Notas iniciais
Olá, amigas leitoras. Muito obrigada pelo feedback do primeiro capítulo dessa nova aventura que comecei a escrever. Fiquei muito contente e trouxe esse capítulo mais rápido do que eu mesma podia imaginar. Aqui eu espero que vocês comecem a compreender Regina e os sentimentos que a levaram a ajudar Emma. Leiam com carinho.


Amanhece e minha mente finalmente decide ceder ao cansaço. Estou deitada vendo o dia clareando por baixo da cortina, ainda com a noite passada em meus pensamentos. Era apenas uma mulher de vinte e seis anos, bonita de verdade e o que me pergunto era como ela acabara caindo em um mundo sem volta. Faço inúmeras comparações entre nós, me colocando em seu lugar e encontrando motivos para me drogar e viver somente com esse intuito. Chego a tristes reflexões sobre a vida, o destino e motivações; Algumas pessoas não nascem com o talento da sorte, não diferenciam desejo de obrigação, impulso e consciência, então caem sobre frustrações muito cedo, antes mesmo de entenderem que a vida por si só para sempre será cicatriz rasa quando tocada. Dói viver, dói ser quem somos, cheios de conflitos internos e crises existenciais que superamos brevemente por obrigação de sobreviver. Sobreviver é diferente de viver, é nesse instante que meu despertador toca e chego à conclusão de que Emma é mais uma vítima dessas mesmas reflexões sobre sobreviver que passo uma madrugada inteira fazendo.

Me viro, abraçando o travesseiro e o lençol. Como faz falta a companhia de uma mulher ao meu lado na cama nesse momento. Mas, na noite passada, quis voltar para casa sozinha, o meu imenso apartamento no Upper East Side. Uma imagem ficou na minha cabeça enquanto eu tirava a roupa e me preparava para dormir: Emma próxima a mim, nossos rostos a um centímetro de distância, minha mão querendo tocar uma de suas bochechas, sentindo a suavidade da pele por segundos preciosos. Era curioso eu não estar pensando em levá-la para cama quando o problema com os pais dela fosse resolvido, eu pensava apenas nela, aquela mulher cheia de defeitos que mais me pareciam encantos. Me vendo novamente no último segundo entre nós ontem, eu adormeço certa de que vou aparecer no escritório bem mais tarde hoje.



Quando chego ao escritório depois do horário do almoço, Belle me diz que os pai de Emma me ligaram. Não penso em retornar ainda, só peço para minha secretária guardar recado na próxima vez em que ligarem.

A tarde passa depressa com tantos encargos e isso me faz lembrar que devo falar com Kris sobre o andamento do processo contra a revista concorrente a dela, mas nesse momento quem menos quero ver é ela. Talvez isso possa esperar um pouco. Me perco nas horas e quando olho o relógio são vinte para as cinco da tarde. Me lembro do combinado com Emma, ela estará me esperando na cafeteria em SoHo, eu odeio me atrasar. Paro o que estou fazendo, largo a caneta sobre um documento na mesa e levanto, deixando minha sala e passando por Belle feito um vendaval.

— Regina, aonde vai? O seu cliente do Rockfeller Center vai chegar em meia hora.

— Diga que precisei ir a um compromisso urgente, inadiável. Peça que volte amanhã.

— Amanhã é sábado... — ela diz de pé atrás do balcão com sua caneta na mão, me vendo entrar no elevador.

Desço com mais três pessoas que cumprimento ao entrar no elevador, mas não consigo disfarçar a pressa e disparo para fora assim que chegamos ao térreo. O motorista do edifício traz meu Audi, e quando ensaio abrir a porta e entrar, uma Limousine escura estaciona ao meu lado e a última janela se abre revelando ninguém mais, ninguém menos que Kris. Ela me olha, baixando seus óculos escuros que devem custar o preço de um carro popular, me analisando da cabeça aos pés, os tira e abre um sorriso maléfico.

— Boa tarde, querida, podemos ter uma conversa em particular?

O motorista aparece de repente ao meu lado, abre a porta e me mostra Kris que bate levemente a mão no banco, me mostrando que devo entrar e sentar ao lado dela.

— Tenho um compromisso dentro de meia hora, não posso ir com você. — digo, mas ela não quer perder a oportunidade.

— Prometo que será rápido. — diz.

