For the love of her

12 Do outro lado do rio Tâmisa


Notas iniciais
Olá, amigas leitoras. Vamos saber o que Regina fez para encontrar Emma em Londres e mais alguns desabafos da nossa advogada favorita. Espero que agrade. Boa leitura.


Londres nunca foi um lugar que me chamava a atenção como a da maioria das pessoas no mundo. Na verdade, sempre enxerguei Londres como uma capital musical, até porque a Inglaterra sempre nos presenteou com excelentes cantores, muitos dos quais eu sou fã. Mas fugindo do fato de eu não ver uma graça imensa em Londres, eu precisava admitir que essa cidade é muito diferente, bonita e tem as pessoas como uma atração à parte. Talvez os pais de Emma quisessem o bem dela trazendo-a para cá, inscrevendo ela em uma das mais de mil universidades desse país, dando uma vida de princesa que ela se recusava a ter. Era por isso que eu estava aqui, para salvá-la do egoísmo dos pais em pensar que deveria a qualquer custo assumir os negócios da família. Ela sempre me disse que não queria ser “o pau mandado” dos dois, não fazia o tipo executiva e nem tinha talento para economia. Isso me lembrava um pouco da Regina que decidiu estudar Direito e não o que meus pais queriam que eu fizesse.

Antes que eu chegasse a essa conclusão, embarquei no primeiro voo da madrugada, o único mais acessível que Belle encontrou e me encaixou. Não foi apenas essa tarefa que dei a minha secretária, ela ainda precisava me enviar tudo o que conseguisse encontrar sobre os Swan, quem eram, o que faziam e os possíveis endereços para onde levariam Emma.

O primeiro passo a dar quando chegasse a Londres seria deixar as malas no hotel e fazer o que fiz quando Emma ainda era desaparecida em Manhattan, sair de canto em canto mostrando sua fotografia para as pessoas na busca de alguém reconhece-la, mas nesse caso isso seria impossível. Os Swan eram mais inteligentes agora, uma vez que já imaginavam que a filha faria de tudo para escapar.

Chego tarde no dia seguinte e estou muito cansada para sair pelas ruas no frio Londrino, e eu particularmente estou muito feliz de ter trazido um dos meus sobretudos. Apesar da preocupação com Emma e algumas lembranças embaraçadas do que aconteceu conosco desde o dia em que a coloquei dentro do meu apartamento, uso o momento para refletir o que me leva a voar tão desesperadamente até outro país para resgatar uma mulher que até outro dia não significava nada para mim. Qual era o tipo de relação que eu tinha com Emma? Eu não sabia ou não queria entender. Porém, já bastava ser relutante quanto ao que Emma representava, sendo que eu havia permitido sua aproximação, me entregado ao corpo e as manias, os cheiros e os vícios que não eram os errados dela. Por que eu continuava tão cabeça-dura quando eu podia ser mais flexível para aceitar que ela também representava tudo na minha vida? E talvez por causa disso, por aceitar o meu destino, aceitando que aquele incomodo no peito toda vez que me lembrava do seu rosto sobre meus seios era mais que paixão, eu notava que não havia mais saída.

Enquanto eu quisesse me privar dos erros, mais errada eu estaria em me defender. Se realmente Emma era tão importante na minha vida como eu não admitia, por que é que eu não iria busca-la? Até onde eu chegaria para manter o meu ego? Não era preciso mais ser a mulher unicamente interessada em compromissos de uma noite, eu devia quebrar a carapaça e me abrir para o que essa mulher queria me oferecer. Deixar o orgulho de pensar que dois meses era pouco tempo, sendo que fora tempo suficiente para querer ter ela dentro do meu apartamento pelo resto da minha vida. Eu não devia mais me questionar o que me levou a pôr Emma dentro de casa, mas sim, o que levou Emma a aceitar viver comigo. Era ela quem devia responder as perguntas, eu quem questionaria a partir de então.

Estava pensando em Emma com carinho, percebendo que já não era mais uma obsessão encontra-la no bonito entardecer Londrino. Eu iria encontra-la, eu sabia que iria, e isso de repente era uma certeza. Embora aquele tempo olhando pela janela do hotel tenha servido para divagar comigo mesma, a espera era uma aceitação sobre mim: acho que sou capaz de amar alguém novamente.

O telefone no quarto do hotel toca me despertando da janela quando Londres começa a escurecer. É Belle com as informações que eu precisava saber do casal Swan.

— Eles possuem um apartamento em Mile End, talvez seja um Loft na verdade. Os pais do sr. Swan são naturais dessa região e por esse motivo ele mantem uma residência na cidade.

