For the love of her
33 Crises
Notas iniciais
Não, não é nada tão ruim quanto parece. Ingrid não está totalmente encrencada quanto acha que pode estar, ela apenas bateu em um homem e eu tenho certeza de que não foi à toa. Depois do choque que a notícia causa a princípio, respiro fundo e compreendo que qualquer pessoa de bom caráter teria a mesma reação que ela. Ponho as mãos nos bolsos da calça como se estivesse dentro de um tribunal e andasse diante de uma testemunha. Ela quer explicar tudo o que aconteceu, mas limito-a com a mão e peço que ela fique calma. No fundo eu estou com pena dela, por justamente ter se apaixonado por uma mulher que não atende as expectativas dela, novamente, e coincidentemente por outra mulher da família Mills. Bom, se eu não tivesse Emma é lógico que poderíamos nos envolver romanticamente, mas se eu não tivesse Emma talvez nunca tivesse precisado sair de Nova York e ter sofrido um acidente tão grave, nunca teria conhecido Ingrid. Minha irmã não é mais casada, tão pouco se envolveu com outra mulher em toda sua vida e não faço a mínima ideia do que ela acha de se envolver com uma. A moral da história é que Ingrid tem dedo podre ou é apenas azarada demais no quesito amor.
A questão é entender porquê ela havia batido no cara, e aí eu saberia se ela estava ou não tão ferrada. Quando notei que estava mais tranquila, depois de Belle nos trazer água com açúcar, deixei que ela me dissesse exatamente o que fez.
— Eu o vi puxar a Zelena e achei que estivesse machucando ela.
— Tem certeza do que viu?
— Absoluta. Ela reclamou.
— Posso perguntar mais uma coisa?
— Pode.
— Você seguiu a Zelena e o advogado depois do coquetel?
Ingrid então respirou fundo, coçou os cabelos e respondeu incomodada:
— Segui. — Ela torce os lábios. — Logo que os vi indo embora decidi segui-los.
— O que fez com a Kris?
— Pedi desculpas e me retirei, eu disse que não estava me sentindo bem e ela entendeu.
— E a Zelena? O que ela fez depois que você bateu no acompanhante dela?
— Gritou. Pedia para que eu parasse, mas isso só me dava mais vontade de quebrar a cara dele. Ela me ligou a noite inteira, até a hora que eu resolvi colocar o celular no modo avião.
Tive de rir ao saber da minha irmã, mas logo recompus a seriedade.
— Bem, então é questão de tempo até você ser intimada a depor.
— Pelo jeito que a cara dele ficou eu serei presa.
— Ele não se defendeu?
— Nem tentou.
— Isso pode ser um problema.
Dou a volta na mesa outra vez, pensando em redigir um acordo para Ingrid concordar e enviarmos ao rapaz agredido, porém, antes mesmo que eu me sente, Belle bate na porta da sala e anuncia que minha irmã chegou de súbito.
— Regina, Zelena está aqui.
Eu poderia responder minha secretária que receberia ela em breve, mas não houve um segundo para eu pensar em esconder Ingrid ali dentro. A mulher ruiva entrou no escritório sem esperar, sutil como ventania de inverno.
— Mas que porra foi aquela, sua louca?! — Ela pergunta apontando para Ingrid, como se já soubesse há muito tempo que a loira estava aqui. — Qual é o seu problema?
Ingrid não se encolhe, nem murcha como fez no coquetel ao ver minha irmã, ela reage surpreendentemente.
— Eu quis te defender.
— Agredindo o Howard? Precisava arrancar os dentes da boca dele? Você é doente por um acaso? Tem tanta raiva de homem assim?
— Eu quis te defender porque eu senti ciúmes, Zelena. — Ingrid se revela como se um mar estivesse aberto diante dela. Ela assume o que sente, ela olha firme para os olhos da minha irmã e concorda com a cabeça para si mesma.
— O quê? — Zelena franze os olhos e se aproxima dela.