Olho para a avenida, estou sem alternativa. Acabo por entrar na Limousine. Logo o motorista nos fecha ali dentro, eu escolho sentar com alguma distância de Kris, mas ela se aproxima, me fita com seus olhos azuis cristalizados e segura meu queixo, direcionando para ela. Trocamos um beijo na boca que não desejo, porém acontece.

— Faz um tempo que você não me visita, querida. Sinto sua falta, sabia?

Ouço a voz dela enquanto tento não ver o decote sobre seus seios tão próximos de meu rosto. O carro volta a andar e seguimos pela avenida.

— O que quer falar comigo, Kris? — pergunto, ameaçando olhar meu relógio no pulso.

Ela está colada ao meu lado, segura minha mão esquerda e dá outro daquele sorriso maléfico.

— Não seja tão dura. Por que essa cara amarrada, meu amor? Me fale como tem passado.

— Muito bem. Vá direto ao assunto, por favor, eu tenho um horário a cumprir...

— Vou deixar você ir ao seu compromisso, só quero ter uma conversinha antes, matar a saudade. — ela coloca uma mecha do cabelo louro para trás da orelha e me aperta os dedos. — Não vai perguntar como estou?

— Não. Eu de verdade não esperava que a senhora fosse aparecer hoje.

— Me tratando por senhora agora, Regina Victoria?

Desde que ela soubera do meu segundo nome só me chamava assim. Não que isso fosse um problema, apenas me incomodava o tom que ela escolhia usar para se referir a mim.

Eu desvio o olhar, evitando o contato visual entre nós, mas meu rosto é puxado para o dela novamente entre os dedos compridos e unhas exageradamente grandes.

— Poderia ter me ligado.

— Se eu ligasse você não me atenderia, por isso foi mais fácil te encontrar na porta do prédio. Posso saber por que anda fugindo de mim?

— Ando muito ocupada.

— Sério? Não parece. — ela fala e sinto o hálito mentalizado abafar meu rosto. Outro detalhe que me chama atenção é o motorista nos olhando pelo retrovisor maior do que o de um carro normal. — Esteve no SoHo ontem e não me convidou para jogar no cassino. Que coisa feia. — ela beija meu rosto após dizer isso.

— Como soube que estive em um cassino no SoHo?

— Meu amor, eu tenho minhas fontes espalhadas pela cidade.

— E agora deu para me vigiar? — olho para ela de canto.

— Só tomando conta. — Há uma sugestão de controle em sua fala. Não gosto nem um pouco da forma como Kris precisa controlar as pessoas com quem se envolve. Tudo deve ser do jeito dela, como ela deseja só para afagar o ego já inflado que possuiu. — A prostituta era boa?

Ela se refere a Emma e gosto menos ainda de como a chama.

— Aquela moça não era uma prostituta.

— A quem quer enganar, Regina? Você pede uma sala particular para se encontrar com uma mulher dentro do cassino, fica uma hora com ela lá dentro e sai apressada quando acaba. — Kris me distrai colocando uma das mãos sobre minha coxa direita e não poupa em apertar. Com os olhos vidrados em mim, roça os lábios pela minha nuca, soando baixinho. — Foi bom?

— Não houve nada entre nós. — respondo fechando meus olhos.

— Não precisa me enganar, amor. — ela sobe a mão sobre minha coxa e chega em minha virilha por cima da calça.

— É a verdade, Kris. Não faça isso, não agora. — tento impedi-la, mas sua mão avança e desabotoa a calça, me abre o zíper.

— Vamos, amor, vamos matar a saudade só um pouco... — sussurrando ela investe com a mão para dentro da minha roupa. Encontra uma brecha entre a roupa de baixo e o sexo, se metendo onde não devia, mas estou vacilando, esperando pelo o que vai acontecer. Não impeço que ela penetre seu dedo do meio em mim. Ela me derruba aos poucos no banco da Limousine tornando o que ela quer mais fácil.

Me sinto tensa, nem um pouco confortável, especialmente por notar outra vez o motorista nos olhando pelo retrovisor e agora ainda mais curioso para entender o que estávamos fazendo lá no banco de trás. Não consigo ceder enquanto Kris abre os botões da minha camisa com a boca para se enfiar no vão dos meus seios e beijá-los por cima da renda do sutiã. A empurro com uma das mãos e ela entende o porquê do meu desconforto.

— Ele está te incomodando, querida? Acalme-se, eu tenho a solução. — ela fala com a boca ocupada inclinada em cima de mim. Se estica depressa, apertando um botão discreto que faz subir uma divisória entre o chofer e nós.

