Sara fechou as torneiras e se ajeitou na banheira, acomodando sua cabeça no apoio inflável, esticou sua mão para a taça de vinho tinto e saboreou devagar. Era tudo o que precisava naquele momento. Não estava no clima para enfrentar seu ex-marido frente a frente, com assuntos que não seria apenas trabalho. Estava a um passo de enlouquecer.

Ela não se deu ao trabalho nem ao menos de dar uma resposta a ele. Não precisava, mas se ele fosse esperto o bastante, saberia ler seu silêncio. Não era uma vingança, nunca faria qualquer coisa parecida com ele, não seria ela! Estar com ele no mesmo restaurante em que tiveram momentos tão deliciosos não ajudaria em nada em sua missão de se resguardar. Apesar de tanto esforço, já não estava conseguindo mesmo! Tão próximos, em um terreno perigoso, só piorariam as coisas. Mas nada do que fizesse, faria sua mente parar com as lembranças, com as cenas que vinham aos montes, uma após a outra.

Ela tinha certeza que ele estaria bem vestido, com sua maneira educada e polida. Seu cheiro atravessaria a distância de uma mesa e faria seus neurônios entrarem em curto. Sem contar que suas pernas poderiam correr o risco de se tocarem, escondidas através da toalha branca. Ela o desejava como antes, o idolatrava como antes, o amava como antes!

Com os olhos fechados, a água morna, sua mente desenhou claramente ele passando pela porta, parando no meio da suíte, se despindo e entrando em silêncio com ela na banheira, apenas com seu meio sorriso sedutor. Ele tinha o hábito de massagear seus pés, dizer que amava cada pedacinho dela, depois a convidar para se aconchegar em seu peito, enquanto ouvia frases que ele tinha o dom de inventar. Ele tinha um repertório extenso e, suas próprias composições. Como poderia não amar o que ele era, o que tinham vivido delicadamente, intensamente!

Ela sabia o poder daqueles olhos nos seus, o sabor de sua boca sobre cada parte dela, seus beijos, de tantas formas diferentes. Céus! Ele era estranho, muitas vezes, cético, calado, mas quando viajavam pelo mundo das sensações, dos limites de prazer, ele era incomparável. Talvez fosse a força do que sentia por ele, o desejo que achou que jamais deixaram de partilhar. A cumplicidade na cama, suas mentes em sintonia!

Seus olhos choraram sem que ela pudesse controlar. Lágrimas de dor e memórias!
Tudo terminado por uma droga de distância, que eles poderiam muito bem ter resolvido se ele quisesse. Agora toda aquela coisa de não saber exatamente que tipo de sentimentos havia entre ele e aquela abusadora!

~♥~

Grissom se sentou na pequena cama de sua cabine, e esfregou o rosto com veemência. Tantos conflitos vividos em tão pouco tempo. Sua mandíbula doía com o esforço de permanecer impassível, mas não havia como ser diferente. Os músculos das costas também estavam sofrendo com a pressão, havia um peso sobre elas que o deixava abatido e desgostoso.

Ele olhou para seu telefone vibrando e viu o nome de Heather, mas não conseguiu atender. O que ela tanto queria com ele? Ele resolveu desligar com a sensação de que estava fazendo algo errado! Ele tinha Heather como sua amiga, eles mantinham contato com frequência e falar com ela era bem mais fácil e simples do que com sua ex-mulher.

Ele era incapaz de manter um relacionamento amoroso sem acidentes! Era um desastre como marido, priorizava sua carreira e sempre tinha dúvidas em estar atrapalhando o trabalho dela ou não! Ele sabia que por um tempo, estava conseguindo. Toda sua energia focada em fazê-la feliz, mas o tempo se encarregou de distanciar os dois e ele não soube retomar o caminho para o bom relacionamento, mesmo amando aquela mulher com cada fibra de seu ser.

