For the love of her

3 Maluca, de vez em quando


Notas iniciais
Olá, amigas leitoras. Agradecendo o retorno de todas que leram o último capítulo, esse é um complemento do segundo, okay? Eu espero sinceramente que gostem, apesar de não acontecer nada de especial aqui, mas fica ao critério de vocês o que pensarem. Uma boa leitura.


Outra noite mal dormida, mas dessa vez o motivo estava no quarto ao lado sabe-se lá se dormindo ou tão incomoda quanto eu entre os lençóis e travesseiros. Chego a pensar que talvez eu esteja começando a sofrer de abstinência, pois não havia ninguém ao meu lado ali e esse era um costume nas noites de sexta para sábado, especialmente nessas. Mas eu sei que não é isso, eu estou preocupada com Emma. Não estou preocupada com as coisas que ela pode me dizer, eu inclusive estou anotando mentalmente as respostas parar todas as possíveis perguntas com o tom irônico de provocação, estou preocupada com seu comportamento e a falta que as drogas fazem para ele. Não sei qual é o nível de vício de Emma, mas sei que pelo o que ela me contou, não devo deixar que saia por aí, porque há um grande risco dela procurar algo além de um maço de cigarros que eu sei o que é e não quero repetir o nome na minha cabeça.

Há três anos, muito antes do meu êxito no caso do BCCI, defendi uma mulher vítima de seu marido agressor, e apesar de só esse fato praticamente ganhar o caso a favor dela, o homem tinha vício em Heroína. Não foi tão fácil quanto pensei vencer a defesa dele, afinal, seu advogado alegou que ele não poderia ser preso e devia se tratar. No fim meu maior desafio foi provar que no momento das agressões ele estava são e sóbrio; Não estou comparando Emma a alguém capaz de agredir outra pessoa, estou desejando evitar que alguém aparentemente boa como ela chegue a esse ponto ou ainda pior. Escuto histórias tristes de pessoas dependentes, famílias arrasadas por conta do vício dos filhos, irmãos, pais ou quem quer que seja e sinceramente não desejo que o senhor e senhora Swan tenham sua filha de volta ainda pior do que ela os deixou, nem que ela faça parte de uma trágica estatística. Por mais que eu queira ajudar Emma, ainda existe o fator escolhas. Acho que eu devo mostrar a ela que estará segura se deixar seus vícios e eu compreendo que não será uma tarefa fácil, não se espera que um viciado em cigarro pare de fumar do dia para a noite.



Quando amanhece decido levantar e me vestir para ir trabalhar mesmo tendo a liberdade de não precisar ir aos sábados à firma. Passando pelo corredor observo a porta do quarto de hóspedes encostada. Minha tentação não me freia por mais de dez segundos parada ali atrás, então eu empurro a porta e vejo Emma de costas na cama, enrolada em um lençol grosso. Seu sono parece profundo, por isso entro de mansinho só para ter certeza de que ela está bem. Deve ser o sono mais sossegado que teve em muitos dias. A vida nas ruas é ingrata, posso imaginar o quanto isso tira do descanso dela. Seu rosto está corado, ela ressona em paz e me pego admirando a feição delicada e feminina da loira. Emma deixou sua mala encostada ao lado da cama, está aberta e posso ver o quão pouco de roupas que ela trouxe. Penso que talvez seja interessante comprar roupas novas para ela, pelo menos algumas peças que ela aproveite melhor do que as calças jeans encardidas e as blusas surradas de tanto que veste. Percebo que Emma toma cuidado com o pouco que carrega consigo, suas coisas e roupas estão gastas, porém limpas, ela sempre dera um jeito de não parecer suja então.

Ao sair do quarto, escrevo um bilhete e deixo pregado na geladeira de forma que ela possa ver assim que entrar no cômodo. “Fui trabalhar, volto mais tarde. Há tudo o que você precisa nos armários e geladeira para fazer um café da manhã e almoço. Fique à vontade para ligar a TV da sala e assistir qualquer coisa no NETFLIX. Passe bem o dia. Ass: Regina” Saio sem fazer qualquer barulho que possa acordá-la e deixo o prédio tentando não esquecer do número que Emma veste para ir comprar suas roupas depois.

Belle estranha minha presença no escritório, mas nada digo para ela não pensar que fiquei doida. Atendo quem deixei de atender ontem, a propósito, há uma nova ligação do casal Swan e eu os atendo.

— Sei onde a filha dos senhores está trabalhando, por enquanto não consegui aproximação. Ficarei de olho nela com maior frequência, não se preocupem, ela não me escapa.

Apesar da mentira para eles, não posso quebrar a promessa que fiz a Emma e vou segui-la. Se descobrirem, direi que foi pelo bem dela, eles entenderão.

