For the love of her
20 Emoções atípicas
Notas iniciais
Aquilo estava sério demais, talvez eu estivesse muito cansada de me preocupar, mas a dúvida e o receio juntos me ferroavam a mente. Temia por Emma, temia por quem me conhecia e temia por mim. Onde estava a velha Regina que não relutava em momento algum? A verdade é que a velha Regina deixou de existir quando conheci Emma e me apaixonei. Admitir que estou paranoica se confunde com admitir que amo Emma, é como se tudo do passado fosse apenas uma vida que nunca foi minha. Eu havia notado que os últimos anos antes dela me fizeram crer numa outra pessoa que eu jamais fui. Isso quer dizer que agora Regina tem alguém com quem se preocupar, muito mais do que comigo. Regina tem Emma e é por ela que começo a ter um grande delírio sobre meu futuro.
Em casa na noite em que derrubei um desconhecido na calçada com um golpe de karatê, percebo que a mais destemida de nós é ela. De repente, deixo meu devaneio sobre quem sou graças a esse sentimento para ouvir o que ela me diz, de pé na minha frente enquanto sento no sofá. Andei contando o que aconteceu e Swan não está feliz, nem achou graça como sua imaturidade poderia ter feito. Acho que no caso dela, tenho ainda mais certeza de que há outra pessoa distinta da que conheci meses atrás.
— Você não vai mais conseguir andar em paz se continuar com esse pensamento. — Ela gesticula.
— Eu sei, é claro. Foi muito estranho, eu tive certeza de que era alguém me perseguindo.
— Está deixando que eles se aproximem de você dessa forma. Não enlouqueça, por favor. Fale com a polícia, chame o seu cunhado, sua irmã ou sei lá quem pode te ajudar, mas tente se sentir segura.
— Não é tão simples assim. — Mexo a cabeça negativamente.
— Pois então eu é quem vou ficar louca de preocupação.
— Se eu tivesse que deixar a cidade por alguns dias, você compreenderia?
Solto a pergunta com um frio na barriga e o coração disparado. Pego Emma desprevenida, mas tem que ser assim até conseguir perguntar algo do tipo. Começo a pensar na hipótese que Killian me sugeriu, sair da cidade por uns tempos. Não era isso que eu queria, não devia nem cogitar por conta de Emma, embora eu possa leva-la comigo se ela topar.
— Como é que é? — Emma coça os cabelos por trás e me olha de forma exausta.
— Sugeriram que eu deixasse Nova York por uns tempos até essa situação de risco ir embora. — Explico e me ergo até ela. Puxo seu braço e corpo, recolhendo seu rosto junto ao meu.
— Ah, Regina, eu não acredito.
— Desculpa. Talvez seja necessário. — Falo baixo perto dela.
— Eu não vou suportar ficar sem você nesse apartamento, na minha vida... Como você pode me pedir uma coisa dessas?
— Venha comigo. Por favor, vamos para Atlanta, para a casa dos meus pais, vamos para qualquer lugar onde eu possa estar segura. Eu não quero deixar Nova York assim como você, mas é verdade que corro riscos vivendo aqui, por isso é preciso dar um tempo até a poeira baixar. Sinto muito que tenha precisado chegar a esse ponto, eu confesso que sinto mais medo do que você.
— Claro, você é a vítima. — Ela me olha de maneira muito séria e sinto medo que agora ela esteja me odiando. — Eu tenho que pensar, tá legal? Envolve muita coisa.
— Por favor, pense depressa. — Seguro Emma contra mim e nos beijamos quase que por intuito.
Não há estômago para um jantar, ainda assim preciso mostrar para ela que aquele esforço de sair da cidade pode não ser em vão.
Ela troca olhares comigo na cama, não consegue mais estudar e resolve largar o fichário sobre a cômoda. Dou os braços para ela se infiltrar no meu peito e tudo o que eu sinto são seus beijos molhando a camiseta fina que uso por baixo do edredom.
— Quer saber o que estou pensando?
— Sim.
— Não queria que fosse assim, eu preferia mil vezes estar em uma crise do que te ouvir me pedindo para ficar bem se for embora.
— Emma, não é para sempre. Eu vou voltar. Se você vier comigo podemos aproveitar o tempo juntas como se fossem férias.
— E a faculdade? Meu trabalho? Meus pais? Meu tratamento? Como tudo isso fica?
— Você consegue retomar tudo quando voltarmos.
— Eu vou usar o que você gosta muito de dizer: Não é assim tão simples. Não quero me separar, não quero precisar terminar esse lance da gente nem esquecer que você existe, porque parece que é isso que vai acontecer se você for embora.
