For the love of her
27 Lição do amor
Notas iniciais
Após tantas horas e tantos relatos, sinto que é preciso absorver tudo o que Emma havia me contado. Cabia a mim respeitar os momentos de dor dela, assim como ela os meus. Competia a mim entender toda aquela história contada na emoção e paciência. É, eu compreendia em partes, mas ainda me questionava duramente sobre a capacidade do ser humano se superar. Não havia uma dúvida sequer de que Emma tinha superado três meses de crises, dores, abstinência e tristeza por única e completamente uma coisa chamada amor.
Os seres humanos têm uma capacidade incrível de se apegar emocionalmente a algo que os complete, quando na verdade o certo seria se aceitar para que algo os transborde. Já li essa frase em alguma revista de auto ajuda ou livro e tenho que concordar piamente nessa frase, porque sim, o exemplo maior está em Emma e seus três meses de sofrimento. Mais ainda em mim que já aceita a condição dessa mulher de ser minha namorada e de me amar incondicionalmente. Já não se trata mais de dependências, estamos transbordando, nós não precisamos mais esperar gota por gota encher o balde, fizemos isso na ausência e no reencontro especialmente. Sinto isso dentro de mim agora, um amor tão forte, não pesado, mas imenso que me enche de uma felicidade da qual eu jamais senti na vida antes.
Tudo fez sentido; Músicas, poemas, a chuva, os dias claros, os escuros, o café da manhã, a hora do banho, o perfume que usamos, as roupas (até aquelas que você se esqueceu que tem e moram no fundo do armário), a vontade de ver a pessoa de novo mesmo que você tenha ido apenas a cozinha buscar um copo de leite e ela esteja dormindo no seu quarto. Tudo isso e mais um pouco, porque trata-se da vida. Por isso é simples, porque a vida é movida de amor e eu levei 33 anos para entender esse fato. Até que levei pouco tempo.
Há um misto de orgulho e alívio quando penso nas coisas que Emma viveu. Ainda não posso dar certeza de que ela está livre das drogas, porque apesar de ter se superado por três meses sem mim, ela ainda sofre com crises de abstinência e são elas que podem trair sua mente a qualquer momento. Embora haja segurança em relação a Emma, minha vontade é de jamais deixa-la sozinha de novo. Pode ser uma paranoia que desenvolvi, mas o medo de perde-la de novo vai continuar me assombrando. Vou conversar com Gold sobre me sentir temerosa, ele vai me dar o melhor conselho.
Saio do quarto enquanto Emma descansa no lado que ela gosta de deitar na cama, o lado que era meu e que certamente havia deixado meu cheiro antes dela trocar o lençol quando pensava que eu estava morta. Não pego no sono, apenas sinto uma sede imensa e busco água na geladeira. Faz tanto tempo que não entro na cozinha que quase não reconheço o que tenho. Sorrio para tudo o que é meu e que Emma não jogou fora. Minhas coisas permaneceram intocáveis. Já amanheceu e Nova York fica barulhenta de repente, mas não o suficiente para acordar Emma, então imagino que ela queira dormir por um tempo. Olho os prédios da sacada, me apoio na varanda e aprecio o ar sujo dessa cidade maluca. Nunca pensei que fosse sentir falta desse detalhe peculiar de Nova York. Também senti falta de estar saindo aquela hora de casa com meu terno cinza e a pasta na mão, mas pelo visto eu ainda terei belos dias de folga até poder voltar a fazer isso.
Estou pensando nas pessoas que devem achar que estou morta quando Emma me abraça por trás com desespero. Seguro ela, viro ela pra mim e toco seu rosto, suado, como o de alguém que acabou de ter um pesadelo.
— Hey, o que foi?
— Achei que tivesse ido embora. Não faz isso pelo o amor de Deus.
— Não vou a lugar algum sem você.
— Quando não te vi na cama pensei que tinha sonhado de novo, um sonho muito bom para ser real.