Quando me dou conta já são quase três da tarde, eu devia ir embora mais cedo do que isso do trabalho no sábado. Deixo o escritório e sigo para o shopping mais próximo, estou com essa missão meio incomum de achar roupas para Emma o dia todo na cabeça. Isso toma meu tempo mais do que imagino por causa da minha empolgação, consigo imaginar Emma vestindo tudo que escolho para ela, é como se eu estivesse escolhendo roupas para mim. Há de tudo nas sacolas que levo para casa: vestidos, calçados, calças, camisas, blusas e cintos. Se Emma não quiser essas roupas, acho que vou me sentir frustrada demais. Demorei tanto que estava quase escurecendo quando coloco os pés no apartamento. Emma não está na sala apesar da TV estar ligada em um filme. Há um cheiro de comida no ar, será que ela fez alguma coisa para o jantar?

— Emma? — fecho a porta um pouco desequilibrada com as sacolas nas mãos e ela aparece do quarto, vestida para sair.

— Hey, finalmente chegou. — ela vem na minha direção e olha no mesmo momento as sacolas, franzi o cenho e me pergunta com os olhos o que estou fazendo. — Assaltou um shopping?!

— Não — eu ando até o sofá e descarrego tudo em cima dele. Mostro uma delas e digo: — São suas.

Emma fica me olhando sem entender.

— Tá falando sério?

— Sim, estou. É tudo seu, Emma, pode ver são presentes.

Ela coloca uma mecha de cabelo para trás da orelha direita e dá a volta no sofá, abrindo as sacolas e olhando tudo o que tem dentro. Sua surpresa se torna ainda maior quando ela se dá conta de um detalhe.

— Comprou tudo isso só pra mim?

— Foi uma ideia meio boba, mas vi que você estava precisando muito. Fico feliz que tenha gostado. — eu digo, dando de ombros e sorrindo mais do que devia para ela.

— Não foi uma ideia boba, de onde tirou isso? Eu precisava muito de roupas novas. Olha isso! — ela pega uma calça Levi’s bem comum que comprei, mas que chama muito sua atenção por ser de marca. — Eu tinha uma dessa, esqueci quando saí de casa, sempre amei esse tipo de roupa. E esses vestidos... Quanto dinheiro você não deve ter gastado com tudo.

Caminho pela sala, feliz com a reação dela. Coço meu pescoço, enfio uma mão no bolso do blazer e penso que em outra situação eu não faria o contrário.

— Mesmo se eu tivesse menos dinheiro, compraria tudo isso para você. Eu ficaria endividada, porém endividada e feliz.

Emma sorri, vejo que quer abrir todas as sacolas e caixas, quer experimentar todas as roupas e agradecer antes de tudo.

— Obrigada. Sério, obrigada pra valer, eu nem sei como vou retribuir.

Estou olhando para ela, seus olhos brilham na minha direção e fico sem palavras, só desejo olhar para aqueles olhos claros e pidões e sentir o frio na barriga que me acomete para sempre.

Após segundos preciosos, falo:

— Por que não experimenta essas roupas e vem me mostrar se acertei nas escolhas?

Ela olha pela vigésima vez tudo ao seu redor e concorda.

— Adoraria fazer um desfile particular pra você.

Recolhe tudo e leva pro quarto. Eu a espero voltar, me sentando no sofá, estranhando a demora.

— Vai levar a vida toda escolhendo o que vestir primeiro? — falo alto o suficiente e ela responde do quarto.

— Espere e não vai se arrepender.

Ela está certa. Quando volta e vem desfilando, a vejo com o primeiro vestido que comprei: Um branco aperolado, com linhas desenhadas na cintura. Coube perfeitamente nela.

— Uau! Ficou magnífico. — me remexo no sofá, desfazendo o cruzar das pernas de antes no susto benéfico que acabo levando.

Emma desfila três vezes na minha frente sobre o tapete, ela leva jeito, não está nem um pouco acanhada em se exibir e pisca para mim antes de sair para vestir a segunda peça. Acho que estou sorrindo demais, o canto dos meus lábios dói por estar usando-o com frequência. Isso parece algo novo. Ela volta e me sinto ansiosa para ver seu segundo look, agora com calça jeans e camisa casual, ficou muito interessante. Dessa vez não falo nada, apenas aprovo com a cabeça e ela faz o trajeto quarto-sala mais de quinze vezes. Em algum momento digo: Bom, muito bom! Em outro: Incrível!... Linda!... Não imaginava que cairia tão bem em você! Enfim o último conjunto de roupas, uma calça rasgada na perna e camisa regata. Ela prende os cabelos no alto e volta, para na minha frente, dá uma volta e abre os braços.

— Que tal?

— Exatamente como achei que ficaria. — digo a ela. — Você gostou?

