For the love of her
21 Cursum Perficio
Notas iniciais
Um dia inteiro sem Emma, um dia inteiro que preciso pensar na desculpa que vou dar aos meus clientes para justificar as minhas férias forçadas; Eu não pedi o jantar como Emma recomendou ontem, eu não queria me alimentar e depois ter uma crise de ansiedade que me deixasse ao ponto de colocar tudo para fora. Dormi com a decisão de resolver a minha vida enquanto Emma resolve a dela. De manhã, no escritório, espero por Belle para conversarmos e quando ela chega é como se soubesse que eu estava partindo por enquanto. Asseguro que seu salário continuará sendo depositado enquanto estiver fora e dessa maneira não deixo o escritório as moscas. Compreensível, minha secretária me deseja boa sorte e diz para eu voltar logo, pois na visão dela, não existe advogada com a mesma competência em Nova York. Exageros a parte, eu gosto do modo como ela fala e a incentivo a se tornar uma advogada também, quem sabe?
Foi uma manhã difícil com ligações a fazer e muita prestação de contas. O pior não é dizer aos meus clientes que ficarei ausente por um tempo, mas que não tenho um prazo certo para voltar. Alguns me dizem que estarão a minha espera, outros se recusam a crer que vou tirar férias de repente. É um misto de compreensão e dúvida, mas pelo menos eu estou certa do que preciso fazer. Nesse ritmo, eu perco a hora, minha cabeça começa a doer e imploro para o dia chegar logo ao fim.
— Regina, você não vai sair para almoçar? — Belle pergunta duas vezes. Abano a cabeça e julgo que não preciso.
— Eu estou sem fome, Belle. — Minha voz soa tão desanimada que a secretária desconfia dos meus motivos.
— Por que eu acho que você não me contou tudo sobre essas férias que vai tirar?
Olho para Belle, meus olhos fervem e não consigo segurar. Abano a cabeça em desconforto comigo mesma, me sinto fraca, uma verdadeira negação em guardar segredos.
— Porque não contei tudo. Senta, Belle. — Mostro a cadeira a minha frente e ela obedece, esperando que eu fale. — Você me desejou boa sorte aquela hora... Acho que vou precisar mesmo. Tem uma coisa acontecendo ou algo que pode acontecer se eu continuar morando em Nova York nos próximos meses.
Então eu abro o jogo com ela, conto os meus reais motivos de sair tão rapidamente da cidade e peço para que ela não comente com ninguém o que está acontecendo. Incomodada, minha secretária me questiona sobre a polícia, o porquê de não procurar ajuda dos federais e preciso dizer que nada é suficiente.
— Quando essa gente quer alguma coisa, eles conseguem sem deixar rastros. Enquanto não terem a certeza de que sou uma peça perdida no jogo deles, não estarei em paz. Começa com tortura psicológica, avança na paranoia e termina quando eu menos esperar. Até eles conseguirem eles não vão desistir. Por mais que pareça que nada está acontecendo, eles estão a espreita, esperando a hora certa e vai ser quando eu estiver mais vulnerável.
— Isso quer dizer que você não estaria segura nem dentro de casa?
— Provavelmente.
Belle toma ar como se perdesse o fôlego após minha explicação em sentido figurado. É o bastante para ela entender e me oferecer uns dias na pousada de seu tio no Texas, mas descarto ir tão longe. Aproveito que ganhei a confiança dela sobre o assunto e deixo a senha do cofre para caso ela necessite usá-lo. Haviam coisas sobre o BCCI que eu mantinha a sete chaves no escritório, mas não era o momento de usá-las para mais uma vitória nos tribunais, não ia ocorrer outro julgamento por fraude.
A tarde começa e dispenso Belle pelo resto do dia. Ela me olha com pena, apesar da admiração que tem por mim. Eu digo que vai ficar tudo bem no fim e que em breve ela me verá trabalhando atrás da mesa novamente. Quando ela sai, sinto a vista turva, deve ser pela falta de jantar do outro dia e do café da manhã. Faço uma bebida doce na cafeteria e tomo com calma. Ouço o barulho do relógio na parede um tic-tac que descubro ser torturante quando você espera que o tempo passe mais rápido. O copo com café esvazia, tento fazer mais um pouco para ocupar o vacuo e está fazendo tanto silêncio que meus ouvidos chegam a doer. Alguma coisa vai acontecer a qualquer momento.
