For the love of her
36 Atrás da porta
Notas iniciais
— ... Por que diabos meus pais precisavam te procurar? Justamente você... Se tivesse entendido desde o começo o que eu sentia, talvez tudo teria sido mais fácil... Apesar de ter demorado, eu entendo porque precisamos passar por todas essas coisas... Não há nada que seja eterno, a não ser a minha vontade de te amar...
Ouço a voz dela distante, ecoando lá no fundo, me chamando para abrir os olhos e acordar para meu segundo dia ao lado da Emma que sempre quis amar.
— Bom dia, meu amor. Que esse seja apenas o primeiro dia do restante das nossas vidas. Regina... Minha Regina. — É Emma me chamando e me alisando as maçãs do rosto. Ela me chama muitas vezes, tão suave e deliciosamente que custo crer que não estou sonhando.
Abro os olhos e ela sorri pacientemente, me despertando aos poucos. Seguro sua mão e deixo que meu braço percorra o dela, parando em sua cintura.
— Minha Emma — Finalmente acordo e beijo sua boca que aguarda ansiosa por um beijo quente.
— Sonhei com isso tantas vezes enquanto ficava chapada dos remédios na clínica. Você assim comigo, nessa cama, como se tivéssemos todo o tempo do mundo.
— Também sonhei com você aqui, assim, diante de mim. Sonhei muito mais do que devia.
— Ainda assim não foi o bastante, não é? Eu estou com as marcas da sua saudade na minha pele.
— Foi uma longa noite. Mas não suficiente para mim.
— Vamos repetir a dose muitas vezes, prometo.
— Eu te amo, Emma.
— Amo você também.
Afasto seus cabelos compridos dos ombros, aliso suas costas cheias de pintinhas e trago seu rosto para o meu peito. Nunca estar nua na cama com Emma significou tanto. Ter ela assim, tão leve e calma me leva do inferno ao céu em poucos segundos. O que eu não daria para ter com ela uma manhã assim, onde apenas nós duas dividíamos esse espaço e compartilhávamos do mesmo silêncio? Os preços foram altos, custando quase as nossas vidas. Mas Emma estava certa, havia lógica em todos os acontecimentos e fases. Com a mente de antes, nunca teríamos a maturidade para lidar com esse momento. Na primeira oportunidade eu iria fugir, ia me despedir de Emma para correr no Central Park enquanto ela ia se culpar por não conseguir se sentir totalmente bem no final.
No momento em que estamos na cama, nada disso interrompe a sensação privilegiada que temos, nem as lembranças ruins. Elas são apagadas cada vez que respiro o cheiro dos cabelos de Emma, um cheiro totalmente diferente do que senti quando nos vimos pela primeira vez, aroma de tabaco que me incomodava muito e que com o tempo ela foi perdendo. Houve diversas coisas que me incomodaram em Emma, que subitamente começaram a desaparecer a partir do momento em que pisou nesse apartamento. Ela havia tomado a decisão antes de mim, quis assumir sua paixão e que se dane o resto. Ainda que eu tenha demorado, dei o que pude para ela se curar, acreditando que o amor que ela sentia por mim era um dos delírios causados pelo consumo exagerado de crack. Então percebi que não era apenas um efeito colateral, era um amor que eu nunca lidei antes.
Nos reinventamos para caber no amor e todo o potencial que tínhamos, agora chegamos a um patamar inimaginável. Da pessoa nem um pouco supersticiosa que eu era, abro uma pequena exceção para acasos do destino. Finalmente posso dizer que estou feliz, vendo Emma feliz. Talvez a minha vida possa se encerrar assim daqui há alguns longos anos, satisfeita com ela curada além de eu ter enfrentado meus demônios internos.
— Posso saber por que a senhorita me acordou tão cedo?
— Porque eu estou faminta e quero companhia para o café da manhã e a propósito, não é tão cedo assim, já passa do meio-dia.