Viro o rosto, ela me empurra de uma vez e deslizo no banco do carro mais ainda, ofegante e despreparada para aquilo. Não é hora para deixar que Kris me devore, eu estou odiando não ter a capacidade de dizer para ela parar e, quanto mais meu desprezo aumenta, mais ela necessita me expor àquela situação.

Minha calça está arriada até as canelas, ela desiste de beijar os meus seios e desce, tirando o dedo de mim para ir com a própria boca lá em baixo. Prendo sua cabeça entre minhas coxas quando ela toca com a língua onde estou mais sensível. Dou um tranco com sua mão livre subindo pela minha barriga. Só ouço o som dos carros na avenida enquanto damos voltas, mas felizmente os vidros fumê não deixam que descubram o que há entre nós ali dentro. Kris está ocupando todo meu sexo com a boca e sua língua me invade ansiosa fazendo um barulho úmido assim que ela puxa meus lábios de baixo entre os dela. Não quero olhar, mas não contenho minha respiração fragilizada pelo ato. Ela continua me comendo, enfiada no meio das minhas pernas e quando vejo de relance seus cabelos louros lisos se esparramam sobre as minhas coxas.

Resolvo sofrer em silêncio, convencida a relaxar e terminar logo com isso.

A reação do meu corpo é imediata, minhas pernas tremem, estou fraquejando mesmo tensa e um calor se liberta de dentro de mim com uma intensidade breve. Não me causa mais que cinco segundos de prazer. É algo mecânico, uma resposta do meu corpo ao estímulo de Kris. Ela, a propósito, se ergue sobre mim e me rouba um beijo cheio de manha.

— Já pode ir agora, querida. — fala depois de me puxar a boca, molhar meu queixo com saliva. Sou obrigada a limpar com a manga do terno.

Ajeito minhas roupas, subo a calça e abotoo a blusa novamente ofegando e olhando para Kris com muita raiva, não apenas dela, de mim também. Ela sorri enquanto chupa os dedos que haviam me violado. Por que diabos eu não entrei no meu carro e não fugi dela? Dei mais um triunfo a Kris e estou arrasada. Essa mulher não mede esforços para conseguir o que quer. Acabo de me tornar mais um de seus caprichos. Maldita hora em que me envolvi com Kris.

Kris fingia que não se incomodava com minha vida particular, com as mulheres com quem me encontrava, embora ela fosse uma mulher que pudesse arranjar absolutamente qualquer pessoa que desejasse. Ela também tinha seus encontros, suas aventuras sexuais com modelos e garotas de programa, até homens, mas quando me conheceu e caímos em tentação, creio que ela tenha sentido a necessidade de criamos algum vínculo. Agora eu era de sua posse e ela me vigiava. Secretamente estava planejando me domar, pensando que eu não sabia de seu vício em controlar as pessoas. Me sinto atraída por ela, eu arrisco dizer que haveria espaço para sentimentos mais fortes se ela não agisse de maneira mesquinha. Sinto medo dela, e por isso tento me distanciar colocando nossa relação no nível em que tudo entre nós começou, uma relação entre advogada e cliente apenas.

— Era só isso? — pergunto, me olhando através do reflexo da tela do celular. Ajeito meus cabelos os penteando com os dedos e limpo os resquícios de batom vermelho da minha pele.

— Que tal prolongarmos?

— Não, não posso. — a última coisa que ajeito em mim é o par de brincos.

— Não pode ou não quer?

— Tanto faz, Kris, só me deixe sair desse carro agora. — não tenho mais um pingo de paciência.

Ela limpa o último resquício que havia de mim em seus lábios carnudos e borrados e sorri com minha irritação.

— Se dormir com a garota do cassino, eu vou saber. — Ameaça e aperta o botão da divisória. Ela pede ao chofer que pare na frente de onde me buscou e pela última vez me agarra a gola da blusa — Quando menos esperar eu volto a aparecer, querida.

Kris escolhe não me beijar pela última vez, ela me solta abruptamente. Estou calada. O chofer abre a porta para mim e desço. Antes de bater a porta ela me lança um olhar severo de dentro do carro, mas eu não devolvo, muito menos cedo as suas ameaças.



