Notas iniciais
Olá, leitoras. Bem-vindas de volta! Reta final, com coisas indo para o devido lugar, pessoas se despedindo e um amor muito vivo pra ser contado no fim. Boa leitura.


Enquanto espero o último mês da internação de Emma passar – quase uma eternidade – repenso em alguns dias de descanso viajando pelo país. Se for o caso posso sair com Emma dos Estados Unidos, mas só faria isso se ela quisesse e sentisse necessidade. Não sei até onde Emma estará apegada as lembranças de sua época de vícios e como vai reagir quando tiver de lidar com o mundo fora da clínica. Talvez nem seja tão interessante sair em viagem com ela, pode ser melhor ficar por aqui, deixando se readaptar a vida que queríamos ter desde o início.

Em uma noite fria paro em um bar da Lexington Avenue para beber, me esquentar e me distrair antes de voltar para casa. As noites têm sido cruéis e a falta que Emma faz me tira o sono. Ao meu lado no balcão um homem acena e o reconheço. É Gold que está ali pelo mesmo motivo que estou e quando nos damos conta disso começamos a rir. Ele me fala de sua ex mulher, das namoradas e eu falo de Emma. Gold me considera uma pessoa de sorte, por tudo o que aconteceu, por tudo o que eu já havia vivenciado e por ter me relacionado com uma viciada que optou por se tratar. Concordo com ele e dou valor ao que ele me fala. Sinto felicidade, como se uma chama pequena esquentasse meu peito naquele momento em que me dou conta de que posso me declarar feliz pelo presente e futuro.

Brindamos. Ele pela alma gêmea que acredita existir para ele em algum lugar de Manhattan e eu pela cura da minha namorada. A conversa tem uma breve pausa quando ele pede outro drinque e me pergunta na sequência:

— Acha que vai saber lidar com essa nova Emma?

— Tenho certeza. Por que pergunta?

— Porque até agora você só conheceu uma versão dela. Pense em você quando voltou para cá. A Regina que eu conheci é uma mulher muito diferente dessa que está conversando comigo agora.

— Tá, acho que eu entendi a pergunta. A mudança pode ser tão grande que talvez eu me assuste.

— Sim. Mas com certeza Emma tem solução para um receio que você possa vir a ter.

— Mesmo não sabendo lidar com a novidade eu acho que ela nunca vai perder a essência dela, Gold. Vai estar mais bonita, vai estar mais leve, vai estar mais suave, mas sempre vai ter uma selvageria doce no jeito dela. Senti da última vez em que a vi. Gosto da determinação que ela sempre teve, por isso ela está se curando hoje.

— Para qualquer coisa dar certo na vida de alguém é preciso apenas duas coisas: determinação e paixão.

— Ela foi bem determinada comigo.

— E apaixonada também.

— Tem razão.

Bebemos um último gole dos nossos drinques e nos despedimos daquela conversa. Não percebo que é tarde quando chego em casa. Na verdade estou alta e desabo na cama depois de espalhar minha roupa pelo corredor. Sonho com Emma, que ela está montada em cima das minhas costas, massageando meus ombros e minhas cicatrizes quando eu me viro e a derrubo. Fico por cima e beijo todo seu corpo pálido, cada pinta da sua pele e me esforço para dizer em seu ouvido que acho ela muito gostosa.

— Essa frase é minha, meu amor. — ela ri enquanto recebe uma enxurrada de beijos pelo pescoço. — O que foi que andou bebendo?

— Um pouco de vodca, bem pouco...

— Estou vendo o quão pouco você bebeu... Você não costuma falar enquanto me come.

— Hoje vai ser diferente. Preciso dizer tudo o que nunca te disse.

Acho que ela gosta, porque para o beijo na boca basta ela agarrar os meus cabelos e me puxar para cima.

Desperto do sonho bom no meio da madrugada, com frio e uma fome gigantesca.

