For the love of her
34 Escolhas certas
Notas iniciais
O tempo parou por um instante, embora eu soubesse exatamente para onde Emma foi. Não sei se devo ir atrás dela. Não sei se devo respeitar sua decisão ou se é exatamente isso que ela deseja, que eu vá atrás dela e peça que ela volte. Dejavu. Aconteceu uma vez quando nos perdemos, quando ela parou em um hospital porque teve uma overdose na rua. Felizmente hoje ela não vai mais dar vexames, não vai se permitir pôr um cigarro na boca, mas ela vai sofrer se não fizer algo por si mesma. Ela pede socorro desesperadamente todos os dias e meus recursos não são bastante. Tenho que me pôr em seu lugar constantemente e penso que cair em tentação seria a melhor escolha, mas num paradoxo interessante, Emma talvez não fosse o que eu sou para ela. Cada uma de nós tem um propósito e sei que agiríamos distintamente se estivéssemos uma no lugar da outra.
Sou cruel ao pensar que Emma desistiria de mim na primeira recaída e eu não faria esforço para me curar se não quisesse. Mas eu estou desse lado, o lado que protege e faz o impossível para vê-la bem, sou exatamente quem quero ser. Já ela é tudo o que não quer e está morrendo enquanto pensa que de alguma forma vou ser infeliz com ela.
Paro na frente da casa dos Swan e espero a chuva dar uma trégua para descer e tocar a campainha. Quem abre é Margaret e ela sabe por quê estou ali. Sorrio quase que obrigada e entro. É como se me esperassem naquela noite fria. Emma está de costas para a entrada, olha pela janela e fica de braços cruzados. Ela baixa a cabeça ao sentir minha presença. David sai do escritório com alguns papéis na mão e vem me cumprimentar. Tiro as luvas das mãos e faço o que ele indica, me sento no sofá para conversarmos.
— Emma nos contou o que anda se passando. — Ele começa, bastante calmo. — A decisão é dela, porém, é óbvio que queremos saber o que você pensa sobre o assunto.
— Para ser bem sincera eu não gosto da ideia, mas a decisão é dela.
— Sabemos que você nunca quis que chegasse a esse ponto. Nós agradecemos por ter cuidado dela e dado tudo o que ela precisou.
— Ela sofre enquanto eu tento muito que ela se recupere. Não há ninguém no mundo que queria tão bem a Emma quanto eu.
— Não temos dúvidas disso. — Ele olha na direção dela. — Emma? O que você quer fazer?
Emma finalmente fala.
— Quero ser internada. Vim pedir que me internem, porque a Regina não é capaz de fazer isso sozinha.
— Você sempre foi contra a ideia, querida. — Me ergo. — Pensei que ainda quisesse ser livre.
— A coisa que eu mais odeio no mundo é me sentir presa, só que não existe outra alternativa. Se me fizer bem no futuro eu vou ter que aguentar. — Responde ela, vindo até mim. — Você não tem que se preocupar com mais nada. Eu pedi pra eles, vão custear tudo.
— Isso não é um problema, eu posso pagar.
— Eu sei, eles sabem, mas dessa vez não, amor. Não faz esse esforço. Se eu não me sentir curada quando sair de lá, eu juro que desisto.
Tento me virar, mas ela me impede. Tento não ver apenas os problemas, mas ela me prende e tenta me convencer de todas as formas para que eu fique tranquila.
— Olha pra mim, amor, me desculpa. É melhor assim do que ter uma recaída que está prestes a acontecer. Vai ser inevitável se eu continuar assim. Por favor, me entenda. É por você que tô fazendo isso.
— Se fosse por mim você ficaria comigo. — Enfio a mão no bolso do terno, por baixo do sobretudo e sinto a caixinha com as alianças. Por um segundo me encho de coragem em mostrar para ela, no outro estou completamente covarde e penso não ser uma boa ideia.
— Quando eu voltar tudo isso estará acabado e eu vou ser sua de verdade. A Emma que você me ensinou a ser vai estar aqui completamente curada, viva, renascida. Confia em mim.