— Isso mesmo, eu senti ciúmes. E longe do que você pensa, ciúmes de amiga, eu senti ciúmes de uma mulher para outra. Pois é, eu acho que gosto de você... Às vezes acho que te amo.
Quem desmonta dessa vez é Zelena, que fica de queixo caído com a revelação tão direta de Ingrid. Ela não sabe como reagir. Tudo é muito involuntário desde aquele momento e minha irmã parece ter entrado em um mundo paralelo. Ela põe as mãos nos lábios, tampa a boca e arregala seus olhos azuis demais para uma pessoa normal.
Sou testemunha ali atrás, não digo uma palavra e quando dou por mim estou até com os braços cruzados assistindo a tudo. Para não perder minha ética eu prefiro deixá-las sozinhas e esperar que se acertem por conta própria.
— Vou deixar vocês duas conversarem sozinhas. — Olhei para Ingrid e pisquei em solidariedade. Fechei a porta e troquei olhares com Belle que era mais uma testemunha sem querer. Fizemos café na máquina e não fomos evasivas o bastante para querer ouvir a conversa das duas.
Pouco tempo depois, minha irmã saiu correndo e chorando da sala, apressada novamente. Ela foi embora sem nem mesmo se despedir. Ingrid tinha acabado de sentar no sofá e estava com uma aparência triste. Não deu certo.
— O que é que eu vou fazer da minha vida agora? — Ela pergunta quando entro na sala.
— Acho que é o momento certo de você deixar Nova York. — digo, baseada na forma como a encontro.
Peço para Ingrid se acalmar e voltar para casa enquanto espero contato do homem que ela agrediu. Sem respostas eu mesma ligo para ele e conversamos apesar da extrema dificuldade dele em conseguir falar. Explico tudo o que levou Ingrid a quase matá-lo, e ainda que tenha sido um exagero ele se conforma em fazer um acordo. Se ela pagar seu tratamento dentário ele aceita não fazer uma queixa.
O assunto é encerrado ali. Pelo menos a parte que não me toca e já me dou por satisfeita. Posso voltar para meus outros casos como se nada tivesse acontecido.
Durante duas semanas fico sem notícias de Zelena e menos ainda de Ingrid. Deixando as duas resolverem o assunto sozinhas ou sumirem da face da terra por medo e vergonha, volto a pensar que é hora de cuidar dos meus bens materiais. Todos os dias passando na frente de uma loja da Audi no caminho para o escritório, a tentação em ter um carro novo comicha no bolso e dane-se o medo de sofrer outro acidente.
Um belo dia eu paro diante da vitrine e decido entrar para comprar o modelo mais recente. É rápido e certeiro. Nada de espera e indecisão, eu quero o mais moderno e bonito, ponto. O vendedor me mostra um modelo até grande demais para meu gosto, mas é aquele que eu passo para buscar no fim do dia. Cheira a novo, porém logo vai ter o cheiro do meu perfume impregnado no cinto de segurança e Emma vai notar. Emma, a propósito, se assusta com a pompa e circunstância do carro e me questiona se é realmente o que eu preciso.
— É lindo, não acha?
— Sem dúvidas, mas esse carro só falta fazer sanduiche ou é só impressão?
— É apenas um carro com muito conforto, eu estava precisando. Agora vamos, quero te levar para jantar e depois podemos ir a um bar comemorar a nova aquisição. — Digo antes que ela busque sua mochila no vestiário do restaurante.
Há uma plateia de colegas e funcionários do lugar nos assistindo atrás das portas e dou um tchauzinho quando os percebo. É sempre assim quando apareço para buscar Emma. Eles devem achar que somos um casal estranho ou morrem de vontade de viver um romance torto como é o meu caso com ela.
— Meu amor, posso sugerir algo diferente? Sempre fazemos a mesma coisa, ou jantamos Yakisoba ou vamos a um lugar mais chique. Eu não quero ir a lugar algum hoje, quero comemorar com você de outra forma, pode ser? — Emma fala depois de pensar por vários segundos.
