For the love of her
25 De volta à escuridão
Notas iniciais
Era provável que Emma e eu fossemos levar uma madrugada toda conversando sobre o que houve nos últimos meses. Talvez não fosse tão interessante para ela saber que passei mais da metade desses dias deitada em uma cama, sendo cuidada por uma enfermeira particular e lutando para me rebelar contra Zelena e seu marido. Ela já sabia disso. Nos olhávamos, reconhecendo cada traço, cada brilho no olhar que tínhamos uma para a outra, trazendo de volta a sensação de paz que só ela me dava e eu proporcionava a ela. Quanto tempo deve ter durado? Umas duas horas sem querer sair do lugar, acredito. Não havia forma melhor de acabar com qualquer dor que pude sentir, aquele beijo e aquele olhar, eram tudo na minha existência.
Senti que para ela tratava-se exatamente do mesmo fato e que para nos amarmos as palavras já não eram necessárias. Mesmo assim Emma havia feito uma promessa duas horas atrás e queria cumprir. Depois de fazer questão em mostrar todo o apartamento praticamente intacto, nos sentamos na beira da cama no quarto.
— Desculpa pela foto que levei do escritório. — diz ela, me olhando em seguida. — Acho aquela foto tão bonita que tomei a liberdade de ficar com ela pra mim.
— Você colocou ela sobre a escrivaninha do seu quarto, eu vi.
— Meu pai e minha mãe te receberam bem?
— Sim. Acho que mudaram muito, não?
— Eu acabei os obrigando a mudar muita coisa, muita mesmo.
— E os meus pais? Como foi quando chegou na Georgia?
— Foi melhor do que eu pensava. Apesar de perceber que você não estava mais lá, eles me deixaram tranquila.
— Eles também mudaram muito. — Afasto as mechas louras que caem em seus ombros, me sinto tentada em encher aquele rosto de beijos novamente, mas me controlo pela primeira vez essa noite.
Emma suspira e ganha confiança, ela aperta meus dedos entre os seus, me levando a fitar nossas mãos unidas. Há uma mancha entre seu polegar esquerdo e dedo indicador que preciso olhar com calma para entender. Uma letra, mais precisamente um “R” tatuado na pele fina. Olho Emma e a tatuagem, tentando entender o que ela tinha feito, com qual intuito ela havia escrito um R na pele da mão, por que aquilo?
— Você gostou? — Ela pergunta.
— Um R... Não... Não estou entendendo.
— Primeira letra do seu nome. Foi a maneira que encontrei de levar você comigo para onde quer que eu fosse. Toda vez que eu olhasse esse R, eu veria você em mim, uma maneira de te manter viva. — Seus lindos olhos brilham de novo como se me contassem seu maior feito na minha ausência. — Fiz numa das noites em que saí de casa sem rumo. Eu não tinha nada, eu não queria nada, eu só precisava esquecer que eu existia porque você não estava mais ali. Encontrei um traficante conhecido na esquina da décima quarta e comprei um pacote de crack com ele, foi com isso que paguei a tatuagem.
Não sinto algo bom quando ela me fala da droga e como acabou fazendo a tatuagem, não tenho bom pressentimento sobre essa conversa, ela sabe disso e rapidamente me tranquiliza.
— Não, eu não coloquei nada na boca do qual fosse me arrepender depois. Dizer que não tentei seria mentira, porque eu tentei e não foi só uma vez. Foram todas as vezes em que saí de casa. Eu vou entender se você não acreditar em mim, porque na minha condição até a mais sóbria das criaturas iria querer se matar de overdose.
— Eu não disse nada, Emma.
— Mas a sua cara diz. — ela rebate. — Conheço a desconfiança de alguém quando ela surge. Você consegue ser mais transparente que eu às vezes, nisso não mudou pelo jeito.
Baixo o rosto, de certa forma envergonhada.
— Me dê motivos para acreditar em você. No fundo você sabe que tendo ou não voltado a usar, eu não deixaria de te querer.