Dou uma longa volta com meus pensamentos e vejo que não há saída, não há meios de combater a convicção de Emma. Eu não quero ficar sem ela agora, não nesse momento em que tudo parece se encaminhar para o meu lado. Abraço ela com força e ela segura meus cabelos, faz carinho, sussurrando baixinho:
— Eu te amo e faria qualquer coisa para ser feliz ao seu lado. Vou ficar boa e nós duas vamos viver tudo o que merecemos juntas. Prometo. Por favor me espera, serão apenas alguns meses para essa tortura acabar e a gente vai se amar muito todos os dias. Eu preciso retribuir tudo o que você fez por mim e o meu jeito de resolver o que eu tenho é assim.
— Nós aguentamos três meses, não foi? O que seriam mais alguns?
— Pois é. Não custa a gente tentar.
Ela me beijou os lábios suavemente, depois limpou o meu choro que eu já não tinha como evitar.
Fui egoísta pensando que podia manter Emma comigo enquanto ela se recuperava. Minha vaidade não permite que eu deixe os meus amores livres. Agora estou sendo forçada a vê-la se afastar por um tempo, que me promete ser útil depois. Não gosto nada de me imaginar sem ela. Eu sofreria tanto quanto foi quando estava em Atlanta, presa pela minha família. Tenho que ser honesta com ela e dizer que tenho planos, que ela também não tem o direito de me esquecer. Mas ela é quem me pede para não ser esquecida.
David se levanta e Margaret o segue, nos deixando sozinhas enquanto eles ligam para a clínica que vai hospedar Emma pelo tempo necessário.
Ficamos juntas na casa dela essa noite, ela não quer voltar para o apartamento porque decidiu que só pisa naquele lugar de novo quando estiver curada. Dormimos juntas em sua cama de solteiro, como uma despedida. Acontece a noite inteira, um festival de luxuria. Emma me ama, eu amo Emma e disputamos para ver quem fica por cima. Ela deixa suas marcas pelo meu corpo, deixa seu cheiro e gosto na minha boca, me arranha e pede que eu faça o mesmo com ela. Não há mais espaços em seu pescoço para chupões, nem em suas costas para os rastros das minhas unhas.
Aproveito cada segundo do seu sorriso, quando goza, quando me faz gozar, quando está feliz. Às vezes quero somente olhar para ela e dizer que a amo como nunca amei ninguém. Ela zomba de mim, diz que não posso amar mais que ela e nós duas rimos juntas da disputa que criamos sobre quem ama mais. Estamos com os lábios dormentes, mas não queremos parar. Já é dia quando deslizo dos seus seios às suas coxas e tenho um décimo encontro com sua vulva. Depois que ela treme mais rápido do que das outras nove vezes – como se tivesse pegado no tranco – volto até sua boca e a puxo para mim entre os dentes.
Emma toma fôlego, me alisa enquanto meu corpo nu se arrepia pela trigésima vez, por conta do frio, e me diz algo que ela quase sempre precisa me contar.
— Preciso te contar uma coisa. — Sussurra.
— O que seria?
— Você é muito gostosa.
Sorrio e me aninho nos braços dela.
— É você quem fala, mas dessa vez eu vou concordar. — Deito a cabeça ao lado dela no travesseiro. — Vou sentir sua falta.
— Quando eu voltar vai ser ainda melhor. Será que você vai dar conta?
— E ainda duvida? Aguentamos várias noites inteiras, não vou negar fogo.
— Sabe aquela primeira vez em que você me levou pra cama? Vai ser daquele jeito. E ainda vou te fazer implorar muito pra te comer.
— Mal posso esperar. — Ela terminou o que queria fazer comigo e jamais me esqueceria do meu sentimento.
Nós levantamos, tomamos banho e depois de pronta, voltei ao quarto para vestir a parte de cima do terno que faltava. Entretanto, Swan olhava algo que caiu no chão e sua reação foi exatamente a mesma de quando se deparou com as minhas cicatrizes pela primeira vez. Ela se vira com a caixinha na mão e me olha boquiaberta.
— Não acredito... Você...
— Não tive coragem de pedir na frente dos seus pais ontem. Nem era para pedir nesse momento. Era para manter guardado até uma hora oportuna.
