For the love of her
4 Cortesia demais, orgulho demais
Notas iniciais
Termino o café com leite, olho o relógio, sei que ainda está cedo para ir correr no Central Park e ir comprar os cigarros de Emma, mas preciso sair de casa antes que ela acorde. Por um momento sonho com a ideia de que ela vai entrar pela cozinha, caminhar até mim, me dar um beijo de bom dia, não dizer nada e sorrir. Dez minutos passam, dez minutos eu fico acreditando na fertilidade da minha imaginação e estou excitada pensando na minha boca cobrindo-a de beijos que despiam da cabeça aos pés, até perceber que se trata apenas de um delírio.
Eu saio após deixar tudo pronto sobre a bancada da cozinha para ela quando acordar. Faço o caminho até o Central Park tentando não pensar no rosto de Emma enquanto dormia na noite passada. De alguma maneira esqueço esse pensamento e o parque está todo a minha frente para ser visitado. Conheço cada trilha, cada árvore e meu caminho nunca muda. O Central Park de repente não é mais um refúgio para alguém como eu, a partir do momento em que passo correndo por casais apaixonados sorrindo e seus filhos brincando com balões de gás hélio. Uma sensação de súbita melancolia me atinge e quando me vejo sozinha num corredor de árvores, estou prestes a me perguntar o que está acontecendo? Esse parque é o meu lugar favorito no mundo, hoje no entanto sinto que quanto mais correto tudo parece a minha volta, mais miserável eu me sinto.
Paro de correr e volto todo o caminho andando. Esse é o momento perfeito para começar uma retrospectiva da minha vida: Uma jovem filha adotiva de um casal muito bondoso de senhores do Michigan, que sonhava ser uma juíza, com uma incrível habilidade de resolver discussões entre amigos e que com essa experiência tola acredita que será a melhor advogada da cidade. O esforço a leva a estudar numa das melhores universidades do país, nesse meio tempo se apaixona pelo seu melhor amigo na turma e iniciam um relacionamento. Ficam noivos, vivem sete longos anos juntos até descobrir que ele ama outra pessoa. Ela desmancha o noivado, finge estar ótima quando no fundo uma terapeuta a encaminha para um psiquiatra. Dias mais tarde consegue um emprego numa firma de advocacia e seus trabalhos antes colaborativos e desinteressantes passam a ser mais sérios e complexos exigindo dela todo o talento de uma estudante de direito muito ambiciosa. Ela segue o conselho de um amigo e tira um dia na semana para ir se divertir num bar, conhece uma mulher mais velha, vai parar na cama dela e no dia seguinte repete o feito com outra mulher mais nova. Isso vai acontecendo de vez em quando com outras mulheres, mas de repente sua vida muda quando um grupo de banqueiros é acusado de fraude e ela é a escolhida pela firma para assumir o caso, ganhando mais dinheiro do que sua irmã que seguira o conselho dos pais e se tornara engenheira.
Pensando em minha irmã, me lembro que há meses não nos falamos e a última vez em que a vi foi em seu casamento com um agente federal chamado Robin. Eles se mudaram para South Carolina e desde então não tive notícias dela. Na época em que minha irmã se casou, era o meu auge na carreira e talvez eu fosse uma celebridade local no mundo da advocacia, isso também me lembra algumas mulheres com que estive. Não lembro ao certo como começou minha busca por satisfação sexual, e começo a achar que não era bem satisfação que eu procurava em quem dormiu comigo. É aí que mora meu novo conflito, se eu cair em tentação com Emma uma hora dessas, ela pode se tornar mais uma vítima da minha instabilidade.
De volta as ruas de Manhattan passo em uma tabacaria e compro o maço de cigarros que Emma me pediu. Levo um olhar questionador do vendedor por estar vestida com roupas de corrida, um short largo e camisa regata, e mesmo que ele me perguntasse algo eu diria que o maço era para mim. Felizmente estamos na maior cidade do mundo e ninguém aqui questiona para quem vende bebida ou cigarro, nem para menores de idade se quer saber. Tudo em prol do lucro capitalista, não sei até que ponto isso é bom.
Eu volto para o apartamento e encontro Emma arrumando a cama do quarto de hóspedes onde dormiu por duas noites muito confortável pelo o que parecia. Ela leva um susto ao me ver parada na porta, sorri colocando o cabelo de lado, desvia o olhar de mim. Entendo o porquê da sua vergonha, ela havia acabado de acordar e já era uma da tarde praticamente.
— Se quisesse poderia ficar dormindo o dia todo. Hoje é domingo. — eu digo, entro no quarto e estendo o maço de cigarros.
