For the love of her

32 Bem-vinda de volta


Notas iniciais
Olá, amigas leitoras. Essa fanfic voltou com um capítulo mais descontraído depois de tantos empecilhos no caminho da Regina. No final dele vocês devem compreender. Boa leitura


Não haveria palavra maior que alívio para refletir o meu estado de espírito hoje. As correntes foram quebradas, aquela ferida obscura dentro do peito tinha se fechado e minha vida podia recomeçar da melhor maneira possível. Regina Mills voltou e voltou completa. Ainda que com algumas dúvidas quanto a advogada que eu seria agora, mas resolvida consigo mesma. E então reparo o quão curiosos são os desafios em que a vida te coloca. O quão estranho é dar risada da sua desgraça depois que a resolve. O quão simples parece ser depois que a maré se recolhe. Eu sei que já questionei muito da minha capacidade, mas existe uma impressão nesse momento que me diz “você é capaz de qualquer coisa”. Sinceramente, nem eu pensei ser capaz de tanto por alguém, por um objetivo, por uma estabilidade, pois no fundo o que eu não queria era estabilidade. Antes de chegar onde cheguei, bem aqui no coração de Emma, eu pensava que a bagunça da minha vida era o que me manteria de pé. Não é e nunca foi bem assim.

Sinto vontade de chorar de alegria, abrir um sorriso gigante e falar coisas lindas para Emma. Nós fazemos isso porque não tenho vergonha mais, nada me impede de mostrar a ela uma Regina que eu aprendi a ser. Aí vem a segunda questão. Como demora-se tanto para se encontrar na essência? É um casulo que nos cobre desde o nascimento, você escolhe abrir as camadas para o mundo ou decide se recolher para a sua proteção. No meu caso estou me sentindo uma flor desabrochada, mais que um casulo, porque a sensação é suave. A propósito, eu deveria ter trazido uma flor para Emma e colocar em seus cabelos, porque ela está absolutamente linda hoje.

Quero comemorar, quero vibrar, quero sair correndo e gritar para a cidade inteira que venci. Emma acha a ideia absurda, prefere que façamos isso a sós, que no máximo a gente chame Zelena para jantar, mas acho que minha irmã não estava disponível naquela hora exata, então pensamos rápido. Coloquei Emma sobre o balcão e abracei seu corpo outras tantas vezes, assim como beijei sua boca. Ela entende minha alegria, está feliz comigo, me puxa pelo colarinho e me acaricia os cabelos.

— Ter duvidado de você foi a coisa mais babaca que eu já pensei. — Ela me fala enquanto solto o avental de seu corpo. Parece gostar da ideia de fazermos amor em cima do balcão.

— Você não duvidou, você teve medo. É diferente. — Olho para ela.

Emma não tem palavras, só me beija de volta e tenta me livrar da parte de cima do terno, mas percebo que estamos em um lugar pouco apropriado.

— O que estamos fazendo? — Começo a rir compulsivamente.

— Achei que quisesse... — Ela diz, ficando sem ar.

— Eu quero, mas nos esquecemos onde estamos.

Swan olha em volta e abotoa sua roupa imediatamente.

— Se o meu chefe chegasse agora estávamos fritas com alho e sal. Ninguém nos viu? — Ela olha em volta, olha pela janela e vitrine.

— Aparentemente não. — Arrumo meu cabelo com a própria mão e decido esperá-la. — Eu vou dar uma volta até dar a hora de você sair, então a gente vai àquele restaurante Chinês e come um montão de Yakisoba.

— Meu amor, faz o seguinte... — Ela está perdida, está engraçada, desconcertada de uma maneira cômica e feliz. — Peça os Yakisobas para viagem, prepare uma mesa de jantar bem bonita em casa que eu levo o vinho. Eu passo numa delicatesse quando sair daqui, pode ser?

— Tá bom, pode ser.

Saio do restaurante rindo, porém não julgo meu recomeço de vida. Como sempre fazendo coisas no calor da emoção e essa é uma característica que eu herdei do passado e não devo abandonar em algumas ocasiões. Emma me joga beijos lá de dentro e eu pisco para ela, indo fazer o que combinamos.

