaria para conhecer outras mulheres. Hoje estou aflita, meu coração volta a se agitar, não por estar na presença de Emma, mas por me sentir mais distante dela. Esse caso já não é um negócio entre seus pais e eu, é agora uma questão pessoal e preciso solucioná-la ou nunca mais vou deitar cabeça no meu travesseiro em paz.
Volto as cercanias do Empire State Building e tento entrar na cabeça de Emma, escolhendo para que lado seguir quando esteja aborrecida. Sigo pela 5ª avenida, há uma imensidão de luzes para todos os lados e se eu fosse Emma, entraria no primeiro bar que encontrasse para fumar os cigarros que restam no maço e beber algo de quebra. Me lembro que Emma não tinha dinheiro algum consigo. Ela não entraria sem dinheiro em um lugar, por isso permaneço andando em meio aos turistas, as placas de peças de teatro na calçada, artistas de rua e propagandas dos melhores investimentos da atualidade. Eu paro após subir toda a avenida por duas vezes, retiro a foto de Emma que trago no bolso, aquela que Margaret me deixou para reconhecer sua filha, e demoro pensando. Minha vontade é de gritar: Emma! Ouvir sua voz no meio da multidão e correr até ela quando me responder. Mas isso é muito bonito apenas na minha cabeça e não é o que está acontecendo.
Ajo rápido, voltando a avenida com a foto na mão, perguntando para cada artista que bate ponto naquelas esquinas se viram alguém com as mesmas características de Emma. Quatro pessoas reconhecem a loira que andava de vestido na noite anterior, seguindo sem rumo. Emma chamava atenção e pelo o que parecia, na noite passada, ela não havia tentado se drogar além dos cigarros que levou consigo. Para mim era um alívio grande, mas ainda era pouco para quem precisava encontrá-la. Deixo meu número de celular com os quatro artistas de rua e exausta, como se minhas energias tivessem sido surrupiadas, volto para meu apartamento no Upper East Side, andando.
As coisas de Emma permanecem no meu apartamento. Faço o que não gostaria, que é mexer em sua mala atrás de algum sinal deixado de propósito por ela, dizendo onde ela provavelmente se enfiara e eu pudesse ir atrás. Mas não há nada além de suas novas e velhas roupas preenchendo o espaço da bagagem. Enfim encontro a carteira dela. Há uma foto de quando ela era mais nova, devia ter uns quinze anos no retrato pequenininho. Eu o guardo junto da sua carteira de identidade e seguro social. Bem, ela não vem usando os documentos, caso contrário seus pais já teriam a encontrando se cadastrasse o número do seguro em algum hospital ou trabalho que exigisse identificação. Não resisto e puxo o mini retrato de Emma novamente, olhando para ela por minutos incontáveis.
Estou sofrendo pela ausência dela, sentindo uma culpa sem tamanho por tê-la magoado e deixado partir. Realmente acreditei que Emma não se importaria tanto, porém fui burra em envolve-la na minha história embaraçada com Kris. Tudo o que acontecesse com Emma seria minha culpa, eu tenho certeza disso e me responsabilizo, embora esteja doendo como nunca pensei que fosse ser deixada por uma mulher. Veja que interessante, não transei com Emma, não tivemos absolutamente nada além de uma ter ajudado a outra, no entanto, é como se essa ausência de dois dias sem ela estivesse me matando por dentro, me sufocando. Parece que conheço essa mulher há séculos, que somos amantes há muito tempo e que fiz algo do qual me arrependo, mas ela decidiu me avisar que estou errada sobre ela.
Tenho sonhos com Emma todas as noites que se seguem. Meus dias se resumem em esperar por notícias dela, esperar que ela entre a qualquer momento pela porta do apartamento, esperar que ela surja no meio da multidão da 5ª avenida; Cinco dias depois e ainda não sei para onde Emma foi.
Meu martírio acaba numa tarde em que meu telefone me surpreende com o toque de mensagem recebida. Acabo de deixar uma reunião importantíssima da firma e pego o celular para ver o que acabo de receber. Um número que não reconheço escreve: “Oi! Ainda procurando pela mulher loira? Ela está no Bellevue Hospital. Foi levada para uma ala onde internam moradores de rua e pessoas sem identificação. Você pode ir até lá e mostrar a foto.”