Ela mexe a cabeça positivamente e funga, fecha os olhos demoradamente e começa:
— Me lembro daquele dia... Como corri para chegar em casa logo e arrumarmos as malas. Quando cheguei você não estava como havia prometido e eu esperei até anoitecer. O curioso era que sentia um aperto tão grande no peito, como um pressagio de que algo estava para acontecer que não me dei conta de que era tarde para tentar te procurar pelos hospitais. Fui saber no dia seguinte, depois que saiu na TV e eu reconheci o seu carro. — Ela faz uma pausa e não tem coragem de me olhar. — Fui correndo para o hospital, louca, desesperada... Mas você também não estava mais lá, você não estaria em lugar algum, porque seu corpo havia sido mutilado no acidente e estava tão feio que não queriam me mostrar.
— Foi isso que disseram?
— Foi.
— Havia alguém esperando por você no hospital?
— Um médico, ele disse que havia encontrado meus dados nas suas coisas e que sabia que eu era a única pessoa próxima que poderia ficar com os documentos, mas não tive acesso a nada, eu não quis ficar com nada. Foi a primeira vez que tentei fumar de novo. — Emma respira e põe as mãos no rosto, jogando os cabelos para trás.
Dei tempo a ela para se lembrar, dei tempo para ela respirar e se recompor, pois dali em diante, eu sabia que a estória seria longa.
“Sabe quando você perde a memória, quando apaga por alguns segundos e depois está em um lugar completamente diferente? Foi o que houve diversas vezes naquele dia. Corri para fora do hospital, completamente transtornada. As pessoas tentavam me parar, colocaram a polícia atrás de mim e nem por um decreto ninguém conseguia me segurar. Então eu fui, eu corri e só corri pelo meio das ruas, causando acidentes, jogando as coisas dos outros no chão e fugindo sem rumo. Acho que corri por muito tempo, com um fôlego absurdo porque uma pessoa normal jamais conseguiria tanto, mas eu só sei que na minha mente isso durou dez segundos. De repente eu estava no alto de um prédio, um desses com vista para o memorial do World Trade Center, no terraço, me equilibrando na beira do abismo que era Nova York naquele momento.
“Os policiais chegaram quando pus os pés no muro do terraço, estava ventando forte e eu tinha dificuldade para me manter de pé.
— Senhorita, por favor, seja lá o que tenha acontecido, essa não é a melhor escolha.
— O que eu vou fazer com a minha vida? Por um acaso você entende?
— Pense nas pessoas que te amam e que precisam da sua companhia.
— A única pessoa que se importa comigo está morta.
— Sentimos muito, senhorita, mas por favor, pense que onde quer que ela esteja deseja que fique bem e que não faça o que está pretendendo.
— Ela disse que estaria me esperando, ela prometeu!
“Já não conseguia ver nada porque chorava muito e o vento me empurrava cada vez mais para a ponta, eu senti vertigem e houve outro dos apagões. Me joguei do alto, tudo se fechou e quando acordei procurei por você, mas tudo o que eu via eram os médicos me atendendo na ambulância que me levava. Eu não havia me jogado. No momento em que apaguei, um policial me puxou de volta e lá estava Emma sã e salva. Me deixaram em casa após constatarem que eu não faria nada que atentasse a minha própria vida de novo. Dei o endereço dos meus pais, nem sei porquê. Minha mãe queria entender o que tinha acontecido e meu pai me olhava com muita preocupação, era constrangedor. Nunca consegui explicar a eles o que tentei fazer no alto do prédio, porque eu sabia que seria assustador demais para os dois.
“E aí você pergunta, quando pensou em fumar de novo? Já chego nessa parte. Antes tive de contar aos dois que você estava morta e eles agiram estranhamente gentis comigo. É, foi bem estranho, porque meu pai nunca foi de me abraçar, ele sempre foi cheio de limitações, só que naquela noite ele não conseguia me largar. Mamãe já foi mais direta e disse que o meu quarto estava arrumado se eu quisesse ficar com eles aquela noite. Eu não tinha escolha, me deram um remédio forte na ambulância e eu estava com sono. Deitei na cama e apaguei. Sonhei com você a noite toda, sonhei com seu rosto, sonhei que estava comigo, eu não tinha me conformado. Daí o efeito do remédio passou, eu acordei e pulei a janela. Nem havia me dado conta de que andava pela rua com uma roupa de dormir.
