For the love of her

8 A paixão é a nova brisa


Notas iniciais
Olá, todo mundo. Bom estar de volta com essa fanfic. No capítulo de hoje, Kris assume sua derrota na vida. E, comprovando muita coisa diferente depois da noite quente entre Regina e Emma, a loira tem uma surpresa para a advogada. Façam uma boa leitura.


Por que demorar tanto para assumir que aquela fora a melhor transa da minha vida?

Porque eu não quero acreditar que Emma esteja apaixonada por mim. Mais uma vez eu me lembro da minha luta para negar que meu noivado estava acabado quando o cara que eu pensava amar me largou na época da faculdade. Há uma dificuldade para aceitar o que eu não quero entender, e sinto que este é meu maior defeito. Mas não há muito o que se questionar sobre meus problemas do passado quando eu decido colocar uma mulher completamente desconhecida dentro de casa e livrá-la do vício em drogas. Ela me diz que está apaixonada por mim e é óbvio que vou acabar machucando aquele pobre coração carente e mimado. Mesmo assim, essa mulher passara uma noite inteira transando comigo a troco de nada, apenas em busca da comprovação que queria sobre eu ser uma soberana na cama com qualquer mulher. Na verdade, toda relação sexual que tive com as mais variadas mulheres não me passavam de distração. Noto isso agora com a cabeça nos olhos dela, a tensão naquele rosto lindo enquanto rebolava sobre mim na noite passada. Céus, eu nunca reparei tanto no rosto de alguém enquanto transava. Talvez Emma tenha muito a me ensinar, apesar de ser o mais inexperiente possível. Que merda, não quero magoar essa mulher ao mesmo tempo que tenho medo de me libertar demais para algo incerto.

O transito de Nova York me leva a um nó cujo o fim da corda me leva a Emma Swan. Ela estará lá para mim no fim do dia, no meu apartamento, me esperando com o jantar no forno e o chão lustrado, a cama arrumada para ser desarrumada em breve e o rosto de anjo que precisa ser cuidado. Sua foto permanece no bolso do meu terno. Parece que ganhei um hábito de levar ela comigo. Um intervalo entre um sinal de transito e outro e retiro a foto para guardá-la em minha pasta. Ficará mais segura nela.

No elevador as mesmas piadas com os estagiários, nos separamos ao chegar dentro da firma e eu ser seguida por Belle com uma pilha de folhas para analisar. Mas pela cara que está fazendo, os papéis são o menos importante. Ela me espera sentar para abrir uma agenda e me mostrar uma data e horário marcados. Hoje é o infeliz dia da audiência de Kris e sua revista contra a concorrente. Belle não precisa dizer uma palavra para me convencer a ir, eu simplesmente não tenho como me ausentar desse compromisso. Há muito dinheiro em jogo, o processo vai gerar a revista de Kris quatro milhões de dólares e a firma e eu ficamos com trinta por cento disso. Dada como certa nossa vitória, serei recebida com louvores quando voltar a firma pela tarde. A parte ruim e que quase me faz negar o compromisso é o fato de precisar encarar Kris que não se recusara a contar comigo como sua advogada depois dos problemas íntimos que tivemos.

Felizmente Kris parece conformada com a condição de cliente e advogada quando me encontra no fórum. Ela me cumprimenta com a cabeça antes de apertar minha mão diante da sala de audiências. Ela está acompanhada de um dos sócios e acredito que seja um truque para a defesa de sua concorrente pensar que esteja muito bem preparada. Hoje Kris está bonita, bem vestida com um terno marfim e a maquiagem na medida certa, mas não quero me atentar a esses detalhes. Ela me olha da cabeça aos pés, me analisa enquanto seu sócio comenta sobre algum assunto torpe. Reparo que Kris sente um cheiro a mais na minha pele, como se fosse um animal com super olfato e pudesse sentir o cheiro de outro perfume além do que eu já usava. Apesar de ter tomado um bom banho e me arrumado, ela me olha com olhos indignados, embora não possa dizer nada nem mesmo reclamar. Devolvo um olhar questionador, uma sobrancelha erguida a colocando em seu devido lugar. O sócio percebe que não estamos em um bom momento para escutar a nova ideia de artigo na sessão de moda feminina da revista, nós duas trocamos faíscas imaginárias com os olhos e aproveito para desafiar Kris. Até onde ela aguentaria sem alfinetar minha vida sexual? Infelizmente nosso tempo se esgota do lado de fora da sala de audiências e o juiz nos chama.

