For Grissom
16 Sonho
Notas iniciais
Parecia ser mentira. Parecia que estava fora da realidade; sonhando mais um de seus vários sonhos dos quais recebia a tão esperada notícia. Foi como se o mundo tivesse parado de girar ao seu redor, uma sensação inimaginável. O impacto, talvez, tenha sido maior do que quando ouviu a notícia do atentado.
Ela quase não teve palavras para se expressar. Os olhos brilharam, uma súbita sensação de que estava prestes a chorar lhe atingiu. Ela precisou relembrar a si mesma várias vezes de que realmente estava vivendo aquele dia.
— Eu... não consigo acreditar — falou incrédula, quase perdendo a voz.
— Acredite, senhora Sidle. O senhor Grissom está acordado e está bem. — Era notável perceber o ânimo nas palavras do médico, o que aqueceu ainda mais o coração de Sara.
— Posso vê-lo, doutor? — A ansiedade na voz era evidente que nem ao menos disfarçou. Mal pensou se já estava na hora de visitas ou não, a única coisa que mais pensava era em sair de casa o quanto antes em direção ao hospital.
Quando recebeu o tão esperado "ok" do médico, Sara fez questão de agradecê-lo por ter ligado para ela. Sua mente continuava agitada e só iria se acalmar quando visse o rosto dele novamente.
Sara tratou de ligar para Catherine para contar as boas novas e, da mesma forma, não conseguiu esconder a felicidade em sua voz; tanto que mal conseguia falar direito no primeiro minuto. Era uma mistura de emoção e euforia que a deixaram no limbo entre chorar ou se manter firme.
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Catherine como de costume ficou para dobrar o turno junto dos outros, que chegavam a tirar sarro dela dizendo que se parecia cada vez mais com Grissom. Ela retornara ao trabalho após tirar uma soneca de poucas horas quando recebeu a ligação de Sara.
— Alô? Oi!... Sim, pode falar... — Catherine arregalou os olhos como uma criança que recebeu o brinquedo favorito. Poucas vezes recebeu ligações dela naquela parte do dia quando se tratava de Grissom. Seu raciocínio de investigadora não dizia outra coisa a não ser alguma notícia boa sobre o amigo, Catherine sentia isso.
— O que foi?! — Corroendo-se de curiosidade, Warrick pediu por mais informações. Para sua decepção recebeu apenas um gesto de mão erguida para que esperasse. Nick estava junto deles e, assim como o amigo, perguntou quase a mesma coisa. O sorriso largo desenhado no rosto de Catherine indicava que era uma boa notícia, o que o fez pensar em Grissom quase que imediatamente.
— Tá, tá bom, eu conto pra eles! — Ela riu por conta da euforia na voz de Sara. A supervisora sabia que era impossível "segurá-la" até que eles chegassem ao hospital.
Ao encerrar a chamada, Catherine visou os colegas de trabalho ostentando um semblante leve e alegre. O brilho em seus olhos iluminou a sala e não demorou muito para contagiar os outros a sua frente. Esforço não foi necessário para desvendarem a "charada".
— O Gil acordou!
— Fala sério. — Nick, apesar de sorrir, comentou incrédulo a notícia. Incrédulo e ao mesmo tempo, atônito pela surpresa.
Um dia se passou desde que se completaram dois meses de internação do supervisor. Após sonharem e ensaiarem o dia em que ouviriam aquilo, o momento parecia ser mais um dos delírios que os membros da equipe vislumbravam.
— O que a gente tá fazendo aqui? Vamos lá! — Warrick se levantou de prontidão.
— Eu sou totalmente a favor, mas e o trabalho? — Apesar de ser tão a favor da ideia de sair naquela hora quanto os outros, Nick ficou preocupado com alguma punição. Em dias comuns não acreditaria no que acabou de falar. — Já fizemos isso antes... será que não vão reclamar?
— Eu me resolvo com eles depois. — Catherine assentiu. — Não podemos perder essa oportunidade! Não depois de tudo que a gente passou.
