For the love of her
9 O pior já passou
Notas iniciais
Levo Emma para um restaurante relativamente chique na enseada, em uma região cara da cidade. Dessa vez está usando um vestido chinês de uma cor indefinida entre o vermelho e o laranja, e que marca seu corpo de um maneira incrível. Não há preocupações em relação ao comportamento dela, pois sei que Emma foi bem educada e sabe como lidar com lugares como esse restaurante. Talvez Emma seja mais educada do que eu em alguns aspectos, e é exatamente o que passo a prestar atenção quando iniciamos a conversa enquanto o jantar não chega. Emma não está preocupada com nada, não está dispersa ou descontente, ela está muito feliz de um jeito que me inveja. Ela fala sobre seus planos para o futuro, sobre um trabalho que quer pegar na 11ª avenida e sobre o que pode fazer quando estiver formada. Estou prestando atenção em tudo, confirmando com a cabeça suas palavras mais positivas e sorrindo nos intervalos que ela faz a cada garfada do prato dela e do suco de abacaxi.
Há uma hora estou admirando aquela mulher completamente diferente da que eu conheci num cassino meses atrás. Essa mulher com quem converso é bonita, inteligente, alegre e decidida. É como se uma aura estivesse pairando sobre ela e eu estivesse ali para testemunhar. O fato é que eu não consigo parar de olhar para Emma, é ela quem diz ao garçom o que vamos beber, é ela que diz o que vamos comer de sobremesa, eu apenas confirmo com a cabeça e um “sim” contundente em seguida. Mas, uma hora, essa estratégia não planejada de ficar calada e ouvindo não funciona e ela para a fim de questionar qual é a minha, pois é um pouco estranho se parar para pensar que depois de um abraço contente nos beijamos no meio da sala e em seguida a convido para sair comigo. Posso entender esse pequeno conflito na cabeça dela.
— Até agora você não falou nada sobre o seu dia, ficou aí me ouvindo falar o tempo todo. Desculpa, eu estou animada com essa coisa de voltar a estudar, não parece, mas eu gosto de estudar. Bem, fala alguma coisa, para de ficar me olhando assim, você quer que eu me apaixone ainda mais por você? Droga, você fica linda assim!
— Estou deixando que fale, nunca te vi tão feliz e admiro essa empolgação. Meu dia foi como qualquer outro, escritório, tribunal, documentos, reuniões... a minha vida não muda.
— Não muda porque você não quer, pelo menos nesse quesito. Em casa você com certeza é outra.
Sorrio beliscando os restos da salada no meu prato.
— Em relação a minha vida particular eu acho que ela realmente anda de cabeça para baixo, mas não vou reclamar, acho que foi preciso ela mudar para que eu começasse a pensar diferente.
— Também sinto que mudei desde que me levou para o apartamento. Obrigada por estar me dando essa força, ninguém faria algo desse tipo por mim. Eu sei que você me enxerga apenas como uma hóspede com quem você dorme, porém não sabe o tamanho da gratidão que vou levar pelo resto da minha vida.
— Agradeça apenas quando tiver certeza de que está dando tudo certo.
— Eu já tenho essa certeza. — ela sorri e nossas sobremesas chegam. — Me fala mais de você, da sua vida. Hum? — ela pede deslizando a colherzinha de doce nos lábios, sem malicia, mas delicada.
— O que exatamente quer saber? — mantenho os olhos nos dela, é jogo de paciência, um teste de timidez para ver quem para de encarar primeiro, mas não estou disposta a perder, pelo menos não desse jeito. A verdade é que desejo me perder sim, dentro dos olhos dela.
— Como soube que era lésbica?
— Se quer mesmo saber disso, acho que eu me descobri gostando de mulheres quando terminei a faculdade.
— Só isso? E não teve ninguém antes? Uns namorados? Você tem cara de quem saía com um toda semana, depois experimentou fazer isso com mulheres.
— Na realidade eu só estive com um homem em toda minha vida, o cara que me ensinou tudo o que eu sei. — Me incomoda falar sobre o homem por quem um dia me apaixonei perdidamente. Existia uma marca, pequena cicatriz dentro de mim que doía a cada vez que eu lembrasse como aquilo terminara e do tempo que eu havia perdido com a frustração de um noivado jogado fora. — Não deu certo.
