For the love of her
30 Identidade Regina Mills
Notas iniciais
Uma arma apontada para meu rosto, uma irmã desequilibrada e uma mulher tentando me convencer de que eu estava sendo dura de mais com alguém. Soa estranho, sim, concordo. Mas por um breve momento enquanto pedíamos perdão, Zelena e eu, concordei em lembrar o que tinha acontecido e não me parecia nada comum uma sucessão de coisas para prestar atenção.
Enquanto Emma estava lá dentro conversei com minha irmã, ela não demorou mais que duas horas para se sentar no sofá e segurar ela mesma o pano com gelo. Questiono o que a deixou louca para me empurrar uma missão como a do FBI e ela reluta a princípio, mas fala de uma vez, como se despejasse uma bronca sobre si o que estava acontecendo. Como eu podia imaginar, Robin fazia questão que sua mulher o obedecesse. Ele não se conformava em ter perdido uma posição no cargo que ocupava. Dava para ter uma noção básica da frustração, afinal, se eu fosse ele me sentiria da mesma forma. Imagina você sendo uma advogada de renome, competente e de alto padrão, precisando se rebaixar a trabalhar no mesmo nível que um estagiário. Há diversos pontos a serem considerados, mas em nenhum momento abri mão do meu argumento dele ter feito uma grande merda comigo.
Zelena andava desamparada, sem poder abrir a boca para brigar com ele porque, como mulher, ela tem medo. Por mais que pareça independente e muito esperta, eu sempre achei que debaixo daqueles cachos ruivos tinha uma garotinha chorona. Lembro quando ela voltou da escola um dia e estava triste porque fizeram bullying com seus cabelos cheios demais. Papai foi muito específico em suas palavras e acalmou a garota. Esse episódio lembrado por mim nos fez rir e foi o que usei de exemplo para ela não ruir diante do marido. Eu tenho que confessar que não sei lidar com homens quando o assunto é relacionamento, nem quero me lembrar o fracasso que foi o meu com Killian para ilustrar outro exemplo, mas pode ser que exista um homem sensato nesse mundo que possa ajudar meu cunhado e Zelena a se entenderem. Como Emma gosta de dizer, toda história tem seus dois lados. Por mais otário que Robin possa ser, ele deve amar Zelena de um jeito ou de outro e está cego depois de tudo o que ocorreu. E, se ele realmente ama ela, ele vai parar para ouvi-la.
Me levanto e procuro numa das gavetas da cômoda um cartão do Gold. Levo até minha irmã e estendo para ela guardar.
— Esse terapeuta foi quem me ajudou na época em que eu estava muito mal. Ao meu pedido ele ajudou Emma também. Se for o seu caso ele pode encaminhá-la ao Sidney, um médico psiquiatra para receitar alguma medicação. Você está completamente confusa, está beirando a loucura. — Pego o revólver onde o deixei e retiro as balas de dentro. — Estava carregado. Você poderia ter causado uma tragédia.
— Desculpa. Um milhão de vezes desculpa, Regina. — Ela observa o nome no cartão e coloca ele no bolso. — Você acha que devo contar ao Robin que vou fazer terapia?
— Não agora. Procure melhorar e seja cordial com ele quando for dizer. Vocês se amam muito, entendo. Ele vai te ouvir se você for com cautela. Não apresse nada.
— Queria nunca ter participado da sua desgraça. Era melhor ter deixado você em paz. — Lamenta ela.
— É tarde para lamentar os meus problemas. Coisas que talvez eu jamais esqueça que aconteceram, porque elas estão fincadas dentro de mim, viraram cicatrizes profundas que até agora não sei lidar.
Zelena sabia das feridas que preenchiam as minhas costas, ela tinha visto uma vez que Ingrid as limpou uma por uma. A carga emocional de uma metáfora pode ser mais assombrosa que ser direta, usando palavras cruas e chulas para ofender. Acabei cutucando Zelena de leve falando das dores que eu ainda sentia por causa das cicatrizes e foi ali que nossa conversa acabou. Para mudar de assunto ela tentou me abraçar. Retribui com calma e sinceridade.