Emma de repente toma uma expressão triste, deve ter se lembrado de algo.

— Gostei muito de tudo, obrigada de todo o meu coração, só acho que seria mais justo se me permitisse pagar pelo favor que me fez.

— Não quero que me pague nada, não é necessário. São presentes, por favor aceite. Não estou pedindo nada em troca, até porque já recebi minha recompensa vendo você tão contente com essas roupas.

A loira decide se sentar ao meu lado no sofá, está muito séria e parece querer conversar sobre esse assunto que começou.

— Eu não entendo como uma pessoa conhece outra, no dia seguinte traz para a própria casa, dá de comer, de beber, conforto e roupa e não quer nada em troca. Até agora você não tem me convencido de que me trouxe aqui apenas porque teve pena da minha condição. Será que está montando um plano para me entregar aos meus pais? Por que você traria uma drogada para sua casa? Pode me responder?

— Tive pena de você desde o primeiro momento em que te vi. Sem que percebesse você estava implorando para ser ajudada. Eu não sei porque tive uma ideia dessas de trazê-la, foi um impulso me falando para te socorrer e realmente não preciso de nada em troca, não há necessidade de me dar nada. Para você pode ser estranho, vai pensar que sou uma assassina e em algum momento eu vou te matar, porém é diferente, eu não sou assassina. Maluca de vez em quando, não assassina esperando o momento certo, porque se eu fosse eu teria te matado ontem.

— Ah é? Cheguei a pensar que ia me procurar na cama ontem e me sufocar, eu esperei que aparecesse, tive medo. É que eu realmente não compreendo como não fez nada comigo, nem tentou, pois aparentemente toda e qualquer mulher que você traz para esse apartamento acaba nas suas garras, achei que fosse fazer algo comigo.

— Mas você não é qualquer mulher, Emma.

— Eu sou o quê?

— Diferente.

— Tá, acho que entendi, tem todo o direito de não gostar de uma drogada, aspirante a prostituta e sem teto. — ela se ofende com as coisas que ela mesma diz. — Não sente atração por mim porque eu não sou como as outras mulheres com quem se deita. Você está no seu direito.

Gostaria de dizer a ela que era por isso que não estávamos nos amando ali naquele sofá nesse exato momento, nunca foi o fato dela usar drogas, nem eu sabia o que me impedia e sempre a primeira desculpa a que eu chegava era seus pais.

— Não é nada disso, eu apenas acho que não posso me envolver com a filha de dois clientes nem que seja só por uma noite. — continuei. — Você quer tanto assim fazer sexo comigo?

Ela respirou fundo, evitou dizer a primeira coisa que veio em sua mente para dizer o certo.

— Passei o dia todo esperando você voltar, imaginando a gente conversando na hora do jantar pra depois mudar de ideia e implorar que eu não fosse trabalhar hoje. Sexo pra mim não chega a ser um vício, eu sinto falta, entende? Não uma falta que me coloque subindo as paredes porque minhas únicas transas boas foram com mulheres. — ela tenta se expressar com as mãos. — Quando você chegou no cassino antes de ontem senti que talvez eu tivesse encontrado alguém interessante o bastante para me atrair e achei de verdade que a gente ia ter um lance. Cara, você é bonita, sabia? Faz meu tipo, é séria, tem toda uma pose e cheira tão bem. Gostei de você, e isso me deu abertura para pensar muitas coisas acontecendo entre nós duas.

Meu rosto está fervendo, me sinto inútil diante de Emma. Sua sinceridade me pega desprevenida da mesma forma que uma boa notícia chega quando só esperamos ruins.

Era inútil tentar explicar para ela minha insistência em não haver nada entre nós, pois não havia respostas nem para mim. Quis comparar cada mulher que tive a Emma. Das que eu me lembrava a única semelhança era a idade. Ah, também tinha a cor dos cabelos, Elsa, por exemplo, é loira como ela. Uma saída pouco provável foi pensar que por um acaso, as mulheres com quem tive casos, deviam estar se perguntando até hoje se eu não ligaria para elas de novo. Esse seria um grande afago ao meu ego, embora seja a resposta para uma das minhas perguntas, e eu ia entender isso uns dias mais tarde.

Olho nos olhos dela, estou calma agora, porém quero ser sincera e fazê-la compreender o que ela pode estar sentindo porque é uma pessoa carente.

— Espero que não esteja alimentando sentimentos por mim por conta do que eu estou fazendo a você. Nos conhecemos há três dias, não quero decepcioná-la, minha intenção nunca será essa.

Fui cautelosa para não ser agressiva, embora isso Emma resolveu mudar de assunto, claramente incomodada.

— Tenho que ir trabalhar. — ela se levanta, fica sem saber para qual direção ir. Faço o mesmo e impeço que ela retorne ao quarto segurando seu pulso direito.