— Por que não?
— Porque não era para ser.
— Não é assim, para terminar tem que ter um motivo. — ela insiste.
— Nesse caso eu não lembro qual foi o motivo.
— Escuta aqui, será que dá pra parar de fazer mistério? Eu não vou ficar cutucando na sua vida até que me conte. E essa sua rebeldia em guardar seu passado não vai me afastar mais de você, só me atrai.
— Okay, Emma, esse relacionamento não foi algo do qual eu me orgulho, por essa razão eu não gosto de lembrar.
— Ah, está explicado. — ela se mexe na cadeira e toca minha mão por cima da mesa. — Desculpa.
— Tudo bem, vai. Esquece. Vamos pra casa?
Emma parece abrir mão da vitória no jogo de me encarar e desvia o olhar para o prato de sobremesa vazio. Concorda que devemos ir embora.
Deixamos o restaurante e andamos alguns metros pelo porto, observando as luzes da cidade do outro lado da baía. Subitamente calada desde a hora em que saímos do restaurante, Emma se vira para mim e me espera parar junto dela.
— Preciso confessar que alguns dias antes de você aparecer no cassino, um cara me trouxe aqui de carro. A gente ficou tão chapados que eu nem me lembro do que rolou direito.
— Por que está pensando nisso?
— Foi só uma lembrança... Ruim. — ela abraça os próprios braços e olha a água. — Eu sinto falta, só um pouco, sinto falta de esquecer que estou viva por algumas horas e de achar graça de tudo depois. É idiota, não é? Só espero que eu não estrague meus planos se em algum momento ficar insuportável não usar mais baseado.
— Já faz um tempo. Você parou de fumar de um dia para o outro. — coloco as mãos nos bolsos do terno e acompanho ela olhando o mar.
— A única coisa que tem me segurado é, sei lá, você. As noites que tenho passado na sua cama, antes disso era pior porque eu me sentia ansiosa e tinha que distrair a minha cabeça arrumando a casa, fazendo o jantar, daí você e eu tivemos aquele lance e foi repetindo e repetindo...
— Podemos dar um tempo se preferir.
— Não, jamais quis dizer isso, eu quero sim continuar deitando na sua cama, é que de vez em quando a gente não precisa transar pra que eu esqueça os cigarros, entende? Aconteceu algumas vezes e foi tão bom quanto dar pra você.
O jeito como Emma resolve falar sem censura ainda me surpreende. Nem parece que é uma moça tão bonita dizendo palavras sugestivas. Apesar disso, ainda admiro sua espontaneidade e transparência. Ela não é muito meiga, embora pareça. Ela não se acanha, embora core de vez em quando. Particularidades que tem instigado nosso convívio.
— É, percebi que você gosta de falar desde a primeira vez em que te vi.
— Posso dar um tempo se preferir. — ela repete minha sugestão anterior e sorrio sem esconder a graça que acho disso. — Meu Deus, já te disse o quanto você é bonita hoje?
— Já. — olho para ela ao meu lado.
— Antes eu achava que era a maquiagem, o perfume, mas agora eu sei que é o seu jeito. — ela para e me observa. — Até entendo como conseguiu convencer tanta gente a dormir com você.
— Será que foi o meu jeito que convenceu você a vir morar comigo?
Ela cruza os braços, me olha ainda e pensa. Sei que está se questionando, ela não quer responder por impulso como eu faria e como acabo de perguntar, ela quer ser sincera.
— Foi sim, foi por causa do seu jeito. Não estou arrependida de ter ido com você, porque eu não teria outra chance igual.
Ficamos nos olhando por incontáveis segundos, até que uma garoa começa a descer e decido leva-la embora de uma vez para o apartamento. Ela abraça os braços nus e, eu, muito gentilmente, ofereço meu terno para ela vestir. Emma aceita e vamos embora em silêncio, caminhando lado a lado vagarosamente para o estacionamento.