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Tudo o que Sara fez antes de sair foi vestir uma calça jeans e colocar uns sapatos leves. A camisa azul com listras brancas de meia manga lhe era o suficiente. Fez isso logo após ter chamado pelo carro. Dentro do táxi seu desejo era de que o motorista corresse o mais rápido possível.
O tempo corria a passos de tartaruga por entre as ruas variadas de Las Vegas, parecia que nunca iria chegar ao hospital. Na mente a ficha parecia não ter caído. Em poucas palavras a angústia de dois meses se esvaía como a neblina, mas bem lentamente. Ela ansiava por ver seus olhos azuis como o oceano visando seu rosto; ver seu sorriso, tocar em sua mão e ser envolta pela mão dele. Todavia o trânsito não facilitou muito. Vegas em mais um dia normal era um sufoco quando se falava em tráfego. Só que nem isso foi suficiente para desanimá-la. No fundo criava narrativas para si mesma como se Grissom estivesse esperando por ela. O sonho que esperava nunca acordar. Nem o tempo quente e abafado característico de Vegas tirava seu foco ou o seu ânimo.
Sara chegou ao hospital e não perdeu tempo. Procurou pelo médico e informou a situação que recebeu. Não sabia quando ou se seus amigos chegaram antes dela, mas imaginou que iriam relevar a ansiedade presente nela de querer se encontrar com Grissom o quanto antes. Ironia do destino, parecia que toda a espera durava uma eternidade.
Ao se encontrar com Sara o doutor Reed a cumprimentou com um aperto de mão caloroso. Apesar das olheiras e sinais de cansaço em seu rosto, o médico carregava algo a mais em seus olhos. Um brilho do qual Sara desejava perceber há muito tempo.
— Boa tarde, doutor. — Ela esbanjou um sorriso tímido, mas de evidente alegria.
— Boa tarde, senhora Sidle. — Ele sorriu de volta. — Venha comigo. Imagino que esteja ansiosa para vê-lo.
— Eu estou. Tanto tempo esperando... parece uma eternidade.
— Eu entendo.
Sara foi levada a outra ala por conta da transferência de Grissom. Só de não ter que passar por aquele quarto e vê-lo entubado era uma das pequenas vitórias que recebia. O caminho até o novo quarto foi mais rápido que o tempo naquele táxi e mais rápido que a espera pela chegada do médico. As mãos de Sara começavam a suar pela ansiedade; frieza, para ela não existia ali.
Ao chegarem à ala aonde ficava o quarto particular para Grissom, a mente da ex-CSI começava a entrar num conflito. Imaginou mil coisas: se a roupa que usava a vestia bem, se o que pensou em falar ou fazer era o melhor no momento e em como reagiria ao encontrá-lo acordado. Perguntas que sequer imaginou até o momento em que pisou no hospital. Acabou se desviando do mundo lá fora.
— O senhor Grissom acordou no início da manhã. Nós realizamos os exames de rotina para saber se estava bem e por isso não a contatamos de imediato. Ele estava desorientado e com dificuldades em se comunicar. Plausível para alguém que passou um longo período em coma.
Ela não chegou a passar pela mesma situação, mas sabia como era acordar numa cama de hospital e se ver desorientada, perdida e ansiando por respostas.
— Senhora Sidle, está pronta? — O doutor Reed perguntou após falar rapidamente com a enfermeira que saiu do quarto de Grissom.
— Já se passaram dois meses desde que o Gilbert foi internado. Acho que estou pronta, sim. — Ela brincou, tentando não amenizar o clima como acalmar a si mesma.
— Os amigos dele também virão? — Antes de seguir adiante o médico lhe perguntou.
— Vão chegar em breve — afirmou, assustando-se com a pergunta repentina.
— Certo. Antes de seguirmos eu vou dizer alguns detalhes. Como deve ter notado, o senhor Grissom perdeu massa muscular e vai precisar passar por uma fisioterapia por conta da leve atrofia muscular. Também foi recomendado que ele não usasse sua voz para se comunicar. Ainda precisamos realizar um exame específico para verificar se suas cordas vocais não foram danificadas.