Lá dentro, nos nossos devidos lugares a audiência se inicia. Eu tenho o direito de começar meus interrogatórios. Questiono três testemunhas e a testemunha de defesa da revista concorrente. O plágio é comprovado graças a um deslize que o editor assistente deixa escapar em sua explicação.

— Então o senhor confessa ter usado a matéria da revista da minha cliente como base para sua conclusão no trabalho solicitado? — questiono o rapaz de aparentemente vinte e poucos anos (talvez a idade de Emma), com um braço apoiado na grande de madeira que me divide do júri.

— Sim, senhora. — ele responde, a voz trêmula entrega o nervosismo, ele está ferrado.

— O senhor sabe que a prática de transcrever trecho ou ideia para uso próprio sem a devida autorização é considerado plágio?

— Sei sim, senhora.

— Então o senhor alega ter tomado tal atitude consciente dos riscos que o seu empregador poderia ser sujeito neste tribunal?

— Sim, senhora.

Olho para meu querido colega Archie Hooper, o advogado da revista concorrente e ele abaixa a cabeça como sinal de bandeira branca. Não há o que fazer para o lado deles.

— Sem mais perguntas, meritíssimo. — digo, voltando ao meu lugar ao lado de Kris e ela permanece calada, mas há um sorriso faceiro em seu rosto, aquele tipo de sorriso de quem canta vitória.

O júri não leva nem dez minutos para sentenciar os concorrentes de Kris a pagar a ela os milhões de dólares. O juiz bate o martelo e cumprimento meu velho conhecido colega de faculdade.

— É, Mills, você continua imbatível. — diz ele abatido.

— Peguei um caso ganho, Hooper. — falo para ele e afago seu braço. — Mais sorte na próxima vez.

Todos se retiram, restando Kris e eu sozinhas na sala. Recolho os papéis, guardo em minha pasta e sirvo minha mão para cumprimentar a loira, mas ela parece relutante a encostar em mim. Está de braços cruzados, nem séria nem fria no rosto. Acho que Kris nota que não vamos mais nos encontrar.

Ela ergue o rosto como quem indaga algo e eu não espero boa coisa vindo dela.

— Então é aqui que nos despedimos, Mills? — ela me chama pelo sobrenome, a forma correta de se referir a sua advogada, estranho.

— Como cliente e advogada sim. Não pretendo voltar a trabalhar com a senhora novamente. Agradeço que tenha me escolhido e confiado em mim, espero que outro profissional possa atender suas expectativas tão bem quanto.

Kris fica aflita de repente, olha para um canto qualquer e alisa a nuca por baixo do cabelo cheio.

— Não haverá outros encontros? Sabe, nós duas... Tudo o que houve entre nós... Foi algo muito diferente e foi bom, e como tudo o que foi bom na minha vida eu deixei escapar. Por favor, me dê uma esperança, Mills.

— Não quero, não posso. Se eu disser que foi ruim, estou mentindo, porém o que tivemos nunca passou de uma distração para satisfazer o meu ego. Não foi só com você, foi com outras pessoas da mesma forma, a diferença é que com as outras acontecia apenas por uma noite. Talvez se você fosse diferente, talvez isso tivesse dado certo.

— O que mudou? Você está distante, está leve, há brilho em você como eu nunca percebi. — questiona ela com uma pulga atrás da orelha.

— Estou mudando, talvez seja o momento para me abrir para muita coisa na vida. A Regina que você conheceu há alguns meses não será a mesma daqui alguns anos. Mudanças são providenciais.

Para ser mais exata, não era isso que eu gostaria de ter dito a Kris, não dessa maneira. Eu sequer sei porque me expressei sobre a mudança dessa forma. Mas fica evidente que pessoas como Kris, incluindo as mulheres com quem me envolvi, não estão mais nos meus planos. Pode ser que hajam palavras inconscientemente postas de propósito ali. Isso deve ser um presságio do que eu preciso fazer de hoje em diante, do dia seguinte em que transei com Emma. É como se todo aquele nosso incêndio na cama me fosse um sinal. Livrar-se do que eu considerava errado para me entregar ao certo, ao merecido e dado.