Nessa noite não houve sexo, talvez não houvesse clima para tal e então só trocamos de roupa e deitamos. Emma dormiu rápido enquanto eu escolhi ler um livro jurídico até o sono chegar.
Acordo cedo no dia seguinte, mas não tão cedo quanto Emma que madruga para fazer um café da manhã e ir para o primeiro dia de aula da faculdade. Ela está na cozinha fritando ovos quando eu apareço de cara amassada, cabelos desgrenhados e visão embaçada, o sono tinha sido bom e meu rosto chegava a ter cicatrizes de travesseiro marcadas nele. Emma não toma um susto ao me ver, é surpreendida com a frigideira na mão e ri ao ver o estrago do sono no meu rosto.
— De pé tão cedo, caiu da cama?
— Não, hoje é meu primeiro dia de aula na faculdade, preciso acordar cedo de hoje em diante porque fica do outro lado da cidade.
— Hum, é verdade. Se quer pegar os metrôs vazios tem que ir cedo. Posso te dar uma carona até a estação. — me sento em um banco de frente para a cozinha.
— Ah, eu vou aceitar. — diz ela, preparando um prato com ovos mexidos e presunto. — Olha, o café tá pronto, eu já andei beliscando alguma coisa, só vou pegar minha mochila e te espero. Quanto tempo acha que vai demorar se arrumando?
— Não sei, não devo demorar. Escuta, você não acha que está ansiosa demais, não?
Ela para no meio do caminho do corredor e me fita como se eu acabasse de dar uma bronca nela.
— Não devo estar?
Coço os olhos com as pontas dos dedos e respondo:
— Só relaxe um pouco, está muito elétrica desde que se matriculou. Te aconselho não se empolgar muito com a faculdade, você pode acabar se decepcionando.
Ouço sua risada leve, Emma coloca os cabelos para trás das orelhas e mexe a cabeça.
— Não me conhece mesmo, né? Eu sou muito ansiosa, sou uma pilha de nervos e não sei ser de outro jeito. Nem adianta me pedir para relaxar, porque as únicas vezes em que eu estive calma na vida foram vezes em que eu estive chapada.
Da mesma forma que disse, saiu de perto indo até o quarto de hóspedes arrumar o material na mochila. Então Emma sabia me enganar muito bem, pois às vezes eu jurava que ela era a pessoa mais calma do mundo. Para lidar comigo é preciso ter calma, o que será que ela pensava?
Emma então passa a ir a faculdade todos os dias, sem faltas, por um mês inteiro. A distância entre sua universidade e Upper East Side toma uma hora dos seus dias na ida e na volta para o apartamento e é um motivo bastante convincente para ela chegar exausta e sempre pouco depois de mim em casa. Conversamos pouco até hoje sobre as matérias que ela cursa, porém o pouco que sei é que ela adora História da Gastronomia e passa todo jantar me contando o que aprendeu; Em qual lugar uma comida foi feita pela primeira vez, onde inventaram tal prato ou quem foi o primeiro mestre cozinheiro do mundo, mas com certeza a matéria reserva perguntas muito mais complexas que essas pequenas curiosidades e Emma especula muito sem deixar de estudar. Descubro que ela é dedicada, muito comprometida vendo ela ler os livros da faculdade antes de dormirmos todos os dias que se seguem.
Nos sobra tempo para falar sobre seus outros planos, encostar ela no meu ombro e fazer tranças em seu cabelo, mas Emma está mais interessada em ler virada de bruços na cama, com as pernas para o alto e os pés pendendo assim como uma colegial. Eu quase nunca tenho paciência para esperar que ela se vire e me diga o que acabou de ver, então desisto rápido e durmo, acordando sempre na manhã seguinte com o cheiro, ou dos waffles ou das experiências dela na cozinha. Logo passo de primeira para segunda paixão de Emma. Fica evidente que ter voltado a estudar fez um enorme bem para ela. Mas desconfio que eu já nem seja mais sua segunda paixão ao que ela começa a recusar minhas caronas até a estação do metrô.
— Hoje você não precisa me dar carona, vai te tirar muito do seu caminho. — diz, se levantando da bancada e pegando uma maçã na geladeira para ir comendo. — Tenho com quem ir e chegarei ainda mais cedo.