As cortinas não me deixam ver a claridade lá fora, por isso tenho a impressão de ter acabado de amanhecer. Me sento na cama e me espreguiço, olhando Emma se levantar e pôr um robe sobre o corpo.
— Não se incomode com o café, eu preparo alguma coisa para nós.
— E desde quando você sabe cozinhar? — ela pergunta, prende os cabelos.
— Desde que você ficou ausente. Não dá pra viver de Delivery todos os dias.
Preciso realmente mostrar que não estou brincando e faço uma refeição rápida para duas pessoas. Não é o melhor Mac and Cheese que ela já experimentou na vida, mas está aceitável e ganho um elogio.
— Nada mal. Já sabe se virar sem mim, o apartamento está limpo, você não faltou o trabalho segundo aquele calendário ali ao lado da geladeira — você marca os dias com a caneta – continua correndo no Central Park para manter a forma e tem cozinhado por conta própria. Já pode se casar mesmo. — Brinca Emma.
— Na verdade eu sou um grande partido. — Termino o que sobra no meu prato.
— Quem me dera ser sua noiva. — Emma morde o lábio inferior com graça e acabamos rindo juntas. Ela encontra a revista de Kris sobre o sofá e puxa para dar uma olhada na matéria feita sobre mim. Foleia e a pego meneando a cabeça. — Então a Kris confessou que é apaixonada por você. Por que será que vocês não deram certo?
— Ela se casou com outra mulher no dia em que recebi essa revista. Não ficamos juntas porque eu nunca gostei dela da mesma maneira que ela gostava de mim. Vivemos bons momentos, mas eu nunca a levei a sério.
— Talvez eu entenda, é que eu acho tão difícil não se envolver com alguém que se deita com você. Essa coisa de transar pra mim é muito íntima e pessoal. Eu estive com poucos caras, na maior parte das vezes ficava com eles pra conseguir droga em troca. Eles sumiam porque só queriam o meu corpo naqueles momentos. Eu usava muito ao ponto de esquecer, até que você me fez notar que eu ligo sim para relações íntimas. Se passar de um beijo e me envolvo muito.
— Não vou mentir que eu senti atração por você lá no cassino. Eu sabia que se tivesse contato físico entre nós, fatalmente acabaríamos na cama. Por isso eu quis evitar ao máximo.
Emma larga a revista, limpa o canto da minha boca com um guardanapo e fala:
— O que aconteceu entre a gente foi amor à primeira vista. Atração fatal. E como eu não ia gostar de uma mulher como você? Eu entendo a Kris. Você não quer, mas consegue seduzir qualquer pessoa.
— Não quero seduzir ninguém agora. Sabe por quê?
— Eu sei, não precisa dizer, consigo enxergar nos seus olhos. Eu tenho muita sorte.
Dei um beijo em Emma e caímos no tapete da sala como se fossemos namorar ali mesmo, sem pudores, sem medo e pressa. Ainda que Emma queira entender os motivos da minha vontade de não querer soltá-la, ela recebe o carinho do qual sentiu tanta falta e me oferece em troca o que sempre prometeu.
Mais tarde a levo para dar uma volta no parque da cidade e aproveitamos o clima ameno para observar melhor a natureza dentro de um lugar tão cinza quanto NY. É como se agora sobrasse todo o tempo do mundo para olhar os detalhes que sempre estiveram ao nosso alcance e nunca demos atenção por conta das nossas prioridades fúteis. Quando Emma me pede para leva-la ao famoso restaurante Chinês onde costumamos comer Yakissoba questiono se não seria algo muito comum e se ela não prefere ir a um lugar mais imponente ou chique. Emma diz que o segredo está nas coisas simples, embora ela se auto convide para jantar uma vez por semana no Eleven Madison Park.