— Emma, queria pedir que não saísse hoje. — Nem hoje, nem qualquer outro dia daqui para frente. Era uma forma de protege-la.

— Mas se eu não for vou perder dinheiro. Uma hora eu vou sair desse apartamento e vou precisar de dinheiro para pagar outro aluguel. — ela me diz, noto que está trêmula.

— Eu pago o lugar onde for ficar, só não saia hoje. Fique sem ir trabalhar por alguns dias.

— Você realmente não bate bem, né? Olha todas as despesas que estou te dando, pare com isso. — ela tenta se soltar de mim e consegue. Sai aborrecida, eu a sigo.

— Dane-se as despesas! Você não pode continuar trabalhando naquele cassino e andando com gente errada, não estou sendo clara?

Emma se vira para mim rapidamente, seus cabelos se desamarram e caem nos ombros.

— Querendo me proteger? Sou bem grandinha pra cuidar de mim.

— E não era isso que você queria? Alguém disposto a se preocupar para você pensar em se curar. — Paro com as mãos na cintura afastando as abas do blazer. Sou dura com ela, mas acho que o que acabo de dizer fez efeito.

Emma engole o que estava pensando falar, seu rosto está tão corado quanto o meu anteriormente e se convence a ficar em casa pelo menos essa noite.

— Tá bom.

Agradeci por ela ter decidido ficar e, ao contrário do que imaginava, ela não tenta me abraçar ou avançar para meus lábios. Emma dá as costas, entra no quarto de hóspedes e arruma suas novas roupas. Após meu banho, jantamos o que ela preparou, a única coisa que sabia fazer bem, macarrão com queijo. Está saboroso e questiono a receita, ela me conta que é muito simples de fazer, explicando simples três passos. Termina antes de mim, faz aquele mesmo ritual educado de limpar os lábios no guardanapo e se retira até a sacada. Entendo que talvez ela esteja procurando nos odores da cidade o cheiro do cigarro que lhe faz falta. Não estou errada, pois poucos minutos depois Emma faz um pedido.

— Posso te pedir um favor? Quando for na rua de novo, me traga uns cigarros. Pode ser desses mais baratos.

— Amanhã quando eu voltar para casa posso compra-los.

— Vai trabalhar no domingo? — ela direciona seu rosto a mim de onde está.

— Não, eu corro no Central Park todo fim de semana para manter a forma.

— Tá explicado o corpão. — ela sorri e permanece mais um tempo encostada na sacada.

Essa noite não demos boa noite uma para a outra. Deixei ela na sala e fui conferir alguns papéis no escritório do apartamento, me dando conta de que já era quase uma da manhã e esqueci do tempo. Observo o relógio em cima da mesa de vidro, há uma foto minha segurando meu diploma da faculdade virada ao contrário curiosamente. Emma deve ter entrado no escritório e olhado para ela. Não me incomodo com a possível invasão dela, até esperava encontrar minha casa remexida, essa mulher tinha cara de bisbilhoteira, mas sei que seria incapaz de destruir meus pertences. Me levanto da poltrona e chego na sala me deparando com a loira enroscada a um cobertor no sofá. Os créditos de um filme estão rolando para cima na TV e suponho que Emma dormiu na metade. Estou parada pensando em acordá-la, mas seu semblante sugere que eu não cometa tamanha crueldade.

Tenho uma ideia e tomo cuidado para ser delicada. Abraço o corpo de Emma e a ergo no colo com os dois braços. Ela resmunga algo que não compreendo, mas se aninha como um bebê em mim. A carrego, ela não é tão pesada ou sou eu que ando fazendo exercícios demais. Deito Emma na cama do quarto de hóspedes e a cubro com a mesma coberta. Ela se mexe muito antes que eu saia, embora não acorde. Seus cabelos cobrem o rosto parcialmente, volto até ela e me preocupo em afastá-los para que ela respire melhor. Eu não devia ter feito isso. Passo muitos minutos segurando a mecha de cabelo de Emma enquanto observo ela ressonar. Ela dorme, e eu sigo segurando a mecha de cabelo, até que meus dedos amansam os fios muito lentamente, com medo. Emma sente o carinho e se mexe, não acorda, mas me assusta. Eu decido deixa-la em paz, estou há muito tempo sentada ao lado dela na cama. O que dirá se me pegar ali fazendo carinho nela? Deixo o quarto sorrateiramente e volto ao meu. Hoje não terei uma noite mal dormida.

Notas finais
Quanto tempo vocês acham que Regina vai segurar todo o sentimento? Por que ela não sabe o que está sentindo? Ela mesma tem a resposta, só nunca lidou com ela. Obrigada novamente e sempre pelo feedback ou só por estar lendo esse capítulo. Até o próximo, fiquem bem.