Com a cabeça a mil eu confesso estar mais ansiosa para voltar ao escritório amanhã do que aparecer nos jornais como ganhadora de uma causa contra o FBI. Recebo uma ligação de Cora e Henry Mills assim que ponho os pés em casa. Zelena já havia tratado de contar o que aconteceu no tribunal depois de ter sido atualizada através de Ingrid. Ingrid, por sinal, devia estar arrumando sua caixa de pertences da sessão no governo, pois com o testemunho dado ao meu favor ela rompeu a confiança do serviço secreto e obviamente seria demitida. Apesar dos eventuais problemas que eu poderia causar a minha irmã e Ingrid, elas seriam agraciadas com parte da indenização, pois foi esse o acordo que fizemos. Elas e eu teríamos como nos reerguer. E agora eu preciso bolar um plano para refazer minha propaganda. Mas antes que eu me preocupe muito com isso, Emma chega em casa com o vinho tinto e os pratos já estão sobre a mesa esperando para devorarmos nossos Yakisobas.

Ela mal fecha a porta e vem me beijar, orgulhosa e feliz, me admira com o terno, passa a mão pelos meus cabelos mais curtos novamente e diz o que eu esperava.

— Você é incrível!

— Sabia que me diria isso. Vamos sente-se, estou faminta.

— Confesso que a tensão em saber de notícias suas também me deixou com fome.

Jantamos sem pressa enquanto relato tudo o que houve no tribunal, ainda que eu use alguns termos jurídicos que ela jamais vai compreender. Emma ouve tudo e mal percebe que terminou seu macarrão quando pesca apenas molho no raxi.

A narração começa a ficar longa demais, me empolgo com o vinho no gelo e a bebida não leva muito para subir a minha cabeça. Encho nossas taças, Emma não se importa de me acompanhar até o fim da garrafa. Aquilo passa, não é tanto vinho assim, mas sei que estou rindo muito mesmo falando de algo sério.

— Eu... Eu acho que teve um momento que o Juiz estava do meu lado, ele perdia a paciência com o advogado deles. O FBI sabia que estava na merda, então propuseram um enlace entre eles e eu, de novo, não é mesmo? Até para propor um acordo eles são pífios. Onde já se viu eles me recomendarem clientes? — Termino a última taça, tonta como alguém que nunca colocou uma gota de álcool na boca.

— Você recusou, não foi? — Emma é mais resistente e bebe sua última taça cheia sem se preocupar.

— Lógico. — Me levanto e tiro a parte de cima do terno. — Nossa, como ficou quente de repente.

— Não está não. Você foi quem bebeu rápido demais. — Ela levanta e me ajuda a abrir os botões da blusa de baixo, desafrouxa a gola e retira o cinto da calça.

— Não terminei de contar o que aconteceu...

— Fale depois, me deixa curtir você um pouquinho.

Estando alta eu não recusaria um pedido dela, ainda que tivéssemos acabado de jantar. Mas não era bem uma transa que ia acontecer agora. Emma queria colar em mim, queria ficar ali no meio da sala dançando, se sentindo livre, me sentindo como sua droga favorita. Eu não sei o que ela está pensando, deve ser algo muito bom ou realmente ela está feliz por mim. Ela sorri, talvez porque esteja começando a ficar bêbada também e entendo que devo beijá-la. Seguro o rosto dela e roubo seus lábios para mim por cinco segundos. Ao fim ela está sorrindo de olhos fechados esperando outro beijo... e outro.

— Não sabe como esperei por isso. — diz ela, sonhando acordada. — Um beijo da mulher que você se tornou.

— Se gostou do beijo espere só para ver como é dormir com ela.

— Onde você esteve esse tempo todo? Sempre soube que havia uma mulher maravilhosa aí dentro. Por que não deixou ela me conhecer antes? Naquele dia no cassino.

— Ela não estava pronta. Definitivamente não conseguiria.

— Tudo isso que aconteceu fez ela surgir?

— Colaborou, mas não foi o que fez ela aparecer assim de repente. — Sentia minha cabeça girar menos e já enxergava Emma inteira na minha frente.

— Fui eu? — Emma arregala seus olhos e aponta para si mesma.

— É. Foi uma mulher diferente, que só ela conseguiu enxergar.

— E você sabia que tinha todo esse amor dentro de você?

