For the love of her

14 O desafio e a mudança


Notas iniciais
Olá, meninas! Disse para vocês que iria compensar os atrasos dessa fanfic, então espero que gostem desse capítulo tanto quanto o último. Façam uma boa leitura.


Emma sabia o que se passava na minha alma, eu muito mais o que se passava na alma de Emma. Uma troca infalível que culminava nessa combinação louca e que dava muito certo. Foi por isso que ela aprontou tudo, deu seu jeito de descobrir o dia do meu aniversário e me presenteou com um dia muito especial. E, como ela ocupava todo o meu tempo, até quando não estávamos juntas, quase não notei que meus colegas de trabalho haviam se lembrado da data. Alguém encomendou uma torta para não deixar passar em branco, mas nada se comparava ao que Emma faria, por mais simples que fosse sua intenção.

Troquei o jantar caro que ela ofereceu por um passeio a noite no Central Park. Eu me conformava com qualquer Yakisoba de Food Truck nas proximidades, e bem no fundo eu é quem devia convidá-la para jantar em ocasiões especiais, embora eu não achasse aquela uma enorme razão para irmos jantar lagosta ou pasta. Ela aceitou andar comigo pelos corredores arborizados do parque e foi absolutamente a melhor ideia que pude dar, pois a vista dos prédios a nossa volta era incrível e uma bela distração para momentos em que ficávamos sem jeito para falar.

Emma fez uma trança em seu cabelo, colocou uma calça jeans rasgada, uma roupa de frio multicolorida por cima e topou andar comigo, como sempre questionando se eu não tinha outra espécie de roupa que não fossem ternos e blazers. A verdade é que eu tinha, várias por sinal, mas os trajes de advogada importante eram como minha segunda pele.

Nós fomos andando, observando os casais conversando nos bancos ao longo do caminho, jovens rindo com seus iPods em mãos, pessoas apenas de passagem fotografando a vista do outro lado do parque e nós duas sozinhas depois de um tempo. A primeira coisa que quis saber era como Emma encontrara o telefone de minha mãe e ligado para ela. E acaba que descubro o quão descuidada eu sou em alguns aspectos.

— Como descobriu o número da minha mãe?

— Isso foi muito fácil! Eu fucei nos papéis do seu escritório e encontrei uma agenda velha. Estava tudo lá. Até o número da sua tia Hope que mora em New Jersey.

— Poderia ter me perguntado. Eu tenho anotado no meu celular. Quem hoje em dia usa agendas?

— Se eu pedisse você não ia me dizer, faria de tudo para que eu não descobrisse a data do seu aniversário. E você quer saber o que sua mãe me disse? Ela me tratou muito bem. Não precisei falar muito para ela entender que a gente vive juntas e que estamos namorando. Ela me contou duas coisas de imediato, o quanto você era distraída de vez em quando e o quanto você se esquece de datas importantes. — Emma se cansou de andar afastada um palmo de mim, procurou minha mão com a sua e entrelaçamos os dedos.

— É mesmo? Mamãe não muda. — comentei, lembrando da época em que vivia com Cora e Henry Mills, o casal que me adotou quando eu tinha apenas dois dias de vida. Um fato que eu esquecia com frequência – porque eu achava que devia – pois sempre me senti filha legítima deles sem nenhum esforço.

— Gostei dela. Quero pode conhecer os seus pais e a sua irmã.

— Espera aí, você sabe que tenho uma irmã?

— Você é bem esquecida mesmo. Naquela noite em que ficamos conversando até tarde na cama, você me contou sobre ela.

— Qual noite se nós sempre ficamos conversando até tarde?

Ela apenas riu e me beijou a bochecha.

— Você parece feliz, uma mulher infinitamente mais feliz daquela que eu conheci no cassino. — diz ela.

— Porque é verdade. Não me peça para explicar como cheguei ao ponto de perder completamente a razão de viver antes de você. Só estou bem agora porque estou com você. — olho para ela enquanto caminhamos.

— Aquele homem te machucou muito.

Voltei a olhar para frente e pensar no primeiro amor da minha vida ou quem eu achava ser. Era verdade. Ninguém saberia que dor era aquela.

— Ele me deu as maiores alegrias da minha vida e as maiores tristezas, em doses iguais.