A morena arqueou as sobrancelhas ligeiramente ao ouvir a última frase.
— Ele... vai conseguir falar?
— O exame vai ser necessário para te darmos uma resposta, senhora Sidle. Os exames iniciais não identificaram lesões. Mas precisamos realizar este procedimento.
Passados todos aqueles acontecimentos, o que mais importava para ela foi que o pior não aconteceu e que aos poucos ele ficaria bem. A linha entre a vida e a morte foi tênue, coisa para nunca se esquecer.
Sara confirmou que entendeu com um aceno.
Antes de continuar, Sara, assim como todos que passavam por ali precisaram higienizar as mãos com álcool por protocolo e medida de segurança. O médico pressionou a maçaneta e abriu a porta e fez um breve gesto para que ela o aguardasse do lado de fora por um instante. Claro que Sara não se sentiu muito à vontade com a escolha do médico, mas estava tão perto de Grissom que nada mais a iria abalar. A enfermeira permaneceu com ela.
— Boa tarde, Gilbert. Está se sentindo bem? — Sara conseguiu ouvir o doutor Reed em alto e bom som. — Tem visita para o senhor hoje. Imagino que vá gostar.
O médico virou o rosto para fora do quarto dando o sinal para que Sara viesse. Disse em voz baixa que não havia contado a ele anteriormente sobre sua visita. Engraçado para ela que, em casa, se preparou tanto para quando aquele dia viesse, não sabia mais o que fazer justo naquele momento.
Mordendo os lábios por ansiedade, Sara engoliu em seco e se encaminhou em direção ao novo quarto. Em seu estômago, borboletas voavam sem parar e suas mãos gelavam como se estivessem num freezer.
Ao entrar no quarto Sara o viu olhando para o lado oposto, como quem ainda se acostumava ao local à sua volta. A larga janela atraía sua atenção e a luz do começo de tarde lhe fazia companhia. Ele já não estava mais envolto por uma série de tubos, principalmente o que foi inserida em sua boca. Agora fazia uso de um cateter nasal, imperceptível ao se olhar pela primeira vez. O que mais para ela importava era que estava consciente.
— Gilbert? — Sua voz falhou no começo, mas ela se consertou no final.
Quando ouviu aquela voz, aquela voz diferente das demais que ouviu ao recobrar a consciência, os seus sentidos, apesar de debilitados, reconheceram aos poucos quem falava. Ele virou a cabeça em direção à entrada para garantir a si mesmo que não estava sonhando. Que aquilo não era a sua consciência lhe pregando uma peça ou que não se encontrava sob o efeito dos remédios. Foi então que seus olhos se encontraram.
O coração de Sara palpitava sem parar. Ela bem que tentou se segurar, mas os olhos começaram a marejar ao vê-lo acordado e olhando justamente em sua direção. Ele, por sua vez, não conseguia acreditar. Seus olhos se arregalaram o máximo que podiam quando se encontraram com a figura bem na entrada do quarto. Mal tinha forças para expressar a surpresa por vê-la de pé, tão presente e tão próxima. Horas se passaram desde que Grissom acordou, porém sua capacidade de raciocínio rápido ainda não retornou completamente; sentia períodos de sonolência, cansaço e mal tinha força sobre o próprio corpo. Nem teve tempo de pensar no mundo lá fora, em seus amigos e em sua amada Sara. Caso o tivesse feito, não imaginaria que ela fosse capaz de se deslocar de tão longe só para vê-lo.
— Eu estou aqui — disse Sara, segurando-se para conseguir se expressar direito.
