For Grissom
17 Acredita em milagres?
Notas iniciais
— Os outros vão chegar daqui a pouco. Espero que esteja descansado — comentou Sara.
Apesar de a notícia lhe trazer ânimo, sua vontade maior era de passar mais um tempo a sós com Sara. Não era o desejo de ter os outros longe, apenas de estar somente com ela. Nenhuma conseguia substituir a de Sara e causar a mesma sensação. Nenhuma mulher conseguiria substituí-la. Ela estava ao seu lado, assim como a oportunidade de fazer as coisas do jeito certo desta vez.
— Vamos ter muito tempo a sós ainda. — A animosidade em seu rosto foi para melhorar seu humor, o que pareceu ter surtido efeito.
Forçando um meio sorriso, Grissom fechou seus olhos em seguida. Mas o que deveria ser apenas uma reação natural, para ela, durou tempo demais. A impressão era de que ele pegara no sono de repente. Sara ficou sem saber o que fazer; se deixava-o dormir ou pedisse para ficar acordado. Quando ele os abriu novamente, não muito tempo depois de se questionar, a morena relaxou os ombros.
Assim como ele, o desejo de Sara era de passar mais tempo com ele, falar por horas e horas. Contar como foram seus dias no período em que voltou a Vegas, como estava indo a vida de volta em São Francisco e sobre como estava feliz por ele ter acordado. Falar tudo o que disse a ele quando estava em coma, só que desta vez saberia que ele estava pronto para lhe dar atenção. Mas, ao olhar para seu rosto sonolento que apesar de tudo tentava lutar contra o cansaço, Sara pensou duas vezes e preferiu adiar a ideia. Acharia difícil o seu noivo absorver ao menos 70% do que diria nesse meio tempo. Talvez o melhor fosse evitar tocar em assuntos muito longos.
Inacreditável estar vendo-o bem ao seu lado após um período de turbulências e nuvens escuras.
— Sua mãe veio aqui te ver. — Sara puxou assunto para mantê-lo ligado.
Percebendo que chamou a atenção dele, Sara visou sua mão e a envolveu assim como antes.
— Eu não estava perto dela, mas tenho certeza que ela te disse coisas boas, que uma mãe fala para seu filho. — Ao contar aquilo acabou pensando em sua relação com a sua mãe, Laura. Não podia afirmar que as coisas estavam indo 100% bem, mas ao menos ela deu o primeiro passo na tentativa de salvar o que restava entre as duas, para quem sabe, cultivar algo melhor posteriormente.
O breve sorriso foi o bastante para ela saber que Grissom adorou saber o que aconteceu. Saber que sua mãe, apesar de possuir uma agenda cheia com seus compromissos, não deixou de visitá-lo no período em que esteve em coma.
— Você que não é acostumado deve ter recebido mais visitas aqui que em toda sua vida.
Quando o supervisor ameaçou rir ela sentiu o coração bater mais rápido. Percebeu que sentia falta de vê-lo sorrindo na vida real, sem sonhos ou memórias, tampouco uma tela de computador separando quilômetros de distância separando os dois. Talvez não estivesse tão emocionada a ponto de vir chorar novamente, mas sabia o quão intenso suas emoções falavam alto.
— Foi Warrick quem te salvou, Gil. — Ela falou por espontânea vontade. Imaginou que Grissom não estivesse a par de quase nada ao ter acordado ou que não se recordava. Tudo o que deve ter ouvido foi algumas palavras sobre seu estado, o tempo que ficou em coma e sobre as etapas de recuperação. Não que ele tenha absorvido tudo, é claro.
O supervisor olhou para a frente por alguns instantes na tentativa de se recordar os eventos passados. Meio zonzo, sentiu uma pontada na cabeça quando sua mente lutava para reorganizar um monte de imagens confusas. Suas memórias, vagas e confusas, atrapalhavam quaisquer tentativas de retorno àquele dia.
Ao vê-lo se esforçar e sentir os efeitos adversos, uma pontada de arrependimento lhe atingiu. Não queria que ele fosse pego de surpresa e tivesse uma reação inesperada que pudesse lhe causar mal, então achou melhor contar parte do que houve. Ansiedade falava mais alto e por isso não segurou para si. Foi uma das poucas vezes que agiu antes de pensar.
