Notas iniciais
Olá, leitoras, sejam bem-vindas de volta. Esse capítulo levou um tempo para ficar pronto e dentro dele já existe um salto de tempo que espero compreenderem. No mais, boa leitura.


Cerca de um mês mais tarde, é noite e decido me banhar na ducha com uma temperatura escaldante. A última vez que tomei banho nessa temperatura vivia um romance debaixo do chuveiro com Emma. Ela, a propósito, está sentada sobre a pia de mármore carrara, segurando uma maçã que degustava enquanto me olhava. Está ali desde que chegou do trabalho não tem muito tempo, e parece que sente um desejo avassalador só por me ver tocando minha própria pele com sabonete. Não sei como Emma consegue, mas minhas cicatrizes passam despercebidas aos seus olhos. Já a mim, incomodam e muito, especialmente nas vezes em que as toco com a esponja. Não consigo alcançar todas, mas a água faz o favor de escorrer o sabão por toda minha coluna.

Termino o banho e puxo a toalha para me secar depressa, enquanto Emma termina sua maçã como se estivesse entre minhas coxas me chupando. Ela me observa fatalmente e quando a maçã acaba desce da pia vindo na minha direção. Me empurra, me leva para a parede e rouba um beijo. Pega uma das minhas mãos e insiste para que eu apalpe o seu corpo. Não posso negar que vê-la desse jeito me excita, porém, acho que no momento em que nos encontramos, ela quer mais do que eu. Deixo ela dominar. Deixo ela dizer que sou linda, que quer me amar ali mesmo e ela prossegue empurrando meu corpo para a pia. Me sento como ela fez antes e abro as pernas para ela. A toalha não se sustenta sobre meus seios e cai me deixando completamente nua. Emma aproveita, se ajoelha e me chupa deliciosamente. Jogo a cabeça para trás e relaxo como há alguns dias não sabia fazer. Emma me conhece, sabe onde gosto de ser tocada pela ponta de sua língua e persiste. Agarro seus cabelos louros, enormes, compridos e exijo que ela continue, que ela me olhe enquanto me come muito bem.

Amo olhar seus olhos, a forma tensa como a sobrancelha se contrai, a língua desaparecendo e emergindo dos lábios dela em mim. É como se eu pudesse morrer naquele instante de felicidade e completude. Encontrei a mulher que me satisfazia sexualmente e nem parece que andamos brigando há poucas semanas. É verdade também que com amor o sexo se torna mil vezes mais potente, então não só prazer apenas por diversão, era tesão de paixão.

— Ahh... Isso...

Olhei para o alto com a cabeça erguida e meu corpo em erupção. Emma teve meu gosto na boca dela por cinco longos segundos. Vibrei como turbulência e soltei o ar pela boca. Emma subiu e me beijou com os lábios molhados de gozo e quando ela enroscou a língua na minha eu tive certeza de que queria mais.

— Foi muito bom — sorrio enfraquecida. — Quero de novo. Me ame assim de novo.

— Não precisava pedir. — Ela me desce da pia e se livra das roupas antes de chegar na cama para se deitar comigo.

Às três da manhã, depois de cansar de cavalgar na boca dela e de ser alvo daquelas mãos sedentas nos bicos dos meus seios, me levanto e esquento o jantar no micro-ondas.

Uma sensação estranha, uma ardência insistente começa a me incomodar e preciso saber o que está acontecendo. Encontro o primeiro espelho que vejo a minha frente na sala e tiro o robe dos ombros. Lá estão elas de novo, uma coleção de feridas cicatrizadas. Confesso ter me esquecido delas nos últimos dias, mas essa ardência me fez voltar ao passado por cinco segundos.

— Você nunca me contou o que foi que aconteceu antes delas aparecerem.

Emma está de pé no corredor, vendo meu desespero em tentar cessar a ardência. Recoloco o robe no corpo e o fecho me virando para ela.

— Não estou pronta para falar sobre isso.

— Eu também não estava quando te contei tudo o que aconteceu comigo.

Isso era algo que eu devia considerar, o tanto de vezes em que Emma contou suas histórias sem preparo. Emma era cinquenta por cento emoção e a outra metade impulso, quase sempre fazia tudo despreparada e acabava dando certo. Se eu não estava disposta a contar para ela ainda, devia-se ao meu orgulho imenso em fazer da minha estória maior que a dela o que não era verdade. Pois não estava em uma competição para ver quem havia sofrido mais. Não carregava aquelas marcas nas costas como uma prova do que vivi, eram apenas marcas que refletiam defeitos, todos eles se eu fosse parar para pensar. Um desses defeitos era justamente querer superar a dor dos outros.