— Você vai ficar bem sem mim?
— Quem disse que preciso de você? — brinco para testá-la e ela sorri.
— A Cora e o Henry sentem muito a sua falta. Ligue mais vezes ou os dois vão aparecer aqui qualquer dia, igual os pais da Emma fizeram.
— Pelo menos eles dois não são tão loucos quanto os pais da Emma eram. Que ela não escute isso. — Olho de relance para o corredor, mas Emma já deve estar dormindo.
— Ela iria concordar. — Zelena se despede de mim. Deixa um abraço para Emma e agradece.
Decido entregar a arma descarregada a minha irmã e só assim ela pode sair do meu apartamento, sem chance alguma de se descontrolar e ferir alguém.
É uma madrugada atípica com um comum acontecimento, prefiro não dormir. A varanda da sala ainda é meu lugar preferido no apartamento. Emma ainda me procura ali quando acorda, me abraça por trás e me pede explicações do depois da confusão de Zelena.
— Ela já foi?
— Foi. Foi embora há duas horas, nós conversamos o suficiente.
— Você deu um grande passo com sua família perdoando a Zelena. Consegue entender o quanto isso é importante?
— Acho que ainda não sei a dimensão.
— Se ainda não sabe, vai descobrir.
Emma tira o corpo d’água da minha mão e me puxa para segui-la.
— Tenho uma coisa para mostrar, quero saber o que você acha.
Ela busca um panfleto na bancada e pede que eu leia. É um anuncio que oferece ajuda de um grupo de pessoas para viciados em drogas.
“Problemas com drogas?
Nós podemos ajudar.
Venha participar do nosso grupo de apoio.
Palestras, desabafos, compreensão.
Reuniões todas as quartas a partir das oito nos fundos da Associação Cristã Nova Yorkina – ACNY”
— Não era esse que você frequentou por algumas semanas?
— Esse é outro, mais perto. Fica a duas quadras do restaurante. Acho que saindo de lá posso dar uma passada e ver como é. — Emma morde os lábios como de costume.
— Já faz algum tempo, não é? Quer saber o que eu acho? Não seria importante você saber o que você quer?
— Claro que sim, eu quero, mas é importante para mim ter a sua opinião.
— Para mim é importante sim que você volte a frequentar reuniões. Embora eu pense que há muita influência, todo mundo ali está procurando ajuda. Vá, vá sim e me conte como foi quando chegar.
— Então, Regina, eu liguei para eles ontem quando entregaram o panfleto no restaurante e fiquei sabendo que lá também há reuniões para pessoas que passaram por grandes perdas, estresses e traumas.
— Quer dizer que há reuniões para pessoas como eu? Muito doce da sua parte querer me ajudar dessa forma, mas eu não poso ir a esses lugares, meu amor.
— Por que não? Seu orgulho é tão grande ao ponto de te impedir de ouvir pessoas com histórias diferentes, com traumas como os seus ou com dores similares? Para com isso, você está muito tensa.
— É só uma forma de me defender. Me sinto melhor lidando com minhas dores sozinha.
Há um segundo em que Emma simplesmente desiste e para, desapontada.
— Tá bem, se você não quer ir eu entendo. Não vou ficar te torrando a paciência. Desculpa.
— Hey, tá tudo bem. — Me aproximo dela. — Eu só não lido bem com essa ideia.
— Eu é que sou uma tola, sempre achando que você vai ser mais flexível. Pensei que o que houve com a gente tivesse te mudado um pouco e mudou, mas não totalmente.
— O que aconteceu com a gente mudou muita coisa entre nós, na nossa relação, mas endureceu outras emoções ainda mais. Eu guardo a Regina do passado e por obrigação sou a do futuro.
— Já eu continuo sendo a Emma de antes, com o diferencial de ser ainda melhor que aquela viciada maluca. Sou aquela Emma, sóbria. — Me aproximo dela mais um tanto e ela me aperta assim como eu aperto o corpo dela no meu. Não trocamos um beijo, apenas um roçar de narizes.
