Notas iniciais
Olá, leitoras. Esse capítulo é o primeiro da sequencia de três que explicam o que aconteceu com Regina após o acidente. Se ficar algo mal entendido por aqui, não se preocupem que os dois próximos esclarecerão. Boa leitura.


Não podia ser sério ou aquela era uma brincadeira de muito mal gosto comigo, não havia cabimento para isso estar acontecendo. Ela se apresentou de novo, Ingrid, a enfermeira. Seus olhos azuis intensos sentiam pena de mim, a louca que gritava pelo nome de Emma o tempo inteiro, uma Emma que ela não podia fazer ideia de quem se tratava. Por que minha irmã havia tomado uma providência sem me avisar? O que diabos Zelena tinha na cabeça de quase me matar ou ter me deixado chegar àquele ponto? Uma enxurrada de pensamentos e perguntas me acometeu em cinco segundos e eu estava completamente desesperada por respostas.

Movi a cabeça de um jeito que o colar cervical me conteve e fez todo meu corpo doer pelo esforço. Minhas costas ardiam, como ardiam, ardiam de um jeito que eu jurava estar sendo queimada viva. Voltei ao lugar e dessa vez a enfermeira me conteve com as mãos nos meus ombros. Arregalei os olhos cheios d’água para a mulher e engoli em seco, me rendendo a paciência de precisar esperar.

— Pelo o amor de Deus, será que pode ficar calma? — pediu a tal de Ingrid.

— Sim, eu posso, mas eu preciso saber onde está Emma, eu preciso vê-la. Se não estou em Nova York Emma vai ficar sozinha e isso é muito ruim. O que a minha irmã te contou? — questiono com o choro engasgado na garganta, prestes a gritar só por imaginar o que me diriam. Imaginar Emma sozinha era muito cruel e não estava nos meus planos.

— Não sei mais que isso, senhora, a não ser o fato de sua irmã ter trazido você há alguns dias e ter me contratado somente com essa finalidade.

— Por que não estou em um hospital?

— A senhora sofreu um acidente grave, teve seu período de observação, mas sua irmã a trouxe para esta casa. Posso pedir que não me faça mais perguntas? Se Zelena imaginar que falei isso a senhora, serei demitida.

— Não é sua culpa. — Estou com a boca seca e me dou conta de que a sede é imensa. — Preciso de água, um pouco de água.

Ingrid me solta e procura uma jarra que deixou estrategicamente sobre a mesa de cabeceira. Ela derrama água em um copo e me ajuda a beber, pois até mesmo levantar os braços dói.

Começo a sentir o corpo formigando, um torpor me levando aos poucos. Olho para a enfermeira e ela sabe o que quero falar.

— Fique tranquila, este é o remédio fazendo efeito. Você vai dormir algumas horas e depois veremos como reage as outras medicações.

— O que estão me dando? Eu não sinto meu corpo.

— Morfina, alguns antibióticos e calmantes. Você não se lembra, mas se debate muito em alguns momentos do seu sono.

— Já pararam para pensar que posso estar sonhando?

— Sim, suas condições podem deixa-la frágil psicologicamente.

— Eu devia ter morrido.

— Sei que é um momento muito crítico, que foi um acidente grave e que a senhora tinha alguém com quem se preocupar, mas só de ter saído viva, considere o fato de ter sorte, muita pelo jeito.

O sono começa a me vencer e a voz de Ingrid se distância da minha mente cada segundo mais. Pisco inúmeras vezes, tentando ser mais forte, mas nem balbuciar eu posso. Me lembro de dormir após uma última tentativa e dessa vez não tenho pesadelos ou sonhos.

— ... e ela, como está?

— Bem, embora ela tenha acordado e se dado conta de que não está em Nova York. Ficou agitada, queria se mover, eu precisei contê-la.

— Ela fez perguntas?

— Várias que recusei responder.

— Fez bem. Me deixe a sós com ela, só um pouco, vá fazer um lanche. Qualquer coisa eu te chamo.

— Está bem. — Pouco depois, ouço uma porta se fechando. Então abro os olhos com a sensação de ter entrado em um sonho. Zelena está ao meu lado, é minha irmã, finalmente ela. Está colocando água em um outro copo.

Com uma força que eu não sei de onde tiro, agarro o pulso dela e a surpreendo. Ela quase derruba o copo no chão.

— Regina!

— O que está fazendo comigo? Que tipo de brincadeira é essa? — Falo entre os dentes. A sensação de torpor vai embora e não estou mais sonhando. Graças aos céus é mesmo Zelena que está comigo no quarto e posso confrontá-la.

— Calma, Regina. Não posso dizer nada enquanto não estiver bem.

— Onde está Emma?