Emma me conhece o suficiente para saber que é preciso tato comigo, muito cuidado para lidar com alguém que se parece um animal ferido, arisco, desses que vivem na floresta. Uma vez machucada, sempre ferida. Agora eram várias que se assimilavam com as feridas internas que ela também tinha. Portanto ela veio e me virou, tirou o robe e as olhou, as tocou. Me lembrei de quando ela as viu pela primeira vez. Emma fez uma cara de horror, mas entendeu que talvez fosse tudo o que eu não quisesse ver dela naquele momento.

— Não faça isso. — peço, fechando os olhos, de costas.

— No fundo você quer que eu faça isso. Eu também quero sentir de novo. — Ela começa a desenhar as marcas com as pontas dos dedos. É um carinho doce que me acalma e me faz ter coragem de contar como foi.

— No dia do acidente, no momento em que o carro virou... — Lembro de tudo num flash. — Meu corpo foi arremessado. Parti o vidro e fiquei presa entre os cacos quando o carro parou. Senti muitas dores e a única coisa que sobrou intacta daquele terno que eu usava foi a sua foto. Quando as vi pela primeira vez tomei um grande susto. Me disseram que eu tive sorte de estar viva, perdi muito sangue. Acho que o meu maior desgosto é o de carregar essas cicatrizes em forma de lembrança.

— Pois eu acho elas lindas.

— Não minta. A primeira vez que as viu você teve medo.

— Tive, é verdade, mas depois percebi que elas te deixavam mais sexy. Eu adoro cicatrizes.

— Seu senso de humor é ótimo...

— Eu sei. Também sei que deve ser ruim pra você lembrar que elas estão aí todos os dias. Sinto muito.

— Às vezes gostaria que elas desaparecessem.

— Não sinta vergonha delas quando estiver comigo. Só nós duas sabemos da existência delas.

— Minha mãe, Ingrid, Zelena e Henry Mills sabem da existência delas, não somos as únicas.

— Somente eu posso tocá-las assim tão intimamente quanto faço agora. E quando eu toco sei que você gosta, sua pele se arrepia.

— Quando você toca qualquer parte do meu corpo eu vou me sentir subindo ao céu, Emma.

Me torno a ela e a beijo romanticamente.

Daqui em diante, todas as noites, Emma hidrata minhas costas com uma espécie de creme de maçã verde, porque o cheiro é exatamente igual. Ela trouxe a iguaria da farmácia esses dias quando foi comprar os remédios que evitavam suas crises de abstinência. Confesso que não notei melhora alguma na minha pele, mas aceito receber aquela massagem, pois me sinto relaxada após tanta preocupação.

A propósito, Emma me pergunta como vai a investigação que eu fazia por conta própria para entrar com uma representação contra o FBI. Bem, acho que na verdade a questão anda aos trancos e barrancos. Já li todas as leis que circundavam o governo e como eu devia proceder. Eu poderia ter uma conversa bastante séria com o procurador do estado de NY ou até com os representantes do governo em Washington, mas os atuais escândalos políticos me afastavam cada vez mais das autoridades e a minha ideia principal de começar com uma citação simples era a escolha menos arriscada de morrer na praia.

Com praticamente tudo pronto para levar a justiça, na véspera da minha iniciativa fui surpreendida com a visita de Ingrid e Zelena ao apartamento, Emma estava lá também, chegou mais cedo. Elas levaram um susto ao me ver abrindo a porta, como se conversassem alguma coisa que eu não ia gostar de saber. Emma se levanta e sorri, mas eu já sabia que falavam sobre mim.

— Surpresa. — diz ela, beijando meu rosto em seguida.

— Veio mais cedo para casa?

— Eu optei não ir a reunião do grupo de apoio hoje. Zelena e Ingrid estão aqui para conversar com você.

— Nossa, mas há quanto tempo, não é? — Sorrio para as duas e brinco, porque estive com Ingrid há apenas dois dias no escritório.

— O suficiente para descobrirmos algo que você tinha que saber antes de qualquer outra pessoa. — Diz Zelena, largando um copo de whisky no bar. — Mostre para ela Ingrid.

A outra loura põe sobre a mesa uma foto de uma mulher latina grávida e um gravador de áudio dos anos 90. Minha reação não é das mais compreensíveis, as duas estão muito sérias. Zelena, em especial, parece bastante comovida e suponho que o que quer que tenha nessa fita a fez começar a beber as garrafas de whisky do meu bar.

Ingrid espera um momento, assegura que estou pronta para ouvir e aperta o Play.

“Como se chama?”