Chego no lugar combinado com Emma com uma hora de atraso, procurando desesperadamente pela mulher sentada em alguma mesa solitária. O café está cheio de gente, todos os cantos e mesas ocupadas, mas não há sinal de Emma por onde olho. Entendi por que ela me dissera que aquele lugar era minha cara, ela supôs que eu gostasse de um clima mais careta. Era um paraíso para quem curtisse decoração e música Retrô, chego a reconhecer uma música do Bon Jovi ecoando timidamente pelo local. Respiro fundo e não encontro a mulher loira apenas com os olhos. Quando estou prestes a puxar sua foto do bolso do terno para mostrar ao garçom meus olhos recaem sobre uma mesa distante, há uma mala encostada ao lado no chão e uma cabeça loura a vista. Tento arriscar a sorte, pode ser Emma.

— Obrigada por esperar. Tive um contratempo, eu sinto muito pelo atraso. — digo me sentando logo que ela levanta o rosto para me ver.

— Mais dez minutos e eu ia embora. Sendo assim, obrigada por vir. — ela parece ficar relaxada e sorri apoiando seus braços na mesa.

Abro um sorriso para ela que apoia o rosto em uma mão e olha com admiração.

— Posso pedir algo para nós enquanto conversamos?

— Por favor, eu estava esperando que chegasse, não quis ser mal educada. — diz ela humildemente.

Concordo e faço um sinal ao garçom, ele se aproxima e sigo a sugestão de um cartaz colado na janela próxima a nós.

— Um omelete para a moça e dois cafés grandes. — digo isso olhando para ela.

O garçom se afasta e Emma arregala seus olhos.

— Como sabe que eu ia pedir um omelete?

— Seus olhos estão me dizendo que você está faminta.

Ela riu, corada por eu ter percebido. Na verdade eu percebia a palidez de Emma como se não tivesse comido nada o dia todo. Eu queria perguntar sobre a mala encostada no chão ao lado da mesa, mas queria esperar ela se sentir mais à vontade comigo.

— É, eu estou com muita fome mesmo. — disse parecendo sóbria, uma mulher diferente da que conheci na noite passada. Emma estava particularmente acanhada hoje e tenho a impressão de ser por causa daquela mala no chão. — Só que tenho um problema. — ela torna a falar.

— O que há?

— O que eu tenho aqui não deve dar para pagar esse lanche, acho que vamos precisar rachar a conta.

Molho meus lábios com a língua e digo:

— Não vamos rachar a conta, Emma.

— Não vamos?

— É tudo por minha conta e você pode pedir o que quiser.

Ela respira aliviada como se eu acabasse de tirar uma preocupação enorme de suas costas.

— Sendo bem sincera eu quase fiquei feliz pensando que não ia aparecer, eu não ia precisar pagar nada. Também estou feliz por você ter vindo, só para saber, mas não tanto porque vai pagar.

— Não se preocupa com isso, por favor. Entendo que você deve viver com o dinheiro contado.

— Anda difícil, sabe? Assim que recebi grana do cassino ontem paguei a pensão onde eu ficava hospedada e o dono se recusou a alugar o quarto pra mim de novo. Eu tive de sair de lá. Não me sobrou grana pro almoço e eu estou só com o café da manhã no estômago até agora, andando por esse bairro atrás de um canto onde eu possa ficar. Lá no cassino eles não abrigam as garotas que trabalham pra eles, então eu não tenho alternativa a não ser procurar outro lugar.

Por isso então que Emma estava carregando a mala consigo, ela tinha sido expulsa da pensão e não tinha para onde ir. Me recordo que havia prometido pagar o abrigo para ela, mas esse detalhe me fugiu da cabeça antes de eu ir embora do cassino ontem.

— Eu devia ter deixado o dinheiro com você ontem, ou melhor, ter ido pessoalmente pagar a pensão. Daria para convencer o dono se eu conversasse com ele.

— Você é advogada, né? Deve saber lidar com esse tipo de gente. Relaxa, eu tô legal, vou encontrar um albergue, um hotelzinho barato, só preciso de um tempo até achar. Foi irresponsabilidade minha de qualquer forma, eu gastei o que eu tinha com baseado.

Tinha que concordar, o que Emma fazia era errado em gastar suas economias com drogas, mas ela era viciada e devia entender que não fora uma boa ideia sair de casa para sustentar o vício.

— Isso realmente é muito irresponsabilidade sua.

Emma me olha com ar chateado, não sei se com ela mesma ou comigo pelo o que falo.

— Um dia eu aprendo. — ela comenta, mas num segundo, talvez porque eu esteja olhando para seu moletom de faculdade surrado, ela diz: — Você quer me perguntar alguma coisa?