Encaro Emma preocupada e sem saber o que dizer. Acho que estou pedindo demais e estou certa em encarar o inimigo BCCI. Vai ser assim ou eu estarei arruinando o futuro de Emma, tanto comigo quanto o dela própria. O momento é oportuno para questionar se ela realmente gosta de mim para fazer tal sacrifício ou estou sendo egoísta demais para querer que ela aceite. Não me resta outra coisa a não ser dizer que a amo e que desejo que fique comigo, muito porém, eu não consigo. Me calo e a coragem se dissipa no meu peito, escapando diante dos meus olhos. Emma precisa entender que não quero ser esquecida, muito menos esquecer dela. Precisamos uma da outra. E acho que agora, nem os meus olhos que ela sabe tanto decifrar conseguem me entregar.
Por alguma razão, ela prefere não continuar aquela conversa e se vira na cama, recolhendo o edredom para cima do corpo. Minha única saída é dormir virada para o lado oposto e esperar o dia seguinte. Quando acordo, Emma já não está mais na cama, é quase nove da manhã e estou muito atrasada. Me visto, presumindo que Emma tenha deixado o apartamento cedo para ir estudar e estou certa. Sobre a bancada, quatro torradas estavam frias sobre um prato à minha espera, com um bilhete em baixo:
“Fiz para você comê-las com geleia. Se acordar muito depois, esquente-as no micro-ondas. Nos vemos mais tarde. XOXO”
E ela adivinhou que eu acordaria tarde.
Pelo singelo beijo que deixou no fim do bilhete, fico otimista de pensar que ela não tenha interpretado a discussão de ontem como briga.
Durante a tarde tenho muito tempo livre no escritório, pensando na forma como devo encarar o meu mais novo problema. Deixar o pior acontecer ou simplesmente ignorar que estou sendo perseguida? Pode ser que eu esteja redondamente enganada, assim como certa. É um grande dilema que não quero encarar, mas que me obriga a enfrenta-lo. No meio do furacão em que me encontro, lembro do meu pedido a Emma e de sua maneira ao interpretá-lo. Ela não quer me ver distante nem pensa em ir embora. Não vai me restar saída a não ser ficar e provar que estou fazendo isso única e somente por ela. Seria uma grande prova de amor, uma legítima demonstração dos meus sentimentos que costumo guardar comigo ainda que eu morra no meio do caminho.
Pensamentos mórbidos, assustadores e cruéis insistem em me assombrar e logo o tempo vago na tarde não é tão proveitoso. Cansada de tanta besteira passando pela minha mente, resolvo dar uma volta pelos quarteirões atrás de espairecer. Aviso Belle que devo voltar no fim da tarde e saio andando do prédio sem rumo, sem olhar para os lados, sem me preocupar com quem está andando atrás de mim ou o que vai acontecer se eu atravessar a rua sem prestar atenção. Tudo parece dar certo e até os carros somem das ruas para me atropelar, só porque estou aberta para sentir a pancada. Entro em um café peço um expresso, o que me faz lembrar de Emma quando a conheci, em como achei ela educada enquanto devorava um omelete e quando ela jogou café na minha roupa. Isso me arranca um sorriso tão espontâneo que chama atenção.
— Acho que estou vendo alguém muito feliz. Como vai, Regina?
Olho para o lado após deixar o transe da lembrança e reconheço Gold. O convido para sentarmos em uma mesa depois que descobrimos estar ali pelo mesmo motivo, a vontade de espairecer com tanta coisa na mente. Ele me revela que não tem conseguido manter seu relacionamento da maneira mais saudável, coisa muito irônica, pois ele é um psicólogo e lida com casos semelhantes todo o tempo. Deveria saber como fugir de situações adversas como ninguém. Sem querer ele me conta coisas que nunca em anos de tratamento eu poderia imaginar. Gold assim como qualquer ser humano tem uma vida fora do consultório. Fico de certa forma envergonhada por nunca ter pensado nisso antes. Terapeutas devem ser terapeutas porque são tão humanos quanto nós.
— Não deveria dizer isso, ainda que você me conheça há muitos anos. Desculpe. — diz ele, corando, embora eu sinta que ele precise muito desabafar.
— Fica calmo, não penso mais em você como um robô que apenas me ouve e aconselha. Antes de tudo você é um homem de carne e osso.
— Sim, eu sou. — ele entorna seu café garganta abaixo para findar o copo. — Posso perguntar uma coisa?
— Vá em frente.
— O que te leva a crer que sua namorada te ama?
Reúno minhas mãos perto dos lábios, com os cotovelos apoiados na mesa e reflito.