“Amélia Angelis.”

“Quantos anos a senhora tem?”

“Vinte e seis.”

“Por que tentou fugir dos nossos agentes, senhora Angelis?”

“Por... Porque estou em situação ilegal neste país.”

“A senhora cometeu um crime ao desrespeitar uma ordem. Quem mais estava com você quando nossa equipe entrou no apartamento?”

“Somente eu estava no apartamento.”

“A senhora não tem a necessidade de mentir agora.”

“Não me pressione!”

“Senhora, queira colaborar conosco ou será deportada sem seu filho.”

“Vocês não vão ficar com ela!”

“Então trata-se de uma menina?”

“Olhe só, eu estou neste país porque se eu permanecesse em ‘Puerto Rico’ essa criança morreria de fome.”

“Como vai se chamar sua filha, senhora Angelis?”

“...”

“Cómo se llama la ninã?”

“Vitória...”

“Tiengo un acuerdo para hacer. A senhora pode permanecer no país até o nascimento da criança. Após isso nós deixaremos que volte sem processá-la por infringir a lei de imigração e a criança poderá ir para um orfanato.”

“No, no puedo.”

“Será el mejor para la ninã.”

“...”

“Compreende que la ninã puede tener una familia con condiciones de crearla?”

“...”

“Senhora Angelis?”

“Está bien! Não consigo sequer me sustentar aqui, o que vou dar a essa pobre criança?”

“Sábia decisão, senhora. Vamos enviá-la ao abrigo de latinos em Atlanta e a senhora terá todo o suporte que precisar até o nascimento da criança.”

A gravação acabava naquele ponto e estava em choque. Olho para Zelena, incrédula. Depois olho para Ingrid e tomo ar diante da expressão triste que ela tinha. Olho para Emma e ela assente nervosa, pisca muito, sem jeito.

— Isso aí que acabamos de ouvir não é o que estou pensando, é?

— É sim. — Diz Swan. — Foi isso que elas trouxeram. Sua mãe biológica.

Tenho que parar um momento, respirar e entender o que era aquilo. Olho para a foto ao lado do gravador e vejo o rosto da mulher. Muito humilde, tinha aparência boa, mas suja e profundamente triste. Imaginei ela com as mesmas condições de Cora, pessoa de classe média, casada e bem-sucedida. Seria outra mulher. Coloco as mãos no rosto e afasto os cabelos para trás. Eu não sei se quero chorar ou rir da descoberta incrível que Ingrid e Zelena tinham feito.

— Encontramos nos arquivos de deportações depois que a Ingrid teve a ideia de procurar sua mãe biológica. Você pode agregar isso ao processo. Pode dizer que o governo escondeu sua mãe biológica por interesses particulares. — Zelena fala.

— Não tem nada a ver.

— Claro que tem, afinal de contas é um processo pela sua identidade e isso acrescenta a gravidade do erro deles. Por duas vezes te roubaram.

— Quantos anos tem essa gravação?

— Presumindo, tem a sua idade. Foi feita alguns meses antes de você nascer. — Ingrid comenta.

— Não posso usar isso no processo. — Ainda me sinto em choque.

— Será que não? — Pergunta Ingrid.

— Eu não quero ser Vitória Angelis, eu quero ser Regina Mills, entenderam? Que ideia genial de fuçarem onde não deviam. — Esbravejo.

— Regina, calma, por favor... — Zelena me abraça e me segura em seu peito. Não consigo suportar uma bomba como aquela caindo sobre a minha cabeça. Não consigo chorar, nem gritar mais, nada.

— O que foi que você fez, sua idiota? — falo abafada.

— Pensamos que te ajudaria. Eu sinto muito, não queria que soubesse assim.

— Quê? Que a minha mãe era uma latina pobre que veio tentar a sorte nos Estados Unidos e optou por não voltar comigo para casa? Eu sempre disse o quanto sou grata por vocês terem me adotado, eu nunca questionei quem foi essa mulher.

— A gente sabe, também nunca tocamos no assunto. Mamãe sabia da sua procedência e desde cedo ela quis contar como você se tornou filha dela, só que agora a verdade convém e você pode sim usar no seu processo contra eles. É uma chance de ter vantagem, pelo menos uma bem pequena que deixaram escapar.

— Por duas vezes... o FBI me odeia porque nasci de uma imigrante ilegal...

— Sinto muito. Acho que não devia ter tido essa ideia. — Ingrid recolhe a foto e o gravador.

Me desvencilho de Zelena e olho para o teto, insistindo em procurar um choro que não vem.

— Não foi desse jeito que pedi para me ajudar.