Tarde da noite voltamos para casa e deixo Swan terminando de desfazer sua mala e mochila enquanto estou no escritório organizando uma papelada para o dia seguinte. Acerto os últimos detalhes de uma ação com um cliente por telefone e quando termino olho a gaveta da mesa em que sento. Existe uma verdadeira bagunça em tudo ali dentro, mas quero achar minha antiga agenda dos tempos de BCCI onde tem um número importante. A surpresa é quando abro exatamente na página da letra “K” e encontro minha foto antiga com Killian. Deve haver umas três cópias dessa foto por aí e eu não gosto de lembrar do meu relacionamento com ele. Uma sensação de nostalgia me preenche por dentro e preciso dar um tempo para olhar a foto e recordar uma Regina completamente diferente da que conhecemos hoje. Tirando o detalhe do que me fez mudar tanto, tento pensar nela com carinho e não com raiva do que ela tenha feito pelo ex noivo. Eu a perdoo por todas as vezes em que se humilhou e chorou até dormir. Também perdoo o fato dela ter escondido por tanto tempo que sempre teve coração de vidro que se quebrava com toda e qualquer frustração. Perdoo a Regina que quis se matar mais de uma vez e principalmente a que decidiu ficar viva para contar uma história diferente sem saber que tanta coisa ia mudar nos anos seguintes.
Eu pego uma tesoura e corto Killian da foto, deixando apenas o meu sorriso e os cabelos compridos. Acendo um fósforo e queimo o cara que não faz mais parte da minha vida em nada, deixando a velha Regina guardada dentro da agenda feito um marca páginas.
Dias mais tarde Emma volta a trabalhar, estudar e frequentar as reuniões de assistência a ex usuários de drogas. Sua missão estava em curar as outras pessoas tanto quanto conseguiu se curar e sua força de vontade em fazer isso era linda. Notei que Emma não reclamava do cansaço, não falava mais o quanto queria dar um tempo fora de Manhattan ou o quanto voltou triste para casa de repente. Ela não voltava mais para casa de repente, ela vivia para suas obrigações e queria estar bem para quando me encontrasse em casa no fim da noite. Voltei a receber minhas massagens enquanto ela me contava como foi seu dia, ou seja, voltamos a rotina de meses antes. Mas longe disso ser um problema, é como se o tempo passasse menos depressa e cada dia fosse diferente, então não era tanto uma rotina. Assim como o jantar que não deve se repetir todas as noites, nós aguardamos as novidades súteis do dia a dia. Se não for um beijo em alguma parte inusitada do meu corpo, é um penteado novo que faço nas madeixas dela.
Quase dois meses depois, estamos muito bem, quando um belo dia Belle anuncia que há duas pessoas que ela julga importantes querendo me ver no escritório. Estranho porque até aquele momento eu não havia marcado com ninguém no horário, mas mando entrarem seja quem for. Para minha agradável surpresa são minha irmã, Zelena, acompanhada de Ingrid, além de uma pequenina pessoinha que vem escondida atrás de uma delas.
— Oi, irmãzinha! — Zelena surge linda, completamente iluminada com seus cachos ruivos cheios e um sorriso de ponta a ponta no rosto. Já Ingrid está como sempre a conheci, simples, embora elegante e também bela.
— Mas o que é isso?! Por essa eu não esperava. — Dou um grande abraço nas duas e percebo como estavam felizes. Tinham se acertado finalmente depois de Ingrid ser rejeitada pela minha irmã. Agora compartilham uma vida juntas e duvido muito que Zelena tenha se arrependido.
— Voltamos para cá por alguns dias, depois pretendemos viajar para Atlanta. Queremos apresentar nossa filha para nossos pais. — Explica Zelena.
— Como é? Pera aí? Que filha? — Ingrid pega a pequenina no colo. É uma menina linda, vinda do Quênia, que ela adotara há mais ou menos um mês e que Zelena decidiu compartilhar a guarda.
— Essa é a Anna. Diz “oi” pra Regina. — A garotinha de uns três anos aproximadamente sorriu ao me ver, mas escondeu o rosto no ombro da loira. Eu sei que o nome é uma homenagem a primeira esposa de Ingrid que morrera tão tragicamente e sinceramente acho essa uma atitude muito bonita. — Adotamos ela há um mês, o nome foi ideia da sua irmã.