Zelena emudece e seu rosto se torna um papel.

— Fala. — Aperto seu pulso. — Pelo o amor de Deus, fala.

Ela põe as mãos no rosto e o esfrega, me olha com pena, com medo e doçura, tudo junto. Se contém até o último minuto e abana a cabeça sem poder reagir.

— Espere o Robin voltar, amanhã a noite ele estará aqui e você saberá de tudo. Sinto muito que tenha acontecido dessa forma, mas não podia ser de outra maneira. Você vai entender, Emma vai entender, fique calma. Você está muito ferida, ainda sente muita dor e vai ser assim por mais alguns dias, tá bem? Só não fique magoada comigo, se estivesse no meu lugar faria o mesmo.

— Preciso ver Emma, preciso que ela saiba como estou e onde estou.

— Regina, ela vai saber, em alguns dias ela saberá, mas não pode ser nesse momento.

— Por quê? Você sabe o que ela vai fazer se desconfiar que fui embora sem ela? Sabe o que ela é capaz de fazer se ficar sozinha, sem o meu amparo?

— Eu sei, há muitos riscos, mas a sua vida dependia de nós naquele momento. Se eu não tirasse você de Nova York, eles entrariam no hospital para te matar. — Zelena grita, perdendo o controle. — Entenda que não foi pelo seu mal que fizemos isso, irmãzinha. Nós estávamos atentos, mas eles descobriram e deram um jeito de emboscar você. Se a Emma for forte, ela vai resistir, ela vai aguentar e no momento certo vocês duas se entenderão.

Mandando minhas limitações físicas e dores para o inferno, me sento na cama e puxo Zelena pelo colarinho, colocando-a cara a cara comigo. Em questão de segundos me sinto outra pessoa, mas o remédio ajuda um pouco assim como fortalece momentaneamente.

— Regina, você quer parar de agir feito criança?

Alguém diz atrás de nós e eu sei que voz é aquela. Mamãe, bonita e elegante, doce e séria quando deve ser. Sua cara mostra uma indignação gigante e não vejo outra alternativa a não ser largar minha irmã.

— Eu sinto muito, mana. — Zelena ajeita sua blusa e dá lugar a nossa mãe.

Após a bronca, os lábios de Dona Cora Mills se enchem de um sorriso fenomenal. Ela se aproxima e segura minhas mãos, passa alguns segundos alisando meus dedos e percebo que estão bem machucados, cheios de feridas cicatrizadas. Não lembro de nada do que houve comigo, mas as marcas que vão sendo apresentadas a mim mostram que ter saído viva foi um milagre.

— Fiquei tão assustada quando recebi a notícia. — Ela afasta meu cabelo para o lado do rosto, está emocionada em me ver melhor. — Graças a Deus sobreviveu. Você está melhor conosco, querida, vai ficar tudo bem agora.

— Você também está por trás disso, não está?

— Se eu fosse contra trazer você, minha filha, eu não estaria sã.

— Eu disse que era para o bem dela. — Zelena se manifesta, ao nosso lado, de braços cruzados.

— Você vai entender tudo o que está acontecendo em breve, eu prometo. — Mamãe continua. — Tenha paciência.

— Como? Me diz, como? Eu sofro um acidente, sou trazida para esse lugar enquanto estou inconsciente, sem chance alguma de recusar, de dizer que não posso e você me pede para ter calma?!

Cora empina o nariz, troca um olhar com Zelena e volta a me ver.

— Está assim porque não sabe o que podiam fazer com você. Aqueles criminosos iam matá-la, apenas isso, minha querida.

— Há quantos dias estou nesse lugar? Há quantos dias vocês estão me mantendo presa?

Uma nova troca de olhares entre elas e Zelena se vira.

— Três semanas.

— Emma está há três semanas sem notícias... — Penso alto e meu coração dispara.

— A sua preocupação é com essa moça? — Mamãe pergunta, um pouco surpresa.

Suspiro exausta, prestes a deixar a emoção rolar olhos abaixo. Fito o teto e respiro, mas dói, por incrível que pareça dói até para respirar.

— Não contou a ela, Zelena?

— Não. — Minha irmã diz, desajeitada.

— Emma precisa de mim, ela não pode ficar sozinha, não nesse momento, entende? Seria uma covardia muito grande deixa-la sem ajuda nessa hora.

— Ora, e por quê? — Cora enruga a testa.

— Porque ela é dependente química, mãe. A Regina colocou essa mulher dentro de casa e começou um tratamento por si. Ela ajudava essa mulher e as duas tem um relacionamento. Eu conheci a Emma, é um amor de pessoa. — Zelena se antecipa.

Cora não parece muito feliz, principalmente depois que descobre a verdade sobre Emma.