Três dias mais tarde uma estrela da NBA aparece no meu escritório, precisando de ajuda. Depois do caso da pop star juvenil fiquei com a reputação de cuidar desse tipo de caso e já não é o primeiro jogador de basquete ou baseball que me procura nos últimos dias. O rapaz, que tem batido recordes no campeonato, se meteu em uma encrenca depois que resolveu dar uma festinha particular em sua cobertura. Uma das mulheres com quem dormiu o acusou de estupro e ela tinha provas e testemunhas ao seu favor. Explicar para um homem que não havia nada o que se fazer quando ela já comprovara estar certa era um trabalho demasiadamente cansativo, ainda mais se tratando de quem ele achava que era, muito por conta do dinheiro que tinha.

— Me disseram que você era uma das melhores de Nova York. Você saberia o que fazer.

— O que eu posso fazer no seu caso é um bom acordo entre você e ela. Você forçou sexo com ela ou não?

Ele não sabe responder porque tinha bebido e usado mais alguma coisa para ficar acordado o resto da noite. Fez sexo com várias, incluindo as que dormiam depois do ato consensual, por isso achava que estava no direito.

— Não sei.

— Mas ela sabe e a resposta dela e que sim, você forçou. Você prefere assumir o erro publicamente e pagar a indenização ou vai a julgamento, possivelmente preso e acabar com a sua carreira?

— Acho que não tem outro jeito.

— O problema de alguns de vocês é pensar que por terem dinheiro, fama, e, em alguns casos beleza, podem fazer de tudo com as mulheres. Eu, de verdade, gostaria de te ver condenado, passando pela humilhação de ter a sua carreira interrompida. O que a garota que você contratou passou é o caso de milhares de outras mulheres que, com medo, se escondem ou são caladas pelos agressores. Ainda dá tempo de você se retratar com ela e com a justiça. Reconhecendo o erro, é claro.

Faço ele pensar e aceitar o acordo. Do escritório ligamos para o advogado da vítima e acertamos os termos. O rapaz prometeu se retratar publicamente, correndo o risco de ser cortado da seleção nacional em um mundial que está prestes a ocorrer. Todas as consequências fazem ele pensar que agiu mal com ela e com outras garotas. É um bom momento para refletir sobre o assunto e me imagino por alguns segundos atuando nessa linha de casos. Não consigo mensurar o quão perturbador e difícil seria ajudar mulheres violentadas, e a ideia logo passa de uma boa alternativa para algo a ser deixado para pessoas mais competentes.

O rapaz de quase dois metros de altura sai do meu escritório quando Belle me entrega algumas correspondências. No meio de contas encontro um convite feio em papel cartão muito pomposo. Separo e o abro primeiro, é do casamento de Kris e Ruby. Vejo os nomes delas em letras clássicas e o de Emma e o meu abaixo nos convidando para o evento que deve ocorrer em duas semanas no salão do Hotel Marin de Manhattan. Penso se devo comparecer, mas sozinha não me parece interessante e nada conveniente depois do que aconteceu entre Kris e eu no passado. Decido mandar um presente para elas com minhas sinceras desculpas pela ausência e desejando felicidade às duas.

As duas semanas passam e alguns jornais fazem a cobertura do casamento de Kris, por ela ser uma pessoa influente em Manhattan. É uma sexta-feira e vou trabalhar normalmente de manhã, me deparando com a noiva loira sentada em meu escritório. Acho estranho ela vir me procurar horas antes de seu casamento, porém, antes que eu me precipite, procuro entender o que ela quer me dizer. Sorrio e fecho a porta, depositando minha pasta sobre a poltrona.

— Você não deveria estar tomando um belo café da manhã na sua imensa cama, aguardando os maquiadores chegarem e fazendo uma última prova do seu vestido hoje?

— Fiz tudo isso ontem, a não ser os maquiadores com quem vou me encontrar daqui a pouco. Eu vim porque recebi a sua recusa ao nosso convite e queria me despedir. — Kris se levanta da cadeira e me entrega uma revista. Eu abro em uma página marcada e vejo um grande retrato meu no coquetel há três meses. — Essa matéria é minha, eu mesma fiz o texto exaltando a sua beleza e bom caráter. É o mínimo que podia fazer a você depois da “forcinha” que deu a Ruby na joalheria.