“Algumas coisas que eu conto são bem malucas porque estava muito perturbada. Acho que depois de ter saído de casa, encontrei com alguém ou andei o suficiente para achar qualquer zona de droga. Eu conheço os lugares, eu conheço os caras que vendem e onde estão. Eu sei como funciona e o que tenho que fazer pra convencer eles. Entrei num dos bares onde trabalhei e prometi que ia dar pro cara se ele me fornecesse um pacote de Marijuana. Não, eu não dei pra ele, eu não voltei, eu fugi dali quando ele se distraiu e o cara deve tá me procurando até hoje. Mas que diferença faria ficar com ele se você estava morta? Desculpa, eu não estava raciocinando direito, não precisa ficar chateada. Olha pra mim, Regina... Não fiquei com ninguém nesse tempo, eu não conseguia, eu não podia.
“Assim como não botei um cigarro de maconha ou qualquer outra merda na boca, eu não quis me envolver de novo com outra pessoa. Não iria conseguir me envolver com ninguém nunca mais. Você marcou tanto a minha vida que eu não saberia me relacionar de novo, não tive tempo pra pensar em outra pessoa, porque na minha cabeça só você era capaz de me dar tudo o que eu precisava. Está entendendo bem?
“Mas então, deixando isso bem claro, fugi com o pacote de Marijuana e me enfurnei em um beco sujo de restaurante chinês pra tentar fumar. Eu tinha tudo, o rolo, a erva, o fósforo... Mas aí eu me dei conta de que tinha desaprendido tudo, que havia esquecido a ordem. Eu estava tão frustrada que larguei aquela porcaria no lixo e voltei pra casa arrependida demais, porém, meus pais já haviam colocado até a guarda costeira atrás de mim e novamente eu vi a polícia em menos de vinte e quatro horas.
“Não queria dormir, não queria comer, não queria respirar, porque tudo, absolutamente tudo o que eu via era seu rosto. Como me arrependi de ter procurado por baseado, porque depois a ficha caiu e eu sentia que estaria de alguma forma traindo a sua confiança. Te pedi mil perdões, passei horas rezando pela sua alma no pé da cama e andando pelo meu quarto. Minha mãe já não sabia mais o que fazer comigo.
— Emma, pelo o amor de Deus, você precisa parar.
— Não consigo, Margaret. — Peguei alguma coisa de vidro em cima da prateleira e joguei contra a parede. — Não faz sentido. — Acho que eu devia parecer um zumbi quando minha mãe me abraçou por trás. Eu não tinha o direito de julgar a atitude dela, também sofria, só que por minha causa.
— Ela se foi, ela não está mais entre nós, mas está na sua memória. Ela te amava e iria odiar te ver assim.
— Sei que ela me amava sim, que ela me amava até mais do que imaginava, mas por que tiraram ela de mim? Eu fui uma pessoa tão ruim assim para fazerem isso comigo? Hein? Eu fumei tanto baseado assim pra me levarem a única razão pra continuar viva? Tá de sacanagem! Como que você foi embora desse jeito, Regina? Eu nem pude ver o seu corpo, porque parece que evaporaram com você da face da terra. Se você soubesse o quanto me arrependo de não ter dito sim logo, de não ter concordado com você na hora certa. Poderíamos estar longe daqui agora e você estaria viva.
“Minha mãe soluçava tanto quanto me abraçava pelas costas. Ela ficou comigo até o meu corpo desmaiar de cansaço. Não sei quanto tempo aguentei acordada, sem comer e sem beber nada. Fiquei desidratada de tanto chorar. Meus olhos procuravam um horizonte onde você surgisse, mas tudo o que eu via era a chuva pingando na janela, o sol aparecer tímido de vez em quando e sempre um não escrito nas nuvens. Um não claro de que você não voltaria.