— Não pega bem eu ficar ocupando essa cama o dia todo, se ao menos fosse a sua. — Ela fala e aquela timidez de um segundo atrás some num piscar de olhos. Assim que termina de arrumar a cama ela se aproxima e pega o presente abrindo-o imediatamente. — Obrigada. Nossa, eu já estava nervosa sem isso aqui. — Ela pendura um cigarro entre os lábios, vai até sua mala e tira uma caixa de fósforo de um dos bolsos. Acende o cigarro, puxa, prende e solta o ar de tabaco pela boca como se fizessem anos que não provava sua comida favorita. A satisfação é tão grande que Emma fecha os olhos por vários segundos e joga a cabeça para os lados alongando os músculos tensos em volta da fumaça que ela produz enquanto traga uma segunda vez. — Quer experimentar? Sabia que você tem cara de quem fuma?
— Não, obrigada. Eu detesto cigarro e não acho que tenha cara de quem fume.
Emma está segurando o cigarro entre o indicador e o dedo médio, sopra mais uma rajada de fumaça.
— Toda mulher bonita e poderosa já experimentou um cigarro na vida, nem que seja daqueles eletrônicos.
— Não sou bonita, nem poderosa. — dou as costas e suspendo a camiseta que visto não dando a mínima se Emma veria meu sutiã. O fato era que eu não me sentia presa por sua presença em casa. Era como se eu pudesse andar nua para qualquer lado dentro de casa e, apesar dos comentários impertinentes, ela não avançaria em mim se eu não fizesse isso antes.
— Você não se olha no espelho? — ela vem atrás de mim como imagino, retiro o short, entro na suíte, jogo a roupa suja no sexto e abro a ducha para esquentar a água.
— Claro que sim, mas não me acho isso tudo que você diz. — A vejo parada na porta do banheiro, tragando seu cigarro e me comendo com os olhos. — Algum problema?
— Nenhum, por quê?
— Preciso tomar uma ducha, você pode me dar licença?
— Toda. — Mas ela ficou parada na porta, esperando que eu ficasse nua. Não se incomodava em apenas olhar, era o que ela queria que acontecesse já que não podíamos tirar casquinhas uma da outra.
— Não vai sair?
— Por que eu deveria? Eu estou prestes a apreciar uma obra de arte tão linda quanto um quadro do Da Vinci. Espera mesmo que eu saia?
E ela está falando muito sério. Passo alguns segundos olhando para ela, esperando que seja educada o bastante para sair dali e me deixe tomar banho em paz. Emma não sai e entendo que se eu demorar mais tempo parada apenas com calcinha e sutiã ela só irá infestar o banheiro com a fumaça do cigarro mais do que já começava a ficar cheio de vapor da água da ducha. Há algo me comichando lá embaixo, um sinal claro de que os olhos de Emma sobre mim já são o bastante para eu me sentir nua. Não era preciso me preocupar em tomar banho na frente dela. Eu acabo tirando o sutiã de costas para ela. O jogo no sexto de roupa suja, então sinto um calor me invadindo pelo sexo, acho que são os olhos de Emma ainda me devorando, a força que a imaginação dela emanava enquanto eu estava apenas de costas. Tiro a calcinha com o receio dela notar a umidade que deixei na peça de roupa, mas faço isso de um jeito que ela não percebe. Jogo a roupa no sexto e finalmente estou completamente nua para ela. Entro no box, não quero olhar para ela, mas ela continua de pé apoiada na porta, fumando seu cigarro, acho que seus olhos sequer piscam. Sinto a água me molhar a cabeça, descer pelos meus ombros e me banhar completamente.
O tempo que eu passo debaixo do chuveiro é o tempo que passo imaginando o que seria de nós se ela decidisse entrar ali debaixo d’água e me beijasse. Ela permanece me olhando da porta, parece que o cigarro da mão dela acabou e só vejo que agora ela apoia as mãos na porta, escorregando para dentro do banheiro sorrateiramente para que consiga me olhar tomando banho. Eu continuo o banho, lavo os cabelos, deslizo a bucha em formato de flor que raramente uso na pele arrepiada. Isso não devia estar acontecendo, porque a água está quente, no entanto ainda sinto calafrios subindo pela minha coluna. Então Eu preciso passar meus dedos em meu ventre, meu sexo, e isso agora é perturbador por estar sendo observada por Emma. Tenho a impressão de que se fosse por qualquer outra mulher eu não me sentiria assim. É como se eu fosse Angie Dickinson em Vestida para Matar na icônica cena do banho em que se toca olhando o marido fazer a barba. Tento pensar que ela não está ali, mas isso se torna impossível. Cada toque que deixo com a bucha me leva a crer que são as mãos de Emma aliciando minha pele. Gosto desse jogo entre nós duas; Seus olhos. Minhas mãos.
Termino o banho e Emma está sentada na pia de mármore, sorrindo com o canto dos lábios de um jeito que talvez ela nem esteja sentindo. Abro o box, pego uma toalha, depois um roupão que visto rápido. Quando caminho até a pia para me encher de cremes hidratantes, ela deita em um olhar cauteloso. A marca de Kris sobre um dos meus seios ainda é evidente e acho que ela consegue ver, pois pergunta.