— Calma, tá tudo bem. Mesmo que você não consiga se lembrar. — Sara continuou as carícias em sua mão. — Warrick foi um herói.
Um breve gesto em assertiva de Grissom foi suficiente para ela saber que entendeu. Era difícil se lembrar daquela noite. Muitos flashes e borrões invadiam sua mente, mas se tinha algo do qual não se esquecia era de uma voz, muito parecida com a de Warrick, pedindo para que ele aguentasse firme. Tudo se embaralhava dentro dele, mal sabendo discernir se o que ouviu supostamente de Warrick foi verdade ou não. As palavras de Sara foram como um alento para ele, que garantiu que ao menos parte daquilo foi real.
— Ele vai chegar logo. Falta pouco. — A mulher o confortou.
Em todo o tempo que ficou junto dele, uns quinze minutos, Sara não tirava os olhos dele. Não foi muito diferente do que fazia quando Grissom ficou em coma, só que desta vez o homem que amava estava acordado. O tempo parou naquele quarto de hora.
Sem perceber dos minutos que se passavam, Sara levou um breve susto ao ouvir a porta se abrindo e ver a enfermeira entrar no quarto.
— Os pombinhos estão se dando bem? — Sempre com seu humor sarcástico, Sandy se dirigiu a eles.
— Ainda é muito pouco, mas estamos nos acertando. — Ela respondeu hesitando um pouco, visto que foi pega de súbito.
— Ah é? Que bom. Chegou mais visita.
A notícia fez Sara visar Grissom para saber se ele estava contente. Para a sua surpresa ele parecia distante. Olhos quase fixos na mão envolta por ela, aparentava só se importar com o agora, com aquele momento em particular.
— Está pronto, Gil?
Se pudesse adiar a chegada de seus amigos por mais um pouquinho de tempo ele não iria reclamar. Nem que caísse de sono enquanto ouvia sua doce voz ou enquanto sentia suas carícias.
Com um breve aceno o supervisor concordou, voltando à realidade. A enfermeira não os deixaria entrar sem que tivesse a permissão do paciente ou de sua acompanhante.
— Certo. Não chore de novo, ouviu? Você acabou de sair do coma, não vamos querer que entre de novo. — Sandy olhou Grissom, na tentativa de fazê-lo rir. Tudo o que recebeu foi o típico semblante pensativo do supervisor.
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Do lado de fora do quarto euforia total. Os peritos do turno da noite, além do capitão Brass, estavam ali, só aguardando o "sim" da enfermeira para entrarem. Foi ideia de Nick que o pessoal trouxesse algumas lembranças em comemoração. Flores foram vetadas e eles tiveram medo que algum urso ou outra lembrança de pelúcia pudesse lhe causar uma reação alérgica. Então optaram por balões e algumas revistas, principalmente de palavras cruzadas.
Conforme solicitado, cada um higienizou as mãos com álcool antes de entrar no quarto. Acostumado com o protocolo do hospital, na verdade, nem precisavam ouvir as recomendações da enfermeira.
Mais afastado da porta, Warrick era o que menos se manifestava. Há dois meses não podia sequer imaginar como e quando seria aquele dia. Noites e noites sem dormir, rezando aos céus para que Grissom voltasse, que abrisse os olhos e se mostrasse bem. O pior de tudo era que, da mesma forma que imaginava coisas boas sobre ele, as memórias da hora em que o puxou para fora do carro, segurou-o nos braços e tentou conter a hemorragia surgia em sua mente. Depois de Sara não havia ninguém que ansiasse tanto vê-lo que ele.
Catherine sabia que ele estava um pouco melhor pelo tempo de convivência que passava com ele, mas nunca pôde saber realmente o que se passava em seus pensamentos. Nos últimos dias o CSI falou menos de Grissom, talvez para que pensassem que ele já não se encontrava mais tão focado naquele quarto. Ela, que ultimamente o tem conhecido melhor, sabia que dentro dele havia muito mais do que revelava.
— Pronto? — Catherine se aproximou dele ao notar que estava um tanto distante do grupo. Impossibilitada de emitir algum gesto carinhoso ao namorado, a supervisora se limitou a um sorriso afetuoso.
