For the love of her
28 Nada será como antes
Notas iniciais
Eu sei que não vai ser uma tarefa simples, muito menos rápida, vai exigir muito de mim e o que eu provavelmente não queira fazer. Os danos que Zelena causou na minha vida podem ter sido irreparáveis, mas só vou saber se restou algo para reiniciar do zero nesse momento. Minha mãos estão geladas, às vezes suam e meu estômago não vai nada bem desde ontem quando saímos da casa dos Swan. Ao menos estou satisfeita em ver que Emma vai retomar sua vida da mesma forma. Não conto para ela que estou com medo, talvez ela já tenha notado e por educação não quer me cutucar com perguntas.
É como se um jogo tivesse recomeçado e estou reaprendendo a viver na minha própria casa. Volto a acordar muito cedo, a ter o meu café preparado por Emma e ser recepcionada por ela depois de me arrumar. Mas hoje não me arrumo como nos dias de glória do passado, eu não escolho o terno cinza claro e a camisa branca. Opto por uma roupa casual sem deixar a vaidade de lado. Minha namorada dá a volta na bancada e me beija os lábios para depois me olhar da cabeça aos pés. Ela não diz nada, ela faz um sinal com a cabeça de alguém que claramente aprova ou que ocultamente quis dizer que com roupa ou sem eu fico bem. Sorrimos com um gosto imenso, finalmente confortáveis para tal e confesso que é graças a essa confiança repentina que me atrevo a contar o que vou fazer para ela.
— Vou até o escritório.
— Tinha certeza de que faria isso. — Ela despeja ovos mexidos e duas torradas no meu prato e termino de prender os cabelos.
— Preciso saber o que foi feito das minhas coisas, como está Belle e os clientes.
— Sendo muito sincera, eu acho que você perdeu os clientes. A Belle deve ter arrumado um emprego diferente e o escritório está fechado.
— Esse tempo em que estive ausente, você não soube de nada do que diziam ao meu respeito?
— Não procurei nada, eu estava tão desnorteada, mas eu sabia que um dia teria de ir até seu escritório para dar um fim naquilo tudo lá. Como eu não entendia de nada, eu acho que ia jogar tudo fora ou dizer para os seus pais cuidarem disso.
— Só espero que não tenham feito antes de você.
— O FBI não deve ter feito nada, mas a sua irmã eu não posso ter certeza.
— Zelena... — coloco as mãos na cabeça, esfrego o rosto uma vez. — Não era para isso ter acontecido.
— Para de pensar nela, tá? Desculpa ter lembrado, eu não toco mais no nome dela.
— É muito prejuízo para ficar barato assim para Zelena.
— Tá bom, e se você tivesse que passar por tudo isso? Se talvez, sei lá, se uma renovada não fosse algo bom? Tenta pensar por esse lado.
— Não consigo ter o seu otimismo depois de tudo, Emma. — Olho para a loira e puxo o prato, tentando comer o café da manhã preparado com tanto carinho.
Ela se vira e volta a preparar algo no fogão. Cinco minutos depois ela se senta ao meu lado com um prato de torradas assadas, manteiga e aveia.
— Quer saber de uma coisa? Hoje vou pedir meu emprego no restaurante de volta.
Viro o rosto na mesma hora e gosto do que ela diz.
— Emma, isso é ótimo!
— Pois é. Confesso que estou animada com a possibilidade, e, mesmo que o dono não me aceite de volta, eu pelo menos tenho algo a mais para colocar no currículo.
— Você vai conseguir, tenho certeza. — Aliso suas costas.
— Me deseja boa sorte. — Ela me olha e espera mastigar para falar.
— Toda a sorte de mundo para você, meu amor. — Puxo ela mais para o meu lado e beijo seus cabelos.
Sabendo que o FBI detém metade dos meus bens – isso incluiu o Audi – faço o trajeto até o Central Park de metrô e caminho cerca de três quarteirões até a área comercial. Não sou reconhecida por ninguém que cruza comigo nas ruas ou talvez a notícia da minha morte já estivesse esquecida em meio ao turbilhão de trabalho dos Nova Yoiorquinos.