“Meus pais me obrigaram a comer, eu mal sabia qual era o gosto das coisas que me davam nem fazia questão de gostar. Como uma greve de fome não te traria de volta, nem uma greve de banho, comecei a refletir sobre uma maneira de ressuscitar a sua importância na minha vida. Era preciso um consolo, alguma forma de trazer você a vida, nem que fosse apenas por um detalhe tolo. As pessoas tinham razão quando me diziam que você nunca iria querer que eu me tornasse uma morta viva por conta da sua morte. Eu lembrei de quando discutimos nossa relação e eu disse que morreria se me mandassem embora (metaforicamente), mas que eu daria um jeito de viver e seguir, desejando sua felicidade. Não era possível que tudo o que aprendi com você pudesse se perder por causa da minha decepção. Foi nesse momento que meu pai apareceu e disse uma coisa: que seu corpo tinha sido enterrado no cemitério Moravian e que eu podia visita-la. Fomos ao cemitério, te abracei, espalhei flores pelo seu túmulo e pedi que me desse forças para não desistir. Prometi que voltaria toda semana para conversar com você e que você me aguardasse, porque não estava sozinha. Toda vez que eu ia, era como se de fato eu estivesse te visitando em um lugar afastado, como se eu fosse te encontrar numa viagem romântica. Só não dormia em cima do seu túmulo porque os guardas me proibiram, mas eu deitava na grama ou achava que estava ao seu lado.
“Se lembra do casal de policiais que me contratou para ser babá? Então, eles souberam do que houve e ofereceram o emprego de volta se eu topasse. Adivinha o que eu fiz? Aceitei, assim como aceitei voltar a estudar, só que havia um problema. Como um imã, toda situação que colocasse a minha sobriedade em risco aparecia. Eu estava muito frágil e óbvio que o ritmo da faculdade não era para mim naquele momento. Fui muito mal em qualquer atividade que exigisse a minha total atenção e por causa disso já não ia mais para estudar, eu queria ir para ver as pessoas. Eu lembro dos saquinhos de cocaína correndo na mão dos meus amigos até chegar na minha. Levei para a casa dos policiais uns cinco daqueles, pensando o que fazer, se entregar os meus amigos da faculdade ou escondendo no reservatório da privada. Lembra de quando fiz isso aqui? Pois é, eu fiz a mesma coisa na casa dos tiras e eles nunca se deram conta. Pode me chamar de louca, mas se eu levasse para a casa, minha mãe saberia. Ela olha a caixa da privada até hoje desde que voltei a morar com eles. Bem, ganhei a confiança dos policiais e fiquei cuidado do filho deles até milagrosamente me oferecerem um emprego de experiência num restaurante italiano do West Side. Até então um mês tinha ido embora, eu visitava seu túmulo, começava a ter uma rotina e voltava a ser a filhinha da mamãe.
“Meus pais nunca foram tão dóceis, eu acho que sentiam muita pena de mim e da forma como eu parecia triste, o que não deixa de ser verdade. Eles respeitavam meu silêncio e sabe que eu até gostava quando colocavam a polícia atrás de mim, pois era a forma de provar que estavam preocupados. Nunca percebi antes que os dois só queriam que eu me sentisse bem, mas achavam que eu estaria bem fazendo o que eles planejavam. No caso dos últimos três meses, eles queriam me ver bem, mas entendiam que eu precisava enfrentar a dor sozinha, porque eu não era mais uma adolescente ou garota saída da juventude. Minha mãe mesclava sua doçura com a sinceridade e tivemos muitas conversas. Acho que enfim nos acertamos em relação às nossas diferenças. Com meu pai foi a mesma coisa, porque eles estavam quase sempre juntos, mas ele pouco falava. Eu sentia no olhar dele que de alguma forma ele se sentia feliz por me ver ali e que seria capaz de qualquer coisa pra me ajudar. Foi assim diversas vezes, especialmente quando voltei a ter crises de abstinência.
