For the love of her
29 Entendendo a cura
Notas iniciais
Ter encontrado Kris e conversado com ela me surpreende mais do que eu poderia esperar. Parece engraçado que há cinco meses nos engalfinhávamos e há certa de um ano quase tivemos um relacionamento sério. Talvez não fosse ela a pessoa certa. Tudo o que eu discordei de suas atitudes provavelmente era um sinal de que nunca daríamos certo mesmo que ela se propusesse a mudar tão drasticamente quanto a encontrei hoje. Então eu acho que é mais fácil acreditar que Kris acabou sendo meu instrumento para fazer meus sentimentos por Emma crescerem. Se não fosse por ela, jamais teria dito a minha namorada que a amo, nunca teríamos discutido e ido para a cama dar início ao que eu mal sabia que era uma relação. Kris foi o ponto inicial e posso estar devendo a ela. Um dia ainda preciso reencontrá-la para dizer que sou agradecida por esse pequeno favor.
Conto a Emma que demorei mais tempo porque reencontrei uma conhecida. Ela fica muito surpresa de saber que conversei com Kris de maneira civilizada, mas ainda tem a velha cisma, muito por conta do que houve num certo coquetel quando tentei fazer ciúmes. Levo Emma para casa depois dela receber alta. Na manhã seguinte me levanto antes dela e me arrisco a preparar o café da manhã. Não sou nenhuma excelência na cozinha, nem estudo para tal como ela, porém faço o que normalmente eu já fazia para me virar no café da manhã (reforçado, como o médico pediu). Deixo a bandeja com o banquete sobre os pés dela e me sento ao seu lado, esperando ela se dar conta de que é hora de acordar.
Afasto os cabelos louros para o lado, aliso suas bochechas que voltaram a corar depois do susto de ontem e ela abre os olhos para mim. Baixo e rosto e beijo sua boca com puro carinho.
— Oi — diz ela, me puxando pelas alças da camiseta.
— Oi, bom di... — Emma me beija antes de eu completar o Bom dia. Olha para os próprios pés e vê a bandeja.
— Foi você quem fez tudo isso?
— Quem mais poderia ser?
— Nossa, quanta coisa! — Ela se senta e sorri com o rosto ainda amassado de sono, irresistivelmente linda mesmo assim. — Você ficou com medo do que houve ontem se repetir, não foi? — Ela puxa o café da manhã até nós duas.
— Claro que sim, você desmaiou de repente, como quer que eu me sinta? Preocupada no mínimo, hum?
— Eu sei, meu amor, eu só estava reparando, porque você não sabe cozinhar nada.
— Ora, eu me viro. Como pensa que eu vivia antes de você aparecer?
— Bem, se era daquele macarrão sem sal que você me serviu uma vez, devia estar vivendo mal. — Provoca.
— Como é? Macarrão sem sal?
— Sem sal e muito cozido. Mas eu estava sendo tão bem tratada que só reparei nisso depois que comi. — Emma devora as torradas, os waffles com Nutella e as minúsculas panquecas com creme numa velocidade assustadora. Sobra para mim, óbvio, mas prefiro vê-la se alimentando melhor do que antes. Isso tira um pouco da culpa que eu andava sentindo por ela ter passado tantos dias sem se alimentar direito dando margem para suas crises voltarem. Eu, aliás, tenho muita culpa em muita coisa que houve com ela. Não adianta querer escapar do sentimento, por mais que ela diga que não devo, eu não consigo me desvencilhar da sensação de que tenho culpa por todos os seus males. Principalmente o fato dela quase ter voltado a usar drogas.
— Pois saiba a senhora que eu sei me virar de vez em quando. — Digo, roubando algo da bandeja antes que ela termine. — Você vai para a faculdade?
— Já estou ficando até atrasada. — Emma se levanta bruscamente da cama, se enfurna no closet e caça uma roupa. Ainda penso que providência devo tomar, há uma decisão para fazer e não sei se posso contar com os conselhos de outras pessoas, pois todos pensam que morri e me explicar levaria mais tempo que pedindo o conselho. — E você vai sair? — Pergunta ela voltando.