— Regina, por que que você tem que ser desse jeito? Você tem vergonha de descobrir que sua mãe optou por te deixar nos Estados Unidos? Ela não teria como criar você. O que você tá pensando? — Emma se manifesta com seus braços cruzados, criticando minha atitude de não gostar do que ouvi.

— Você não entende.

— Já entendi tudo sem precisar ir muito longe. É isso mesmo, você tem vergonha, continua tendo vergonha que saibam do seu passado e da sua vida. Eu tenho uma coisa pra dizer, tá legal? Você pediu ajuda, então se acostuma porque é justamente sobre a sua vida que a sua irmã e a Ingrid vão fuçar para encontrar o que for em seu benefício. Devia estar mais agradecida do que puta com elas.

— Muito bom, muito bom mesmo, Emma. Valeu, Zelena, valeu, Ingrid, vocês são incríveis, devo tudo a vocês. Agora se me dão licença — Eu digo com ironia. Dou as costas com brusquidão e saio do apartamento.

— Pera aí! Onde você vai? — Emma questiona.

— Por aí. — Bato a porta e pego o elevador deixando as três abismadas.

Então eu havia descoberto que minha mãe biológica era uma imigrante ilegal que fugiu de Porto Rico para tentar ter sua filha em paz na América. Muito bem, eu estava bastante abalada com essa nova informação ao mesmo tempo que não conseguia aceitar. Não era tanto o FBI me ferrando pelas costas, era a questão de eu finalmente saber quem era Amélia Angelis. Cora uma vez me contou que o nome dela era Amélia, que eu tinha os olhos dela e isso foi tudo o que sempre soube dessa mulher. Era uma carga infinitamente pesada para segurar, saber que ela foi muito mais do que eu sempre acreditei. Nesse momento quero não existir, quero sumir e admitir que me odeio. Odeio minha vida, odeio todo mundo, odeio tudo o que aconteceu comigo até hoje.

O elevador chega no térreo e estou sentada no chão dele, segurando a porta com o pé para não subir nem descer.

— Senhora? Está tudo bem? — O porteiro me vê de longe e procura saber o que estou fazendo ali.

— Não, não está. — Levanto e saio do prédio.

A única coisa que tenho nos bolsos são as chaves, quinze dólares trocados e um cartão de crédito no nome de Emma. Não vou usá-lo em um bar para encher a cara como eu faria há quatro anos, preciso de alguém que me entenda e que não seja a loira que mora comigo. Vou de metrô até ele, rezando para que ainda esteja em seu consultório e que não se assuste com uma recém voltada dos mortos batendo a sua porta.

Toco a campainha da sala dele no edifício comercial duas vezes. Uma luz está acesa lá dentro. De repente alguém aparece e abre a porta. É Gold.

— Eu estava torcendo para você ainda estar aqui a essa hora.

Ele segura o salto que ia dar com o leve susto que tomou, me reconhece e não diz nada do gênero: Você está realmente viva!

— Para a sua sorte às quartas eu trabalho até nove da noite. Entre, Regina.

Ele me convida como um velho amigo. Não mudou muita coisa ali, o consultório é praticamente o mesmo daquele que andei frequentando. Gold me oferece água, suco, tudo o que tem porque julga minha aparência cansada e roupas descoladas demais para alguém que ele sempre viu vestida de maneira formal. Mal sabia ele que até eu estava cansada de andar de jeans, jaqueta e botas o dia todo.

Canso de pedir desculpas pelo incomodo que causo indo até ele, Gold era a única pessoa que eu sabia que me ouviria e principalmente entenderia o que eu estava sentindo. Ele explica que já faz um tempo que tem saído tarde do consultório, porque não sente vontade de voltar para casa já que lá o faz lembrar do seu relacionamento fracassado. Ele puxa minha atenção nesse momento, me fazendo esquecer por breves segundos o que fui fazer ali.

— E ela simplesmente me disse que não queria mais nada comigo porque sou velho. — Ele fala como se achasse graça, está colocando café em um copo e vem se sentar na minha frente. — Você acha que estou velho?

— O importante é saber quantos anos realmente você tem.

— Faço 45 em Janeiro.

— Não, você não está velho. Ela é quem é burra de preferir gente mais nova.

— Se Emma dissesse que você está velha o que você faria?

— Também diria que ela é burra. — Damos risada juntos. — Isso nunca me aconteceu. Sempre me envolvi com pessoas que não ligavam para idade.

— É, acontece. — Ele coloca o copo sobre uma mesa ao seu lado e me olha com calma. — Foi um grande choque quando recebi a notícia da sua morte. Depois acabei entendendo quando me pediu para cuidar da Emma. Ela precisou muito de ajuda.