Seus olhos não estavam lhe pregando uma peça. Era ela, realmente. Era a mulher que ele amava e ansiava a todo momento tê-la por perto novamente. Grissom abriu a boca para falar, chamar seu nome e se certificar que não sonhava, mas não conseguiu. Sua mão esquerda falou por si, quando por instinto, moveu seus dedos e tentou erguê-la para chamá-la para perto. Assim como ela, o supervisor não segurou a emoção ao ouvi-la novamente. Foi a resposta que mais queria ouvir. Seus olhos se avermelharam aos poucos e, logo, as lágrimas começaram a cair.
A morena se aproximou dele com rapidez assim que viu o pequeno gesto. As lágrimas foram aparecendo naturalmente. Ela desejou ser forte, desejou não chorar quando o visse acordado para não demonstrar alguma fraqueza emocional. Mas não dava para controlar o que sentia, não naquele momento do qual ela voltou a ver aqueles olhos azuis como o oceano após tanto tempo fechados. Uma eternidade.
Sara cobriu sua mão com afeto quando se aproximou dele. Não ficou por muito tempo assim; ela acariciou sua testa, lembrando a si mesma que não estava delirando. Os olhos dele não paravam de acompanhá-la por um único instante. Carinhosamente ela beijou a testa dele e por ali permaneceu até o momento que caiu em prantos.
— Gil... Deus, eu... — Ela queria falar tanto, mas tudo o que saía eram soluços e meias palavras. Queria dizer temeu por sua vida, que quase o perdeu e que passou noites em claro pensando nele. As lágrimas já diziam o bastante e ele parecia compreender.
Grissom não aguentava de ansiedade; queria ter a chance de falar o nome da mulher que amava novamente. Uma barreira simples para alguns, mas pare ele era como fortes correntes que o prendiam e não o deixavam sair do lugar.
Ao menos Sara estava ali, junto dele. Sentir sua presença, seu toque, seu cheiro e não ser um sonho foi tudo o que ele mais quis. Saber que ela voltou à cidade que lhe causou tão mal só por causa dele fazia tudo aquilo ser mais especial. Naquele período de tempo ele tentou admirá-la sem que fechasse os olhos para conter o choro. Sara estava mais linda do que nunca; a mulher mais linda do mundo. Seus cabelos estavam mais curtos que da última vez na qual a viu por uma chamada de vídeo; mais claros também. Ela ficava linda de qualquer forma e nada apagaria sua beleza. Grissom tinha em mente que não devia cometer exageros, porém só de vê-la ao vivo e a cores, bem ao seu lado, seu peito parecia prestes a explodir a qualquer momento.
Sara se afastou dele para que envolvesse o seu rosto com as mãos; com cuidado suficiente para que não atrapalhasse o fluxo de oxigênio do cateter, mas o suficiente para que encarasse os olhos tão marejados quanto os seus. Sua barba estava maior, assim como o seu cabelo e nitidamente ele se encontrava mais magro. Porém nada tirava o brilho de seus olhos e a beleza que a cativou há tanto tempo.
Nem todas as lágrimas do mundo seriam suficientes para expressar tudo o que Sara sentia naquela hora. Poderia chorar por horas, mas nada conseguiria traduzir o que vinha de dentro. Aguentou por tempo demais.
— Eu... estou tão feliz por ver você, Gil. — Ela sussurrou, segurando-se para falar com clareza.
Sem sucesso tentou secar as lágrimas que desciam pelo rosto dele, temendo que ficar emocionado demasiadamente poderia lhe fazer mal. Só que ele não ligava para isso, muito pelo contrário. A mulher de sua vida estava bem ali, acariciando sua pele como quando as águas do mar acariciavam a areia da praia. Seu maior desejo desde quando ela foi embora de Las Vegas. Ele só queria deixar se levar pelas emoções.
— Não tô pronta para dizer adeus ainda — desabafou. Estas palavras encontravam-se entaladas em sua garganta era o que Sara mais gostaria de falar a ele.
Raramente ela o via chorar como nesta vez. Para alguém que muitos diziam "não ter sentimentos", Sara conheceu um homem fantástico repleto de emoções das quais ele mal as conhecia. O choro, quem sabe, fosse uma combinação em saber que resistira a um atentado com poucas chances de sobreviver e felicidade por ter alguém que amava do seu lado.
