For the love of her
10 Fora de controle
Notas iniciais
Emma está contando sua história de vida para mim mais uma vez em uma noite, do meu lado, deitada na cama, mirando o teto. Estamos conversando há umas duas horas, esperando os pés esquentarem debaixo do lençol, e, a propósito, é a única parte dos nossos corpos que se roçam. Dessa vez devagar, manhosamente, sem intenções de subirem e as pernas entrelaçarem. Durante nossa conversa ela não menciona nada sobre as drogas que jogamos fora no píer há duas semanas. Respeito o silêncio dela sobre o assunto e a provável vergonha que ela sente por quase ter sofrido uma recaída.
Claro, sempre existe o meu medo dela acabar caindo nas graças de algum traficante da faculdade que cursa como quase caiu, mas agora ela parecia saber como agir, e estava bem consigo mesma, vivendo o que havia prometido a si mesma desde que voltou a estudar. Curiosamente não havia mais aquele sorriso ou gargalhadas quando contava como arranjava os baseados ou como era dormir nos quartos imundos de pensões espalhadas pela cidade. Emma não tinha mais orgulho em dizer que já dormira sobre um pedaço de papelão em um beco de China Town e nem da vez em que suspeitava ter sido abusada enquanto desmaiada no chão do banheiro de um bar em SoHo. Por mais exageradas que suas narrações parecessem, todas elas tinham um fundo de verdade ou eram totalmente reais demais para que eu acreditasse. Por isso então que talvez fosse tão complicado aceitar o que estava acontecendo entre nós duas além do meu ato de generosidade.
É curioso que ela use o tempo no passado: “Quando eu fumava um pacote de baseado por dia.” Tudo parece ter acontecido há muito tempo para ela, quando na realidade só poucos meses tinham se passado.
Para mim três meses não eram nada antes dela chegar, agora, de fato, se resumem em uma eternidade. Eu acho que nunca vivi tão intensamente em tão poucos meses. Não falo de sexo, das noites com ela, dos beijos que trocamos às vezes em horas não programadas do dia ou da transa debaixo do chuveiro e depois na cama, mas de tudo o que aconteceu comigo desde então. Há uma companhia para ouvir, há uma mulher me ofertando carinho, alguém que me convence todos os dias que desejos carnais são meros traços de um ego perturbado e ferido. Mas eu ainda digo que não amo ela como ela me ama. Não pode ser que em tão pouco tempo ela tenha me amado, não acredito na questão do amor à primeira vista e, no entanto, como num passe de mágica estou crendo em coisas que antes eram absurdos ao meu ver. É tudo muito distinto do que eu imaginava a essa altura da minha vida, assim como eu imaginava Emma indo embora desse apartamento dois dias depois de ter chegado, porque não aguentaria ficar sem tragar nada.
A história de Emma acaba e o silêncio reina. Ela não me pede opinião, se vira e apaga o abajur ao seu lado para tentar dormir. Levo mais algum tempo pensando, tentando cair no sono quando ouço seu choro baixinho. Emma está profundamente arrependida do que fez e talvez a dor de se lembrar dos maus bocados que passou seja muito para ela naquele momento de luta incessante para não procurar mais problemas. O choro baixo se torna audível demais e ela treme, funga, cobre o rosto e o abafa com o travesseiro, mas estamos acostumadas a abraços e decido acolhê-la comigo me virando na cama e envolvendo suas costas com meu corpo. A prendo em mim, passando um braço por baixo do dela, outro como apoio para seu pescoço por baixo do travesseiro onde ela pode chorar sem medo. Tento acalmá-la apertando-a, mas ela precisa chorar, libertar o que de ruim ela está sentindo. Acho que essa é mais uma das fazes da abstinência e tentando entender eu começo a pensar no que falar.
— Está tudo bem, Emma, eu estou aqui com você.
— Só gostaria que isso acabasse. O que eu fiz da minha vida? Não me orgulho de nada do que fiz, de nada do que sou capaz... Eu quero morrer.
— Não diga coisas assim. Este é apenas um princípio, uma nova chance. Reconhecendo seus erros você sabe que é capaz de mudar. Sabe que vale a pena ser diferente, por você, pelo futuro.
— Eu não sei, eu não quero mais pensar no futuro, eu quero parar por aqui, estou com medo de continuar.
— Eu quero que continue, e quando você fraquejar não vai estar sozinha.
