Todos temos nossos segredos, mágoas e coisas das quais não gostamos de falar, seja por desconforto, falta de relevância ou simplesmente por não ser o momento certo. No entanto, quando você decide compartilhar sentimentos sinceros com alguém, precisa ter cuidado. A maneira como lida com um segredo, quando ele vem à tona, pode ferir profundamente a pessoa ao seu lado, que talvez não compreenda as razões por trás do seu silêncio.

Ou melhor, do seu sumiço.

— Merda Maxon… atende!

Perdi as contas de quantas vezes eu disse essas palavras essa semana, nas mais variadas entonações. As recitei com preocupação, com raiva, com tristeza, com súplica, com medo, com esperança… mas a única resposta que eu tive depois do meu pedido, foi o som da caixa postal. E as sensações que resultaram, foram também, as mais variadas possíveis.

— Ele não atende! NÃO ATENDE!

— O celular não tem culpa America — Celeste repreendeu enquanto eu berrava com o telefone e dava tapas em sua tela.

— Deus do céu! Que merda! Que inferno! — agarrei a raiz do meu cabelo ainda com o celular em mãos. Vagando de um lado para o outro da sala de Celeste — onde ele está? Para onde foi?

— Se acalma amiga…

— Não Marlee! NÃO!

— Marlee também não tem culpa America — bufei enfadada.

— Maxon, por favor — supliquei a ele, mesmo que não pudesse me ouvir — não faz isso comigo, não faz.

Minhas mãos tremiam enquanto digitava seu número pela sexagésima sétima vez apenas hoje. Angústia, medo, desespero, raiva, tristeza, todas essas emoções juntas e misturadas invadiam minha mente, fazendo meu corpo reagir com tremeliques, com falta de sono e fome. Meus músculos podem ser comparados a amebas molengas por não terem mais forças, e a cada dia que passa sem notícias dele, eu sinto minha alma se perdendo.

Fiz mais duas tentativas, mas Maxon ou está me ignorando ou largou seu celular em um terreno baldio a mercê da degradação pelo tempo. Meu coração mais uma vez se aperta, e como se estivesse sem vida e sem energia, eu caio no sofá, meus braços largados ao meu lado, como se eu não tivesse mais comando sobre eles. O celular caiu com um baque seco sobre o tapete, e lá ele permaneceria por ter sido tão inútil durante essas miseráveis três semanas.

— E-eu n-não entendo — lágrimas escorriam pelo meu rosto derrotado enquanto minha voz saía entrecortada.

— America — Marlee chegou ao meu lado — amiga, não fica assim, você vai ver… ele vai aparecer.

As palavras de Marlee apenas me causaram mais dor e eu desabei no choro, pois a lembrança que vem sendo meu pesadelo todas as noites, passa como um filme na minha cabeça.

Eu esperava todas as reações de Maxon quando Nicholas o enfrentou lembrando-o da paixão que meu namorado um dia sentiu, ou, com muita dor pensando nessa possibilidade… ele ainda sente por essa garota, chamada Daphne.

Paixão que, até então, era desconhecida por mim.

Eu esperei um soco, uma palavra ofensiva ou agressiva. Esperava que Maxon negasse, e deixasse claro que o que Nicholas, com tanta convicção o acusava, não era verdade. No entanto, se via estampado na cara dele sua luta interna, querendo negar a acusação, mas não podendo.

E nessa hora, tenho certeza que exprimi todas as facetas do desespero e tristeza. Minha garganta se trancou, não passava nem ar direito, mas a paralisia pareceu se dar pelo meu corpo todo, sendo que apenas meu cabelo se movimentava com a ajuda do vento fresco que gelou as lágrimas que nem percebi que haviam começado a escorrer.

Hoje me culpo por permitir que meu emocional me controlasse, se minha razão dominasse, eu teria gritado o nome dele ou corrido para pedir uma explicação, assim que Maxon, deu as costas ao semblante satisfatório de Nicholas, caminhando para fora do campo, ignorando meu olhar suplicante que o seguia.

Foi isso. Ele deu as costas a todos sem soltar uma palavra sequer.

Eu só não imaginava que ele estaria indo para um caminho sem rumo, sem deixar rastros ou pistas, não esperava que ele sumiria e me deixaria sem notícias, completando hoje, exatamente três semanas do seu desaparecimento.