— Ganhei no tribunal, perdi na vida. — Kris comenta, acompanhada de um lamento. Estende a mão a mim finalmente e me agradece. Egoísta como é, ela dá as costas, coloca os óculos escuros no rosto e sai do tribunal a passos curtos e elegantes, quase como uma viúva.

De volta ao escritório, após a esperada comemoração pelo meu sucesso na causa da revista de Kris, sento em minha sala, olhando um envelope pardo que Belle me entregou assim que pisei de volta ali. Abro e encontro muito dinheiro. Dez mil dólares em notas vivas e um bilhete junto, preso ao elástico nas notas.

“Agradecemos a sua prestação de serviço. Pedimos desculpas pelo mal estar que causamos a senhora e principalmente a nossa filha. Por favor, cuide dela. Se a senhora não estiver ofendida pelas nossas atitudes, pedimos que envie notícias de Emma. Nosso contato segue abaixo.”

Dois endereços de e-mail vinham mesmo abaixo no bilhete. A mensagem de Margaret e David Swan era bem específica. Aquela era minha parte por ter encontrado Emma, a filha deles, além de tê-la abrigado sem pedir qualquer custo por isso, mas os Swan deviam acreditar que sim e estavam me oferecendo uma espécie de compensação pelo aluguel da filha.

Tive a ideia de entregar esse dinheiro a Emma para ela fazer com ele o que bem entendesse, e para guarda-lo ela teria que ter uma conta no banco. Sobre esse assunto decido conversar com ela quando chegar em casa.

O dia termina, Belle se despede de mim e fico mais um pouco no escritório, recebendo cumprimentos dos meus colegas da firma ainda pela vitória na manhã. Os presidentes da firma estão muito satisfeitos com os meus atuais desempenhos nos tribunais, quem sabe eu não seja recompensada com um aumento. De qualquer forma recebendo o que recebo ainda posso pensar em trocar aquele apartamento por uma casa em Long Island. A ideia me agrada de verdade e perco uma hora olhando sites de imobiliárias. Vejo casas lindas voltadas para a praia, extremamente confortáveis à primeira vista que me encantam, quando de súbito um vento vem da janela e leva alguns papéis que não consigo segurar, ao chão. São alguns papéis que eu guardava na pasta e os retirei para estudar, ações da firma. Me levanto e quase na porta da sala, por sinal aberta, a foto de Emma está virada para o lado oposto. Eu olho para ela, recolho e levanto. Emma não está nos meus planos para Long Island desde o início porque jamais cogitei a hipótese de ter uma hóspede em casa. Mas, agora, fico com a sensação de que preciso muito da opinião dela. Talvez seja prudente eu dizer que tenho vontade de ir embora de Nova York um dia. Posso oferecer a ela estadia no meu apartamento, não é incomodo, realmente não. E começo a imaginar sua reação, seu semblante mudando quando digo que vou embora um dia. Ela não vai fazer questão de me esconder que odeia a ideia e certamente vai achar que estou pensando em me afastar dela arrumando formas de evitar mais a aproximação que tivemos.

Decido ir para Upper East Side e finalmente rever a hóspede que prometera passar o dia em minha cama. Quando chego encontro as luzes do apartamento acesas, mas nem um sinal de Emma. Está tudo arrumado, tudo no lugar e limpo como brinco, mas Emma não estava ali. Fui até o meu quarto, Emma deixou a cama arrumada, mas não estava ali também. No quarto de hóspedes sua mala permanecia ao lado da cama, fechada e intacta. Começo a rezar para que ela não tenha surtado ou tomado alguma decisão errada e saído de casa. Volto para a sala e mil coisas se passam pela minha mente me atormentando por um momento, chego a me sentir mal. Estou prestes a sair do apartamento para ir à sua procura quando a porta se abre e Emma entra com grande dificuldade segurando um saco grande de supermercado.