Emma parou de andar no meio do caminho, ergueu sua mão da minha até meu rosto, afastou meus cabelos levemente crescidos e suspirou desejosa.

— Comigo vai ser diferente, tá? Você me deu uma oportunidade e eu não vou decepcionar. Não entrei na sua vida para machucá-la. Da mesma maneira que desejei ouvir sua declaração de amor, eu também almejo ficar curada dessa merda de vício que eu tenho, por você, Regina.

— Confio nessa Emma que quer ficar boa logo, que contagia os meus dias e me faz querer ir logo para casa depois do trabalho. Se eu pudesse escolher um presente para ganhar hoje, eu escolheria você mil vezes.

Ela sorri com os olhos verde escuros e os lábios finos. Sou eu quem encosto a boca nela primeiro e começo a conduzir um beijo carinhoso. Borro em torno dos lábios dela de batom, mas como toda rotina, isso também é motivo para sorrirmos depois.

— Feliz aniversário. — ela diz após nosso beijo e voltamos a caminhar de braços dados no deserto parque aquele horário.

Passamos a ser vistas com frequência logo que não é mais uma novidade eu estar me relacionando sério com ela. Isso gerou uma pequena confusão na cabeça do pessoal na firma de advocacia. Alguns tinham coragem de me perguntar no elevador enquanto subíamos se eu estava mesmo namorando com uma outra loira que não era a Kris. Falando em Kris, soube dias atrás que ela viajou para a Europa sem previsão de retorno, logo após eu ter invadido sua sala. Talvez eu esteja feliz por saber que ela está tão longe e que sua ficha sobre mim pode ter caído. Ela foi a tormenta que eu temia no meio de coisas boas acontecendo, enfim isso também passou.

Mas mesmo deixando tudo acontecer sem pensar demais, como havia sido quando contei a Emma sobre amá-la, eu não estava totalmente livre de preocupações. Se para mim tudo ia bem, eu estava tendo um caso que evoluiu para um relacionamento sério, para Emma a batalha dela contra ela mesma estava apenas começando.

Em uma noite, Emma podia ir do céu ao inferno em questão de segundos. Era a pior fase da abstinência. Na pior semana que enfrentamos, Swan teve febre durante três dias seguidos, não havia ido bem nos exames da faculdade, não conseguia se concentrar para estudar e mal comia. Eu estava presenciando de novo a Emma que conheci, uma mulher dominada e enlouquecida. O pior era encontra-la todas as manhãs, chorando no banheiro dentro do box, às vezes deixando a água da ducha descendo e a ensopando de roupa e tudo, lamentando estar viva e me suplicando para deixa-la ir atrás de algum consolo químico nas ruas.

— Emma, não posso fazer isso, não vou permitir.

— Estou morrendo, será que não consegue notar? — E ela chora desesperada dentro do box, sentada no cantinho, totalmente molhada, com péssima aparência.

— Não, você está viva e vai vencer essa vontade. — Entro e a pego no colo, por mais que isso me obrigue a trocar de roupa depois, mas quer saber, que se dane a roupa, eu preciso salvar Emma. Levo ela para a cama, tiro a roupa molhada que ela vestia, enxugo seu corpo, cabelos, rosto e ponho o roupão mais quente que tenho sobre a pele dela. — É sério, Emma, vai passar, é apenas uma sensação ruim.

— Eu vou morrer, eu vou morrer...

— Vai ficar tudo bem, não sairei daqui até que melhore.

Ela ri com deboche, subindo o edredom até o pescoço.

— Pois então não vai sair daqui nunca.

Tudo o que Emma fosse me dizer contra sua cura não me faria desistir dela. Me assustava como uma crise mudava quem ela era em essência. Emma deixava de ser minha quando estava mal e era preciso lutar contra essa forte correnteza que afastava ela da realidade. Liguei para Gold depois que um dos calmantes que eu ainda tinha serviu e fez efeito. Pelo terceiro dia consecutivo eu faltava ao trabalho, Emma não ia para a faculdade e estávamos presas a um pesadelo que parecia sem fim.

— O que eu faço com ela, Gold? É a pior crise que ela já teve. Emma não melhora, não entendo.

— Acalme-se. Vou mandar o Sidney até você para dar um diagnóstico. Isso passa, Regina, ela vai melhorar mais cedo ou mais tarde. Mantenha-se firme e atenta.