Não entendo como minhas palavras de incentivo surgem, estou fora de controle. Mas isso acalma Emma e o choro acaba resumido em soluços que enfim cessam após sentir seu coração mais confortável. Ela adormece agarrada ao meu braço e espero o momento certo para fazer o mesmo. Porém, se não tomarmos uma providência, Emma vai repetir as mesmas palavras de desespero sobre ter medo do futuro e que deseja morrer. Sendo seu suporte, acho que tenho a obrigação de encontrar um estímulo, um tratamento para que a nova realidade não assuste mais Emma e ela consiga seguir seu caminho por conta própria. Por mais que eu diga o quanto me preocupo com ela e o quanto desejo ajuda-la, acho que não serei a única fonte de recuperação dessa mulher.
O grande medo de Emma no começo era parar em uma clínica de reabilitação, o que julgo ser o mais correto para alguém com os vícios dela. Mas Emma não quer se ver aprisionada em um lugar onde precisa tratar de seu problema como se fosse uma obrigação. Começo a imaginar uma solução externa para ela e felizmente a resposta está mais perto do que conseguia me lembrar anteriormente.
Mais tarde naquela semana, presenciando as crises de choro de Emma todas as noites, tomo uma decisão e procuro um velho amigo, se assim posso chama-lo. Meu ex terapeuta me atende numa tarde de quarta-feira em que escapo mais cedo da firma, em um horário apertado que ele encontra na agenda para me receber. Conversamos, falo brevemente o que está acontecendo e pela cara que faz, o dr. Gold resolve me questionar com poucas palavras.
— Levou uma mulher desconhecida para viver com você sem motivo qualquer, de repente, assim?
— Sei que parece a decisão mais inusitada possível, mas ela não tinha para onde ir, Gold. — Prefiro ficar de pé olhando a rua da janela enquanto ele em sua confortável poltrona de médico, junta as mãos sobre o colo e fala como quem sorri ao mesmo tempo.
— Regina, em Nova York existe cerca de sessenta mil pessoas na mesma situação em que essa mulher se encontrava. Há algo muito maior que te fez leva-la para casa. Bem, isso não se trata pelo fato dela ser filha dos seus clientes, dos pais desesperados que me descreveu, mas do fato de talvez ela ter sido muito espontânea ao se referir a vida que levava. Provavelmente Emma tenha atingido algum ponto onde você esteve vulnerável por todo esse tempo em que se separou e viveu frustrada. Ainda me recordo quando teve suas crises e passou quase um ano frequentando o consultório do meu amigo Sidney aqui ao lado. — ele diz com a voz sempre suave e cordial.
— Por que temos que envolver o meu passado nisso? Emma apareceu, eu tive pena e pronto. Não quero ajuda, eu sei onde estou me enfiando e não tem volta. Quero trazê-la para conversar com o senhor qualquer dia desses, ela precisa de um tipo de ajuda que somente eu não consigo oferecer. — algumas lembranças de outros tempos me atormentam e não me viro até eu me acalmar e meus olhos não entregarem minha emoção.
— Você pode trazê-la sempre as quartas nesse horário, é o dia e a hora que tenho vaga durante a tarde. Mas converse com ela e pergunte se você pode estar junto quando ela começar a falar comigo.
— E por que devo fazer isso? — o olho por cima do ombro.
— Porque além dela, com certeza, você precisa colocar alguns demônios para fora.
Me viro para ele finalmente. Minhas mãos completamente suadas estão enfiadas nos bolsos da calça.
— O meu assunto está encerrado, eu estou curada da depressão, da culpa, do ódio.
— Isso é o que você acredita, mas não o que está me mostrando. Veja bem, Regina, essa moça está tentando ajuda-la sem que saiba. Tê-la levado para casa pode ser uma prova desesperada da sua busca por ajuda da mesma forma. Me diga uma coisa, o que sente por ela além de atração sexual e pena?
— Nada, não sei.
— Você parece saber, só não deseja admitir nesse momento. A quem quer esconder? Depois de tudo o que fez por ela, a quem está devendo? Comece a refletir e veja o quão tola é sua decisão de se bloquear para os sentimentos dela.
Meneando a cabeça, suspiro, nada do que Gold diz pode ser sério.
— Ela não tem nada a ver com a minha vida.
— Você gosta dessa moça, você a ama. Em meia hora conversando comigo as pistas ficaram muito claras, minha querida. Só você não admite que pensa nela o tempo inteiro. A sua preocupação não aconteceu de repente.