Sobressaltado pela chamada, o perito apenas acenou com a cabeça enquanto visava o chão.
— Deve estar louco para vê-lo — comentou em seguida.
Sua feição ansiosa e cansada entregava Warrick sem que ele precisasse falar. E mesmo que ele disfarçasse seu estado, Catherine já sabia a resposta. Fez aquilo para manter o namorado desperto.
— Visitei Grissom várias e vezes, mas tenho a sensação de que não o vejo há muito tempo.
— É normal sentir isso.
Acenando com a cabeça, Warrick ensaiou um sorriso torto, como se estivesse agradecido pelas palavras de conforto. Quando a enfermeira surgiu para lhes dar permissão de entrar, foi Warrick quem chamou a atenção de Catherine.
— Vamos?
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A enfermeira Wheeler abriu a porta.
Frio na barriga tomava conta de seus corpos. Era a primeira vez que o veriam acordado desde aquela noite terrível. Quem não sentiu um peso no peito de não ter dito algo a mais de bom para o supervisor antes do atentado, com medo de nunca mais vê-lo? Cada notícia sobre a melhora, ainda que pequena, era uma vitória para eles. O primeiro dia de visita após a saída do coma era como ter ganho o campeonato.
Eles encontraram Grissom deitado na cama e bem ao seu lado, Sara. Ao verem a cena, os dois que já estavam no quarto deram atenção máxima à porta. As visitas chegaram.
— Gil!
A emoção era evidente na voz de Catherine, primeira a entrar. Rápida, ela caminhou mais alguns passos para perto dele a fim de apreciar o momento que tanto esperava. O sorriso largo estampado no rosto da supervisora não se fazia presente há algum tempo. Sorriso que indicava alívio, um peso tirado de suas costas.
Um após um o grupo se achegava no quarto para se encontrar com um velho amigo. Em pouco tempo o espaço quase vazio foi sendo preenchido por vozes e alegres que comemoravam a recuperação do supervisor. Nick e Brass vieram sacolejando balões como forma de chamarem a atenção de Grissom. A tentativa deu certo. Os balões vermelhos com dizeres dos quais ele não conseguia enxergar lhe atraíam o olhar como um alvo. Peculiares, deixaram o homem que não é acostumado a ser visitado por um grande número de pessoas um pouco mais confortável. Mal sabia em quem prestar atenção e por isso se focou os objetos flutuantes.
Mais acuado, Warrick foi o último a entrar e o último a realmente se aproximar daquela cama. Viu ao seu redor os rostos sorridentes dos amigos e a emoção tomando conta de cada um ali, mas a sensação que teve foi de estar disperso de todos eles. Estranho para o perito que, tirando todos aqueles eventos, não passava de mais um amigo ansiando por sua volta e não um dos envolvidos na história. Dentre risos e vozes alteradas, Warrick parecia visualizar a cena em câmera lenta.
— Grissom, seu doido! Quer matar a gente de susto?! — Brass caçoou dele enquanto se aproximava. O semblante do supervisor forçando-se a não rir, o fez saber que sua tentativa deu certo. Seus olhos ameaçaram lacrimejar quando passou por aquela porta e o avistou acordado. Não era do tipo que se emocionava com facilidade, mas era de Grissom que se estava falando.
O capitão pediu para Greg deixar os balões que trouxe num lugar mais afastado. Então ele e Nick os prenderam na mesa distante para não correrem o risco de prejudicar Grisso de alguma forma. Eles foram ao encontro do supervisor e contaram-lhe o alívio e felicidade ao vê-lo acordado.
— Já estava me acostumando a não ouvir mais as suas broncas, Gris.
— Ele ainda não pode falar, Nick. — Sara lhe respondeu, cortando quaisquer tentativas do perito em continuar com aquilo.
— Oh... Então acho que vou aproveitar mais um pouco. — O texano brincou, deixando o supervisor com um semblante torto para que ele parasse com isso.
— Não pode falar, é? — Questionou Brass. — Que pena. Ia te perguntar se o tiro doeu pouco que nem o que eu levei.
— Não tinha algo melhor para perguntar, capitão? — Catherine o repreendeu, segurando-se para não rir pelo jeito que o colega falou.