Desde então, eu tenho ligado para ele no mínimo cinquenta vezes por dia, mando bom dia, boa tarde e boa noite sem falta, lembrando que eu o amo, que sinto saudades, que estou preocupada, isso nos momentos sensíveis, que imagino que ele nunca irá voltar, mas tenho ataques de raiva também, e lhe digo o quanto o odeio e o que farei quando encontrá-lo.

Mas principalmente, eu o questiono. Contudo, isso me faz mal, pois a cada pergunta, eu crio minha própria resposta, o que vem acabando comigo. Quero saber o porque ele decidiu sumir, e me martirizo em pensar que ele foi atrás dela. Quero saber onde ele está, e quase morro em pensar que ele pode estar com ela.

Eu não sei quem é essa tal Daphne, nem o que significou na vida de Maxon, para que ele tenha ousado a fazer o que fez apenas por ser lembrado dela. Ninguém ousou me dizer quem foi ela, apesar de já tentarem, mas eu me recuso saber. Digo que não estou interessada, mas na verdade, é porque tenho medo.

Tenho medo de descobrir que seja lá o que Maxon sentiu por essa garota, tenha sido mais forte e significativo do que ele diz sentir por mim.

O que sei, é que deve ter sido algo importante para fazê-lo sentir a necessidade de fugir de tudo e de todos, e não está escrito, o quanto isso me magoa.

— O que acha de vermos um filme para distrair? — Marlee sugeriu.

— Acho que deveríamos dar uma volta — Celeste rebateu.

— Não quero sair — respondi fraca, ainda sendo acariciada por Marlee — quero ficar aqui, esperando por notícias.

— Não é bom você ficar pensando tanto nisso Meri, precisa espairecer, você está horrível — Celeste afagou minha perna esmorecida sobre o seu sofá.

— Não quero, não hoje… por favor — supliquei. A morena respirou fundo e assentiu.

— Veremos um filme então, uma animação — Marlee alcançou o controle, fingindo estar animada.

— Eu vou pegar a pipoca — Celeste correu para a cozinha.

Por um curto instante, eu sorri. Eu tenho amigas maravilhosas e se não fosse elas… não sei como lidaria com tudo sozinha.

Desde a segunda semana que Maxon não deu notícias, eu comecei a passar meu tempo depois da aula no apartamento de Celeste, voltando apenas muito tarde para casa, pois comecei a surtar de verdade.

A desculpa que dei aos meus pais era que os ensaios estavam muito puxados. Eu não queria deixá-los a par do que vem acontecido, e ficar em casa, deixaria na cara, visto que estou nervosa e triste na maior parte do tempo.

Os finais de semana, eu durmo aqui.

Apenas uma pessoa que não são meus amigos sabe, eu nunca consegui esconder nada dela. May reparou já no dia da confusão que algo aconteceu e ela vem tentando ser meu consolo junto com todos, mas ela tem tido seus próprios problemas com Henrique, então evito enchê-la com minhas preocupações.

Ainda no colo de Marlee, sinto meus olhos pesarem enquanto as figuras coloridas dançam na tela da TV. O cheiro de manteiga na pipoca me faz lembrar dele, Maxon adora assistir filmes. Uma fina lágrima escorre ao lembrar desses nossos momentos tão singelos.

Suspiro, tentando buscar força e foco. Contudo, tenho vontade de desabar ao perceber que não encontro o que preciso, pois minha força é o Maxon, e não faço ideia de quando ele passou a ser meu propósito também. O medo dele ter me abandonado para sempre, de perceber que nunca me amou como disse… me toma.

E eu não quero perdê-lo. O amo demais.

Não sei o que a fala de Nicholas despertou na mente dele, só espero que ele esteja pensando em mim e que volte logo, mesmo que seja para me mandar para o inferno. Eu só preciso que ele dê um sinal de como prosseguir com minha vida a partir de agora.

Mesmo que seja sem ele.

[...]

Meu corpo suava e um calor escaldante me derretia. Ao longe, risadas distorcidas ecoavam, como se zombassem de mim. Eu corria por um corredor interminável, meu coração acelerando a cada passo. Sombras se aglomeravam, acusando-me de não ser suficiente. Uma presença opressiva se aproximava. De repente, algo agarrou meu rosto, sufocando minha voz e esperança. No último instante, um brilho ofuscante me cercou.

Então acordei com um baque, a coxa de Marlee, amassando minha cara, me trouxe de volta à realidade.

— Mas que…? — bebada de sono, com a cara grudando de suor, eu tirei a perna dela do meu rosto, piscando várias vezes para assimilar onde eu estava e o que fazia.