— É mesmo? Não poderia ter escolhido nome melhor. — Sorrio para as duas e a menina e acaricio suas costas, ela é bem tímida ainda. — Como é que vocês fizeram isso? Eu não sabia que você pretendia adotar.
Zelena se oferece para segurar a filha no colo enquanto explica.
— Quando sua irmã decidiu que queria ficar junto comigo eu confessei para ela que estava na fila para adoção desde 2015. Eu queria uma criança Africana porque tenho alguns amigos que trabalham para o Médicins San Frontières, então sempre ouvi histórias muito comoventes. Eu sabia que a Anna em algum momento ia desejar ser mãe, então assumi para mim a responsabilidade.
— Ingrid, isso é uma atitude muito bonita. Essa menina quando crescer vai ser muito grata a vocês duas.
— Ela já é. — Zelena diz. — Anna fala apenas o Kiswahili, mas está aprendendo o nosso inglês. Adivinhe qual foi a primeira palavra que ela aprendeu?
— Obrigada?
— Exato. Desde então ela nunca mais parou de falar “Obrigada” pra gente.
— Que bela história, hum? Fico feliz por vocês, estão me saindo melhor do que eu esperava.
— Só me arrependo de não ter notado a Ingrid antes, se eu soubesse o quanto seria bom. — Elas trocam olhares carinhosos e se beijam rapidamente. — E Emma? Como ela está?
— Melhor impossível! Por que vocês três não jantam conosco hoje à noite? Eu mando uma mensagem para ela avisando e a gente pode fazer uma reunião bem família logo mais.
— O que você acha, querida? — Zelena pergunta para Ingrid.
— Acho ótimo. — A loira responde.
Aviso a Emma de que teremos visitas para o jantar, e ela sem pestanejar decide preparar seu salmão especial. Enquanto esperamos o casal com a nova integrante da família, comento com Emma como Zelena estava bem após escolher dar uma chance a Ingrid. Por questões bastante particulares Swan gosta de comentar mais sobre a criança que minha irmã adotou do que da escolha dela de ser feliz. Na verdade existe uma relação entre as duas coisas, pois ambas são sinônimos de felicidade se for parar para pensar. Quando Zel e Ingrid chegam com a pequena, percebo uma grande curiosidade da parte de Emma em se aproximar da pequenina Anna. Notando como a loira leva muito jeito para lidar com crianças, ainda que sem querer, Zelena questiona se não é do nosso interesse partilhar a maternidade. Emma para o que está fazendo e me olha, esperando que eu reaja, porque até então nunca discutimos aquele assunto.
— Nunca pensamos em fazer algo do tipo. No futuro, já casadas, quem sabe?
— Eu me lembro da época em que você era noiva do Killian e sentia vontade de ser mãe. — Zelena ainda quer continuar o assunto, o que me deixa muito desconfortável.
— Acontece que eu não sabia quem era o Killian de fato, nem sabia se ele poderia ser um pai decente para uma criança. Eu era cega. Com Emma eu tenho certeza de que eu teria apoio em qualquer coisa que eu decidisse, porque não é só por ela ou por mim, é uma decisão para nós duas. Se um dia ela estiver disposta, eu acho que também estarei.
Emma guarda um sorriso para si e olha a pequena Anna mais uma vez enquanto a menina brinca no sofá.
Zelena nos conta que está organizando sua mudança em definitivo para Rhode Island, enquanto Ingrid diz que se arranjou em um emprego no departamento de polícia da região no setor administrativo, sendo que foi um golpe de sorte ter garantido um trabalho na hora de adotar a filha.
Ambas notam que Emma aparenta mais tranquilidade e segurança. É então que se abre uma brecha para ela deixar explicita sua satisfação com o quanto progrediu.
— Imagino o quanto foi complicado para você, Emma. — Diz Ingrid.