— Certo, Belle, mas o que garante que estejam nesse bairro? Como descubro se Emma está com eles?

— Muito simples, eu consegui o endereço do apartamento. Há um shopping de rua na região, provavelmente um dos vendedores deve saber algo sobre eles.

— Então vou precisar caçar Emma a moda antiga novamente.

— Há alguma foto dela com você?

— Sim, uma que os próprios pais dela me arranjaram.

— Regina, posso perguntar uma coisa? Não fique ofendida, por favor.

— Claro.

— Está gostando tanto assim dessa mulher para atravessar o oceano?

— Eu... Talvez eu esteja gostando mais do que deveria. Depois conversamos, Belle. Muito obrigada pelas informações.

— Por nada, na verdade foi bem fácil achar informações sobre os Swan. Boa sorte.

Desligo e começo a me preparar para uma jornada que vai começar cedo no dia seguinte.

Estando do lado oposto do Rio Tâmisa, eu procuro um taxista que me conduza até o bairro dito por Belle no telefone. Chego a este lugar, um bairro de Londres que poderia facilmente se desvencilhar do restante da cidade pelo estilo em demasia parecido com os do século dezenove. Custo algum tempo para achar o tal shopping de rua, ou feira, como queira chamar, onde provavelmente posso obter informações sobre Emma. É uma rua extensa, coberta por condomínios pelos lados e o constante burburinho que os fregueses e turistas fazem por conta das lembranças da cidade que podem comprar por uma pechincha. No meio de tantas pessoas, pareço invisível, mesmo trajada com um belo sobretudo negro que me deixa com a aparência de uma detetive.

Enquanto ando entre as barracas e pessoas, um vendedor, de sua tenda, me faz um sinal com a mão, me obrigando a se aproximar.

— A senhora tem cara de quem possuiu bom gosto. O que me diz de Elton John? Sabia que ele era amigo pessoal da nossa Princesa Diana? — fala com o charmoso sotaque inglês e puxa dentre uma fila de discos de vinil um álbum compacto do cantor mencionado. — Trinta libras e o disco é seu.

— Gosto do Elton John, especialmente quando ele canta Blue Eyes, mas o senhor me ajudaria mais em outro assunto. — puxo a foto de Emma de dentro do sobretudo e mostro a ele. — Já viu essa moça andando pela feira?

O homem estreita os olhos, presta muita atenção na mulher que lhe é mostrada e coça a cabeça. — Se a senhora levar uma coletânea do Tears for Fears posso pensar se vi ela por aí ou não.

Entendo o recado, era preciso molhar a mão dele para fazer com que abrisse a boca.

— Está bem, você a viu por aqui? — tiro uma nota de cinquenta do bolso e entrego dobrada a ele, mas não vou levar o disco.

Ele guarda a nota no bolso primeiro e checa para ver se não estamos sendo observados.

— Jamais esqueceria esses olhos. Ela vive em um desses apartamentos aqui em cima, e quando desce está sempre acompanhada por dois homens. Eles a seguem até a loja de conveniência que há no outro quarteirão.

— Não está mentindo, está?

— Oh, de forma alguma, my lady. — ele fala e o sotaque de repente parece mais cômico do que charmoso.

— A que horas isso acontece?

— Costuma variar, mas hoje ela ainda não desceu.

Olhei para o homem e ele não era um típico inglês dos quais fazemos piadas nos Estados Unidos, ele era um homem de cabeça raspada, roupa bastante descolada como as que John Lennon usara antes de morrer. Nesse momento ele estava sendo meu salvador me fornecendo poucas, mas ricas informações sobre Emma. Porém, eu ainda sentia dúvida se ele não inventara uma história apenas para ganhar dinheiro. Mesmo assim, algo me dizia que eu podia confiar nele, isso me leva a assentir. É quando uma turista se aproxima da tenda e ele volta sua atenção a ela.

Quando olho para o lado, uma figura de moletom e capuz anda devagar entre as pessoas acompanhada de dois pilares altos as suas costas poucos passos atrás dela. Não consigo ver seu rosto, mas eu sei de onde veio aquele moletom. Era um dos que eu havia comprado para Emma, ou seja, era a loira embaixo do capuz.

Me viro com pressa para a tenda antes que ela me reconheça ao se aproximar. Preciso pensar depressa em uma forma de roubá-la dos seguranças. Aí estava uma atitude que eu não esperava dos Swan: dois brutamontes no encalço de Emma, tentando assegurar-lhes de que ela não escaparia.