— Acho que sim. Me incomoda ficar parada sem saber o que fazer. Eu vou ao escritório.
— Tá, a gente se fala mais tarde, bem mais tarde porque eu vou trabalhar depois das aulas. Pego o turno das quatro às dez, vou ganhar pouco, mas pelo menos é um extra.
Me ergo e recolho a bandeja de café da manhã, bufando, tensa, ansiosa.
— Tudo bem, até mais tarde. — Dou um beijo nela e saio, o que certamente a deixa preocupada.
Se parássemos para conversar sobre meus medos naquele momento levaríamos mais que a hora preciosa de Emma para correr ao metrô e chegar na aula a tempo. Ela passa por mim na cozinha, joga um beijo e sai com seu material nas mãos. Se ela soubesse que eu daria tudo para estar com ela, protegendo-a de tudo e de todos, só nós duas naquele enorme apartamento... Mas acredito que quem esteja precisando mais de paz seja eu. Emma lida bem com adversidades, com desafios, eu já me esquivo de grandes decisões, de mudanças bruscas, até que elas ocorrem e eu não posso ter controle. Por isso tenho medo, um medo do que me aguarda nos próximos meses. Parece uma escolha simples entre o certo e o errado que vai dar certo. Não gosto de nenhum dos dois caminhos e os frios no estômago que sinto se devem a minha total insegurança.
Quando Emma bate a porta da sala esmurro a parede, causando um som oco no drywall entre a cozinha e a sala. Não sei por qual razão lembro de Ingrid Fisheer. Ela de nada tem culpa, é apenas uma funcionária do FBI encarregada de avisar sobre a minha situação. Então seu número está bem ali no cartão que ela deixou comigo, algo me diz para ligar.
Mais tarde ela me encontra no lugar que peço, uma lanchonete movimentada no quarteirão do Rockfeller Plaza, veste grossas roupas de frio e está sempre com cara de quem precisa me contar um segredo.
— Você já tomou a decisão?
— Na verdade te chamei aqui para receber um conselho. Se estivesse no meu lugar o que faria? Seja sincera.
— Eu não quero puxar o barco para o meu lado, só porque trabalho lá e conheço as pessoas, mas eu aceitaria, nem que fosse por alguns meses.
— Confesso que ando muito nervosa.
— Tem apenas um dia que conversamos, pode esperar mais um pouco para decidir.
— Não vou aguentar passar mais que uma semana pensando sobre isso.
— Bom, Regina, desse jeito é melhor não fazer nenhuma escolha então. Meu conselho é que você volte a morar com seus pais. — Ingrid é bastante direta sem ser grosseira.
— Ou com os pais de Emma. Eles aguentaram ela por três meses, não iam se incomodar se eu contasse o meu problema.
— Tenho uma vaga ideia do porquê de você se sentir tão ansiosa. Acha mesmo que nós vamos fazer você se lembrar 24 horas por dia do acidente? Ou acha que queremos que trombe com sua irmã nos corredores do departamento? Zelena é justamente o que queremos evitar, ela e o marido dela.
— Achei que eles tivessem pedido licença depois do que aconteceu comigo.
— Pediram demissão, mas foram encaminhados para outra função. Você uma vez ou outra pode se deparar com eles, mas não será sempre.
— Não quero ver Zelena nunca mais na minha vida. — digo e isso me dá uma imensa dor de cabeça.
Ingrid vai dizer alguma coisa quando de repente empalidece e permanece com os lábios entreabertos, estática. Ela enxerga algo ou alguém atrás de mim. Me viro levemente e tomo um susto nada agradável. Zelena, minha querida irmã está ali, e isso não é nada bom. Ela nos observa parada, está muito pálida, talvez mais que eu. Meu estômago ferve, só de vê-la quero pular em seu pescoço e Ingrid sabe disso, portanto ela me segura o pulso e me impede de avançar.