— A forma como tudo aconteceu e como eu me sinto hoje. É como se tudo que vivi antes, a culpa, a depressão e minhas tentativas de morte tenham sido apenas um sonho ruim. Eu quero continuar vivendo, estou tentando ser destemida por alguém, não por mim.
— Isso pode se chamar amor próprio, coisa que havia perdido quando começou a se consultar comigo.
— É verdade. — Deixo meu copo de café ao lado e Gold repete o gesto, olhando o relógio em seguida, brevemente.
— Tenho notado melhoras significativas em relação a Emma nas últimas consultas. Ela vem indo muito bem. — Revela ele.
— Faz tempo que ela não oscila de humor nem entra em crises. Estou muito feliz por ela.
— Consigo ver a sua mudança talvez até mais do que a dela. Se fosse em outro momento estaria fugindo de mim nesse café, apesar de ser seu terapeuta.
— Desculpe por ter sido arredia tantas vezes.
— Nunca peça desculpas pelo seu passado.
Gold me avisa com sua seriedade e sinto que se avançarmos na conversa, vamos acabar ultrapassando a barreira da relação terapeuta e paciente. Mesmo assim, uma ideia passa pela minha cabeça, pois com aqueles breves minutos conversando informalmente, percebo que posso depositar minha confiança nele de alguma forma. Respiro fundo e falo logo, antes que mude de ideia:
— Gold, se eu pedir um favor a você, promete que vai fazer?
— Lógico. — Ele acha que é algo relacionado a Emma e está certo.
— Se acontecer alguma coisa comigo e Emma tiver de ficar sozinha, continue o tratamento. Por favor, não deixe de ficar de olho nela, é muito importante.
— Do que é que está falando? — Ele não compreende como eu esperava.
— Você sabe o que está acontecendo, que estou sendo observada e que corro riscos... Na noite passada eu fiz uma coisa da qual não me orgulho e essa situação está chegando num limite. Por favor, se algo acontecer comigo, não deixe Emma sozinha.
— Está me dizendo que pode acontecer algo grave? — Sussurra ele, olhando brevemente para os lados.
— Não sei. Corro o risco de qualquer coisa. E assim como quero me proteger, quero ficar com Emma e mostrar que não tenho medo de nada.
Ele volta a se encostar na cadeira e me observa.
— Você vai sair dessa, Regina, acredito que estão apenas querendo assustá-la.
— Tá bom, Gold. Você promete? — Peço mais uma vez, impaciente.
Sem alternativas, meu amigo tem que concordar e chacoalha a cabeça positivamente.
— Relaxe um pouco. Saia da cidade se for preciso. Leve Emma com você.
— Já pensei nisso, mas ela tem muitas coisas para deixar de repente. Emma me disse que está pensando, nós quase brigamos ontem.
— Ela precisa entender o seu lado, o mesmo você com o dela. Espero que tomem a melhor decisão.
— Também espero. — Digo com um aperto no peito.
Me despeço de Gold após receber uma ligação do escritório. Num daqueles raros dias em que não preciso ir ao fórum, eu devia cuidar de documentos, papéis e burocracias dos clientes, mas minha cabeça não permitia nada do tipo nesse momento. Acredito que algum cliente tenha aparecido para me cobrar agilidade e volto preparada para justificar meu pequeno atraso, quando de repente me deparo com a última pessoa no mundo que aguardava ver sentada na sala de espera.
Belle se levanta quando entro e me conta pelo o que devo a honra da visita de David Swan, vulgo meu sogro.
— Boa tarde, Mills. — Ele estende a mão para mim.
— Boa tarde, Sr. Swan.
— O senhor Swan está aqui para conversar um assunto em particular. — Explica Belle.
— Certo, Belle. Leve um copo d’água na sala. — Peço observando a maneira inquisidora que David me olha.
Mostro o caminho para ele e encosto a porta depois que Belle traz a água. Me sento no lugar e não espero boa coisa do pai de Emma.
— Pois não, David.
Sem delongas, David joga sobre a mesa três folhas e um cartão de um advogado cujo nome não me é estranho.
— Killian Jones. — Falo impulsionada pela surpresa.
— Exatamente. Quem é esse homem?
— Depende de como o senhor conseguiu esse cartão.
— Este homem procurou trabalho na rede de lojas para qual eu sou empregado. Sou do setor administrativo e devo verificar os currículos e históricos dos candidatos. Nós estamos contratando pessoas da área jurídica com experiência, e na hora de verificar a ficha desse homem no sistema seu nome constava no seguro social dele. — David quer entender o que se passa e começo a perceber o porquê.