— Uma matéria inteira em uma revista de grande circulação... Não mereço tanto, Kris. — Acho engraçado, mas na verdade estou assustada com aquilo.

— Você vai pensar que ainda sou apaixonada por você, principalmente depois de ler a matéria. É verdade, eu ainda te amo. — Ela se cala por um instante e chego a ranger meus dentes com a confissão dela. — No entanto, eu me conformo em estar com Ruby e aceito o que ela sente por mim. Aprendi muita coisa e aquela bronca antes de você desaparecer foi mais benéfica do que traumatizante. Não se preocupe comigo, sei que ama sua Emma, que está fazendo de tudo para serem felizes e é isso que importa. Você estando feliz já me aquece o peito.

— Obrigada. Eu sinceramente espero que você e sua noiva vivam os melhores momentos juntas. Ela gosta de você, quer fazer parte da sua vida. Não desperdice.

— Não vou desperdiçar. — Ela se aproxima. — Eu sei que um dia vou aprender a amá-la, tanto quanto te amo ou até mais. Me perdoe por tudo o que causei a você naquela época.

— Ouça, Kris, tudo o que vivemos está no passado. Aquilo lá faz parte de uma Regina que morreu em um acidente de carro. Me conhecendo melhor, eu tenho certeza de que não gostaria dessa Regina do mesmo jeito que gostava da de um ano atrás. Nós duas tínhamos problemas sérios que resolvemos praticamente a força, mas veja a diferença. No final foi a melhor coisa para ambas. Fico feliz em saber que você também mudou e que está disposta a se entregar de corpo e alma para alguém que vale a pena.

— Cansei de sonhar com esse dia acontecendo e você estando no lugar da Ruby. — Kris toca meu rosto, faz um breve carinho na minha bochecha e diz: — Apesar de tudo, foi muito bom te amar. — Tive a impressão de que ela me roubaria um beijo na boca. Óbvio que eu tentaria desviar se fosse esse o caso, mas ela apenas me alisou o desenho dos lábios. Carregou sua bolsa e saiu do escritório como se jamais fossemos nos ver de novo.

— Adeus, Kris. — Sussurro, sabendo que ela me disse o mesmo silenciosamente.


O dia em que Emma vai receber alta da clínica finalmente chega e como a promessa que fiz, me apronto para buscá-la. É um sábado de manhã. Ontem recebi uma ligação de noite, dos pais dela, os Swan. Eles me pedem que a leve para jantar na casa deles no dia seguinte, para comemorarmos o retorno. Eu digo que por mim fica combinado assim, e que fico à disposição da filha deles para qualquer coisa que ela quiser.

Desde que Emma se internou, os restos de noite tem me deixado nostálgica. Passo a madrugada tentando achar o sono. Leio, conto de 1 a 100, apago todas as luzes possíveis do quarto, enfio a cara embaixo do travesseiro, até que enfim paro olhando para um retrato que Emma colocou sobre a cômoda ao lado da cama. Nessa noite eu fiz o mesmo, recordando as noites em que ela se deitava sobre meus seios e chorava de vergonha do que fez para usar drogas. Lembro das nossas conversas, de como ela gostava que eu fizesse tranças em seus cabelos e como o silêncio também era importante. Por isso, entendo que comecei a me apaixonar por ela ainda mais nesses momentos em que nos calávamos e entendíamos que era preciso ter calma. Depois de um tempo, Emma não vinha para o meu colo atrás de sexo, isso foi uma fase. Emma não dormia sem meu abraço e aquele Boa Noite que antecedia seu beijo na minha mão que se enroscava junto do braço em seu corpo.

Me sinto feliz por finalmente dar carinho a Emma sem que ela se preocupe em retribuir a altura, sem receios, sem privações. O maior dos alívios está na paz que ela deve ter encontrado em si graças a todos esses dias internada.