— Não. Nunca desconfiei.

Emma segura um grito de alegria, ri e me beija, mas sua expressão muda rapidamente, como se por um momento ela tivesse se dado conta de algo. Ela caminha até o bar, enche um copo de vodca e me serve. Não entendo sua intenção naquele ato, mas ela também se serve dando a entender que o que vai dizer pode doer um pouco. Me aproximo mais um pouco encostando-a no bar e voltamos a dançar uma música imaginária quando ela enrosca as mãos sobre meus ombros. Sinto receio no olhar dela, finalmente entendendo que vamos tocar em um assunto delicado.

— O que vai ser de nós duas agora?

— Do que está falando? — Pergunto com calma.

— O que vai ser da gente? Você tem o que queria, passou pelo o que passou e ainda me ama. Tem certeza de que ainda quer ficar comigo?

— Pare de duvidar dos meus sentimentos por você. Isso me ofende, dói.

— Não duvido do que sente por mim, eu até sei que você me ama pra caralho, eu só não sei se sou equivalente ao que você merece.

— Por que isso agora? Venci o jogo, voltei para você e nada mais importa.

— Muitas coisas importam. Sua carreira, sua fama, sua felicidade.

— Você é a minha felicidade. Escolhi você, pronto. Eu fiz tudo por você o tempo todo. Antes de saber que você existia eu já vivia para encontrar uma pessoa assim. Eu faria de novo, Emma, eu iria ao inferno outra vez se fosse necessário.

— Regina, eu me acho tão pouco. — Seus olhos brilham. — Não acha que pode ter algo melhor? Foi se apaixonar por uma ex drogada que não pode te dar nada em troca que não seja fazer sua comida ou limpar a sua casa.

— Eu amo você pelo o que representa, não pelo o que pode me dar em troca. Se eu quisesse algo em troca teríamos transado na noite em que te trouxe para esse apartamento. — Levanto o rosto dela e a faço me olhar. — Pela primeira vez alguém me fez me sentir viva, me deu coragem para enfrentar minha própria família, me fez esquecer que eu odiava alguém, me tirou de uma vida sem sentido. Por favor não diga que você é pouco para mim quando você é tudo.

Emma suspira, engole o choro e afunda a cabeça em meu peito.

— Quero merecer o seu amor, mas às vezes eu não acho que posso. Passei muito tempo estragando a vida dos outros para ser positiva o tempo todo. Vim o caminho inteiro para cá pensando nisso. Estou com medo que agora você encontre uma pessoa melhor, alguém que tenha uma história limpa e que esteja a sua altura.

— E por que você não pode ser essa pessoa? Você está limpa, Emma. Também venceu um jogo, um muito mais árduo que o meu. Passou pelo caminho espinhoso do vício e o venceu quando eu não estava aqui para ajudá-la.

— Vou falhar. — Ela fecha os olhos e já não pode mais segurar as lágrimas. — Tem sido tão difícil suportar.

— Ainda que você falhe, não vou sair do seu lado.

Volto a dançar silenciosamente com ela. Quando a bebida sobe as nossas cabeças de novo nos beijamos enlouquecidamente. Por mais louco que isso pareça, Emma tira o resto das minhas roupas e eu as dela, vamos para cama.

Na manhã seguinte, acordo cedo o suficiente para ir a floricultura, compro uma rosa branca e levo para ela junto do café da manhã antes que ela acorde. Desligo o despertador propositalmente, quero que ela descanse o suficiente para me aguentar mais tarde. Já estou pronta para sair, ansiosa para voltar ao escritório e recomeçar minha vida profissional do zero. Sorrio para ela descansando, pensando em seu desespero momentâneo de ontem em me perder. Me sento ao lado dela por um momento mais, só um pouco para alisar seu rosto e vê-la sorrindo achando que está sonhando. Beijo seu rosto e visto os óculos.