É o bastante para sentirmos que basta uma ter o respeito da outra e tudo ficará bem em relação a nós independente de qualquer coisa. Emma sai com a mochila, vai para a faculdade e sei que hoje ela vai demorar. Tenho que fazer dos próximos dias rápidos o bastante para superar sua ausência; Estou no lugar dela como quando o relacionamento começou. Curioso, não? Como invertemos os papéis exatamente nessa etapa. Ela sai para estudar e trabalhar. Eu arrumo o apartamento, jogo fora o que não faz mais sentido, limpo as gavetas e armários, leio livros de receitas para fazer o almoço, aliso seu lado na cama imaginando um romance tórrido entre nós duas quando ela chegar. Eu até que tento perder tempo no Netflix como sugeria quando tinha que deixa-la sozinha, mas não havia um seriado ou filme que me prendesse a atenção.
Seis dias se vão numa velocidade tranquila, nada de novo, ninguém surge de repente como se fosse me dar uma notícia, mas Emma está lá para mim no fim da noite, ainda que exausta. Tenta me colocar para cima na hora do jantar, entregando um Cup Cake amassado de sobremesa.
— Sinto muito, eu comprei ele de uma moça no metrô enquanto ia pro restaurante. Está todo amassado porque coloquei dentro da bolsa e ele rolou lá para baixo. Meus cadernos devem ter esmagado.
A delicadeza do gesto me comove e dane-se se o Cup Cake está esmagado. Ela lembrou de mim durante o dia, está se esforçando tanto para ser alguém na vida. Ela me enche de orgulho. Mas ela sabe que não estou inteira ali. Falta uma parte da Regina que foi arrancada e que sinto falta de ser. Por isso mais duas vezes, de maneira bem singela, Emma tenta me convencer de que o grupo de auto-ajuda pode ser uma boa alternativa.
— Obrigada, meu bem. — Ela estende a mão sobre a bancada e entrelaço nossos dedos. — Aposto que está mais gostoso amassado.
— Sei que gosta de um mal feito. — Ela sorri e cisca com o garfo no prato. — Essa semana eu vou a reunião do grupo de apoio. Eles realmente são incríveis. Há muita gente procurando ajuda nesse lugar. Tenho escutado cada estória.
— Sei. Imagino quantas pessoas tenham problemas sérios com vício.
— Quer ir me buscar amanhã?
— Ir te buscar? Vai voltar muito tarde?
— Um pouco. Queria que conhecesse o pessoal também, fiz algumas amizades.
— Foi só duas vezes nessas reuniões e já tem amigos? Você é realmente de outro mundo, Emma.
— Se você fosse um pouquinho mais aberta poderia ter tantos amigos quanto eu.
— Acontece que eu não considero como amigos pessoas que me conhecem apenas há duas semanas.
— Nós vamos brigar, é? Você tem que ser sempre assim irredutível.
— Não, Emma, não vamos brigar, essa discussão é desnecessária. Eu te busco amanhã se faz tanta questão.
— Não precisa mais. Não quero. — Ela termina o jantar e se levanta para lavar a louça e entrar para o quarto logo.
Fico na sala terminando de organizar uma prateleira cheia de livros jurídicos colocados em ordem alfabética. Ali está meu consolo depois da pequena briga que tive com Emma. Por um momento me distancio da raiva que aquilo me causa e mergulho nas páginas de códigos penais. Quanta falta aquilo me faz. Sinto falta de usar as maiores palavras do mundo, até do cheiro da madeira de um cercado no tribunal. Daí me surge uma ideia, estudar as leis e encontrar uma brecha para conseguir minha identidade como advogada de volta. Existe, eu sei que existe em algum lugar uma forma de não ser acusada de falsidade ideológica quando a causa é nobre. Eu levo tanto tempo na caçada que as horas correm. O céu começa a despencar lá fora, chove muito no começo da madrugada, mas nem a falta de luz me impede de continuar. Acendo uma vela e me sento no sofá diante dos livros.