— Começou a ajudar por contra própria uma dependente química? Regina, perdeu a cabeça?

— Não, mãe, é muito diferente. A Emma surgiu na minha vida em um momento que nós duas precisávamos de ajuda. Pode parecer mais um dos meus casos, mas não é. Emma já é muito mais que um simples envolvimento, ela significa tudo...

— Olha, querida, muito bonita a sua atitude e tudo o que fala dessa moça, espero conhece-la. Agora entenda que sendo um alvo ela poderia ser usada por eles para atingir você.

— Mamãe está certa, Regina. Se a Emma está sem notícias também é para o bem dela. — Zelena diz.

— Por que simplesmente não trouxeram ela para cá? Não há uma forma de trazê-la? — Sinto meu rosto ferver, acho que chorar não vai adiantar.

— Não agora, não podemos arriscar. — Zelena termina e puxa mamãe pelo braço. Elas cochicham e entendo bem que quanto mais ficarem ali, mais farei exigências por Emma.

Cora se vira e faz carinho em uma das minhas pernas, ela me olha rapidamente e decide sair.

— Vou avisar o seu pai que já acordou.

— Não quero falar com mais ninguém hoje. — Peço aborrecida e Zelena sai antes de mamãe que suspira me deixando em seguida.

Não consigo descansar, não consigo pensar em outra coisa que não seja Emma. Onde ela estaria? Como ela estaria? Quem estaria lá por ela? Pedi incessantemente que nada de mal pudesse atingi-la. No mínimo Emma estava pensando que eu tinha morrido ou que fui embora sem ela. Seu maior temor aconteceu e nossos planos foram por água abaixo. Era tanta decepção que certamente ela cairia em tentação, mas quero acreditar que ela esteja superando, que por algum milagre uma força sobrenatural a controle e coloque juízo em sua mente.

Ingrid aparece uma hora depois com mais remédios e sou servida sem relutar. Noto que a enfermeira é uma mulher muito calma, cuidadosa e atenciosa. Ela não precisa me dirigir a palavra para saber que estou desconfortável na posição. Mas é hora do banho e antes de dormir, há uma recomendação para que eu esteja limpa. Não posso deixar a cama, então ela prepara uma bacia com água morna que não demora a trazer. Muito respeitosa, ela desce aquela roupa horrorosa de hospital do meu corpo e me limpa com esponja e sabonete. Ingrid é tão ética em sua função que se recusa a limpar os meus seios e sexo comigo acordada. Ela para e me olha, entregando a esponja em minhas mãos repousadas sobre a barriga.

— Limpe as suas partes íntimas, você já está acordada e consegue mexer os braços, não?

— Até minha irmã chegar eu estava bloqueada. O que foi que me deu além da morfina aquela hora? — Pergunto a ela e Ingrid se vira para não olhar meu corpo.

— Vitaminas. Estou fazendo isso há alguns dias, mas aviso que elas serão substituídas por uma alimentação equilibrada a partir de amanhã.

Termino o banho e entrego a esponja a ela. Ingrid puxa uma toalha e me seca antes que eu congele. Me veste com roupas novas que já não são mais as de hospital e reclamo novamente das constantes dores nas costas. O que havia acontecido com as minhas costas para arderem tanto? Ingrid sabia, mas preferia que eu descobrisse por conta própria. Ficamos quietas novamente e ela termina seu serviço. A cama está novamente em posição reta, estou deitada, exausta do colar cervical e tento virar o rosto para reclamar.

— Quando vão tirar isso de mim?

— Quando começar a se comportar. — Há um sofá cama diante de onde estou e ela ajeita para se deitar. Finalmente percebo que Ingrid veste um pijama branco felpudo e veio pronta para descansar. Ainda é cedo, porém o remédio fará efeito e o sono vai me derrubar mais uma vez por muitas horas.

— Já me sinto bem.

— Só vou acreditar quando ver você de pé, e eu não acredito que esteja bem o suficiente para se aguentar de pé. — Ela se deita e desliga a luz do abajur. — Boa noite, Regina.

Não respondo. Olho para o teto, fazendo esforço para pensar que Emma está bem e luto muito até me convencer de que o pior não aconteceu. Só assim consigo dormir.