— Emma, você sabe que não é problema algum te levar até a estação.
— Eu tenho um amigo que mora aqui perto, ele tem me oferecido caronas na moto dele. — Emma atravessa da cozinha para a sala e puxa sua mochila para as costas.
— Um amigo? Sei. — me levanto e limpo a boca, pensando nesse “amigo” de Emma. É muito cedo para ela fazer amizades. Sei que isso soa como ciúmes, embora exista uma pontada de desconfiança toda vez que Emma usa apalavra amigo para se referir a alguém que conheceu outro dia. — Tem certeza de que pode confiar nesse cara?
— Ele estuda comigo, só está querendo ser gentil. — ela dá de ombros e sai do apartamento sem me dar bom dia, sem me beijar o rosto como fazemos ao nos despedirmos todos os dias.
Minhas desconfianças crescem quando ela passa a demorar a voltar e nossas conversas se reduzem aos pedidos dela de “Me beija” ou “Me fode agora” depois que chega em casa e larga suas coisas no sofá para pular no meu colo e me obrigar a ir ao quarto. É como se ela estivesse mole, dopada, insana, e não me diz nada, nada que eu possa identificar como errado. Emma não tem o cheiro da maconha, não está tão louca quanto a cocaína deixaria e o fato de ainda transar com ela me ludibria por algumas noites. Emma parece querer acordar, sair, voltar, dormir comigo sem precisar me dar satisfações. Também não peço, não exijo que ela me diga o que está havendo, porém sei que alguma coisa não está certa.
Em uma dessas noites malucas, carrego Emma para o banheiro e tomamos banho juntas. Acontece muito rápido de eu encostá-la na parede fria e colocá-la nos meus ombros para beijar seu sexo à vontade. Ela urra, geme, me aperta os cabelos molhados, mas não gosto como todos os seus movimentos parecem fingidos. Devolvo ela ao chão e desligo a ducha, buscando a toalha para sair dali de dentro.
— Que foi? Quantas vezes pedi para não parar o que estava fazendo?
— Você não quer, está nesse box comigo por obrigação. — enrolo a toalha no meu corpo e saio. Emma vem atrás de mim, nua, molhada, ansiosa.
— Não. Volta, Regina, não é isso.
— Então o que é? Se não queria fazer nada podia ter avisado.
Suas mãos me seguram e ela implora com os olhos.
— Você não entende. — ofegou — Eu preciso disso, preciso do seu corpo no meu, da sua boca, do seu cheiro — Não dizia coisa com coisa, me tocava, me puxava, tentava derrubar a toalha do meu corpo, queria a todo custo me beijar, não era possível compreender.
— Essa não é a primeira vez que age desse jeito, ontem foi a mesma, o que está acontecendo? Parece que vive em outro mundo.
— Sou viciada em você, não quero outra coisa.
— Anda muito esquisita, Emma. Pode me soltar, por favor?
— Me perdoa — ela implora caindo ao pé da cama, treme de frio, sua boca está roxa, as pupilas dilatadas. Sua expressão me assusta de repente. — Você tem sido a única saída, não quero cair na tentação.
— Do que é que está falando?
Ela não responde e se encolhe, agarra as próprias pernas e engole um choro, reprimindo algum sentimento dentro dela.
Levo um tempo para entender que o que provavelmente aconteceu foi uma crise de abstinência. Emma está há muitos dias longe das drogas, incluindo o mais simples dos cigarros. Sua cabeça começa a funcionar contra si e coloca pensamentos perturbadores no lugar da dopamina que ela precisa. Tenho servido de distração ou, ainda melhor, remédio para ela burlar a vontade de se drogar, eu e o sexo que ela propõe a mim todos esses dias.