— Não é sonho, eu voltei. — sussurro para acalmá-la e beijo sua boca devagar o suficiente para despertar ela do mal presságio.
— Vamos ficar grudentas a partir de agora? Nunca mais vamos nos separar?
— Tão grudentas que as formigas vão querer devorar. — Belisco a bochecha dela de leve e Emma morde o lábio inferior, gostando da ideia.
— Tô tão cansada, mas ao mesmo tempo não consigo ter um sono tranquilo. Vamos sair daqui, ir tomar café no SoHo e depois passar na casa dos meus pais?
— Pode ser, minhas coisas estão lá. — Paro para alisar o rosto dela e me lembro que quero muito fazer uma coisa, algo que tem me incomodado e que teoricamente já posso extinguir com as minhas próprias mãos. — Na realidade, acho melhor passarmos na casa dos seus pais depois de irmos a um lugar, tenho algo a fazer.
Ela me olha desconfiada do que seja, franze o rosto, mas tenta entender que preciso ressuscitar uma parte de mim fazendo o que é certo.
Troco minha roupa, um reencontro interessante e assustador com meu closet. Está tudo no lugar, tudo impecavelmente limpo por Emma e posso novamente escolher vestir o que eu quiser. Não quero que esse seja um momento de lembranças daquele dia fatídico, não preciso mais disso e quero justamente encerrar esse ciclo. Pego uma calça jeans velha e larga, uma camiseta preta, um casaco de moletom e botas surradas. Emma não entende quais são minhas intenções quando me visto igual a uma operária, mas ela logo se acostuma e até gosta do visual descolado.
Não trocamos muitas palavras pelo caminho até o SoHo, naquela cafeteria onde nos conhecemos melhor quando tudo começou. São apenas sorrisos, carinhos, até que Emma não consegue segurar a ansiedade de saber o que tenho que fazer.
— Para onde estamos indo? — Emma está especialmente linda hoje. Não parece mais cansada depois do capuccino e dos ovos mexidos.
— Para um lugar que você visitou muito nesses últimos três meses. — Confesso logo, em seguida dou uma mordida grande no waffle que pedi.
— O cemitério?! Mas por quê?
— Eu estou viva, não estou? Não há mais a necessidade de haver uma lápide com meu nome.
A princípio ela achou graça, embora soubesse que mais cedo ou mais tarde o túmulo com meu nome teria de desaparecer de lá. Eu estou certa. E encarando isso como uma aventura, embarcamos para Staten Island rumo ao cemitério Moravian. Me vi novamente enterrada por uma mentira criada por minha irmã e desejei nunca mais vê-la na minha frente de novo. Pedi uma pá e uma marreta, mas ninguém entendia a minha intenção com os objetos. Eu teria que provar o que faria com eles.
— Por um acaso essa mulher é parente da senhora? — Pergunta o jardineiro do lugar, visivelmente assustado ao lado de Emma.
— Mais do que isso — Puxo a marreta e jogo para cima do ombro, reúno força e ataco a lápide quebrando-a em duas partes com a pancada. — A pessoa que estava supostamente enterrada aqui sou eu.
Em alguns minutos a pedra que homenageava meu nome estava partida em inúmeros pedaços. Minha história como um cadáver tinha desaparecido e toda a minha raiva foi descontada naquelas marretadas. Eu estava cansada, suada e ofegante. Emma se aproximou para tirar a pá da minha mão e me puxar para fora dali antes que eu continuasse descontando meus sentimentos na terra e arrumasse uma baita encrenca com os superiores do pobre jardineiro. Como ele irá explicar aquilo, não faço ideia, mas deixei claro que me responsabilizava pelo meu ato.