É estranho depois de algum tempo fazer o trajeto casa escritório sem um carro, mas talvez eu devesse pensar no lado bom da história, eu poderia ir com Emma todos os dias até as próximas três estações. Não custa andar um pouco pelos arredores do Central Park com um belo copo de cafeteria na mão. Nova York pelo menos permaneceu inquieta esses meses todos e eu gostava dessa não mudança em relação ao tempo que fiquei ausente. A confusão diária passava por mim apressada e esbaforida, as multidões atravessavam as ruas e meus olhos estavam nas alturas dos edifícios, os ouvidos nas buzinas dos carros e meu coração no ritmo da ansiedade. Uns trinta metros antes do edifício encontrei um vendedor de jornais segurando uma edição recente do The New York Times, nela estava escrita em letras garrafais que o serviço secreto tinha sido derrotado nos tribunais e lá estava uma foto antiga minha. Comprei o exemplar e levei comigo.

Me encontro sozinha ao chegar no escritório já que dispensei Belle por hoje, sem saber se sairia com direitos do julgamento. Não me emociono como da primeira vez que pisei aqui ao voltar, eu simplesmente já me acostumei ao ambiente que criei nesse escritório e vir para de fato advogar acabou se tornando um item riscado da lista. Não posso mentir e dizer que estou satisfeita, não apenas isso, estou confortável e calma. Talvez minha única preocupação sejam os clientes que preciso recuperar e para isso vou levar o dia todo pensando em um slogan para minha publicidade.

Até que não demora tanto. Regina Mills pela lei com a lei, me soa simples e bonito. Imediatamente ligo para uma gráfica e pensamos em 200 panfletos a princípio. Depois os jornais que me pedem uma quantia gigantesca, mas que pretendo recuperar com o bom trabalho. Acho que vai funcionar. Lá pelas dez e meia da manhã o telefone toca, é outro jornal querendo uma entrevista, depois surge um convite para uma conferência de advogados de Washington, um grupo de estudantes de direito quer conversar comigo sobre um artigo na revista da universidade, recebo um convite para um jantar beneficente, um programa de TV quer a minha participação e um escritor jurídico me convida para ser sua parceira de publicação. O resto do dia se resume as consequências da minha vitória no tribunal. Foi a segunda grande vitória da carreira e exigir respeito eu não precisava mais.

Sinceramente, todas as consequências da vitória não importavam tanto. No fundo do meu coração eu só queria trabalhar e fazer o que achava certo, porque a pessoa que me fez voltar estava comigo. Vivi bem todos esses anos que gozei da liberdade e da consequência que o BCCI me trouxe, cheguei onde a maioria dos advogados queriam chegar, agora eu posso viver o resto dos meus dias por alguém além da profissão.

Dois dias depois os panfletos estão prontos, peço para Belle se encarregar a distribuição e muito rapidamente meu nome volta ao mercado Nova Yorkino. Naquela tarde algumas pessoas agendaram uma visita e acho muito bom para início de conversa. Venho pronta no dia seguinte, e como era de se imaginar meus primeiros clientes da nova fase são pessoas que precisam de defesa por problemas nada convencionais. Enquanto trato de casos de menor relevância, penso em Emma, em como minha retomada pode afetá-la ou ajuda-la. Ela tem sido a mulher de sempre, não falta o trabalho, tem estudado como um robô programado e faz aquela massagem nas minhas costas todas as noites.

Temos passado mais momentos em silêncio, sem precisar contar como foi o dia na faculdade ou no trabalho. Precisamos de calma, essa que não tem justificativa, a que me faz desejar ela apenas com o olhar. Quando ela diz “Eu te amo” trocamos um beijo e pronto, podemos dormir.

Certo dia eu a encontro sentada no banheiro antes das seis, chorando enquanto vê o sol nascendo da janela. Está lá no cantinho do box seco, não ligou a ducha como faz quando tem crise. Ela está soluçando, está com os lábios roxos e o rosto abatido. Não digo nada, nem quero, só me sento ao seu lado e abraço, fazendo ela deitar a cabeça sobre minhas pernas. Passa um tempo e ela fala por conta própria.

— Será que se eu voltar a fumar um cigarro por dia vou querer coisa mais pesada?

— Não sei, Emma. Realmente não sei.

— Você ficaria magoada comigo?

— Com toda sinceridade, sim.

Emma se cala, bate na própria cabeça e alucina. Não é a primeira vez que sofre, que treme de crise diante de mim, que vomita o jantar da noite passada antes de voltar ao normal. Ela volta a sentir uma imensa tristeza, os olhos se perdem num vazio sem tamanho, até que digo que ficarei com ela em casa e não sairei do seu lado.