“Se havia uma coisa que eu me esqueci completamente de como era sentir, foram as malditas crises. Ainda que eu estivesse bastante abalada, eu não tinha mais que apagões de memória e, para mim, isso era um feito. Eu pensava que você estaria orgulhosa de mim, pelo menos nesse sentido. Só que elas voltaram e foram as piores crises que já senti. Meus pais tiveram trabalho, fui parar no hospital mais de dez vezes. Numa delas, vomitei tanto que precisaram me dar soro na veia. Lembrei de todas as vezes em que acabei dormindo nas calçadas imundas porque me drogava até cair. Não são boas lembranças, então pense como eu me sentia. Não tinha mais você para me fazer entender que tudo aquilo tinha acabado. As crises de abstinência me levavam àquele mundo de novo, era como voltar a cair na calçada da rua e estar louca o bastante para sentir frio num calor de cinquenta graus.
“Comecei a faltar demais o trabalho por causa das crises e ausências repentinas, então o meu chefe me dispensou e pediu que eu voltasse apenas quando tivesse certeza de que estava melhor. Sem trabalho, rendendo mal na faculdade, eu larguei de tudo de novo. A única coisa que me dava prazer era ir ao cemitério e falar com você. Eu não tinha mais a ambição de ser uma chefe de cozinha, de dar orgulho e calar os meus pais, eu não tinha nada a fazer, nada a perder. Minha mente voltou a estaca zero e a vontade de acabar logo com aquilo crescia. Eu voltei a sentir uma necessidade imensa de me drogar, incontrolável. Eu fugia de casa a noite, não para andar sozinha pelas ruas, mas para procurar tudo o que eu achava que estava precisando para por um fim a minha vida.
“Meus pais estavam cansados de colocar a policia envolvida na minha busca. Eles pararam. Apesar de saber que as minhas atitudes faziam as únicas duas pessoas que me amavam infelizes, eu continuava seguindo um rumo triste pela Times Squire. Pegava o metrô e descia duas estações antes para andar o suficiente pelos becos onde vendiam. E eu tinha dinheiro, eu comprava droga aos montes, mas na hora de sair correndo pra consumir, me faltava coragem. Uma vez, eu juro que vi você no fim de um daqueles becos. Eu tinha um pacote de Metha na mão, guardei no bolso quando alguém passou por mim e quando parei pra cheirar, o pó estava na palma da minha mão. Eu ia fazer aquilo, eu ia cheirar e viajar, ia voltar cambaleando no cara que me vendeu e comprar mais dez saquinhos até sentir que estava fora de órbita, mas na hora que senti o mínimo de coragem para levantar minha mão até o nariz, eu vi você. Era você, eu tenho certeza. Alguém sob a luz da rua, uma mulher de sobretudo me olhando, séria, decepcionada, uma mulher que eu estava traindo porque eu não era capaz de suportar a sua morte. Você estava ali me observando com tanto desprezo que a raiva era pouco para decifrar o seu sentimento. Larguei o pó de cristal e corri na sua direção, eu não podia te perder de novo.
— Regina? Regina? É você? Você voltou? — Sorri de alegria, ignorando o fato da sua sombra estar absolutamente indignada com o que eu tentei fazer. O clarão que a luz do poste provocava na calçada me mostrava você, intocável, sem ação, e, como para mim você estava de fato ali, eu corri pra te abraçar. Corri, mas o quanto mais eu ia na sua direção, mais distante você estava. Escorreguei nos meus próprios pés e meu rosto foi de encontro ao chão. Ergui assim que me dei conta do que tinha acontecido e percebi que a minha imaginação estava muito fértil. Agora penso que talvez fosse você de onde estava, rezando pra que eu não fizesse besteiras.
“Voltei para casa, imunda, envergonhada como em todas as outras noites, mas dessa vez, em plena três da madrugada, encontrei meus pais na sala ou, melhor dizendo, ouvi a conversa deles. Estavam há um tempo sentados como sempre faziam. Eu andava tirando o sono deles, não sei como aguentaram... Mas bem, eles conversavam sobre mim, Margaret fungava deitada no colo do meu pai feito um bebê.
— O que você acha que devemos fazer?