— Acho que complicado é uma palavra muito pequena para definir, não é verdade? — Zelena olha para ela e minha noiva confirma.
— Se existe uma palavra que descreva a morte interna da gente, eu com certeza me enquadro nela. Foram tantas as vezes em que pensei em desistir simplesmente porque não acreditei mais em capacidade nenhuma. As drogas quase fritaram o meu cérebro. Foi por pouco.
— Você está feliz agora? — Ingrid pergunta novamente.
Sei o que ela dirá, sei que vai falar que sim, que tenho parcela de responsabilidade em seu estado de espírito, mas não quero receber elogios, porque fico muito encabulada e sem saber o que fazer.
— Estou mais do que feliz. Estou plena, estou conformada e receptiva a tudo o que tem que acontecer de hoje em diante. Não param de acontecer coisas boas e a Regina não me deixa ser menos feliz em momento algum. Sabe quando você sente um frio na barriga bom porque sabe que quando voltar para casa vai ter alguém te esperando com flores e um bom vinho? Essa sou eu todos os dias desde que saí da clínica.
Todas nós sorrimos e temos que concordar com Emma. Existe sim a cura de alma que nós tanto almejamos. Existe solução para todos os problemas. Existe o frio na barriga da ansiedade boa. Existe paz. Quando foi que me deixei levar tanto e a perdi? Há um ano eu não me fazia essa pergunta. Eu aceitava que era uma mulher triste e que meu destino era ficar só. Há um ano eu nem gostava de mim, como poderia gostar de outra pessoa? Tantas coisas mudaram que hoje não posso lembrar do passado sem achar tudo muito engraçado. Gold sempre me disse que no final das contas nós somos seres de múltiplas personalidades que vão se descobrindo ao longo das nossas experiências. Ele tem razão. Somos capazes de qualquer coisa se não tivermos dúvidas do que queremos. Um bom exemplo é Zelena que hoje está aqui na minha frente ao lado de Ingrid, coisa que jamais imaginamos que fosse acontecer. Os pais de Emma são outro exemplo. De pessoas muito fechadas, hoje nos apoiam entendendo que a relação entre a filha deles e eu é algo muito natural. É um jogo de paciência consigo mesmo e Emma quis nos mostrar o quão doloroso pode ser enfrentar os próprios defeitos.
— O que você pretende fazer agora que está curada, Emma? — Zelena questiona.
— Essa resposta anda na ponta da língua. — Ela me olha de relance, alisa o pequeno “R” tatuado em sua mão esquerda e responde: — Vou me formar em dois anos e meio, até lá terei meu restaurante, muito dinheiro e com tudo isso eu espero ajudar pessoas que passaram pelos mesmos problemas que eu passei.
— Você já tem feito muito na associação, meu amor. — Complemento. — Emma tem conversado com vários grupos de pessoas, dependentes químicos em tratamento. Há muita gente querendo sair dessa vida e a palavra de alguém que superou todas as dificuldades tem ajudado.
— Pensando bem, eu acho que não é apenas uma ajuda, é o meu segundo propósito de vida.
— E qual é o primeiro? — Zelena fala.
— Cuidar da sua irmã. — Beijo a mão dela. Apesar de ser um propósito engraçado, sabemos que é a mais pura verdade e o real motivo para Emma ter escolhido se curar também.
Não há uma certeza maior do que essa, e tenho uma agradável confirmação na quarta-feira seguinte, quando Emma me pede para buscá-la na associação cristã, sugerindo que fossemos jantar fora depois.
