For the love of her
26 Tudo por amor
Notas iniciais
É tarde, sabe-se lá que horas quando Emma e eu tentamos trocar a conversa densa pelo sexo, embora não exista clima para tal. Deito seu corpo e a encaro, vendo seus olhos verdes me pedirem calma. Se fosse em outro momento, uma outra etapa do relacionamento, estaríamos atracadas desde o começo, executando a quadragésima nona posição sexual na noite, numa busca incessante para bater recordes gozando. Eu entendia o porquê de não ter vontade de beijá-la entre as coxas agora, ela também certamente e por isso nos olhamos questionando o que estamos fazendo. Avançamos no relacionamento até certo ponto que obter prazer simplesmente por uma vontade própria já não serve como fazíamos. Existem prioridades, camadas mais sérias antes de tomar a decisão de ir pra cama. O tempo que ficamos distantes nos amadureceu nesse quesito e por isso é tão estranho parar a narrativa de Emma no meio só para trocar as pernas com ela.
Emma quer me beijar, eu deixo e me entrego de novo, mas temos confiança o suficiente para admitir que não é a hora de fazer aquilo. Me sento, puxo ela pra mim e nos olhamos com um sorriso simples no rosto.
— Acho que eu tô pronta pra continuar. — Diz ela, respirando fundo.
— Não saio daqui enquanto não ouvir tudo. — Respondo enquanto ela ajeita meus cabelos presos pela metade.
— Agora vem a parte que volto a me machucar muito pra tentar sentir algo que não seja tristeza.
“Na semana seguinte voltei a falar com o sr. Gold e, como prometido, refleti sobre a pergunta dele. Como aquela era a fase do luto em que eu culpava tudo e todos pela sua morte, eu sabia que futuramente chegaria na etapa em que ia acabar me conformando. De qualquer maneira, ainda era difícil entender a sua morte, aceitar que tinha acontecido e que você não voltaria mais. Eu não queria aceitar uma vida sem você, logo isso virou debate entre eu e o terapeuta, porque ele queria me fazer enxergar o contrário. Por vezes, quis pegar Gold pelo colarinho e dizer que não importasse o que fosse dizer eu não ia mudar, era você que ia amar e não haviam substitutos.
— Emma, como é que você pode afirmar com tanta certeza de que não vai gostar de outra pessoa no futuro?
— Porque eu tenho certeza, eu sei que não vou conseguir. Regina se instalou dentro de mim, ela faz parte de cada momento, eu não posso abrir mão do que eu sinto por ela.
— E quem foi que disse que você não pode continuar amando-a? Ela estará para sempre na sua memória, mas não estará em corpo. Você por um acaso conseguiria ignorar todas as pessoas que se interessarem por você? São outras chances de amar tanto quanto ela te amou.
— O que você não entende é que sempre haverá a sensação de estar traindo. Foi assim com as pedras que tentei fumar, ela estava ali o tempo todo implorando para eu não fazer aquilo. Toda vez que eu tentar colocar algo na boca, vou me sentir vigiada por ela.
— Isso inclui seres humanos?
— Inclui meus sentimentos. Se estiver errado, ela estará lá, não em corpo, mas em espírito.
— Por que não pensa que talvez seja isso que ela queria, que você seguisse com outra pessoa, sem as drogas, óbvio? Se acontecer, por um acaso, quando o luto passar e você tiver encarado todas as fases da dor, por que não, Emma? A lembrança de Regina sempre estará ali, é bom que aceite esse fato, porque se interessar por outra pessoa não é fingir que Regina nunca existiu. Se você se sentir bem, não finja que isso não existe mesmo com medo de que seja momentâneo. Tem gente que renuncia uma vida para se desvencilhar de um caso amoroso. Tem gente que segue o barco como se fosse um marujo treinado, com extrema facilidade. Em qual dos dois tipos você se encaixa?
— Acho que no primeiro.
— E você acredita que vale a pena levar o resto da sua vida lamentando a morte de uma pessoa, se privando de um futuro brilhante que você pode construir?
— Queria que o meu futuro fosse com ela. — Chorei e Gold encerrou a consulta daquele dia. Fui embora enquanto ele saiu da sala para buscar água pra mim. Já estava farta daquela conversa e as possibilidades que ele criava me entristeciam cada vez mais.