O breu do sono se dissipa pela manhã chuvosa que escuto quando minha consciência volta. Gotas caindo firmes no chão, um zumbido logo se torna um agradável som de tempestade. Por um momento achei que estava em Nova York, mas era o quarto da casa para onde fui levada. Abro os meus olhos, não parece ser tão cedo, mas a enfermeira não está no sofá cama. Aproveito a ausência dela para fazer um teste; Ergo um braço e vejo minha mão, depois o outro e a outra mão. Não há dor. Toco no colar endurecido que rodeia meu pescoço e me imobiliza. Eu sei que há uma forma de tirá-lo, é bem fácil se eu descobrir onde está o fecho. Eu vi em um filme desses de homens muito másculos a prova de balas que saem da cama de hospital para vingar a morte de alguém, geralmente a mocinha por quem eram apaixonados. Lembrando disso, coloco meus dedos por baixo, mas o fecho está na minha nuca e finalmente eu me solto. O colar se parte em dois e o largo, movendo meu pescoço para todos os lados possíveis com um grande alívio de me ver livre dele. Sem que eu perceba já estou sentada na cama e já me mexi demais para quem reclamava de dores ontem. Não sinto nada, absolutamente nenhum resquício, começando a pensar que todo o cuidado comigo e a exigência de uma enfermeira é uma grande bobagem exagerada. Se eu ficaria tão bem depois de duas semanas inconsciente, não havia necessidade de contratarem alguém só com o intuito de me cuidar.

Olho minhas mãos novamente, toco minhas pernas, meus pés, me alongo, consigo fazer tudo. Estou nova em folha. Não há mais nada que me impeça de sair da cama, e ao me dar conta disso me viro pondo os pés no chão. Sinto o piso gelado e até esse momento é um motivo de comemoração. Levanto e caminho pelo quarto. Há um espelho circular numa das paredes e ali me vejo cheia de hematomas. Ainda consigo senti-los, mas não são tão doloridos quanto os das minhas costas. As costas! Bem lembrado. Me viro e puxo a camisa de modo que consiga ver pelo menos a metade e a imagem não é nada agradável. Estou repleta de marcas ou como pareciam de fato, cicatrizes grandes. Eu as vejo e de repente elas parecem acordar, ardem e a vontade é de arrancá-las de mim. São muitas, são cicatrizes profundas que tatuam minha pele. Sinto a textura de uma delas, uma que nasce ao meu lado e corre para o centro das minhas costas. Cicatriza devagar, é a que mais me dói. Não sei se foi boa ideia ter visto essas marcas, só sei que minha visão escurece e eu me lembro o que houve.

O mundo girou 360 graus e de alguma forma estúpida fui arremessada contra o vidro. Os cacos se espalharam pelo meu corpo e agora fazia sentido a dor abundante nas minhas costas, foi o lugar mais afetado. Antes elas do que meu rosto. Se todo aquele vidro tivesse atingido meu rosto, eu estaria desfigurada.

Volto ao presente e a chuva aperta lá fora. Caminho até as cortinas para abri-las e vejo que existe uma imensa vizinhança ao redor daquela casa. Telhados a perder de vista, todos idênticos como se só houvessem casas com a mesma estrutura no mundo. Perco tanto tempo parada diante da janela que não ouço a enfermeira voltar. Ela derruba algo que trazia nas mãos e o barulho me tira do transe.

— Regina?!

Talvez ela esteja espantada demais por me ver de pé. Eu dou alguns passos e ajudo ela a recolher a sujeira que fez no chão. Aparentemente o meu café da manhã foi destruído por minha culpa.

— Como você...? — Ingrid recolhe as coisas do chão e me observa estupefata.

— Eu só consigo estar de pé. — Respondo e entrego a bandeja a ela.

Ela me olha de cima a baixo, gira nos pés e sai do quarto. Dois minutos depois ela retorna.

— Pode vir comigo?

Acompanho Ingrid pelo corredor e no final dele me deparo com o cercado de madeira e uma escada começando dali, mas quem está lá embaixo me olha com grande surpresa por me ver de pé. Meus pais, Zelena e o marido, Robin.

Demoro para sair do lugar e todos concluem que não consigo descer as escadas sozinha. Cora quase se dispõe a subir, mas faço um sinal com a mão para que evite. Desço um degrau de cada vez, estou fraca, sinto pelo jeito como minhas pernas tremem. Estou pálida também, com olheiras enormes e talvez seja isso que esteja espantando tanto meu pai.

— Está tão magra, tão frágil. — Diz ele, se aproximando de mim.

— Henry, Regina está aqui há apenas uma semana. — Cora põe sua mania de segurar meu rosto em suas mãos em prática e me faz sentar.

— Gostaria de tê-la visto antes de ontem, Regina. Você se aborreceu e não quis mais falar com ninguém pelo o que soube. — Diz ele.

— Antes de ontem? — Não entendo, não fazia sentido o que ele dizia se acordei somente ontem.

— Sim, querida, antes de ontem. Você dormiu por dois dias seguidos. — Mamãe explica.

— Mais dois dias? — Ainda estou sem entender.