— Então ele ainda não desfez o benefício. — Comento alto, um pouco surpresa e ele escuta.
— Como?
— Oh não, não foi nada. Killian Jones, senhor Swan, foi meu noivo.
— Noivo? Não compreendo.
— Sim, foi meu noivo há alguns anos. Nós dois não temos mais nada, o relacionamento acabou.
David muda a expressão da água para o vinho, como se tivesse esclarecido uma dúvida gigante. Ele recolhe os papéis e fica sem jeito.
— Desculpe a forma como vim questionar, acontece que me preocupei com Emma. Achei que você estivesse enganando ela.
— Eu acho que entendo sua preocupação. Se estivesse no seu lugar, faria o mesmo. Ainda sou uma desconhecida que levou sua filha para casa e me dispus a cuidar dela, já devia imaginar que vocês estavam preocupados.
— Que a minha filha está bem vivendo com você, não temos dúvida disso. Margaret e eu queremos que ela melhore.
— Eu acima de qualquer pessoa quero que ela fique bem. Jamais brincaria com os sentimentos dela, nunca foi a minha intenção usá-la. A minha preocupação era que acabássemos nos envolvendo por conta do convívio e aconteceu, você consegue imaginar.
— Um pouco, ainda estou tentando aceitar que Emma vive com outra mulher. Isso é um processo, mas já dei um grande passo percebendo o seu caráter. — Confessa ele. — Agora, uma dúvida, o que fez você e esse rapaz terminarem o relacionamento?
— Ah, David é uma longa história. Resumindo, nós dois nos magoamos com as nossas convicções. Eu com as minhas e ele com as dele. Pensamentos distintos, diferenças que surgiram com o tempo e antes de nos casarmos ficou insuportável.
— Foi melhor ter se separado então.
— Hoje eu sei que foi, mas na época eu sofri muito.
— Posso imaginar. — diz ele.
— Como está Margaret?
— Está bem. Melhor com o passar dos dias. Ela fala com Emma quase toda semana pelo telefone.
— Eu incentivo a filha de vocês a ligar, também fazer visitas, é que agora ela começou a trabalhar.
— Ela contou para Margaret e confesso estar orgulhoso.
Um lapso do que pedi a Gold me volta a mente e quase digo para David não deixar Emma desamparada caso eu suma. Então percebo que é arriscado demais pedir para o pai da mulher que eu amo uma coisa que nem sequer deve acontecer e que servirá apenas para assustar todo mundo. É bastante óbvio que David e Margaret Swan não se opõem em levar Emma de volta para o convívio deles, por isso não devo me atrever a contar o dilema que estou vivendo e nem das ameaças que me cercam. Isso só vai deixa-los histéricos e colocar toda a conversa que estou tendo com David em contradição.
— Tenho certeza de que Emma vai ficar boa, ela vai se curar do vício e nós nunca mais vamos sofrer com isso. — Suspiro, de certa forma casada.
— Sim, ela vai ficar. — Ele termina e se levanta, me estendendo a mão. — Agradeço o esclarecimento. Se não há problemas há bastante interesse da empresa em contratar esse advogado, ele tem um bom currículo.
— Em defesa de Killian posso dizer que ele é um bom profissional. Pelo o que conheço dele, é um advogado muito competente, a empresa do senhor teria um bom empregado no setor jurídico.
— Está bem. Mande meu abraço para Emma, diga que sinto falta dela. — Ele pede enquanto se retira.
— Com certeza eu digo. — Coloco as mãos nos bolsos da calça e espero o senhor Swan deixar a sala para olhar a vista da janela atrás de mim. Escurece e eu não sei porque estou mais ansiosa que o normal para ver Emma de novo hoje.
Eu precisava ir com cuidado, chegar em casa como em qualquer outro dia, mas isso não parecia viável diante da minha ansiedade. Ao entrar no apartamento, sinto meu coração vindo a boca e pressinto que Emma já fez uma escolha sobre ir ou ficar. No caminho de volta, me fiz concordar com ela no que decidisse. Se falasse sim, nós iríamos para longe por uns meses e na volta encontraríamos um novo lugar para morar na cidade; Se dissesse que não, eu ficaria com ela e enfrentaria quem me ameaçava; Emma me encontrou quando entrei, vinda do quarto com uma toalha na cabeça, havia tomado um banho e ia sair pelas roupas que usava.
— Onde você vai? — Pergunto com indignação, pois não achava justo ela me deixar quando acabo de chegar em casa.
Ela sorri, se aproxima, tira meu blazer como costuma fazer e o recolhe.