— Quer isso mesmo pra sua vida? Quer viver comigo pra sempre?
— O que que você acha? É claro que eu quero.
Ela pula no meu colo e me agarra. Dá risada, chora, grita, gargalha, manifesta toda a alegria do mundo em dois minutos.
— Te amo.
— Eu também. Deveria ter feito isso quando voltei da morte.
— Não precisou fazer, aconteceu.
— Por favor, não quero que pense que estou pedindo para ficar.
— Eu sei que não está, mas você vai guardar essas alianças até eu voltar. É essa a minha garantia contigo. Quando eu sair da clínica você deve colocá-la no meu dedo e pronto. Eu vou sair e a primeira coisa que fizer vai ser isso. Vou ficar boa para te ver me colocando essa aliança no dedo.
— Quero saber apenas uma coisa antes de ir. Você também quer viver comigo para sempre?
— Pra sempre é pouco. Eternamente.
Emma me faz manter o par de alianças dentro da caixa e nosso trato é feito.
No fim da manhã, um carro para na porta da casa e os representantes de uma clínica renomada do interior do estado conversam com a família. Estou observando o que prometem e os vejo mostrando os termos de serviço do lugar para que os Swan acordassem em contratá-los. Emma assina também. Meu celular toca umas duas vezes no meio da reunião. É Belle do escritório, querendo saber onde estou e provavelmente querendo saber que horas vou aparecer. Mando uma mensagem explicando que logo menos estarei por lá, que há coisa mais importante a resolver, que se alguém me procura que me espere.
Eles concordam entre si, apertam mãos e Emma puxa a mala que vai levar consigo. Leva uma bolsa menor nas costas também e sai de mãos dadas comigo. Nos olhamos enquanto colocam a bagagem no porta malas do carro. Nossos olhos brilham, eu tento disfarçar que vou chorar, abano a cabeça e olho em outra direção, mas já é tarde.
— Uma das coisas que eu mais amo em você é a forma como tenta esconder suas emoções às vezes. É bonitinho. Você é acanhada para algumas coisas, sem vergonha para outras.
— É, você me conhece bem. Por favor, fica bem. Vai dar tudo certo. Eu te amo. — Falo somente para ela.
— Eu te amo muito mais. — Ela se vai depois de um beijo carinhoso na minha boca.
Margaret deixa uma mão sobre meu ombro e acena para a filha no carro. Emma vai embora para a reabilitação, convicta, nos deixando cheios de esperança.
— Ela vai ficar bem. — Diz Margaret, olhando o carro que leva Emma se afastar.
— Não podemos ter dúvidas quanto a isso. — Comento.
Apesar de me envolver duramente com o trabalho, dedicando todo o meu tempo a ele, sempre há uma hora nos dias em que penso em Emma. Sinto falta dela, do cheiro dos cabelos loiros no meu travesseiro e dos bons jantares que ela preparava graças ao talento. Nos falamos toda semana, às vezes todos os dias quando ela é liberada para ligar pra casa, mas prefere ligar para o meu celular. Emma me conta da sua rotina, o que comeu na clínica, do tratamento, como tem reagido e como espera que vai se sentir. Sem ela tudo fica morno demais, tudo esfria muito rápido e há um vazio gigantesco na minha rotina. Não posso reclamar tanto, os dias e principalmente noites sem ela não são tão ruins quanto eu esperava, porque ela me mantém calma, fazendo com que eu acredite que vai valer a pena a espera.
E lá se vai um mês. Ela continua me ligando com a mesma frequência, é o melhor horário do meu dia. Ao chegar em casa minha alternativa é fazer meu próprio jantar, coisa que aprendi com Emma e que de alguma forma me trazia bastante calma depois de um dia cheio no trabalho. Ganhei alguns casos de menor relevância até começarem a surgir maiores responsabilidades de clientes muito importantes. Pesquei um processo contra uma pop star do momento e minhas declarações saíram na TV. Meu rosto novamente ficou conhecido e mais ainda quando consegui que fosse absolvida.
Meu trabalho estava cada vez mais em procurar a justiça das pessoas do que simplesmente inocentá-las. Se eu não acreditasse no álibi de alguém que procurava a minha ajuda, não era um caso para mim. A questão estava em defender quem era vítima de injustiças como eu fui. E quando era exatamente o que se tratava, eu era imbatível.