— E pelo visto foi o suficiente para ficar completamente bem. — Zelena se desgruda de Robin e me olha. Ela chama Ingrid. — Ingrid, traga o café da manhã dela, acho que a minha irmã já consegue se alimentar sozinha. — E volta a me olhar.

— Sim, senhora. — A enfermeira sai, indo buscar uma nova bandeja com café da manhã, já que acidentalmente fiz ela derrubar a primeira.

Estão me olhando, todos sem exceção, abismados com minha recuperação súbita. Papai se senta ao meu lado e observo o quanto envelheceu. Fazia muito tempo que não o via, eu sentia falta dele principalmente, mas ao mesmo tempo era bom estar longe e não conviver com eles. Nunca soube explicar minha relação de filha com os Mills, pois talvez fosse apenas uma forma de agradecer o acolhimento. Por vezes eu parecia mais filha deles do que Zelena, e em outras ocasiões ela era a filha legítima. Faltava algo entre nós, faltava eu perder o medo e me deixar ser cuidada por Cora quando ficava doente ou deixar Henry me contar uma história antes de dormir. Eu não deixava que nada disso acontecesse e me arrependo hoje.

De fato eu me sentia fraca, a sensação de estar bem passava e precisava me alimentar. Ingrid apareceu com o café da manhã e pacientemente me serviu. Me incomodava a forma como me olhavam, com preocupação exagerada, como se eu fosse uma criança de vidro prestes a se quebrar em pedaços. Não avanço muito no omelete tremendamente bem feito, nem no suco de uva, doce demais para o meu paladar.

Robin, o marido de Zelena, me observa com os braços cruzados, aparentemente em choque. Sem perder tempo, eu me levanto para enfrenta-lo.

— Que ideia ridícula foi essa? Você não tinha o direito de me tirar de Nova York sem a Emma.

— Não foi uma ideia somente minha, Regina. — Ele se defende.

— Ah não? E foi de quem? Da Zelena? Ela sabia da Emma, ela sabia que eu não podia deixa-la sozinha!

— Quem é Emma? — Henry pergunta sem se levantar.

— Regina, pare já com isso! Nós não podíamos trazer a Emma, eles descobririam onde você ficaria escondida. — Zelena volta para o lado do marido.

— Vocês não entenderam, eu prometi que deixaria Nova York com ela, nós planejamos ficar fora da cidade diante das ameaças, ela viria comigo.

— Os homens que procuravam por você estavam de olho nela, assim como nós do FBI. Eles sabiam de tudo, eles vigiavam ela e sabiam quando estava com você, se deixassem Nova York juntas as duas iriam morrer. — Robin disse, tentando manter a calma. O sotaque britânico e excesso de vaidade dele me incomodavam e Zelena ia saber disso provavelmente nesse momento.

— E para que serve a porra do FBI?!

Minha voz sai autoritária, cruel.

E, para o meu espanto, o silêncio se fez. Meu coração ferve por dentro, ofego, canso depressa demais e sinto que vou desabar a qualquer momento, mas tenho que continuar, tenho que entender o que estava acontecendo.

— A... A... Achamos que tínhamos eles na mão. No dia em que sofreu o atentado, nós intercedemos dois deles infiltrados na firma de advocacia onde você trabalhava. O outro havia alugado uma sala no prédio comercial do seu escritório e era o segundo passo ir atrás dele, porém chegamos tarde. Admitimos o erro e o melhor que pensamos foi em trazê-la para longe. Seus pais providenciaram essa casa e por enquanto é aqui que você vai viver. — Ele começa gaguejando e se recupera depois. É bastante sucinto na resposta e deve estar pensando que eu compreendo.

— Eu não vou viver em merda de casa nenhuma! Vou voltar para Nova York e ir para bem longe com Emma!

— Quem diabos é Emma? — Papai persiste em saber.

Cora faz um sinal nervoso com as mãos, pedindo que acalme os ânimos, mas não me impede de responder a pergunta com firmeza.

— Emma é a minha mulher!

Outra vez acontece aquele silêncio tenso. Ninguém esperava minha ousadia em revelar quem era Emma. Minhas mãos tremem, meu corpo treme de forma abrupta e Ingrid me socorre, envolvendo os meus ombros com uma roupa de lã. Não há respostas que Robin possa me dar, nenhuma delas vai me convencer. Seria uma covardia grande acusa-lo de ser omisso com Emma quando ele poderia estar certo sobre nós duas corrermos perigo. Ainda assim não acho justo, não estou completamente conformada nem quero estar. Sem que eu perceba volto para o andar de cima e o quarto chorando. Ingrid me acompanha e me ajuda a deitar na cama. Ela nada diz, como se soubesse que quero ficar sozinha. Com a paciência de um monge, ela se senta perto da cama e espera enquanto minhas lágrimas finalmente descem pelo rosto sem controle.