— Os pais do menino que eu cuido me chamaram, eles precisam trabalhar no plantão de hoje e eu vou ganhar uns trocados para ir mais cedo. Você se importa de pedir o jantar hoje? Não vai dar tempo de fazer tudo.
— Sem problema. Eu peço o jantar. — falo, tentando esconder meu desapontamento.
— Desculpa. — Pede Emma, puxando a toalha dos cabelos e desmanchando seu penteado em uma cascata loura. Emma leva meu blazer ao mancebo, me olha dando a volta no sofá e decide dizer: — É que hoje talvez seja a última vez que eu vá cuidar do garoto pros tiras.
Tento fita-la por cima do ombro após ela falar.
— Por que última vez?
— Porque eu passei o dia todo refletindo no que você me pediu. Eu vou, Regina, eu vou com você.
Me levanto do sofá imediatamente, ficando separada de Emma apenas pelo espaço que ele ocupa. Nos olhamos por alguns segundos.
— Emma, você tem certeza?
Ela faz que sim depressa, segurando as mãos uma na outra por não ter onde enfiá-las.
— É, isso aí. Se você está com receio do que possa acontecer, é melhor a gente dar uma volta, sei lá, ir para algum lugar enquanto não estiver segura para voltar. Se você vai abrir mão de um tempo na sua carreira, eu posso muito bem abrir mão de um tempo em tudo o que eu venho fazendo. Não vão ser anos, serão meses, não é verdade?
— Sim, alguns meses, uns três, quatro, depende de como o FBI vai resolver essa situação. Zelena esteve aqui para me alertar e, eu não devia, mas estou muito apreensiva.
Emma se aproxima do sofá, coloca as mãos sobre ele e estica sua boca até a minha, mas não ousa beijar.
— Você ter chegado ao ponto de me pedir uma coisa dessas ontem me fez refletir várias. Eu não vou tá perdendo meu tempo, estarei com você e é isso que preciso. Vai ser bom para a minha cura, vai ser bom conhecer a sua família, vai ser bom descobrir quem é você de verdade.
— E você já não sabe quem eu sou?
— Alguma parte, não toda a sua história. Estou te conhecendo aos poucos, sinto que preciso ir mais fundo e refleti que esse afastamento de NY pode ser muito útil pra gente, pro nosso relacionamento.
Por um lado eu estava muito feliz pela decisão de Emma, vendo que ela havia decidido por nós. Eu não sabia que suas intenções no fundo tinham um pouco a ver com nosso relacionamento, mas ela estava certa em pensar dessa forma, não usar a fuga de pretexto para o receio de ficar sem mim.
Dou a volta no sofá, abraço a loira e beijo seu rosto no canto dos lábios diversas vezes.
— Juro que não queria que isso estivesse acontecendo.
— Você me ensinou que precisamos passar por alguns aborrecimentos até amadurecer. Por que não começa a pensar que é só uma fase, a prova de que não devemos passar por isso sozinhas? Regina, eu te adoro, se você sumisse de repente, eu não ia suportar. Prefiro eu ir embora, só não diz pra mim que querem te matar, porque quem morre sou eu.
Seguro Emma, ela pula no meu colo por impulso. Nos chocamos contra a parede num indomável beijo. Mordo sua boca, puxo, chupo, mas quando Emma percebe que estamos ficando sem roupas, ela para ofegante.
— Tenho que ir.
— Chegue um pouco atrasada, eu levo você. — digo da mesma forma.
— Não, amor, vamos parar por aqui. Eu quero muito fazer isso, tanto quanto você, mas quero uma noite só para nós como a primeira. Quem sabe a gente não transa no banheiro do avião ou na cabine da primeira classe? — Sugere ela, atrevida, com um sorriso encantador. Emma limpa sua boca, limpa o canto dos meus lábios e se soltar de mim.
— Ainda temos um tempo. Eu tenho casos para concluir e você precisa trancar a faculdade.
— É, temos sim. — Ela pega o moletom laranja da Levi’s que ganhou de mim, se veste e pendura a mochila no ombro. — De lá eu vou pra faculdade e vejo o que preciso fazer. Até amanhã.
Com uma dor que eu não sabia porquê estava sentindo, não digo mais nada para ela. Não me despeço, não me desespero e corro atrás dela para um outro beijo, apenas olho ela sair e dar as costas pra mim. Quando a porta se fecha, me sento e choro simplesmente porque preciso. Há algo dentro de mim que preciso expurgar através daquelas lágrimas. Amor? Medo? Culpa? O que seria? É o momento que preciso para acertar contas comigo mesma após aquele dia atípico.
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