—Tem só um mês e nós estamos exaustos, Margaret, não sei se vamos conseguir lidar com Emma. Ela deve ter voltado a usar. Sai todas as noites, volta quase de manhã e suas roupas andam imundas. Ela não tem feito outra coisa. Dorme o dia inteiro, sai pela janela, volta quando acha conveniente e começa tudo de novo.
— Encontrei cigarro nos bolsos da calça dela. Não foram usados, mas ela abriu o pacote e andou com aquilo até se esquecer deles. Outro dia foi um saco plástico vedado com um pó branco dentro, tenho certeza de que era cocaína. Não achei nada nas gavetas, nada nos armários, somente nas roupas que ela usa pra sair, mas eu ainda acredito que ela pensou duas vezes antes de usar.
— Quer dizer que ela sentiu vontade, foi atrás de não consumiu? Sabemos que ela anda gastando dinheiro, eu vejo os saques dela pela internet, são quantias altas. Ela só pode ter usado para comprar drogas.
— Mas não usou. Alguma coisa tem impedido Emma de usar qualquer droga. Ela está resistindo. Ainda há crises de abstinência, ela não está alterada como quando trazia para casa, ela está tendo crises pela falta, não pelo exagero.
— O que mais me dói é ter escolhido não impedi-la. Eu sabia que ela em algum momento nos traria novos problemas. Nós concordamos em deixa-la livre pelo luto.
— Erramos muito com ela na época em que ficamos em cima. Se ela não sentisse liberdade conosco, estaria sozinha, vivendo nas ruas de novo. Ela tem que entender que estamos com ela, mesmo que exista liberdade para agir da forma que quiser. É assim que ganhamos a confiança dela de volta, deixando-a livre para decidir o que vai fazer da vida. Com vinte e sete anos, está mais do que na hora dela caminhar pelos próprios pés.
— Uma pena que precisou ser dessa maneira. Me dou conta do quanto Regina era importante.
— E pensar que quase acabamos com esse relacionamento.
— Um dia Emma vai superar. Por enquanto vamos acreditar nela, vamos acreditar que ela tem resistido aos impulsos.
— E se ela conversasse com alguém, com um profissional?
— Nós já tentamos isso uma vez.
— Regina também enquanto estava viva. Ela levava Emma para se consultar com um terapeuta.
— Vamos procurar esse homem?
— Acho conveniente, ele já conhece a nossa filha.
“Falavam do Gold, e me lembrava que tinha esquecido dele completamente. Eu não tinha mais o telefone do consultório, então no dia seguinte, por minha conta, fui até ele. Óbvio que ficou muito espantado quando me viu. Ele disse que ficou sabendo da sua morte e lamentava profundamente. Me atendia de graça, não cobrou um centavo até hoje daquelas consultas. Eu podia chegar a hora que fosse, era só esperar o paciente que estava na minha frente que ele ia me ouvir. Às vezes eu emendava as minhas fugas de casa pro consultório dele e pela forma como eu me vestia, ele sabia.
— Até hoje você não me disse como se sente. Não mude de assunto, Emma. Não explique o que fez, quantas drogas comprou e não usou, não quero saber disso, quero saber o que está acontecendo com você aí dentro?
— Você é um terapeuta, tem a obrigação de adivinhar, estudou pra isso, não foi?
— Sim, eu estudei, mas não há uma definição melhor do que a do próprio paciente.
Ele me calou, me fez pensar, coçar o nariz no intervalo de segundos e não tive escolha a não ser definir o que eu sentia.
— Como me sinto? Me sinto fodida. É isso aí, fodida pra caramba!
— Ora, então você sente alguma coisa.
— É, eu sei como estou, eu estou muito fodida e a culpa é dela.
— Dela quem?
— A Regina, né? Foi ela que me fodeu. — Bati uma mão na outra para representar o sinal. Eu soltava um linguajar que andava extinto, porque eu começava a entrar naquela fase do luto onde culpava algo ou alguém pela tragédia.
— Isso significa que você tem sentido raiva pela morte dela?