— Sim — tento disfarçar. — O que leva uma moça tão bonita a sair de casa para trabalhar em um cassino?

Ela suspende as sobrancelhas e dá de ombros.

— Porque em casa era como uma prisão. Você entende quando quer fazer uma coisa inofensiva e alguém te controla porque acha que você vai se ferrar fazendo o que faz? Foi isso que aconteceu comigo. Minha mãe encontrou maconha na gaveta do meu armário e aloprou. Eu disse que maconha não era problema, mas eu não tinha escolha e minha vontade foi aumentando. Um carinha que eu namorava na faculdade me dava heroína e a brisa era incrível, só que foi ficando complicado ir na zona comprar, então a gente optou pela cocaína que vendiam lá na irmandade dele, meu nariz coça só de pensar. — ela ri sem qualquer vergonha do que estava me contando. — Eu larguei a faculdade no terceiro período, era um saco e eu não fui feita para economia, foi ideia do meu pai. Fiquei um ano com esse namorado, que não era bem um namorado, ele me dava os bagulhos em troca de um foda de vez em quando. Se estivéssemos curtindo uma brisa juntos era bem gostoso deixar ele me comer. Daí esse cara começou a vender cristal e pegaram ele em flagrante, quase fomos presos juntos, eu consegui fugir. Foi a gota para os meus pais, eles me prenderam em casa. A culpa é deles, se não tivessem tomado os meus baseados eu não ia procurar coisa mais pesada.

A forma como Emma falava me dava náuseas, repulsa e ódio. A preocupação de Margaret e David era tirar a filha das ruas e o que ela queria era liberdade para alimentar seu vício, mas as coisas não estavam andando como ela imaginou e agora vivia nas ruas, bares e zonas onde conseguia arranjar dinheiro fácil para sobreviver.

— O cassino foi minha maior sorte até agora, eu estou andando pela cidade há um bom tempo e nunca me pagaram tão bem pra dançar por esses clubes. — ela termina e o lanche chega.

Emma não me olha enquanto come. Se alimenta de forma educada mesmo faminta, exatamente como uma moça bem criada aprendeu. Ela toma cuidado ao usar os talheres, não treme, faz uma coisa de cada vez. Deixo ela terminar o omelete e me surpreendo ao ver que limpou os lábios com um guardanapo deixado só para isso na mesa. Só volta a me olhar quando derrama o café na boca. Eu ainda não toquei em meu copo com a bebida, acho que estou chocada demais com as histórias que escutei dela.

— Estava bom?

— Delicioso! Eu estava morrendo de fome, qualquer coisa ia parecer mais saborosa que o normal. Ainda não tomou seu café. — ela nota.

— É, eu na verdade vou leva-lo comigo.

Emma percebe minha expressão.

— Você está achando tudo o que contei horrível, pode confessar.

Apoio meus braços na mesa e encaro Emma com seriedade.

— Sim, é uma história triste de se imaginar; Uma mulher que tem tudo na vida, casa, família, estudo, instrução de repente se entrega para um mundo que não parece ter volta. É uma verdadeira pena que viva nessa situação.

— Fazer o que? Eu escolhi cair nessa.

— O caminho parece sem volta, mas você pode querer se curar.

— Quem ia querer que eu estivesse curada? — ela desafia. — Meus pais? Eu não quero ser o que eles querem que eu seja. Não vou tomar conta dos negócios deles, não vou para Inglaterra, não vou estudar economia, nem administração. Eu estou pagando para saber quem quer me ver curada. Se alguém se importar comigo, eu juro que me trato e nunca mais coloco um cigarro na boca.

Mal conhecia Emma, porém tive vontade de dizer estar disposta a vê-la curada. Tive vontade de dizer a ela que passei a noite inteira acordada pensando nas infelicidades e frustrações que nos levam a fazer escolhas erradas na vida, depois que estivemos juntas no cassino. Tive vontade de confessar uma coisa que eu nem sabia o que significava, mas que me apertava o peito só de olhar para ela. Não queria entregar o jogo ainda, dizer que estava ali a trabalho e que foram seus pais que me enviaram, eu queria fazê-la entender que estava perdida e que precisava de ajuda, que não estava só.

— Olha aqui, eu mal te conheço, te chamei para ter essa conversa e nunca pensei que fosse me sentir assim antes. Você pode falar que ninguém se importa, que seus pais só querem te ver curada para agradá-los, e no entanto eu vejo que no fundo você só está perdida, sem rumo. Emma, você se tornou alguém suscetível a escolhas erradas, isso não significa que um dia não queira mudar ou você se imagina vivendo exatamente como está hoje daqui a dez anos? — Ela não me responde. — Não, não é? Você não se imagina vivendo desse jeito daqui a dez anos porque não é desse jeito que quer viver.