Heather sempre estivera lá para ele, sempre podia ouvir sem cobranças e o entendia profundamente. A amizade sincera que ele acreditava existir entre eles, era reprovada aos olhos de quem quer que fosse. Mas o mais estranho era que ele não se importava com julgamentos. Havia dormido com ela uma única vez e, depois mesmo tentando tirar Sara de si quando ela o deixou em Vegas, não havia conseguido uma segunda vez. Ele se abraçou a ela e chorou feito um garoto perdido.

Sua dor naquele momento precisava de solidão. Ele derrubou seu corpo contra o colchão sem se importar em se despir, só queria sofrer em paz, essa era sua verdade. Ele acendeu o pequeno abajur, olhou para o teto e tentou até sorrir, “tão linda!” mas só o que conseguiu foi chorar em silêncio.

~♥~

Sara passou por ele, sem nem sequer lhe dirigir o olhar, evitando perguntas que ela não queria responder, silenciosas ou não! Mal sabia ela que ele a encarava com uma tristeza profunda. O gosto amargo da rejeição ainda o rondando.

Ela fechou a porta de sua sala, apoiando suas costas nela como se do contrário desmoronaria no chão. Ela podia continuar lidando com tudo isso, já havia chegado até aqui. Precisava manter o foco no que realmente lhe importava naquele momento, seu trabalho!

Um longo suspiro e ela se assustou com a batida na porta. Mesmo com receio a abriu imediatamente, apenas torcendo para que não fosse quem pensava ser.

_Conrad?

_Tem um minuto?

_Sim, claro! Entre, por favor ...

Eles se sentaram em lados opostos da mesa e Sara esperou que ele começasse.

_Você está assumindo a diretoria, é a supervisora deste caso, como xerife eu preciso te colocar à par de algumas decisões. — Ele fez uma pequena pausa e então continuou. _Sara, com o que temos, não há dúvidas de que Lady Heather é a nossa principal suspeita. Eu não vou correr riscos, pretendo colocar policiais à paisana para vigiá-la.

Enquanto isso, Grissom e Catherine aguardavam Heather montar um pequeno painel com fotos de seus pacientes. O celular da ex-perita tocou no momento em que Heather colocava a última fotografia, ela quase desligou, mas viu a tempo se tratar de seu chefe, então pediu licença para atender a chamada fora da sala, deixando-os sozinhos.

Grissom se sentiu desconfortável pela maneira com que Heather lhe observava, como se o estudasse. Era óbvio que ele havia a ignorado na noite anterior, talvez ela merecesse um pedido de desculpas, mas ele realmente não estava com cabeça para pensar em sua vida pessoal.

_Eu te liguei ...

_Eu vi.

_Você está tendo problemas, não é? Essas olheiras, sua expressão ...

_Não sou o foco aqui.

Catherine retornou em poucos minutos e eles se atentaram ao caso. As mulheres estampadas no painel rapidamente foram eliminadas pela loira, por ora, procuravam por um homem. Heather tomou a vez, justificando que eliminara os que já estavam mortos. Olhando diretamente para Grissom como se existisse apenas os dois naquela sala, quis se certificar se dentre os que restaram, estava o cérebro por trás dos atentados. Ela já sabia a resposta ...

~♥~

_Sara? — Cath a interpelou quando ganhava o corredor principal.

_Sim?

_Soube que estava com Conrad, conseguimos um progresso! Temos cinco suspeitos mais prováveis, precisamos coletar o DNA.

_Espera, Cath, eu não entendo. Cinco?

_Havia treze membros da chave dourada, excluímos as mulheres e os mortos. Restam cinco.

_Como conseguiu todas essas informações?

_Heather ...

Sara ficou olhando para ela com uma expressão estranha.

_O quê? Você acha que ela está nos manipulando?

_É só o que ela sabe fazer, Cath!

Ela se retirou sem maiores explicações, como Grissom sempre fazia com ela também, deixando-a falando sozinha.

_Jesus Cristo, eles estão cada vez mais parecidos, mesmo separados!