Para minha sorte, Emma para em duas tendas antes de se aproximar de onde estou e a ideia me surge com o piscar de olhos. Agarro o homem da tenda de discos pela camisa, coisa que assusta a cliente ao lado, e peço o favor ao pé do ouvido.

— Você já tem cinquenta libras na mão, agora vai fazer uma coisa para mim...

Explico rápido os três passos para ele em trinta segundos, tempo suficiente para Emma sair da tenda mais próxima. Me mantenho de cabeça baixa e o resto é com o cara.

— Moça! Moça! Venha, se aproxime, eu tenho os melhores discos dos seus maiores ídolos. O que me diz dos Stones?

Emma custa a entender que é com ela e quando se aproxima está com um dedo sobre o peito. Ela tira o capuz e os cabelos aparecem mais curtos pouca coisa. Vejo tudo de canto de olho. Eu estaria mais agradecida se não tivesse esquecido os óculos escuros em casa, mas na pressa eu mal havia feito as malas. Os seguranças param atrás de Emma, atrapalhando o caminho das outras pessoas de certa forma, mas em nenhum momento desgrudam os olhos dela. Preciso agir rápido e fazer com que ela me reconheça.

— Ora veja, parece que você tem um David Bowie de 1980 — digo, puxando da pilha um disco sorteado.

Foi a forma que encontrei de chamar a atenção de Emma e ela olha para o lado imediatamente, ficando abismada ao me ver. E nesse susto eu faço o sinal para o homem agir. Tudo acontece depressa. O vendedor desarma o fio da tenda, que cai sobre nós, dando espaço para escaparmos. Seguro na mão de Emma antes mesmo dela conseguir falar e saio por trás, antes que os seguranças consigam se desembolar para procurar a loira. É a deixa perfeita. Enquanto eles ficam às cegas, corro levando Emma comigo por entre a feira e as pessoas. Não tenho muito tempo para pensar, muito menos ela, então quando saímos corro com ela mais dois quarteirões até uma viela. É longe e àquela altura os dois seguranças estão atrás de nós, mas não fazem ideia para onde a levo. Olho para todas as direções, não há nada, ninguém que esteja nos vendo.

— Meu Deus, você conseguiu! — Emma me agarra, me vira para ela e me toca como se estivéssemos separadas há anos. — Você veio! Eu não tô acreditando! — ela diz, esbaforida, cansada da corrida, também atenta se ninguém está vendo a gente.

Procuro um pouco de ar e a seguro.

— Temos que ir para o hotel onde estou hospedada.

— Tem uma estação de metrô aqui perto, será que a gente consegue chegar? — ela fala depressa.

— Não! Vamos de taxi, os seus seguranças com certeza vão procurar você por lá.

— Então por que não chama um Uber?

— Boa ideia, mais seguro. — digo, sacando o celular do bolso.

Nós conseguimos chamar o Uber, atravessar o Tâmisa e finalmente o hotel. Emma entra comigo no quarto, só esperando que eu tranque a porta para pular no meu colo e se atracar com a minha boca.

— Hey... Calma... Calma. — peço, tentando contê-la, achando graça da reação dela.

— Você foi incrível! Eu sabia que viria atrás de mim. — ela sorri e se acalma.

— E se eu não viesse o que faria?

— Eu morreria. — ela brinca e se joga para trás, caindo a cama.

— Você não tá exagerando, tá? — me livro do sobretudo, sinto calor depois de correr e escapar com Emma, mas por baixo ainda há um quilo de roupa e tento me desfazer do máximo que posso.

— Até parece que você não me conhece. — diz ela, se sentando e tirando os sapatos. — Exagero e ansiedade são meus sobrenomes.

Me ajoelho apoiando os cotovelos e braços na cama, olho para ela mais tranquila pela primeira vez desde a corrida.

— Foi uma fuga e tanto, não? — ainda ofego.

— Foi um barato! — Emma morde o lábio e me beija de novo. — Que alívio... Ainda estou assustada...

— Como foi que trouxeram você para cá?

— Quando cheguei na universidade havia um carro com meu pai esperando na porta. Eu o vi e fui pedir para darem um tempo, mas minha mãe estava chorando – de mentira – lá dentro e eu fiquei com pena. Fui ver o que era e quando olhei para trás eu estava trancada com ela. Eles planejaram tudo; Meus documentos, as passagens de avião, algumas roupas, os seguranças, mas convenci os dois a ir ao seu apartamento pra me deixarem pegar a mala. Eles me deram dois minutos, o tempo que tive para subir e escrever o pedido de ajuda. Aqueles dois caras ficaram na minha cola o tempo todo. Meu pai contratou os dois pensando que iam me vigiar, mas não contavam com você.