Saio cedo de casa, viajo algumas poucas horas até a clínica e sou informada de que devo esperar mais meia hora até ter acesso a Emma. Pacientemente aguardo, olhando a caixinha com a aliança que prometi colocar no dedo de Emma quando ela saísse dali. Eu não vi aquela meia hora passar, mas senti quando ela enfim apareceu. Ela me olhava do fim do corredor da clínica no segundo andar. Tinha abandonado a urgência em relação a mim, quer fazer do momento uma coisa da qual vai se lembrar por bastante tempo e por isso é calma e encantadora. Emma não disfarça que está feliz em me ver, vem até mim com as malas e larga tudo para me abraçar. Enquanto ficamos unidas, peço com todas as forças que tenha deixado a tristeza e a sensação de que a vida não tem sentido naquele lugar. Desse jeito ela me olha e sorri com os olhos brilhando. Eu certamente também estou com os olhos ainda mais marejados que os dela e a felicidade no meu peito transborda.

— Prometi uma coisa para você e tenho que fazer, não é? — Olho para ela e pego sua mão com delicadeza, colocando a aliança no dedo. — Pronto.

— Você tá frita, Regina Mills. — Diz ela, mordendo o lábio inferior em seguida. — Acabou de assinar sua sentença. Me aturar para sempre.

— Não seria o contrário? Você que vai precisar me aturar? — Belisco sua boca e roubo um beijo enquanto estamos sozinhas no corredor.

— Acho que não, porque é exatamente o que eu mais quero na vida, ter que te aguentar. — Outra vez aquele sorriso delicioso, que gosto de olhar e admirar. — Eu tenho muitas coisas pra te dizer, sabe? Muitas coisas que poderia começar falando agora, mas prefiro chegar no nosso apartamento.

— Eu espero o tempo que for necessário, embora eu não responda por mim se você provocar.

Me toca, me arranha os braços por cima do casaco, me aperta, quer me olhar, sentir que eu estou ali e que finalmente ela pode aproveitar tudo o que merece. Pegamos suas malas e tiramos dali.

Emma precisa assinar alguns termos para finalizar a internação, então fazemos isso o mais depressa possível. Antes de ir em definitivo, ela é convidada a conversar com seu médico e ele lhe aconselha sobre o futuro. Ela diz que tem planos, que quer continuar estudando, que quer manter a cabeça ocupada com as oficinas de ajuda a dependentes químicos e que ainda vai ter seu próprio restaurante. São planos bonitos e grandes, completamente possíveis para ela agora e que dou todo o apoio. Naquele tempo em que passou internada Swan fez amizades e não poderia deixar de se despedir de cada um. Esperei por ela no carro e a vi deixando a clínica com algumas lágrimas pelo caminho. Ela disfarça, mas sei o motivo para a emoção.

— Em breve eu tenho certeza de que você vai ajudar todas essas pessoas.

— Se fosse tão fácil quanto foi comigo. Mas cada caso aqui é diferente e eu não sei se posso ajudar essas pessoas. Algumas vão ficar aqui por anos, meses ou dias, e nenhum sai do mesmo jeito que eu saí. — Diz tentando velar o desanimo a respeito dos outros pacientes.

No fundo ela tem razão no que diz e não posso ir contra por mais positiva que esteja. Abraço Emma e beijo seus cabelos cheirosos que senti tanto a falta. Gostaria de ficar agarrada a ela mais tempo, só que temos uma viagem a fazer e um jantar a nossa espera na casa dos Swan.

Entramos no carro, seguimos algum tempo pela rodovia, encontrando o engarrafamento da ponte George Washington. Emma passa o caminho inteiro quieta, talvez porque já me contou tudo o que ocorreu enquanto estava internada quando me ligava. Ela parece cansada da internação, como se tivessem dado tantos calmantes a ela que seu estado de espírito foi atualizado para zen. Ela dorme um pouco e não resisto em pegar em sua mão, ficar alisando seus dedos enquanto ela desperta e vê as ferragens da ponte fazendo sombra em seu rosto.

— Já chegamos? Quanto tempo passou?

— Três horas agora. É que há esse engarrafamento nesse horário, pois todo mundo volta de Nova Jersey.

— Quero tanto ir pra casa... Será que os meus pais vão ficar chateados se a gente não for jantar com eles?

— Acho que sim, meu amor. — A observo dar um grande suspiro e se conformar.

