Tinha sido uma grande dificuldade se levantar aquela manhã, não conseguira tirar seus momentos com Sara de sua cabeça. Estar com ela daquela maneira tão íntima só lhe mostrou que seu desejo continuava ali, querendo, pedindo! Forte e poderoso.

Parecia ainda mais apaixonado que antes, a máxima de que quando os olhos não veem, o coração não sente parecia propícia, com algumas ressalvas. Ele a amava mesmo na distância, mas perto tudo parecia muito mais gigantesco. A imagem dela naquele sofá, esperando pelo próximo carinho dele, ficava repetindo em sua mente como um rolo de filme com defeito! Ele não podia negar que estava mais propenso a ver as coisas com outros olhos, tinha a ilusão de que pudesse resolver todas aquelas diferenças, mas sua dor maior era consigo mesmo. Como pudera ser tão estúpido?

Tudo acontecendo de uma vez, ainda tinha Heather, se insinuando para ele, querendo jogar em relação à Sara! Ela parecia disposta a lhe convencer que sua ex mulher estava travando uma guerra com ela! Não queria a companhia dela, e ver a expressão de ira em seus olhos tinha sido surpreendente. Sempre muito tranquila quando se falavam, nem mesmo parecia a mesma na noite anterior.

O fato era que ele já não tinha mais total confiança nela. Talvez a verdade sempre estivera diante de seus olhos, mas ele não havia conseguido enxergar.

Ele suspirou quando percebeu que não teria ao menos um vislumbre de Sara naquele começo de turno. Será que algo havia acontecido? Ela estava sob a proteção de um segurança sem ao menos fazer ideia daquilo, mas ainda assim não conseguia deixar de se preocupar. Um novo suspiro, desta vez de alívio quando DB informara que Ecklie havia a interpelado e agora estavam em reunião. Sem outra alternativa, ele se juntou aos demais para o trabalho.

Assim como Grissom, com Sara não havia sido diferente. Ela não conseguira pregar os olhos por um minuto inteiro, estava arrasada, sua alma doente e de certa forma, diminuída. Não deveria deixado chegar até aquele ponto e retrocedido, antes não tivesse nem ao menos começado. Estava ressentida demais com ele ainda, porém também tinha o mesmo sentimento em relação a si mesma.

Após ter tomado um café reforçado para suportar o dia que seria longo, decidiu que teria que fazer o que estava protelando.

Assim que chegou ao laboratório, se enfiou em sua sala. Ela iria reunir a equipe e colocar as cartas na mesa, falaria com DB e pediria sua ajuda. Mas antes, tinha um assunto pendente, bem mais urgente.

Ela quase praguejou quando ouvira Ecklie lhe chamar assim que a viu saindo de sua sala, quis de verdade ignorá-lo, mas sabia que não seria possível, e lá se fora a sua chance de dar um fim naquela coisa mal resolvida!

~♥~

Grissom havia acabado de retornar ao laboratório e entrou na sala de descanso depois de trocar algumas palavras com o legista no necrotério. Mais cedo, Lindsey e ele haviam descoberto uma pista enquanto periciavam a mala que havia abrigado o corpo de Wolfowitz. A pista o levara a um galpão abandonado e consequentemente à descoberta de um corpo sintético. Não havia dúvidas de que, quem quer que o tenha deixado ali, fora intencional. E agora, esperava o aviso de Dr. Albert quando tudo estivesse pronto para a autópsia.

Ele se serviu de uma generosa xícara de café, se sentia exausto, muito mais emocionalmente que fisicamente. Sua vida havia se tornado um livro aberto e agora todos se achavam no direito de lhe cobrar satisfações, vinha sendo julgado sem qualquer chance de defesa. Mas agora, diante dos últimos acontecimentos, ele realmente achava que não mereceria nenhum tipo de compreensão.

Greg entrou na sala o tirando de seus pensamentos, ele mal lhe dirigiu o olhar quando também se serviu de café.

Depois do que acontecera, o clima entre eles não era dos melhores, embora não estivesse realmente preocupado com a sua hostilidade, tinha que admitir que ele era a pessoa mais próxima de Sara e, mesmo que não quisesse, o invejava por aquilo. Não era o momento e muito menos o lugar, mas seria imprescindível conversar com ele, poucas oportunidades surgiriam e precisava se agarrar àquela.