Em nenhum momento de suas crises, cada dia mais constantes, senti menos por Emma.

Não era como se meu amor por ela estivesse se desgastando, e acredito que esse era seu medo, o de me perder porque fiquei exausta de cuidar dela. Talvez eu arriscasse dizer que quanto mais ela precisasse de mim, mais eu a amava e tinha motivos para fazê-la feliz. Então em outro momento crítico, sentada com ela no chão do banheiro, quis provar que a amava. Ela gosta de dizer que a amo a minha maneira e é verdade, sempre fui desajeitada e tardia nas decisões de invocar meus sentimentos. Mas nesse dia eu escolhi ver um sorriso dela, que eu sabia que não me negaria depois do que eu iria fazer. Ela chorava baixinho, com uma dor de cabeça terrível, tinha dormido um dia todo e se sentia culpada por isso. Eu chegara naquele momento, vestida de blazer e maquiagem, o oposto de Emma que só usava uma camisa comprida e calcinha para ficar na cama. Estendi minha mão quando me levantei, pedindo que ela viesse comigo.

— Vem comigo?

— Eu não estou bem, Regina, acho que vou vomitar de novo em breve.

— Tenho certeza de que vai mudar de ideia se vier comigo. — digo com calma e por alguma razão decide ficar de pé e me dar sua mão.

Ela me segue até a sala e não há nada de diferente, a não ser a comida chinesa que ela tanto ama em cima da mesa.

— Você já comprou o nosso jantar? — ela coça os olhos se aproximando da mesa.

— Já, mas não foi para isso que chamei você aqui.

Seguro o controle remoto do aparelho de som e ligo na música que ela mais ama no mundo. Bem, eu também gosto da música.

— Nossa música!

Estendo os dois braços, ela se aproxima e me olha nos olhos. Reconhece que parece uma bêbada dissimulada e cheira a sono, quando deveria cheirar a menta porque escovou os dentes. Aproveito seu estado de aparência para sugerir algo que ela sempre quis que acontecesse.

— Imagina que é a primeira vez que você me vê na vida. Que voltamos para aquele cassino e sou na verdade uma cliente que quer fazer amor com você.

Ela sorri enfim, acha graça da ideia e aceita enquanto damos dois passos de cada vez em círculos.

— Tudo o que eu queria desde que te vi. — ela toca meu rosto com uma mão e com a outra se apoia no meu ombro. — Não posso viver, se for para ser sem você. — Ela canta o refrão e encosta a testa na minha, mais feliz.

Dou a liberdade para Emma imaginar o que quiser. Nós trocamos carícias tão prazerosas quanto sexo, sem nem mesmo precisar apelar para nudez. Ela recupera sua vontade de sorrir e de entender o que se passa entre nós. Está sem fôlego, morde os lábios maliciosamente, ainda assim só quer dançar nossa música comigo.

— Meu Deus, o que fiz pra merecer você? Você é gostosa pra cacete.

— Essa é a Emma que eu conheço. Se sente melhor agora?

— Muito melhor. Obrigada por me acordar, senão eu estaria deitada naquela cama de novo, tentando esquecer o lixo que eu posso ser de vez em quando.


Quatro semanas mais tarde, Ingrid veio me procurar no escritório onde eu voltei a trabalhar. A grande surpresa era que ela não havia sido expulsa do FBI por testemunhar ao meu favor. Ingrid me conta que foi convidada a se afastar por alguns meses de sua função até realojarem ela em outra de menor relevância, mas por uma questão de ética e orgulho, ela mesma decidiu pedir as contas. Agora ela estava de mudança, pretendia ir embora de Nova York e morar no Canadá, porém, havia uma situação que ainda a prendia na Big Apple, mais precisamente, alguém.

— Como tem sido o retorno ao trabalho?

— Depois de tanto tempo achei que tinha desaprendido a trabalhar, mas parece que foi bom ter tirado essas férias. Apesar dos casos estranhos que ando pegando, não sinto vontade de fazer outra coisa.

— Eu vi a propagando no metrô, um rapaz me deu um panfleto. O seu nome chama atenção, as pessoas buscam pela curiosidade, então você deve ficar preparada para ver de tudo quanto é caso a partir de agora.