— Oi! — Diz ela, surpresa ao me ver, mas feliz.

— Emma! Graças a Deus! — digo aliviada.

— Que foi? Chegou agora? Fui comprar umas coisas que estavam faltando, eu decidi fazer mais uma receita do livro e quero experimentar meu talento. Você não tem problema com aspargos, não é? Eu pensei em fazer uma receita incrível com isso. Ah, aqui está seu cartão de crédito. Tudo o que eu comprei deu vinte e dois e cinquenta.

Ela fala tudo isso enquanto fecha a porta, coloca a sacola sobre a bancada da cozinha, volta para me entregar o cartão e me beija o rosto no canto da boca. Não me olha nem por dois segundos de perto, apenas volta para a cozinha e guarda as compras. Eu a olho e ela me fala das suas pretensões culinárias. Está viva, está radiante, bonita também e não me exige nada além de que eu fique ali exatamente onde estou ouvindo ela falar. Penso em comentar sobre o dinheiro que seus pais me mandaram, mas não quero estragar o bom estado dela. Tenho medo de sua reação caso contrariada. Me lembro da situação com Kris e no que aquilo levou ela, o estado em que a encontrei. Melhor deixar esse assunto para outro momento.

— E você dormiu o dia todo como prometeu? — eu pergunto com as mãos nos bolsos da calça.

Ela para o que está fazendo na bancada e me olha.

— Devo ter dormido umas quinze horas seguidas desde que saiu. Acordei agora de tardezinha. — Ficou um pouco corada quando perguntei, mas parece ter gostado de responder.

— Não se passaram tantas horas assim. Então você só se levantou, tomou banho e saiu para fazer compras?

— Basicamente isso. Se fizer duas horas que estou acordada é muito. Ainda estou cansada da nossa maratona, se quer saber.

Emma não me olhou ao falar isso. Eu me aproximo, entro na cozinha, olho para ela e sinto uma coisa inexplicável. Estamos de costas, dividindo o mesmo espaço. O que estou fazendo ali? Ela se vira e eu me viro ao mesmo tempo, então a faca de corte cai da mão dela e ela me puxa pelo colarinho. Emma me beija, eu beijo Emma. Não mais no canto da boca, agora é realmente na boca e com fome. Minha língua se mistura a dela, é um beijo bom daqueles que molham a calcinha. Instintivamente eu agarro Emma, levanto ela sobre a bancada e sento ela de frente para mim. Ela tira meu terno, tenta abrir a camisa por baixo, o sutiã... Movimentos ensaiados, mas por alguma razão desconhecida eu faço uma pausa no nosso beijo e na nossa fome e seguro suas mãos. Olho para ela, os olhos com as pupilas dilatadas e incompreensíveis.

— Por quê? Você não quer?

— De novo... Eu não sei se isso está certo.

E me afasto, recolho a parte de cima do terno do chão e saio da cozinha. Ela fica sem entender o que eu acabei de dizer, o porquê de eu decidir parar com aquele furor entre nós.

Estou com medo, estou amedrontada de repetir a noite de ontem, amedrontada de sentir de novo o corpo dela sobre o meu e sua entrega. Mas como evitar? É só olhar para seu rosto, me aproximar e querer beijá-la. Vou acabar transformando a vida dela e a minha em um inferno se não me controlar.

No meu quarto, depois de esfriar a cabeça no banho e colocar uma roupa quente e confortável, Emma aparece na porta do closet. Ela faz uma cara como se pudesse dizer: Poxa, perdi a chance de ver você pelada de novo. Bom, se era isso, eu no lugar dela não ficaria tão decepcionada. Eu sabia que não ia me controlar, eu não queria me controlar com Emma.

— O jantar está pronto. — disse ela.

Trocamos um olhar e faço que sim para ela entender que eu vou em breve a cozinha.

— Tudo bem, já estou indo.

Emma pensa em sair do quarto, mas a situação que a deixei na cozinha a incomoda e ela precisa falar.

— Eu te disse que eu sou apaixonada por você, que eu não pretendo ir embora e que quero te conquistar. Você sabe de todas as minhas intensões, mas por favor, não me faz ficar com vontade. Se a gente se esbarrar de novo e acontecer um lance entre nós duas, não pare no meio do caminho. Se você começar, vá até o fim.