— Acho que vim até aqui para agradecê-lo também, eu sabia que podia contar com você.

— Você previu que ia ser levada? O que aconteceu?

— Foi algo que passou pela minha mente naquele dia. Não sei explicar. A Emma estava batalhando tanto para ficar bem e aconteceu tudo logo em cima da hora. Não sei como ela sobreviveu tanto tempo sem a minha presença.

— Ela foi muito forte.

— É, ela é incrível.

— Sua irmã esteve aqui recentemente. É uma ruiva, não é? Zelena é o nome.

— Sim, eu recomendei, está com problemas no relacionamento, anda se sentindo pressionada e achei que você pudesse dar uma palavra de conforto a ela.

— Fez bem, ela tem vindo regularmente. Mas tenho a impressão de que não foi nem por Emma nem por sua irmã que me procurou. Estou errado?

— Não. É sobre um assunto que acabei de descobrir.

Conto para ele em um resumo como andava minha vida e a descoberta bizarra que acabara de ocorrer. Ele, como todo bom terapeuta, me espera concluir para avaliar e dar sua opinião. Leva um tempo até Gold se posicionar e a pergunta clássica acaba acontecendo.

— Como você se sente?

— Eu não sei. Juro que não sei o que estou sentindo. Ódio, angústia, rancor.

— Você procurou por aprovação o tempo inteiro e nunca imaginou o porquê. Estava na cara que era pelo abandono dessa mulher. Na verdade, nem abandono foi, ela escolheu deixá-la nesse país para o seu bem, mas na sua cabeça, sem a maturidade devida você interpretou como um abandono. Muitas frustrações poderiam ter sido evitadas se você compreendesse a atitude dela desde o início, Regina.

— Não condeno mais a Amélia, até agradeço. É que não sei, não dá para aceitar agora depois de tanto tempo.

— Você já aceitou, só não quer admitir. Seu ego é enorme e um grande causador de problemas.

— É, eu sei.

— Por que fugiu? Se eu bem conheço Regina Mills ela daria um jeito de descontar a raiva em algo, alguém. Não era isso que você fazia quando lembrava do Killian?

— Eu saía de casa atrás de uma mulher nos bares dos hotéis e levava elas para cama. Transar era minha maneira de descontar. Hoje não consigo fazer isso. Olho para Emma quando fazemos amor e é tudo diferente, ela é diferente. É bom, é muito bom para apenas ser feito, eu quero aproveitar o prazer que ela me dá.

— Bom, vejo uma evolução no caso. Você finalmente admitiu que a ama.

— É eu amo a Emma. — Olho para minha mão e lembro que bem onde parei os olhos Swan tem uma tatuagem com um R. — Sei que ela também me ama e se preocupa comigo. Acho que fugi porque não quis admitir que ela estava certa.

— E gosta tanto dela que continua tentando se mostrar a mais forte da relação. Ah, se você tivesse descoberto tudo isso antes, enquanto se consultava comigo, nós teríamos encontrado soluções de maneira mais eficientes.

— Não, aquela Regina não estava aberta a soluções.

— E essa por um acaso está?

— Digamos que eu esteja melhorando.

— Bom, se está aberta a ouvir um conselho, por que não faz como a velha Regina? Desconte em algo ou alguém. Ande um pouco por aí, esfrie a cabeça e decida se vai fazer do seu passado um presente constante.

— Tá sugerindo que eu pare em um bar para beber ou saia por aí socando as pessoas aleatoriamente?

— Estou dizendo que você pode fazer o que você quiser para fugir do problema, mas enquanto não encarar ele não vai resolvê-lo.

O ponto estava em encarar o problema, acho que eu estava começando a entender. Uma ideia louca me surge e vejo nela uma aliada para solucionar outro velho problema. Afinal eu tenho um ego gigante que alimento sem me dar conta e acabo sempre arrependida. Por que não começar a quebrá-lo, amolecer e cortar o mal pela raiz? Antes de tudo tenho que concordar com o que quero fazer, por mais esquisito que me pareça. Reflito bem se é exatamente o que eu preciso, e chego à conclusão de que sim.

Uma hora mais tarde estou na porta do prédio de Killian, pois é, eu ainda sabia onde ele morava. Subi até seu apartamento e toquei a campainha, aguardando o cara que foi meu noive sair dali para falar comigo. Ele demora uns três minutos e vem, abre a porta com desconfiança. Está bem de novo, bonito como sempre foi, de barba feita e impecavelmente cheiroso, prestes a sair de casa para ter um encontro com alguma mulher disposta a participar de uma orgia.