Do corredor com outra vela, Emma vem me procurar e quando ela se aproxima uma trovoada ecoa tão forte que até as paredes chegam a tremer.
— Você não vem?
— Desculpa, estou procurando uma coisa nesses livros, eu já vou para a cama.
Emma tenta entender o que estou fazendo e outra trovoada a pega desprevenida. Acho que ela veio apenas para sugerir que eu fosse para a cama.
— Não demora, por favor. — Ela retorna com a vela, está com muito medo. Um minuto depois ela se assusta com um relâmpago e corre na minha direção, mas eu já estou de pé esperando por ela.
— Calma, é só a chuva. — Ela se aperta em mim como uma criança.
— Se alguma vez eu te falei que adorava a chuva, eu estava mentindo.
Depois dessa noite, passamos a rir toda vez que caia um temporal. Emma usa o medo de trovões como desculpa para que eu use meu instinto de proteção com ela e muitas vezes acabamos dormindo no sofá da sala, pois parece mil vezes mais seguro mesmo que haja um monte de livros espalhados ao nosso redor. Emma questiona meu interesse em reler todos os códigos penais se a maioria de nada vai valer. É difícil explicar para ela que posso estar prestes a inaugurar uma ação penal no país com meu caso. Acabo respondendo que ela entenderá em breve se eu conseguir encontrar o que preciso.
Recruto Belle, a secretaria, para me ajudar na busca. Olhamos dicionários jurídicos, casos onde a falsidade ideológica foi deferida e chagamos a um consenso. Eu precisava estudar mais um pouco, mais alguns dias até ter exatamente a forma como iria usar meus direitos de forma que não fosse derrotada no tribunal.
Duas ou três semanas adiante, muitas idas e vindas ao escritório tanto de casa quanto o de ofício, devia uma explicação a Emma, acho até que um prêmio pela paciência. Outra vez chove e ficamos sem luz. Jantamos na sala, mais precisamente sobre a mesinha de centro e usamos velas para criar um clima propício. Ontem quando ela voltou, estava cansada para contar como foi a reunião, por isso deixou para hoje e tentei dedicar meus ouvidos a sua ansiedade de me contar o que andou escutando. Ela me contou a estória de um rapaz que chegara ao grupo naquela semana e que teve coragem o suficiente para se abrir diante dos que estavam presentes. Era uma estória tão triste quanto a de Emma. O cara simplesmente não sabia como largar as drogas e confessou que só havia entrado no grupo de apoio porque faria novos clientes, pois todos que estavam ali no fundo queriam uma desculpa para voltar a usar. Emma estava tão ofendida ao se lembrar que mal teve apetite para acabar a sobremesa. Se havia uma coisa que ela sempre teve ódio era de ser acusada do que não fez ou sentia, embora ela soubesse no que no fundo, bem intrinsecamente ela estava vulnerável e poderia voltar a usar num momento de crise. Em seu relato, ela me diz que todos que ouviam o rapaz ficaram indignados e que apesar do estresse ninguém o expulsou da igreja.
— Nosso coordenador considerou que o rapaz não estava ali somente com a intenção de arranjar pessoas pra fumar os baseados dele, ele queria atenção, queria ser ouvido também. Acho que eu concordo com ele, porque na época em que eu usava de tudo, eu só queria compreensão e de certa forma justificativas para continuar usando. — Emma empurra o prato da sobremesa sutilmente e se joga para trás encostando no sofá. — Então foi isso.
— Por que você parece tão aborrecida? Tem feito um grande avanço na sua recuperação.
— Não gostei do jeito como ele falou.
— Algumas pessoas tem o dom de estragarem o nosso dia quando tudo parece estar melhorando.
— Tenho que me acostumar com isso. Já aconteceu tantas vezes, já fui desafiada pela tentação tantas vezes, ainda assim parece complicado ouvir certas coisas. Mas e você? Já encontrou o que tanto procura nos livros?
— Estou perto e daqui a pouco mesmo vou continuar lendo.