Passo uma mão pelos meus cabelos e nego tudo o que ele diz. Levanto meus olhos, o vejo me observar com cautela.
— Podemos fazer assim então? Todas as quartas nesse horário?
Ele demora, mas responde positivamente.
— Sim. Avise que espero por ela na próxima quarta e que tudo o que ela disser não sai dessa sala. Você está convidada para acompanhar se ela permitir.
— Está bem. Obrigada pelo seu tempo. — Me dirijo até a porta da sala, mas ele não havia terminado.
— Regina... Está na hora de encerrar o velho ciclo, é importante deixar certas coisas irem embora. Desprenda-se do sofrimento que quer consumir sua alma por algo que deu errado no passado.
Ouço ele, mas não me sinto capaz de responder e apenas abro a porta por conta própria, saindo do consultório com pressa.
Me sinto profundamente incomodada pelo o que acabo de ouvir do meu terapeuta e me arrependo de ter falado de Emma com tanta ênfase. Mas, isso também é algo fora do meu controle, como se eu não pudesse controlar o fato dela fazer parte da minha rotina e representar o fim dos meus dias, minhas noites incomuns e até meus sorrisos. Acho que agora é compreensível que não apenas meu terapeuta sabe sobre ela, mas todos que convivem comigo. Desde o dia em que Emma esteve na firma, Belle, a secretária que acompanha minhas rotinas, não questiona as saídas que faço antes da hora exata de ir embora. Meus colegas de elevador, os novatos com quem converso diariamente também já notaram as olheiras que se instauraram sob os meus olhos, mas ninguém é capaz de perguntar se tenho alguém, se ainda vivo saindo todo final de semana para caçar modelos ou se essas olheiras são de passar algumas horas preciosas velando o sono às vezes perturbador da loira que dorme comigo.
Quando volto para casa, Emma já está lá, cuidando da janta, ouvindo música pela televisão estacionada em um canal de clipes. Ela não precisa mais do livro de receitas da Martha Stewart e parece muito concentrada no que está fazendo, pois nem percebe que cheguei. Isso me dá tempo o suficiente para tirar meu blazer, guardar a pasta no escritório, voltar a cozinha e cruzar meus braços apoiada na parede da porta. Emma só me percebe quando vira e toma um susto.
— Oh, meu Deus... Regina! Que susto! Há quanto tempo está aí?
— Um minuto inteiro, mas cheguei há uns dez.
Ela sorri e desliga o forno.
— Que bom que veio logo para casa. — Emma apanha um pano de prato e seca as mãos nele. — Aconteceu uma coisa hoje que me deixou um pouco preocupada, preciso falar com você.
— Por um acaso isso tem a ver com você ter chegado mais cedo da faculdade? — me aproximo com minha mania de pôr as mãos nos bolsos da calça.
— Não, não... É que às quartas não tenho a última aula então sobra um horário para vir embora mais cedo.
— Hum, é bom saber disso. E o que houve?
— Vamos jantar primeiro, depois eu conto.
Jantar servido, Emma não fala nada até terminar e ir lavar a louça, então decido não comentar nada sobre o terapeuta enquanto ela não me contar o que quer. Ajudo ela com a louça e enquanto arrumamos tudo ela conta o que precisa.
— Meus pais foram me procurar na universidade hoje.
— Isso é sério?
— Sim, não sei como descobriram que estou estudando lá, simplesmente apareceram bem no horário do intervalo e pediram para conversar comigo. — Ela me entregava a louça limpa para secar e eu a ouvia enquanto fazia isso. — Sei lá, eles não queriam encrenca, era só um papo de que pretendiam me mandar um dinheiro todo mês para ajudar nas despesas, o transporte até a faculdade, essas coisas. Eu fiquei tentada em aceitar, porque preciso, eu não tô trabalhando.
— Emma, estou te ajudando com as despesas, não se preocupe. Fico disposta a arcar com seus estudos, tudo o que precisar. O que disse a eles?
— Tá, eu sei e foi isso que eu disse pra eles, que não aceitaria nada sem antes te consultar. Eles não gostam muito de você.
— Agora não gostam, antes depositaram todas as fichas em mim para encontrar você.
— Ah, eles dois são estranhos, não saí de casa à toa ou só pelas drogas, eu estava no meu limite, principalmente com a ideia deles de me levarem pra Londres.
— Mesmo que negue o dinheiro deles, os dois vão insistir para te levar de volta com eles, Emma. Eles vão voltar a procurar por você, pode ter certeza.