—Sara me contou o que aconteceu. — Quando Greg imediatamente se virou para ele, pronto para lhe perguntar em tom de acusação, ele completou. _Eu não discuti com ela.

—Bom! — Suas feições relaxaram e ele se sentou à mesa.

—Greg, eu sei que errei com ela e talvez não tenha mais reparação, mas ...

—Talvez não tenha mesmo ... Grissom! — O interrompeu.

—O que aconteceu com Sara depois da separação?

—Acredito que esteja perguntando para a pessoa errada, não foi a mim que abandonou!

—Seria pedir muito que deixasse a hostilidade de lado? E eu não a abandonei, só fiz o que achei ser melhor para ela.

—Melhor para ela ou para você?

—Você tem razão, perguntei mesmo para a pessoa errada! — Ele depositou sua xícara na pia com agressividade e foi em direção à porta, mas parou ao som de sua voz.

—Sara quase se destruiu, Grissom ... você não pode imaginar o estado em que ela ficou e se quer saber, não vou deixar que se repita! Vou fazer até o impossível se for necessário!

Ele se virou de frente para o seu antigo subordinado, esperando que continuasse, e ele o fez. Sua voz era calma, porém carregada de tristeza.

—Vê-la naquelas condições me fez querer lhe dar uma surra, de verdade! — Grissom arregalou os olhos, estava sendo ameaçado? Se bem que no momento, era realmente o que merecia. _Foi muito difícil para ela, assim como foi arrasador vê-la naquelas condições. Houve momentos em que pensei que ela não iria conseguir voltar a ser a nossa Sara! Acho que tudo foi muito, mas muito complicado!

Grissom mordeu o lábio inferior, e cerrou seus punhos com força, depois puxou uma cadeira e se sentou completamente alarmado. Oh céus, o que ele havia feito a ela?

—Complicado?

—Nick e eu nos revezamos para estar com ela. Na primeira vez ela gritou comigo, me mandou ir embora e então desmoronou na minha frente. Eu nunca a vi chorar tanto como naquele dia.

Grissom sentiu uma fisgada em seu coração, doeu ouvir aquilo. Ele se levantou, as paredes daquela sala pareciam lhe sufocar ou era a sua dor? Já não sabia ao certo.

Pela primeira vez, Greg sentiu pena do homem à sua frente. Não era apenas dor que ele via em seu semblante, era um misto de choque e incredulidade! Será que ele realmente acreditou que o que fez era o melhor para sua amiga? Que ela facilmente superaria um casamento quebrado? Que logo o substituiria em seu coração? Sara o amava, pelo amor de Deus! Como era possível ele ignorar aquela verdade gritante? Naquele momento ele não parecia ser dono de uma inteligência ímpar e sim fraco e diminuído.

—Por que parece surpreso?

—Sara teve alguém? — Ele disparou sem rodeios!

—O quê?

—Houve algum outro ... será que ela refez ... então ela não estava feliz? — Ele não conseguia formar uma frase completa, seus pensamentos pareciam emaranhados, ele não sabia se estava fazendo muito sentido.

—Quem lhe disse isso? — Na verdade, não precisava de resposta, era mais do que óbvia e de repente, foi como se tivesse petrificado. Ele tinha conhecimento de Taylor Wynard? Desde quando? Sara não tivera nada com aquele homem, mas admitia que o que aconteceu podia sim ser interpretado de outra forma, principalmente para alguém como Lady Heather, em que a veracidade dos fatos não seria importante, a não ser o que convinha à ela! Tinha certeza que aquela mulher havia lhe informado como também tinha certeza que ela havia omitido Basderic e tudo o que Sara passou em suas mãos. _Como ela poderia ter alguém? O que há com você, que parece não conhecê-la mais? Você só pode estar brincando! Vou lhe dizer uma coisa, deveria ter dado valor ao casamento que vocês tinham. Que outra mulher aceitaria ter um marido ausente? — Greg quase não acreditou que havia dito aquilo, mas já era tarde, ele já havia dito e teria que sustentar as acusações. Retroceder só faria Grissom ter mais força em seus argumentos, e já que estavam em um embate e Sara estava em causa, a defenderia com todas as armas que pudesse encontrar.

—Hey ... nosso relacionamento era de comum acordo, você não faz ideia o quanto ... — Grissom se calou. Como diria ao homem à sua frente o que eles tinham? O caso é que tudo que dissesse seria usado contra ele. Se eles eram tão felizes, porque ele a deixara?