— Vai seguir adiante com seu plano de processar o FBI? Não é algo meio que impossível de acontecer?
— Pera aí! Como sabe disso?
— Não sou tonta de não perceber o que você quer fazer. Desculpa se o que eu vou dizer vai te deixar chateada, mas você não tem chance.
Olho bem para Emma e fecho a cara.
— E você acha melhor que eu continue sem liberdade, sem poder ser reconhecida por quem eu realmente sou? Eles precisam pagar pela merda que fizeram.
— Vão alegar que estavam te protegendo, você é advogada ou amadora? Não tá enxergando nada e vai se meter em encrenca se continuar.
— Estou há dias procurando brechas nas leis para assegurar minha identidade de volta, Emma. Ainda que eles não sejam punidos, eu preciso ter os meus direitos novamente.
— Não precisa enquanto estiver aqui quieta, esperando o tempo certo. Alguma vez você vai me ouvir?
— Eu sempre ouço você, mas não posso ficar parada.
Ela se ajeita na frente da mesa e me encara.
— Pode sim. Não tenho me matado de trabalhar e estudar à toa. Eu tenho feito tudo por você. Regina, você me tirou da rua, me deu abrigo, me deu roupa, comida e carinho quando eu era uma desconhecida. Me deixa retribuir.
— É claro que eu deixo, Emma, é claro que eu amo tudo o que tem feito, todo o seu esforço e não nego nada que queira me dar. Eu só não posso abrir mão de mim, de quem eu fui e quero voltar a ser. — Meus olhos estão ardendo, eu aliás ando muito sensível e odeio admitir. Deve ser a fase do mês.
— Voltar a ser quem? Uma advogada famosa? Regina, você por si só é incrível, é o ar que eu respiro e já te dei provas disso muitas vezes. Um dia você vai voltar a ser advogada, mas agora todos pensam que está morta.
— Porque não sabem da verdade.
— E a verdade é tão importante assim nesse momento? Pensa que tudo acontece na hora certa, que um dia você vai poder vestir o seu terno favorito outra vez. É tudo questão de tempo.
— Eu adoro o seu raciocínio otimista, mas não cola comigo. Isso não funciona pra mim. Essa coisa do “siga seu coração” é um discurso de consolo que não me satisfaz. Eu amo o que você faz por mim, eu sei que você me ama muito, você me adora, mas nesse momento só amor não é o bastante. Eu preciso ser Regina Mills, a advogada que você conheceu, porque além do que você sentia por mim eu era feliz naquela vida que eu levava. Foi o que me ajudou antes de você aparecer, o trabalho.
Emma assume uma expressão de desagrado, fica de pé e recolhe os pratos.
— Acabo de descobrir que tenho um rival.
— Se estivesse no meu lugar entenderia.
— É isso que você sempre fala — ela larga os pratos sobre a bancada e se vira no breu. — Se eu estivesse no seu lugar eu aceitava que minha vida a partir de hoje não será mais a mesma. Eu iria ao grupo de pessoas com traumas para ouvir cada caso e entenderia que coisas ruins acontecem o tempo todo para todo mundo.
Me levanto e ando até ela.
— Quando eu morri, é, quando você se deu conta de que eu estava morta e que nunca mais ia me ver, como você se sentiu? Você lembra, não lembra? Seu mundo acabou ali e você viveu três meses de um inferno. Você não sabia mais quem era, o que queria, o que ia fazer...
— Eu me conformei porque eu acreditava que você estava me vendo de onde estivesse. — Ela arregalada seus olhos pra mim e quase me mata com a expressão deles. — Só acho que antes de ser Regina Mills, aquela Regina que eu conheci, uma mulher muito fechada e triste, você devia se entender com essa nova Regina que nasceu do que vivemos. As coisas não serão como antes mesmo que você volte a advogar. Seus clientes não serão os mesmos, seu nome não terá mais a importância que tinha e sua história vai ser outra. Você não será vista como heroína dos tribunais, será a mulher que haviam dado como morta e na realidade está viva.