De alguma forma, minha cabeça estava em um vão entre a perna de Marlee e o encosto do sofá. Meu corpo estirado na transversal do mesmo, o pé de Marlee tinha uma mania estranha de ficar batendo no meu quadril. Celeste estava na outra ponta encolhida no espaço que lhe sobrou, sendo que meus pés usavam boa parte do seu lugar.

Levantei a procura do meu celular, não para ver que horas eram, e sim se meus recados haviam sidos retornados. Para cumprir com o costume, não havia nenhuma novidade, e mais uma vez para cumprir o costume, suspirei decepcionada.

São sete da manhã de sábado, e pelas frestas das persianas, a luz do sol invade suavemente o ambiente. Olhei ao redor, minhas amigas dormindo, algumas pipocas espalhadas pelo tapete, água e sucos na mesa de centro. Tudo ao redor era sinônimo de preguiça, e hoje em particular, acordei com vontade de agir.

Tomando cuidado para não interromper o sagrado sono das duas, saí do sofá e corri para o banheiro da Celeste. Meu reflexo no espelho era deplorável. Não que meu cabelo não acordasse todos os dias todo embaraçado, mas agora, ele estava sem vida também, pela minha falta de cuidado seu brilho sumiu, assim como a cor do meu rosto e a maciez dos meus lábios.

Como o dia aparentava estar bonito, decidi tomar um banho, desfrutando dos produtos importados que brigavam por um espaço na prateleira da minha amiga. A água fria apesar de arrepiante, também era revigorante. No closet infinito de Celeste, busquei pelas roupas de atividade física e escolhi um conjunto de legging com top preto.

Decidi que iria correr, respirar ar puro, extravasar minha mente de toda a perturbação. A dias estou trancafiada, preocupada. Se continuar assim, vai ser difícil superar um dia após o outro.

Sorri fraco ao me olhar no espelho, estava mais bonita que a pouco. Olhei para a tela do celular mais uma vez, o coração apertando pela sensação de abandono.

— Ah, Maxon… onde você está? — fechei os olhos, com a mínima esperança de senti-lo — você prometeu… prometeu nunca me deixar, prometeu estar sempre comigo…

Sequei a gota que descia lentamente pela minha bochecha, encarei meu reflexo frouxo mais uma vez e respirei, na tentativa de espantar o desânimo. Deixei meu celular carregando na cozinha. Dei uma última olhada para as minhas amigas e saí.

Meus pulmões agradecem pelo ar revitalizante que circula por ele, e até mesmo pela queimação devido a falta de hábito, me deixando ofegante, com a respiração desregulada precisando todo momento fazer uma pausa para me recuperar. Maldito sedentarismo.

Ainda assim, cada parada é um canto de Angeles que tenho o prazer de apreciar melhor. Aproveitei algumas voltas pelo parque central, o qual eu nunca tinha visitado e notado o quanto é agradável. O movimento de pessoas e automóveis, mesmo ainda sendo cedo, já é caótico. Pessoas assim como eu, exercitavam-se, outras corriam para pegar o ônibus e outras para os seus trabalhos.

Tantas pessoas me deram bom dia no meu percurso, e eu disfarcei tão bem o que tinha por dentro que fiquei intrigada. Todos temos problemas, e definitivamente não sabemos o que passa na mente do outro. Eu pensei conhecer Maxon até mais do que a mim mesma, mas desconhecia esse detalhe do seu passado. Quantas vezes que ele esteve comigo e não estava pensando nela?

Será que ele pensava nela enquanto estava comigo?

Deus do céu! Eu mesma me condeno a tristeza, tirando sempre as piores conclusões.

Vaguei por caminhos conhecidos, Angeles era enorme e facilmente eu poderia me perder. Com meu pulmão mais uma vez apelando pelo socorro, e com alguns fios de cabelo colados no suor do meu rosto, eu decido fazer uma pausa. Quando eu olhei para cima, senti meu sangue esfriar.

Lá estava, com seus vidros refletindo os raios de sol, o apartamento dele. Ri sem sentir nenhuma graça. Inconscientemente meus pés me trouxeram aqui e uma vontade enorme de entrar me tomou. Eu não tinha vindo procurá-lo aqui ainda, apesar de ser o lugar mais provável dele estar. Quem fez isso por mim foram o Aspen e Carter, garantindo que ele não estava.

Eu sabia a senha da portaria, tal pensamento fez meu peito se encher de ansiedade, ele poderia não estar lá, mas eu poderia estar perto do que é dele se Maxon fosse mais uma das pessoas que deixam a chave reserva embaixo do tapete, ou na planta morta ao lado da porta.