—De uma vez por todas, Sara nunca teve ninguém!

Ele acreditou. Greg poderia estar possesso, com as garras afiadas, mas jamais mentiria, assim como Heather! Agora já não tinha mais certeza de sua lealdade. Ele acreditava na amizade deles, e se ela o traíra, qual teria sido o propósito?

Ele afastou aquele pensamento, ainda precisava de algumas outras respostas.

—O que você quis dizer com ... quase a perdemos? — Ele mal reconheceu sua própria voz, estava realmente confuso.

—Além de tudo o que fez à ela, ainda precisou lutar com psicopatas querendo vingança, ameaça de vírus mortal, um tiro de raspão ... e agora, o que aconteceu na casa de Heather. Eu não quero nem imaginar o que aquele homem faria à ela! — Ele simplificou, não caberia à ele detalhar cada acontecimento, na verdade ele sentia que estava traindo a confiança de Sara com aquelas revelações.

Grissom suspirou em meio à dor da descoberta. Se algo tivesse acontecido à ela, não saberia o que fazer.

O pager vibrou em seu bolso, Albert estava à sua espera. Ele guardou o aparelho novamente e encarou o perito à sua frente.

—Obrigado, Greg!

—Pelo quê?

—Por ter ficado ao lado dela, todo o tempo! — E saiu sem dizer mais nada.

~♥~

O corpo sintético abrigava uma abelha, que se libertou assim que fora aberto para ser analisado, e em sua trajetória de fuga, acabou por ferroar o legista. Grissom a capturou sem demora, reconhecendo as muitas possibilidades como evidência! Aquele era seu melhor papel, afinal ele era um entomologista.

Mesmo fascinado com o inseto, ele realmente precisava ver Sara naquele momento. Não podia mais ignorar aquele encontro, precisava estar com ela o mais rápido possível para aplacar aquela sensação esquisita que havia se instalado nele. Ele partiu em busca dela, depois de ter acondicionado adequadamente seu precioso bem.

Naquele mesmo momento, Sara fazia o mesmo, procurando-o por todo o laboratório, bastante frustrada por não encontrá-lo.

Ela estava voltando pelo corredor quando o viu, e estacou quase perdendo a coragem. Respirando fundo para retomar sua força, ela foi de encontro à ele, pensando na jaqueta pendurada em sua cadeira, precisava devolvê-la.

—Grissom?

—Oi Sara ...

Os dois pareciam arrasados.

—Nós ... podemos conversar?

—Sim ... acabei de passar por sua sala e ... estava vazia, claro!

Ela sorriu de lado, bastante sem graça.

—Também estava te procurando.

Ele devolveu o meio sorriso dela, com outro, bastante triste.

Grissom apontou gentilmente a direção da sala e depois a seguiu, fechando a porta atrás de si. Ele olhou para o sofá assim que ela se dirigia para sua cadeira.

Sara não deixou de notar aquela atitude, será que ele estava com receio de se aproximar dela? De ser novamente rejeitado? Seu coração doeu por ele. Mas decidiu também pelo sofá, não queria uma conversa com toda aquela distância. Ela puxou a jaqueta lhe entregando.

—Obrigado ...

Acomodada ao seu lado, ela juntou as mãos e olhou para o chão, buscando coragem.

—Queria dizer que sinto muito por ontem ...

—Tudo bem, estou tentando aceitar que eu mereci aquilo!

—Não foi uma vingança ...

—Eu sei ... — Ele receava que nunca mais pudesse tocá-la novamente, e foi como se um buraco o tragasse para dentro. Estava tão cansado da surra que a vida estava lhe dando pelo erro que cometera.

Ele imaginou o que ela havia sentido quando interrompera o que parecia tão certo. Ele queria saber, mas talvez precisasse de mais coragem para perguntar. E se ela o derrubasse ainda mais?

Como se adivinhasse seus pensamentos, ela disparou.

—Deve estar se perguntando por que, não é?

Ele a encarou assustado, aquele era o ponto! De repente começou a sentir um medo apavorante de saber a verdade.

—Eu ... — Ele deu um longo suspiro e depois prendeu o ar, talvez esperando pelo pior.

—Tenho uma confissão a lhe fazer, Grissom!