— O que você sugere?
— Bem, não sei se você vai topar. É só uma ideia...
— Emma, fale.
— Bom, é que... Podemos viajar no final de semana.
— Viajar? Okay, para onde? — Paro e reflito.
— Para onde você quiser. Eu só queria sair de Manhattan um pouco, conhecer um lugar diferente, me sentir, sei lá, fora desse mundo um pouco.
Penso rápido, a minha única ideia é uma velha ideia de alugar um chalé nas proximidades de um lago.
— Está bem, podemos viajar de carro. Acho que sei de um lugar interessante.
— Tem cozinha nesse lugar?
— Obviamente que sim. Por quê?
— Porque preciso cozinhar para você.
Abro um sorriso de graça e espero ela voltar para ir embora comigo.
Em casa consultamos o Airbnb e escolhemos um chalé nas proximidades de Lake George. Alugamos por dois dias e deixamos Manhattan no fim da tarde de sexta-feira como milhares de outras pessoas resolvem fazer. Apesar do engarrafamento para sair da Big Apple enfrentamos uma viagem tranquila. Emma aproveita para estudar uma matéria atrasada e eu mal percebo as três horas dirigindo passarem. Quando chegamos esfria consideravelmente e Emma decide fazer um jantar que combine com vinho.
A casinha é exatamente o que pedimos e como mostravam as fotos, motivo para Emma se apaixonar pelo lugar e quase implorar para comprarmos um lugar como aquele. A cozinha é tudo o que ela precisa, e acho até que pretende dormir ali mais tarde. Enquanto descarrego as malas ela prepara o jantar. No meio da sala, sobre uma mesa de centro há uma revista de uma semana atrás e minha foto está publicada na capa. Não sei se foi uma estratégia do dono do chalé deixar a revista ali tendo em vista que eu me hospedaria em breve ou apenas uma coincidência. Encontro um CD da Gloria Estefan perto do aparelho de som e o coloco baixinho para dar clima ao ambiente. Abro o vinho e me sento em um divã. Bebo um gole do vinho e cochilo brevemente, até ser acordada por um beijo de Emma. Está no meu colo, pedindo que eu experimente o molho que colocará por cima do Haddock defumado.
— Não durma antes de provar essa receita que aprendi no trabalho.
— Quem disse que eu estava dormindo?
— Essa taça com vinho ao seu lado. Ao menos me espere, apressadinha. — Ela me serve na boca e o sabor é delicioso.
— Está uma delícia.
— Quase pronto.
Dez minutos mais tarde ponho a mesa para nós duas e janto o saboroso Haddock defumado de Emma. Nós duas vivíamos fazendo isso, jantando a luz de velas, ouvindo boa música e conversando sobre os nossos dias, mas não em um chalé perto de um bonito lago no interior do estado, e parece que isso deixava tudo ainda mais verdadeiro entre nós. Acabou que o assunto não fora sobre o carro que eu tinha recém comprado, mas sobre questões profundas que Emma estava começando a considerar. Acho que Emma tem se dado conta de que nosso relacionamento começou quando me comprometi a ajudá-la e agora ela não pode escapar disso. Suas crises estão cada dia piores e tem sido difícil vê-la péssima quando acontecem. Ela sente vergonha, medo e cansaço. Está acostumada a querer algo que não pode mais deixar dominar. Lutamos quase todos os dias contra seus sentimentos conflitantes e por me ver sempre tão empenhada em acabar com esse sofrimento, ela talvez queira me dar garantias e descanso.
— O que achou?
— Magnífico! Delicioso! Você se supera a cada prato. — Digo animada, limpando a boca para beijar sua mão.
— Fala isso todos os dias, não vale.
— Na verdade eu só não digo nos dias em que pedimos comida chinesa. — Brinco com ela.
— Quando sobra sou eu quem esquenta a comida no micro-ondas e você também elogia.