Tenho que reservar passagens aéreas, mas quero estar com Emma para fazer isso, então não me resta outra coisa a não ser aguardar. Me deito sobre o sofá de couro na sala de espera, começando a pensar no primeiro lugar que devo visitar com Emma. A casa de meus pais não parece má ideia, mesmo sabendo que pode ser um choque para meu pai perceber que estou namorando uma mulher. Nesse raciocínio faço uma pequena viagem a minha infância, o que não me parece tão triste quando estou sozinha. Posso refletir diversas vezes sobre as diferentes maneiras de contar a minha história a Emma, em como eu deveria ter abordado o assunto. Talvez eu devesse ser mais direta como ela conseguia quando contava as experiências que teve nas ruas ou simplesmente cortar os detalhes que faziam de mim uma pessoa tímida naquela época. Passo dos momentos em que subia em árvores na infância para a adolescência incompreendida e por fim a fase adulta. Onde foi parar o meu amor pelos cabelos compridos e os romances da Danielle Steel? Acho que no momento em que perdi a sanidade e eu tenho um nome para essa fase. Mas, ironicamente, ou apenas um aviso divino de que eu receberia uma ligação, Killian e sua foto todo engomado aparecem no meu visor do celular. Penso se vou atender e o impulso é mais rápido que a minha coragem.
— O que você quer?
— Caramba, Regina, eu sei que me odeia, mas podia ao menos ser educada comigo. Tudo bem?
— Foi mal. — Digo algo com o tom da voz dele, do jeito que ele diria se estivesse no meu lugar. — Eu estou bem.
— Legal. Olha só, eu estou ligando só para agradecer a recomendação que você fez para a Loja de Departamentos. Eles me entrevistaram ontem e fui chamado para trabalhar com o setor burocrático. Eu estava precisando muito desse trabalho.
— Ora, imagina, Killian, por que eu mentiria ao seu respeito? Um dos sócios, por um acaso é meu cliente, ele descobriu o meu nome no seu seguro social. A propósito, não acha que está na hora de tirar o meu nome do benefício?
— Se você faz questão eu posso retirar o seu nome. Achei que fosse precisar.
— Para isso eu tenho o meu. Não me leva a mal, okay? Eu só acho que é um gasto desnecessário para você.
— Eu entendo. De certa forma sim, sendo que a gente não tem mais nada.
— Pois faça isso, Killian, e meus parabéns pela admissão no emprego.
Killian fez uma pausa dramática do outro lado da linha antes de continuar.
— As coisas andam complicadas desde que voltei de Buffalo. As firmas querem um currículo dos sonhos ou indicações de outras.
— Eu entendo como funciona.
— Regina, eu sei que não gosta de superstições, adivinhação, seja lá como você chama... Eu acho que você tá precisando ouvir uma coisa e queria muito que acreditasse em mim. — Fico escutando, franzindo a cara sem entender. — Ando muito preocupado com você. Não é apenas a questão dos caras do Banco, mas com você em geral. Se precisar falar com alguém, é só combinar comigo da gente se encontrar. Juro que não vou fazer nada além de te ouvir, é a minha melhor ajuda. Se eu tô te devendo alguma coisa ainda, posso pagar com os ouvidos.
— Killian, relaxa, tá bem? Vou fazer o que você me sugeriu, pegar a minha namorada e tirar umas férias até a poeira baixar.
— Hum, isso parece bom. Então, boa viagem.
— Obrigada.
Desligamos ao mesmo tempo e minha cabeça volta a doer do grande esforço que foi conversar com meu ex noivo. Quem sabe um dia eu não aprendia a lição e perdoaria ele de uma vez. Aquele perdão ainda era um conformismo disfarçado de bondade, era uma farsa que eu escondi até hoje. Por isso era tão difícil acreditar nele, no cara que me deu muita alegria um dia e a maior tristeza da minha vida. Não prometi que ia entender Killian, nem prometi que ia aceitar sua proposta de ajuda, eu o ignoro como andei fazendo esses últimos anos, até o momento em que precisaria dele, sabe-se lá por qual razão. Talvez nunca.