Uma ansiedade me põe de volta ao chão. Aviso à secretária que não volto para a reunião seguinte e sigo para o hospital de Bellevue na mesma hora. Ignoro completamente a possibilidade daquela mensagem ser falsa, que talvez Emma tenha ido parar no hospital porque sofreu alguma violência. A única coisa que consigo raciocinar é ela, a chance de encontrá-la de novo, implorar seu perdão e trazê-la de volta comigo. Para o meu sofrimento se tornar maior, enfrento um enorme engarrafamento até o hospital e chego quase ao anoitecer na ala de pessoas sem identificação. Me aproximo do balcão de informações como alguém que acabara de correr muito para pegar um ônibus. Uma mulher com certa idade me atende só depois que fala ao telefone com outra pessoa, ela me pede para esperar, faz um sinal com os dedos, então quando desliga me olha por trás do vidro que nos separa e nem precisa fazer a pergunta.
— Eu venho em busca dessa moça — apresento a foto de Emma para ela, pelo vão do vidro. Ela analisa, me olha, pede minha identidade. Chama um ramal e faz novamente o sinal com os dedos pedindo que espere. Isso leva três minutos.
— Certo, senhora Mills. Venha comigo. — ela pede, saindo de dentro do balcão.
Entro em um corredor onde todas as portas tem um codinome. Na primeira vejo algo escrito. Paciente: o Rapaz Ruivo. Na quarta porta há um que me chama a atenção em particular. Paciente: o Juiz. Pergunto para a mulher que me acompanha e ela explica que alguns pacientes tem problemas psicológicos e esse era um dos casos. Era um morador de rua que em crise dizia ser um juiz muito qualificado. Enquanto os pacientes não apresentassem melhoras, eles não deixavam Bellevue e muitos desses pacientes necessitavam de medicações, mas tratando-se de um hospital público elas demoravam a chegar. Enfim ela para na frente de uma porta e eu vejo escrito: Paciente: Loira desconhecida. Meu peito dispara, tenho certeza de que Emma está lá dentro.
— Esse é o quarto, por favor, fale baixo. Se ela estiver dormindo, não tente acordar. E se por um acaso a senhora tiver alguma informação que possa confirmar quem ela seja, nós vamos agradecer muito. Quando terminar, não se esqueça de passar na recepção para preencher a ficha de visitas a desconhecidos. — e abre para mim. Assim que entro, a mulher me fecha com Emma dentro do quarto.
Ela estava certa, Emma dormia no mais absoluto silêncio. Seu rosto estava virado para o lado no travesseiro, ela colocara suas mãos sobre a barriga, na linha onde o lençol hospitalar a cobria. Me aproximo da cama. É a primeira vez que deixo uma emoção me abalar, porque Emma está pálida, machucada e acho até que fraca. Não me controlo, quero tocar seu rosto, virá-lo para mim, mas não posso, me lembro do pedido da mulher. Então várias coisas se passam pela minha cabeça. Desde onde Emma estava esse tempo todo até o que fizeram a ela para estar aqui numa cama de hospital. Eu me sento em uma cadeira simples disponível ao lado da cama e fico de olho em Emma por algum tempo até que meu corpo pesa e durmo sem perceber. Quando acordo, minha mão está segurando uma das dela, eu ergo meu rosto e a vejo me olhando prestes a chorar. Algumas lágrimas escorrem sem permissão pelas bochechas e me ponho de pé para limpá-las.
— É sério que você veio? — a voz dela é muito diferente da que me acostumei a ouvir, está fraca, meio rouca e abalada.
— Sou eu, não sou? — digo, dando a ela um sorriso. — Por que veio parar aqui, Emma?
Ela também sorri, mas ao ser perguntada sua expressão muda completamente. Ela vira a cara, não quer me dizer o que há.
— É complicado. — responde.
— Não vou te julgar se me disser o que houve. — tento ser suave. Limpo mais uma lágrima que escorre do olho direito dela.
— Eu esperei tanto por você. — Emma funga, ainda olha para o outro lado. — Esperei que fosse atrás de mim, que me impedisse de sair pela 5ª avenida. Eu esperei que me encontrasse, mas você não apareceu.