Me afasto dela e ponho as mãos na cabeça, sentando no sofá. Apesar de muito cruel, Emma estava dizendo a verdade. Ela quer me proteger, quer evitar que eu me decepcione, mas existe forma pior de me decepcionar como já me sinto?
— Vai deitar. Você tem que descansar para acordar cedo amanhã.
— Tenho prova de finanças amanhã, não vou dormir sem antes estudar um pouco.
— Vou dormir aqui no sofá hoje. Boa noite.
— Boa noite.
Ela sai depois de seu tom de lamento, me deixando sozinha na sala escura, levando uma das velas consigo. Andamos discutindo por conta das minhas atitudes, do meu desespero em encontrar justiça para o meu caso. Odeio admitir que Emma pode estar certa e que não vou ter mais que uma fama negativa. Entendo sua mágoa de me ver procurando formas de ressuscitar uma pessoa que nunca mais serei, porém estou muito convicta da minha intenção e quando coloco algo na mente é difícil abandonar. Quero ir ao quarto abraça-la e dizer que ela também significa tudo para mim, quero dizer que estou arrependida e que vou tentar esquecer as coisas que tem me aborrecido por uns tempos, mas o orgulho é tão grande que não consigo abrir mão.
Amanhece e ela sai sem fazer barulho, deixou o café pronto para mim sobre a bancada, mania que eu estava começando a pegar dela. Vou tentar consertar nossa discussão logo mais, porque hoje decidi que preciso ir a procura de mais ajuda possível. Me arrumo e vou para a firma onde já não sou mais nenhuma morta-viva para meus ex colegas. Alguns já me cumprimentam e não há mais foto póstuma na parede. Dentro do escritório com Philip, o ex chefe, recebo mais um choque de realidade sobre as possibilidades do meu plano dar errado. Parece que todos estão contra mim, que torcem para que eu quebre a cara ou realmente estão tentando me proteger de algo que estão supondo apenas por não estarem na minha pele.
— Arriscado e nada convencional, Mills. Não tem chances a não ser que faça um acordo.
— E se minha irmã concordar em dizer o que sabe aos taloides?
— Manobra muito inocente da sua parte. Não há tabloide que derrube a policia secreta, logo darão um jeito de esconder as provas que os incriminam. Eles lidam com casos como o seu todos os dias, obviamente vão saber como proceder. Se você se garante tanto, vá em frente, eu posso dar o meu apoio e oferecer um dos seus colegas para ir com você, mas já vá sabendo que as chances de sair do tribunal como Regina Mills de novo são baixas.
— Não é possível, Philip, tem de haver alguma forma de estar em vantagem sobre esses caras.
— Você estaria em vantagem se encontrasse alguém que tenha vindo de dentro de alguma dessas camadas da polícia para ser sua testemunha. Sua irmã não pode testemunhar ao seu favor, pois ainda trabalha com eles.
— Alguém que venha de dentro... Acho que existe uma pessoa que pode me ajudar.
E sim, existe alguém perfeito para essa missão, eu só não sabia se ela ia aceitar a proposta que eu ia fazer, especialmente depois que pedi para ela nunca mais me procurar.
Eu creio que por conta da paixão que sente por mim, Ingrid aceitaria ser minha testemunha. E, por mais cruel que pudesse parecer para ela atender a um pedido meu, o que ela ia ganhar em troca valeria muito a pena no final das contas. Nós nos encontramos outra vez naquela lanchonete de sempre e ela sorri como quem sabe o que vou pedir.
— Por que eu sabia que iria me procurar? — Ela sorri mais ainda.
— Me deixa explicar, tenho certeza de que não vai se arrepender se tudo der certo.
Ingrid me escuta e compreende o que preciso fazer, é bastante complexo e custará o cargo dela, todavia o que eu ganharia com a vitória poderia ser facilmente dela, assim ela iria reconstruir sua vida se isso a interessasse.