— O que foi isso aí?
— Alguém me arranhou. — respondo, desembaçando o espelho com a mão.
— Hum... Entendi. — ela diz como se tivesse imaginado como consegui a marca. Ela se torna estranha depois disso, pula do mármore e caminha até a porta subitamente desinteressada em mim. — Foi bom?
— O que foi bom?
— O lance com quem te fez isso no peito. Foi bom?
— Ah, sim, posso dizer que foi muito bom. — não era a verdade e eu sabia disso. Não gostei de como transei com Kris há dois dias, não queria que tivesse ocorrido como ocorreu. Falo que foi bom para Emma por pura vaidade. — Mas não sei se vai voltar a acontecer.
Isso não é suficiente para consertar o que quer que Emma tenha pensado de mim e outra mulher. Ela se afasta, está novamente apoiada na porta, mais para fora do que para dentro.
— E por que não vai voltar a acontecer?
— Descobri que não gosto de quem me fez isso. — eu digo e me viro, esperando que ela fale algo surpreendente ou me faça outra pergunta sobre Kris.
— Poxa, que pena! Como se não gostar de alguém fizesse diferença para você. Acho que você não gosta de ninguém. — seu tom não é nem debochado, nem irônico. Ela se afasta da suíte, não me diz mais nada o restante do dia.
Não fiquei sabendo se comeu, se descansou, se queria sair, se telefonou para alguém. Nada o resto do dia e da noite. Ela se trancou no quarto de hóspedes feito criança posta de castigo por ter aprontado, mas não sei o que exatamente eu disse para tê-la aborrecido tanto.
Meu jantar é uma lasanha congelada que preparo em quinze minutos no forno de micro-ondas. Chego a chama-la para comer comigo, mas Emma faz que não está me ouvindo bater na porta e ouço uma música ao fundo que ela provavelmente colocou para tocar em seu celular o mais alto possível.
Decido não enchê-la mais o restante da noite e após assistir a série de TV favorita do domingo à noite, me recolho ao meu quarto, hoje deixando a porta fechada. Espero o sono vir olhando o teto do quarto, as lâmpadas de spot instaladas nos quatro cantos, ouvindo músicas das mais variadas de longe, ela ainda está com o som ligado. Me pergunto onde conseguiu um celular, se era mesmo um celular que ela tinha escondido ou se não era um rádio relógio muito moderno que eu já havia esquecido onde tinha metido e ela o achou. A última alternativa parecia ser a mais certa. Durmo quando uma música agitada do Linkin Park está na metade, o que acho uma vergonha na manhã seguinte, pois eu estava me identificando com a letra, mas não sabia o nome e queria acrescentar ao iPod.
Nos dias que se seguem, saio para ir trabalhar sempre antes de Emma ter acordado. No escritório seus pais me ligam por duas vezes e digo que tive uma conversa pessoalmente com ela. Ao chegar em casa na segunda-feira, Emma está aproveitando seus últimos cigarros do maço na sacada e já veste uma de suas novas roupas. Pergunto se ela pretende sair, ela apenas faz que não, me vê e sorri triste. Algo a incomoda, é comigo, com certeza. Na hora do jantar ela me diz espontaneamente o que ficou fazendo o dia todo.
— Sabe aquele seu escritório? Eu estou dando uma arrumada nele, aquilo parecia um furdunço a primeira vez que entrei lá.
— É, posso ser metódica com tudo, menos com aquele escritório. — digo colocando uma garfada de salada na boca em seguida.
— Se tiver alguma coisa lá dentro que você não queira que eu mexa é só avisar. — ela diz e eu prometo pensar se há algum documento que eu não quero que ela veja, mas as citações mais importantes ficam em meu escritório na firma, não em casa, então apenas dou de ombros. É verdade que ela precisa se distrair enquanto passo o dia todo fora e não quero que saia. Eu a proibi que saísse de casa de certa forma. É seu quarto dia em meu apartamento, imagino que não andar pelas ruas e trabalhar esteja a deixando ansiosa e entediada.
Digo que foi um dia cheio na firma e vou para meu quarto logo após o jantar. Emma compreende e faz o mesmo, mas ela não parece cansada ou com sono. Na noite de quinta-feira entendo o que tem deixado sua cabeça distraída nas madrugadas e em boa parte desses dias. Entro no meu escritório, impecavelmente limpo agora, organizado e aconchegante. Ela fizera um bom trabalho ali naquele pequeno recinto mal usado no apartamento, mas não é apenas a arrumação que me surpreende. Há vãos entre livros de direito sobrando na prateleira. Quando vou questioná-la onde ela colocou os outros livros vejo uma pilha formada na cômoda ao lado da cama do quarto de hóspedes. Emma está com um livro policial de um autor revelação na mão, eu nem me lembrava que tinha comprado aquele exemplar e havia pedido uma dedicatória ao rapaz por ter ido ao lançamento. A assusto sem querer quando bato na porta do quarto e me apoio na porta, mas quem se assusta mais sou eu quando vejo um óculos de leitura enfiado na cara dela no momento em que abaixa o livro para me ver.