— Não sei quanto tempo eu vou aguentar, eu não durmo, não como, não bebo... Posso definhar por ela, o que me destrói mais é vê-la tão entregue quase desistindo.

— Está provando para si mesma até onde você vai por essa moça. Não foi a primeira, nem será a última crise dela, entenda. Se acha que não tem capacidade de suportar, você deve reavaliar o que vale a pena, ela ou você.

— Ficou louco? Eu me comprometi quando trouxe ela para cá. Eu estou bancando esse tratamento, eu vou até o fim por ela.

— Não estou brigando com você, Regina, estou chamando sua atenção para algo bem óbvio. Você sabia que ia ser assim. Emma tem um histórico longo como dependente. O certo seria levar essa moça para uma clínica onde ela deve ser monitorada vinte e quatro horas por dia.

— E o que acha que estou fazendo? Eu estou atenta a ela o tempo inteiro. Há três dias estou faltando o trabalho. Ela precisa mais de mim do que de uma maldita clínica.

— Certo, tem razão. Só mantenha a calma, está bastante claro que você se vê influenciada pela dor da Emma. Se contenha, controle-se antes que você também entre em uma crise de nervos.

Com o recado de Gold dado, eu agradeço e desligo o telefone. No quarto, Emma dorme profundamente após dias de sono irregular. Quando Sidney chegou, o médico, que inclusive eu conhecia muito bem, a loira despertou vagarosamente. Sentia-se cheia de vergonha do que estava se lembrando aos poucos. Sidney nos explicou que as piores drogas eram as de efeitos colaterais, especialmente as que tornavam o período se abstenção o pior possível. Emma havia usado de tudo um pouco, não se lembrava a ordem, nem queria.

— Eu usei muita coisa, fiz muita besteira. — Ela dizia, mas não conseguia olhar o médico, ao invés disso, procurava por mim, percebendo talvez que eu também estava abatida e assustada.

— Emma, imagino como se sente envergonhada de falar a respeito, não é tarefa fácil para nenhum ex dependente. Tem certeza de que essa foi a sua pior crise de abstinência? — perguntou o doutor, sentado ao lado dela.

— Tenho sim, senhor.

— Então devo receitar um calmante para os momentos mais críticos ou para quando você achar conveniente. Apenas peço que tome cuidado ao ingerir, nunca ultrapasse a quantidade de dois ao dia e somente se for de muita necessidade. — Ele direciona o olhar a mim, de pé esperando a consulta terminar. — Regina vai ajudar a monitorar, não vai?

— Claro que sim. — digo.

Ele prescreve a receita e me entrega para que eu providencie o medicamento.

— Você vai ficar bem, Emma. Seja forte. Qualquer coisa a Regina tem o meu telefone, não se acanhe em me chamar a qualquer momento.

— Obrigada, doutor. — diz Emma da cama, acompanhando nós dois com o olhar.

— Muito obrigada por vir, Sidney, eu nem sei o que faria se o efeito do remédio passasse antes.

— Ah, Regina, fez muito bem em ter medicado Emma por conta própria, porém, esse não é o calmante mais indicado para o caso dela. Esse foi o calmante que receitei a você e a validade dele não deve passar de um ano.

— Por pouco ele não se torna obsoleto então.

— Sim. Mesmo assim, ela ficará bem com a dose de hoje. Amanhã comece com o novo e veremos o resultado.

— Vou providenciar agora mesmo. O senhor pode vir comigo até meu escritório? Eu vou assinar o seu cheque.

— Oh, sim, pois não. — Sidney me acompanha e saímos juntos do quarto.

Quando retorno Emma não está mais deitada, ela olha pela janela do quarto de forma vazia, pensa mais do que observa a vista.

— Como se sente agora? — me aproximo dela, mas Emma está chateada e tenta se afastar.

— Essas olheiras no seu rosto... São por minha causa?

— Uhum. — faço que sim. — Antes que pense que estou te odiando, quero que saiba que se for preciso eu fico cuidando de você pra sempre.

— Não diz bobagem. Olha o meu estado, olha pra você. Deve tá exausta e tá perdendo dinheiro porque não foi trabalhar.

— E daí? Eu quis ficar.

Ela respirou fundo e pareceu doer, perdeu a vergonha de repente e se jogou no meu colo.