— Eu tenho. — Olho pras minhas mãos, pra roupa que eu vestia, que coincidentemente você tinha me dado e esbravejo. — Ela teve coragem de me deixar. Ela destruiu a minha vida. Ela acabou comigo. Existe ato mais cruel do que ir embora sem levar a pessoa que você diz amar? Tudo bem que ela não era muito de dizer, mas eu sabia que ela me amava e então ela faz isso. Ela morre e me deixa sozinha nessa merda de cidade que eu odeio, no meio de gente que eu odeio, no meio de uma vida que eu não consigo mais viver. Eu acho que Regina Mills foi uma grande filha da puta, porque ela me enganou. Eu odeio ela agora. Odeio ela por ter me deixado.
“O sr. Gold me olhava com a paciência de um monge. A gente sabe que ele tem muito conhecimento, mas naquele momento, ele foi um soberano.
— Então é isso que você sente, ódio? Está com ódio de uma mulher morta. Por um acaso, em algum momento você percebeu que Regina não tinha a intenção de deixa-la? Como pode ter tanta certeza de que ela morreu porque quis?
— Ela devia me odiar, sabe? Eu só trouxe trabalho pra vida dela desde que nos conhecemos.
— Pelo contrário, Emma. Você trouxe algo de volta, uma coisa que ela perdeu quando sofria de depressão.
— O que era?
— Amor. — Ele para e espera que eu reaja. — Regina se apaixonou por você, mesmo tendo tantos defeitos e teoricamente você sendo um problema para ela. É justo que sinta raiva, que pense que ela premeditou tudo, mas o que você está sentindo agora se chama luto. As fases dele costumam durar um tempo considerável e você colocará a culpa em todos, inclusive colocará em mim em algum momento, portanto comece a analisar a sua importância na vida dela. É justo sentir tanto ódio pela morte depois de saber o quão importante você foi? Vou esperar a sua resposta na semana que vem. Se voltar antes falaremos sobre outra coisa, mas o prazo que te dou para essa raiva e culpa que você coloca nela passar, é de uma semana.
“Saí do consultório dele carregando um peso imenso nas costas, era arrependimento. Outra vez, mas então arrependimento de ter precisado pôr a culpa em você. Fui me desculpar no cemitério. Desabei sobre seu túmulo e beijei seu nome na sepultura.
— Não queria que tivesse acontecido dessa forma, Emma. — Puxo ela para mim e guardo minha cabeça em seu ombro. Ela tomar ar e quer continuar. Está no meio da estória e não quer se desligar tanto do que me conta.
— Mas foi e eu precisei passar por tudo isso. Apesar da raiva que me dava às vezes, o meu amor por você só crescia. Eu achava injusto não poder morrer pra ir atrás ou não ter nada além de fotos pra lembrar do seu rosto e do seu corpo. — Ela sobe no meu colo e envolve as mãos sobre o meu pescoço. — Eu fui louca por você até depois da sua morte. Tá vendo como eu te amo?
— É claro que eu estou vendo e tendo cada vez mais certeza de que voltei pela pessoa certa. — Sussurro enquanto roço meu rosto nela.
— Se você por um acaso morrer de novo, eu vou te matar tanto. — Ela me aperta contra ela e pela primeira vez nos descontraímos com uma fala.
— Depende do que. Se me matar nessa cama, eu vou querer morrer sempre.
Emma me beija na boca, desejosa e carente, mas estamos longe de fazer amor. Talvez quando o assunto encerrar e tentarmos pôr a paixão em dia.
Seguro seu corpo, afasto nossos lábios e pergunto:
— Acho que você precisa de um tempo para continuar, não?
— Um pouco. Daqui pra frente o luto quase me enterra na tristeza, acho que nunca fui tão forte.
Sei que uma grande parte da velha Emma foi deixada para trás, assim como a velha Regina. Esse tempo em que nos desencontramos nos fez refletir sobre aqueles velhos problemas, mas nos obrigou a encarar outros. Eu estava prestes a ouvir como foi que Emma superou a dor de me perder e como foi que sobreviveu a enxurrada de tentações ruins que ainda iam provoca-la. Damos um tempo na estória, um tempo para se restabelecer e ter fôlego para o que eu ainda não fazia ideia.
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