— Seus pais têm sérios problemas, Emma.

— Eu sei, eu estou convicta disso. — ela me olha e suspira.

— Desculpe a demora. A minha secretária só obteve informações sobre os seus pais ontem pela noite, não seria útil sair em sua busca tão tarde.

A expressão no rosto de Emma é uma das coisas mais bonitas que presencio. Ela parece emocionada e tentada em dizer um “eu te amo”, mas se contêm, mesmo que seus olhos brilhem e deixem claro o quão agradecida ela se sente. Penso se seria o momento certo de ter aquela conversa com ela, tratar do assunto que quero, mas eu ainda não tenho as palavras certas para dizer, nem sei como vou explicar ou definir.

— Foram os dois dias de espera mais longos da minha vida, eu tinha a certeza de que você entenderia o meu bilhete e viria me buscar. Isso quer dizer que não estou errada sobre a pessoa por quem me apaixonei.

— Emma, nós...

— Não peça mais desculpas, só me abraça.

Seus olhos suplicam por muito mais que um abraço, ela quer um beijo decente e intenso. Eu me ergo diante dela e toco seu rosto, sorrio, com meu coração disparado que posso jurar que Emma está escutando. Eu subo na cama, ela me recebe com seus braços e pernas, me derruba e é instintivo tudo o que acontece, é como sempre e é bom. Ela me permite tomar as rédeas, me deixa puxar o moletom, a calça, virá-la de costas e beijar seu corpo inteiro. Eu me desfaço do sutiã, da calcinha e Emma procura ser tão rápida quanto desabotoando minha roupa.

Há uma mescla entre a saudade e a vontade, quero beijá-la, mordê-la, alisá-la e ao mesmo tempo maltratar com carinho. Faço tudo isso, tentando ir por etapas, procurando seus olhos sempre, virando e vencendo a pequena guerra de quem fica por cima. Faz frio lá fora, porém esse é um detalhe que passa despercebido enquanto nos atracamos na cama, assim como costuma ser esse tipo de momento, quente, muito abafado ao ponto de nos fazer suar.

Preciso puxar seus cabelos, Emma me mostra seu rosto. Seus olhos estão assustados, abertos como dois faróis verdes para mim, é quando sua cabeça afunda com minha mão por baixo no travesseiro e os meus lábios deixam marcas em seu pescoço; Não há uma parte do corpo de Emma que eu já não tenha beijado, desde seus pés ao último fio de cabelo. Ela também já deixou as marcas de suas unhas por toda minha pele, retribuindo os carinhos exagerados, as marcas que ficavam até dois dias depois da transa e figuravam como um sinal de posse. Uma sendo da outra e quem visse pensaria que tinham dona.

— Senti sua falta... Senti tanto a sua falta...

Quando ela dizia que havia sentido minha falta em sussurros enquanto chupo o meio das suas coxas, eu lembro do momento em que a reconheci na feira. Só senti sensação como aquela uma vez na vida e tinha sido com ela na primeira vez em que nos encontramos. O que estava acontecendo? Seria essa minha entrega? Eu estava mesmo me rendendo sem pensar nas consequências? Acho que sim. Mas o mais curioso nessa história é que foi preciso eu sentir que perderia Emma para entender que também sentia a mesma coisa. E diferente do medo que eu senti quando desfiz meu romance com o primeiro homem que tive, esse medo era torturador, o medo da solidão sem ela. Não era o medo de viver sozinha, pois eu já era sozinha antes dela surgir, era o medo de nunca mais ver essa mulher e ser capaz de sentir necessidade de ter alguém como ela.

Emma afunda os dedos nos meus cabelos e faz pressão para que eu não pare de usar a língua. Ela vibra, grita, morre e renasce com um sorriso lindo de satisfação.

Quando acordo do breve cochilo que eu tiro, é tarde, já começa a escurecer e me dou conta que levei muito tempo na busca por ela do outro lado da cidade e o retorno ao hotel, até pararmos no quarto para conversar e fazer amor. Me levanto da cama, coloco um roupão e volto para cobrir o corpo dela. Emma dorme mais uma hora inteira e eu aproveito para dizer à Belle, por mensagem, que voltarei dentro de dois dias aos Estados Unidos. Suponho que Emma esteja com fome, então chamo o serviço de quarto com um banquete para nós duas. Ao me aproximar da cama, olho para suas costas, vendo os cabelos escorrendo pelo travesseiro e ombros. Ela está cheia de beijos feitos com meu batom espalhados na pele, me fazendo sorrir sem querer, mas estou acostumada a me pegar sorrindo por causa dela.