Ao dizer o que estava engasgado na garganta desde aqueles minutos atrás, ela só me dá certeza de que substituiu seus vícios por outro. Emma está sentindo paixão por mim. A paixão é o que ela precisa para distrair sua mente da brisa que ela gostava de ter. A paixão é a nova brisa de Emma, é o novo delírio, a nova viagem que ela faz para fugir da realidade. É triste pensar que pode ser isso que a salve para sempre da maconha, do crack e da cocaína, mas ainda que seja, é melhor. É assim que vou mantê-la distante da morte eminente no mundo das drogas.

Ela sai do quarto. Um tempo depois eu a encontro na cozinha, jantamos e o assunto é o livro de receitas da Martha Stewart que ela anda devorando como leitura. Lanço a sugestão de Emma cursar uma universidade, talvez um curso de gastronomia e seus olhos brilham. Ela promete pensar na ideia com carinho. Eu elogio sua comida, digo que ela tem talento e precisa pensar sim em estudar, em levar alguma coisa a sério na vida. Felizmente Emma não me leva a mal e sinto que criei uma nova distração na cabeça dela.

Pouco tempo mais tarde, estou na cama lendo papeis relacionados a firma quando Emma chega e fecha a porta do quarto. Ela traz consigo o travesseiro do quarto de hóspedes. Sem cerimônia senta na cama e me diz que vai dormir comigo hoje, estava decidido.

— Sei que você não quer ou, melhor, prefere evitar, mas eu me sinto segura estando ao seu lado. Não precisa se preocupar em me dar carinho, em me bajular e dizer que gosta da minha companhia também, eu só quero ficar do seu lado. A gente falou alguma coisa do tipo ontem, então, se rolar alguma coisa não importa. Eu sinto atração por você, você por mim, se acontecer só aproveita e o assunto morre quando a gente acabar. Nada muda entre nós.

Observo como ela deita ao meu lado, arruma o travesseiro e se cobre. Não digo absolutamente nada e, como se sabe, calar é uma espécie de consentimento. Ela sorri meiga, espalha aqueles cabelos loiros pelo travesseiro e quer me olhar, quer me ver, quer entender como eu sou nos mínimos detalhes e até no silêncio. Não consigo mais me concentrar nos papéis, então largo eles de lado, largo o óculos em cima da cômoda e desligo o abajur. O quarto está escuro, quase absolutamente num breu quando me envolvo no edredom e procuro os olhos de Emma. Sinto sua respiração me alcançando, o seu calor ainda que não estivéssemos em contato carnal. A presença dela é algo inexplicável como tudo o que ando sentindo desde que ela veio morar aqui.

O silêncio nos ronda, mesmo assim sei que ela está me olhando ainda, ela sabe que eu retribuo. Passa um tempo e até me convenço de que ela dormiu, mas não. Sua mão segura na minha por cima da barriga, ela sente que estou de lado. O que acontece depois vem fora de ordem, ela faz acontecer. Ela toca meu rosto, acaricia minha pele, meus lábios, vem se chegando. Não sei ao certo quando começamos, mas não é ela quem parte para cima, ela me faz ficar por cima, me puxa, me exige, ofega para que eu a domine. Então estou por cima dela finalmente, estou sentindo o hálito quente dela, o cheiro dos seus cabelos e isso é suficiente para me corromper. Eu avanço contra a boca dela no escuro. É um beijo delicioso, tanto quanto foi o primeiro, mas esse não dura. Desço, beijo o queixo, o pescoço, os seios por cima da camisa que ela usa para dormir. Em três segundos ela está nua e de pernas abertas. As coxas sobre meus ombros e minha cabeça ali no meio dela, chupando o que ela me dá porque deseja.

— Ai... É... Isso... — seus suspiros são muitos, às vezes altos, às vezes tímidos, Emma é tantas ao mesmo tempo.