Zelena parece ter emagrecido uns dez quilos, está com aparência muito desleixada, ainda assim está bonita como sempre foi, mas não enxergo beleza quando me lembro do que ela fez e do quanto ela é responsável pelos problemas que enfrento hoje. Me levanto sem que Ingrid consiga me segurar e encaro a ruiva. Ela engole em seco e abre demais seus olhos azuis, sem esconder que está apavorada.
— Repita o que você disse a Ingrid se tiver capacidade. — diz minha irmã com mágoa.
— Não quero ver Zelena nunca mais na minha vida. Não quero ver você nunca mais na minha frente. — Repito e ergo a cabeça como se tivesse engolido uma espada.
— Já pedi perdão por tudo o que fiz, quanto tempo vai levar para você superar? — Ela choraminga.
— Não tenho obrigação qualquer em superar o seu remorso. O que você quer? Veio por um acaso ou está me vigiando?
— Eu estava seguindo a Ingrid até encontrar uma forma de falar com você.
— Meninas, sentem-se por favor, não podem chamar a atenção. — Ingrid cochicha da mesa e concordo que não é muito certo ficar de pé no meio do café.
Minha irmã me segue, se senta ao lado da loira e claramente se sente desconcertada em precisar me olhar no rosto.
— Fale logo o que você quer. — Peço, sem paciência.
— Vim pedir que aceite a oferta do FBI. É a melhor alternativa, Regina.
— Por que eu deveria? O que vocês tanto querem comigo? Não pode ser que apenas um caso de fraude bancária tenha levado vocês a me escolherem.
— Eu indiquei você, eu disse que era da minha confiança e eles acreditaram.
— Pois faça-me um grande favor, irmãzinha, diga que não sou mais da sua confiança. Sou a pior escolha para trabalhar com seus amiguinhos.
— Eu estou fora das investigações, agora faço parte de outro setor, você não me encontrará mais. Eu sei que o seu ódio por mim tem justificativa, mas nós queremos ajuda-la e devolver a você o que tiramos.
— Não, vocês não têm essa capacidade. Nem vocês nem ninguém. Tiraram de mim o que eu ainda tinha de bom, a dignidade. Você não sabe como me sinto constrangida em precisar pedir ajuda e, maior que isso, o quanto eu me sinto humilhada por não ter a quem recorrer.
Zelena prende os lábios, morre por dentro e lamenta em silêncio.
— Jesus Cristo, o que eu vou precisar fazer? — diz ela para si mesma.
— Fuja. Fuja para longe e não volte nunca.
— Regina, tenha a calma. — Ingrid tenta me conter outra vez, mas aquela é uma chance única de dizer a Zelena que não a perdoo.
— Você não se meta. — Falo para a loira. — Quer saber de uma coisa, Zelena? Mesmo que eu recebesse um milhão de dólares para trabalhar pro FBI, eu não aceitaria. Você vai precisar colocar o mundo aos meus pés para ter o que quer ou consertar o seu erro diante do governo. Você destruiu a minha vida, quase acabou com a pessoa que eu mais amo nesse mundo e agora quer bancar a solidária. Você vai pro inferno.
— Nossa mãe não ia gostar de ouvir você me dizendo essas coisas. — Ela chora, deixa as lágrimas caírem ao mesmo tempo que as seca.
— Nossa mãe sentiria vergonha por você.
— Ela sente. — Zelena soluça.
— Ah, é? Quem te disse?
— A própria. Nossa, mãe preferia morrer a nos ver brigando.
— Tenho pena dela, somente dela e do Henry, eles não deviam ter uma filha como você.
— Nem outra como você. — Ela devolve com ódio e desprezo, se levanta e sai, empurrando a mesa com força o suficiente para derramar o café que não tinha bebido.