“Deixei de ir no consultório e voltei a minha rotina. Trocava o dia pela noite. Logo o dinheiro que eu havia guardado acabou e precisei parar de visitar o seu túmulo, porque eu não tinha como pegar o metro e balsa até Staten Island. Jamais cogitei roubar dos meus pais muito menos pedir. Era preferível passar o dia dormindo, esperando que algum milagre acontecesse enquanto meu estômago formigava de uma ansiedade que eu não sabia justificar. Por um lado, meus pais estavam mais tranquilos comigo em casa o tempo todo, ainda que dormindo a maior parte do tempo. Eu os via de noite, quase sempre porque era a hora que eu acordava ou que a minha barriga reclamava de fome.
“Numa daquelas vezes, eu fazia um hambúrguer de micro-ondas, ignorando o fato deles estarem jantando na sala ao lado. Margaret escutou o barulho na cozinha e me chamou.
— Querida, é você? Estamos jantando uma deliciosa lasanha do restaurante da Vovó, você não quer um pouco?
— Não, valeu. Eu vou jantar isso aqui. — Apareci na sala de jantar com meu prato de hambúrguer na mão e vi a mesa bem arrumada, meus pais sentados um de frente para o outro e um terceiro prato na cabeceira da mesa. Naquele momento fiquei sem reação, pois aquele prato era para mim. Meus pais sempre deixavam um terceiro prato na mesa, na esperança de me ver sentando para jantar com eles.
“Diante da descoberta, me senti na obrigação de sentar na mesa todas as noites dali em diante ainda que eu só fosse comer meus hambúrgueres de micro-ondas. Papai me estendia a mão, mamãe segurava a outra e passamos a rezar todos os dias agradecendo a refeição e a minha presença.
— Deus abençoe esta refeição e mais ainda nossa querida Emma, amada filha que hoje nos permite cumprir a missão como pais que não fomos corretamente antes. Amamos você, Emma. — Meu pai sorriu e minha mãe juntou as mãos perto do rosto antes de nos servir.
— Que assim seja. — disse ela. — Quanto você quer, filha?
— Duas colheres tá bom. — Respondo, tentando limpar uma lágrima que me escapou antes que eles vissem.
— E você, meu bem?
— Pra mim duas também.
“Eu não me lembro o que jantávamos naquele dia, mas me lembro quando meu pai falou comigo sobre o coquetel que a empresa onde ele trabalha ia oferecer.
— ... O que me dizem?
— Bom, é claro que eu vou. — Mamãe dizia, já saboreando sua sobremesa.
— Ahm, vocês fazem questão que eu vá? — pergunto, totalmente sem jeito.
— Claro. Seria maravilhoso se você fosse, Emma. Me deixaria feliz, mas se não quiser, eu entenderei.
— Tá legal, mas posso pensar antes? Não tenho nem roupa pra ir num coquetel.
— Não se preocupa, isso não é problema. — Minha mãe disse e olhou meu pai de relance.
“Depois desse dia, numa tarde em que eu havia perdido o sono e olhava na internet as reportagens que te tornaram famosa, Margaret entrou no quarto e deixou algo sobre a cama. Achei que eram roupas limpas, mas na verdade ela me trouxe um presente. Virei o rosto com preguiça, depois o corpo na cadeira e vi um vestido azul bebê estirado na cama. É um vestido lindo, ainda tá lá em casa, apesar de eu quase ter destruído ele. Você vai entender logo quando eu explicar.
“Bem, olhei para minha mãe e ela esperava minha reação, obviamente.
— O que é isso?
— Um vestido. Você gostou dele?
— É lindo. Nossa! É realmente lindo, mas por que está me dando ele?
— É para a festa da empresa do seu pai. Pensei que se te comprasse um vestido, talvez você considerasse ir conosco.
“Tá, minha mãe estava tentando me comprar com a ideia e ela sabia que eu gostava daquela cor também, acertou em cheio. Pensei comigo mesma: Olha, quer saber? Por que não? Não tenho nada para fazer mesmo. Meus pais estão fazendo muito por mim só de respeitarem meu momento. Pode ser que eu consiga me distrair e deixa-los contentes. Duas coisas resolvendo uma só. Okay.
— Certo, mãe, eu vou nessa festa com vocês.
“Quando respondi, notei que ela olhava a tela do computador e eu não dava a mínima se ela fosse criticar o que eu estava fazendo. Ela sabia do meu sentimento por você, então o máximo que Margaret fez foi suspirar de pena olhando a sua foto na reportagem da internet. Ela se voltou para mim, abriu um sorriso maternal, aquele sorriso grande e meigo que elas fazem quando o filho é educado.
— Que bom, querida. Que bom!