Penso em Emma, na forma como acabei revelando sua importância, a palavra “mulher”. É muito mais do que dizer amante, namorada, é muito mais íntimo e pessoal e, portanto, diferente. O que se passou na cabeça dos meus pais? Eu não precisava ser tão rude com Robin e Zelena àquele ponto. Mas admitir que Emma estava completamente perdida sem mim é tudo o que me atormenta. Como vou sair dessa casa? Sem saber para que lado fica a estação rodoviária ou o aeroporto e pior, sem um tostão. Não posso simplesmente chegar e dizer: Olá, sou Regina Mills e quero uma passagem para Nova York, há alguém a minha espera. Não, não há. Ela no mínimo pensa que estou morta e se definha na tristeza de ter me perdido.

Minha cabeça dói, eu já não tenho lágrimas e nem Ingrid tem mais pena. Ela levanta da cadeira onde estava sentada de braços cruzados, pensativa. Prepara um remédio que eu sei para o que é. Viro minha cabeça e ela está com um lenço na mão. Sem pedir licença ela limpa meu rosto, seca minhas lágrimas sem questionar nada. Meu choro se converte em pequenos soluços que cessam quando olho para ela, tão calma e paciente. Ela torna a pegar o copo com água e o remédio.

— Vai me fazer dormir mais? — Pergunto entre um soluço e outro.

— Não é um sonífero, é um calmante. Beba.

Obedeço e antes que eu reclame com ela que aquilo me dava sono de qualquer forma, estou cochilando. Quando volto, continua chovendo lá fora, mas o que me faz despertar não é o barulho da chuva. Deve ser noite, meu pai e minha mãe discutem algo próximo ao quarto onde estou e posso ouvi-los.

— Deixe-me falar com ela, Cora.

— Não brigue com ela.

— Não farei isso, ela ainda está frágil.

— Vou ficar bem aqui e se ouvir vocês brigando, eu entro.

A porta se abre e meu pai faz um sinal de calma com uma das mãos para mamãe. Ele entra sorri desconfortável a princípio e chega com as mãos no bolso.

— Querida, como se sente?

Respiro fundo e mexo a cabeça em negação.

— Sinto muito pela... Por... Quem quer que ela seja para você.

Ainda estou quieta e não pretendo dizer nada enquanto eu não me sentir disposta a tal. Deixo meu pai sem jeito, sem saber por onde começar e como me dar coragem. Acho que ele não pensou que talvez eu não quisesse conversar.

— Faz tempo, não? — ele puxou a cadeira e se sentou ao meu lado. — Faz tempo que não conversamos, faz muito tempo mesmo, filha. Senti sua falta. — Ele me olha, estende a mão e segura, embora eu esteja fria e com um nó insuportável na garganta. — Na verdade acho que nós nunca tivemos essa conversa e eu me sinto um péssimo pai por conta disso. Sei muito pouco sobre você, Regina, não tenho notícias suas com frequência desde que foi embora de casa. O que foi que fiz para você não gostar de mim? Faltou alguma coisa? Foram as viagens de trabalho? As ausências nas suas comemorações da escola?

Papai era sincero e calmo, não me obrigava a responder as perguntas dele, mas eu sabia o que ele estava falando. Devia muitas explicações, só não sabia como dá-las e nem queria me redimir. Era um problema interno, algo que eu jamais saberia resolver sem ajuda. Talvez se eu tivesse Emma comigo ali, do meu lado, ela me empurraria e a resposta que meu pai merece ia aparecer como mágica. Mas ela não está aqui e eu não tenho forças para argumentar, só agredir.

— Assim que eu me sentir bem, vou embora, pai. Não posso ficar aqui.

— Querida, você ainda não pode sair dessa casa.

— É tanta certeza assim de que serei assassinada?

É a vez do meu pai respirar fundo.

— Precaução, Regina. Se não tiver, quem terá por você?

— Eu sei me cuidar.

— Se soubesse de fato não teria quase morrido em um atentado. Você deve muito a sua irmã e Robin. A decisão deles de trazer você para cá foi a mais correta.

— Evite falar da Zelena e do Robin, eu não quero saber de nada. Eles erraram, eu não devia estar aqui.

— Até quanto vai resistir, Regina? Até buscarmos sua Emma?

— É, até me deixarem busca-la, ou melhor, até me deixarem voltar para resolver o mal entendido.

— Não existe mal entendido. No momento certo, o FBI vai contatar essa mulher.

— Pai, não é tão simples. — Fecho os olhos e os aperto, a voz volta a embargar.