Ingrid sai atrás dela e cochicha algo em seu ouvido, volta com a intenção de me acalmar, mas não quero palavras, nem consolo algum quanto o que Zelena representa.
— Estão agindo feito duas crianças!
— Você não pode se meter no que não foi chamada. Vá embora. Eu não deveria ter confiado em você.
— Não é minha culpa que sua irmã veio atrás de você.
— Você deu brechas, ela sabe que está me ajudando, se não foi ela quem enviou você para fazer isso. Eu não vou mais te procurar para nada, não vou confiar novamente.
Deixo ela sem reação, sem poder dizer outra coisa que me segure ali. Pago minha conta pelo menos e me vejo sem qualquer tostão para pegar o metrô de volta. Mas estou tão aborrecida que não penso em voltar para casa ou seguir até o escritório, não tenho nem como raciocinar depois de rever Zelena. Meu destino é caminhar muito até as docas de onde saem as barcas, mas não tomo qualquer uma, não faria sentido ir para tão longe na cidade. Não atravesso o rio nem a ponte. Só há uma pessoa que pode me ajudar nesse momento e essa não me pede nada além de amor em troca.
Chego no restaurante onde Emma trabalha quando já está tarde, depois de muito tempo vagando para sentir uma calma que minha cabeça não consegue encontrar. O lugar está vazio, fora do período de almoço e talvez eu tenha tempo para falar com ela. Um dos serventes me diz que só vão reabrir em duas horas e eu rapidamente explico que preciso falar com Emma. Com uma simpatia fora do comum, o rapaz, que parece ser um amigo mostra o caminho até a cozinha, me alertando antes de eu cruzar a porta dupla flexível que preciso ser breve, pois o chefe deles estaria de volta em pouco tempo. Assentindo eu sorrio e entro, caçando Emma num dilúvio de névoa com cheiro de camarão. Certo, estou com fome, não almocei e nem tinha estômago cinco horas atrás, então o cheiro me parece maravilhoso. Por um momento reviro os olhos e minha boca se inunda, daí me dou conta de que não estou ali para me aproveitar da boa comida.
Há muita gente trabalhando na cozinha, todos uniformizados de branco, alguns com aquele famoso chapéu de chef, mas nada de Emma, até escutar uma conversa entre duas pessoas mais adiante. Tento perguntar para alguém se posso falar com Swan, mas ninguém sequer me enxerga nesse lugar. Escuto a conversa de novo e reconheço uma das vozes, é Emma com certeza. Ela está ajudando alguém a organizar ingredientes em pequenos recipientes e parece ter alguma pressa em fazê-lo. Emma me avista de surpresa e para tudo o que está fazendo abrindo um sorriso imenso.
Decido ir até ela, mas antes que eu pense Emma já corre na minha direção, tirando seu avental e pulando no meu colo. Quantas vezes vamos fazer isso ao longo desse relacionamento? Adoro sua reação espontânea e desenfreada de me agarrar e eu precisar socorrer aquele abraço doido. Ela me ama e essa é a única certeza que tenho na vida. Quando pisa no chão novamente, Emma me beija e me olha nos olhos, derretida de paixão.
— O que veio fazer aqui? Que surpresa é essa?
— Precisava te ver, eu não ia aguentar até a noite. — Sussurramos.
— Que foi? Andou chorando?
— Podemos conversar um pouco? — Peço e ela faz que sim, pedindo licença para os colegas de trabalho. Enquanto seguram as pontas por ela lá dentro, nós duas vamos parar em um beco nos fundos do restaurante, onde há uma imensa caçamba de lixo vazia, alguns gatos de rua se alimentando dos restos de comida e o barulho dos carros passando na avenida pelo lado oposto do muro.
Estamos sentadas em um dos degraus diante da porta e conto o que houve no café, me odiando por ter sido tão rude, mas jamais me arrependendo de odiar minha irmã. Emma me ouve com calma, sorri no final da história e morde seus lábios, pensando talvez no que deve me falar, qual conselho vai dizer.