“Os sócios da superloja onde meu pai trabalhava queriam comemorar o quadragésimo aniversário da empresa em grande estilo. Eles alugaram um casarão antigo, mas muito luxuoso em Southampton e muitos dos funcionários tinham sido convidados. Meu pai quase não segurava a alegria de ter esposa e filha o acompanhando. Ele era só sorrisos para os amigos dele e acho que o comentário era justamente sobre a alegria dele naquela noite, até o momento que estraguei tudo.
“O jantar foi oferecido depois de um discurso de agradecimento do dono da empresa, eu não saía de perto de Margaret, nem queria porque consequentemente faria alguma merda. Tava tudo legal, eu arriscava comer os canapés de tudo quanto era sabor enquanto ofereciam, bebia água pra não cair em tentação de encher a cara e isso foi muito difícil porque todo mundo ao meu redor bebia, mas não bebia pouco. Me arrumei sozinha, coisa simples, quase nada no rosto, só lápis e batom, mesmo assim conseguia chamar a atenção dos velhos amigos do meu pai. As coisas começaram a azedar por aí, pois um a cada cinco homens que vinham cumprimenta-lo eu já tinha visto da época em que trabalhava nos bares e no cassino.
— Esta é a filha de quem você tanto fala, Swan? — disse um deles ao me perceber. Ele tinha um copo de drink na mão, cheirava a bebida e os olhos dele eram muito marcantes. Com certeza eu já tinha o visto, se parar para pensar, eu já quase havia ficado sozinha com ele. Não foi uma sensação boa quando ele beijou a minha mão. — Ele é linda. Como se chama, moça?
— Sou Emma. Meu nome é Emma.
“Travei, fiquei um tempo sem reação, ele deve ter pensado que fiquei hipnotizada, só que o que acontecia era ruim. Me lembrei das situações ruins em que me meti naquela época, do dinheiro que eu ganhava de caras como ele e gastava com cocaína e crack. Lembrei da vez que acordei no chão de um beco perto da casa onde o cassino funcionava. Também lembrei dos banhos de água gelada em pleno inverno, do lençol fino demais na cama da hospedaria, de pedir dinheiro na porta do café... De tudo. Foi um gatilho. Eu tremia.
— ... Emma está cursando gastronomia. — A voz do meu pai falou.
— Pois creio que seja uma chefe muito talentosa. — O homem comentou.
— Ela é, sabemos que é. Até então, Emma não fez nenhum prato lá em casa, mas ouvi comentários de que ela nasceu para isso. — Mamãe entrou na conversa. Ela segurou no meu braço e me viu. — Querida? Está tudo bem?
— Filha, o que está sentindo? O que foi? — Meu pai me olhou assustado, acho que enxergava algo no meu rosto.
“Larguei de Margaret e saí correndo. Procurei uma saída, uma porta que me levasse para fora e encontrei. Eu sentia ânsia de vômito, um aperto na boca do estômago e no peito. Parei diante de um jardim magnífico e caminhei por ele, até uma área onde ninguém estava. Havia uma piscina enorme, daquelas que tem uma fonte em formato de leão na borda. Me ajoelhei perto da água e lavei meu rosto. Em um segundo as lembranças se misturaram e tive a sensação de estar saindo do meu corpo, era como se eu tivesse fumado muito e esperado o efeito. Estava zonza, perdida, não conseguia raciocinar nada direito. Então a água estava ali, a piscina enorme estava diante de mim, uma chance de acabar com tudo de uma vez por todas. Se eu morresse, eu ia te encontrar, então toda a minha dor ia acabar naquele instante. Foda-se os meus pais, foda-se a faculdade, foda-se o emprego, eu só queria a Regina e tava difícil pra cacete aceitar que você não ia voltar pro meu mundo. Eu pulei na água. Afundei na piscina, prendi a respiração e segurei enquanto descia e descia lentamente.
“Deixei acontecer, afundei até meu corpo encontrar o chão e voltar ainda mais lento para cima. A água foi entrando em mim, era uma dor horrível, mas eu precisava aguentar, era só um passo até encontrar você do outro lado. Eu estava tão perto, eu ia conseguir. Meus sentidos iam embora, não havia ar em mim, eu ia morrer. Bastava alguns segundos, só que de repente senti meu corpo sendo erguido, alguém me levava de volta.
— Senhorita, o que está fazendo?!
“Ele me tirou da piscina, me deitou na borda, eu ainda tentava entender o que tinha acontecido, foi tudo muito rápido. Abri meus olhos e tossi, decepcionada por não ter completado meu objetivo. De repente eu vi um cara boa pinta, deveria ter a minha idade, não sei. Foi ele quem me tirou da água e estava tão ensopado quanto eu, parecia preocupado.