— Porque é a verdade, você é maravilhosa em tudo o que faz.
— É bom ouvir isso de quem se ama. — Ela segura minha mão sobre a mesa. — Podemos conversar sobre algo um pouco mais sério?
— Claro. O que houve?
— Não, é um assunto que venho pensado muito ultimamente. Nada do qual devemos nos preocupar, é só uma hipótese.
— O que seria?
— Você tem passado muitos dias dividida entre o escritório e eu, minhas crises, meus problemas. Mal podemos comemorar seu retorno porque eu estava mal, tendo que frequentar as reuniões da igreja e o terapeuta, sabe? Você tem me esperado até tarde todos os dias e quando eu chego faço seu jantar, sua massagem nas costas e é só isso que acontece, quando não rola da gente transar.
— Nós fazemos amor. — Tento descontrair sendo romântica e ela ri de volta, só que eu sei que ela quer me falar de como se sente e de alguma forma vai partir meu coração.
— Tá, quando rola da gente fazer amor, tá bom assim? — Emma pisca e volta a falar. — Então eu tenho esse problema que está me matando a cada dia. Me dando essa sensação de que você vai embora... Calma, eu sei que vai me dizer que estará lá para mim sempre, mas não é isso que a minha cabeça me faz acreditar. Então, depois de todos esses tratamentos que você me permitiu fazer, eu acho que a única solução para o meu problema é me internar. Não é tão seguro permanecer solta na cidade, com tantas tentações espalhadas a cada esquina que eu cruzar. Foi fácil achar droga quando você não estava por perto, não vai ser difícil quando eu surtar. É melhor, entende? Eu vou para um lugar recluso, vou receber os cuidados devidos e no final estarei convicta de que acabou, eu estarei livre desse maldito vício em que eu me coloquei.
Me levanto e ajoelho ao lado dela, pedindo para ela me olhar e se virar para mim.
— Eu sei que é difícil, que dói dentro de você e parece impossível às vezes, mas será mesmo que vai ser preciso se internar para se curar esse vício? Depois desse tempo todo em que você lutou por conta própria, é essa a escolha que você quer para si?
— Eu não posso me internar? — Ela me pergunta aflita.
— Pode, é claro que pode. Mas eu não entendo como decidiu algo assim depois de ter dito diversas vezes que esse seria seu último recurso. Seus pais já quiseram te levar para um lugar desse tipo. Eles iam te internar em Londres, você sabe que era isso que eles tinham em mente além de te afastar de mim. Você sempre me disse que jamais iria para uma clínica de reabilitação, porque não suporta a ideia de ficar presa. O que te fez mudar de ideia? Sou eu? Acha que estou cansada de você? Pois eu faria tudo de novo, Emma. Dane-se o sofrimento, eu faria tudo outra vez e ainda acharia pouco.
— É justamente por você me amar muito e eu não conseguir retribuir. Tô tentando até minhas forças explodirem, minha cabeça dói todos os dias e eu não me sinto bem.
— Retribui, é claro que retribui, não fala desse jeito. — Sinto meus olhos marejarem.
— Não chora, por favor, não chora porque se não eu vou chorar também. — Ela segura meu rosto e me beija a boca, desesperada querendo evitar que eu sofra.
Ainda estou de joelhos diante dela, entre suas pernas e ela sentada. Consigo espantar a vontade de chorar e olho em seus olhos lindos.
— Já sei, é a rotina. A rotina tem te deixado inquieta. É por isso que estamos aqui hoje, pra mudar os ares, pra você se sentir fora da confusão de Manhattan.
— É, tenho pensado em largar o emprego e procurar algo menos puxado. Tô querendo voltar a trabalhar perto de casa, tô aceitando até preencher uma vaga no Starbucks da Times Square só para não precisar mandar em ninguém. A gente se dá bem no restaurante, mas os mais novos que vão chegando precisam de instrução e eu não tenho dado conta. Tô levando bronca do outro chefe e nem formada eu sou ainda. Não nasci pra ser mandada e menos ainda mandar em alguém.