Emma gostou de me ver na TV as vezes em que a impressa me convidou a falar pela minha cliente. Me disse que eu estava particularmente bonita e era fotogênica. Gosto dos elogios dela, de como me arranca risos. Ela fala comigo brevemente apenas para contar que me viu, nesse momento vai para uma atividade em grupo nos jardins da clínica. Noto uma melhora em seu humor, uma alegria explicita e animação espontânea de quem está feliz com os resultados. Deus queira que eu esteja certa e que Emma volte completamente curada. Vou aguentar o tempo que for necessário para vê-la bem.
Assim que desligo o telefone me viro na poltrona giratória e vejo minha irmã de pé na porta do escritório. Zelena me olha com tanta aflição que me dá medo perguntar o que houve.
— Preciso de um conselho, irmã. Me ajuda. — diz ela, quase choramingando.
— Por que essa cara?
— As coisas não têm ido bem desde aquele dia com a Ingrid.
— Por quê?
Ela vem segurando os próprios braços, alisando-se.
— Está tudo desmoronando desde que ela foi embora. Não sei o que faço.
— O que foi que vocês conversaram aquele dia?
— Nada. Eu nem dei uma chance dela me dizer as coisas que estava sentindo, eu achei aquilo um absurdo. Eu? Ela gostava de mim.
— Gostar não, amar. Amar é diferente de gostar. E ela ama tanto você que decidiu ir embora. Está no direito dela.
Me levanto e busco água para a ruiva, que se senta a minha frente na mesa.
— Só no dia seguinte que percebi a burrada que eu fiz em sair correndo. Mas eu fiquei horrorizada com o que ela fez.
— E você? Se fosse você o que ia fazer? É do seu feitio agir por impulso. Você também iria bater em alguém que está maltratando quem você ama.
— Não, Regina. Não, claro que não.
— Tá bom, agora é tarde, Ingrid foi embora e você não sabe como vai viver sem ela. Será que isso não se cama interesse? Às vezes a curiosidade em saber como seria se vocês namorassem...
— Não consigo parar de pensar nela.
Paro ao lado da mesa e me apoio na borda.
— Mamãe está sabendo?
— Liguei para ela há alguns dias e ela praticamente me deu uma bronca no telefone dizendo que eu tenho que descobrir onde está a Ingrid.
— E é o que você quer?
— Não sei. — Zelena fica ainda mais aflita.
— Se eu encontrasse ela pra você, teria coragem de conversar?
— Sim, eu teria.
Pego uma agenda dentro da gaveta e abro a lista telefônica na letra F, onde figura o sobrenome Fisher de Ingrid. Ali consta seu endereço atual que fiz questão de anotar depois que ela me mandou seu paradeiro através de um cartão postal. Olho para minha irmã e respiro fundo.
— Quer fazer um passeio até Rhode Island? — A pergunta soa interessante para Zelena e ela topa ir se eu estiver junto.
A casa onde Ingrid mora fica em uma vizinhança muito calma de Providence. Me lembra muito as casas que costuma-se ver em filmes e a princípio me cria muita vontade de perguntar a ela quanto custou. Toco a campainha enquanto Zelena ainda se aproxima, receosa, envergonhada, com medo da reação da loira quando vê-la ali querendo conversar. E eu espero sinceramente que Ingrid aceite ter uma conversa com minha irmã, pois só de pensar que fiz uma viagem de três horas em vão já me dá calafrios na espinha.
Chamo de novo pela campainha e nada, até que ela aparece na janela, atrás da cortina como se tivesse acabado de acordar, mas já é bem tarde, o que ela fazia dormindo a uma hora dessas? Ingrid abre a porta e por causa da friagem se enrola depressa no roupão aveludado que está vestindo. Está abatida, com a cara amassada de sono obviamente e não tão surpresa por ver Zelena atrás de mim.
— Como você está, minha amiga? — Tento abraçá-la e ela aceita.
— Tenho ido bem, e você? Que houve? O que traz vocês aqui? — Ela procura Zelena que volta a se esconder nas minhas costas.