— Já disse o que penso sobre essa sua raiva da Zelena. Há muito mais que o ato dela de ter nos separado, há milhares de razões enrustidas em você. Não estou te tirando o direito de não querer mais vê-la, eu só não quero que você alimente ódio por alguém da sua própria família.
— Se ela ao menos conseguisse entender o meu lado...
— Regina, para pra pensar, ninguém, absolutamente ninguém nesse mundo vai entender o que se passa na sua cabeça. Ninguém tem os seus motivos, seus medos, suas motivações, ninguém. Ela estava pensando apenas em si, é o que sabemos, mas ela se arrependeu, caso contrário não estaria pedindo que você aceitasse o cargo no governo.
— Não, Emma, ela quer que eu trabalhe para eles porque vai ganhar com isso, ela só pensa nela mesma, você disse certo no início.
— Sei lá, você não vai resolver isso na base da briga. Vai querer gritar com ela toda vez que se encontrarem?
— Foi ela que veio atrás de mim, com a ajuda da Ingrid.
— Com ajuda ou sem ela vai te procurar porque quer o seu perdão, tá entendendo? Coloque-se no lugar dela. Como você se sentiria tendo traído a confiança de alguém da sua família, hein? O que é que você faria para pedir perdão? E se fosse você? O que faria?
— Eu não sei. Eu não sei. Não consigo pensar no que eu poderia fazer. — Coloco as mãos na cabeça e me encolho. — Me sinto tão confusa.
— Olha, por que você não relaxa? Toca o foda-se, não faça escolhas. Você tá criando um tornado na sua cabeça por conta de uma questão que pode ser resolvida assim — Emma estala os dedos depois que afaga minhas costas. — Fica um tempo na sua, esquece um pouco o trabalho, tire umas férias, mais um pouquinho. Eu tomo conta de tudo, eu pago as contas.
Levanto o rosto e miro Emma com assombro.
— Como assim? Você tem um emprego, mal consegue ganhar para pagar a mensalidade da faculdade.
— Eu me viro. Eu não me virava quando era viciada? — Emma se levanta e anda em círculos, cruzando os braços. — Posso pedir o emprego de babá de volta, vou aceitando o que tiver nos classificados. Não vou te deixar sozinha nessa, fica sossegada.
— Não faz isso, Emma. — Abano a cabeça.
— Faço o que eu quiser, Regina Mills. Você não vai mandar em mim, ainda mais agora que é você quem precisa de mim. Eu vou retribuir cada noite que você me deu de sossego no seu peito, quero compensar cada palavra de força que eu tirei da sua boca, cada sorriso que você me provocou. Puta merda, eu amo você pra cacete!
Puxo seu corpo e repouso minha cabeça em seu ventre, me sentindo a pessoa mais sortuda do mundo em receber os seus carinhos e tanta confiança.
— Eu também te amo. — suspiro.
— Eu sei, eu sempre soube. Tá na hora de você ser mais aberta as mudanças que vão acontecendo. Acho que esperar é o mais correto agora. Eu vou conseguir cuidar da gente, peço ajuda dos meus pais se for o caso. Tenho certeza que eles não vão se opor em nos ajudar. São apenas seis meses, não são? A gente superou três meses sem se ver, o que são seis meses sem você trabalhar?
— Tá bem, tá legal. Vou ver se aguento.
— Claro que vai. Problema resolvido.
Emma segura meu rosto e me arranca um beijo. Digo que preciso de dinheiro para voltar pra casa e ela sorri, comemorando que é a primeira vez que paga o metrô por mim. Antes de ir embora ganho uma refeição de almoço, um pouco tarde, mas foi o que restou da macarronada al mare , que eles costumam dispensar no lixo quando sobra. É fim de tarde, decido ir embora para casa e tomar um bom banho.