Escolho ir para casa porque não há o que fazer no escritório, e pensar até a hora de me encontrar com Emma não me parece a ideia mais saudável. Me despeço das paredes, dos quadros abstratos e de tudo que diz muito sobre mim ali dentro. Eu sei que vou voltar um dia daqui a alguns meses, contudo acho que voltarei diferente da forma que entrei aqui. É muito pessoal, é particular para conseguir descrever a sensação. A minha vida passou a girar em torno da minha profissão e nunca neguei que gostava do que fazia. Se há uma gota de lágrima no canto do meu olho é um gesto doce que começa a se desprender de mim, a advogada durona que nunca mostra suas emoções. É com uma certeza grande de que lágrimas vão se expressar melhor de mim no futuro que eu saio do escritório direto para o elevador.
Dois andares antes do térreo um homem alto de aparência familiar surge para uma carona até a garagem. Levanto os olhos quando ele se encosta na parede do elevador e lembro exatamente de quem se trata. Eu o vi no tribunal, sentado atrás dos réus no caso BCCI. Não trocamos palavras, embora o desconforto seja enorme e meu estômago vira uma massa triturada por dentro. Quando a garagem surge na última parada do elevador, ele sai sem olhar para trás. Uma gota de suor escorre pela minha têmpora e o medo de sair é a coisa mais certa que tenho. Antes que as portas se fechem novamente, dou um passo movida pelo impulso maluco que sempre me coloca em riscos. Caminho pelos corredores do estacionamento, não há sequer uma alma viva, nem o homem familiar que desceu comigo. Eu sei o que está acontecendo, não vou ter chance ou é apenas mais uma ameaça psicológica. Ando com pressa até o carro, agarrando o volante e respirando fundo até o pavor ir embora. Eu tenho que sair do edifício, tenho que ir logo para casa. Dou a partida e algo muito óbvio não ocorre ou eu estaria aos pedaços depois de uma grande explosão. Já é um grande alívio terem me poupado desse jeito, então é hora de desencanar que algo vá me acontecer no trajeto.
Ponho o cinto, bato a porta e arranho os pneus no chão. É cedo para o engarrafamento, então não vou perder uma hora no transito como usualmente acontece. Minhas mãos estão suando e escorregam frequentemente do volante, estou atenta a todos os carros, todos os cantos das avenidas e nada anormal, a não ser a suspeita de que qualquer carro pode me perseguir dali em diante. Seria um grande risco fazer isso nas ruas de Manhattan às três da tarde de um dia útil, não era nem um pouco recomendado e de acordo com o governo americano seria algo similar a um atentado terrorista. Muito porém, o que é que estavam tramando contra mim? Um atentado, certamente. Não fujo muito dessa reflexão. Não tinha tempo para pensar em besteiras que fossem me deixar ainda pior, era pôr a minha vida em risco e a de tantas outras pessoas. Só sigo reto com a intenção de chegar em casa logo. Taxis, pessoas cruzando faixas, letreiros de cinema e propagandas de perfume, o planeta Nova York começa a girar conforme atravesso as avenidas lotadas de informações. Por que eu nunca reparei em tanta coisa nas outras oportunidades em que estive aqui?
Eu me lembro da noite em que procurei por Emma, após o lamentável jantar de Kris no Empire State Build. Naquela noite tive uma boa oportunidade de olhar cada letreiro da Times Square, cada modelo de perfume no alto dos edifícios, as cores dos cartazes nos teatros. Eu não olhei para nenhum deles, no entanto, agora é como se todas essas informações estivessem me dando um breve adeus. “Você já vive aqui há tanto tempo, nunca parou para admirar a quantidade de riqueza que essa cidade tem, Regina.” Quero parar o carro, mas preciso seguir se quero ver Emma no fim do dia. Tento tirar a minha cabeça daquela confusão quase que proposital. Há uma estação de músicas obscuras (no bom sentido da palavra), as músicas que não escutamos ou que ouvimos uma vez na vida e outra na morte. Eu a encontro e o refrão erudita repete dez vezes uma frase só: Cursum Perficio. O que diabos isso significa? Acho que não é a hora de especular. Eu só preciso chegar em casa.