— Quem é você e o que está querendo de mim? Não vem com esse papo porque eu sei como ele soa. Parece até um daqueles médicos de reabilitação caçando pacientes nas ruas.

— Eu não sou médica de reabilitação, sou advogada. Pode confirmar isso procurando algum jornal de um ano atrás que com certeza vai ver minha foto na sessão de justiça. Não imaginava que sua história era tão embolada e pior do que me contaram.

— Quem falou de mim pra você?

— Pessoas que te conhecem e estão preocupadas.

— Meus pais? — ela fica inquieta.

— Você vai saber quem são, e independente disso eu te conheci e também estou preocupada em como vai se virar hoje, onde vai dormir, onde vai ficar e até quando vai trabalhar no cassino ou em qualquer outro lugar nada agradável.

— Foi eles, eu tenho certeza. — ela se levantou, pegou seu copo com café e jogou no meu rosto antes que eu pudesse me defender. — Fala pra eles que não preciso nem da preocupação deles, muito menos da sua, que foi uma péssima ideia terem mandado uma mulher atrás de mim e que não quero saber o que eles estão pensando.

Ela pega a mala pelas alças e dá as costas saindo.

Estou ensopada de café pelo rosto e blusa. Uso o guardanapo para tentar me limpar, mas logo desisto para ir atrás de Emma. Deixo o dinheiro do lanche com um garçom no balcão e corro para a rua mesmo que tanta gente no café esteja me olhando. Ainda dá tempo de encontrar Emma andando na calçada. Ela faz sinal para um ônibus parar e tenho que correr para alcança-la.

— Por favor, me escuta, Emma. — toco ela no braço e a impeço de entrar.

— Você não acha que já conversamos demais? — ela me responde arredia, assim como seu pai me alertara.

— A questão aqui não é seus pais, é você. Se vim por causa deles isso não importa mais, eu quero que me acompanhe. — digo apreensiva.

A loira está com um pé no degrau do ônibus, prestes a embarcar, mas com o que eu digo ela desiste subitamente voltando a me olhar sem estar aborrecida. Ela faz um sinal para o motorista e deixa o veículo ir embora. Passa a mala de uma mão para a outra e percebe a sujeira que fez jogando o café em mim.

— Te acompanhe para onde?

— Meu apartamento. — digo, ela continua olhando para meus cabelos, meu terno e blusa.

— Não está tentando me enganar, está?

— De jeito nenhum, eu prefiro que seus pais não saibam. Você não tem para onde ir hoje, é só um abrigo temporário e depois pode ir embora.

— Tá falando sério? Vai me abrigar na sua casa e não vai contar pros meus pais?

— É sério, eu não vou contar nada para ninguém. — me expresso convicta e isso a convence.

Me olhando nos olhos ela compreende que não estou mentindo. Tomo a mala da mão dela e a guio pela calçada na direção oposta do café. Emma segue ao meu lado, não tira os olhos dos meus, desconfiando mesmo que pouca coisa.

— Se abrir a boca para aqueles dois sobre mim, vai se arrepender, eu juro. — ela diz, recolhendo as mãos para dento dos bolsos do moletom.

Sua mala estava leve apesar do tamanho, é fácil de carregar até meu carro estacionado próximo a outra esquina. Eu abro a porta do carona para Emma se sentar, com uma apreensão no peito que não consigo conter.

Fazemos o trajeto inteiro para Upper East Side caladas, nem uma palavra trocada apesar de eu sentir os olhos dela me observarem de canto às vezes. O silêncio entre nós só é quebrado quando ligo o rádio do carro e deixo na primeira estação que encontro.

Anoitece completamente enquanto chegamos ao prédio onde moro. Emma desce do carro e me questiona algo nem tão curioso para ela.

— Você é rica?

— Depende do que você chama de rica.

— Tem o carro do ano, mora em um bairro bom, um prédio cheio de frescuras, isso não é ser rica?

— Acho que tenho dinheiro suficiente para pagar esses luxos, não mais do que isso.