— Nós precisamos conversar. Prometi que não daria seu endereço a ninguém, me desculpe, mas acho que tem alguém aqui que precisa ser ouvida.
Olho por cima do ombro e Zelena sai de trás, encarando Ingrid. As duas se cumprimentam com um aceno e a loira abre espaço, convidando-nos a entrar. Me sinto entrando em uma casa de avó, mas é a casa de Ingrid, cheia de quadrinhos nas paredes, móveis antigos e simplicidade. Apesar de todo o dinheiro que a indenização do FBI rendeu ela não se importou em gastá-lo com luxos. Acho isso bonito e aparentemente minha irmã também se impressiona. Zelena, a propósito, está tremendo na base, esconde os dedos nas mangas da camisa de lã para não roer as unhas e observa Ingrid organizar as pressas o sofá da sala que estava cheio de roupas espalhadas. Aliás, percebemos também que há uma certa desorganização em cada canto para onde se olhava. Ingrid não tem tantas coisas, mas o que tem não estava no lugar que devia. Suas roupas estão espalhadas por cadeiras ou pelo sofá. Na mesa de centro da sala há muitos panfletos de agências de viagem, muitos deles indicando preços de cruzeiros pelas ilhas gregas. Zelena se sente à vontade o suficiente para entrar e pegar um daqueles na mão. Ela olha para Ingrid e sente dúvida.
— Eu espero que o que está planejando não seja por minha culpa. — Fala a ruiva de cachos cheios.
Ingrid deixa as roupas como estão depois de ouvir e cruza os braços.
— Algum dia quando estiver cansada de tomar decisões erradas, talvez seja capaz de compreender meus motivos.
— Gostar de mim foi uma decisão errada?
— Deixou de ser a certa quando você saiu do escritório da Regina aos prantos.
Elas ficam caladas por um momento.
— Antes que pense que eu acho muito errado você gostar de mulheres, eu tenho uma irmã que vive a mesma situação. Ela se apaixonou por uma mulher assumiu o relacionamento dela. Admiro a coragem dela e admiro a sua por ter inclusive se casado com a Ana. Sinto muito por ela ter partido.
— Por que está me falando essas coisas? Eu penso nada de você, nós continuamos sendo amigas, foi você quem se assustou.
— Porque... Ora, porque eu fui muito idiota, muito precipitada em ter largado tudo e praticamente deixado a minha vida se tornar um caos depois do que você me contou. — Vejo os olhos azuis da minha irmã brilhando intensamente. A conversa começou a ficar boa entre elas.
— Então veja a minha vida como está. Dormindo tarde e compensando durante o dia porque a consciência pesa. Eu peço desculpas por ter dito a verdade.
— Não, não precisa. Eu agi errado, sou eu quem peço as desculpas aqui. Aliás, desculpa por muita coisa que só depois eu percebi que estava te magoando. Lembra das vezes em que desabafei sobre o Robin? Eu contei que ainda amava ele e não sabia que estava partindo seu coração. Foram atitudes egoístas que os dias sem você me fizeram enxergar.
— Talvez o problema fosse eu sim. Você nunca esteve com uma mulher, amorosamente dizendo, como eu poderia esperar que fosse retribuir o meu amor?
— Trabalhamos juntas diversas vezes, ficamos amigas, convivemos e o meu casamento com o Robin me deixava cega. Então eu me separei dele, acreditei que teria volta, mas não teve assim como não vai ter. Por favor não pense que estou querendo te usar para não me sentir sozinha, eu apenas concordei que você sempre quis me proteger, me cuidar porque sempre me amou. — Zelena embarga, está com medo e para fazer esse medo passar ela resolve agir rápido. — Desde que você sumiu eu venho pensando se não seria justo me dar uma chance e viver algo totalmente diferente do que eu estou acostumada. Tenho sonhado com você, sinto seu cheiro, seu perfume como se estivesse deitada do meu lado na cama. Tive pavor no começo porque desconhecia a sensação, mas agora eu entendo o que significa.
Ingrid abana a cabeça, não acredita e tenta se afastar, mas Zelena a segura pelo braço.