— Sabe qual é o meu maior medo?

— Não sei.

— Que você canse de me amar, porque eu sou uma drogada e estou tomando o seu tempo...

— Está tudo bem, não fica pensando nisso, eu não sou uma pessoa tão egoísta. Quando você chegou eu soube de tudo. — amanso suas preocupações com um carinho em seus cabelos. Ela suspira sobre meu peito e me aperta. — Era preciso passar por essa dor ao seu lado, e ainda que seja muito ruim ver você se tornando uma pessoa perigosa para si mesma, eu não quero ter que desistir de te amar.

— Obrigada. Eu só queria ser mais forte.

— Você é, Emma, e não vou sair do seu lado enquanto esse pesadelo não acabar. — beijo o rosto dela em cada cantinho e peço um sorriso que ela dá sem muito esforço, mas fraco. — Vou descer e comprar seu remédio. Me espera e pede o nosso jantar.

Me solto dela e busco um casaco no closet. Emma me olha com curiosidade, talvez porque eu esteja usando roupas mais casuais para ficar em casa, o que raramente ela vê.

— Você fica bem de jeans, sabia?

Olho para minha calça e sapatos, combinaram.

— Tá na hora de variar um pouco. — brinco. — Eu não demoro. Vá, peça aquela comida chinesa que eu sei que você gosta.

— Pode deixar. — ela fala, bem abatida, mas confirma e eu saio para buscar o calmante.

Na firma, tento explicar minhas ausências, porém, para meu chefe, nenhuma desculpa é o bastante para ele ficar convencido de que meu tempo ali já deu o que devia dar. Philip é um dos sócios majoritários, que inclusive dá o nome a firma, há cinco anos me conhece. Sua confiança para comigo está abalada depois de alguns dias faltando quando eu precisava cuidar de casos sérios. Meu êxito com o escândalo da BCCI me tornou uma advogada de renome, aumentou meu salário na firma, minhas influências e clientes particulares que geravam algum lucro para a empresa em si, mas não era dizer que eu estava completamente feliz fazendo parte daquela equipe de advogados. Qualquer um dos meus colegas poderia substituir minhas funções. Mas afinal, o que eu faria com a insatisfação? Talvez eu estivesse com as faltas assinando minha carta de alforria e começando a refletir sobre ter meu próprio escritório.

— A senhora ouviu bem? Mais uma ausência e vou ser obrigado a demiti-la.

— Philip, ouça, não tive intenção alguma de prejudicar a firma com as minhas ausências, foram questões particulares, não podia sair de casa. É muito complicado tentar me justificar e nem vale a pena agora. Se achar que devo, eu saio da firma, assino minha própria demissão, só não me prive dos clientes que trabalham comigo há algum tempo.

— Não pretendo obrigar nenhum cliente a permanecer contratando advogados do quadro de empregados que temos, eles possuem livre arbítrio e você levará quem quiser com você. Lamento que tenha chegado a esse ponto e se me compreende faria o mesmo no meu lugar.

— Claro. Vou redigir o documento e entrego assinado amanhã mesmo.

O chefe por trás da mesa tira o óculos e lamenta.

— Tem certeza de que vai sair? Estou oferecendo mais uma chance, Regina. Sei que teve problemas com depressão, se sua justificativa fosse melhor...

— Eu estou absolutamente certa do que estou fazendo, Philip. Cuidado para não ter pena de mim e não se contradizer tarde. Obrigada.

Me retiro da sala do diretor e enfio as mãos nos bolsos da calça, passando por todos com muito orgulho do que havia acabado de fazer. Recolho minhas coisas do escritório em duas caixas. Lá está a foto de Emma que recebi de seus pais quando vieram me procurar nessa mesma sala. Estão todos um pouco anestesiados com a notícia da minha saída da firma e venho receber cumprimentos ao longo do dia.

— Oi, posso entrar? — Belle bate na porta e entra lentamente. — Soube do que houve e queria dizer que tem meu apoio. Eu gostaria muito de ter essa liberdade e ir trabalhar onde você fosse.

Levanto a cabeça da caixa, ando até a frente da mesa e dou um sorriso amigável a minha secretária.

— Obrigada. Gosto de você, Belle, tem sido uma excelente secretária e não queria ver outra pessoa ocupando seu lugar se eu montasse um novo escritório. Se você quiser trabalhar para mim eu ficaria muito feliz.