Chego por volta das oito no estacionamento da Igreja, mas para o horário Swan já deveria me esperar na portaria e ela não estava ali. Aguardo meia-hora e nem um sinal de Emma. Decido entrar para checar se ela está nos fundos da igreja e não sei por qual razão sinto um aperto pesado no peito, talvez ansiedade. Está acontecendo uma reunião como de costume em uma sala comprida da parte de trás da igreja e não sou vista entrando. Ouço a voz de Emma distante, depois mais próxima de mim, até que encontro-a falando para um grande grupo de pessoas. As cadeiras estão espalhadas em círculo e Emma se encontra na parte mais oposta, como se conseguisse ter a visão de todo mundo. Ninguém sabe nem vê onde estou. Não posso entrar pois sei que aparecendo vou interromper o final da reunião. Então compreendo a demora, ela contava sua história de vida e finalmente chegava as conclusões finais. Não sou o tipo de pessoa que gosta de ouvir conversas particulares, pois toda vez que fiz isso, escutei atrás da porta, sofri por descobrir demais, sempre assuntos que talvez eu não devesse no momento. Lembro de quando ouvi meus pais conversando ao telefone sobre mim, revelando que eu na verdade não era filha deles de sangue. Lembrei de um dia na sala de Gold, quando Emma dizia como se sentia em relação a mim. Não estava pronta em ambas as situações, mas hoje será que estou para ouvir o final da história de Emma?
Teimo em ficar por apenas um minuto, porém passam-se dez, mais quinze e eu ainda estou ouvindo ela falar.
— “Eu me sentia apavorada, sem expectativa, pingando de emprego em emprego para sustentar o meu vício e ela surgiu como um belo presente. Sem desejar ela me disse naquele momento que ficaria tudo bem, que o meu vício tinha cura... Ninguém em sã consciência faria o que ela fez por mim... Durante o processo eu me apaixonei por essa mulher e acabei fazendo ela se apaixonar por mim. Quando nos demos conta uma não podia viver sem a outra. Mas eu não vou exaltá-la, não preciso dizer que ela é responsável pelo meu controle, vocês estão ouvindo e tirando suas conclusões... Isso não significa que para cada pessoa aqui sentada existe uma mulher bondosa a disposição. Não significa que um milagre vai acontecer como aconteceu comigo. Significa que chances existem o tempo todo, elas se apresentam tão fácil quanto as drogas que procuramos nas mãos dos traficantes. O castigo somos nós que fazemos. Existem mais oportunidades do que erros, cabe a cada um tomar decisões que quase sempre são as erradas. Por que trocamos o certo pelo duvidoso? Porque nosso cérebro está tão destruído que não reconhecemos amor próprio. — Ela para e espera para continuar. — Houve o momento em que eu questionei se merecia uma chance como a que eu tive de ser levada para um apartamento, ter sido bem tratada e amada. Não só uma vez, mas várias ao longo daqueles dias com ela... Mesmo achando que dava pouco, ela me ofereceu um mundo que eu não conhecia e que passei a gostar tanto que comecei a depender dele. Ela também precisava de mim. Eu soube quando ganhei a confiança dela. Pensei que um dia talvez ela fosse cair na real e me mandar embora, mas já era tarde para nós duas e eu jurei para mim que faria de tudo para me curar. Ela foi meu empurrão, o meu incentivo, a única razão pela qual eu quis me ver bem. Não havia sentido algum antes dela, nem o amor próprio que eu sequer sabia que existia. Na minha inocência pensei que conseguiria retribuir a altura sendo fiel aos nossos princípios, e mesmo com tentações todos os dias na minha cabeça, fui até o limite, mas eu falhei diversas vezes enquanto sofria por querer muito me drogar até morrer. Vocês tem noção do que é apenas pensar em se drogar até morrer? É uma vergonha! Não faz sentido nenhum querer morrer tendo todo o mundo aos seus pés. Só que nem todo o amor que ela me oferecia conseguia tirar da minha cabeça que os meus demônios ficariam felizes se eu "queimasse unzinho". Eu sabia que se usasse o mínimo já seria o bastante para querer mais no dia seguinte, e depois e depois.”
Emma tem a atenção de todos, hipnotizados, fascinados talvez pelo o que ela conta. Acho que ela sabe que estou ali atrás ouvindo, porque ouço seu riso delicado como o de alguém que faz uma descoberta enquanto lê. Cada vez que ela pausa sua narrativa alguém reflete sobre a própria situação, está bem visível em seus rostos.