Na barca, de volta para Manhattan explico para ela que uma atitude como a minha não é um exemplo a se seguir. Infelizmente eu havia descontado a raiva por tudo o que Emma sofreu na lápide com meu nome, além de tentar matar Zelena dentro de mim. Uma irmã não pode fazer o que a minha irmã fez. Enquanto eu quebrava a sepultura, pensava na grande injustiça que vivi e no cinismo da minha irmã. Talvez eu travasse uma nova batalha, não mais para voltar a vida que eu tinha antes, mas contra alguém que quase me destruiu por dentro.
— Era tão importante você acabar com a sua sepultura daquele jeito? Era tão necessário parecer obsediada por vingança?
— Você não entende, Emma.
— Entendo sim. Entendo que de alguma forma tudo o que te contei ontem te deixou mais revoltada. Você não está mais triste, seu olhar agora pede uma vingança e eu sinceramente não gosto disso.
Resolvo voltar a me sentar ao lado dela na barca.
— Tá bom, você está certa, eu descontei minha raiva naquela lápide, descontei minha frustração de não ter podido voltar o quanto antes para casa e ter cuidado de você, não vou negar. Mas não é você a pessoa que diz nunca ter conseguido não sentir? Você me ensinou a não esconder, e de alguma forma eu devia fazer o que eu fiz. Foi bom, Emma. Foi tão bom que me fez renascida, limpa, de verdade outra vez. Eu não podia segurar dentro de mim uma coisa que me fazia mal. — Seguro a mão dela que tem a tatuagem.
— Você pode encontrar maneiras de se livrar da sua mágoa, só tome muito cuidado para não se viciar nela.
— Nós não viciamos em coisas que nos fazem mal.
— Já se esqueceu? Eu passei dez anos da minha vida viciada em drogas e elas nunca foram boas, eu só achava que eram.
Trocamos olhares sérios e descemos da barca. É hora de buscar minhas coisas na casa dos Swan e ter um novo encontro com eles, agora acompanhada de Emma. Está ficando tarde, David acabara de chegar e Margaret é quem abre a porta para nós.
— Eu esperava por vocês, entrem. — Ela sorri e nos dá passagem.
Se não fosse um momento um pouco constrangedor, estaríamos tendo uma conversa agradável sobre o reencontro, mas acho que não é esse o ponto agora.
— A gente supõe que vocês queiram voltar a viver no Upper East Side, que Regina vai retomar a vida de antes e tudo volta a ser como estávamos vivendo. — A mãe de Emma fala.
— Provavelmente, mãe, só não garanto que seja como antes, porque meu motivo para viver voltou. — Emma me olha de relance. — Nada de fazer besteiras agora.
Ergo meu rosto e respiro fundo, fitando eles dois. Nunca em milhares de anos serei capaz de agradecer pela compreensão que deram a filha. Eles sabem o que vou dizer.
— Obrigada. Vocês a salvaram, respeitaram, deram o apoio que ela precisava no momento mais difícil. Não vou conseguir pôr em palavras toda a minha gratidão.
— Apesar de tudo, o que aconteceu serviu de lição para nós. Amor não se escolhe nem se mede. Vocês duas se completam. Nós é que pedimos desculpas por não ter notado antes. — David expressa bem o que quer dizer e ensaia um riso de missão cumprida.
Me levanto e estendo a mão para ele, nos cumprimentamos como um tratado de paz sob os olhos de Margaret e Emma.
Decidimos passar o resto do dia e noite na casa dos Swan, tendo de fato um pouco de descanso da confusão que foi ontem. Emma busca roupas de cama limpas enquanto eu tiro a roupa para me banhar na suíte. Me esqueço completamente que nas costas existem marcas do acidente, as malditas cicatrizes. Emma entra de volta no quarto sem que percebo e me vê naquela condição, completamente nua. Entro na suíte e me vejo no reflexo do espelho, ainda não noto que Emma está me observando e percebendo, é claro, que eu não gosto dessas cicatrizes enormes. Eu tento não olhar muito enquanto estou perto do espelho, tomo o banho e me envolvo em uma toalha seca, mas ainda não é o suficiente para tampar todas elas, pois uma começa quase que do meu ombro e é a que talvez eu odeie mais. Toco nela e tento não lembrar do acidente, do meu corpo voando contra o vidro, impossível.