Killian sorri de maneira maliciosa, me observa da cabeça aos pés.

— Você voltou mais bonita, sabia?

— Obrigada.

— Eu ouvi um boato na empresa de que alguém ligado ao David Swan tinha morrido e voltado. Logo associei a Emma e soube que era você. Fiquei realmente triste quando recebi a notícia.

— Todos ficaram. — Entrei por conta própria no apartamento dele, encostando a porta e o empurrando para dentro sem precisar usar as mãos.

— Por onde andou? — Ele solta com o sotaque britânico.

— Longa história. — Paro e sorrio, mascando um chiclete de menta antes de parar diante dele. — Killian, você se lembra de ter me oferecido a ajuda que fosse caso eu precisasse?

— Lógico. Chegamos a conversar no dia em que você “morreu”.

— É, isso mesmo. Pois bem, eu preciso de ajuda.

Dava pena de vê-lo tão bem vestido para sair, pois em alguns segundos eu talvez detonasse sua vontade de curtir qualquer lugar.

— Hum... Tem a ver com a Emma? A propósito, ela está bem? Eu tirei ela de uma piscina, prestes a se afogar...

— Me poupe, eu sei da história. Não tem a ver com ela, tem a ver conosco, você e eu. — Abro outro daqueles sorrisos, me aproximando ainda mais de seu rosto. — Pensou que eu fosse pedir uma ajuda para um ménage a trois? Tenho certeza que pensou, você só pensa com a cabeça de baixo.

— Não. — Ele franze o rosto, estranha.

— Imagino que esteja de saída, não é? Onde pretende ir todo vaidoso? Vai a algum clube de swing?

— Na verdade eu estava indo me encontrar com um grupo de amigos.

— Já imagino que tipo de amigos. — Encosto Killian na parede e falo rente a seu rosto. — Será que não podemos ter uma preliminar antes de você sair?

Ele levanta uma sobrancelha e respira fundo.

— Tem certeza de que quer fazer isso?

— Eu nunca tive tanta certeza na minha vida. — Íntimo ele com os olhos, sussurro e o seguro pelo colarinho da blusa azul profundo.

— E a Emma? Você não pode enganá-la desse jeito. — Killian fica tenso, é notável.

— Quem disse que vou enganá-la? Ela vai gostar de saber. — Estou tão próxima dele que sinto seu hálito fresco, mas não sinto falta da boca dele na minha nem da forma como ele me dominava quando brigávamos. Aquela tensão entre nós poderia excitá-lo, mas a mim dava mais raiva.

— Você sabe que não concordo com esse tipo de atitude. Antes ela sabendo do que confusão pro meu lado depois. — ele chia.

— Pode relaxar que eu vou contar tudinho depois que eu fizer com você o que estou pretendendo. — sussurro novamente.

Apesar de não concordar com o que ele pensava que eu ia fazer, Killian segura meu rosto, sorri maliciosamente e tenta me beijar. Acaba ficando fácil chutar bem no meio das coxas dele com o joelho. Ergo a perna e acerto, fazendo ele urrar de dor e se abaixar, é quando levanto seu rosto e acerto com um soco de direita. O panaca cai no chão nocauteado, com uma mão entre as pernas e outra no queixo.

— Que merda foi essa?! — balbucia.

Sorrio com o sucesso e me agacho, pegando-o pelos cabelos.

— Eu sempre quis fazer isso desde que você me deixou, seu desgraçado. Quer saber o que eu quero que aconteça com você? Eu quero que você se foda! Tá me ouvindo? Eu quero que você se foda. Por tudo o que me fez passar, pelo o que me fez sentir, você vai para o inferno, verme. Pronto, era essa a ajuda que eu precisava.

Me ergo e bato as mãos na roupa, limpando a sujeira que Killian significava na minha vida. Depois de todo esse tempo eu me poupava de culpá-lo. Eu nunca soube dizer o que eu realmente queria e aí estava, eu queria que Killian fosse pro inferno. Sei que em algum momento de racionalidade vou estar lamentando ter dado um soco nele, mas acho que não vou me arrepender de colocar para fora algo que sempre me fez tão mal.