Envolvo Emma em um roupão seco e ergo ela no colo. É a primeira vez que lido com uma crise, com Emma meio consciente, meio afetada por medo e ansiedade. Tem sido um grande esforço para ela se ver longe de tudo o que usava, mas hoje finalmente me dou conta do quanto ela deve sofrer internamente por ter escolhido parar. Até mesmo parar era uma escolha difícil, ela sempre soube que uma hora sentiria a necessidade de colocar os cigarros na boca e cheirar até o nariz queimar, os olhos revirarem e ela ver o mundo de ponta cabeça. Emma está tendo alucinações, reações estranhas esses dias todos e só me revela agora com a crise. Seu corpo está frio, ela treme enquanto a cubro e lhe ofereço água. Ela só funga, me olha com suas pupilas dilatadas ainda, parece com medo até mesmo de mim.
— Não quero voltar a usar, mas eu preciso.
— Não, Emma, você não precisa mais disso. — deito ela na cama depois de um tempo, ela adormece mais tarde.
Na manhã seguinte, sou eu quem acordo cedo e faço o café. A loira aparece desconfiada de que algo aconteceu na noite anterior, não se lembra de nada.
— Por que eu acordei nua de baixo do edredom? A gente... ontem?
Pelo visto a perda de memória era um sintoma da crise.
— É, no banheiro. Você teve uma reação estranha depois, não tá lembrada? — eu resolvo me aproximar com as mãos no bolso do roupão.
Emma mexe a cabeça negativamente.
— Não lembro de nada. — confusa ela afasta os cabelos do rosto com ambas as mãos e me olha assustada. — O que foi que eu fiz?
— Acho que teve uma crise. Você tremia, não dizia coisas coerentes e ficou branca como um papel. Quando te coloquei na cama você dormiu e foi a noite toda, estive atenta a você.
Com os olhos arregalados, Emma se assustou ainda mais com o que eu contava. Chegou à conclusão de que não testemunhou a primeira crise de abstinência, não ia se lembrar nunca, tão cedo. Ficou envergonhada, muito mais do que eu poderia supor que ficaria, então ela desceu do banco da cozinha e correu para dentro. Quando voltou, pronta para ir a faculdade, pegou uma maçã e foi comendo apressada para não perder o horário em seguida.
— Não vai se alimentar? Depois do que aconteceu parece conveniente que você coma pelo menos um pouco, Emma.
— Meu estômago está muito embrulhado, não consigo nem pensar no gosto das coisas. Essa maçã vai me segurar por enquanto. — Emma está prestes a sair do apartamento. — Bem, eu já vou, o August tá vindo por aí e não quero fazer ele esperar.
— Emma, posso pedir para que não pegue mais carona com esse cara?
Vira o rosto para mim depressa, antes de abrir a porta principal.
— O que tem o August? Ele é meu amigo. — fala de forma agressiva e extremamente irritante.
— Não confio nele.
— E só porque você não confia vai me proibir de andar com ele? Já sei o que é isso, chama-se ciúmes. — ela debocha.
— Tenho bons motivos para acreditar que você anda mudada desde o dia em que resolveu aceitar caronas desse homem. Pode tentar me convencer de todas as maneiras, mas seu amigo ele não é. O que vocês dois têm feito juntos? — resolvo confrontá-la.
— Não é da sua conta. — ela rebate, agressiva.
— Então estão fazendo algo juntos?
— Não interessa, eu não vou fazer o que você quer, não vou ser controlada por você. A gente não tem nada, você não é minha dona e nem se sinta só porque eu moro no seu apê.
Minhas mãos vão parar na cintura e questiono o comportamento arredio de Emma, sem saber se ele é um resquício da crise.
— Emma, o que é que está acontecendo?
De repente, confusa, ela me olha, está nervosa e não quer responder. Emma me esconde algo e não quer contar enquanto não se sentir bem para isso, e, ao que entendo isso envolve August, esse amigo que ela fez na faculdade, por essa razão ela se enfurece com meu pedido.
Não adiantou pedir que se afastasse dele, vejo pela sacada, por cima, Emma atravessando a rua e subindo na moto do tal amigo. Apesar de eu estar longe, consigo enxergar os trajes rústicos do rapaz quando ele coloca o capacete e entrega outro a ela e a Harley que ele pilota. Não gosto nada da forma como eles parecem escapar pela rua e ela se agarrando nas costas dele. Emma está certa, isso chama-se ciúmes. É a primeira vez que sinto algo tão negativo ao olhar para um homem e considera-lo um rival. Por que estou preocupada com ele? Emma falou a verdade, somos nada uma da outra, não tenho direito de exigir algo dela. Mas não, há alguma coisa errada com Emma desde que esse cara ofereceu caronas até a faculdade. Que eu não esteja me deixando levar por esse ciúme idiota.