— Mudou de ideia rápido demais, não diga asneiras tão grandes, você nunca vai conseguir gostar de alguém como eu.
— Eu já gosto, não tem jeito. — Minha irmã coloca as mãos no rosto de Ingrid e faz ela olhar em seus olhos mais uma vez. — Estou disposta a largar tudo por você, qualquer coisa, eu faria qualquer coisa. Me perdoa e diz que me ama de novo porque agora eu acredito e eu tenho certeza de que te amo também.
A loira sorri de alívio e minha irmã aproxima a boca na dela, beijando Ingrid da maneira mais apaixonada possível.
Gosto de ver as duas juntas e também estou aliviada por elas terem se acertado.
Deixo as duas sozinhas, resolvendo dar uma volta pela cidade enquanto elas aproveitam. Quando retorno há um jantar preparado pelas duas me esperando. Vou dormir em Rhode Island essa noite, estou cansada da viagem e não quero pegar a estrada a noite. Ingrid e Zelena estão felizes, se olham e sorriem o tempo todo. Elas me agradecem por eu ter dado a sugestão de conversarem, fiz bem. Conto o que houve com Emma e os planos para quando ela estiver curada, as duas apoiam e me pedem para serem madrinhas no casamento, mas asseguro que apesar de ficar noiva vou levar tempo para me casar. Zelena me diz que vai passar um tempo com Ingrid e que não vai voltar a Nova York tão cedo, que vai deixar o serviço secreto e procurar um trabalho menos carregado. Concordo com ela que é hora de fechar ciclos, de se despedir de uma parte da vida dela da qual já lhe deu muito orgulho e que agora não vai lhe render mais que dores de cabeça.
Vou embora no dia seguinte, lembrando que em uma semana poderei ver Emma, já que o tratamento vai completar dois meses e os pacientes da clínica de reabilitação terão direito a receber visitas. Emma pediu que eu fosse, já que seus pais estiveram com ela no mês passado. Finalmente a verei depois de tantos dias e vai ser incontrolável não desejar matar a saudade. Não sei quanto tempo mais será necessário para ela em seu tratamento, mas uma coisa tem me deixado tranquila, saber que ela tem progredido muito mais do que quando estava comigo aqui fora. Eu noto em sua voz nos dias em que me liga que não é mais como antes, e se ela está se curando como me prometeu imagino que vou encontrar uma Emma muito mudada nos próximos dias, em jeito, aparência, mas com toda certeza ainda será a Emma por quem me apaixonei.
Em Manhattan, três dias mais tarde, recebo Margaret e David em meu escritório para falarmos sobre a recuperação da filha. Eles me questionam se pretendo ir embora da cidade com ela, pois pelo o que me parece Emma já contou que vou pôr uma aliança em seu dedo quando ela sair da reabilitação. Sorrio ao saber que ela já se adiantou e está feliz com um simples gesto que nem nos meus planos estava há alguns dias. Digo aos dois que vai depender muito do que ela decidir, que a ideia de ir embora era só uma alternativa de quando ela não pensava em se internar. Emma deve querer se formar antes de tomar qualquer atitude, é bastante orgulhosa em querer mostrar sua dedicação, por isso acho que é muito cedo para garantir que vou levar a filha dos Swan para outra cidade. Então os asseguro de que eles poderão ter a filha por perto. Consigo entendê-los, afinal Emma é filha única e também a única razão pela qual os dois vivem.
Vê-los tão zelosos com a filha me faz pensar se não vale a pena ser mãe um dia, mas esse é um pensamento que passa rápido pela minha mente. No fundo eu não sei se me tornar mãe está no meu destino. Talvez seja apenas um lampejo de uma vontade que tive um dia, quando namorava Killian e planejávamos nos casar. Margaret pesca no ar meu devaneio, me observa com seus olhos curtos e sorri de canto sem dizer nada. Quem pergunta é David, uma outra coisa.
— Posso fazer uma pergunta antes de irmos, Mills?
Levanto minha cabeça e falo:
— Claro.
— Ainda sente raiva de nós por tudo o que causamos a vocês duas?
Coço a nuca porque não esperava a pergunta, mas entendo que David quer ter certeza de que não guardo rancor deles.