— Se o problema é esse preencha a vaga do café, só acho que não combina muito com o seu tipo. — Sorrimos pensando nela de avental e chapéu de atendente.
— Cuidar de criança também não faz o meu tipo e eu cuidei de duas. — Ela limpa o canto do olho com a manga da blusa e me olha de volta. — Eu sabia que você não ia gostar de saber o que andei pensando.
— Não tenho direito nenhum de te segurar, eu só me preocupo com a sua felicidade.
— Você é a minha felicidade, e eu tenho certeza de que se eu for realmente para uma clínica, você estará me esperando quando eu sair.
— Como você me esperou voltar quando parecia que eu estava morta. Foi a maior prova de amor que eu podia receber.
— Vou pensar com carinho, pensar em você, porque se te afeta me desequilibra.
— Se for o melhor, tenho que entender.
O resto daquela conversa tivemos no dia seguinte caminhando a beira do lago. Fizemos um programa diferente, aproveitamos o chalé e foi difícil ir embora no domingo de tarde. Quero voltar mais vezes com Emma, pretendo ficar uma semana, um mês aqui, ou quem sabe comprar um chalé do tipo para vir de vez em quando. Emma concorda com a ideia e parece estar melhor do que quando chegamos.
Perto do natal voltamos a ter relações todas as noites. O envolvimento carnal que nos uniu desde o começo. Emma ganha o hábito de me desejar mais que as drogas, ainda que o desejo por elas fosse algo subjetivo. Ela se entrega a vontade, não julga o instinto e me ama todos os dias do mês sem que eu precise pedir. Sempre começa com um olhar que trocamos na cama. Quando pensamos que não vai acontecer nada e ela está quase dormindo no meu peito ou finge quê. Ela decide me beijar, avança sobre mim e eu acato com as mãos em volta do rosto dela.
— Preciso de você! Me da você! Por favor...
— Estou aqui. Não vou te abandonar. Estou aqui. Não vou sair de perto. Tem certeza de que quer fazer isso?
— Quero agora. — Ela sussurra entre beijos. — A noite inteira.
— Então vem.
Deixo Emma me cobrir de beijos, puxar minha camiseta e belisca meus seios com os dentes. Ela não é bruta, mas não é tão delicada quanto esperava. Mesmo assim é bom, é sempre muito bom e ela sabe como gosto de ser tratada. Uma parte de cada vez no corpo até chegar entre as minhas coxas, puxar a calça de pijama com a calcinha e me foder com a língua, depois os dedos talvez, depende do dia. Emma me excita, me faz agarrar o travesseiro, isso quando não o mordo para abafar os gritos que nunca foram tão altos e eróticos. Ela me prende e ao mesmo tempo me faz tão livre. Nunca fui assim, nunca estive tão à vontade nas mãos de alguém, principalmente na boca de uma mulher. Emma me faz rebolar e quando me dou conta já estou com as pernas abertas demais, os joelhos vindo na cintura e meus pés sobre seus ombros. Aprendi a ser mais dela do que ela de mim. Me doo todas as noites para esta boca, ansiando por mais dessa sensação de gozo. E não é uma vez, são diversas que até eu necessito para me satisfazer. É bom ver Emma ser feliz me comendo, mas é bom ter um orgasmo seguido de outro, lógico.
Eu sei que logo essa fase acabaria ou daríamos férias ao sexo como fizemos há algum tempo, como todo relacionamento cheio de temporadas e episódios longos. Mas eu aproveito, ela também, nós duas gostamos enquanto a luxuria não passa. Sei também que essa é a maneira de Emma de dar vazão ao que não quer. Ela precisa expulsar seus anseios ruins e mostrar a mente que tem uma vida para viver. Quanto mais o tempo passa, mais difícil tem sido para ela driblar a consciência. Em algum desses intervalos ela me diz que tem medo de surtar como acontecia quando eu não estava por perto. Por mais segura que a deixe, mais Emma sente dificuldades em se manter totalmente tranquila.