No começo da tarde estou tendo dificuldade para entender uma citação em uma causa que me designam na firma. É quase impossível parar de pensar na reação de Emma mais cedo e sua crise na noite anterior. Me assusta a forma como ela se esquecera rápido do seu surto, mais ainda a forma como se referia a August. Eu me odiava por imaginar os dois juntos, mas a minha desconfiança era outra e me preocupava tanto quanto ou mais.
Belle bate e abre a porta do escritório me libertando da tortura de pensar em Emma o tempo inteiro e não me concentrar no que devo.
— Há uma mulher aí fora dizendo que te conhece. Falou que se chama Emma.
Me levanto da cadeira sem acreditar no que eu estava acabando de ouvir.
— Tem certeza?
— Absoluta. Deixo entrar?
— Lógico.
Belle olha para trás e abre a porta inteira para Emma se aproximar e a loira vem com a mochila pendurada a direita e cara de arrependimento, os olhos enormes, brilhantes, a boca trêmula.
— Oi. Desculpa aparecer assim e aqui. — ela balança os cabelos que caem nos ombros enquanto fala. — Achei esse endereço em um dos seus cartões.
Minha secretária nos deixa a sós e vejo Emma pouco à vontade, olhando para os lados, receosa para falar.
— A essa hora você não devia estar na universidade? — me aproximo.
— Sim, é que o que aconteceu ontem... Lembrei de tudo. — Ela deixa a mochila sobre o pequeno sofá ao seu lado e se senta, esperando que eu faça o mesmo. — Tenho uma coisa para contar e não vou sossegar enquanto não te disser, porque não é justo esconder o que eu ando fazendo da única pessoa que quer me ver bem. — ela enfia os dedos pelos cabelos no alto da cabeça e esconde o rosto de mim, apoiando os cotovelos nas coxas sobre a calça jeans.
A minha mania de colocar as mãos nos bolsos não me polpa de novo. Fico olhando para Emma, esperando que ela fale, sem julgá-la.
— Acalme-se, Emma. O pior já passou.
— Eu sei, e é por isso que eu vim aqui te falar que eu estou sendo injusta com você. — ela ergue os olhos para mim, sua voz embarga. — Tem droga no apartamento. Estou escondendo droga no seu apartamento.
— Como é que é?!
— É isso que você ouviu, é isso que eu estava escondendo. Aquelas porcarias são do August, ele me pediu pra guardar em troca das caronas. Achei que ia tirar proveito disso arranjando um pacote ou outro de baseado. — ela fala, tensa, descontrolada, gesticulando muito.
— Minha nossa, Emma, você só pode estar brincando! — ando pela sala, minhas mãos alternam entre a cintura e os meus lábios. Aquilo me pegara desprevenida.
— É verdade, eu estou escondendo tudo na descarga do banheiro, em breve nem vai ter mais espaço se eu continuar deixando lá. Pedi pro August parar, não quero mais guardar nada dele.
— O cara é um traficante e você se meteu com ele por interesse.
— Desculpa! Desculpe, eu te imploro! Não me expulsa, eu não quero voltar pra rua. — ela estava a um grito do choro, tudo dependia das minhas palavras a atitudes.
Seria covardia colocar Emma para fora, sinceramente eu jamais faria isso se soubesse que ela só teve a vontade, mas não ousou usar qualquer coisa que estivesse ao seu alcance. Ouço seu choro, quando ela funga e seca o rosto. Me viro aos poucos e vejo a decepção consigo mesma estampada nela.