— Está me chamando para trabalhar contigo? Nossa! Eu adoraria, é que tem o contrato com a firma e você sabe, o pouco que eu ganho não cobre a multa.

Dou um risinho como quem tinha a solução para o problema dela.

— Deixa que eu resolvo o empecilho com o seu contrato. Assim que eu arranjar um lugar para alugar e montar o novo escritório eu venho tratar disso e você vai trabalhar para mim.

— Poxa, obrigada! — Ela fica em estase. — Regina, posso perguntar uma coisa?

Recolho uma das caixas da mesa e digo.

— Claro.

— Foi por causa dela, não foi? A moça com quem tem se envolvido. Você andou faltando as audiências por causa dela.

— Sim, Belle, foi por causa dela e, por gentileza, não comenta muito sobre esse assunto. Emma é ex dependente de drogas, anda passando por uma fase muito complicada na recuperação e estamos batalhando para vencer o vício dela. — digo mais baixo para que ninguém ouça.

— Tudo bem, eu acho que eu entendo. — Belle faz que sim e sorri sem jeito. Ela se retira e vai cuidar dos seus afazeres, eu continuo recolhendo minhas tralhas daquele escritório, sem uma gota de arrependimento.

. . .

Volto para casa mais cedo e resolvo não contar a Emma por enquanto a minha decisão de sair da firma. Depois de um dia longo na faculdade, ela faz o jantar, estuda para os próximos exames e tira o livro da minha mão quando fica de saco cheio. Ela salta no meu colo, me rouba um beijo, me dizendo exatamente o que quer. Na verdade, eu também quero e jamais vou recusar.

— Awn, isso... Eu vou... Oh, meu Deus...

— Você vai? — pergunto baixinho enquanto ela não para quieta sobre mim. Um dos meus braços está entre nós, os dedos dentro dela. Parece estar muito bom. Ela pulsa por dentro, me beija, se apoiando na cabeceira da cama e fazendo as molas do colchão rangerem com o vai e vem.

— Eu vou... — Emma joga os cabelos para trás e geme se derretendo em gozo.

Fazia um tempo que nós duas não tínhamos um momento como aquele. Ela precisava, eu também. Era a forma de relaxarmos do que andava acontecendo, sem contar que era uma das primeiras vezes que fazíamos amor desde que contei que a amo. Dizer que a relação mudou parece clichê, embora seja uma tremenda verdade. O orgasmo dela não era mais um simples orgasmo para se satisfazer, ela procurava estar ali em cima dos meus dedos, às vezes do meu rosto, por mim, com o intuito de me agradar, mais ainda, como se eu fosse a única capaz de leva-la ao céu nem que fosse por cinco segundos.

— Isso foi... Foi tão gostoso. O que aconteceu? — pergunta ela ofegante, caindo ao meu lado na cama.

— Transar com amor é mais gostoso. — olho para ela, abrindo um sorriso.

— Quer dizer que das outras vezes não tinha amor? — ela se apoia em um dos braços para me ver melhor depois de recuperar o fôlego.

— Tinha, mas eu me privava e não queria demonstrar.

— Sempre foi bom. Você é carinhosa, gosta de dar e receber, é muito excitante e bonita, não tinha como ser diferente. Eu sabia que levava jeito pra coisa.

— Então eu levo jeito pra coisa? — me viro e aliso sua cintura.

— Até demais. — ela sorri, e esse sorriso me conforta por vê-la melhor, longe daquela Emma de uma semana atrás.

— Olha, eu tenho que contar uma coisa.

— Fala. — ela segura minha mão, antes em sua cintura, beija os dedos e espera.

— Pedi demissão da firma hoje.

— Sério?

— Uhum. As faltas andaram incomodando o meu chefe e ele me deu um ultimato, perdi audiências importantes. A decisão foi na hora, eu acho que cansei de depender de uma empresa, um chefe me dando ordens e reuniões, todas as obrigações fora do trabalho que eu exercia. Quero ser independente. Eu vou montar o meu escritório particular.

— Meu amor, isso é ótimo, mas não vai ser difícil demais conseguir novos clientes?

— O chefe disse que eu posso levar os clientes comigo, eu devo avisá-los logo que não pertenço mais a firma. O desafio maior deve ser achar um lugar para alugar que não seja tão fora de mão para os clientes.