— Disso não tenho dúvidas, até porque são mestres em descumprir promessas. Foi só saberem que voltei a estudar que vieram correndo tentar me convencer a acreditar neles.
— Aproveitando esse assunto, eu quero conversar com você sobre uma coisa também. Hoje de tarde estive com meu terapeuta e falei dele sobre você. Acho que ele pode te ajudar na questão das suas crises.
— Como assim? Fala de um psicólogo?
— Sim. Ele tratou de mim quando tive depressão e me encaminhou a um psiquiatra quando a coisa ficou feia pro meu lado. Não sei você, mas acho que precisa conversar com alguém que entende melhor desse assunto, alguém que pode encaminhar sua mente quando tiver uma crise. Me sinto incapaz ajudando você apenas com a minha companhia na hora da crise. E, veja, Emma, você tem chorado todas as noites, tem dito coisas absurdas, anda com uma ideia de morrer que me assusta. — Guardo o último prato e olho para ela.
Emma puxa o pano de prato do meu ombro e seca as mãos, fica um pouco confusa, me olha.
— Teve depressão? Por que nunca me disse?
Me surpreende que ela não tenha dado atenção a todo o meu discurso a respeito de frequentar um terapeuta e sim ao que eu falo sobre ter encarado uma depressão um dia.
— É, eu tive e já disse alguma vez, você é que não se lembra.
— Tá, mas eu não sabia que precisou ir a um psiquiatra. Você tomou remédios?
— Alguns para dormir e calmantes. Agora, Emma, pensa por favor que isso pode ser importante pra você, para te ajudar a encarar a vida lá do lado de fora desse apartamento. Eu acho que você está estranhando como é a realidade fora dos vícios, que sente vontade de seguir, mas percebe que o mundo ao seu redor prega muitas peças e precisa fugir delas e isso tem te matado por dentro.
Ela faz que sim, coça o penteado rabo de cavalo e concorda.
— Para mim bastava o seu abraço nesses momentos em que eu desabo. — seus olhos brilham e ela morde o lábio com um sorriso pequeno. — Acontece de repente, entende? Eu começo a lembrar das situações que me sujeitei, a minha procura por uma brisa que só ia durar até a manhã seguinte e me dou conta do quão destrutiva eu era para mim mesma.
— Então você entende que pode consertar o seu futuro. Se você quiser mesmo se ajudar, pode aceitar o que eu proponho. O meu terapeuta vai atende-la todas as quartas no fim da tarde, se quiser pode ir na próxima semana, eu já marquei pra você.
— Quanto custa conversar com ele?
— É por minha conta.
Emma parte para cima de mim, me agarrando na gola da blusa, batendo com as mãos sobre meu busto de leve.
— Quer parar de ser gentil comigo? Vem cá, você não cansa de fazer caridades pra mim? Você é maluca, tá entendendo?
— Sou maluca por querer te ver bem? Não, Emma, eu acho que isso ainda é muito pouco.
— E ainda quer que eu não te ame... É sério, eu não te entendo.
— Não precisa entender, só fique bem logo, se cure.
Ela fica na ponta dos pés por eu estar usando salto, e me beija na boca suavemente, um selinho que mal resisto.
— Se eu não estivesse com tanta coisa da faculdade pra fazer eu juro que transava com você aqui na cozinha nesse instante. — E me solta, me empurra, saindo dali como se não tivesse acabo de me provocar. Mas não caio na dela de levar a ideia adiante mais tarde.
Quando Emma vem se deitar comigo, estou lendo o mesmo livro jurídico de semanas atrás, aquele que ela costuma derrubar para sentar no meu colo ou pedir para que eu faça carinho em seus cabelos. Hoje ela somente apaga as luzes, se deita e olha para o teto. Eu a vejo pelo canto do olho, mas não abaixo o livro, mantendo a pose.
Um tempo passa, ela parece pensar no que vai me dizer.
— O que aconteceu com você para ter ficado deprimida? — Com essa pergunta Emma nunca foi tão evasiva. Ela entende que não vou discutir meus motivos se não tiver algum muito sério que me convença a tal. Então ela muda a forma como me abordar. — Eu sei que você tem meio que pavor de falar sobre isso, te incomoda muito, mas pode contar pra mim. Eu juro que vou guardar o seu segredo, o que quer que tenham feito a você. Se abre um pouco comigo, poxa. Você já sabe de tudo sobre mim, toda a minha vida, seria justo que eu soubesse mais da sua.