Chego sozinha no andar do escritório e tudo está ermo, colaborando para minha checagem. Vejo logo de cara o meu nome na porta do escritório, isso significa que Zelena e FBI não andaram por aqui enquanto estive “morta”. Saco a chave que tenho e abro a porta. Há um cheiro forte de perfume na recepção como se alguém estivesse por ali, mas não me lembro de ter sentido esse cheiro antes. Olho tudo em volta, a mesma decoração, o mesmo escritório que deixei na tarde de 22 de maio. A porta da minha sala está aberta, há alguém lá dentro mexendo em papéis. Gostaria de ter uma arma comigo, não me sinto segura. Entro devagar, tentando não fazer barulho e sou vista.
— Ah, meu Deus!! — É Belle que se encontra comigo de repente, derrubando os papéis no chão quando me reconhece.
— Sinto muito, Belle. Desculpa. — Agacho para ajuda-la e ela se afasta bruscamente.
— Que-Que... Quem é você? Não pode ser a Regina... Não! Não pode ser!
— Belle, escuta, tá tudo bem, eu posso explicar. — Gesticulo.
— Você é uma irmã da Regina ou eu estou vendo assombração?
— Claro que não, sou eu a Regina, Belle. Não estou morta, foi tudo uma armação. — Tento ser convincente. — Me deixa explicar o que houve.
A secretária franze a cara, põe a mão no peito e respira fundo depois do susto. Está desconfiada, com razão, mas depois que entrego para ela um copo com água podemos conversar a respeito do que aconteceu comigo.
— Tá, então a sua irmã forjou a sua morte porque queria ser chefe de departamento no FBI? Quem tem uma irmã dessas não precisa de inimigos. — Diz ela, terminando de beber a água.
— É, eu confesso que não quero vê-la tão cedo. A Zelena quase arruinou tudo o que eu tinha.
— Nossa, agora me dou conta de uma coisa, a Emma. Como ela está?
— Ela já sabe, está bem, aguentou como pôde e está melhor do que eu nessa história. É muita coisa, muitos detalhes, com calma eu explico.
— Eu sinto muito, Regina. Lamentei muito a sua morte, para ser sincera não acreditei quando recebi a notícia. Todos nós inclusive, o pessoal do escritório de advocacia, ficamos muito tristes. Você pretende ir lá?
— Não agora, vou esperar que saibam como estou na verdade. — Me sento no sofá da recepção e volto a olhar tudo ao redor. — Você ficou tomando conta do escritório esse tempo todo?
— Sua irmã pediu, ela me ligou e conversou comigo, me ofereceu dinheiro, disse que depois de um tempo daria um jeito de ficar com esse empreendimento e me pediu para dispensar os seus clientes. Precisei encaminhar todo mundo para a firma de novo. Aquela cliente do Midlands? Lembra dela? Ela ficou chocadíssima com a notícia da sua morte, quando contei ela surtou.
— Sempre achei que ela tivesse uma queda por mim. — Brinco e rio.
— Ah, ela é daquele jeito com qualquer pessoa, mas você realmente tinha algo que fazia ela não querer sair daqui. Bem, eu sei que ia acabar me perguntando, então já vou dizendo, vim para limpar suas gavetas. Os processos já foram atualizados na firma e nada do que tinha aqui estava valendo mais, então decidi picotar na maquina para ninguém ter acesso as informações dos seus antigos clientes.
— Fez bem. Se eles já foram encaminhados para outros advogados não tenho muito o que fazer. O duro vai ser me desculpar pelo mal-entendido e reconquistar novos clientes.
— Posso dar um conselho?
— Vá em frente.
— Dá um tempinho até comunicar o seu retorno. Legaliza a sua situação com o governo, faz tudo como deve ser feito.
— É claro, você me faz lembrar que de uma forma ou outra eu vou precisar falar com a minha irmã e agora vou precisar ir a firma.
Belle ergue as mãos e se mostra inútil para me aconselhar novamente.
Penso que devo tomar mais alguns conselhos, então decido ir a firma para qual trabalhei antes dos meus passos como independente. Quando ponho o pé no andar principal da firma, aquele pequeno mundo de advogados para. Meus velhos colegas de trabalho estão assombrados comigo. Um dos estagiários fica branco feito papel, as secretárias deixam os telefones caírem da mão, quem passa pelo corredor esbarra em quem vem do lado oposto e o caos se instala no meio de burburinhos.
— É a Regina?
— Não pode ser.
— Não acredito!