Algo realmente perturbador ocorre semanas mais tarde quando o que ela mais temia se torna real. Enquanto deixo o fórum meu celular toca repetidamente até que o encontre dentro do bolso. É da polícia e de cara não sinto ser coisa boa.
— A senhora se chama Regina Mills?
— Sou eu. Pois não?
— A senhorita Emma Swan pediu que lhe chamasse.
Emma teve um surto enquanto ia para o trabalho e tomou outro caminho. De repente ela não sabia mais onde estava e como havia chegado até o topo daquele edifício. Vou imediatamente até ela, que se sentou no muro do terraço e está com os pés para o restante de Manhattan. Ela pediu para ninguém fazer alarde, estava sóbria e só tinha se perdido por um momento. Alguém chamou a polícia quando a viu pendurada lá em cima e eles posteriormente me ligaram a pedido dela. O policial que me chamou me mostra o caminho e nos espera próximo a porta de saída. Garanto que não vou perdê-la, que sei que ela estará bem comigo quando me ver, foi apenas um susto e isso não deve voltar a acontecer.
— Meu amor? — Chamo por ela quando me aproximo do muro e de suas costas.
Vejo seus cabelos balançando, ela olha lá para baixo, está ficando enjoada.
— Regina?
— Está tudo bem, Emma, cheguei.
— Pedi para chamá-la. Obrigada por ter vindo. Você chegou rápido.
— Eu viria até do fim do mundo. — Paro e espero ela reagir.
— Sei disso. — Ela se vira com cuidado e os policiais atrás de nós ficam de prontidão. — Me perdoa por fazer você largar o seu trabalho, por fazer você se preocupar.
— Nós já conversamos sobre esse assunto e não importa o que aconteça, eu vou sempre preferir ficar ao seu lado. Você teve apenas uma crise, as crises vão e vem, não é mesmo? Elas sempre vão embora até o dia em que nunca mais vão aparecer.
Emma faz que sim e olha por cima do ombro, para trás. Ela desce o muro e respira profundamente. Faço um sinal para os policiais terem calma, está tudo dando certo.
— Como foi que disse quando chegou? — Emma pergunta depois de muito tempo.
— O quê?
— Do que me chamou quando chegou aqui?
— Meu amor?
— É. Percebe como tem usado mais essa maneira de me chamar?
Acho graça e sorrio levemente.
— Sim. Você não gosta?
— Eu adoro. Só acho engraçado como as coisas mudaram. Há um ano você jamais me chamaria assim.
Começa a ventar gelado no topo do prédio e eu noto que Emma não está vestindo uma blusa tão quente. Tiro a parte de cima do terno e coloco sobre seus ombros, levando ela comigo.
— Você tem razão. Ainda acho que devemos ser mais criativas. Vou te chamar de boneca, o que me diz?
— Não, muito artificial. — Ela riu e então eu soube que fora apenas um susto o que ela tentou fazer.
Apesar de não tocar no assunto, eu senti Emma distante nos dias seguintes. Não tivemos sexo, mas tivemos todas as outras coisas que costumávamos fazer, ainda que ela estivesse muito desmotivada para tanto. Ela parecia fazer tudo com muita vergonha, uma delicadeza em sempre ter assunto diferente para tratar. Não falou absolutamente nada sobre o episódio do prédio e ficou por aquilo mesmo. Respeitei sua mágoa consigo mesma. Emma vacilava, se traía com essas atitudes na contramão, e eu estava vendo a hora em que ela optaria por se internar como havia me dito.
A convenci numa noite sobre irmos conversar com o Gold sobre sua saúde mental e não acho que ela tenha reagido bem.
— Isso seria por mim ou por nós?
— Por você, obviamente.
— Olha, não tô a fim de ouvir sermão do Gold.