Ela relaxa mais um pouco e como mágica saímos do engarrafamento.

Quando chegamos na casa dos Swan, somos recebidas com muita alegria pelo casal. É evidente o quão comovidos estão os pais de Emma assim que abraçam a filha e matam a saudade. Por mais que soubessem do bom tratamento que ela recebia na clínica, logicamente eles sentiam falta dela. Emma abraça a mãe primeiro, depois o pai e os dois choram juntos por alguns instantes. Talvez tenham notado que passou muito tempo desde que deram um último abraço como aquele e Emma reconhece que foi muito injusta com os dois, assim como ele e Margaret injustos com ela.

Há muita conversa pra pôr em dia e Emma leva um bocado de tempo falando das suas experiências internada na clínica de reabilitação para dependentes químicos. Nós saboreamos um grande frango ao molho, como se estivéssemos no dia de ação de graças. Margaret até nos pede para orarmos antes de nos servir. Juntamos todos as mãos e vejo que eles fecham os olhos.

— Queremos agradecer a recuperação da nossa tão amada filha, e também pelo seu retorno. — Eu não entendo, mas ao meu lado Margaret aperta minha mão com mais força. — Agradecemos Regina por ter sido tão importante na caminhada da nossa filha para a cura e devemos a ela toda a nossa gratidão.

Me sinto comovida pelo agradecimento, mas meu orgulho não me deixa demonstrar mais do que posso no momento. Troco um olhar com Emma e ela mexe a cabeça positivamente.

Parece que ela acabou de voltar de uma guerra, e se pararmos para pensar essa é uma boa analogia. Emma enfrentou uma guerra contra si mesma, batalhou muito contra suas crises e venceu a última e mais importante, a internação. Seus pais deram um presente para que ela se sentisse mais motivada ainda com o retorno. Emma ganha um curso de francês para aprender da culinária dos melhores chefes do mundo, e isso a deixa muito contente. Enquanto a filha olha para o encarte do curso que vai fazer, Margaret observa que há uma joia no dedo dela e sabe exatamente o que significa.

— É esta aliança de casamento que a Regina ia te dar?

— Oh, sim, é essa sim. Não é maravilhosa? — Emma estende a mão.

— É muito bonita! Já viu, David?!

— Impressionante! — diz ele após se atentar ao detalhe.

Fico um pouco tímida com a reação deles, morrendo de medo que decidam por cota própria a data do casamento.

— E vocês já sabem quando vão se casar? — A mãe pergunta.

— Na verdade, Regina me deu essa aliança para mostrar que a gente vai permanecer juntas aconteça o que acontecer. Não queremos casar agora. — Emma responde.

David faz uma cara para mim e questiona:

— Ficou com medo de perder a Emma?

— Ah... É que... É que... Achei que fosse a escolha mais prudente a ser tomada. Uma forma de dizer a Emma que quero ela na minha vida.

— Sabe por que pergunto? Eu tomei a mesma atitude quando me casei com Margaret. — Quando ele fala, ela junta as mãos perto do rosto na altura do queixo. — A história é muito comprida. Resumindo, ficamos brigados por uma razão tola e eu dei uma aliança de compromisso para ela entender que eu falava sério.

— Onze meses e meio depois eu estava nascendo. — Emma completou e nós rimos.

— Se for contar que eu me casei com seu pai no mês seguinte, foi bem rápido mesmo. — Margaret conta.

— Na nossa cabeça podemos nos casar amanhã ou daqui a dois anos. Eu penso que precisamos definir algumas coisas antes de dar um passo desses no relacionamento.

— Até que estão certas. — Margaret suspira e pensa bem antes de falar. — Embora eu ainda esteja me acostumando com a ideia de vocês estarem juntas. Eu aceito, com certeza aceito. Não tenho nada contra, apenas nunca imaginei ver minha filha se casando com outra mulher.

— Nós sabemos que para vocês é difícil. Passaram uma vida inteira acreditando que a filha de vocês ia encontrar um cara e se tornar uma dona de casa, mas eu nunca fui assim. Nunca tive talento para ser apenas uma dona de casa, heterossexual e recatada.