— Não sabia que gostava de ler, muito menos que usava óculos. — falo de onde estou.
— Só uso para ler, não sou cega se está pensando nisso.
— Não pensei nisso, pensei que você fica bem com eles. Vim perguntar o que aconteceu com os meus livros, mas acabei de descobrir.
— Estavam lá na estante abandonados ao lado daqueles livros sobre leis, achei um passatempo. — Emma colocou o livro que segurava na pilha com os outros, tirou o óculos.
— No fundo só comprei esses livros para enfeitar minha estante. Pelo menos alguém está me dizendo que são bons, ou não são?
— Ótimos. Mas pensei que comprava livros para ler ao invés de deixá-los mofando, você tem bom gosto para leitura e nem sabe. — Ela para e faz essa reflexão e chega em outra num instante. — Aliás, você não sabe que é muitas coisas. Só esses dias que estou aqui descobri que você é cheia de qualidades, mas é tão modesta que ignora. Se bem que te observando eu acho que você é um pouquinho orgulhosa ao invés de modesta. Advogados costumam ser orgulhosos, não acha? Todos têm um complexo de soberano, especialmente os que querem ser juízes. Um dia cogitei estudar direito, só que percebi a tempo que essa vida não é para mim. Sou uma pessoa muito humilde para parecer importante.
— Discordo quando diz que sou orgulhosa.
— Ah, você é sim, e não é pouco. Faz pose quando está de terno. De longe é uma pessoa completamente diferente quando está em casa. Ninguém nunca te disse isso alguma vez?
— Não, nunca.
— Porque você vive sozinha, é verdade. É a primeira vez que divide o apartamento com alguém. Deu azar, viu? Eu não sou a pessoa mais indicada para dividir casa com ninguém, acabo prestando muita atenção nas coisas ao meu redor, especialmente em quem convive comigo.
— Isso não é um incomodo para mim. Não tenho nem sentido que está morando aqui, você é discreta.
— Porque estou tomando cuidado com você. Sei lá se eu faço alguma coisa que não gosta e me põe pra fora. Não posso ir para a rua na minha atual condição. Meu emprego no cassino já era, eles não vão me querer depois de faltar uma semana inteira.
— Vou arranjar algo para você fazer e ganhar dinheiro de uma maneira limpa. Me dê alguns dias apenas.
— Agradeceria muito se fizesse isso por mim. A propósito, essa será só mais uma coisa a acrescentar na lista de favores que fico te devendo.
— Eu disse que não tem com o que se preocupar. Não precisa me agradecer de maneira alguma. Você estando bem e sóbria me deixa feliz, essa é a forma certa de agradecer.
Toda vez que digo a Emma que gostaria de vê-la bem, seu semblante muda, desconfiada de mim ainda ela não sabe mais o que me falar. Minha insistência para que ela permaneça no apartamento a troco de nada a incomoda até certo ponto. Ao mesmo tempo, ela está sempre pronta para pegar suas coisas e sair se um dia eu cansar de abriga-la. Tenho que falar com ela sobre seus pais, é por eles que estou ajudando a filha. Não acho que eu vá convencer Emma a conversar com os dois tão depressa, assim decido que preciso ganhar sua confiança por mais alguns dias.
Nossa conversa termina ali. Mal entro no quarto de hóspedes, me limito a terminar com um Boa Noite e me retiro com os olhos dela para mim instantes antes na cabeça. Acho bonito como me olha, quando me olha daquele jeito como se eu fosse uma sábia dando-lhe uma lição muito valiosa com três palavras. Ela não esconde a timidez momentânea, não esconde o incomodo quando sente algum, não tem vergonha de estar comigo. Nós não somos nada, nem um grau de parentesco, absolutamente nada. Se isso que Emma tenta me dizer com aqueles olhos não é admiração, talvez seja paixão.
No escritório na manhã seguinte recebo uma ligação de uma pessoa que quero evitar há muitos dias. Belle deixa a ligação passar e atendo achando ser um outro cliente. Kris está do outro lado da linha, chego a sentir náuseas pensando em algum pedido inusitado dela para me encontrar essa tarde. Felizmente não é esse o pedido que ela me faz.
— Regina, querida, há quanto tempo! — sempre a mesma ladainha sobre o tempo.
— Bom dia, Kris. Em que posso ser útil? — sou educada, formal e direta.
— Bom dia! Está de bom humor hoje? Que ótimo! Estou ligando para fazer um convite irrecusável.
— Kris, seu processo contra a revista dos White está em andamento, temos que esperar...