Eu grudo na fruta que o sexo dela se torna. Uma fruta úmida por fora e por dentro e a viscosidade é o que tenho que chupar. Ela treme devagar, não estou vendo seu rosto, mas seguro suas coxas que aperto conforme ela reage. Ouço o som dela chorando, mas não é um choro, é um regozijo, ela está talvez rindo. Emma não tem um gosto diferente das outras, mas ela tem algo que não me deixa parar. Meus beijos continuam até depois do gozo dela e só paro porque ela pede, muito sensível, muito carente do meu corpo por cima do dela ou ao lado. Agora ela quer apenas me beijar na boca. Fazendo isso por muitos minutos até começarmos a formigar.

Dane-se se isso é errado, se estou levando minha hóspede para a cama, se ela é apaixonada por mim. Dane-se o fato dela fazer o meu jantar, se oferecer para transar comigo, querer viver comigo sem garantia nenhuma. Eu levo a sério o que ela propõe sobre esquecer, voltar à estaca zero quando aquilo terminasse. Simplesmente virar para o lado e dormir como se nada tivesse acontecido. Passo a aceitar que dormir com ela é uma boa distração assim como foi com as outras, não penso mais nas consequências negativas que posso causar nela. Eu aceito fazer sexo com Emma todas as noites sem pensar no futuro, só fazendo, e repetindo e gostando. Sem pensar que um dia eu posso cair na rotina ou pior, me acostumar tanto que não consiga viver sem ela.



Aquelas coisas que eu disse para Kris fazem sentido conforme Emma se deita comigo e fazemos sexo. Apesar de que existe outra forma de trocar energia com ela, de aproveitar com ela a questão de não se importar com o futuro. Emma passa vinte noites dormindo na minha cama, e mais vinte noites ela repete o que fizemos na primeira, mas nem sempre o sexo dura e nem sempre estou com o pique, a vontade de me meter entre suas coxas. Em grande parte das vezes, me vejo conversando com Emma. Ela deitada sobre meu peito, eu fazendo pequenas tranças em seus cabelos, aproveitando cada segundo da sua companhia no meu colo, pois sei que quando a gente for dormir, tudo aquilo não terá acontecido, vamos voltar a ser apenas amigas, eu a amiga que ajudo a que não tem para onde ir e está se virando. Numa dessas noites Emma me confidência que tem procurado emprego por mais contra que eu seja. Acabo revelando que seus pais me pagaram dez mil dólares e que prefiro que ela guarde eles consigo.

— Meus pais? Tem certeza que foi pagamento deles?

— Foi.

Ela levanta a cabeça no meu peito, me olha.

— Dez mil dólares. Pensei que poderia servir para você, pode guardar e usar para outra finalidade.

— Mas foi um trabalho que você cumpriu para eles, não tem porquê recusar.

— Já parou para pensar que seus pais devem achar que você tem que me pagar pela hospedagem? Eles estão me adiantando, compensando alguns meses seus de trabalho.

— É verdade. Então esse dinheiro não vai fazer falta?

— A mim? Não, não vai. Acho mais correto que fique com ele e use.

— Bom, então sendo assim eu vou aceitar. Preciso mesmo fazer uma coisa, mas não vou te contar porque é surpresa.

— Está escondendo seus planos de mim? — pergunto com alguma intimidade, como velhas amigas.

— Você logo vai ficar sabendo o que é, vai adorar, prometo.

— Não precisa me dar nada, está bem? Guarde esse dinheiro para o seu bem.

— Mas é algo para o meu bem que eu vou pagar com esse dinheiro.

E não falamos mais no assunto até a semana seguinte quando ela abriu a conta no banco e transferi toda a quantia. Dias mais tarde ela novamente se ausenta de casa quando eu estou prestes a chegar da firma. Ainda é estranho que ela saia e não me avise, não deixe bilhete, nada. Ela pode ter ido ao mercado, penso. Se bem que meu cartão de crédito, que deixo para uma emergência em cima da cômoda, permanece no mesmo lugar. Estou no quarto me desfazendo do blazer por cima de uma blusa de cetim quando escuto a porta. Volto a sala e é Emma. Quase digo de novo: Graças a Deus, Emma!

— Oi. — ela fala, escondendo alguma coisa atrás do corpo.

— Oi. — respondo e sorrio meio confusa.

— Não vai perguntar onde eu estava? Hoje eu não fui ao mercado.