Volto ao quarto e Emma me espera na ponta da cama, com os olhos arregalados de susto e medo. Eu sei o que ela acabou de ver e não tem jeito de falar. Fico sem graça e não sei onde enfiar a minha cara.
— E-Essas... Essas coisas... Isso aí... — ela levanta o dedo na minha direção. — O que foi que aconteceu com a sua pele? — Pergunta finalmente.
— Não quero falar disso agora. — Procuro a mochila com minhas coisas, me virando dela.
— Elas... Elas... Só me responde, elas doem?
Paro e respiro fundo, procurando não chorar depois de tanto evitar lembranças.
— Sim, elas doem às vezes. — Respondo fazendo que sim com a cabeça.
Emma se levanta, se aproxima de mim lentamente e com cuidado. Ela leva muito tempo até me tocar, estou parada, sentindo ela chegar. Então ela desfaz o nó da toalha e quer me alisar, bem onde não estou pronta para ser acariciada. Emma não pede permissão, não se importa como vou me sentir, porque tem uma certeza imensa de que vou gostar do que ela vai fazer. Ela puxa a toalha, abraça meu corpo e encosta seu rosto atrás de mim como se sentisse as cicatrizes. Suas mãos percorrem minha pele, meus ombros, braços, antes de chegar ao meu abdômen. Me arrepia, me excita instantaneamente e meus seios endurecem, pedindo para ela passear com os dedos sobre eles. Seguro uma de suas mãos e me viro encarando sua boca entreaberta que pede um beijo avassalador.
Acontece, é muito rápido e certeiro assim como nossos corações acelerando desenfreadamente ao ponto de escutarmos. Tomo sua boca com força, desespero, envolvo Emma nos meus braços e ela treme, vibra com muito tesão. Não dou tempo para ela dizer nada, nem que quer fazer aquilo ali na casa dos pais dela, ela quer, está na cara. Puxo seu casaco pra cima, a camiseta por baixo e abro o jeans para ela se livrar dele o mais breve possível. Ela me puxa para cama, segura meus seios enquanto me deito sobre ela. Me beija o ombro, sobe a boca pelo pescoço e morde minha orelha. Faço o caminho inverso, desço pelo pescoço, pelos seios, tirando o sutiã inconveniente com pressa e mato a saudade dos bicos pequenos e rosados que ela tem.
Há tanto desejo acumulado entre nós que bastaria para Emma gozar somente pelo fato de beijar os seios dela. Emma geme sem pudor, sem ligar se seus pais vão escutar o que estamos fazendo, mas antes que ela urre muito alto, levo meus dedos aos seus lábios. Conformada em chupa-los enquanto desço, ela geme baixinho perdendo o fôlego. Ela enterra os dedos entre meus cabelos e me obriga a lamber os biquinhos mais duros que os meus. Ela parece tão pequena, tão frágil sob mim, ao mesmo tempo tão segura e isso me excita tanto que me conformaria em olhar apenas ela se deleitar com a minha língua. Olho nos seus olhos e ela liberta meus dedos que roçavam sua boca, me comtemplando de um jeito diferente, como nunca antes ou é apenas uma impressão que sinto por estar tanto tempo afastada. Algo me diz que daqui em diante será assim, diferente e com amor, um amor de fazer meu coração doer.
Com meu coração acelerado, desço novamente o vale dos seus seios sentindo o gosto da sua pele. Meu Deus, como senti falta dela. Mais beijos seguindo meu rumo pelo umbigo e ventre, Emma se abre sem pretexto algum me convidando a descer mais, eu consigo sentir o cheiro de sexo, é muito tentador depois de tanto tempo. Me encaixo entre suas coxas, jogo suas pernas sobre meus ombros e a encaro outra vez, conheço aquele olhar, não de moça nem de uma inocente, é o olhar da Emma quando quer ser fodida. É quando ela quer ser minha mulher e é exatamente o que eu queria ter visto.