— Ela está viva!
Muitas perguntas e muita dúvida. Escuto todos falando e me direciono a recepção, tentando não me importar com a comoção de todos que não tem coragem o suficiente para vir me perguntar se sou mesmo Regina Mills. Antes que eu pare para solicitar alguns minutos com meu ex chefe, vejo uma grande foto minha ao lado de mais três outros grandes advogados que ali trabalharam. São homenagens e fui incluída na mais recente. Sinto um calafrio gigante percorrer a espinha, a mesma sensação que tive ao ver meu nome na sepultura do cemitério, mas não há tempo para me admirar na bela imagem póstuma.
— Regina? — Diz Philip, o homem responsável por me empregar naquela firma no passado. Ele me olha com grande espanto, parado ao meu lado.
— Oi, Philip. — Respondo e sou conduzida a sala dele.
Depois de contar toda a história dos últimos três meses, meu ex chefe permanece abismado, porém compreensivo. Ele me oferece o emprego de volta, mas opto por continuar tentando me tornar uma advogada independente.
— Você sabe que isso pode custar um tempo considerável, Regina.
— Sei, por isso mesmo vim pedir ajuda. Não quero emprego de volta, mas preciso de alguém que possa me defender do governo. Minha irmã tem certamente bons advogados.
— E será que sua situação não pode ser resolvida com um bom diálogo entre vocês?
— Como eu disse, Philip, a minha morte envolve o governo e meus bens foram confiscados. Eu não posso trabalhar com uma identidade falsa, não posso ganhar dinheiro sendo outra pessoa.
— Bom, sendo assim, você quer contratar um dos nossos advogados?
— A princípio quero deixa-los de sobreaviso.
— Farei uma reunião hoje a tarde, vou comunicar seu retorno, não a firma é claro, mas ao nosso convívio.
— Obrigada. — Me levanto e aperto a mão dele. Antes de sair paro e vejo do vidro meu retrato na parede novamente. Philip me observa com curiosidade e faz a proposta dele uma segunda vez.
— Tem certeza de que não quer voltar a trabalhar conosco? Você fez muita falta.
Abano a cabeça e sorrio para mim mesma.
— Tenho certeza de que não. Meu ciclo nessa firma já se foi. Obrigada. — Ponho a mão na maçaneta e pergunto antes de sair: — Posso ficar com a minha foto que está na parede do corredor?
Ele junta as mãos, olha a foto de relance de longe no vidro e ergue as sobrancelhas juntas.
— Por que não? É toda sua.
Na volta para casa, há uma mulher me esperando na entrada do edifício. Pela postura e muito por conta da minha vista eu tive a certeza de que era Ingrid, minha enfermeira nos dias em que estive internada em Atlanta. Ela olha para cima, está indecisa se busca informação ou segue pela calçada. Reconheço ela, de fato é Ingrid ou deve haver alguém idêntica no mundo. Me recordo numa fração de segundos do nosso último encontro na casa onde me mantinham. O gesto dela de tentar me seduzir e sua tristeza nos olhos quando se sentiu rejeitada. Gostaria de tê-la agradecido pelos cuidados e não gostaria que ela tivesse se apaixonado por mim ao ponto de se oferecer e correr o risco de ser humilhada.
— Ingrid, o que faz aqui?
Ela se vira para mim e fica extremamente aliviada ao me ver.
— Vim procurar você.
— Não quis entrar?
— Eu não saberia o número do seu apartamento e o porteiro não está aqui hoje pelo visto.
— É, ele tem as horas de folga dele. Vamos, venha. — Peço para ela me acompanhar e já imagino as razões de sua visita. Ela é uma agente do FBI, cuidava do meu caso envolvendo o BCCI com Robin e Zelena, deve estar aqui para me esclarecer algo em relação a minha situação com o governo. Por um lado estou surpresa que ela tenha aparecido para me dizer isso tão cedo, e, por outro, tenho medo de ouvir que minhas expectativas vão custar a ser concretizadas.
Mostro o caminho para ela quando chegamos ao apartamento, aponto para o sofá e ela se senta prontamente. Ingrid me olha com constância, às vezes desvia os olhos, talvez por vergonha. Imagino seu desconcerto nesse caso, afinal ela levou um fora e a pessoa que deu está ali diante dela, mas não há saída porque seu trabalho é justamente ter de lidar comigo a mando do FBI.