Umedecendo os lábios, Grissom se preparava para fazer o que não lhe foi recomendado: forçar a sua voz. Ele queria dizer seu nome, voltar a dizer uma palavra que não saía de sua cabeça. Desta vez seria diferente; desta vez ele falaria seu nome e ela estaria por perto, pronta para ouvi-lo.
Com toda a força que podia, Grissom puxou o ar para seus pulmões e sussurrou o nome da mulher que amava.
— Sara...
Seu próprio sussurro foi o suficiente para que ele abrisse um modesto sorriso. Ela realmente estava ali, relembrava-se. A pessoa quem achou não ver mais por um longo tempo se encontrava à sua frente, acariciando sua pele e chorando por sua causa.
Os olhos da morena brilharam quando viram o esforço dele em se expressar, apesar de suas limitações.
— Eu te amo, Gilbert. — Sara enxugou as lágrimas para se recompor e não cair no choro novamente, "contagiando-o" da mesma forma. Ela o acariciou novamente para reafirmar a si mesma que não era um sonho. Tentou buscar em sua mente mais palavras para dizer a ele dentre tantas que ensaiou, mas lhe restavam poucas, as que sempre surgiram quando pensava nele. — Eu te amo.
Antes de se afastar Sara beijou sua testa mais uma vez e passou a mão por seus cabelos desgrenhados. Nunca imaginou se emocionar tanto ao revê-lo novamente. Por mais que secasse as lágrimas que desciam pelo rosto, era praticamente impossível se conter.
— Você nos deu um susto, sabia? — brincou. Mas o trocadilho fez o supervisor mudar de feição para algo abatido. Se soubesse que ficaria assim, Sara teria repensado suas palavras. Ela deslizou a mão sobre sua bochecha, apresentando um semblante arrependido. — Ah, Gil...
Se pudesse ela passaria horas junto dele, enquanto atentava para seus olhos abertos e acariciava cada canto de sua face. Dias e dias vindo visitá-lo e parecia a primeira vez que se encontrava com ele. As lágrimas queriam voltar, com menos força, mas o suficiente para confirmar que ela ainda estava em choque.
A enfermeira entrou no quarto após o médico ter saído e pedido um tempo a sós entre Sara e Grissom. Ouvindo-a abrir a porta, Sara mudou sua atenção para a mulher que se aproximou deles. Envergonhada, percebeu que não reparou muito em seu rosto ao chegar no hospital. Era uma mulher branca de 1,60m, magra, de cabelos curtos ruivos até a nuca e rosto alongado. Seu uniforme azul lhe parecia largo demais para sua altura, dando a impressão de que não foi feito para ela.
— Interrompi alguma coisa? — A enfermeira brincou.
— Não, não! — Sara respondeu, temendo que tivesse ficado tempo demais ali e interrompido algum.
Mostrando-lhe um sorriso em resposta, a enfermeira se aproximou de Grissom para fazer uma verificação de rotina.
— Desculpe, eu... esqueci seu nome.
— Sandy Wheeler — disse ela enquanto continuava seus afazeres.
— Obrigada... por fazer isso tudo.
— É o nosso trabalho.
— Sim, mas... eu faço questão de agradecer. — Ela assentiu. Queria explicar mais detalhes, porém seu noivo estava acordado e o melhor era que não os ouvisse.
— Não há de quê. — A mulher sorriu cordialmente. — Esse "rapazinho" aqui não parava quieto quando acordou.
— Sério? — Sara arqueou as sobrancelhas e sorriu ao caçoar dele.
Ouvindo aquilo Grissom não deixou de se manifestar mostrando uma feição descontente para a enfermeira, que não segurou o riso.
— Acho que agora ele vai se comportar melhor já que você chegou.
Grissom desta vez virou o rosto com desdém e movendo os lábios para o lado. Tudo não passava de uma brincadeira, mas foi uma forma de "dar o troco" em Sandy.