— Bem, eu aceito trabalhar para quem for, se me pagarem eu dou o melhor de mim.

Ela sorri e se senta a minha frente na cadeira, enquanto coloco alguns papéis de lado na mesa.

— Logo você volta a ser uma advogada reconhecida. — Ela espera e toma ar como se fosse precisar de calma para falar o que veio.

— E você recebeu o dinheiro da indenização? Está tudo certo?

— Sim, Regina, está tudo certo, eu o recebi e está tudo dando certo como foi pensado. Não vim aqui para conversar com você sobre esse dinheiro, é sobre outro assunto, algo que está me ocorrendo.

Paro o que estou fazendo o olho para ela.

— Pode dizer.

— Bem, eu... Você sabe que há mais de alguns meses tenho lidado com sua irmã, nós passamos uma grande quantidade de tempo juntas.

— Sim, sei disso. O que aconteceu com ela?

— Nada, ela está bem. — Ingrid responde rapidamente. — O problema sou eu. — Ela pisca muito e de repente sua voz embarga. — Não sei o que está acontecendo comigo, eu tenho olhado para Zelena de uma forma diferente desde que soube que ela se separou do Robin.

Por um momento me pego sorrindo de canto e imaginando algo que para mim seria utópico até outro dia, mas tudo era possível àquela altura do campeonato.

— A Zelena? Sério?

— Não quero te ofender, por isso vim diretamente falar com você.

— Não, Ingrid, não estou ofendida, eu só não esperava. Para mim a Zelena sempre gostou de caras, mas nada impede ela de ter algo com uma mulher. E se for com você seria incrível.

— É que, ela ainda não sabe. — Diz ela aflita.

— Como não sabe? Você não teve coragem de dizer?

— Bom, eu tento dizer, mas não consigo. Ela está sempre falando de como foi viver com o Robin, do quanto ainda gosta dele que não vejo chances. Ela nunca se imaginou com uma mulher na vida, o que eu vou fazer? Não posso despejar a verdade nas costas dela desse jeito.

— Ingrid, a minha irmã é meio biruta, mas tenho certeza de que ela levaria seus sentimentos em consideração. Ainda que ela não sinta atração por mulheres, ela vai respeitar você e dizer isso da melhor maneira possível para não te machucar.

— Tenho medo. Eu não devia ter me apaixonado por ela, não desse jeito.

Me levanto e paro ao lado dela, colocando uma mão em seu ombro.

— Tudo tem hora para acontecer. Simplesmente quando vocês se conheceram não era o momento, mas hoje é. Fica calma, você também vai saber a hora certa de dizer a ela que sente algo mais forte.

Ingrid mexe a cabeça e levanta ainda aflita, tentando disfarçar. Falamos sobre outros assuntos, sobre o julgamento, tomamos um café juntas e ela vai embora. Começo a arrumar minha pasta e estou prestes a liberar Belle quando o telefone toca.

— É Zelena. Devo passar a ligação? — pergunta Belle.

— Claro que deve. — Coincidentemente é Zelena quem me liga, como se soubesse que havia acabado de falar nela.

Do outro lado da linha escuto a voz de minha irmã, me perguntando se estou bem e como tenho me sentido com a vitória. Ela conta que no FBI não se pode citar o meu nome, nem deve-se ousar falar sobre o ocorrido.

— Você não pode imaginar o clima. Nós trabalhamos como se nada tivesse acontecido, mas todos sabemos que internamente houve uma revolução por conta da sua ação contra eles.

— Atingi uma camada muito profunda com as provas que você e Ingrid encontraram.

— Fala da sua mãe biológica? Sim, concordo... Regina, você não pensou em fazer nada para comemorar seu retorno? Nada? Nem um jantar? Nem uma reunião com seus amigos?

Sabia que seria perguntada sobre isso, especialmente por Zelena. Um mês tinha se passado e eu não comemorei, é verdade. Mas o que eu faria se Emma não andava bem e eu passava metade do meu tempo dentro do escritório respondendo perguntas dos jornalistas e atendendo clientes excêntricos?

— Eu não tenho amigos. — brinco.

— Ah não? Vamos consertar isso, deixa comigo.