— Procurei por você todos esses dias. Estive atrás de você, perguntei as pessoas, esperei até você aparecer no apartamento... Não achei. — tento segurar suas mãos, ela me solta bruscamente.
— Não acredito em nada. Se quisesse teria me achado como fez no cassino.
— Era impossível imaginar para onde você teria ido.
— Esperei tanto por você...
— Eu também. — sussurro desesperada.
Acho que Emma entende o que aconteceu, nos perdemos nas esperas. Ela aperta os olhos até que suas lágrimas se findam e uma coragem surge.
— Overdose — ela diz com a voz que mal podia competir com o barulho de uma ambulância ecoando pelo lado de fora. — Sei lá, eu fiquei tão chapada do sábado pro domingo que eu só me lembro de ter caído no meio da rua. Me deu uma sensação fora do controle, eu tremia sem parar, minha boca amargou e desmaiei. Acho que foi isso.
— Não consegue se lembrar de mais nada?
Emma fez que não, virou o rosto e me olhou novamente.
— Não lembro nem como consegui o baseado.
Baixo o rosto e penso, muito triste pelo o que ela estava revelando.
— O que aconteceu com o seu vestido?
— Jogaram fora, eu acho. Estava imundo.
— Foi por minha causa, não foi? Por minha culpa que procurou se drogar e veio parar aqui.
— Não, foi minha culpa. Eu queria ver se você vinha atrás de mim, se ia me procurar. Daí enquanto eu esperava uns caras me ofereceram um consolo para minha espera.
Sem perceber Emma havia acabado de se lembrar de como chegou àquele ponto.
— Ainda assim a culpa é minha. Se eu não tivesse levado você ao coquetel tudo seria diferente.
— Será que seria mesmo? De uma forma ou de outra a gente não ia ficar bem. A sua namorada ia dar um jeito de me chamar de puta se descobrisse que me levou para casa. Não ia ser tão diferente. — ficou aborrecida.
— E você ia sair do meu apartamento com sua mala, ia embora porque ficou muito ofendida. Realmente não ia mudar muita coisa. — acabo sendo irônica.
— E você não faria nada para variar, ia ficar bem confortável na sua cama, transando com alguém para esquecer que eu vivi no seu apartamento por uma semana. Isso é bem a sua cara, fica com uma, não gosta, joga fora e, para esquecer o gosto ruim da que você não quis, pega outra transa mais uma vez e assim sucessivamente. Nenhuma te agrada.
— Não muda de assunto. — peço com as minhas mãos na cintura, desafiada por ela a estender nossa discussão. — Nós não dormimos juntas, Emma, que isso fique bem claro.
— Mas íamos se eu continuasse morando com você.
— Tudo bem, e isso te incomoda? Se nós dormíssemos juntas seria ruim?
— Sim, quando a sua namorada descobrisse seria ruim para você e para mim.
— Ela não é minha namorada. Eu não gosto da Kris.
— Já falou isso pra ela, a propósito?
— Pensei em falar, mas eu estava muito preocupada com o seu paradeiro e desisti de ir atrás dela.
Emma ficou calada de repente, me olhava com raiva. Se tivesse forças teria levantado e batido em mim.
— Essa mulher é apaixonada por você. — voltou a falar. — No momento em que eu percebi que você não viria atrás de mim, achei que tivesse voltado para o coquetel e decido ficar com ela.
Mexi a cabeça em negação.
— Não foi isso que eu fiz. Voltei para o apartamento e esperei por você a madrugada toda. Fui trabalhar, deixei recado com o porteiro, que me avisasse caso você aparecesse e de noite fui te procurar. Se é muito difícil de acreditar em mim, acho que não temos mais nada o que conversar, ou talvez eu não devesse estar aqui.
Emma franziu as sobrancelhas com medo. Seu rosto estava novamente inofensivo.