Sinto um nó na garganta, me controlo para não chorar, e a partir daquele instante me sinto dormente como se estivesse em um sonho. Fico olhando para ela, de costas para mim, calma, tranquila, serena relatando sua história.
— “Fui forte, muito forte. Por ela, por nós duas, por tudo o que passamos... O que mais faltava? Faltava matar a sensação de que eu jamais conseguiria fazê-la tão feliz. Quanto mais eu lutava para não lembrar do meu vício, mais escrava dele eu me tornava. Escrava de algo que eu não queria, mas que tinha decidido viver. Todos aqueles anos, fui eu o tempo todo, assim como eu escolhi ir com ela para o apartamento. Não enxerguei a mudança naquele dia, no cassino, notei depois, quando sobrava apenas culpa por fazer parte da vida de alguém sendo quem eu era. Então se presume que a vida é feita de escolhas como dito anteriormente... Quando eu percebi que toda a dedicação dela não era suficiente para suprir meus anseios do vício, preferi partir para reencontrar a parte de mim que estava faltando. Será que eu devia ter saído desde antes? Desde o dia em que ela me acolheu? Ela jamais teve obrigação de me ajudar, mas ela fez isso e despertou em mim o que eu achava ter perdido. E eu a amo por isso. Amo tanto que precisei entender algo muito valioso; Naqueles meses longe dela, todos eles, incluindo quando ela “partiu”, eu soube que amor é como o mar. Existem as ondas e o lado profundo. Você atravessa as ondas que chegam de mansinho, depois as mais bravas que te carregam para dentro dele para então mergulhar no profundo. Você tem que segurar as ondas, lidar com elas para chegar na parte onde consegue nadar. Amor é exatamente como um mar, por vezes agitado, outras vezes calmo e quando você passa a conhecê-lo você o mantêm no controle.”
Eu já estava mais dentro do que fora da sala e na última pausa feita por Emma, as pessoas que prestavam atenção por pouco não me viram.
— “Quando pensei que não havia nada a perder, ela me deu tudo. Quando abandonei quem eu era, me encontrei. Quando escolhi me curar, entendi tudo. Eu sei que ela já sabe, que já disse inúmeras vezes, mas quero que ela continue sabendo que eu a amo com toda a minha alma. Se eu pudesse eu viveria tudo de novo só para ver a alegria dela em me encontrar curada.”
Emma terminou seu discurso e todos aplaudiram. Com certeza sua história serviria de ajuda para muitos naquele lugar e não poderia me orgulhar mais. Após um longo minuto de palmas, as pessoas se levantaram para cumprimentá-la, um por um, fazendo questão de parabenizar seu grande feito. Para cada um ela também fez questão de dizer que há cura, que o passo é dado a partir de si mesmo e que acasos vão ocorrendo no processo.
Aguardo ficar sozinha e finalmente descubro se ela sentiu minha presença o tempo todo. Emma se despede da última pessoa e permanece de costas, alisando os próprios braços, com frio.
— Também te amo com toda a minha alma. — Eu digo.
— Eu sei, é claro que eu sei. — Ela responde e seca minhas lágrimas. Me toca do jeito que só ela sabe tocar e acha bonito que eu esteja tão emotiva depois de tanta coisa. — Estava esperando você se sentar, se acomodar numa dessas cadeiras hoje. Errei um pouquinho.
— Parece que eu tenho talento para escutar atrás das portas.
— Sempre escutando o que não deve.
Abano a cabeça e mordo os lábios do jeito que ela costuma fazer.
— É, você errou um pouco.
Emma apenas sorri, sabendo o que vou dizer.
— Pela primeira vez eu não ouvi algo que não devia ouvir.
Dou um beijo em seus lábios e após ela limpar lágrima por lágrima que não parava de cair dos meus olhos, vamos embora.
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