Mais tranquila depois das palavras de Emma, sigo seu conselho e relaxo. Meu coração está mais calmo, ainda mais convicto de que não estou sozinha e que foi uma perda de tempo ter me preocupado com o convite do FBI. Durmo no sofá da sala sem notar que nem o roupão eu havia tirado para pôr uma roupa no corpo. Anoitece, esqueço das horas e da vida. E quando acordo um par olhos azuis me espia de pé.
— O que é que está fazendo aqui?!
— Irmã, vamos conversar. — Zelena se afasta ao mesmo tempo que quer se aproximar de mim. Ela tenta me tocar nos braços.
— Não bastou o que eu te disse na cafeteria? Como é que você entrou aqui?
— Eu pedi para o porteiro me deixar subir, ele me conhece. Você tem a péssima mania de deixar a porta aberta, eu sei disso e vim te procurar. Não me expulsa pelo o amor de Deus.
— Ele liberou ou você pagou para ele te deixar subir? É bem a sua cara subornar as pessoas para elas fazerem o que você quer.
— Eu não sou assim! — Zelena range os dentes.
— Você é! — Dou a volta no sofá e apanho o candelabro de prata que fica sobre uma das cômodas, é pesado o suficiente para desacordar minha irmã caso ela avance.
Zelena está tensa, mas ainda permanece com raiva do meu comportamento. Eu não conheço minha própria irmã para deduzir o que ela quer fazer comigo. Ela deve ter planos para tudo, no mínimo vai me arrancar o objeto da mão e me controlar, ou pior, ela pode ter uma arma escondida na roupa.
— Pare de agir feito um animal, Regina!
— Vá embora! Não quero conversar, já dei o meu recado, não vou fazer o que vocês querem que eu faça.
— Me deixa explicar — Ela tenta ir com calma, articula muito e confesso estar mais desconfortável ainda. — Você precisa desse trabalho. É para o seu próprio bem.
— E o que é que eu ganho trabalhando para vocês?
— Liberdade. Nós precisamos consertar o erro que cometemos.
— A sua no caso. Já entendi tudo, Zelena. Você me coloca lá dentro e conserta a demissão que você pediu, só que há um probleminha, né? Não é tão fácil assim se livrar dos federais. Você sabe de muita coisa podre que acontece nos corredores daquele lugar, sabe de toda nojeira que o governo esconde. Eles jamais iriam permitir que uma agente fosse embora de graça, por livre e espontânea vontade.
— É verdade, eu sei de muita coisa, admito, mana. Admito até que é exatamente por isso que não consegui me desvencilhar tão rápido dos setores internos do FBI. Mas pensa comigo, só cogita... Eu sou uma peça, eu sou uma chave para você se livrar da merda que eu fiz. — Ela dá mais alguns passos e ameaço ataca-la erguendo a prata na minha mão. — Tá vendo? Eu sei de muita coisa. Você me usa como moeda de troca, consegue sua identidade de volta e me dá como garantia para eles. É simples, tá vendo? Se eles não cumprirem com o prometido eu confesso tudo o que eu sei para os tabloides.
— Não me engana, Zelena. Eu não caio na sua conversa duas vezes.
— Vai ficar tudo bem, eu juro que vai. Você pode até não me perdoar, mas essa é a única forma de ter a sua identidade de volta em pouco tempo. Eu estou querendo te ajudar, como é que você não enxerga?
— Ninguém entende. Ninguém sabe como eu me sentia deitada naquela cama, sem poder andar, sem poder gritar pedido socorro. — Fecho os olhos e lembro. Como um flash os malditos três meses voltam a minha mente. — Tudo por sua culpa. Como quer que eu acredite em você?
— Se eu pudesse eu me colocaria no seu lugar. — Zelena fala alto demais para me desligar a atenção e por um segundo ser capaz de saltar sobre mim, segurar o candelabro e rolar comigo no chão.
Atiro o objeto antes que ela o segure completamente, a empurro e ela volta a ficar de pé, apelando para a pior das hipóteses.