Ingrid me diz que perdeu alguém que ela amava para o governo e que desde então não tinha gosto pela vida que levava como agente. A estória dela é bastante comovente, ela passa o resto da tarde me contando o que viveu quando foi a Palestina com sua noiva, uma moça chamada Anna. Ingrid e Anna planejavam se casar no final de 2011, namoravam desde a época em que trabalhavam em um distrito policial no Queens. Depois de receberem medalhas pelo trabalho excepcional em um caso específico, receberam o convite para irem ao FBI. De lá a carreira teve altos e baixos e as duas por vezes eram encaminhadas para missões muito desgastantes para o relacionamento. Juntas foram à Faixa de Gaza para desmancharem disfarçadas um grande esquema terrorista, mas Anna foi pega em uma emboscada dentro de um edifício em Jabalia e Ingrid não chegou a tempo de salvá-la. Desde então, nada mais fazia sentido na vida daquela mulher segundo ela mesma me contava. Trabalhar como agente por um tempo foi bom, só que a dor de perder o amor de sua vida era uma sensação muito trágica para suportar.
— Eu a amava tanto. — diz Ingrid tirando uma foto de Anna de sua carteira. Vejo a foto e fico impressionada com a beleza da moça.
— Nossa, ela era bonita.
— Sim, muito. Você sabe como ninguém a dor de não ter mais a pessoa que você ama ao seu lado. Eu vi Anna morta nos meus braços. Eu perdi Anna para o FBI e continuei trabalhando para eles mesmo assim. Acho que pode ser o momento de eu vingar a morte dela.
— Se ganharmos a indenização cobre suas despesas e você terá minha ajuda constante, pode ter certeza.
— Me conformo em ser caixa em uma mercearia se tiver algo na minha conta, nem precisa ser muito. — Ela limpa o rosto das lágrimas que deixou cair e tenta ser positiva.
— Sabia que podia contar com você. Não tenho palavras para agradecer tudo o que fez por mim e ainda por cima não ter ficado aborrecida com o que falei da última vez.
— Faço porque me identifiquei com o seu problema, não é pelo o que eu sentia se isso ainda ofende. Espero que entenda também.
— De forma alguma. Claro que entendo. — Me levanto e deixo o dinheiro da conta pelo o que consumi. — Agora eu vou indo, tenho que me encontrar com Emma e pedir desculpas.
— Vocês andaram brigando? — Pergunta Ingrid.
— Uma leve discussão ontem. Bom, eu entro em contato em breve, Ingrid. Obrigada mais uma vez.
Minha amiga, se assim posso chama-la agora, concorda com a cabeça e me vê sair na direção do restaurante onde Emma trabalha. Me sinto bastante comovida com o relato de Ingrid e me imagino em seu lugar, perdendo alguém que amo como ela perdeu. Se havia doído imaginar que nunca mais veria minha Emma, a dor de perder para sempre não poderia ser menor. Uma discussão, pequena que fosse, nos desestabilizava como se fossemos uma torre em construção. Emma era um dos meus pilares e sem ela eu não me sustentava. Sei que fui rude ao defender minha vontade e ela deve se sentir do mesmo jeito por ter insistido defender seu amor. Parece que nunca será o bastante para Emma me provar o quanto me ama. Eternamente essa será sua missão, enquanto eu prefiro dizer a ela pela forma como respiro e a olho. Só que apenas respirando e existindo na vida dela não provo nem a mim mesma que estou apaixonada.
Devolver Regina Mills a realidade em que ela vivia tem se tornado meu objetivo de vida, e não parei para pensar que talvez ela precise justamente ser outra. Dá tempo de refletir sobre o alerta que Emma me dá e dá tempo de juntar os cacos das nossas brigas. Talvez eu deva mesmo ir com calma para ter um resultado bom, sem abandonar minha ousadia em processar o governo. Só vou conseguir se eu tentar, não é mesmo? Pois então, que seja da maneira correta e no tempo correto. O “siga seu coração” que tanto falam nas reuniões que Emma frequenta pode me servir de algo. O momento de segui-lo é esse, e preciso provar para minha mulher que estou certa e que a amo muito de qualquer maneira, aceitando seus conselhos. Ambas estamos certas afinal, por que desvalidar os argumentos dela? Cada um pensa de um jeito, não existem exclusividades.