— Tinha, tinha sim. Por que passou tanto tempo dormindo? — Ele zombou novamente. Era um mecanismo para lidar com a carga emocional de ver seu amigo entre a vida e a morte.
O capitão tocou em seu ombro esquerdo e levemente o pressionou. Aquela foi a melhor notícia que Jim recebeu há muito tempo e ele não tinha dúvidas de afirmar aquilo sem pensar duas vezes. Ver o amigo melhor que nos dias anteriores era um momento impagável.
— Não faça isso de novo, meu amigo. Você ainda tem uma vida inteira pela frente. — Ele riu por um instante ao se deparar com a realidade; uma na qual não perdeu o amigo por detalhes. Ficou emocionado, faltou pouco para chorar. — Saia logo daí para tomarmos um drinque depois.
Reorganizando-se a pedido de Catherine, o grupo formou algo parecido com um círculo em volta da cama a fim de que cada um pudesse vê-lo e fossem vistos por ele. Desacostumado em ser o centro das atenções em assuntos não relacionados ao trabalho, Grissom se sentiu um pouco desconfortável. Coisa de sua natureza, ele não podia esconder.
Sara não saiu de perto dele desde o momento em que chegou. Ela acariciou sua mão discretamente quando percebeu certo desconforto vindo dele. Não que ele não os queria por ali, mas não estava tão preparado para receber tantas pessoas em tão pouco tempo. Informação demais para administrar.
O toque de Sara foi o remédio que o manteve calmo. Como sempre, sua âncora.
Grissom mal sabia em quem manter o olhar. À sua frente, várias pessoas com o olhar quase fixo nele, falando coisas que sua mente, ainda “em reparos” não conseguia compreender. Sentiu-se um peixe em águas estranhas. Irônico, até engraçado pensar que, para ele, o tempo corrido não passava de simples horas.
Warrick, o último a se juntar ao círculo, se deslocou por uma brecha ao lado oposto aonde Sara se encontrava. Ficou quieto a maior parte do tempo, desde quando ele e a equipe chegou. Quando o supervisor pôs os olhos nele o subordinado sentiu um frio na espinha. Já não via mais aquele olhar suplicante ansiando por socorro. Já não via mais o sangue escapando por seus ferimentos. Grissom estava ali, bem à sua frente após passar pelo impossível.
— Gris... quanto tempo, não é? — Ele falou sem jeito, sorrindo por não acreditar que estava frente ao homem que salvou há dois meses.
Os outros ao redor iam parando de falar aos poucos, como se tivessem combinado. Todos sabiam quem era o membro da equipe mais afetado pelo incidente e por isso resolveram respeitar seu espaço. Carregando um sorriso terno, o supervisor tomou forças e estendeu a mão para chamá-lo a se aproximar dele. Surpreendido, Warrick hesitou num primeiro momento e cogitou recusar o pedido.
— Ele... sabe o que aconteceu? — perguntou a Sara.
— Não acho que ele se lembre de tudo, mas eu falei de você pra ele.
Assentindo para dizer que entendeu, a atenção de Warrick se voltou para Grissom mais uma vez. Ele engoliu em seco antes de continuar. O corpo vacilava, tudo ocorrendo no caminho inverso do que planejou. Se é que planejou se preparar para este dia.
— Olha só pra você, cara. Duro como uma pedra. — Ele brincou, porém o supervisor manteve o olhar fixo nele, como se estivesse dizendo ou perguntando várias coisas.
Só depois de ver seus olhos — apesar de um pouco distantes — cheios de vida, que Warrick reafirmou sua fé em milagres. Grissom foi uma prova viva.
Todos na sala entenderam a importância daquele momento e resolveram não atrapalhar.
Grissom o chamou para mais perto com o mesmo gesto, de algum modo o repreendendo para não ter medo ou para largar a timidez. Ele queria enxergar o amigo da melhor forma possível, ver o homem que o livrou de um fim trágico. Quando Warrick, enfim, se aproximou em definitivo do homem à cama, este por sua vez umedeceu os lábios e os moveu para que pudesse falar sem usar a voz:
— Obrigado.