Quatro dias depois Zelena me liga exigindo minha presença no salão de convenções do Stewart Hotel. Eu devia levar Emma e nós duas deveríamos ir muito bem vestidas. Algo me dizia que Swan já sabia o que iria acontecer, pois mais cedo saiu para comprar um vestido para a ocasião e quando fui busca-la em casa ela estava absolutamente linda de vermelho, me arrancando as palavras da boca quando a vi. Parece que um coquetel me esperava, mas longe de ser uma festa como as que Kris costumava oferecer em nome de sua revista, eu estava indo comemorar alguma ocasião no nome de alguém. Era por isso que Emma estava só sorrisos, mais ansiosa do que eu para saber o que nos esperava. Eu penso que talvez Zelena quisesse dar uma festa de aniversário atrasada, queria comemorar sua solteirice aproveitando o coquetel de alguém ou do próprio hotel. Eu realmente apagara uma recepção para mim da mente, e lógico que poderia ser algo voltado para mim.

Os mesmos jornalistas que me procuraram para falar do julgamento estavam lá, velhos e novos clientes me cumprimentaram quando cheguei com Emma. Então eu entendi tudo quando olhei para o salão abastado do Stewart Hotel.

— O que é que você sabe que eu não estou conseguindo entender? — Pergunto a Emma e ela não poupa.

— O que eu sei é que passei três horas no salão de beleza hoje porque devia estar muito bonita para a sua festa de boas-vindas ao círculo jurídico de Nova York. — Ela mostra o salão e as pessoas se levantando das mesas assim que entramos.

Todos me aplaudem e Zelena aparece ao meu lado.

— Quem disse que não tinha amigos, hum?

— Como você fez isso? — Estou abismada com tantas pessoas me parabenizando pelo feito contra o governo. É impressionante.

— Foi simples. Tive ajuda da firma de advocacia onde você ganhou seu primeiro caso de relevância. Alugamos esse espaço. Depois eu conversei com os seus clientes antigos por telefone e eles toparam em vir te homenagear quando souberam que estava viva e muito disposta a voltar ao mercado.

— Você é maluca. — Digo para minha irmã e preciso dar conta de falar com cada um dos presentes dali em diante.

Gasto muito tempo explicando o que houve comigo e o quão trabalhoso foi montar um processo contra o FBI. Mas o engraçado é que a maioria das pessoas só quer saber como saí viva do acidente de carro. Tenho a devida comemoração pelo meu esforço, meu verdadeiro sinal a sociedade Nova Yorkina de que estou de volta. Fotos, bebida, algumas pausas para ver como Emma está, mas ela parece bem sentada com Zelena e Belle com o marido. Três doses de Gin depois, me viro para vê-la de novo e acho que não estou enxergando coisa com coisa. Vejo Kris conversar com ela, ou alguém que se parece muito, em um canto.

Outro jornal me pede uma foto e preciso parar alguns minutos. Elas continuam conversando quando me viro, a conversa avança e não me contenho de curiosidade. Enquanto tento chegar até elas, sou parada algumas vezes por colegas. Me atraso, e até lá vejo Emma intensificando o papo com Kris. Preciso dar um jeito de chegar até lá. Tento não pensar besteiras, pois sei que Kris mudou e não deve estar fazendo nada além de pedir desculpas a minha mulher pelo passado que tivemos. Tento me convencer de que está tudo certo, que logo Kris virá ao meu encontro me cumprimentar, ela foi uma cliente importante por bastante tempo. Por que me incomodar com as duas tendo apenas uma conversa descontraída?

Finalmente posso procurar saber o que Kris e Emma conversam, me dirijo até elas, só que uma pessoa chega no salão, atrasada ou simplesmente decidida a chegar por último depois de refletir se deveria ou não estar no coquetel em minha homenagem. É Ingrid, muito bonita como eu nunca tinha visto. Ela acena e respondo, mas sei que aquela cara de desconforto é por conta da minha irmã que ela ama secretamente. Estou um pouco tonta, só um pouco, com coragem o suficiente para dizer a ela que aquele era o momento mais oportuno para conversarem ela e Zelena. Minha irmã troca telefones com outro advogado da firma. Eu posso estar começado a ficar bêbada, mas o que acontece é real. Vejo Ingrid murchar ao ver os dois juntos e do meu caminho até Emma e Kris, mudo o rumo para levar uma bebida até a outra loira.