~♥~

Sara tomou as providências para que os cinco pacientes da Dr. Kessler estivessem à sua disposição o quanto antes. Ela mesma iria executar aqueles testes de DNA, embora não conseguisse afastar a vozinha que lhe dizia para não esperar muito dos resultados. Assim que os tivessem em mãos, se encarregaria de uma nova missão particular, tinha o aval de DB. Ela tinha certeza que nenhuma outra pessoa checaria a veracidade das informações repassadas pela principal suspeita de seu caso. Era bem provável que ela ainda estaria no laboratório, e mais provável ainda que junto com Grissom. Pois que eles desfrutassem de suas companhias e de preferência que ficassem bem longe dela! Não faria parte daquilo, estava enojada.

Assim que chegaram, ela coletou amostras de um por um, fora obrigada a ouvir sobre o trabalho do primeiro suspeito, alguém gritando em seu ouvido, aturou um ranzinza extremamente mal-humorado e até mesmo alguém flertando com ela! Mas o que realmente lhe tirou a paciência e qualquer racionalidade foi ouvir sobre as habilidades de Heather na cama! Era impossível manter um autocontrole diante daquilo, ela se sentiu poderosa quando, sem qualquer hesitação, mandou o sujeito sem noção se calar e abrir a boca logo de uma vez!

Os resultados ficaram prontos em tempo recorde e como já previra, nenhum deles tinha envolvimento com os ocorridos. Suas amostras não bateram. Ela procurava por Cath quando quase topou de frente com seu ex-marido. Olhou para os resultados mais uma vez para não encarar aqueles olhos inquisidores, se assustando logo em seguida quando sentiu seu braço sendo puxado de lado, saindo da linha de visão de outras salas.

_O que deu em você? Me solte! — A pressão em seu braço parecia um pouco exagerada, ainda mais se tratando dele, que sempre fora delicado e gentil quando a tocava, não importando onde estivessem. Na intimidade ou no trabalho.

Ele não havia se dado conta que a apertava com tanta força, afrouxou o toque, um pouco envergonhado, mas consciente que o motivo de tudo aquilo era sua mágoa em relação à noite anterior.

_Desculpe por isso, não tive a intenção. Eu ... queria saber ... você está me evitando? O que aconteceu? Você não apareceu ...

Ela sentiu um pontada em seu coração, a princípio achou que não gostaria de um confronto, mas pensando bem seria o momento perfeito para algumas verdades.

_Não me lembro de ter confirmado seu generoso convite. Além do mais, como eu poderia? — Sem que ele tivesse tempo de dizer uma vírgula, ela continuou seu desabafo, vomitando tudo o que estava engasgado. _Como eu poderia, sabendo que ainda mantinha contato com aquela mulher? Ainda estávamos casados, pelo amor de Deus! Você falou com ela antes e depois de nossa separação! O que acha que senti ao descobrir toda aquela ... aquela ... palhaçada? Que saí comemorando, feliz por me sentir de certa forma, traída?

_Não ... eu nunca ...

_Cale-se, Grissom! Não diga nada que possa piorar sua situação! Você acredita nessa mulher como se ela fosse uma divindade, a senhora do Universo! Como pode ser capaz de me pedir respeito por ela? Respeito é o que você deveria ter por mim! — Com o dedo em riste, Sara cutucou com força o peito dele!

_Sara ... por favor ... — Ele estava quase tendo um ataque cardíaco, mas ela não se deixou ser interrompida, estava furiosa demais!

_O que você está pretendendo com essa inversão de valores, essa corrupção aos seus princípios, ao nosso compromisso? Como eu poderia conseguir me sentar com você, como se ... se ... ainda ... — De repente ela se lembrou. _Você questionou meu profissionalismo!

_Calma, Sara. Você está nervosa ... entendendo tudo errado! Vamos conversar melhor, por favor ... — De repente ele parou, os olhos assustados. _Como pode saber sobre ... os ... telefonemas? Você ...

_Sim, eu fiz! Vai me denunciar?

_Pare com isso!