Largo o livro sobre a cômoda e cruzo os braços, esperando que Emma me olhe. Não era bem um pavor o que eu sentia do meu passado, era tristeza. Nunca fui uma pessoa capaz de aceitar bem as perdas naturais da vida e perder um noivo para outra mulher pareceu o fim da linha. Como contar a Emma? Será que valia a pena? Ela tinha um pouco de razão, seria justo me abrir com ela, mas para que me abrir com ela se não havia feito isso com nenhuma outra pessoa que não fossem terapeutas? Não queria que ela sentisse pena de mim, não podia me mostrar frágil, embora isso também estivesse fora do meu controle.
— Eu perdi alguém. — digo com a voz fraca.
Emma se senta na cama, se ajeitando para ouvir, perguntar se fosse necessário.
— Era um homem, não era?
—É, um cara por quem eu fui apaixonada de um jeito muito intenso. — Penso se devo prosseguir. Não tenho a espontaneidade de Emma, não sei como contar histórias sem me envolver com a emoção que me provoca.
— Onde se conheceram?
Paro e olho para ela, a encarando com meus olhos em chamas.
— Universidade, éramos colegas de turma.
— Hum... Sei. — Ela sabe o que está fazendo. Parece cruel me obrigando a falar. Com aqueles olhos cheios de esperança acaba me convencendo a contar a ela, somente para ela o que me perseguia e havia me transformado na mulher que eu era desde então. — Ficaram muito tempo juntos?
— Bastante para eu me formar e começar a trabalhar. Chegamos a morar juntos, ele me convenceu a sair de casa e viver com ele em um apartamento pequeno no Queens. Nós dois crescemos profissionalmente juntos, fazíamos tudo juntos, isso incluía as promessas, os planos as ideias e a vontade de nos casarmos.
— E quando foi que descobriu que ele te traía?
Emma deduziu rápido, mas na verdade era bem mais complexo do que se imaginava.
— Nunca fui traída fisicamente falando.
— Nunca? Então como foi que aconteceu? Parece que ele fez alguma coisa pra você e foi algo ruim.
— Ele me traía com as palavras, com os pensamentos e ameaças. Tudo começou quando ele conheceu uma advogada mais bonita, mais interessante, mais petulante, mais provocante, mais tudo do que eu e me disse que havíamos começado tarde a planejar o casamento. Ele estava tentado em ser infiel, em conquistar aquela mulher, mas o compromisso comigo o segurou. Ele fez de tudo para o que tínhamos terminar, mesmo que eu o tenha perdoado por desejar outra pessoa. A minha vida virou um inferno, a dele também, nos aprisionamos e por isso eu fui embora, porque estava insuportável demais conviver com um homem que desejava outra mulher. Ele me propôs inúmeras vezes um relacionamento aberto, só que eu repudio qualquer ideia desse tipo. Até solteira eu prefiro tratar dos meus casos amorosos um de cada vez e ainda é incompreensível que uma pessoa possa amar outra e se permitir se envolver com qualquer um só pela sensação de liberdade. Eu não me enxergo abrindo portas para quem estiver comigo. Ache o que for, me chame de possessiva, de controladora, mas essa sou eu, mulher de um só, alguém que não sabe dividir e nem pretende.
Estou olhando para Emma, que com seus olhos bem abertos parece compreender porque não levei outra mulher para casa enquanto ela vivia no quarto de hóspedes. Ela era um dos meus casos amorosos, o do momento e saber disso a pega de surpresa, talvez alegria que ela tenta esconder.
— Isso não é ser controladora, isso é ser quem você é. Não tem nada de errado em pensar num relacionamento a dois, porque é assim que tudo começa. Algumas pessoas curtem transar em grupo, mas olha, eu acho isso meio bizarro também. Acho que fomos feitas para alguém em específico, como se estivéssemos sempre destinadas a uma pessoa apenas, a pessoa que vai entender todos os seus defeitos e amá-los como se fossem os dela.
— Pois é, Emma, mas cada pessoa tem preferências e não podemos controlar. O que eu e você achamos certo não deve ser certo para muitas outras pessoas. E foi assim que ele me deixou, eu fui embora da vida dele, de tudo o que havíamos construído juntos. — a vontade de chorar vai embora e nem percebo.
— Agora entendi. Você sentiu falta do homem que ele era antes, o homem que te amava e fazia planos, que te prometia felicidade.