— Nunca senti raiva de vocês. Eu tinha pena. Sem contar que depois aconteceram muitas coisas e o que vocês fizeram nem chegava aos pés.
Margaret aperta a mão do marido e comenta:
— Às vezes o David me pergunta se você no fundo nos odeia, por isso fez a cabeça de Emma para ela nos evitar durante um tempo.
— Agora vocês sabem que são diretamente responsáveis pelo meu relacionamento com a Emma. Eu nunca quis pegar o caso. Alguma coisa me disse para ajudá-los e veja no que deu.
— Nós estamos felizes que ela tenha alguém como você de suporte. Somos os pais, porém nunca teríamos a capacidade de ajudá-la como você ajudou. O seu amor por ela é diferente do nosso amor por ela. — diz Margaret.
— O meu amor envolve muita coisa. Ela me ajudou também, me fez superar o que eu considerava o karma da minha vida. Obrigada por sem querer terem colocado a Emma no meu caminho.
— Nós é que agradecemos por você ter aceitado ajudar uma viciada. Emma está muito mudada, garanto. Você vai se assustar ao vê-la na clínica, mais para bem do que para mal.
— Estou louca para me encontrar com ela.
— Sim, ela está diferente e mais bonita. — David fala e meu coração explode de alegria.
Realmente ele está certo, muito mais do que eu poderia esperar. O dia chega e vou até o interior me encontrar com Emma na clínica onde foi internada. É um lugar lindo, aberto e ensolarado para o tempo frio que se aproximava. Há muito cuidado e um enfermeiro para cada paciente, até que eles se misturem nas oficinas e atividades em grupo. A clínica é enorme, cheia de salas, divisões e quartos espalhados pelos andarem do prédio. Não é um lugar cujo aparência remeta a um hospital de doentes mentais como as pessoas pintam esse tipo de lugar, é muito mais tranquilo, o que de certa forma de deixa aliviada em perceber.
Sou acompanhada até uma sala ampla onde naquele momento está acontecendo uma oficina, adivinhe de quê? Culinária, e quem ajuda na aula é ela, auxiliando os colegas a virarem massas com as mãos. Fico olhando até a aula terminar e todos saírem da sala, menos ela. Eu entro enquanto Emma arruma a bagunça. Ela escuta o barulho dos meus sapatos no chão e para, como se estivesse pegando meu perfume no ar. Emma fecha os olhos, respira fundo e sorri, mordendo os lábios de leve.
— Você... Eu tava te esperando. — diz ela arfando de emoção.
— Como sabe que sou eu? Ainda não me viu. — me aproximo lentamente.
— Ainda que eu estivesse a uma milha de distância eu saberia que é você. Eu reconheço até o barulho dos seus sapatos, o perfume que você usa, o tom da voz quando fala comigo. — Então ela se vira e abre o sorriso mais lindo do mundo. Seus olhinhos estão brilhando tanto, prestes a sorrirem tanto quanto a boca. Ela vem e a gente se beija, se abraçando.
Emma borra meu batom, bagunça meu cabelo e quase estoura os botões da minha camisa, tamanha violência das suas mãos e boca. Depois de rirmos disso ela limpa a sujeira de cera no meu rosto e eu a que ficou em volta da sua boca. Está linda como jamais vi, é verdade. Seu rosto brilha, sua pele parece ligeiramente mais corada, os cabelos estão enrolados na ponta e mais compridos. Me deixa encantada, com uma vontade louca de fugir com ela dali agora.
— Está linda, olha só pra você! Seu pai tinha razão!
— Meu pai é um babão, para ele sempre vou estar linda. — Ela me vê e tenta evitar o inevitável. — Ei, por que essa cara? Vai chorar, sério?
Limpo os olhos e faço que não.
— Ando meio emotiva, sabe como é? Na sua ausência eu perco um pouco o equilíbrio. — Brinco.
— Pode chorar, eu já falei que acho bonitinho quando você se solta.
— Tudo bem, vou aprender a me libertar mais vezes. Agora me fala de você, o que tem feito por aqui? Como tem se sentido?