— Eu sou um lixo de ser humano. Por que foi confiar em mim? Uma hora eu ia estragar tudo. — ela se fechou em seu casulo de novo, se encolheu e chorou baixinho. — É como se essa vida me perseguisse. Se tento ficar longe da droga ela dá um jeito de aparecer na minha mão, de graça, prontinha pra ser usada. E eu esse lixo sempre aceito que vou superar uma tragada ou duas de vez em quando, que se tiver pelo menos um pouco comigo talvez eu desista. E aí vem aquela vontade, a tentação de saber que ela tá perto de mim e eu posso pegar e usar até morrer. Quando estou bem, justamente quando tudo está dando certo resolvo deixar essa merda voltar a me atormentar.
Ando até a porta e abro, pedindo para Belle trazer um copo d’água.
— Emma, veja bem, está arrependida e quer consertar o seu erro. Não se condene, não faz bem. — coloco o copo na mão dela e dispenso a secretária. A loira levanta os olhos úmidos para mim e aceita se acalmar. — E não se preocupe, não vou colocá-la para fora do apartamento.
— Jura? — pergunta depois de beber.
— Juro. Mas eu te avisei sobre esse homem, eu sabia que havia alguma coisa errada com ele.
— Era isso. Desculpa. Vou jogar tudo fora hoje mesmo.
— Acalme-se, a gente dá um jeito de se livrar disso, só me dá a certeza de que nunca mais vai falar com esse August, não vai aceitar mais nada dele.
— Não, de jeito nenhum, vou denunciar ele pra polícia.
— Deixa que eu faço isso com calma, de forma discreta para não pensarem que foi você e que tem alguma relação com os pacotes dele.
Emma concordou.
Com ela mais calma, resolvo leva-la ao apartamento para que me mostre onde escondeu os pacotes de droga e está tudo intacto na descarga do banheiro no quarto de hóspedes como ela disse antes. Pegamos tudo com luvas e embrulho em um saco de papel grosso de modo que fique pesado o suficiente para afundar no mar. Minha ideia é a de jogar toda a causa da desgraça de Emma no mar do porto, naquele espaço quase deserto por onde andamos dias atrás. Certas horas do dia não se vê ninguém por perto na região, o que leva a crer que é um lugar perigoso para se andar, então tínhamos que ser rápidas.
Levei Emma comigo, era fim de tarde e caminhamos juntas até uma das beiradas do porto. O barco mais próximo estava a mais de trinta metros de nós. Ela checa para ver se não há ninguém olhando e confirma que estamos sozinhas. Uso toda minha força para arremessar o saco com toda a droga dentro e ele voa parar longe, caindo obscenamente dentro do mar e do jeito que caiu não volta.
Emma solta um suspiro de alívio, sem que pense me abraça atrapalhada e me beija o rosto com força.
— Obrigada.
Aquela voz faz meu coração acelerar e preciso do abraço dela para me recompor.
— Tudo bem, Emma, o pior já passou.
— A crise que eu senti, tudo aquilo foi culpa dessa ideia idiota de aceitar guardar a droga. Eu estava tão pilhada, eu queria usar e não devia, sabia que não podia te trair. — ela falou agarrada em mim.
— Você não usou porque não queria se trair, meu bem. Não foi por mim, foi por você.
— Toda vez que eu pedia para deitar comigo eu estava querendo esquecer o que eu fiz. Desculpa... Desculpa.
— Acabou, Emma, você não vai mais fazer nada desse tipo.
— Me protege, fica comigo... Eu te amo. — Quando ela diz, meu coração se aperta, é uma dor ruim e ao mesmo tempo boa de sentir. Emma é a primeira pessoa a me dizer essas palavras, mas sou orgulhosa demais para aceitar e ela reconhece nos meus olhos. — Não precisa responder, eu sei que você ainda vai me amar tanto quanto eu te amo, um dia vai.
Eu não devia, mas respondo Emma com um beijo que resume a sensação daquele instante. Encosto a boca na dela e é fácil, muito simples, outra vez sem malícia qualquer, apenas sentimento. Línguas se unindo e roçando, mordidinhas de leve, ela borrando meu batom e me dando aquela boca, lutando com sua língua por espaço. Se o que ela pensa sobre eu amá-la é verdade, não quero saber, quero ver até onde vamos parar ali, agora.
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