Ao presenciar a cena o perito balançou a cabeça por várias vezes enquanto seus olhos vermelhos se enchiam de lágrimas. A voz não saiu na boca de Grissom, porém foi o suficiente para ele. Seu pequeno gesto valeu por dezenas e dezenas de palavras. Warrick se sentiu um privilegiado.
— Não!... Não precisa agradecer. — Sua voz embargada falhou ainda mais quando ele viu a tentativa de Grissom em se comunicava. Ele travou uma batalha consigo mesmo lutando para não deixar as lágrimas caírem. Em vão, enxugou o canto esquerdo do rosto, bem abaixo do olho na tentativa de contê-las.
Eram dias e dias pensando no supervisor e no que poderia ter feito para evitar a quase tragédia. Dias pensando nos eventos antes disso e dias pensando num possível futuro sem ele. Dias culpando a si mesmo por um crime que não cometeu. E por fim, lá estava Grissom: Recuperando-se, livre da morte.
— Me desculpe. — O perito não conseguiu se conter choro e desabou em lágrimas. — Me desculpe!
Os amigos ao redor se comoveram com ele e pensaram em confortá-lo. A reação de Warrick, por mais que esperada, os pegou em cheio. Por mais que eles imaginassem uma reação daquela, eles não souberam como reagir; Warrick pouco demonstrava realmente suas emoções para seus amigos, que agora vieram com força total como nunca havia acontecido.
Grissom, por sua vez, insistiu em estender a mão para alcançá-lo a fim de que ele a segurasse. Warrick continuava hesitando. Não se sentia "com moral" para fazer isto. Era como se ele não merecesse ser tão bem recebido e devesse ir embora dali.
— Vá em frente, Rick. — Catherine o incentivou, notando que, para Grissom se esforçar era porque Warrick merecia aquilo. O perito não parava de chorar mesmo puxando ar para seus pulmões na tentativa de se recompor. Se realmente soubesse o que o namorado sentia teria feito ou tentado fazer algo a mais por ele.
— Não faça o Gil levantar só pra ter que ir aí. — Sara brincou. Ela continuava a segurar a mão de Grissom discretamente.
— Vai. — Nick se aproximou de repente e tocou no ombro de Warrick, desviando sua atenção para ele.
Warrick não se viu com outra alternativa a não ser acatar ao pedido coletivo. Se não fosse por bem iria por mal. Então ele foi, não porque se sentia em plena vontade, mas porque seria coagido de qualquer forma. O perito se aproximou de Grissom, apertou sua mão e a cobriu como alguém que cumprimentava um amigo querido após muito tempo. Como um filho que aguardou ansiosamente pelo retorno do pai.
— Foi por pouco. — Warrick continuava a soluçar. — Mas você tá aqui com a gente agora. Graças a Deus você tá aqui. — Ele respirou fundo, enxugando timidamente. — Obrigado por ter aguentado firme.
Uma miragem era o que pareciam estar presenciando naquele quarto. O melhor dos sonhos. Um sonho em que um homem escapava de um destino inevitável e retornava para o mundo dos vivos. Em seus rostos só haviam sorrisos e mais sorrisos; os dias passados, enfim, estavam prestes a serem deixados para trás. O grupo, outrora abalado e quase desestabilizado, iria voltar aos trilhos finalmente.
— Ah, eu não chorei antes. Não me façam chorar agora vocês dois. — Brass quebrou o silêncio.
Apesar de ter rido junto dos outros, Warrick continuava tocado pelo momento do qual não iria se esquecer. As lágrimas cessaram, porém o coração continuava a bater num ritmo acelerado. O que mais ansiava, mais buscava ver, finalmente aconteceu. Seu supervisor, seu grande amigo, enfim acordado. Finalmente os seus fantasmas de noites turbulentas poderiam ser enterrados.
Warrick só se deu conta da realidade que vivia quando notou Greg se aproximar para também cumprimentar o supervisor assim que ele terminasse por ali.
— Você quase matou esse aqui do coração — disse o jovem CSI, referindo-se ao amigo do lado.
O CSI Brown, que continuava segurando a mão de Grissom, de repente, viu o que estava fazendo e a soltou aos poucos.