— Vou te ajudar, tá bom? A gente vai encontrar um bom lugar, espaçoso, bonito e bem localizado.

— Sabia que ia querer ajudar. — Viro Emma na cama de repente, ficando por cima. — Só não esqueça da sua faculdade.

— Não vou esquecer, eu estou me dedicando. No tempo que sobrar vou procurar incansavelmente esse novo escritório. Por um lado é até bom que se mude para um canto particular. Vou ter mais liberdade para fazer visitas.

— Já está pensando nas visitas surpresas, hum? Vou adorar.

Sorrimos uma para a outra, mas tenho que interromper aquela conversa para encher Emma de beijos.

Um tempo mais tarde naquela semana, Emma encontra o lugar perfeito num anuncio de jornal. Apesar do preço salgado, algo muito normal em Nova York, se você quer ter o seu negócio em área nobre, consigo alugar uma sala bastante agradável no Midtown. Em dois dias organizo meu novo escritório com a ajuda de Emma, é tudo muito interessante e novo. Há muito espaço que preenchemos com móveis, alguns quadros, plantas e o restante da decoração. Com tudo no lugar e meus novos cartões de visita prestes a chegar na caixa postal dos clientes, posso descansar do trabalho que tenho em deixar o ambiente o mais agradável possível e sem que perca um pouco da minha personalidade. Aquele escritório deve ser a minha segunda casa, por essa razão não deixo um detalhe sequer passar despercebido.

Prego uma placa com meu nome na porta de madeira maciça e voilà. Emma termina de arrumar o quadro com meu diploma sobre a mesa e pousa ao lado uma foto nossa no Central Park. Encontro ela admirando a fotografia. Ela me abraça quando chego perto e acaricio seu rosto antes de dizer qualquer coisa.

— Conseguimos!

— Sim, conseguimos! Estou tão feliz por você.

— Eu sei, consigo sentir. Obrigada por me ajudar.

— Faria isso sem que pedisse, mas, que cara é essa? Não está contente?

— Estou muito feliz, com certeza, é que de súbito senti falta da firma. Foram muitos anos trabalhando lá, eu tinha um vínculo forte.

— Dá pra entender, sua carreira foi basicamente inteira feita lá. Essa é só uma etapa nova, você vai superar.

— Vou. Eu sou agradecida por tudo que vivi naquele lugar, porém de todos os casos, o mais importante acabou sendo um que me colocou na frente da mulher por quem estou apaixonada. Lembra?

— Verdade. Não foi o tal escândalo do banco internacional, foi o pedido de um casal meio biruta que entrou na sua sala pedindo para encontrar a filha desaparecida deles.

— E eu descobri que a filha desaparecida deles era uma linda mulher por quem me apaixonei perdidamente.

— Pode parar, você não sabia que estava me amando, eu amei primeiro. — ela sorriu e seus olhos brilharam mais ainda.

— Não estamos competindo, estamos?

— Pra saber quem se apaixonou primeiro, sim. Enfim, acabou uma era na sua vida. Seus casos mais importantes aconteceram como advogada deles, agora está na hora de trabalhar em casos maiores ainda.

— Tem razão. — fico satisfeita com o que ela me diz e quando estou prestes a beijá-la ouvimos a campainha. Me assusto e penso: — Já? Será que já sabem que estou trabalhando aqui?

— Não pode ser. — Emma me vê se afastando, passando pela recepção e abrindo a porta. A senhora Margaret Swan estava ali, parada como uma rocha humana, com seus olhos azuis muito arregalados para mim.

O susto era grande e eu cruzo meu olhar para Emma de longe por cima do meu ombro, tentando decifrar o que a mãe dela fazia no meu novo escritório.

Notas finais
É bastante óbvio que Emma tem um problema e precisa da Regina para se curar, além de fé em si mesma. Espero ter mostrado um pouco dessa triste realidade de algumas pessoas. Emma está caminhando para ficar boa e ficará. A aparição da Margaret não estava planejada, só que como mãe, ela pode se sentir arrependida de ter expulsado a filha da própria vida. Veremos como isso vai se desenrolar. O que acharam enfim? Agradeço muito se me ofertarem o prazer da opinião de vocês. Um beijo grande e fiquem bem, até o próximo.