— Calada! Não estou falando de processo por enquanto. O convite que vou fazer é para hoje, não falte pois vou te apresentar seus futuros novos clientes. Haverá um coquetel da revista no Empire State esta noite. Eu mesma estou organizando e quero que vá. Faça o favor de aparecer às oito pontualmente.
— Eu tenho escolha?
— Sua única escolha é ir bem arrumada e disposta a ser simpática com os homens e mulheres para quem irei apresenta-la.
Um raio atinge minha cabeça e tenho uma ideia um pouco perigosa para esse coquetel. Digo a Kris que estarei lá na hora em que ela marcou, mas não digo que vou acompanhada. Nessa ideia mora uma chance de me ver livre da perseguição de Kris. Se ela me ver com Emma, mesmo a loira sendo apenas uma acompanhante, pode ser que se aborreça e entenda sua posição na minha vida. Nada mais que uma cliente, não mais um caso corriqueiro que acontece a cada quinze dias.
O restante da tarde me deixa ansiosa para ir embora e avisar Emma que temos uma festa para ir hoje. Estou sentindo calafrios na espinha quando chego em casa, mas não são os mesmos calafrios que senti quando Emma me viu nua no banho, são calafrios de tensão. Ela está na cozinha olhando a geladeira com a porta aberta, pensando em preparar algo, talvez.
— Passou bem o dia? — chego perguntando, largando a chave do carro sobre a bancada e meu blazer abandonado sobre o sofá.
— Bem sim, e você?
— Bem. Eu recebi um convite para um coquetel hoje às oito. Não quero ir sozinha, o que acha de me acompanhar? — não perco tempo e digo tudo o mais rápido para não dar tempo de enxergar uma dúvida na cara dela.
Emma vê nisso uma oportunidade de sair de casa após mais de uma semana presa no apartamento. Seu rosto se ilumina, ela gosta da ideia.
— Claro! Eu adoraria!
Gosto de sua reação imediata, inclusive a de fechar a geladeira bruscamente e vir até mim me questionar sobre a roupa que vai usar.
— Posso ir com um dos vestidos que você me deu?
— Óbvio. Se arrume, fique bem bonita, nós saímos daqui meia hora antes por causa do trânsito.
Ela fica meio perdida, tonta, contente com o programa para a noite de sexta, mas tenho a impressão de que não é tanto porque irá sair simplesmente, é porque ela vai sair sim e comigo.
Emma leva duas horas para ficar pronta ao mesmo tempo que demoro escolhendo uma combinação para um vestido básico escuro. Cansada de olhar para as cores mais escuras do meu armário, opto por um blazer marfim de seda oriental e vai ser ele, pouco importando se combina ou não com o vestido e o salto nos meus pés. Demoro ainda mais tempo me maquiando e quando acho que estou pronta fico em um dilema com qual perfume usar. Escolho o Calvin Klein por já ter usado o Dolce & Gabbana na semana anterior quando busquei Emma no cassino.
— Eu prefiro o outro, é mais delicado para você.
Volto os olhos para a porta do quarto antes fechada, Emma entrou e está me observando há algum tempo dali. Já tinha a visto com o vestido azul marinho, eu o comprei pensando nela e lhe coube perfeitamente. Mas ela está linda nele, os cabelos soltos pelos ombros, meio escorridos, meio enrolados, completamente natural.
— O que foi? Não gostou desse?
— Pelo contrário, você está linda. — digo e um sorriso brota dos meus lábios antes que eu possa pensar.
— Obrigada. — ela enrola uma mecha de cabelo no dedo e vem andando na minha direção. — Vim pedir emprestado um pouco de maquiagem, sabe como é, né? Eu só tenho lápis e batom que estão acabando.
— Claro, tem maquiagem na suíte, use o quanto achar que precisa.
Minha vontade era de dizer a ela que não precisava pôr nada no rosto, ela estava perfeita do jeito que se arrumou, se colocasse alguma coisa no rosto poderia estragar. Emma não demora, ela suaviza a linha dos olhos com delineador, usa o blush, corando as maçãs do rosto, passa o batom cor de rosa nos lábios e quando termina, vem voltando, ajeitando as argolas dos brincos pendurados nas orelhas. Outra vez repito, linda.
— Você também, e ainda assim parece uma advogada. Não sei como é possível se vestir bem, parecer uma advogada não parecendo uma.
— Minha pose me entrega. — digo colocando dinheiro e documentos em uma bolsa de mão.
— Sem dúvida.
Pronta, eu passo por ela, mas ela não sai do quarto enquanto não paro e olho para trás.
— Você não terminou ainda?
— Ah, nossa, desculpa...Eu tava muito distraída olhando pra sua bunda.