— Eu queria estar aqui para ver. — A morena continuou na brincadeira, e dessa vez recebeu o semblante em choque dele. Mal percebera que Sandy provocou tudo aquilo de propósito para melhorar o clima naquele quarto. Ficou satisfeita ao saber que suas tentativas deram certo em Sara, conseguindo arrancar dela sorrisos espontâneos.
— Tudo certo com ele. — A enfermeira terminou a checagem após breves minutos. — Esteja aqui para os exames de rotina ou eu vou atrás de você. Ouviu? — Ela apontou para Grissom de um modo ameaçador. Quando se voltou a Sara mudou para uma feição amigável. — Fique com ele. Depois veja o que é preciso para dar entrada no acompanhamento ao paciente.
— Ok.
Quando a enfermeira deixou o quarto Sara aproveitou para observar o local à sua volta. Além da cadeira próxima a ele, havia um pequeno sofá de três lugares logo abaixo da janela. Ao lado esquerdo do móvel um pequeno armário de cor marfim e do lado oposto uma pequena mesa era enfeitada por um vaso de flor vazio. As cortinas abertas completavam os detalhes mais relevantes do quarto particular. Um leve cheiro de lavanda era perceptível para o olfato mais apurado. Nada que fosse atrapalhar o bem-estar do paciente ou de alguma outra pessoa, mas o suficiente para que alguém como ela notasse.
A sós novamente, a ex-CSI o encarou e abriu um sorriso tímido e moveu uma pequena mecha para trás. Ela puxou a cadeira para perto dele, bem à sua direita.
— Sabe que... ver você acordado assim ainda parece um sonho? — A mulher tocou em seu braço com as duas mãos. Ele visou seu toque, quase que hipnotizado por isso. — Acho que ganhei mais olheiras só passando noites acordada por sua causa.
Grissom mudou para um semblante triste, falhando novamente numa tentativa de se comunicar.
— Isso tudo valeu a pena. Olha só pra você.
Anos de trabalho e foram poucas as ocasiões na qual a vítima sobrevivia a um atentado semelhante. Ou permaneciam em coma profundo, ou ficavam com sequelas para o resto da vida; ou conseguiam atravessar uma fase difícil, como Grissom. Ver que seu noivo sobrevivera era o mais importante, os outros detalhes ficavam para depois. Não dava para tomar decisões ou se preocupar com questões futuras.
Foi uma luta que passou a maior parte enfrentando em silêncio. Ninguém compreendia mais a dor que Sara sentia, apenas ela mesma. Não poderia reclamar do apoio que recebeu por todos os lados, até de gente que pouco esperava receber; porém nada daquilo pareceu suficiente. Ver seu noivo acordado foi o maior alívio de sua vida.
— Você é o amor da minha vida. Como... acha que eu ficaria sem você? — Ela falou brincando, mas no fundo sentiu-se profundamente tocada.
Grissom, ainda debilitado pelos remédios, não deixou de perceber a feição melancólica em sua noiva, apesar de disfarçada. Ele fez um esforço para erguer a mão para o alto, na tentativa de que ela a visse.
Notando o gesto que ele fez em resposta, Sara segurou a mão dele na mesma hora e a beijou, repousando nela sua testa.
— Eu achei que fosse te perder — disse em voz baixa. — Não faz isso de novo comigo, Gil. — A morena chegou a rir com o próprio comentário.
Ao erguer o rosto para fitá-lo novamente, viu o supervisor se esforçando para puxar sua mão para si aos poucos e beijá-la com todo o carinho, mesmo sabendo que não era recomendado fazer aquilo e que seu esforço iria tragar suas forças. O pequeno gesto poderia não fazer muita diferença para olhares desconexos com a história, mas para ela, aquilo valeu por milhares de outros beijos.
Grissom acordou, enfim. Parecia um sonho, o tão esperado sonho. Sara poderia não saber o que iria acontecer pela frente, mas de uma coisa ela tinha certeza: finalmente dormiria em paz.
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