— Por que você me tirou dali? Eu tinha que morrer.
— Morrer? Sério?! Tava tentando se matar?
— Deu pra perceber, não deu? — Eu ainda tossia, minha cabeça girava.
— Não sei porque estava tentando fazer isso, mas saiba que foi uma grande besteira, poderia ter morrido de verdade.
— Quem é você pra dizer o que eu tenho que fazer? Vai se foder!
— Não tô afim, muito obrigado. E de nada por ter salvado a sua vida. — Notei que ele tinha sotaque, acho que inglês e isso me deixava ainda mais braba. Ele se levantou e foi embora, abanando a roupa social dele. Deu pena depois que me arrependi, devia ser um terno caro.
“Ele me deixou lá tossindo na beira da piscina e eu só pensava que tinha falhado no meu plano de morrer de novo. Meus pais apareceram desesperados depois de um tempo. Me levaram para dentro, me cobriram com uma toalha e o David Swan de cara mais contente do jantar, tinha virado o cara cujo a filha tinha tentado se matar na piscina.
“Meu pai nunca me disse nada a respeito daquele dia, o que ele fez fiquei sabendo depois quando reencontrei o cara que me salvou. Antes disso, peguei uma gripe forte e fiquei alguns dias de cama. Tudo o que eu queria, né?
“Enquanto eu suplicava para a gripe evoluir para uma pneumonia, minha mãe encontrou uma forma de me ajudar ou pelo menos tentar superar meu trauma de te perder. Ela entrou no quarto um dia, se sentou ao meu lado e deixou algo perto do travesseiro. Um molho de chaves que eu sabia de onde era. Sem jeito ela esperou que eu acordasse e percebesse do que se tratava. Eu vi o molho de chaves quando acordei e me virei na cama. Mamãe colocou elas sobre a palma da minha mão gelada, assentiu e engoliu em seco.
— Acho que está na hora de você voltar para o apartamento.
— Por que eu faria isso, mãe? — Perguntei com a voz falindo.
— Porque ela não confiava em outra pessoa, era só você e ela. As coisas que estão lá precisam de um destino. Se achar que não consegue fazer isso sozinha, eu vou com você.
“Olhei as chaves, olhei Margaret. Pensei muito antes de decidir voltar e com muita coragem fui. Sim, eu pedi que ela fosse comigo, porque eu me conhecia para saber que poderia enlouquecer quando sentisse o seu cheiro nos objetos.
“Foi num final de tarde que entramos aqui. Foi tão estranho, como se você fosse aparecer no corredor a qualquer momento. Eu pus os pés na porta, caminhei pela sala, abri a sacada e olhei para todos os cantos. Mamãe se sentiu à vontade para jogar a comida estragada da geladeira fora enquanto eu andava pelos quartos. Entrei no quarto de hospedes, me lembrei de quando você me trouxe e me ofereceu aquela cama para dormir. Me lembrei de quando discutimos e você me pegou no colo, me beijou e a gente veio pra cá. Eu entrei no seu quarto, entrei por ali e te imaginei me esperando na cama, que por sinal estava desarrumada. Tudo estava como você tinha deixado e o ar pairava como se ainda estivesse viva. Não sei explicar como, mas naquele momento eu jurei que estava viva. Me enchi de uma esperança tão grande, que absolutamente qualquer lembrança que eu tivesse de você me faria sorrir. Entrei no closet e toquei nas suas roupas. Borrifei seu perfume nos blazers, naquela camisa de lã vermelha que você tanto gosta de usar e rocei o rosto nela. Era como te abraçar, como isso que estamos fazendo agora, te vendo em carne e osso. Repeti tanto: Te amo. Eu te amo muito. Foi Bom e eu não queria ir embora.
— Acho que vou passar essa noite aqui. — disse a minha mãe.
— Tem certeza?
— Tenho. Eu vou ficar aqui amanha também, vou limpar tudo e decidir o que fazer com o resto.
— Como está se sentindo, querida?
— Finalmente acho que estou bem. Obrigada por me trazer aqui.
— Seu pai e eu estávamos pensando... Podemos comprar esse apartamento pra você. Ficaria aqui, poderia estudar, ficar mais perto do trabalho...
— Não vou negar que a ideia é boa, mas eu teria que convencer os pais da Regina. Agora esse apartamento é deles, não é? Por enquanto eu vou dando um jeito e aproveitando enquanto posso visitar esse lugar. Tenho a impressão de que a Regina vai entrar por aquela porta a qualquer momento e quero estar aqui para recebe-la.