Não entendo se isso fora uma brincadeira ou um comentário sério da parte dela. Pela cara que fez, não creio que tenha sido só mais uma tentativa de me ganhar, mas uma tentativa de me fazer sorrir e ela consegue. Realmente, às vezes eu gostaria de não ter a parte de trás tão avantajada. Emma não é a primeira a fazer um comentário desse tipo para a curva que fica quando visto roupas mais justas.
Deixamos o apartamento às sete e trinta e cinco. Emma me pede para paramos em um posto para comprar um maço de cigarros e aproveito para abastecer. Seguimos em direção ao Empire State sem precisar enfrentar um transito terrível com os atalhos que escolho fazer. Lá dentro sou recepcionada pelo motorista e descubro que devemos subir ao 88º andar em um dos observatórios onde acontece o coquetel. Emma e eu estamos sozinhas e trocamos um olhar curioso no elevador.
— Posso saber o que está pensando? — ela pergunta sem cerimônia.
— Nada exatamente.
— Vai me dar a mão quando entrarmos no observatório?
Isso é o correto já que ela é minha acompanhante. Sei que vou arrancar olhares de todos os lados, mas a ideia de levar Emma comigo a princípio foi minha.
— Se me permitir, é claro.
— Eu seguraria sua mão mesmo se não me pedisse, e pelo visto você não ia abrir a boca enquanto não chegássemos. Me pergunto se o problema é comigo.
— O problema sou eu como pode ver. Às vezes eu sou muito gentil com quem está ao meu lado.
— Gentileza demais é orgulho demais.
Novamente ela volta a me chamar de orgulhosa. Estou começando a acreditar que sou mesmo desse jeito.
O silêncio se faz presente como nos jantares que temos todas as noites, só que com a diferença de que estamos trocando olhares. O elevador chega ao observatório e estamos lado a lado. Puxo sua mão para perto de mim, segurando seus dedos cuidadosamente e caminhamos para fora.
Há muita gente engravatada, muitas mulheres bem vestidas segurando suas taças na mão e conversando em grupos de pessoas. O ambiente está lindo, todo enfeitado para um evento daquele porte, com música boa ao fundo e a paisagem da cidade brilhando ao nosso redor. Sou observada por homens e mulheres quando chego, alguém quase entortou o pescoço para me ver passar. Eles olham para Emma também, cochicham alguma coisa nos ouvidos uns dos outros. Os olhares e burburinhos não me incomodariam tanto em outros tempos, hoje confesso estar um pouco afetada pela forma como estão todos se direcionando a nós, mas isso dura somente até Kris aparecer e dar uma palavra em cada grupo de pessoas espalhadas pelo coquetel. Emma e eu paramos para cumprimentar um advogado que conheço e ele lhe beija a mão. Pelo jeito como sorri ela está confortável o suficiente para pegar uma taça de espumante que um garçom oferece. Enquanto converso com o advogado conhecido, vejo pelo canto do olho que Emma está olhando na direção de Kris. Cada vez que sua voz se aproxima, sei que ela vai vir falar comigo. O advogado se retira, é quando Kris se aproxima de Emma e de mim. Ainda estou de mãos dadas com a loira mais bonita, porque definitivamente hoje Kris não está elegante como costuma ser; Seu vestido não tem uma das alças e as dobras na renda cinza fazem ela parecer gorda. Também tem maquiagem demais no rosto, o volume de sua boca com batom vermelho sangue me assusta.
— Olá, Regina! Quanto prazer receber você e... — ela me beija no rosto, manchando o batom em minha pele. Para de falar quando nota Emma e lança um olhar feroz a ela da cabeça aos pés. — Olá, bonequinha! Como se chama? — usa o elogio pejorativamente, estende a mão para Emma apertar, mas minha acompanhante não faz isso.
Emma empina o nariz, decidida a entrar numa competição inventada entre ela e Kris.
— Swan, Emma Swan. — sou eu quem respondo. — Ela é minha acompanhante esta noite, mas talvez você nos veja juntas mais vezes nos próximos eventos, Kris.
Kris volta seu olhar feroz a mim agora, deve estar se perguntando o que diabos deu em mim para trazer uma mulher comigo no coquetel da revista que ela edita. Kris se sente desaforada, é visível principalmente depois do que eu falo. Para não perder a pose, ela se limita a sorrir e me pega pelo braço que seguro a bolsa, me puxa com ela e sou obrigada a soltar Emma.
— Que gracinha, não é mesmo? Então, se não for um problema, a srta. Swan vai me emprestar você um pouco. Venha conhecer os meus amigos e sócios na revista, eu disse maravilhas sobre você e agora estão loucos para conhecê-la, Regina.