— E quem disse que vai? Estarei com você, nós vamos ouvir o que ele tem a dizer sobre seu atual estado.
— Então isso não é por mim, é pela gente.
Suspiro, tentando ser paciente.
— Tá bem, é pela gente, admito. Vamos fazer terapia juntas, vai ser bom. No começo era isso que o Gold queria.
— Se você quer voltar a fazer terapia é porque não tem se sentido completa como me disse há alguns meses. Não vou nem perguntar se é por causa das minhas crises.
— Emma, eu não quero brigar com você, mas essa mania de colocar o “seu problema” no meio de todos os nossos está me deixando irritada.
— Sabia que uma hora isso ia acontecer. — Ela não parece surpresa.
— O que vai ser preciso eu fazer? O que mais? Hein? — Ela não diz nada e não responde. — Parece que tudo o que eu faço por você ainda não é o bastante.
— Não recuso o que você demonstra, especialmente agora. Eu sei que me ama, é que tem algo me empurrando para baixo constantemente. Naqueles dias em que a gente namorava todas as noites, que você se entregava pra mim, eu estava no céu, me sentia desejada, me sentia a pessoa mais incrível do mundo por conseguir dar prazer a você. Daí pra não saturar a gente parou, ficou só no carinho, voltamos pra nossa rotina e a minha ansiedade voltou de quebra. Tá vendo? Não é você ou o seu amor, sou eu ou o que quer que me atrapalhe.
— Você está sugerindo que a gente mude a nossa rotina completamente?
— Não é isso. Quero dizer que não sou eu, não depende da minha vontade sóbria. Minha vida está sendo controlada pelos meus problemas, sou refém dessa porra de culpa e da abstinência. Não sou uma mulher de ferro como você que superou o seu passado focando no trabalho e nas putas com quem dormia. Depois superou comigo, porque era só o que te faltava, alguém que tivesse dores como as suas.
— Mas e as suas dores? Elas persistem.
— Tô tentando aliviar, mas a vontade de desistir está ficando muito grande.
Tudo o que não desejava era que ela desistisse. Não suportava a ideia de vê-la usando qualquer porcaria que fosse só para aliviar sua ansiedade. Aumentaria a culpa, a tiraria de uma sobriedade de quase dois anos. Perguntei a Gold quanto tempo levava para alguém como Emma se curar definitivamente do vício e ele foi bastante direto me dizendo que para cada caso um fim. A mesma história de que entre 100 viciados apenas um se recupera completamente. Os casos mais graves são os de cocaína e crack e eu sabia que Emma se enquadrava neles, por isso eu morria por dentro só de imaginar sua imensurável repulsa pelo seu estado de espírito. Ao mesmo tempo que meus recursos para tirá-la das crises acabavam, a solução dela crescia. Acho que perderia Emma por alguns meses inevitavelmente.
Assim como fiz com o Audi parei na frente de uma joalheria famosa e namorei pelo menos uns seis pares de alianças da vitrine. Era uma ideia um tanto arriscada, mas a maior chance de convencer Emma a ficar comigo. Na verdade eu sei que é uma grande chantagem emocional colocar uma aliança cara em seu dedo e prometer que vamos embora do Upper East Side para morar em uma casa com uma cozinha enorme só para ela. Portanto a ideia fica apenas no ar, pelo menos até eu perceber que Emma poderia fugir ao invés de chorar de emoção quando visse as alianças.
Comprei um par de alianças cravejadas apenas por capricho e alternativa para quando me faltarem palavras com Emma. Elas serão usadas no momento certo, disso tenho certeza, por mais que fiquem vinte anos guardadas no meu bolso, vamos supor. São bonitas, imagino quando Emma tocar a que contém o meu nome escrito por dentro, o brilho dos olhos dela como nunca vi.
— Imagino que seja para uma mulher muito especial. — diz uma mulher alta atrás de mim, cujo reflexo eu vejo no espelho atrás do balcão.