Se ela achava que eu era rica apenas por ter um carro bom, ela não tinha visto meu apartamento para ter certeza. Abro a porta e deixo que entre antes de mim. Emma observa tudo sem se surpreender, talvez por esperar que eu vivesse em um lugar exatamente como aquele apartamento. Eu fecho a porta e descanso sua mala no chão. Ela se vira para minha direção mais tranquila do que antes.

— Muito bonito seu apartamento. — é sincera no elogio.

— Obrigada. Fica à vontade, tem um quarto de hóspedes onde você pode se acomodar e se estiver com vontade de tomar banho, há um banheiro ao lado. — digo, tirando do corpo o terno sujo de café derramado.

Emma me chama antes que eu entre pelo corredor dos quartos.

— Me desculpa por derramar café em você, tive um acesso de raiva.

— Tudo bem, deixa pra lá, já passou. — sorrio de leve e sigo a suíte. Não fecho a porta, simplesmente tiro a roupa e entro de baixo do chuveiro. Depois que saio do banho é que percebo que Emma poderia ter entrado no quarto e me visto nua, mas ela não era aquela mesma pessoa que dizia querer estar sentada no meu colo ontem, ela estava diferente, sóbria.

Deixo meu quarto envolta em um roupão e noto que Emma aceitara minha sugestão, estava tomando banho. Penso em pedir algo para jantarmos e espero ela reaparecer na cozinha. Ela coloca uma roupa – uma camisa branca muito larga – que usualmente veste para dormir e quando aparece eu entendo que essa deve ter sido a única roupa de dormir que lembrou de levar quando fugiu de casa.

— Demorei porque já tinha me esquecido de como água quente é boa. — Emma vem até mim na cozinha secando os cabelos em uma toalha.

— Achei que nunca fosse terminar esse banho. — brinco esperando que ela não ligue.

— Eu estava precisando, o banheiro da pensão era péssimo, nunca consegui me limpar direito naquela ducha.

— Enquanto estiver aqui vai poder aproveitar a água quente. — eu digo me servindo de água gelada, mas não consigo beber porque Emma está diante de mim secando o cabelo. Ela os sacode e finalmente deixa como quer que fiquem, sem pentear muito para que enrolem nas pontas. — Pensei em pedir alguma coisa para jantarmos, gosta de comida chinesa? — mudo o assunto.

— Adoro! — ela para e responde.

O jantar não demora a chegar e Emma se senta de frente para mim na bancada da cozinha. Novamente ficamos uma grande quantidade de minutos quietas sem trocar uma palavra sequer. Ela termina o Yakisoba de frango, o refrigerante de laranja e se levanta. Acompanho ela com os olhos e vejo se aproximar da sacada. Emma abre a porta de vidro e observa a vista não muito privilegiada que há da cidade dali. Muitas teorias se passam pela minha cabeça, em uma delas eu penso que Emma é muito tímida para começar qualquer conversa comigo, e que está olhando para fora porque quer que eu vá até ela e a coloque para dentro. Não faço o que minha teoria manda, eu apenas termino de jantar, jogo fora o lixo e me recolho para a suíte.

Não entendo por que me coloquei em uma situação constrangedora de trazer uma mulher que mal conheço para meu apartamento. Não sei o que há comigo desde ontem, o que me faz dizer a Emma: “Tudo bem há um lugar onde pode ficar hoje, é o meu apartamento.” Seriam minhas segundas intenções camufladas de caridade? Não, não pode ser. Por mais que ela seja uma bela mulher e eu alguém cheia de carências ainda é a filha dos meus clientes, além de ter prometido a ela não dizer nada para ninguém. Nada pode acontecer entre ela e eu. Nada.

Me reparo no espelho da suíte. Há marcas de unha sobre meus seios, Kris as deixou. Quero evitar lembrar do que houve na Limousine, mas tudo me volta a mente e sinto raiva. Está tarde, eu devo deitar, quero e preciso me deitar mesmo sabendo que amanhã será sábado. Escovo os dentes, visto a roupa de descanso – camiseta e calça despojada – , desligo as luzes do quarto e espero o sono chegar, mas essa é uma tarefa impossível nesse momento. Lembro que se não fosse por Emma, eu provavelmente estaria em um bar convencendo uma mulher a vir comigo, acabaríamos transando e ela iria embora na manhã seguinte.

Estou há algum tempo torcendo para o sono chegar, virada para o abajur ao meu lado, sentindo a aproximação dela. Emma está ali com certeza absoluta. Olho por cima do ombro, ainda deitada, a vejo parada, encostada na porta do meu quarto.