Deixo o casaco pesado largado no sofá e me sento de frente para ela.
— Aceita algo, alguma bebida?
— Não, tá tudo bem, eu não quero nada. Vim dar alguma satisfação a você sobre sua situação agora que voltou a sua vida de antes.
— Nem tanto, não é? Tem coisas que não posso voltar a fazer da noite pro dia.
— Eu sei, é por isso que estou aqui. — Ela me encara com seus impressionantes olhos azuis, que pela primeira vez me assustam. — O departamento que arquivou o seu caso está resolvendo sua situação para que o mais breve possível você possa atuar como advogada. Vai ser preciso conversar com o governo sobre o fato de termos dado você como morta, então é claro que eles entendem que você cometeu falsidade ideológica enquanto esteve ausente. Isso deve demorar um pouco, mais ou menos uns seis meses até a gente obter uma resposta.
— Mas como é?! Seis meses? — Me levanto, indignada.
— Regina, eu sei que é muito tempo, mas fique calma, você poderá trabalhar mesmo que em outra área.
— Não, não, não, não! Isso eu não vou fazer, o que é que o FBI tá pensando?
— A única forma de você exercer o seu diploma é esperando o tempo necessário ou aceitando a proposta que eu vou fazer.
— Deixa eu ver se eu vou adivinhar a sua proposta — Caminho pela sala com as mãos na cintura. — Eles querem que eu trabalhe dentro do departamento de inteligência.
Ingrid abaixa a cabeça, completamente desconcertada, chega a corar de vergonha.
— Muito óbvio.
— Os desgraçados conseguiram um jeito de me colocar lá dentro. — Rio ironicamente.
— É temporário e você receberia pelas horas de serviço. Regina, pensa, estarei lá, pedi transferência recentemente e posso garantir que é um ótimo trabalho.
— Jurei que não trabalharia pros federais, você ouviu quando eu disse a Zelena o que eu ia fazer.
— Tudo bem, você está no seu direito de não querer trabalhar conosco, mas nesse momento é a única coisa viável ou você quer morrer de fome? Além do mais estando lá dentro você mesma fica de olho no seu processo, vai saber de tudo e poder ficar em cima.
Suspiro pesadamente e pretendo soltar um grande palavrão quando Emma entra e para na porta, nos olhando. Ingrid se levanta e elas se olham da cabeça aos pés.
— Meu bem, essa é Ingrid... — Olho para a agente e ela entende minha dúvida.
— Fisheer. Ingrid Fisheer — Responde ela.
— Ela trabalhava com Zelena e Robin e cuidou de mim enquanto estive naquela situação infeliz.
— Lembro dela, sei quem é. Tudo bem? — Emma se aproxima e estende a mão.
— Indo, conforme é possível. — Ingrid retribui o gesto.
Percebendo a minha inquietude Swan vem até mim e segura minha mão.
— O que que tá acontecendo?
— Nada, eu conto já. — Digo baixo. — Ingrid, posso pensar um pouco? Entro em contato com você para dar uma resposta.
— Está bem, o meu número é esse. — Ela saca um cartão de visitas com um número escrito. O código de área é de Nova York e suponho que ela tenha voltado a morar por aqui, mas não pergunto.
É evidente que ela está desconfortável, afinal, o único empecilho para não ter sentido nada por ela está do meu lado. Ela tenta não olhar para Emma, tenta não sentir um pouco de rancor e inveja, porém há coisas que pessoas transparentes demais não conseguem conter. Ingrid é uma dessas pessoas que sofre claramente e tenta não revelar. Sinto pena dela e pretendo evitar ao máximo que aquela situação se torne ainda mais embaraçosa. Abro a porta para ela e agradeço a preocupação, a única coisa que posso fazer por enquanto, pois Ingrid está prestando um serviço.
— Obrigada pela proposta, vou pensar, eu prometo e desculpa a minha reação.
— Tudo bem, Regina eu entendo como deve se sentir. — Antes de pôr os pés pra fora do apartamento ela olha Emma e sorri acenando. — Você é uma mulher de sorte. Eu nunca vi um amor como o da Regina por você. — E sai, dando as costas de uma vez só.
Emma cruza os braços, me interroga com o olhar.
— O que ela quis dizer?