— Oh sim, claro... Agora faz sentido. — Diz ele de repente. — Está com medo de que exista outra pessoa em seu lugar.

— Não — Sussurro. — A Emma... Ela precisa de mim.

Travo, não consigo explicar as razões para o meu desespero.

— Err... Henry, você não sabe, mas a Emma tem alguns problemas sérios. — Cora não resiste e entra.

Papai junta as mãos e ergue o rosto para a esposa.

— Que problemas são esses? — Ele me observa de relance.

— Vícios. Sua filha está ajudando uma mulher com vícios e por isso ela quer tanto voltar. Ao que parece, Regina tem dado assistência a Emma desde que se conheceram e as duas mantem um laço afetivo. Se você não entende, eu posso tentar explicar...

— Não, não é necessário. — Henry Mills a interrompe. — Isso é verdade, Regina?

— Sim, é verdade. Eu sei que isso é a maior loucura que eu já cometi na minha vida, mas eu não sei porquê escolhi levar essa mulher para casa. Nos envolvemos, foi algo fora do meu controle. Ela ia tão bem, se tratando, se tornando a melhor pessoa possível e aqueles desgraçados estragaram tudo. — Volto a soluçar.

— Isso não ficará barato, meu anjo, nós prometemos que não. — Diz mamãe.

— Mas enquanto isso não acontece quem estará lá por ela? Quem vai dizer que a ama e que precisa dela bem? Hein? Vocês sabem quem estará no meu lugar? — Pego os dois em uma grande incógnita. Mesmo assim, meu pai não abre mão do que acha certo.

— Nós fizemos todas essas coisas por você, Regina. Nós mudamos a nossa rotina por você, estamos quase exilados nessa cidade e você, pela sua segurança, também ficará e isso é uma ordem. Nós não queremos perder uma filha.

Cora concorda e continua a fala de Henry:

— Seu pai tem razão, nunca quisemos perder você. Nós não erramos te trazendo para cá, muito menos erramos com a sua... Ora, essa mulher com quem tem um relacionamento, Emma, é esse o nome dela, não é? — Paro para prestar atenção em Cora e seus cabelos acaju me parecem desbotados, ainda assim é uma bela mulher com charme e elegância rara. — Nós sentimos muito que tenha acontecido dessa forma. Foi para o bem dela também, entenda.

Papai estende a mão outra vez e aperta meus dedos sem força. Eu não consigo sequer olhar os dois nos olhos sem me sentir péssima, então os evito. Cora toca o ombro de Henry avisando-o para saírem e ele me solta com tristeza.

Quando eles fecham a porta, passo as mãos pelo rosto e por alguma razão repentina minhas dores nas costas voltam a acontecer com intensidade. Acho que preciso chamar Ingrid, mas quando penso em apertar o primeiro botão de um controle que encontro ela aparece. Está com a roupa branca de enfermeira e os cabelos presos em coque.

— Como está se sentindo? — Ela retira um aparelho de pressão do armário. Manuseando o objeto, converso com ela.

— Como você acha que estou?

— Pode ser que esteja bem ou muito mal. Sente dor em alguma parte do corpo?

— Sinto dores nas costas, mas não são apenas dores, é ardência.

— Porque foi a área mais afetada do seu corpo. A parte de trás do seu corpo foi a que sofreu mais danos quando você foi arremessada contra o para-brisa. Por algum milagre não teve tantos cortes no rosto, mas há muitas marcas nos ombros e atrás. — Ela me senta na cama, levanta a camisa que uso e analisa.

A enfermeira volta ao armário da parede e tira de uma bolsa um vidrinho com uma espécie de creme. Ela usa água morna e algodão, depois espalha aquela coisa por cada cicatriz. Seguro a camisa pela frente e espero. Pode ser o momento certo de arrancar algo dela.

— Há quanto tempo trabalha como enfermeira?

— Quinze anos. — Ela responde.

— E quando começou a trabalhar para os federais?

Ela para o que está fazendo e me olha com receio.

— Não posso falar mais do que o essencial. Por favor, não faça perguntas que não posso responder.

— Não pode ou não quer responder?

Acho que incomodei Ingrid ao ponto de aborrecê-la. Ela se vira e me veste novamente, me faz tomar um remédio e me ajuda a deitar. Ela evita me olhar, mas parece que tem grande dificuldade, pois está nervosa.

— Você precisa jantar, eu vou trazer o seu prato. — Observo a enfermeira deixar o quarto, planejando minhas próximas perguntas. Eu preciso de pistas, preciso urgentemente de uma esperança ou forma de falar com Emma.