— Sabia que não estava dormindo ainda. Você tem um cigarro por um acaso?

— Desculpa, eu não fumo.

— Ah, é verdade, você me falou ontem. — ela diz desapontada. — Me esqueço das coisas, até o maço que me deu eu deixei no cassino.

Viro meu corpo na cama, olhando Emma enrolar os dedos nas pontas do cabelo. Ela entra em meu quarto, não olha muita coisa, procura um canto para se sentar e encontra uma poltrona pequena onde normalmente eu jogo as roupas depois do trabalho.

— Não sente sono?

— É muito cedo para ir dormir. Saio do cassino às quatro da manhã dependendo de quantas pessoas querem atendimento, estou acostumada. — ela suspira, se senta, encostando no apoio da poltrona. — E você?

— Também estou acostumada a dormir tarde às sextas. — me sento na cama, trazendo meus joelhos para perto da barriga.

Emma sorri como se entendesse o motivo de eu dormir tarde às sextas.

— Você sabia o tempo todo onde eu estava, não era? Tem o costume de sair e pegar as garotas de lugares como o cassino, aposto que perdeu a conta de quantas trouxe pra essa cama.

— Já dormi com muitas mulheres sim, perdi a conta e levei algumas horas apenas para te encontrar. — respondo sem medo do julgamento de Emma.

— Uma das coisas que me lembro de ter dito ontem foi que tem cara de quem sabe como pegar. Você sempre foi assim?

— Assim como?

— Lésbica.

— Não. — digo a verdade.

— E como aconteceu para ficar com mulheres?

— É uma longa história. — esse assunto nunca foi o mais agradável para mim, era um fato que queria esquecer.

Ela assentiu de forma honesta, lendo nos meus olhos que não queria falar sobre o assunto em específico. Partiu para outra conversa, sendo o mais objetiva possível.

— Quer saber de uma coisa? O que eu falei ontem sobre transarmos... Sabe? Ainda está de pé se você quiser.

Por um lado gosto de saber disso. Por outro, meus princípios não permitem. Era a chance de pegá-la no colo e beijar sua boca, me embriagar em seu corpo frágil e passar a noite entre suas coxas. Não posso deixar esse desejo dominar meus instintos. Tento controlar as batidas em meu peito, caso contrário terei um enfarte. Alguma coisa estranha está acontecendo comigo, sim, está. Até onde vou suportar?

Emma me espera falar como uma pessoa dessas que quando tem um objetivo, está disposta a tudo para atingi-lo. Conheço alguém assim – Kris — , mas elas são muito diferentes. O objetivo de Emma talvez fosse transar comigo. E se eu deixasse que isso acontecesse? O que sobraria depois? Estou com medo de imaginar.

— Não posso. — sussurro.

— Está com medo do que meus pais podem pensar se descobrirem?

— Também isso.

Ela se levanta da poltrona e invade meu espaço na cama se sentando de lado. Um déjà vu me ocorre, ela está com o rosto muito próximo do meu.

— Não vou poder nunca te agradecer pela hospedagem? — a pergunta é feita em voz baixa.

— Prefiro que me agradeça com palavras, não com seu corpo. — respondo no mesmo tom.

— E com um beijo? Nem com um beijo eu posso tentar?

— O beijo é um começo para alguém como eu.

Não sei se ela entende o que acabo de dizer, mas ela olha para mim com um brilho sôfrego no olhar que julgo ser paixão. Deixo o silêncio entre nós se prolongar ao máximo.

Emma se levanta afinal e deixa meu quarto aparentemente envergonhada.

Não sei o que está havendo. Por que não corro atrás dela como fiz a tarde e a puxo para meus braços, beijo sua boca e tiro sua roupa? Eu devia ser mais forte do que isso. Onde foi parar a conquistadora mais implacável dessa cidade? Estou com o peito apertado, a garganta seca e tremendo de um frio inexistente. Foi Emma quem trouxe essas sensações ao se aproximar de mim. Foi ela quem me deixou desse jeito, esquisita, ansiosa, aflita. O que está acontecendo? O que estou fazendo? Não me reconheço.

Notas finais
Okay, vocês devem estar preocupadas com Kris, a pedrinha no sapato de Regina. E queria deixar claro que quando Emma fala sobre ter saído de casa e como se envolveu com drogas, foi uma parte bastante desagradável de narrar. Qual impressão vocês tiram disso? Agradeço muito se me contarem. Mais uma vez obrigada, uma boa semana e fiquem bem.