— Percebi. Onde você foi?

Ela abre um sorriso lindo.

— Tenta pelo menos adivinhar.

— Hum — penso. — No banco pegar um pouco de dinheiro? Fez compras em um shopping?

Ela faz que não.

— De jeito nenhum. — Emma anda até mim, tira de trás uma mochila novinha em folha e pousa sobre o sofá. — Era isso que eu queria que você visse, minha surpresa. — Ela estende a mim um papel com o logo de uma universidade, é uma propaganda. Atrás há outro papel grampeado com o nome de Emma completo, data de nascimento, um número de dez dígitos como se fosse um cadastro e sua assinatura.

— O que é isso? — ainda não compreendo.

— Minha matricula na universidade, sua bobinha. Eu fiz os exames, fui aprovada e paguei a primeira mensalidade. As aulas começam amanhã. — diz, empolgada.

— Emma, isso é sério?

— Lógico que é sério! Olha o meu nome aí no papel. Eu fui aprovada no vestibular e vou cursar gastronomia. Você mesma me sugeriu, eu queria provar que você tava certa. Era isso que eu queria estudar.

— Emma, isso é... Isso é ótimo!

Olho o comprovante de matricula dela novamente, o detalhe do curso havia me passado despercebido. Emma estava matriculada no curso de gastronomia. Aqueles dias todos ela não me disse nada, saiu para fazer a prova de admissão, pagou a matricula, comprou o que precisava e se dispôs a voltar aos estudos. Em um impulso contente abracei ela, o que ela já esperava. Ela sabia que eu estava orgulhosa dessa decisão que de fato foi uma surpresa. Eu me sentia no caminho certo com aquela mulher, ela não estava completamente perdida como eu pensava. Conviver comigo, havia levado Emma a repensar sobre si e repensar suas atitudes, suas escolhas. Não havia prêmio maior do que vê-la acreditando no futuro dela mesma. Então não havia sido a toa que levei aquela moça para casa.

Ela sorri, eu afago suas costas abraçada a ela, sorrindo igualmente feliz. É uma grande notícia que me faz ganhar a noite. Quero propor um jantar e então a afasto pouco para olhar em seu rosto, só que ela também faz isso e sem querer nossos narizes se esbarram e paramos ali por algum tempo. Nos olhamos bem de perto, no silêncio, no medo de não dizer coisa com coisa.

Emma entreabre os lábios, ergue uma mão ao meu rosto e o alisa antes de encostar a boca dela na minha. Há dias que isso não acontece. Nós raramente nos beijamos fora da cama e quando isso acontece é porque nós acabamos de ter sexo. Hoje, no entanto, ela me beija, eu aceito e não desisto, como ela pediu que se eu começasse algo não parasse, fosse até o fim. Outro beijo cujo sensação não decifro, não sei dar significado. É ela quem termina, e longe daquele ser um beijo com segundas intenções, sinto que é seu beijo de agradecimento, com doçura, suavidade e intensidade.

Meio tonta, meio confusa ela se desprende de mim, pega a mochila e joga nas costas para entrar com ela.

— Bem, eu acho que estou atrasada para fazer o nosso jantar, não é mesmo?

— Emma, vamos fazer diferente hoje, que tal jantarmos fora e comemorar a sua matricula na faculdade? — proponho, ainda limpando o canto da boca, um possível borrão do meu batom causado pelo beijo.

— Tá falando da gente sair e comer fora? Poxa, eu adoraria!

— Então vai, se arruma, coloca uma roupa bem bonita que eu espero.

Mais do que animada ela sai para o quarto e se apronta.

Sentada no sofá, eu espero por ela, pensando no beijo de agradecimento que acabo de receber. E, enquanto me lembro dele, entendo que aquele e todos os beijos que Emma me desse dali em diante teriam um sabor a mais que o da paixão dela.

Notas finais
Até aqui Regina resiste, embora já esteja inconscientemente aberta aos encantos que Emma pode oferecer, especialmente quando se trata de beijo. É muito pedir que vocês opinem sobre o assunto ou o que estão pensando em geral? Eu agradeço muito desde já. Vocês são lindas! Um beijo enorme, nos vemos no próximo e fiquem bem.