— É. O homem que ele era morreu de repente. Foi duro demais precisar largar tudo e recomeçar do zero. A única coisa que eu me perguntava era o que eu ia fazer da minha vida. Eu me perdi e não parecia ter volta.
— Quando procurou por ajuda?
— Quando já não havia mais razão para me levantar de manhã e ir trabalhar, quando perdi a cópia da chave da casa onde eu morava antes de vir para cá, porque eu havia passado a noite inteira em um bar bebendo e acabei dormindo em uma das mesas. — Não tenho coragem de olhar para ela de novo. — Quando tentei me matar.
Dou outro susto em Emma com as palavras e sei que ela espera por ouvir o pior.
— Você... Já tentou se matar?
— Já. Mais de uma vez. Tentei me atirar da ponte George Washington, mas perceberam antes que virasse uma atração. Na segunda tentativa eu bati o carro na rodovia, mas o máximo que consegui foi cortar a minha boca.
Emma olha para meu rosto vendo a cicatriz em cima do lábio superior. Ela já conhece a cicatriz, mas aquilo nunca lhe pareceu tão misterioso para provocar nela curiosidade. Agora ela sabe.
Minha história talvez não tenha significado algum, meu sofrimento pode parecer exagerado mais do que eu deveria me importar, porém Emma sabia como ninguém como era se sentir impotente e arrependida do que havia feito. Ter deixado uma depressão me dominar me causava vergonha, me lembrava da fraqueza e da minha falta de maturidade para lidar com derrotas. Leva-se muito tempo para compreender que nem tudo são flores e que a vida impõe que soframos pelo menos uma vez para entender uma lição básica, não importa quem você seja. Ela sabia quem eu era, porque eu havia me transformado em uma rocha humana e estava tão privada de sentimentos mais profundos. Eu não sei o que se passa na mente de Emma nesse momento, ela deve achar que sou muito boba para deixar o amor por um homem me influenciar, por querer morrer porque não soube perder a atenção de alguém. Mas na verdade, o que Emma tenta me dizer é outra coisa, algo até sábio vindo de alguém como ela.
— Uma pena que você não tenha percebido que na verdade a vida estava te dando uma segunda chance. Ele não era para ser seu, ele ia te fazer sofrer. Você fez a escolha certa indo embora. Doeu, eu sei que doeu à beça, mas olha o que você me disse. Esse cara não queria estabilidade, ele queria ser livre. Te prejudicou descobrir isso tarde. Foi. Mas disso você tirou uma lição e principalmente não traiu a si mesma. Seguiu o seu caminho sem ferir seus princípios. — Ela me puxa e deita minha cabeça em seu colo, me beija os cabelos, faz tudo o que eu faço com ela usualmente. — Eu vou dizer uma coisa que você já me disse... Se perdoe.
Gold estava certo, era hora de mandar certas coisas embora. Soltar. Me desprender. Era preciso entender que nada estava programado, às vezes ganhamos e às vezes perdemos. Eu não posso esperar que me devolvam o tempo perdido. Enquanto eu lamento pelo o que não vivi, o homem que amei é feliz com outras mulheres, da maneira que ele encontrou para ser feliz e jamais tenho o direito de julgar suas escolhas. Quem não ama você jamais entenderá seu esforço, seu gênio ou amor. Não por causa de orgulho, por incapacidade ou soberba, mas porque simplesmente há pessoas que não encaixam na sua vida. O rancor que eu sentia estava sendo alimentado pelas mulheres com quem me deitei antes de Emma, e hoje eu tenho a impressão de que não vou me deitar com outras e viver nova aventuras. Não cabe mais a mim ser a sedutora. O clico da velha Regina, resultado do rancor, chegou ao fim de verdade.
A vontade é mais forte do que eu, não sou capaz de controlar. Aquele nó na garganta se dissipa num choro manso. O colo de Emma é confortável como um travesseiro e me deixo levar pela calma com a qual Emma me acaricia. Hoje é ela quem faz as tranças no meu cabelo, ainda que pequenas por conta do comprimento.
Por que me abri com ela? Porque nada estava mais no meu controle.
— Não é só você quem faz carinho. Chora, pode chorar, eu te entendo. — sussurra ela. — Quero quebrar a barreira que você criou no seu coração e hoje você deu um passo para me ajudar. Obrigada por se abrir comigo. Juro que vou tratar dessa dor e você nunca mais vai precisar senti-la, igual você está tratando das minhas.
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