Zelena puxa o revolver de dentro da roupa e aponta na minha direção. Estou sem saída.
— Merda... — o som sai vazio, sem ar, estou sem fôlego.
— Foi a única maneira — sussurra ela. — Me desculpe.
Estou refém quando Emma entra e se depara com a cena. Ela grita, assustando Zelena que olho na direção da porta, abrindo uma brecha para eu pensar depressa. Apanho o candelabro sorrateiramente e ataco Zelena por trás.
Minha irmã sente a pancada e não tem tempo para alcançar sua cabeça. Ela tomba no chão, com arma e tudo.
— Ai, meu Deus! Meu Deus! Meu Deus! — Emma grita, põe as mãos sobre os lábios e largo o que acabei de usar para ferir minha irmã.
— Calma, Emma, calma! — Peço, me ajoelhando ao lado de Zelena e virando seu corpo. — Eu precisei fazer isso. — Digo em tom de lamento.
Emma se aproxima após se acalmar e me ajuda com Zelena. Colocamos ela no sofá e tenho que explicar o que estava acontecendo anteriormente. A testa de minha irmã começa a sagrar. Talvez eu tenha batido com força excessiva, só sei que agora quem não sentirá perdão é ela. Rapidamente Emma vai até a cozinha, arruma uma toalha e gelo para estancar o sangue e o hematoma que causei na testa de Zelena. Dez minutos mais tarde, minha irmã recobra a consciência.
— Oi, é a Emma, Zelena. Tá tudo bem. — diz a loira, a primeira coisa que minha irmã enxerga. Tenho certeza que Zelena está tonta, confusa, ela não lembra o que houve.
— Emma? Onde está minha irmã? — A voz dela é presa, rouca. — Preciso falar com a minha irmã. O que aconteceu?
— Fica quieta aí, não se mexe. Você levou uma pancada na cabeça.
— Pancada? — Zelena se senta brevemente, mas volta a se deitar por conta da dor. — Ai! O que foi isso? Que dor é essa?
— A gente te explica, dá só um tempo, okay?
— Regina... Me perdoa. — Zelena balbucia. — Eu fui tão injusta com você, irmãzinha. Perdão. Sinto muito. — Ela desaba sobre o sofá e volta a ficar inconsciente.
Acho que seria certo leva-la ao hospital, mas Emma se recusa a sairmos com ela, ainda mais Zelena sendo agente a paisana.
Até minha irmã acordar outra vez o celular em seu bolso toca diversas vezes. Tiro o objeto do bolso para saber quem é e todas as ligações são de Robin, o marido dela.
— É o Robin. Deve estar procurando por ela.
— Na próxima vez você atende e diz que ela está aqui. Diga que ela está bem, que está muito abalada para responder porque vocês discutiram e que ela vai passar a noite aqui.
— Não sei se é uma boa ideia.
— Apenas faça o que eu digo. — Emma ordena, saindo de perto para buscar curativos. Ela segura o gelo sobre a testa da ruiva e quando o sangue para de escorrer, cola suavemente o band-aid no lugar. — Amanhã ela terá bastante tempo para explicar o que aconteceu.
— Ela não vai passar tanto tempo dormindo.
— Certamente não, mas vai sentir dor e muita raiva de você.
— Mais do que já estava.
Robin liga pela décima vez e enfim o atendo. Explico o que Emma sugere e ele não parece acreditar muito, ainda assim se conforma e desliga.
Passa-se um tempo, eu recolho a arma do chão, recoloco o candelabro intacto no móvel e observo Zelena desacordada. Há um misto de sentimentos me matando por dentro. Ainda sinto ódio, dor e medo, mas também sinto tudo isso por ela. Me coloco no lugar dela, finalmente depois de tanta insistência de Emma. A loira por sinal não fala comigo enquanto Zelena não desperta. Compreensível, porque me deixei levar e não fiz nada do que ela pediu, pelo contrário, deixei que minhas emoções viessem a cabeça.