Um clarão se abre diante de mim no Midtown, os taxis sumiram e as pessoas não cruzam faixas, as ruas se estreitam e estou completamente sozinha na rua. Nem tanto, na rua seguinte, basta um olhar no retrovisor e eles aparecem. Como dois monstros prestes a me devorar, vejo um par de Audis negros como o meu se aproximando. Dessa vez eu não podia pensar duas vezes, eu precisava ao menos tentar a fuga. Arranco com os pneus em ruas que vão se estreitando no Upper East Side, será que vai dar tempo? Os perseguidores me pressionam atrás, vejo os faróis sedentos pelo retrovisor. Há um cruzamento, mas não há tempo para uma decisão, preciso avançar o sinal vermelho. Me agarro ao volante, fecho os olhos e disparo... Ouço buzinas, não sinto dor, estou muito a frente na rua paralela, deixando os perseguidores para trás. Vitória? Ao contrário, eu caí na armadilha.
Meu delírio dura míseros cinco segundos. Cruzando o sinal vermelho em um cruzamento de Nova York não se pode esperar que vá sair milagrosamente bem. Eu sinto o impacto, me pega em cheio, bem do meu lado. Minhas mãos vão para o teto, os cabelos balançam contra o ar que me faz girar 360 graus em dois segundos. Não é lento como dizem, é muito rápido e o barulho de metal e vidro se contorcendo é assustador.
— Oh, meu Deus! Eu consigo vê-la, está morta!! Tirem o corpo, rápido! — Eles dizem, mas não, eu não estou morta. Como faço para informa-los do contrário? Não se pode abrir os olhos, não sinto mãos, não sinto as pernas, não sinto a minha alma naquele corpo. Eu não pude dizer que estava viva até que notassem. Fumaça, muita fumaça e um cheiro forte de sangue. É tudo que noto antes de voltar a um sono profundo.
— Emma... Emma... Emma, eu sinto muito...
— Quem se chama Emma? Quer me contar, querida? — É a voz de Cora Mills. Não escuto ela uma vez apenas, mas inúmeras. Ela veio me ver, minha mãe veio me ver.
— Emma... Me perdoa...
— Creio que dentro de dois dias ela esteja apta. Imagine, deve sentir dores por todo o corpo, nós precisamos manter a morfina em doses altas. É um milagre ter sobrevivido.
— Emma... Eu assumo a culpa... Emma.
— Olá, você está acordando, fique tranquila, eu estou com você. — É uma voz suave, uma voz calma e doce. Abro os meus olhos e vejo de forma turva a figura dela.
— Emma? — Balbucio.
— Não. Não sou Emma, eu sou Ingrid, sou uma enfermeira. — Quando ela diz seu nome, a nuvem se dissipa e posso ver claramente os olhos azuis dela. É linda, cabelos loiros, olhos claros e uma pele branca quase rosa. Não é a Emma, a minha Emma, é só uma mulher parecida com ela.
— O... Onde é que eu estou? Onde a Emma está? Pode chama-la, por favor. Preciso falar com ela.
— Eu sinto muito, meu bem, mas não conheço essa Emma de quem tanto fala, não posso chama-la. — Ela se mostra aflita.
Tento explicar que é um assunto de extrema urgência, mas sou impedida por um peso em meu pescoço. Um colar cervical me impede de ir para frente e há dor, finalmente há dor. Minhas costas ardem sem parar, o que havia acontecido comigo?!
— Pelo o amor de Deus, chame ela. Dê um jeito de falar com Emma, ligue para o apartamento, eu tenho o telefone...
— Não, não! Não se mexa, por favor, não se mexa. — Ela me segura com uma calma de outro mundo e entendo o porquê. Está ali única e exclusivamente por minha causa, foi contratada para isso. — Daqui uma hora o remédio fará efeito e você vai ter muita sonolência, tente se acalmar, sim?
— Você não me respondeu, onde estou?
Ela volta a se sentar em seu lugar ao lado da cama de hospital, mas nós não estamos em um, definitivamente. Olho ao redor, é um quarto amplo, muito bonito em uma casa de madeira. Parece coisa de filme, não reconheço esse lugar.
— Sua irmã me fez jurar que eu não contaria, então finja que não sabe de nada quando ela chegar. Você está em um distrito de Atlanta.
Não podia ser, mas era verdade, eu estava em outro lugar, uma outra cidade muito longe de Nova York. Onde estava Emma? Ela tinha vindo também? Eu não sabia de nada, nem mesmo do que aconteceu de fato na tarde em que caí em uma armadilha.
Fechei os olhos, lágrimas não desceram, as dores foram diminuindo e só me restou respirar fundo pedindo que eu estivesse muito enganada sobre tudo o que havia acontecendo comigo.
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