“Naquele instante minha mãe segurou algo, ela já sabia de tudo, só não podia me contar. Ela me olhou com pena, mas disfarçou com um sorriso.
— Perdão, Emma. — disse ela de súbito.
— Pelo o quê?
— Perdão. Perdão por ter sido tão preconceituosa com vocês, eu era muito ignorante.
— Esquece isso, mãe. Acabou, a gente já se entendeu.
“Ela me abraçou e se despediu de mim. Voltou pra casa e fiquei aqui, fingindo que você ia chegar. Dormi abraçada a sua roupa e sonhei com você a noite toda. Por um tempo esse era meu vício, ficar aqui abraçada a você nessa cama, imaginando que a gente se amava a noite inteira. Eu tinha a doce ilusão como minha nova droga e já não pensava tanto em ir atrás de porcarias. Dormia uma vez por semana aqui, levei algumas coisas minhas que ficaram pra casa e decidi voltar a estudar pelo menos. Repus as aulas que havia perdido, mergulhei nos livros, voltei a cuidar da minha mente que estava começando a apodrecer. Isso durou umas duas semanas.
“O terceiro mês de aniversário da sua morte chegava e um belo dia um homem apareceu lá na universidade a minha procura. Eu o reconheci na hora, o cara que me salvou na piscina, no jantar da empresa. Pois é, era ele e eu levei um susto ao me dar conta de que não era só o cara que tinha me salvado, era um rosto um pouco familiar que ele fez questão de esclarecer.
— Desculpa vir sem avisar, mandar chamar você, é que eu queria saber se está tudo bem. Suponho que esteja mais tranquila e que já saiba quem eu sou, não é?
— E-Eu não sei exatamente quem é você, mas te conheço de algum lugar. Obrigada por ter me salvado e desculpa o xingamento, fiquei completamente fora de mim, na hora não ia raciocinar direito.
“Ele parecia um mauricinho com as mãos nos bolsos a todo o momento, andava engomado e tinha um ar arrogante mesmo que comigo fosse muito educado.
— Compreendo, na sua situação qualquer pessoa ia estar transtornada. Ela era muito importante pra você, não era? Eu me chamo Killian. — Ele estendeu a mão. — Se ela não contou, fui o ex-noivo da Regina.
— Ah, então é por isso que eu já tinha te visto em algum lugar. Ela tinha uma foto sua numa agenda velha, eu encontrei essa foto um dia. Nossa, que coincidência logo você ter me salvado.
— Fiquei sabendo quem era você quando seu pai me procurou na empresa. Ele descobriu que eu tinha te ajudado e agradeceu. Ele também sabia que eu fui noivo da Regina, ela me recomendou para uma entrevista de trabalho e eu fiquei com a vaga.
— Não sabia.
— É, ela me ajudou muito. E como estão as coisas depois do que houve com ela?
— Acho que estou começando a aceitar a morte dela. — Olhei bem para ele e resolvi que devia acertar as contas por você, vingar a sua raiva por ele. — Sabia que você quase destruiu a vida dela antes de acontecer o que aconteceu? Ela não gostava muito de lembrar de você. Custou muito pra ganhar a confiança da Regina e a culpa é sua.
— Até você me culpando pela depressão da Regina? Devo ter atirado pedra na cruz.
— Não foi escolha dela, se pelo menos tivesse sentido remorso e pedido perdão...
— Eu sempre pedi desculpas desde antes de acabar o relacionamento, inclusive eu sugeri que a gente continuasse em um relacionamento aberto, mas ela repudiava a ideia.
— Ela pensava que tinha culpa por você se interessar por outras mulheres. Ela queria ser a única, ela te amava, cara. Você não soube dar valor pro amor dela.
— Se eu não soubesse dar valor pro amor dela, eu nunca teria escolhido terminar, eu teria traído. Por gostar muito dela eu acabei o que a gente tinha. Se a Regina não soube lidar com as minhas escolhas, o problema nunca foi meu.
— Você tá ligado no que perdeu, né? Uma companheira pra vida toda, ela ia te amar e te respeitar pelo resto dos seus dias.
— Olha só, eu não vim até aqui pra receber sermão da viúva da Regina. Não me arrependo de ter feito escolhas como as minhas e sempre desejei que ela seguisse o caminho dela. É uma pena que ela tenha ficado depressiva por minha causa, o que eu posso fazer? Ainda mais agora, o que eu vou fazer por ela que está morta? Para pra pensar um pouco, garota, se a gente não tivesse terminado, ela não tivesse começado a sair com mulheres e essas coisas, como é que vocês iam se apaixonar?