— Preciso explicar? Digamos que ela foi testemunha das minhas lamentações por estar longe de você. — Ponho as mãos nos bolsos da calça e volto até ela. — E como foi no restaurante?
Emma dá um meio sorriso e me mostra as chaves do seu armário no restaurante.
— Consegui meu emprego de volta, mas se eu falhar outra vez, tô fora pra sempre.
Não consigo explicar o alívio que sinto nesse momento, só consigo ter vontade de abraçar minha mulher e beijá-la muitas vezes.
— Pelo menos isso hoje, que bom.
— Que que houve? Por que ela estava aqui?
— Eu vou te contar, só preciso tomar um banho e comer alguma coisa depois. Quer vir comigo?
— Quero sim. — Ela sorri e se joga em mim. Faz parte da saudade, de querer compensar o tempo que perdemos.
O banho é maravilhoso, passamos mais tempo trocando beijos do que nos ensaboando e Emma confessa que está muito excitada para não dar continuidade quando ele acaba. Vamos pra cama, é tudo bem suave e agressivo quando tem que ser. Dessa vez Emma quer montar no meu colo e ser tocada ao mesmo tempo. Ela goza e geme no meu ouvido, pedindo para que eu enfie a cara entre suas coxas e chupe até ela implorar que eu pare. Não obedeço e só paro quando ela me empurra, belisca e arranha. Isso é um motivo para rolarmos na cama e darmos risada. Conto para ela o que aconteceu ao longo do dia, deitada em seu ventre meio de lado, meio de costas e ela faz carinho nos meus cabelos.
— Você pretende aceitar a proposta dos federais?
— Tenho que pensar, mas o que Ingrid disse é verdade, é minha única saída.
— Mas e o seu ex chefe, ele não ofereceu o trabalho na firma de volta?
— Sim, ele fez isso, mas a última coisa que eu faria era trabalhar com outro nome, sendo outra pessoa. Isso não condiz com Regina Mills.
Emma passa algum tempo calada, sem deixar de me dar carinho, então decide dizer:
— Uma das coisas que mais amo em você é a sua integridade. Você é muito franca e preza por continuar sendo, acontece que o certo às vezes não é o que a gente pode fazer é o que surge. Talvez seja melhor você aceitar voltar para a firma do que trabalhar no FBI, porque mesmo usando outro nome, sua palavra não será afetada. Você bateu tanto a tecla de que não ia de jeito nenhum trabalhar com a sua irmã, veja como são as coisas, agora precisa fazer isso se não quiser esperar tanto tempo.
— É nessas horas que sinto vontade de estrangular a Zelena. Como pode ter sido tão burra?
— Não vai matar ninguém, você vai lidar com a dificuldade e vai fazer o que o seu coração mandar.
— Meu coração manda que eu mate a minha irmã. — Brinco e rio baixo.
— Só porque ela te prejudicou de certa forma você vai devolver na mesma moeda? Por quê? Qual é a necessidade? Releva isso tudo que aconteceu.
— Não é tão simples assim. Foi simples quando você percebeu que eu poderia nunca mais voltar?
— São casos diferentes e eu superei a dor de ter te perdido. — Emma se senta e joga os cabelos para o lado, tentando argumentar. — Sabe o que eu percebi? Que ao longo da sua vida você guardou mágoas de todo mundo e endureceu. Você guardou mágoas de todos os que te prejudicaram de alguma forma e nem se tocou que na verdade poderia ter aprendido com as dores. Eu até entendo, porque você nasceu com a ideia de que foi abandonada na maternidade e que era sempre a filha adotiva. Mesmo seus pais te dando todo o amor do mundo, você nunca foi capaz de reconhecer que sentia mágoa da sua mãe biológica e refletia neles. Você nunca aceitou ser amada por eles com segurança, então se sentia deslocada. Daí quando você se livra da tutela deles, começa a ser um pouco independente, conhece o Killian, se apaixona e é decepcionada de novo. Foi tanto pra você que se deprimiu e odeia ele até hoje que eu sei. A mágoa às vezes está na procura pela aprovação. Sua mãe ter te deixado na maternidade foi só um detalhe pequenininho e você acreditou que havia sido rejeitada. Isso cresceu tanto que você nunca foi capaz de perdoar completamente quem te feriu. Eu olho pra você, Regina e sinto desde o início a sua vontade de ser melhor, ser incrível só para receber aprovação. Imagino quando foi parar nos jornais e ficou famosa por ter ganhado um grande caso no tribunal, deve ter sido a sua glória e o auge do seu ego. Mesmo assim seu ego continua ferido. Agora sua honra foi ferida pela Zelena, pessoa que você já não conseguia engolir muito fácil por uma implicância tola. Vai odiar ela pro resto da sua vida? Vale a pena?