— Melhor impossível! Os primeiros dias foram difíceis, mas depois foram me acalmando. O tempo tem passado rápido desde que comecei a ajudar nas oficinas. Acho que é isso que eu quero, continuar ajudando pessoas que passaram pelo o que eu passei quando sair daqui. — Diz ela, animada.
— E você vai, com certeza. Há muitas opções esperando por você lá fora.
— Mas não vou aceitar nenhuma se você não tiver comigo.
— Quem falou que eu não vou estar?
— Ah, não sei, talvez enjoe de esperar.
— Não. Nunca. Ainda mais agora que você está tão feliz. A gente tem que dividir essa alegria.
— Será que a gente aguenta mais dois meses?
— Só aguento se prometer que vai me ligar toda semana com essa voz e me contar tudo o que fez. — Afasto os cabelos do rosto dela. — Como eu sinto a sua falta.
— Eu também. Principalmente à noite quando eu tô sozinha no quarto e fico olhando pra aquela foto da gente no Central Park.
— Nós vamos voltar lá e tirar uma foto nova, assim que você sair daqui.
— Jura?
— Juro. — Beijo a mão dela. — Agora eu quero conhecer o lugar onde você passa mais tempo.
— Quais são as suas intenções no meu quarto, hein?
— Você vai saber. — Rimos e ela me leva até a ala onde está hospedada na clínica.
É um quarto convencional, do tamanho de qualquer quarto de hospital, onde Emma vê TV quando quer e pode descansar depois das doses diárias de medicação. Enquanto ela me mostra seu progresso, uma enfermeira chega com as pílulas e calmantes que vão inibir sua vontade de consumir entorpecentes. Emma chegou a uma fase do tratamento em que quase está livre dos remédios, mas que mantém por precaução.
Escolhemos ficar no quarto conversando ao logo do dia, pois ela sabe que posso ficar chocada com a situação de outros pacientes que estão internados e às vezes dão trabalho nos corredores. Emma não vê a clínica como a prisão que pensava existir antes de se internar. É melhor, é mais fácil e com ajuda de terapeutas a todo o momento ela se sente segura. De verdade o que mais a aflige é o tédio. Sempre há momentos em que sofre por não estar comigo, massageando as minhas cicatrizes ou fazendo meu jantar, mas como ela mesma diz, nada que um pouco de música não resolva.
Quando ela fala de música, vejo o rádio relógio ao lado da cama sobre uma cômoda. Ela o liga e programa uma gravação que fez, estendendo a mão para mim em seguida.
— O que vai fazer? — Pergunto enquanto volto da janela.
— O que você sempre fez quando eu estava no auge das minhas crises. — Ela me segura pela cintura, enrosca os dedos nos meus e começamos a dançar aquela música muito conhecida entre nós duas. — Vamos matar a saudade.
— Você não sabe como é bom fazer isso enquanto te olho nos olhos.
— Porque todas as outras vezes eu enfurnava a minha cara nos seus peitos. — Soltamos uma gargalhada alta juntas.
— Não exatamente.
— É, eu poderia ter feito isso mais vezes.
Dançamos com os rostos colados por muito tempo e quando a música acabava Emma corria para repetir a dose no rádio e voltava rápido para mim.
As horas passaram e a enfermeira que cuidava de Emma veio nos avisar que o dia de visitas tinha terminado. Pedi mais alguns minutos com Swan para nos despedirmos a altura.
— Que pena que foi tão rápido.
— Você vai vir me encontrar daqui a dois meses, mas não vai ser para uma visita.
— Já sei, vai ser para vir te buscar de vez.
— Se tudo der certo até lá, estarei pronta para voltar.
— Está dando certo, eu vou esperar. — Digo e a beijo suavemente, enroscando a língua na dela só para levar o sabor daquele beijo como lembrança.
— Só mais uma coisa... Eu te amo.
— Eu também. — Damos o último abraço e ela me acompanha até o fim do corredor.
Um funcionário da clínica me aguarda, eu aceno e olho para Emma de novo. Não digo nada, apenas desprendo dos seus dedos e ando de costas para o elevador vendo Emma ficar distante. Entro no elevador e ela me joga um beijo antes das portas fecharem.
Fale com o autor