— Ainda não estou convencida que esteja aqui. Desculpa. — ela engole seco, olha as mãos e vai falando. — Eu ainda quero morrer. A ideia, sabe? A ideia de ter alguém preocupado comigo é tão surreal que ainda duvido muito que esteja acontecendo. Não há motivos para querer estar viva, não tenho ambição nenhuma que não seja curtir minha brisa em paz... Você surgiu enviada dos céus, parece coisa de filme, não sei. O que você quer de mim? O que que você vai fazer comigo? Por que está aqui agora?
— Respondi várias vezes nessa conversa, Emma. Me preocupo com você. Desde a noite do coquetel minha vida parou. Não consigo trabalhar da maneira correta, não conseguia dormir direito, não sabia mais que rumo tomava e olhe que foram apenas cinco dias. Foram os cinco dias mais custosos da minha vida.
Isso é verdade, eu disse a verdade à Emma, esperando que ela entendesse. Nunca fui tão aberta com alguém, essas são as palavras mais certas que direciono a uma pessoa. Não significa que esteja nutrindo sentimentos maiores que a preocupação por ela, mas significa que ela importa para mim. Sei que a forma como ela me olha diz muita coisa. Emma é carente, precisa de proteção, está apaixonada por mim, ainda assim quero ajudá-la a qualquer custo. Uma de nós sairá ferida dessa história, ou talvez as duas, eu tenho certeza. Mas recuperar a vida dessa moça deve ser a única coisa que farei de bom.
Fragilizada Emma não sabe mais como ignorar meu zelo. Ela se recupera e sorri me pedindo desculpa com os olhos.
— Me leva de volta pro seu apartamento. Só por mais alguns dias, tá?
— Fique o tempo que precisar.
— Sabe que ouvi eles falando no corredor que iam me encaminhar para uma reabilitação. Já estava planejando fugir, só que esses sedativos que eles injetam na minha veia me tombam um dia todo.
— É de propósito para que não fuja. A maioria dos pacientes dessa ala tem transtornos psicológicos, eles sedam todos como um procedimento padrão até identificarem o real problema. Você veio da emergência provavelmente, por isso cogitam interna-la numa reabilitação.
— Que dia da semana é hoje?
— Quarta-feira.
— Estou há tantos dias assim nesse hospital?
Olho a ficha de entrada de Emma em um quadro na parede do quarto, que a propósito é espaçoso e acolhedor para um quarto de hospital público. Tudo o que eu pensava estava certo. Emma veio do pronto-socorro mais próximo, foi medicada, colocada em observação e agora decidiam o que fazer com ela. Eu devia levar seu documento para identifica-la e possibilitar sua alta o mais depressa possível.
— Quatro pelo o que diz aqui. — aponto para o quadro.
Ela olha tudo ao redor como se fosse a primeira vez que estivesse prestando atenção no quarto. Me disse que vinham muitas vezes ali, levavam ela ao banheiro, traziam o almoço, o lanche e o jantar, mas que sempre ela estava grogue demais por causa do sedativo, não tinha percebido nem seu apelido dado pela equipe médica na porta do quarto.
Me aproximo novamente da cama, as lágrimas dela secam depressa, eu não as vejo mais. Emma estica a mão e pede que eu liberte a minha do bolso da calça, mas quando vou fazer isso, a mulher da recepção entra no quarto avisando o inevitável.
— O horário de visitas acabou.
Tenho de deixar o quarto, deixar Emma, mas prometo que volto no dia seguinte, mais tardar na sexta com a liberação dela. É isso que acontece. Na recepção, forneço tudo o que sei sobre Emma provisoriamente. A recepcionista me informa que com uma identidade, Emma receberá alta, ficando sob minha responsabilidade, pois aparenta estar bem de saúde novamente. Quando volto com a carteira de Emma na sexta-feira pela manhã tudo se resolve em menos de uma hora. Levo uma roupa para ela depois de saber que o vestido da noite do coquetel havia sido guardado pela equipe do hospital, mas estava realmente imundo como Emma dizia. Encontro Emma Swan no mesmo quarto que agora tem uma placa na porta escrita com seu nome de verdade. Uma enfermeira me conduz e quando abrimos, ela está de pé observando a rua da janela. Me abre um sorriso quando percebe que estou ali como prometido. A enfermeira mede sua pressão, confere se ela não tem mais nenhum sinal de recaída dos sedativos ou abstinência e a libera. Posso voltar para casa com ela nesse instante, tirá-la daquele hospital e fazer as coisas da forma certa agora.