Emma me espanca com palavras, um choque de realidade e odeio ter de admitir que ela está certíssima. Não sei o que dizer, estou pasma e quero chorar.
— Tá bom, desculpa. — ela fala e me puxa, pois tento fugir da conversa me sentando na beira da cama. — Exagerei, né? Só não pude mentir nem guardar. Senti que devia te alertar sobre seu jeito. Eu ainda te amo muito, sempre vou amar e amo seus defeitos, estou aqui para te ajudar com eles.
— Eu sei. Você está certa. — Digo de cabeça baixa e Emma nas minhas costas. Ela me beija nos ombros, tenta amansar a fera que estive prestes a me tornar e se levanta.
— Olha só, que acha da gente sair, hein? Vamos comemorar meu retorno ao trabalho, comer um Yakisoba gigante daquele restaurante que a gente ama e passear depois, hum?
— Central Park?
— Isso.
— Tá bem, vou colocar uma roupa. — Tento me animar e ela gosta da cara que faço.
— Vou no banheiro, já volto. — diz ela, se afastando nua na direção do banheiro.
Vou procurar alguma roupa no closet e mal termino de me vestir, um barulho bruto de coisas caindo no chão me assusta. Corro chamando Emma e empurro a porta com tudo. Ela está caída no chão perto da pia.
— Emma, o que foi isso?
Não dou tempo nem para tomar folego, agacho e ponho Emma no meu colo, tentando acordá-la, chamando-a, mas ela não responde. Está pálida e com os lábios roxos. Acho que bateu a testa no mármore da pia quando desabou. O que aconteceu? Não gosto de imaginar o que me vem a mente, mas preciso tomar uma atitude rápida ou pode ser tarde.
Penso depressa, visto um robe nela e peço um taxi para o hospital mais próximo. Uma hora depois ela acorda na enfermaria, após receber soro na veia e sua cor voltar ao normal. O clínico me diz que isso acontece quando uma pessoa com a pressão dela não se alimenta direito por muitos dias. Com toda a confusão de sua tristeza por eu não estar por perto, mais as crises de abstinência das drogas, Emma andou se alimentado pessimamente. Quando nos condicionamos a um habito de vida, o corpo uma hora irá reagir. Apesar de aparentar estar bem, ela já tinha se acostumado a comer pouco.
— Isso não aconteceu, né? Não posso ter desmaiado.
— Sim, foi um desmaio longo, Emma. O médico pediu que você ficasse em observação por algumas horas.
Ela ri e a cor dos seus lábios vai voltando aos poucos.
— Fiquei tanto tempo comendo hambúrguer de micro-ondas que achei que ia dar conta. Hoje foram aquelas torradas no café da manhã e só. Não podia dar certo.
— Que susto, achei que tivesse batido a cabeça.
— É, tá doendo um pouquinho, mas eu não caí por causa disso, só sei que me senti mal e desmaiei de repente.
— A senhora agora vai tratar de se cuidar, comer bem porque vou ficar no seu pé. — Selo seus cabelos. — Eu vou buscar um café para esperar você ser liberada e daqui a gente encomenda o Yakisoba ou qualquer outra coisa com sustância o bastante.
— Se você soubesse cozinhar eu não iria desmaiar nunca.
— Quem sabe agora eu não aprenda de uma vez? Eu já venho. — Jogo um beijo para ela e me afasto na direção da cantina. Está ficando tarde e não sei se vou conseguir cumprir com a ideia de encomendar comida por delivery, então começo a pensar em uma alternativa enquanto o café que peço não sai. Felizmente há uma loja de conveniência perto de casa e ela fica aberta 24 horas por dia. Acho que hoje vamos precisar burlar as recomendações médicas e comer besteira de novo.
Estou no balcão, olhando o que passa na TV, distraída e o café chega.
— Regina — Chama alto a atendente que me entrega um copo grande.