Acordando aos poucos, Emma se vira e me procura na cama. Sem achar ela abre os olhos e finalmente me encontra de pé.

— Por que não está aqui comigo ainda?

— Porque queria admirar de pé você dormindo.

Acho que ter dito isso surpreende Emma e ela fica sem reação.

— Fala sério, você deve ter se lembrado de ligar para o escritório, está sempre pensando em trabalho.

— Sim, é verdade, mas não tenho a firma como minha prioridade hoje. Avisei que ficarei fora essa semana, deixei claro que há algo muito importante que necessita da minha presença em Londres.

— “Algo muito importante que necessita da minha presença”, você fala de maneira tão sexy, sabia? O jeito... Eu gosto dele. — ela sorri.

— É do meu jeito sexy de falar que chama sua atenção? Não percebeu nada no que eu disse, não?

— Ah, sim. Eu entendi que está falando de mim e concordo. Eu só... Sei lá, eu tô me sentindo especial e não sei como retribuir. Sabia que viria me buscar, que ia aparecer logo e venho planejando o que te dizer desde ontem, só que eu na verdade não consigo dizer mais que obrigada. Então, se você espera o meu agradecimento, muito obrigada por ter superado as minhas expectativas e me deixar sem palavras basicamente.

Respiro fundo, as mãos estão dentro dos bolsos do roupão e existe um sorriso brotando nos meus lábios.

— Talvez eu comece a sumir com as palavras da sua boca mais vezes a partir de hoje.

— Que isso? Um desafio por te fazer atravessar o oceano?

— Digamos que sim.

Emma sente o estômago roncar, tomou apenas o café da manhã e há horas não come outra coisa.

— Desculpa mudar de assunto, é que eu estou faminta.

— Não se preocupe, já pedi o jantar. — Assim como mágica ouvimos a campainha do quarto e eu ergo as sobrancelhas. — Acabou de chegar.

Há uma mesa ao lado da janela onde fazemos a refeição. Emma olha para a rua de vez em quando, outras vezes para mim, comendo daquele jeito educado dela e espera terminar para falar.

— Não vai me perguntar se tive recaídas, se usei alguma coisa?

Limpo minha boca com um guardanapo de pano e respondo:

— Imagino que não tenha acontecido nada desse tipo.

— Você confia em mim?

— Sim, Emma, eu confio em você.

Ela está séria, mesmo assim relutante em falar sobre o medo de se descontrolar.

— Achei que fosse sentir vontade de colocar um cigarro na boca, mas não foi isso que aconteceu. Os seguranças, eles estavam comigo nas vezes em que eu saí, e no máximo eu fui até uma loja de conveniência ali perto de onde meus pais têm o apartamento. Comprei alguns cigarros, só não deu tempo de usar.

— Se não teve vontade de usar, por que comprou? — meu coração se aperta profundamente.

— Não era pra usar, tá?

— Eram para quê? Uma hora você me diz que não sentiu vontade de usar nada, agora me diz que comprou cigarros. Não entendo.

— Me deixa explicar, tá legal? — ela pede com as mãos. — Eu precisava sair, precisava ter uma justificativa pra ir na loja de conveniência. Cigarro é o único tipo de coisa que meus pais toleram que eu fume, mesmo de cara feia.

Coloco as mãos na testa, é exagero, verdade, muito porém, até um maço dos cigarros mais baratos me preocupavam.

— Tá bem, Emma. Eram só cigarros, eu não devia me preocupar.

— Desculpa.

— Tá tudo okay, deixa pra lá, você deve ter ficado nervosa, ansiosa.

— Estressada. — ela faz que sim com a cabeça, os cabelos antes para o lado agora caem por seus ombros novamente. — Não há diálogo que resolva o meu problema com os meus pais. Eles não aceitam que eu não sou o que eles querem.

— Que bom que tocou no assunto, quero conversar com eles amanhã, colocar um limite entre vocês.

— O que quer falar com eles?

— Digamos que eles precisam ouvir algumas verdades e já aviso que posso ofendê-los.

— Relaxa, eu tô de boa. Pode xingar o quanto precisar, se quiser eu ajudo.

— Provavelmente eles dois vão passar a me odiar mais ainda, mas não é possível que não entendam que você não é propriedade deles.

Emma concorda e abaixa a cabeça.

— Me sequestraram achando que iam me convencer a ficar longe de você, mal sabem que virei sua propriedade, não mais a deles.

Gosto do que ela diz e estico meu braço até o rosto dela, tocando e levantando seu queixo.