Emma vem o caminho inteiro sem dizer uma palavra, assim como veio comigo pela primeira vez para o apartamento. Chegamos e ela olha tudo ao redor constatando que nada mudou, inclusive eu, minhas roupas, meu perfume, meus brincos e jeito um pouco calado e respeitoso. Tranco a porta, me livro da parte de cima do terno e ela se vira, espantada.
— Você não tem que ir trabalhar hoje? Está cedo.
— Não vou, não é necessário. Qualquer coisa digo que estou doente.
— Pensa que eu não percebo que há vários dias tem faltado o trabalho, saído mais cedo? Para uma advogada famosa, você não tem cumprido bem o seu papel.
— Ainda que eu perca meu emprego na firma, posso montar um escritório particular, terei mais clientes do que me limitam. — Respondo, desabotoando as mangas da camisa. — Não tenho medo que me dispensem. Há coisas mais importantes para se resolver.
Emma faz aquela cara de quem não sabe omitir algo. Ela se aproxima, me ajuda com a camisa, eu visto uma regata fina por baixo, fez calor hoje cedo e estou tentando me livrar do que resta de terno na minha pele. Ao recolher o terno, a camisa, Emma me olha pedindo permissão para colocar as roupas em algum lugar do meu quarto. Faço apenas que sim e ela entra pelo corredor carregando as roupas, calma, calada.
No quarto a encontro guardando o terno intocável que deixo ela levar consigo até o closet. Ela quer compensar de alguma forma sua estadia no apartamento, mas não é preciso fazer nada. Tento dizer isso a ela, só que é mais rápida do que eu.
— Sei o que quer me pedir, é sobre os cigarros e entendo o quanto deve incomodar. Já fumo há muitos anos, o cheiro é quase imperceptível quando uso um atrás do outro, mas esses dias sem me fizeram lembrar o quanto o cheiro pode ser desagradável, então não quero que me compre maços de cigarros daqui pra frente. Em respeito ao seu apartamento, a você, não vou colocar mais nem um cigarro na boca.
— Emma, eu imagino o quão difícil seja se ver livre do cigarro, meu pai era fumante. Foi uma batalha para ele largar, e a muito custo ele conseguiu. Se você sentir que não consegue ficar sem por esses dias, me avise.
— Não, preciso tentar. Talvez assim eu não sinta tanta falta das outras porcarias também, especialmente o baseado. Uma coisa que não te contei é que ainda na noite em que saí com você, alguém me ofereceu uma pedra de crack em troca dos cigarros caros que eu tinha na mão. Guardei comigo até o sábado quando sei lá como consegui a maconha. Se bem que não usei só maconha naquelas vielas da 11ª avenida e...
— Shh... Emma, por favor, pare de falar disso, okay? — Obedecendo a um impulso, eu puxo Emma para mim e a abraço. Ela treme pelas lembranças que surgem aos poucos, não quero acreditar que ela esteja encenando. Sua reação não me parece falsa, talvez exagerada. Ela se aperta em mim da forma como apertaria o mundo todo se pudesse tê-lo nas mãos. Ficamos assim por vários minutos.
— Preciso confessar uma coisa ou não vou conseguir conviver com você sem que saiba. — ela engole o choro e permanece comigo.
— Está bem, diga. — passo uma mão em sua cabeça, deslizando os dedos entre os fios louros brilhantes.
Ela se cala por alguns segundos, não espero que vá me dizer algo que não imagino o que seja. Mas sim, Emma me fala o que eu não esperava que fosse dizer nesse momento. Eu esperava que ela fosse contar isso mais adiante na nossa convivência.
— Sabe por que fiquei tão magoada com as coisas que a Kris disse sobre mim, sabe?
— Porque não são verdades.
— Não. Sabe por que discutimos quando apareceu no hospital?
— Porque estava magoada.
— Também não. Sabe por que me incomoda tanto saber que você teve tantas mulheres e uma delas é apaixonada por você?
— Acredito que eu saiba.
Seus olhos parearam com os meus e, ela, mais calma me conta:
— Porque acho que eu te amo.
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