Me viro para voltar ao corredor, mas há alguém estarrecida na minha frente me impedindo de seguir. Reconheço ela imediatamente, mais rápido do que reconheci Ingrid na porta do prédio. É Kris. Ela me olha com os olhos arregalados, a boca aberta e as mãos subindo até os olhos para coçar e confirmar se está mesmo vendo algo real a sua frente. Não tenho para onde fugir, nem tenho como disfarçar e entendo o espanto dela.
— Não pode ser! Está viva! — Ela diz alto o suficiente para chamar a atenção de todos os presentes na cantina.
— Oi, Kris. — Falo e respiro fundo, procurando a paciência para lidar com ela e com todos que forem me reconhecer a partir daquele momento. A reação será a mesma, de espanto.
— Você é mesmo ela? Regina Mills?!
— Sou eu sim, Kris. É uma longa história.
Apesar do susto, Kris pede para conversarmos e aceito explicar para ela o que aconteceu.
Nós duas nos afastamos para fora do hospital, no jardim e é difícil para ela acredita na minha história bizarra. Ela parece diferente, muito mais calma, mais leve e compreensiva, alguém muito diferente da Kris com quem me envolvi tempos atrás. Kris me observa com aflição, precisa terminar o café dela para digerir o que eu conto e então se manifesta.
— Quanta coisa... Meus parabéns por ter optado voltar pela Emma.
— Eu não me arrependo de ter lutado, ainda mais depois de saber o quanto ela lutou também.
— É, dois pesos duas medidas, e nesse caso medidas iguais.
— Mas e você, Kris? O que andou fazendo durante esse tempo em que não te vi mais?
— Bem mais que três meses, não foi?
— Uhum. Não foi a maneira mais adequada de ter me afastado, mas foi necessário.
— Eu sei e não te culpo. Eu é que estava errada o tempo todo, agi de uma maneira horrível diversas vezes, me perdoa. Bem, eu conheci uma pessoa, na verdade reencontrei uma velha amiga. — diz ela, olhando para frente. Noto que seus olhos brilham do nada.
— Amiga? Parece que é mais do que isso.
— Sim, ela é. Eu gosto dela. — Enfim confessa. — Nós estamos voltando a nos conhecer. Ela teve que passar por uma operação, mas está bem agora, por isso estou aqui.
— Que bom, Kris. Consigo ver que você mudou.
— Mudar é preciso. Mas se não tivesse sido você me dando aquele fora, eu nunca teria aprendido.
Sorrio e concordo.
— Curioso, porque certamente se eu não tivesse conhecido Emma, as coisas poderiam ser muito diferentes.
— Não, eu acho que você nunca ia concordar comigo da forma como eu agia. Você me odiava pelo jeito como eu tratava as pessoas, como eu conseguia sempre o que eu queria. Usei muitas pessoas e tentei te usar. Nós não daríamos certo.
— Que engraçado. Há três meses eu acreditava que jamais fosse te ver de novo, na verdade eu não queria te encontrar outra vez.
— Aconteceu. Eu também pensava assim.
— Bom, Kris, eu vou voltar, a Emma está me esperando.
— Tudo bem. — Ela se levanta do banco no jardim e estende a mão. — Foi bom saber que você está viva.
— Acredite, é bom para mim também ter voltado. — Cumprimento ela de volta e sorrio simples. Deixo Kris e retorno à emergência. Emma está tirando um cochilo, vai acordar com o primeiro barulho que ouvir.
Ela descansa como um anjo, embora seu desmaio tenha acontecido ainda em consequência dos seus maus hábitos. Poderia ser pior, poderia ser uma crise, ela poderia ter se cortado, se machucado gravemente e eu estaria de mãos atadas.
Pelo menos sobra o resto da noite e posso pensar sozinha na proposta que recebi de Ingrid. Não quero acreditar que minha única alternativa vai ser trabalhar para o FBI, tudo o que eu menos desejava. Porém, diante do cenário em que me encontro, não posso contar tanto com a sorte. Ou eu me arrisco de vez queimando a língua ou eu não terei capacidade de cuidar de Emma, quanto menos de mim mesma. Que eu encontre a resposta e tome a decisão certa, aquela que eu realmente preciso e que nela eu não me machuque mais do que já fui ferida pelo passado.
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