“Ele tinha razão, se não fosse por tantas coisas que aconteceram posteriormente ao termino de vocês dois, a gente nunca teria se conhecido e se apaixonado. Não sabia onde enfiar a minha cara, não conseguia nem olhar pra ele direito.
— Desculpa. Foi mal. Ela estava se curando e me ajudando a ficar bem, eu queria protege-la.
— Eu também amei a Regina, amei demais e nunca vou me esquecer do papel que ela teve na minha vida. Lamento que ela tenha partido desse jeito. Desejo de verdade que você seja feliz. Tenta relaxar, viu? Ela ia preferir te ver menos pilhada com problemas dela.
— Você tem razão. Valeu. — Estendi a mão e apertei a dele de novo.
“Logico que fiquei pensando na conversa que tive com seu ex noivo. Ele não era lá tão culpado por você ter depressão e indiretamente estava ligado a esse fato. Eu descobri que não podia te defender, mesmo que quisesse fazer justiça pelo o que você passou. Ficar na minha podia ser uma prova de amor, seguir talvez fosse a solução, o sr. Gold também estava certo. Assim eu fui empurrando os dias, acordava nessa cama ao lado de uma roupa sua, ia para a faculdade, voltava para casa e me ocupava com as matérias atrasadas. A vontade de fumar era imensa, eu vivia rodeada de delinquentes querendo me vender baseado, mas negar se tornou mais fácil.
“David, comovido, me deu dinheiro para que eu visitasse o seu túmulo. Àquela altura mamãe já devia ter contado para ele que você estava viva e escondida em algum lugar da Georgia. Na cabeça dele eu não podia apagar a sua memória, porque uma hora você ressurgiria, ele só não sabia se você voltaria ou seria uma nova pessoa no seu lugar. Comecei a ir uma vez por semana no cemitério. Uma ou duas vezes, meu pai ia comigo e vi o empenho dele em tentar me arrancar um sorriso que fosse.
— Sua mãe falou comigo sobre o apartamento da Regina. Você já conversou com os pais dela? — falávamos enquanto pegamos a balsa.
— Sinceramente, tenho o contato deles, mas toda vez que me arrisco a ligar, sinto um medo absurdo.
— Medo de falar com eles?
— É, medo de não entenderem a ideia. Eles mal me conhecem, só devem ter ouvido falar, se é que a Zelena comentou alguma coisa.
— Se você preferir eu posso ligar para eles, resolvo para você. — Ele dizia, me olhando com delicadeza.
— Tem umas coisas, pai, que não se manda os outros cumprir. Tenho que resolver sozinha, tomar coragem e enfrentar, do mesmo jeito que tenho enfrentado a ausência dela.
— Se a Regina amava você não há porquê lhe tratarem mal.
— Assim espero. — A gente observava a água, ele levava as flores que pretendíamos deixar sobre o túmulo. — Às vezes tenho tanta certeza do que sinto pela Regina, no entanto reflito sobre o pouco tempo que tivemos. Será que era amor mesmo?
“Meu pai deu um grande suspiro e voltou a prestar atenção na água.
— Primeiro de tudo, amor não se escolhe, Emma. Quando chegamos no escritório da Regina aquela vez pedindo que ela encontrasse você, não fazíamos ideia, mas demos uma chance para ela conhecer um grande amor. Ela não escolheu levar você para casa porque nós pedimos, ela fez o que o coração dela mandou, ela já te amava naquele momento sem que soubesse.
— Tenho vergonha de lembrar como eu estava quando vi a Regina pela primeira vez, mesmo assim ela gostou de mim.
— Consegue ver como esse tipo de coisa não se decide? É impulso, é um empurrão que a vida dá. Você poderia estar pintada de lama que ela ainda assim ia se apaixonar.
“Sorri ouvindo a conclusão do meu pai e na ocasião não me entristeci tanto ao ver o seu túmulo. Os dias foram seguindo. Tive uma crise, mas dessa vez me enfurnei de baixo do chuveiro e fiquei esperando o desespero passar. A solução para o fim das crises era simplesmente pensar que depois não haveria nada me esperando. Ou eu superava a vontade de me drogar ou eu voltava para o inferno. Bem, ter uma crise já era um inferno, então eu esperava a tontura passar, a vontade de me jogar do alto de um prédio ou em uma piscina, imaginando que eu fazia mesmo aquilo e que não sobrava nada nem você lá do outro lado.