Greg apertou a mão de Grissom, curvando os lábios num sorriso terno. Engraçado para ele ter a sensação de que a última vez que os dois tiveram uma conversa foi há um, dois dias atrás, quando na verdade se passaram dois meses. As palavras que trocaram, de repente, retornaram como num passe de mágica.
— Eu estou muito feliz em te ver. Todos nós. — Greg falou com toda a sinceridade. — Obrigado por não ter deixado a gente. Não seria a mesma coisa sem você. Nem um pouco.
O jovem perito, apesar de se encontrar tão emocionado como os outros, não chorou. De um jeito terno ele fechou os olhos e ergueu ligeiramente a mão de Grissom em gesto de agradecimento. Nunca pensou em como a sua vida ou o ambiente ao redor sem aquela figura. Grissom foi o professor que menos gostaria de ter no ensino médio e faculdade, mas que aprendeu a admirar.
Quando ele se despediu de Grissom, Catherine voltou para perto dele. A supervisora passou a ponta dos dedos delicadamente no canto do rosto do amigo, com cuidado para não atrapalhá-lo. Até beijaria sua testa, mas a recomendação da enfermeira era o mínimo de contato possível.
— Graças a Deus você está bem. Tirou a noite de sono de muita gente. Bem-vindo de volta.
Sorrindo pelo comentário, Grissom tentou alcançar sua mão e foi recebido pelo gesto carinhoso de Catherine, que a envolveu delicadamente. O medo que teve de perdê-lo a aterrorizou por um bom tempo. Numa hora o viu tão perto numa mesa de restaurante, e em outra, numa cama hospitalar, entubado.
— Falta pouco para você sair dessa cama, Gil. Falta pouco. — O sorriso afeiçoava seu rosto. — Lindsey está louca para te ver. — Ela sacudiu de leve sua mão.
O que faria se perdesse o melhor amigo? A pior pergunta de seus dias. Seguir com a vida sem ele, sabendo que Grissom teria morrido pelas mãos de gente que eles caçavam seria sofrer um dano irreparável. Tudo é diferente quando a vítima é alguém da família.
Catherine fechou os olhos moveu a cabeça num gesto positivo. Ela, que segurava sua mão, a pressionou como forma de carinho. Uma lágrima escorreu no rosto dela. Foi um sinal de alívio e alegria. Finalmente podia olhar em seus olhos e saber que Grissom estava bem.
Nick veio em seguida quando Catherine se afastou dele. Não sabia o que dizer no começo já que um monte de palavras se embolou em sua mente. Ele riu por um instante enquanto tomava coragem ao falar:
— Disse tanta coisa quando você estava dormindo que... fiquei sem palavras, Gris — brincou ele, ganhando um sorriso acolhedor do amigo. — Mas, sério, eu... não sabe o quanto eu tô feliz em te ver acordado. O medo que eu tive de você não conseguir foi enorme... enorme.
Nick pensou em falar mais, demonstrar sua felicidade pela recuperação de seu amigo. Porém, quanto mais ele observava a figura do supervisor na cama, sem aquele aparato de equipamentos que causavam frio na espinha só de pensar, restava apenas o silêncio da felicidade que não cabia no peito.
O meio sorriso de Grissom foi para agradecer. Mesmo se estivesse em condições de falar ele ficaria da mesma forma calado e sem jeito do que responder. Era do tipo que não sabia reagir em situações como aquela.
Após falar com ele o detetive se afastou, dando lugar a Catherine, que voltou a tomar a palavra:
— Infelizmente não podemos ficar por muito tempo. Já ignoramos a recomendação entrando em grupo, imagina passar mais tempo. Iriam nos expulsar. — A supervisora brincou. — Quando acabarmos lá no trabalho eu tenho certeza que cada um vai combinar de vir aqui falar com você.
Apesar de estar sorrindo, era óbvio o desânimo em sua voz. Todos que vieram sabiam que pouco poderiam ficar ali. Ainda assim era uníssono o desejo de ficar por muito mais tempo que planejavam. Mas se havia algo de bom era que, quando deixassem o hospital eles sairiam de alma lavada, sem uma tonelada de peso sobre suas costas. Sem receios de que Grissom poderia não superar as adversidades que vieram sobre ele.