Emma me olha, não consigo mais olhar para minha irmã sem sentir vergonha. Ela percebe e se levanta, vindo até mim.
— Tá vendo o que você fez? Eu avisei tanto. Não tinha que ser assim.
— Ela apontou uma arma para mim, eu não tinha escolha.
— Tinha sim. Eu aposto que ela tentou conversar com você da maneira certa.
— Eu não podia ser covarde depois de tudo o que ela fez.
— Você está aumentando muito a atitude dela. Caramba, ela esteve errada sim, mas e daí? Ela veio tentar consertar, não foi?
— Ela quase acabou com a minha vida e quase destruiu a sua também. Você ainda vai ficar do lado dela?
— Eu vou. Eu vou porque eu sinto que ela se arrependeu.
— Sei. E tudo o que eu passei? Vou ter que esquecer?
— Não. Mas não fica remoendo. A Zelena te procurou de um jeito hoje, você foi agressiva com ela o tempo inteiro, ela tentou de novo e você foi ainda pior. Depois sabe o que vai acontecer? Ela vai desistir de te pedir perdão e quando a sua ficha cair vai ser bem tarde pra você pedir perdão a ela.
Volto a olhar de canto Zelena deitada no sofá. É uma tortura que me faz desejar não estar na minha pele. Emma segura minha mão direita e me leva até o sofá.
— Vem cá. Só um pouco. Vem.
— Não, Emma, não quero.
— Vem logo. — Ela me puxa e me faz ajoelhar ao lado do corpo da ruiva. — Pede desculpa.
— Eu não sou criança — Olho indignada para Emma.
— Mas vai pedir desculpa.
Minha namorada soa muito séria, infinitas vezes mais madura do que eu nesse momento. Olho o rosto de minha irmã e ele começa a recuperar a cor depois de tanto tempo. Sou preenchida por uma sensação de empatia, de remorso principalmente. Não é preciso que Emma me empurre para segurar a mão dela e conversar como se ela estivesse morrendo e aquela fosse a última chance de pedir perdão.
— Eu... Eu sinto muito, Zelena. — É tarde para voltar atrás, não consigo me sentir menos aflita. — Desculpe. Sinto muito, de verdade.
Um minuto depois ela abre os olhos, vira o rosto na minha direção com dificuldade, mas sabe que sou eu ali ao seu lado.
— A minha intenção nunca foi te magoar. Errei como qualquer pessoa iludida com promessas, te envolvi em uma coisa que não fazia parte do seu mundo. É óbvio que eu morro por dentro toda vez que me lembro do que causei a você e Emma. Tudo o que eu mais desejo para ter paz é o seu perdão. — Diz ela vagarosamente.
— Vamos deixar o passado para trás, vamos tentar.
— Eu juro que essa foi a última vez que te importuno com esse assunto. Você escolhe o que quiser, não é obrigada a seguir o meu conselho. O FBI vai cumprir com o que prometeu você estando dentro ou não.
— Ainda há tempo para pensar, não? Esquece isso um pouco, nosso assunto é outro.
— Que porrada, hein? Eu consigo ver todas as constelações e planetas girando e girando...
Isso me faz rir e segurar sua mão mais firme.
— É, dei uma exagerada.
— O que vou dizer ao Robin amanhã? — ela ri, colocando a mão no lugar ferido.
— Pode dizer a verdade, que brigamos e eu fui covarde te atacando por trás.
— Ah, ele vai querer dar o troco.
— Eu encaro, viu?
Rimos juntas. Emma nos deixa a sós na sala, vendo a falta de necessidade que tem naquele momento. Antes que ela suma para dentro do corredor, ela nos olha e suspiro aliviada. Consinto com a cabeça, como quem agradece e recebo seu sorriso de orgulho de volta. É quando me dou conta de que amo uma mulher com um grande poder de cura. O poder de se curar. O poder de me curar. Não há palavra que compreenda melhor o que Emma faz.
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