— Será que é apenas por minha causa?

— Duvido muito que eles fizessem o que fizeram se eu não estivesse morando na sua casa. A questão não é nem mais o preconceito com lésbicas, é ciúmes de ver a filha deles sendo feliz de novo sem precisar dos dois.

Talvez Emma tenha razão quanto os pais. O que acontece para os dois chegarem a um extremo é o fato de estarem com inveja e ciúmes. Mas deixo para confrontar os dois na tarde seguinte.

. . .

Emma faz uma ligação para casa de manhã cedo, descobre que está sendo procurada pela polícia Londrina e que seus seguranças me reconheceram, ou seja, os pais de Emma sabem que estamos juntas e automaticamente eu também estou sendo procurada. Ela os chama para conversarmos em um restaurante, diz que vai voltar para casa com eles, mas precisa que se encontrem naquele restaurante chique.

Chegamos muito tempo antes e quando os dois aparecem, Mary faz seu show particular ao avistar Emma. A loira fica de pé, séria, abraça a mãe, mas não dirige uma palavra a mulher, que quando percebe com quem Emma veio muda o semblante na mesma hora.

— Emma, minha filha, o que foi que aconteceu?! — ela está com as mãos no rosto de Emma quando me enxerga sentada no canto da mesa que escolhemos bem ao fundo do salão. — O que é que essa mulher faz com você?

— Sente-se, senhora Swan. — peço, mostrando dois lugares a minha frente, é quando David surge atrás da esposa e me olha também abismado.

— Você?! Teve a ousadia de vir com Emma.

— Não, eu não vim com Emma, foi ela que veio comigo, eu pedi gentilmente que ligasse hoje de manhã e os convidasse para um almoço, pois precisamos ter uma conversa. Os senhores por um acaso se esqueceram que sequestro é caracterizado como crime?

— Nós não sequestramos Emma, ela é nossa filha. — Margaret enfim se senta e me desafia.

— Levaram ela a força sem dar chance dela escolher ficar, ainda por cima impuseram que dois homens acompanhassem onde quer que ela fosse. — Emma e o pai se sentam ao mesmo tempo, um de frente para o outro.

— Olha só quem fala, a mulher que colocou uma drogada dentro de casa com falsas promessas para mantê-la de escrava. — Margaret usa sua arma ofensiva. — Estava fazendo mal a Emma, drogando a menina para ter sexo em troca.

— Isso não é verdade. — Emma diz entre os dentes.

A mãe de Emma empina o nariz, arregala seus olhos para a filha.

— Vai continuar defendendo a fanchona?

— O quanto for necessário! — Emma repete o gesto da mãe e a provoca com os olhos.

— Eu disse que seria uma ideia estúpida, Margaret. — David fala baixo após perceber que boa parte das pessoas no restaurante nos observa.

— Foi você quem começou. — eles trocam olhares. — Não seja hipócrita de dizer que não pensou em trazer Emma primeiro. — Ela volta a me olhar. — Se a senhora está tão interessada na vida da minha filha, por que simplesmente não deixa que ela fique, se forme e depois decida o que quer fazer?

— Porque o que a sua filha deseja é ficar longe de vocês, duas sanguessugas inconformadas. Será que não existe coisa mais interessante para fazer do que infernizar a vida dela? Vocês dois deviam me agradecer por dar uma segunda chance a Emma, sabem por quê? Porque não sabem diferenciar posse de escolha. Emma tinha o direito de escolher o que fazer.

— Então agora é errado querer que a filha siga o caminho correto? Nós sempre prezamos o melhor para ela.

— Me obrigando a cuidar de uma merda de dinheiro que você e o papai acham que têm. — Emma esbraveja.

— Emma, entenda uma coisa, se não houver uma pessoa qualificada para cuidar das nossas finanças, não haverá herança para você. — David se dirige a filha.

— Que se dane herança, que se dane! Eu não preciso depender de vocês pelo resto da vida, tá?

— Emma cansou de dizer as mesmas frases, cansou de pedir ajuda da forma certa. Por que acham que ela se drogava? Começou com vocês dentro de casa. Se tivessem pensado realmente no bem dela, poderiam evitar que ela chegasse ao ponto de ir embora. Estavam o tempo inteiro interessados no futuro, não necessariamente na filha dos senhores — complemento.

Margaret virou o rosto para a janela; Notei que estava com os olhos cheios d’água.

— Emma nos disse ontem que está apaixonada por você. — ela comenta, é como se um mar tivesse levado o sentido da vida naquele momento. — Qual foi a droga que você usou para corromper a minha menina, hein?