— Não se preocupe, nós compreendemos a sua escolha de vida. — David comenta.

— Nunca foi uma escolha, pai. Regina jamais será uma escolha. Ela é apenas a responsável por eu estar sã e sóbria diante de vocês hoje. Escolhas foram as drogas que eu usei por tanto tempo. As pessoas com quem me envolvi para conseguir dinheiro e trabalho a fim de conseguir as drogas. Escolhas foram quando eu tinha opção do que fumar e cheirar primeiro, o que eu ia usar depois. Escolha eu fiz quando o dinheiro que deixaram com Regina me serviu para fazer algo útil, por isso entrei na faculdade. Uma escolha foi quando decidi nunca mais fumar um cigarro que fosse para não ver a Regina de mal comigo. Uma escolha foi quando eu decidi me internar para salvar a minha vida, porque eu já não suportava mais. Há uma diferença de algo que acontece por um acaso e se torna grande para algo que nós temos opção. O que eu vivo com ela não pode ser chamado de escolha, mas pode ser chamado de amor. Por um acaso você escolheu gostar da mamãe? Pode ter escolhido pedi-la em casamento, mas nunca escolheu se apaixonar por ela.

Ele analisa tudo o que foi dito e concorda com grande seriedade, segura as mãos da filha sobre a mesa e abençoa sua fala; Gosto de como ele e Margaret chegam a mesma conclusão e nos respeitam.

— Você tem razão, minha filha. — Finaliza. — Você tem razão.


Mais tarde, já no apartamento, subo com a mala e a mochila de Emma. Está tarde para fazer qualquer coisa e creio que ela esteja cansada da viagem. Depois de deixar suas coisas no quarto, volto a sala e a encontro na sacada, olhando a vista. Parece estranho estar de volta depois de alguns meses e encarar o lugar onde passou mal tantas vezes. Eu a entendo e quero que ela saiba disso, portanto me aproximo e paro ao seu lado de braços cruzados, olhando para uma direção aleatória. Ela me dá um sorriso simples, permanece quieta. Penso em reclamar que está muito calada para alguém que acabou de voltar a vida real. Mas Emma não é nem um pouco tola e eu sei que vai usar algum argumento bom para explicar como se sente.

— Temi que voltasse para cá, depois de tudo o que passou aqui por tantas vezes. — digo.

— Uma das coisas que eu aprendi a superar no tratamento é que não importa o quão sofridos foram os dias que você viveu na dependência, você tem de entender que amanhã há outra chance de fazer diferente. Seria muito interessante ir para outro lugar, mas eu ainda sim quis voltar para cá, porque eu vivi mais momentos bons do que ruins com você nesse apartamento. Quando penso nesse lugar, penso naqueles dias em que ficávamos até tarde conversando sobre nossas vidas e como eu gostava de sentir suas mãos nos meus cabelos. Isso quando não estavam pelo meu corpo inteiro. É preferível lembrar do dia em que me disse Te Amo a primeira vez, por isso é fácil esquecer que eu tomava banho gelado na ducha da suíte pra liquidar minha vontade de fumar.

— É bom saber disso.

— Lógico que é. Sabe o que é bom também? Sentir que não importa o lugar, você vai me fazer feliz onde quer que seja.

— Faço qualquer coisa por isso.

Sei que ela quer me tocar. Eu já não aguento mais a distância entre nós, mesmo que haja um jogo de sedução violento acontecendo.

— Você não vai dizer que eu mudei? Que estou mais serena?

— Jamais diria essas coisas.

— Por que não?

— Porque já passei por mudanças, sei como é. Nunca soube como agir quando me diziam que mudei.

— Eu achava que era o contrário, que você gostasse.

— Foi você mesma que me disse que sou engraçada por ser tímida para algumas coisas e para outras não.

— Acho bonitinho. — Ela se afastou da sacada. — Muito obrigada por deixar tudo como estava antes de eu me internar. Não ia ser bom ver alguma coisa fora do lugar.