Sigo Kris. Emma me vê se afastando ao lado da mulher e eu não consigo fazer desfeita. Kris me apresenta para vários sócios. Tento conversar brevemente sobre meu trabalho, alguns já me conhecem das manchetes dos jornais e do caso BCCI. Me ajuda muito não precisar estender as conversas. Olho de vez em quando na direção de Emma, ela está bebendo, isolada, sem atenção. Passo mais algum tempo do coquetel sendo arrastada de grupo em grupo por Kris, já estou farta de falar meu nome, confirmar o quão difícil foi montar a defesa dos banqueiros e por quanto tempo venho trabalhando para a revista. Mas, não sou tão esperta para prever o pior que vai acontecer.
— Ela não é impressionante?! Tenho orgulho da minha advogada. — Kris esbanja, me transforma em um troféu e me exibe. Ela gruda ao meu lado. Deixamos o último grupo de pessoas e paramos atrás de uma gigantesca mesa de canapés. Emma está poucos metros distante de nós, consegue ver tudo o que a louca faz comigo.
— Pronto. Acho que todos os seus investidores me conhecem agora. — digo eu, um pouco impaciente.
— Eles adoraram você, minha querida. E como não adorar se você é exatamente como descrevi? — Ela pega algo da mesa e me dá na boca. É uma coisa salgada com sabor de queijo e camarão. — Uma pena que tenha trazido a garota de programa com você, caso contrário eu te levaria para o último andar agora e ficaríamos olhando a vista lá de cima.
— Estou satisfeita com a vista que se tem desse andar, não há necessidade de irmos mais alto. Outra coisa, Emma não é garota de programa. — afirmo, limpando meus lábios com um guardanapo de papel.
— Ora, como não? Você só dorme com garotas de programa.
— Nem todas com quem durmo são, e eu não dormi com Emma.
— Regina Vitória, quer enganar a quem? Só porque ela é bonitinha e tem cara de princesa? Você já conquistou mulheres mais bonitas, eu chego a pensar que ela é até meio sem graça. — Kris rouba uma taça com drinque da bandeja de um garçom de passagem e ergue fitando Emma de longe.
— Posso pedir para você evitar me chamar assim?
— Te chamo do jeito que eu quero. Vitória é um nome lindo, devia se orgulhar.
— Não gosto.
Ela volta a me desafiar.
— Estando comigo você passa a gostar. — Ela ergue uma sobrancelha, bebe o drinque da taça e acena para Emma, entendo que é tudo uma forma de provocar. — Posso saber o que viu nela?
— A srta. Swan?
— Uhum. — geme esperando que eu diga.
— Muita coisa. Emma é bonita, inteligente, boa moça.
— E boa de cama também pelo visto. — Kris fala, não se contentando em dar uma alta gargalhada só para chamar atenção.
Não gosto da forma como se refere a Emma e a pego pelo braço com força bruta.
— Dá pra você parar de insinuar coisas a respeito de Emma?!
— Está me machucando, Regina Vitoria... — Kris tenta puxar o braço que seguro.
— Não me chame assim! — estou quase arrancando seu braço fora, ela arregala os olhos.
— Me solte, você está me machucando... — ela fala alto, grita ameaçando quebrar a taça em meu rosto e todo mundo percebe nossa tensão, inclusive Emma. Eu a solto, ela não se dá por vencida e diz enfurecida: — Vá, Victoria, vá ficar com sua garota de programa que é o que você sabe fazer melhor.
— Talvez por isso eu tenha ficado com você tantas vezes, não acha? — Devolvo na mesma moeda e saio de perto dela. A festa para assistir ao espetáculo, os burburinhos começam imediatamente, mas ao dar as costas não vejo Emma onde ficou o tempo todo.
Um garçom me diz que a viu andando apressada para um dos elevadores. Minha intuição me diz que não foi embora. Se eu bem me lembrava ela havia comprado um maço de cigarros que colocara na minha bolsa e estava com ela. Um bom lugar para fumar é um dos observatórios vazios dos andares acima. Fui encontra-la no 95º numa área quase externa e apagada, é um espaço enorme, usado apenas de dia. Emma está tentando acender um cigarro, só que o isqueiro falha em todas as tentativas e ela esperneia.
— Merda! — me aproximo e ouço ela falar, arremessando isqueiro, cigarro e minha bolsa contra a vidraça, muito aborrecida por um motivo que imagino qual seja. Agacho e pego minha bolsa de mão, encontrando Emma de olhos fechados, lutando muito para segurar o choro.
— Perdão, Emma. Não imaginei que ela fosse agir daquela maneira. — me ergo diante de Emma, ela está de olhos abertos agora. Seu rosto e corpo são iluminados pelo farol giratório do alto do edifício e que vai e volta no salão a cada cinco segundos.
— Diz pra mim que você não me trouxe nessa festa só para fazer ciúmes. — Emma está me olhando de banda, consigo ver o brilho de lágrimas prestes a cair dos olhos dela.
— A princípio eu quis que ela te visse para pensar que eu não estava mais sozinha. Essa mulher... Ela é complicada, possessiva, chega a ser maldosa às vezes.
— Então você estava me usando?