— Uma que a senhora com certeza desconhece. — digo de maneira irônica. — A minha intenção nunca foi raptar Emma para ter com quem transar todas as noites, acreditem. Era muito fácil arranjar alguém nos bares que eu frequentava, inclusive demorei muito para tocar em Emma com segundas intenções. Eu tive pena, quis colocá-la em uma situação confortável para abrir os seus olhos. Ela quis parar com o baseado, a cocaína, o crack porque quis. Agora estamos trabalhando juntas para que os males da abstinência não acabem com ela, há um terapeuta, alguém que sabe escutar o que ela tem a dizer. Não é trancafiando a sua filha que vai resolver o vício dela, é compreendendo, usando dos meios certos, dando escolhas, opções.

— Ah, foi isso que você fez? Deixou ela fumar na sua casa até que ela se cansasse e pudessem transar?! Ora, me poupe do seu discurso de heroína.

— E se foi isso mesmo que ela fez, mãe? E se ela me achou, me levou pra casa dela e se apaixonou por mim? O que você vai tentar fazer? Me levar pra China, me levar para o último lugar do planeta porque você não gosta de saber que ela me curou? O que que vai ser preciso a Regina fazer pra vocês entenderem que eu não quero ter essa vida que estão querendo que eu viva? — Emma já havia perdido a paciência.

— Não gostamos de você, Regina Mills. Nunca fui a favor de ir procurá-la, sempre achei a ideia tola, e, depois do que Emma disse ontem, passei a gostar menos da senhora. Não concordamos com o que disse. — David fala, cruza os braços e espera Margaret se manifestar.

— É verdade que nós esquecemos que Emma tem vinte e seis anos, passamos um pouco dos limites e impusemos muito, mas ainda acho que está errada. Quanto a você, eu não compreendo nem pretendo compreender o que fez ou o que vai fazer pela Emma. — dirigiu o olhar a filha. — Foi a nossa última tentativa, querida. Se é com essa mulher que quer viver, que seja feita a sua vontade. Agora, saiba que você não é mais nada nem de mim nem do David. Não temos mais filha.

Foi desse jeito, seca, baixa e friamente que Margaret deserdou a filha. David se levantou primeiro, ela saiu em seguida e os dois foram embora se olhar para trás uma última vez. Não se despediram de Emma, não esboçaram sequer um adeus. Não haviam mais os pais de Emma, ela era livre e órfã agora.

Naquela noite, a mala com suas roupas e pertences chegou ao hotel, David mandou entregar para a ex-filha, mas também não enviou nenhum bilhete acompanhado. Emma fingia não se importar, ficou calada o restante do dia, remoendo a conversa no restaurante e entendendo que não teria apoio de mais ninguém no mundo além de mim. Sugeri que fôssemos ao Madame Tussauds ou a qualquer outra atração da cidade, só que Emma já conhecia grande parte daqueles lugares, ela havia aceitado o luto de perder os pais e estava vivenciando.

Converso com Belle pelo telefone combinando o número do voo de volta e Emma ainda está de pé, olhando a janela.

— Voltamos amanhã no voo das onze e meia. Tudo bem pra você? — me aproximo dela e falo.

— Ótimo.

Tento encontrar uma forma de tirar Emma do choque. Pelo visto, ela não estava assim tão “de boa” quanto disse se conversasse com os pais.

— Quer falar sobre isso?

— Não, eu só tô triste de uma forma que não sabia que ia ficar. Sabe quando você consegue uma coisa que tá procurando ter há muito tempo? Depois fica a sensação de “e agora?”. Eles me libertaram e eu não gostei da forma como fizeram isso. Por que tão difíceis? Você quase teve que gritar com eles.

— Um dia eles irão entender e você estará tão bem que não se lembrará mais quem são.

— Sabe, eu poderia ter escapado, pedido sua ajuda naqueles dois minutos que subi e peguei a mala, mas preferir ir e esperar para você vir só pra mostrar que se importava comigo e eles ficassem deslumbrados com isso. Ao mesmo tempo que agradeço por terem procurado uma das melhores advogadas de NY pra me achar, eu os repudio por não gostarem de você.

Sorrio e suspiro levemente, dando uma olhada lá fora e voltando para Emma.

— Me odeiam porque quis te ajudar.

— Não, te odeiam porque você me ama e perceberam isso. Eu provoquei, eu fiz você vir e estraguei tudo. — ela deixou uma lágrima escapar do olho direito e a enxugou com a mão.

— Não se culpe, Emma.