Foram tantos dias, tanto tempo sem ela, tanto desejo acumulado que havia me esquecido como era bom notar suas reações. Eu me lembrava do odor, da forma como ela puxava meus cabelos, até da forma como arfava, mas toda vez que pensava nos finalmente do sexo com Emma, era como se a memória fosse apagada e eu tivesse que voltar ao passado para reviver. Poderia ter matado meus ímpetos com Ingrid aquela noite, mas eu não amava ela, não conseguia sequer sentir algo mais sexual, eu não queria outra pessoa. Quem eu queria está aqui comigo agora e ferve nas minhas mãos.
Emma suplica, sofre com a demora que imponho com beijos em suas coxas, ela me aperta, me marca. Outra vez tenho que tampar sua boca com os dedos e é quando passo meu nariz na umidade entre as coxas. O cheiro é maravilhoso, que me obriga a lamber. Ela é pequena, apertada, rosada e brilha de tão molhada. Beijo Emma ali, enfio a língua dentro dela, fazendo-a gemer profundamente. Entro e saio com a língua, morrendo de saudade, circulando suas curvas, lambendo e beliscando com a ponta dos lábios bem no grelo. Ela se inflama e derrete enquanto me esfrego incessantemente. Emma se contorce angustiada, talvez ansiosa para gozar, mas eu quero vê-la assim mais um pouco. Tento tampar sua boca e ela agarra minha mão levando ao mamilo esquerdo onde seu coração palpita tanto quanto o meu. Belisco entre meu indicador e polegar e ela grita entre um sorriso muito ousado. Querendo erguer o quadril ela começa a cavalgar deitada, ainda me agarrando os cabelos. Eu agarro sua cintura, mas ela é mais potente e não se controla de maneira alguma contra minha boca. Estou há tanto tempo lambendo e chupando seu clitóris que posso me julgar viciada. Isso é muito bom. De repente ela relaxa o corpo, tensiona o quadril e chega ao clímax. Seu rosto de anjo vibra na maior expressão de prazer e ela goza somente para mim.
Emma desaba com o corpo e respira enquanto me ergo sobre ela. Ela me pega, me prende na direção da sua boca e sento na cara dela. Basta fechar os olhos e sentir a língua entrando em mim, passeando pelas minhas curvas como fiz com ela. Me circula, me chupa, molha um dedo com saliva na pressa e enterra dentro de mim até desaparecer. Me curvo para trás, jogo a cabeça e me doo o suficiente para gozar. Mexo o quadril com esforço, seguro em suas mãos que me servem de apoio, tentando aguentar o máximo que posso, mas já estou excitada demais só de tê-la visto dando pra mim. Emma enterra mais um dedo, brinca com a ponta da língua onde ela sabe que eu gosto, ela se lembra e é o bastante para encharcar sua mão.
Após uma breve viagem ao céu, retorno, deitando no peito da mulher que eu amo, absolutamente satisfeita e exausta. Ficamos caladas, unidas, respirando juntas o ar que perdemos. Queríamos muito, precisávamos muito, na hora certa e no lugar certo. Não que o apartamento do Upper East Side fosse o lugar errado, mas não podíamos transar para matar a saudade ali naquele momento.
Tenho tantas coisas para dizer, no entanto esqueci de tudo só para viver esse instante com ela. Emma me acolhe, me beija o rosto, me alisa. Por vezes passa os dedos nas minhas costas e todas essas vezes ela contorna as cicatrizes como se fossem desenhos. Não me constrange, nem me envergonha, é carinho e respeito. Sem que digamos nada, durmo sobre ela, afagada pelo seu amor imenso. Um sono tranquilo e profundo, arrisco dizer até que gostoso.