Me perco e demoro, sofrendo com as consequências das minhas reflexões, entendendo que se eu não agir nunca vou voltar para ela. Pelos Mills eu jamais voltaria enquanto não tiverem certeza de que é seguro, então não há outra forma de deixar a casa se não for por conta própria.

A enfermeira volta com a bandeja.

— Pensei que fosse responder a minha pergunta, Ingrid. — digo enquanto ela coloca a bandeja sobre o apoio para me servir.

Não toco na comida até ela decidir abrir a boca, torço muito para isso acontecer e talvez ela se sinta movida a falar. Ingrid respira profundamente e mexe a cabeça.

— Não posso. Se fizer mais perguntas, você vai se arrepender. — Diz ela, quase sem graça.

— O que mais estão me escondendo? Você sabe de algo, não sabe? — Empurro a bandeja e a encaro bem antes que ela fuja de novo. — Não vou morder, Ingrid, eu apenas preciso saber o que está acontecendo.

— Tudo o que eles fizeram foi para ao seu bem, não há mais como mudar os fatos.

— Eu já entendi que não há como mudar a merda que fizeram, mas tudo isso está me cheirando mal e eu não consigo confiar no Robin nem na Zelena, minha própria irmã. — Paro por um momento e a seguro pelo pulso. — Por favor, se você sabe de algo, qualquer coisa, não me esconda.

Em algum momento toco na ferida de Ingrid e seu nervosismo fica ainda mais evidente. Ela põe as mãos nos lábios, anda pelo quarto e coça a cabeça por baixo do coque feito no alto.

— Você pode ter acordado há apenas três dias, muito porém eu te conheço há duas semanas e não quero estar enganada. Se você souber, imagino que não vá reagir bem.

— Então existe alguma coisa, eu estou certa?

— Sim, existe. — Ela se virou. — Só peço que confie em mim, estarei do seu lado o tempo todo.

— Como poderia confiar em alguém que conheço tão pouco?

— Apenas confiando na minha palavra, eu sei o que estou fazendo.

— Estou morta, não estou? É isso que o FBI queria. — Chego a brilhante conclusão de súbito. — Emma está pensando que estou morta, assim como todo mundo em Nova York, todo mundo fora dessa casa. Não adiantaria voltar, todos me odiariam porque morri e pensariam que menti. Não faz sentido voltar porque eles querem que eu comece uma vida nova, querem que eu seja uma nova pessoa.

Uma expressão de medo se forma no rosto de Ingrid e ela cala, indo até o armário para revirar uma mala que enxergo de longe.

— Zelena estava certa quando disse que você era muito inteligente e perspicaz. Eu sei que isso devia ter sido destruído quando ela me entregou as suas roupas, é que por incrível que pareça foi a única coisa intacta que encontramos com você.

A loira volta com algo na mão e com aflição me entrega. É a foto de Emma que ganhei dos pais dela. Troco olhares com Ingrid e não consigo explicar minha emoção naquele instante. Guardo a foto comigo, olho para ela vendo o rosto lindo de Emma que não posso tocar, eu sofro por isso.

— Ela pensa que estou morta... — Aperto os olhos e faço que não muitas vezes.

— Também não acho certo o que fizeram com você, mas pense se fosse o contrário. Você estaria morta de fato. — Ela percebe minha comoção ao olhar para a foto de Emma. Mal consigo agradecê-la, apenas olho a foto. — Pensei em rasgar a foto como sua irmã mandou, mas você repetia o nome dessa Emma tantas vezes. Supus que fosse a pessoa da foto e pensei que ia gostar de ter quando acordasse.

— É claro que eu ia gostar. — Murmuro.

— Não houve um dia sequer que não dissesse o nome dela.

— Eu nunca devia ter ido trabalhar aquele dia.

— Por favor, não se culpe, vai fazer mal.

— Eu nunca devia ter saído de casa sem ela. Por que não esperei? — Lamento.

Sem ter o que me dizer para consolar minha tristeza, Ingrid para e alisa a nuca. Pouco tempo depois, ela faz uma pergunta que eu juro querer ter a resposta na ponta da língua.

— O que você vai fazer quando tudo isso passar?

— Não sei. Eu não consigo saber, eu só consigo ver Emma pensando que estou morta.

Notas finais
As perguntas são inúmeras para Regina e para vocês, então vou acalmar esses corações aflitos com breves respostas. Zelena mandou forjar a morte de Regina? Sim e a ideia foi dela; Ela irá se arrepender? Sim; Emma vai ficar sabendo que Regina está viva? Vai, só resta saber se ela vai reagir bem. Espero que tenha agradado de alguma forma. Se você gostou ou quer fazer uma crítica fique à vontade, não custa nada. Voltarei com a sequencia o mais breve possível. Não desistam dessa fanfic. Um abraço forte e fiquem bem.