“Fui te visitar pela última vez depois daquela crise, fui sozinha e passei boa parte do meu dia sobre a sua sepultura. Tinha decidido não vir aqui, porque eu poderia ter outra crise de abstinência e não ter nem minha mãe para pedir socorro. Quando voltei para casa, Margaret me esperava no quarto, segurando sua foto. Meu pai também estava lá, mas nos deixou a sós, dando um tapinha no meu ombro como se dissesse: Você precisa ser forte agora, menina. Eu não estava entendendo nada, o porquê daquela atitude dele e porquê minha mãe me olhava tão séria quando cheguei.
— Não fiz nada, fui apenas ao cemitério ver a Regina.
— Nós sabemos, Emma, sente-se aqui, por favor. — Pediu ela com muita cautela.
— O que que tá acontecendo? O que está fazendo segurando a foto da Regina? — Eu estava prevendo o que ela ia me dizer. De repente eu queria sorrir de nervoso.
— Emma, está tudo bem, me escuta. — Ela engoliu em seco, esperou eu me acalmar e explicou. — Antes que você nos julgue, saiba que nós não podíamos, isso era um segredo. Se contássemos antes nós colocaríamos a vida dela em risco novamente.
— De quem é que você tá falando?
— Ela... Ela está viva, meu amor.
— Quem? Regina? — Franzi meu rosto, senti minha boca tremendo de medo.
— Um homem esteve aqui esta tarde, ele trabalha para o FBI, é casado com Zelena Mills e nos contou onde ela está. Antes disso, nós sabíamos que Regina estava viva, ela nunca morreu no acidente. Atentaram contra a vida dela sim, mas quem tirou o corpo dela do hospital foi Zelena e o marido. Eles a levaram para um lugar no estado da Georgia, está aqui o nome da cidade e do bairro. — Ela havia anotado atrás da foto e me entregou. — Regina ficou quase um mês em coma e o plano da irmã dela era ser promovida se levasse Regina até os federais.
“Eu não tive reação quando soube, eu não conseguia sentir sequer o meu corpo.
— Emma, quando soubemos, Regina já estava nesse lugar e foi pedido que você não soubesse de forma alguma, pois poderiam encontra-la através de você. A quadrilha que tentou matar a Regina foi presa um pouco depois que soubemos e ela ficou livre de novo. Ela escolheu voltar e está transtornada com tudo o que houve, principalmente por não poder voltar para você logo. Nesse momento ela negociou com Zelena e o marido e ele veio me dar permissão para contar o que aconteceu.
“Houve um momento que meus lábios doeram de tanto prendê-los e meu choro veio na mesma velocidade que um raio.
— Não acredito.
— É verdade, querida, Regina está viva e quer voltar.
— Passei por tudo isso à toa? Tiraram a Regina de mim pra isso?
— Não culpe ninguém, ela está tão chateada quanto você.
“Sentia as lágrimas descendo pelo meu rosto, minha mãe me abraçou e chorei em seu colo até entender que não adiantava odiar a Zelena pela ambição dela que gerou tudo isso, eu estava perdendo tempo. Me sentei de novo, olhei seu rosto na foto e olhei minha mãe que não sabia como me confortar de outra maneira.
— Preciso ver a Regina, ela deve estar pensando que eu estou perdida. Preciso ir atrás dela.
— Ela está fazendo de tudo para voltar, vocês vão se ver em breve.
— Não posso esperar mais, não tem como, eu tenho que ir, eu tenho que trazer a Regina de volta.
— É o que você quer de verdade, Emma?
— Sim!
— Está bem.
— Só preciso de uma passagem, vou busca-la e pronto.
— Tudo bem, querida, tá bom, mas fique calma.
“Confiei na minha mãe, quase implorei para ela arranjar as passagens de ida e volta e ela fez isso, ela e meu pai providenciaram tudo em um dia. Foi o dia mais ansioso que vivi. Eu imaginava como você estaria, como tinha ficado depois do acidente, se estava bem, se tinha te desfigurado muito, se você se lembrava de mim... Então descobri que você em nenhum momento se esqueceu de mim. Quando cheguei em Atlanta, parti para o lugarejo onde tinham colocado você. Seus pais notaram o meu desespero, mas para a minha infelicidade momentânea, você já tinha partido de volta para cá.