Volto para casa com o coração menos pesado, liberta para segui-lo quando eu precisasse. Agora é encarar Emma ou não acordá-la com meu barulho. Ela não deve estar nada feliz com minha atitude infantil de fugir dos problemas, mas sempre fugi quando era uma opção. Nós teríamos uma conversa séria, mais uma entre tantas nos últimos dias e minha cabeça doía só de pensar nela dizendo que mudei e estou agindo de maneira estúpida, e que mesmo assim ela me ama e quer continuar do meu lado. Se eu fosse Emma estaria em grande dúvida em continuar comigo, seguir nosso plano de viver juntas e se curar. Não teria a paciência dela, nem a delicadeza de acreditar que vou ser melhor amanhã. Sempre acontece algo que me quebra por dentro e me desafia por fora. Eu desabo, enfraqueço e me exponho diante dela. Ela está pronta para me enfrentar muito mais do que eu mesma. Posso chamar qualquer atitude dela de amor e é isso de fato, porque Emma é a única a me dar puxões de orelhas e realmente torcer para que eu me sinta em paz apesar dos pesares. Não sei se sou digna desse amor todo, e, se sou eu agradeço muito, porque não sei sobreviver sem ele.

Se eu tivesse optado por me matar naquele acidente de carro que me fez essa cicatriz na boca, nunca teria me tornado a advogada que fui, sequer conhecido Emma. Acho que fui buscar justiça por ter pensado me matar antes, socando a cara de Killian e dizendo o que eu precisava. Tudo desencadeado de uma descoberta inconveniente sobre minha mãe biológica, que Deus a tenha de onde ela estiver agora. Sinto muito por ela ter sido deportada e nunca ter podido ver seu rosto, mas a vida tem dessas coisas de às vezes a gente não poder decidir. No final das contas foi o melhor para mim como sempre pensei, mesmo que eu tenha sentido o abandono. Agora entendo que o mundo é muito injusto, que separa mães de filhos, que separa o amor da sua vida de você e ainda te declara morta, que zomba das suas capacidades, quando de repente acaba sendo justo de algum jeito. É tão estranho e tão complicado que chega a ser cômico.

Quando chego em casa Emma está dormindo no sofá, de costas para a porta. Me aproximo ao seu lado, tiro os sapatos, a jaqueta e a calça jeans, puxando a coberta por cima do corpo para ficar com ela lá dentro. Abraço seu corpo, ela geme, segura minha mão na altura da sua barriga e me prende com ela, permanecendo de costas.

— Por onde andou? — Pergunta manhosa, quase dormindo, quase acordada.

— Por aí. — Respondo e caímos no sono rapidamente.


. . .

Tomei a decisão enquanto fazia flexões no chão do quarto e gotas de suor ensopavam a têmpora. É nove da manhã e já faz um tempo que Emma saiu de casa para ir estudar. Aquela conversa que precisávamos ter não havia acontecido, ela sabia apenas que eu tinha visitado Killian na noite de quarta e que soquei a cara infeliz dele. Sua reação foi gargalhar alto como eu esperava e dizer “bem-feito”. Não falamos sobre minha mãe, sobre a gravação ou que eu fui pedir um conselho ao Gold. Ela presumia que eu tivesse feito tudo e que ia acabar escolhendo processar o FBI com a prova de Ingrid e Zelena. Não era preciso mais que algumas massagens nas minhas costas para ela me convencer e nem precisava dizer uma palavra. Tudo voltou a ser como antes sem tocarmos no assunto.

Então meu primeiro passo foi tomar banho e vestir o meu terno cinza favorito. Chamo Ingrid que me entrega a gravação de Amélia Angelis e dez páginas de um dossiê que Zelena havia montado. Seu único comentário era que eu ficava bem de cabelo preso. Bem, agora era ir ao escritório e montar o processo. Dei o dia de folga a Belle e remonto o quebra cabeça em um texto jurídico.

— Quantos dias para uma resposta? — Emma faz a pergunta enquanto massageia minhas cicatrizes com seu creme milagroso.

— Dez. — Respondo em pose de meditação, com as mãos apoiadas nos joelhos.

— Acho que estou mais ansiosa que você.

— Vai dar tudo certo, pode ter certeza. No dia em que eu sair do fórum de Nova York com a vitória, você vai saber olhando nos meus olhos.

— Vou saber pela forma como estiver vestida. Você vai usar sua roupa de guerra.

— Meu terno cinza.

— O mais bonito. — Ela beija meu rosto e se levanta, dá a volta na cama e apaga as luzes. — Se não se importa, é hora de dormir.

— Está um pouco cedo, não acha?

— Não para quem está de pé desde as seis. Vem, desarruma a cama e me abraça apertado.

— Podemos fazer isso de outro jeito.

Ela se deita e morde o lábio inferior.

— Tá a fim de fazer besteirinha, não tá?

— Que que você acha?

— Vem logo antes que eu desista! — Ela me puxa para cima e o resto não preciso contar como terminou.