— E é. Para a mulher da minha vida.
Uma jovem senhora de uns trinta e poucos anos se senta do meu lado e pede para ver um par de alianças no mesmo estilo. O vendedor mostra para ela uma coleção especial de joias cravejadas em que ela poderia incluir além do par um colar.
— Também procuro algo para dar de presente, mas não vou ser tão astuta quanto você. Futuramente, quem sabe? Já comecei a sondar as melhores lojas dessa cidade.
— Pelo visto trata-se de uma mulher também.
— Exato. Ela é uma mulher incrível e merece nada menos que o melhor.
Franzi a testa, o rosto dela não me era estranho.
— De onde te conheço?
Ela abre um sorriso, seus cabelos escuros caem dos ombros e ela abre o jogo.
— Ruby Lucas. Sou da Vanity, concorrente da sua amiga Kris.
— Ora, é verdade... Lembro de você no escritório dela uma vez.
— Longa história. Agora não frequento apenas o escritório como frequento o apartamento dela.
— Ah, entendi. É você, não é? A pessoa que ela me falou.
— Pode ser. Ela andou conhecendo muita gente nos últimos tempos, mas acho que a única que andou evoluindo na intimidade fui eu.
— Bom, se veio comprar um presente para ela, acho que está no lugar certo.
— É, eu já estou gostando do que vi aqui — Ela volta a olhar as alianças que escolhi. — Mas e aí? Vai fazer o pedido hoje à noite?
— Oh, não. Só resolvi comprar para manter guardadas.
Ela ri de forma suave e me pergunto por quê.
— Primeiro relacionamento sério da sua vida?
— Segundo.
— Com mulher?
— Com mulher é o primeiro.
— O que está esperando?
— Não sei. Só não acho que seja o momento adequado, mas quero ter a sensação de que vamos ficar juntas para sempre.
— Mas para isso nunca se precisou de alianças.
— É, devo estar ficando doida.
— Não, eu já entendi. Poderia estar fazendo como você, mas sequer oficializei alguma coisa com a Kris, embora eu goste muito dela e nossa história seja antiga.
— Cada um com suas dúvidas. — Sorrio.
— Exatamente. — Ela pede para reservar um par de alianças para gravar os nomes e se vira para mim. — Boa sorte de qualquer maneira a hora que for para ser. Pelo menos você não vai se arriscar como eu.
— E o que te fez mudar de ideia?
— A oportunidade. Pode dar errado, mas pelo menos eu tentei, e, se ela recusar, procuro outra pessoa.
— Ela vai aceitar, com certeza. Eu a conheço e garanto que era exatamente disso que ela precisava.
Ruby pisca e termina de comprar seu par. Deixo meu cartão caso ela precise de uma advogada e para minha surpresa ela já tinha um que Kris arranjou no coquetel.
Assim que saio da loja recebo um SMS de Zelena pedindo que a ligue quando estiver em casa.
“De Zelena:
Fui no escritório e Belle me disse que já tinha saído. Me chame quando chegar em casa, preciso conversar.”
Eu imagino o que minha irmã queira falar comigo. Então apresso meu passo e chego antes de escurecer no apartamento. No que eu saio do elevador encontro a porta encostada e as roupas de trabalho que Emma usa sobre o sofá da sala. Olho ao redor, nada dela, nem um barulho. Chamo por Emma duas vezes e ela não responde. Sentindo uma sensação estranha corro até o quarto e vejo o closet aberto, revirado. Algumas das roupas dela não estão ali e nem uma das minhas malas de viagem. Coço a cabeça e esfrego meu rosto, para mim só há uma explicação e não é simplesmente ela ter sido raptada de novo. Emma saiu de casa, deve ter sentido outra crise e não quis dar trabalho. Ela não consegue obedecer suas próprias vontades. Ela está certa, não é mais ela controlando tudo, é a culpa. Sei para onde ela foi. Sei exatamente onde ela está.
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