“Lembro do momento em que saltei do Uber e bati na porta da casa, não vi campainha, não queria enxergar nada na minha frente que não fosse você. Então sua mãe e atendeu. Ela me reconheceu, ficou bem assustada. Soube que era sua mãe na hora, ela é como você havia me descrito, uma senhora bonita e elegante. Na verdade, quando cheguei, o clima não era lá dos melhores. Seus pais pareciam tensos e o Henry Mills, em particular, estava muito agitado. Senti o olhar dele pesando em cima de mim, depois ele foi muito gentil me tranquilizando, dizendo que você repetia meu nome quando dormia. Eles me contaram tudo, me explicaram de uma maneira bem clara que Zelena fez algo muito errado. Eu com sinceridade, não conseguia sentir ódio dela. O máximo que me vinha a mente era raiva, mas por saber que você havia lutado tanto para sair dali, essa raiva foi morrendo.
— Regina te defendia muito, menina, ela nos assustou com o tamanho do amor dela por você. — Cora abraçou os próprios braços depois que me trouxe água com açúcar.
— Realmente acreditei que ela estava morta, senhora. Pode imaginar a dor que foi? A senhora consegue imaginar tudo o que passei por acreditar na morte da sua filha?
— Faço ideia, não tenho essa autonomia.
— Há alguns dias meus pais decidiram que iam comprar o apartamento onde a Regina morava, eu ficaria por lá. Pensava em ligar para vocês, mas eu tinha medo de como iam reagir.
— Se não soubéssemos quem você era, provavelmente não íamos reagir bem. Me lembro quando teve a ousadia de ligar para mim na época em que Regina fez aniversário e confesso que não imaginava que a dona daquela voz meiga fosse uma moça como você. Uma coisa que eu devo dizer é que não reconheço a minha filha, pelo menos não aquela que cuidei até a faculdade, ela é infinitamente diferente da menininha que adotei.
— É egoísta demais perguntar se tenho a ver com essa mudança?
— Não, você adivinhou o meu pensamento. Eu acho que você fez Regina mudar bastante, pois a Regina que conhecemos, jamais diria que estava apaixonada. Nós sempre soubemos que ela gostava de moças tanto quanto rapazes, mas assumir com tanta força como ela fez, jamais pensei que fosse presenciar. Você deve ser muito especial para arrancar dela uma atitude como essa. Agradeço. — Sua mãe foi um amor comigo a partir daquele momento. Gostei de ter conversado com ela.
“Tive de passar a noite por lá e corri o risco de encontrar sua irmã, só que ela não apareceu. Seu pai deu um jeito de manter ela bem longe da casa enquanto eu estive lá. Havia outra mulher, uma loira alta, bonita, não lembro o nome, me disseram que ela estava de partida, que havia cuidado de você quando ficou doente. Enfim, foi isso. Foi tudo isso que aconteceu enquanto a gente ficou privada de se ver e saber uma da outra. Agora a gente tá aqui, eu te amo pra caramba e é como se tivessem me devolvido o mundo.
— A mim também parece que devolveram o mundo. — Seguro o rosto dela em minhas mãos e beijo aquela boca, demorando muito para soltá-la. — Nem sei o que dizer ao certo sobre tudo o que contou, estou sem autonomia.
— Falou igualzinho a sua mãe. — Ela sorri com doçura, morde o lábio inferior e me agarra. — Não precisa dizer nada, sei que está orgulhosa de mim, porque não usei nada que fosse me prejudicar.
— Você lutou bravamente como uma guerreira destemida, tirou forças de onde não existia mais esperança. No seu lugar eu jamais teria conseguido.
— Duvida? Por amor a gente é capaz de tudo. Se você teve a capacidade de desafiar os seus pais e a sua irmã, por que não teria para superar a minha morte se fosse comigo? Hum?
— Tem razão. No final, é tudo por amor. — Brincamos com nossas mãos e dedos, encaixando-os. A minha vontade era de colocar uma aliança na mão dela e pedi-la em casamento agora, porém seria uma atitude precipitada. Estamos eufóricas, contentes, não posso tratar de algo tão sério com a cabeça cheia de saudade dela. Acho que haverá uma outra ocasião e saberei se estou fazendo a coisa certa. Eu sei que é ela que eu amo e que temos muita coisa para viver, então, primeiro, que a gente viva o tempo perdido. Quero me inundar de Emma tanto quanto me afogaria para salvar a vida dela. Existem milhares de formas de compensar o tempo que perdemos, a começar pela admiração que estamos sentindo. Não se trata de sexo, nem de assumir que estou apaixonada, é muito maior que isso, é íntimo e pessoal, uma coisa que só ela e eu compreendemos aqui dentro de nós.
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