De repente quando acordo, Emma não está mais na cama. Abro os olhos e não sinto ela comigo, nem ao lado, mas por perto. Apalpo o espaço vazio, me viro e encontro ela sentada no parapeito da janela, segurando uma caneca de bebida quente, está olhando para a rua. Está entardecendo e a meia luz no quarto deixa Emma ainda mais bonita. Passo um tempo observando ela beber seu chá até que não me aguento de curiosidade.
— O que está fazendo? — Questiono suavemente.
— Pensando. — Ela responde no mesmo instante.
— Sobre o quê? — Roubo uma camisa comprida das que ela gosta de usar para dormir de uma pilha de roupas parada na cadeira do computador, coloco indo me aproximar em seguida.
Ela dá um grande suspiro, nega com a cabeça, mas não tira os olhos da rua. Há crianças lá em baixo, elas brincam de Baseball e tenho a impressão de que a qualquer momento a bola velha e surrada que jogam pra lá e pra cá vai quebrar um dos vidros dos carros estacionados em volta.
— Talvez a gente tenha exagerado na dose esses três meses.
— Por quê?
— Porque agimos como duas loucas.
Ela me surpreende com seu pensamento e sou obrigada a me sentar ao seu lado no parapeito.
— Você quer dizer que agimos sem pensar? Colocamos tudo a perder.
— Eu principalmente, porque acreditava que você estava morta. Por mais que tenha sido uma mentira bem contada, eu podia ter evitado sofrer tanto. Eu não queria ser tão coração nessas horas, eu queria pôr meus pés no chão e seguir em frente. Lembro de tudo, a forma como joguei sobre você a responsabilidade de ter “morrido”. Toda vez eu queria me entregar as drogas, queria fumar dez pacotes seguidos de maconha porque na minha concepção era a única saída. Quantas vezes estive prestes a destruir toda a minha evolução porque eu não queria respirar e sentir que de uma maneira ou outra você estaria comigo até mesmo morta. Eu poderia continuar sendo fiel a você sem perder o controle. Os raros momentos da minha sanidade aconteciam quando eu lembrava que você ficaria muito triste se eu voltasse a usar. Mas sabe que lição que eu tiro dessa fase? Devoção. Eu nunca deixei de te amar em nenhum momento. — Emma estende o braço até mim e acaricia meu rosto. — Eu soube que sã ou louca você me manteria de pé.
Seguro sua mão e puxo seu corpo para mim. Cheiro os cabelos louros dela, beijo seu rosto e olho na direção da rua também.
— E o que você acha que me manteve firme? — Sussurro.
Ela ri baixinho.
— Devoção?
— Uhum. Eu me dei conta da lição mais bonita que você me ensinou. Se deixar sentir. Se permitir viver uma coisa muito bonita com quem pode me dar o que eu sempre procurei. Eu não queria perder isso.
— Depois de tudo o que houve, o que restou de nós, Regina? O que vamos fazer? — Ela se virou para me olhar.
— Vamos viver sem que nada nos impeça.
— Não quero ter de viver outra vez esse desespero, não quero ter essa sensação de que você não vai mais voltar. — Ela toma ar, balbucia pra mim. — Porque uma segunda vez eu...Eu não vou suportar.
— Sim, você conseguiria. — Sorrio. — Eu consegui. É esse o ponto. Você amou tanto alguém que simplesmente não acha que pode viver sem ela.
— Eu só não sei se eu seria capaz. — Ela me olha profundamente, quer sorrir de volta.
— Eu também não. — Afasto seus cabelos do rosto. — Mas estou muito perto como jamais estive em toda minha vida.
Sem freios ela sorri e me beija da forma mais apaixonada possível. Finalmente há folego e coragem para retomarmos a vida. Emma vai voltar a ser uma estudante de Gastronomia, eu uma advogada ou sei lá o que me espera, mas de uma coisa eu tenho certeza. Eu a tenho comigo não importa como, é com ela que sempre quis estar.
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