Um detalhe curioso sobre o tempo de espera para meu processo contra o FBI ser oficializado foi que não reparei o quanto meus cabelos estavam compridos. Enquanto eu me arrumava na manhã foi que notei as pontas alcançando pouco abaixo dos meus ombros e me causaram espanto. A questão dos meus cabelos crescendo muito me dizia quanto tempo havia passado desde o meu retorno em uma comparação engraçada. A resposta em fim tinha chegado e hoje eu devia me apresentar ao juiz.

Entrar em um tribunal novamente faz meu sangue ferver e meu coração disparar como se eu reconhecesse uma paixão antiga. Eu estava naquele recinto única e propriamente em minha defesa, não pela dos outros a primeira vez na minha vida. O representante da polícia federal apareceu e ficamos lado a lado, separados pelo vão da assistência, onde ninguém estava sentado para a citação. Era apenas o juiz, o advogado e eu.

— Ronnie Mills contra o Departamento de Investigação dos Estados Unidos da América. — Anuncia o juiz.

— Exatamente, vossa excelência. — Minha afirmação ecoa pela sala e não há mais tempo de voltar atrás.


Durou um dia inteiro, mas a sentença saiu em menos de uma hora. E todos iam saber se eu fui derrotada ou não olhando no meu rosto, ou como Emma disse certa noite, olhando o estado da minha roupa. Enfim o terno não estava amarrotado e sujo, cheio de buracos de bala da guerra, nada disso.

Entro no restaurante onde Emma trabalha, numa tarde, sete meses depois de ter desaparecido e voltado dos mortos para ela. Meus cabelos já estavam novamente cortados. Eu volto a usar o perfume da época em que venci o BCCI e a maquiagem também está presente de novo sobre meu rosto. Eu a procuro, ela deve estar ocupada, mas não importa, eu espero. Assim ela vem com uma pilha de cardápios que solta sobre o balcão. Quando ela me avista, não há nada nem ninguém que a impeça de sair de lá de trás para vir na minha direção, mas algo faz ela desconfiar, talvez seja minha expressão, meus olhos cansados e a respiração ofegante. Ela quer perguntar o que aconteceu, se deu certo e vem se aproximando bem devagar. Ela larga o chapéu de cozinheira em uma mesa, espera.

— Eu pensei que estivesse me esperando quando o julgamento acabasse.

Emma se enche, suspira, treme na base, querendo sorrir, mas não sem antes saber o veredito.

— Foi o que combinamos há duas semanas, não?

— Sim. — Tiro de dentro do terno um papel, agora amassado por colocá-lo de qualquer jeito no bolso, mas que vou precisar dar um jeito de deixá-lo como novo, pois se trata de um documento importantíssimo. Abro na frente dela que não entende nada, mas aguarda ansiosamente.

— O que é isso?

— Este é o documento redigido pelo tribunal que julgou o meu caso contra o governo. Aqui diz que a polícia secreta americana deve a mim a identidade de Regina Mills, assim como as devidas considerações e indenizações pelos transtornos causados pela imprudência e petulância em benefício próprio. Acabou, Emma. Conseguimos.

— Você...?

Um raio de felicidade atinge Emma que ela mal consegue agir. Ela quer sorrir, quer chorar, quer tudo. É preciso andar até ela para tirá-la do transe e ela vem, escolhendo abrir seu sorriso lindo para suspirar no meu abraço. Seguro ela, a subo no ar tal como fiz no reencontro e giramos numa dança qualquer de alegria.

— Sou eu, eu voltei. Sou eu novamente, a Regina.

— A mulher que me tirou do inferno.

Mantenho Emma nos braços, segurando seu corpo, fazendo-a flutuar.

— Aquela que escolheu você pelo resto da vida.

Ponho ela no chão e ela sorri, assim como faço. A essa altura eu já nem ligo para o estado em que o documento se encontra no meu bolso, só quero ver o sorriso de Emma ao meu redor. Coloco a cabeça em seu ombro, ela me dá carinho no meio do restaurante vazio. E pela maneira de me tocar, eu compreendo o que não queria compreender, aceito tudo o que antes eu não havia aceitado.

Notas finais
O que ocorre aqui é bem simples, Regina está livre novamente. O que ocorre dentro do julgamento será mencionado no decorrer dos capítulos de maneira que vocês compreendam e não fuja muito do foco dessa estória que é Emma e Regina. Agradeço muito a quem tem esperado pacientemente por atualizações. Esses dias tem sido de reflexão quanto ao futuro dessa fanfic, espero levá-la da melhor maneira que eu puder. Por isso é tão importante saber quem tem acompanhado. Aguardo vocês, até o próximo.