— De certa forma, sim. — o desanimo na minha voz é o arrependimento disfarçado.
Emma vira o rosto completamente, embora triste ainda está linda, o meu desejo é dizer isso a ela.
— Isso foi longe demais. Você está tendo a liberdade de me usar como uma prostituta só para fazer ciúmes em outra mulher. Será que é difícil ver que aquela mulher é apaixonada por você? Ela quase me fuzilou com os olhos quando disse que nos veria mais vezes juntas. Não me incomoda ser chamada de garota de programa, porque bem lá no fundo eu devo ser e já andei transando em troca de dinheiro sim, mas ouvir ela escancarando em alto e bom tom pra quem quiser ouvir você só me trouxe porque só sabe se envolver com esse tipo de pessoa, me magoa. Ela surgiu como se fosse a rainha, fez você de trouxa tendo que conversar com um monte de gente que eu duvido que ela saiba o nome direito e no final quis mostrar o quanto tem poder sobre você. Era só ter dado as costas quando ela falou seu nome, pensa que não ouvi que não gosta? Você passou vergonha, me fez passar mais vergonha ainda e tudo isso para tentar se livrar dela me usando. Olha, não dá, acho que estamos ficando muito próximas com esse convívio. Vou embora da sua casa.
— Desculpa, Emma, me desculpa colocá-la em uma situação constrangedora. Vi na sua companhia uma forma de mostrar a Kris que não gosto dela e tenho motivos para evita-la. Por mais que isso pareça uma atitude canalha, não tive a intenção de magoar você. Achei que nem fosse perceber na realidade.
— Está aí o problema, eu entendi tudo. — ela me olha, está chorando e não esconde.
Dou um grande suspiro, procurando uma forma de consertar o meu erro.
— Sei que não há nada que eu possa fazer para aliviar seu aborrecimento, é tarde para tentar fazer algo, então só me resta pedir desculpas. Não vou permitir que isso aconteça de novo. — Estou olhando para a vista da vidraça. — Fui egoísta trazendo você com o intuito de provocar a Kris. Estou envergonhada.
— Fico pensando o que é que ela diria se nós duas tivéssemos transado e você dito a ela. No mínimo teria um surto e mandaria me prender.
— Ela não seria tão louca.
— Seria sim, ela já te machucou. Ou pensa que não sei que quem fez a marca no seu peito foi ela?
— Tudo bem, Emma, foi ela, mas as razões são muito diferentes. Kris acha que manda em todo mundo, é mimada, tem tudo o que deseja...
— Mas não tem o que mais quer, você.
Olho para Emma de relance, a luz volta a bater em seu rosto e sumir por cinco segundos.
— Nós duas só tivemos um caso que durou mais do que o devido.
— Eu não vou ficar ouvindo suas desculpas. Se não gosta dela diga para ela e caia fora, não arranje formas dela descobrir porque ela não vai aceitar assim como já não aceitou te ver ao lado de outra mulher porque ela sentiu que era sério. Ela sabe que você dormiu com Nova York inteira, mas algo em você a chamou e ela quer que no fim quando você não quiser nenhuma outra mulher a procure e sejam felizes para sempre.
Recebo as duras críticas de Emma a respeito de Kris, o que comprova que estou completamente por fora dos sentimentos alheios. Nunca achei que ela quisesse ter algo mais sério comigo, nunca quis ter algo mais sério com ela e agora quero muito menos. Emma teve uma pequena amostra do meu relacionamento com a editora e sabe mais do que ninguém do que devo fazer. Ela pode estar certa quando diz que sou orgulhosa. É isso que me faz ficar cega diante de coisas que são tão óbvias, inclusive a razão para ela estar chorando e insisto em pensar ser ciúmes. É mais do que ciúme, é medo, é preocupação, um cuidado que ninguém teve comigo.
Fico calada e consinto que talvez seja melhor Emma ir embora da minha vida.
— Tô indo dar uma volta. Não se preocupe comigo, eu vou para o seu apartamento, pego minhas coisas e quando você acordar amanhã já não estarei mais lá. Fale para os meus pais que eu entro em contato com eles em breve e é sério, eles podem esperar. Desculpa qualquer coisa. — ela me deixa sozinha, caminhando em direção aos elevadores. Leva consigo apenas o maço de cigarros e o isqueiro.
Não quero que ela vá embora, também não tenho coragem de pedir que fique, que volte comigo para casa e não se atreva a me deixar. Mas eu não posso obriga-la, ela é apenas filha dos meus clientes. Eu jamais devia ter levado essa mulher para dentro do meu apartamento. Ela viveu comigo por apenas uma semana e vê-la partindo me faz sentir que estamos morando juntas há mais de um ano.
Não sou capaz de impedi-la e ela entra no elevador sem se despedir de mim. Voltei a ser sozinha, e pela primeira vez isso me parece um sinônimo de dor e tristeza.
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