O supervisor tentou observar a feição de cada um. Todos ficaram um tanto abatidos pelo final forçado da visita. Catherine era quem mais sentiu, afinal, foi a mensageira das más notícias.
Como na primeira vez, um a um voltou a se aproximar dele para se despedir. Catherine, mais próxima, foi a primeira a se despedir. Fez o mesmo com Sara e então se dirigiu à porta para esperar os amigos. E mais uma vez, cada um voltou para perto dele no intuito de cumprimentá-lo mais uma vez. Alguns apertaram a mão dele e outros preferiram apenas tocam em seu braço de um jeito amigável. Todos se despediram de Sara, também.
Warrick, mais uma vez, foi o último a se manifestar. Timidez ainda falava alto, ainda mais num ambiente cheio de pessoas. Amigos seus, mas ainda assim estavam em grande número.
Ele tocou na mão do amigo uma última vez e a apertou, como sempre, afirmando a si mesmo que Grissom estava bem.
— Vejo você depois, meu amigo. Descanse agora.
Ao terminar de falar Warrick fitou Sara por um instante. Havia algo que gostaria de dizer a ela antes de ir embora. Os outros esperavam à entrada do quarto, então imaginou que não seria a melhor hora de falar de um assunto em específico.
— Cuide-se, Sara. E... cuide bem dele — brincou. — Acho que o Grissom vai precisar de uma mãozinha.
— Eu vou. — A mulher sorriu. — Pode deixar.
— Certo. Nos vemos depois, então. — Warrick acenou para os dois e se despediu em seguida.
Acompanhado de seus amigos o perito seguiu para fora. Tudo o que se restou no ambiente agora foram duas pessoas, balões e algumas revistas em cima da mesa. Sara não largou a mão do noivo nem por um instante.
A mulher entrelaçou seus dedos nos dele e então deu uma olhada em suas feições para tentar adivinhar como ele se sentia.
— Eles te amam bastante. — Sara mostrou-lhe um sorriso. Ela observou os balões na mesa e depois falou com ele. — Parece que você gostou deles. — Ao voltar a olhar para os balões se mexendo, Sara respirou fundo.
Ela chegou a se levantar para olhar as lembranças que o pessoal trouxe. Os balões vermelhos tinham dizeres como “fique bem logo” e “boa recuperação”. Ela sequer tinha reparado que se vendiam balões com frases do tipo. A maior parte das vezes que visitava um hospital era somente para focar nas vítimas ou suspeitos em seus casos.
— Você esteve em boas mãos. Não tenho dúvidas disso — falou enquanto ainda observava os balões. Seu foco mudou quando ela notou o conteúdo nas revistas também postas sobre a mesa. Animada, ela pegou uma e mostrou para ele dali mesmo. — Olha só, palavras cruzadas.
O olhar curioso do noivo foi o bastante para entender que ele se interessou.
Dois minutos se passaram e a enfermeira Wheeler entrou no quarto. Sua feição dava a entender que estava um pouco alterada.
— Quem eu tenho que matar por causa daquilo ali? — Ela apontou para os objetos deixados na mesa. Pega de surpresa, Sara não fez mais do que balançar os ombros e não apresentar uma resposta. — Ah! — Ela lamentou.
— Está... tudo bem? — Sara perguntou receosa.
— Não, mas vai estar quando eu descobri quem teve essa ideia. — O sorriso quase maléfico da enfermeira a deixou um pouco desconfortável. — Enfim, senhorita Sidle, eu imagino que você vai ser acompanhante do senhor Grissom até que ele esteja apto para receber a alta, estou certa?
Sara quase se esqueceu daquele detalhe, preocupada demais em aproveitar o tempo ao lado dele e mal parou para pensar nisto. Era uma coisa que faria questão de não deixar para depois.
— Sim, sim. Claro! — Sara respondeu de prontidão.
Logo após em concordar com a sugestão da enfermeira, Sara recebeu um toque no celular; uma mensagem, na verdade. Imaginando que fosse algo trivial ou relacionado ao seu trabalho, surpreendeu-se com o remetente: Warrick. Intrigada com a mensagem, imaginou que fosse algo em relação a Grissom.
Sua feição mudou de uma hora para outra.
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