— Chegou na hora errada. — Entrego o copo com Martini.

— E eu que estava pensando em não aparecer. — Ela pega e manda para dentro de uma vez só.

— Já vai desistir dela?

— Quarenta anos de heterossexualidade, como vou reverter isso?

— Zelena só precisa entender que pode não dar certo com homens. — Permaneço observando Emma e Kris, nada de novo, apenas blah, blah, blah entre as duas.

— Acho que eu vou morrer.

— Relaxa. Quer espairecer? Conhecer uma pessoa diferente?

— Como assim? — Ela me olha desconfiada.

Peço para que me siga e ela vem comigo até Kris e Emma.

— Boa noite, Kris. Percebi que estava tendo uma conversa muito agradável com Emma, espero não ter interrompido.

Kris se vira e sorri de forma agradável.

— Boa noite, Regina. E eu estava de fato, sua namorada é um doce. — Emma guardou um sorriso tímido para ela.

Noto que ela troca olhares com Ingrid e ponho meu plano em prática.

— Deixe-me apresentar, esta é Ingrid, uma amiga muito especial, responsável pela minha recuperação depois do acidente. Acho que vocês duas podiam conversar em particular porque com certeza tem coisas em comum que podem partilhar.

— Muito prazer, Ingrid. — Kris oferece a mão e não é preciso fazer muito esforço para as duas se afastarem e tomarem uma mesa no fundo do salão.

Emma me cutuca no ombro.

— Tá trabalhando de cupido agora?

— Tentando.

— Bem, se pararmos para pensar que a Kris praticamente me jogou nos seus braços, é justo.

Me viro para Emma e penso em perguntar o que tanto ela e Kris conversavam, mas sei que é exatamente o que eu imaginava. Elas já não carregavam mágoas do passado e estavam felizes por mim. Emma me beija o rosto, eu seguro suas mãos.

O fotografo do Nova York Magazine pede uma foto e posamos. Vejo essa foto no jornal no dia seguinte enquanto caminho para o escritório. “Advogados da nata Nova Yorkina se reúnem em coquetel de regresso da fabulosa Regina Mills.”

— Você e Emma ficaram lindas nessa foto. Se eu fosse você pediria uma cópia ao jornal. — Belle começa falando ao abrir a porta do escritório para mim.

— Realmente, ela é fotogênica. — Passo pela sala de espera e, antes que eu chegue na minha, Belle segura a porta para que não entre bruscamente.

— Espera, tem alguém aqui que veio te ver, na verdade ela disse que quer os seus serviços.

— Quem está aí? Mas já tão cedo?

— Veja com seus próprios olhos. Ela parece preocupada.

Quando Belle abre a porta vejo Ingrid novamente. Está de pé, andando de um lado para o outro.

— O que aconteceu? Pensei que tivesse gostado da Kris.

Ela para e espera Belle fechar a porta atrás de nós.

— A Kris é maravilhosa, tivemos um tempo muito agradável ontem, obrigada. Eu não vim por causa dela, vim por outra razão. — Ela respira fundo, pisca uma centena de vezes e solta: — Acho que estou muito encrencada.

Repouso a pasta sobre o sofá ali ao lado e espero ela dizer.

— O que foi?

— Espanquei um homem ontem. Era o cara que estava com Zelena no coquetel. Ele vai me processar.

O nervoso na voz de Ingrid é mais preocupante que o fato dela ter batido num homem ainda mais sendo por causa de Zelena. Paro e penso que se fosse o meu caso com Emma, eu também acabaria apelando para os ciúmes. Nesse momento eu podia pensar mesmo que seriam os casos estranhos e nada comuns que me levariam de volta ao patamar de advogada importante. Bem-vinda de volta, Regina.

Notas finais
Não sei se a situação de Ingrid é algo mais cômico do que azar. Quanto a Emma, ela segue sua batalha até a cura. Restam mais alguns capítulos para o felizes para sempre. Notei que o último causou uma grande comoção e fico feliz de verdade com cada comentário recebido. Nos vemos no próximo. Um beijo enorme e fiquem bem.