— Espero que não me mande embora da sua vida também, você é minha única razão e para quem quero me ver curada. Eu te amo e você sabe disso.

Passo alguns preciosos segundos encarando ela, sentindo ela alisar um dos braços que cruzo na frente do meu corpo por cima do blazer. Minha atitude deveria ser beijá-la, acalmar aquele coração junto do meu, dizer que gosto muito dela, mas eu sei que preciso ensaiar mais que um “eu também”. Preciso aprender a dizer Te amo, imaginar a reação dela passar a dar carinhos dizendo essas palavras no ouvido dela. Não dá para segurar, não como eu achava que daria. Talvez essa seja a última vez que vou me conter para confessar e eu me odeio por isso.

— Eu sei, eu sei... — respiro profundamente e continuo encarando Emma.

. . .

De manhã, com a questão do fuso horário, acordo mais cedo e peço a refeição. Olho para Emma enquanto ela ainda dorme e vejo resquícios da minha maquiagem no rosto dela, pelas costas onde me esfreguei e na região da coxa que ela deixa displicentemente para fora do edredom. Tenho que acordá-la e isso me dá pena por duas razões: tirar ela do sono profundo e ficar sem observar ela sonhar pela próxima hora. Me sento na cama ao seu lado e começo um carinho por entre seus cabelos, sua orelha, o alto do rosto. Emma resmunga algumas coisas, boceja e se espreguiça, me vendo. Ela está com a cara amassada e a esconde no travesseiro.

— Oi. — digo bem humorada ela me olha de canto de olho.

— Oi.

— Bom dia.

— Bom dia, sua chata, por que me acordou a essa hora da madrugada? — soou rouca e cansada.

— A gente precisa voltar para os Estados Unidos, lembra? Já chamei o serviço de quarto, seria bom que a senhorita se arrumasse para sairmos na hora.

— Humm... Precisamos mesmo?

— Sim, precisamos.

Emma se conforma depois de um tempo e se senta na cama, puxando o edredom até os seios.

— É, acho que estou pronta pra voltar. Alguma vez pensou que viria à Londres passar dois dias procurando uma mulher que você conheceu há apenas dois meses?

— Três, já se foram três meses desde aquela noite.

— Hum, você se lembra. — ela gosta de saber disso.

— Lembro como se fosse hoje, até me lembro do vestido que você usava naquela noite.

Emma sorri, joga os cabelos para o lado e talvez não esteja acreditando.

— Que que há, hein? Você tá diferente, tá mais...

— Romântica.

— É, isso mesmo, essa é a palavra. Romântica. Que deu em você? — me observa, me olha.

— Não sei como dizer, é só uma vontade de tratar bem quem me faz bem.

— Será que é agora que você diz que me ama e que sempre gostou de mim?

Quero responder, mas nossa refeição chega e somos interrompidas pela campainha do quarto. Emma levanta da cama, veste um roupão e corre para abrir a porta.

— Deixa comigo. — diz ela, indo abrir a porta para deixar o empregado estacionar a bandeja móvel ao lado da mesa. Ela pega alguma coisa em sua bolsa e entrega para ele na porta. — Isso é pra você, obrigada. Bom dia.

Vejo ela voltando e pergunto:

— O que era aquilo?

— Ah, a gorjeta. Chicletes.

— Como é? Você deu chicletes de gorjeta ao rapaz?!

— É, ué, ele não reclamou, você viu. — Ela sorri feito uma menina que acabara de fazer arte e pula nos meus braços, me rouba um beijo na boca e rimos daquela situação, imaginando o que o funcionário do hotel vai dizer na recepção. Mas logo deduzimos que essa não deve ter sido a primeira vez que ele recebeu uma gorjeta inusitada.

Logo mudamos de assunto, começamos a falar de Londres e da minha aventura quando cheguei para busca-la. Minha opinião sobre Londres pode ter mudado por causa de Emma, embora o que vivemos, por pouco mais de dois dias, tenha servido para fortalecer o que há entre nós. Não é só um caso, é algo muito sério que nem o meu eu do passado, num dos momentos mais difíceis da minha vida, deixaria acontecer. Ter vindo atrás dela não foi uma missão de competência, foi a minha missão de amor. Se estou perdida, acho que não quero mais me encontrar.

Notas finais
É, afinal, Regina se entregou, só falta falar para Emma. E é curioso que esse despertar tenha ocorrido nesse momento. Por que sempre que estamos prestes a perder algo é que damos valor a isso? Fica a pergunta no ar. Vamos refletir. Muito obrigada pelo apoio. Agradeço se forem gentis de me dar suas opiniões. Um grande beijo e até o próximo.