— Fiz o que você teria feito por mim. — Emma olha tudo ao redor, respira fundo, tenta se afastar na direção do quarto, mas para no corredor. Tenho certeza de que está mordendo os próprios lábios. Ela se vira com brusquidão e tira o casaco que veste.

Sigo ela e abro os botões da minha roupa.

Ela corre na minha direção e pula no meu colo, me agarrando com as pernas. O móvel mais próximo de nós é um aparador encostado na parede e eu a empurro para cima dele. Derrubamos as pequenas esculturas no chão, entortamos um quadro abstrato na parede e eu a prendo sem chances de sair. Ela me deixa quase nua e eu faço o mesmo com ela. Beijo sua boca por vários minutos enquanto sinto a quentura dela roçar na minha pele, me fazendo jurar que ela está com febre de amor. Ponho um dos dedos dentro da sua boca para molhar, ela o chupa e meus lábios descem por seu pescoço. Fica ansiosa, arfante enquanto não desço o dedo que ela chupa para penetrá-la. Então volto para beijar sua boca e desço a mão até entre as coxas e invado a calcinha dela. Noto como está encharcada e me espera. Entro dentro dela com aquele dedo e como se estivesse vivendo a felicidade plena – o que nós acreditamos que esteja acontecendo – Emma geme de maneira erótica.

Seus lábios se soltam dos meus somente para gemer e me mexo dentro dela buscando uma sensação de prazer tão grande quanto a que ela sente. Posso gozar só de vê-la tão minha, basta. Nos beijamos de novo com a mesma urgência e antes de encostar a cabeça na parede e gemer no meu ouvido, ela sussurra quase sem ar:

— Eu te amo, Regina... Eu te amo. Quero passar o resto da minha vida com você... Sonhei com esse dia... Que estaria em cima desse móvel e que daria pra você aqui... Era tudo o que eu mais queria...

Seguro seu rosto com a mão que antes a enroscava ao seu redor.

— Você mudou...

Ela ri arfando junto, abre os olhos e me encara.

— Por quê?

— Não diz mais que sou gostosa...

Emma ri alto, mas não desconcentra, especialmente quando entro nela com mais um dedo. Agarra meu rosto e me beija. Pulsa e arde nos meus dedos até se satisfazer em um gozo e me olhar completamente entorpecida.

— Me leva pra cama, quero fazer você sentir isso também. — Ela pede, ainda tremendo.

— Não, eu não vou te levar para a cama pra isso, você vai ser castigada pela falta que me fez.

— Vai me fazer pagar, é?

— Eu vou, muito. Só por hoje, depois deixo fazer o que quiser comigo.

— Não vá se arrepender depois. Não respondo por mim se você me provocar demais.

Emma usa as minhas palavras e a levo para o quarto no colo, como se ela fosse um objeto muito frágil. A noite será longa, atrevida e deliciosa. Temos que considerar seis meses perdidos nas nossas vidas. Os meses que estivemos distantes. Os meus e os dela. Ela não me perdoou pela ausência e eu não vou perdoá-la pela dela nesse sentido. Eu também acho que só essa noite não vai ser o bastante. Nós entendemos que combinamos e melhor ainda, funcionamos. Talvez o ingrediente mais importante seja o amor e é por causa dele que somos carentes quando estamos perto uma da outra.

Agora que ela voltou para mim, voltará a tomar conta de grande parte da minha vida. Preencherá meus dias. Sóbria, Emma é outra mulher, tão bela quanto a viciada, mas muito mais estável que aquela que costumava dormir comigo. Gosto da ideia de senti-la segura, de vê-la tomando as rédeas, sendo quem sempre quis ser. É o que me excita e me faz egocentricamente querer ouvi-la gemer o meu nome enquanto fazemos amor.

Notas finais
Vocês estão acostumadas com a minha ausência, porém espero recompensar com o novo projeto que vem por aí. A propósito dois. Quanto essa fanfic, aguardem mais dois ou três capítulos para encerrarmos. Fico muito grata por todo o apoio desde o começo, especialmente para aqueles que ficaram até o fim aguardando atualizações. Vocês foram ótimas! Até o próximo, nos vemos em breve.