Chego no restaurante e lá me dizem que Emma já foi embora. Algo me diz que não foi para casa, pois lá se encontraria comigo e o clima ainda não era propício para conversarmos. Pergunto se ela disse para onde iria e aquele mesmo rapaz simpático da outra vez disse que ela pretendia visitar a igreja onde assistia palestras. Curioso, pois hoje não é dia do grupo de ajuda. Mesmo assim vou para a tal igreja e minhas suspeitas estão certas, ela está lá sentada solitária numa das cadeiras. O salão está absolutamente vazio quando chego e só se ouve som de passos ao fundo, pois ali atrás funcionavam as oficinas de canto e terapia.
A loira olha o altar, tinha deixado o material e a mochila ao seu lado na cadeira e parecia meditar enquanto Jesus olhava para ela lá do alto. Me aproximo lentamente, sem intenção alguma de surpreende-la e me sento na cadeira atrás. Ela sussurra algumas palavras, está chorando baixinho, pois funga. Pede juntando as mãos e faz o sinal da cruz, agradecendo.
— Amém. — Digo por ela que se vira espantada imediatamente.
— Oi — ela sussurra com um calor no peito notável.
— Oi — me ergo. — Amém. Seja lá o que você tenha pedido para ele.
— Pedi que iluminasse a sua cabeça e te desse paz, mais do que a mim que vive tendo crises. Esses dias todos, sabe? Eu não andei bem.
— Por que não me disse? — falamos baixo.
— Porque eu senti que ia atrapalhar. Está tão empenhada em achar uma forma de se libertar que eu não quis te interromper.
— Não importa o momento, se você sentir que precisa de ajuda diga pra mim.
Ela engole em seco e baixa a cabeça assentindo.
— Temos brigado tanto nos últimos dias.
— Discussões, não chegam a ser brigas.
— Me perdoa. — Pede ela, com frio, trêmula, mas sei que é a forma do corpo dela reagir ao medo.
— Sou eu quem peço desculpas. — Toco seu rosto lindo e pálido, tentando não fazer ela chorar. — Tenho que admitir que você esteve certa o tempo todo, que eu posso estar errada sobre agir agora e que eu devia ficar tranquila.
— Mas essa não seria você, pelo menos não aquela Regina que eu conheci.
— É. Não aquela que você amou desde o primeiro instante. Eu não quero ser aquela Regina de novo, só preciso dela para me sentir alguém de novo.
— É muita tolice da minha parte achar que só o meu amor te faria se sentir completa. Você também tem razão em dizer que só estando na sua pele para saber. Faz sentido, por tudo o que construiu sendo aquela mulher. Eu admiro, sabe? Eu acho bonita a forma como usou do trabalho para superar a dor de ter sido rejeitada pelo Killian.
— Ora, esqueça esse cara, ele não tem nada a ver com isso, afinal eu escolhi me abater.
— Claro que não...
— Sim, foi sim, eu admito que a depressão veio de mim e não por causa dele. Aceitei mergulhar profundamente num caminho ardiloso e saí muito ferida. Eu fiz uma escolha, Emma, assim como fiz quando te coloquei dentro do meu apartamento. A diferença é que não me arrependo de ter levado você comigo.
— Eu te amo. — Ela suspira com nó na garganta, me oferece a boca e aliso os lábios com os dedos.
— Eu também te amo. — Beijo Emma enfim. Um beijo cheio de afeto em que ela se entrega totalmente e eu só quero sentir a imensidão do amor dela.
Devagar ela para, ainda com o pescoço torto, me olha.
— Será que estamos cometendo um pecado fazendo isso numa igreja?
— E você quer testemunha melhor do que ele para abençoar nosso amor? — Aponto para Jesus de braços abertos no vértice do altar e ela sorri em forma de agradecimento.
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