Antes que eu pensasse demais, subi a escadaria e teclei os dígitos, com sucesso a porta de vidro se abriu, revelando o luxuoso hall que dava acesso aos elevadores.

— Bom dia Sr. Stanley — cumprimentei o porteiro que, como sempre, tinha uma revistas nas mãos.

— Srta. Singer… — eu estava com o ar trancado, ele podia barrar minha passagem, mas não o fez, só me cumprimentou e voltou a ver sua revista. Soltei o ar aliviada.

Mordi o lábio com as mãos na cintura, olhando para mim no espelho, segurando um esperançoso sorriso. O porteiro não disse que Maxon não estava, e ele sabia que eu estava indo visitá-lo. Não quero me iludir, mas qualquer pequeno sinal eu crio expectativa.

Perdida nos pensamentos de quantas vezes eu e Maxon já nos pegamos nesse elevador, é que a porta se abre e me tira dos meus devaneios. Já no andar dele, me sentindo a maior idiota por não conseguir me mover, fico parada encarando o quadro em aquarela na parede, perfeitamente centralizado com a abertura do elevador.

Ultimamente tenho feito muito isso, parar para deixar que turbilhões de emoções e pensamentos tomassem conta de mim, me inibindo de ir para frente ou para trás. Nunca imaginei que a experiência de sentir que perdeu quem se ama seria dessa forma.

Acordo do meu maldito transe assim que vejo a porta do elevador se fechar comigo ainda lá dentro. Num salto instintivo eu me coloco entre ela quase fechada a fazendo se recuar liberando espaço. Num instante, estou definitivamente no andar dele, e meu coração dispara, acelera, bate como um motor quando vejo a porta do apartamento dele entreaberta.

Antes disso, eu estava incerta do que faria caso o encontrasse ali, e ainda estou, mas sentir o alívio de saber que ele estará atrás daquela porta me fez correr, correr para seu encontro como um jato, escancarando aquela porta sem educação ou modos.

— Maxon! — chamei exasperada por ele, meu coração pulando para fora do peito.

— America?

Uma silhueta próxima à janela preenchia aquele espaço, e nem de longe, para a minha amargura, aquela silhueta era a dele. Os traços esbeltos e a elegância na postura delatavam isso. Por mais que eu não quisesse, não pude evitar minha frustração. Não era quem eu queria encontrar.

— Amberly… — não consegui devolver o mesmo entusiasmo que ele tinha no sorriso.

— Olá querida — Amberly me mediu com seu olhar. Acho que ela tentava entender de onde eu vinha estando suada e ofegante — o que faz aqui?

— E-eu procuro pelo Maxon — engasguei — ele está? — A esperança era nítida na minha voz.

Amberly tinha um livro em suas mãos, e o depositou perfeitamente alinhado acima de outro na estante. Eu estaria morrendo de vergonha em aparecer com a aparência que estou agora diante dela, se não estivesse extremamente preocupada com outra coisa.

— Eu também vim procurá-lo — ela sorriu fraco se aproximando — mas não o encontrei aqui, faz dias que ele não entra em contato e não retorna minhas ligações. Sabe onde ele está?

Não deu, simplesmente não deu para manter uma postura digna, meus braços amoleceram ao lado do meu corpo e eu abaixei a cabeça, deixando minha decepção se esvair em forma de lágrimas.

Ele não está aqui, não está, e nem mesmo a mãe dele tem notícias.

— America, querida, o que houve? — Amberly correu ao meu amparo de braços abertos e eu me aninhei a ela.

— E-ele não dá notícias a-a semanas Amberly — ambas nos abraçamos com mais força — ele também não retorna minhas ligações e minhas mensagens. Estou muito preocupada de algo ter acontecido.

— Oh Deus! — ela exclamou afagando meu cabelo, apoiando seu queixo no topo da minha cabeça. — Mas o que houve? Vocês brigaram?

— Na-não. Na verdade, ele brigou, mas não comigo.

— Como assim? — Ela carinhosamente começou a me conduzir ao sofá da sala.

Aquele móvel tão familiar. Não pensava que a porra de um móvel era capaz de despertar lembraças… lindas lembranças de como nos amamos nessa merda de sofá.

— Me explique o que aconteceu, por favor… — pediu Amberly. Ela tentava esconder, mas era perceptível seu nervosismo.

— Maxon discutiu com um garoto no colégio, por causa… — engoli o nó que se formou ao lembrar que eu fui iludida em pensar que a briga entre os dois havia sido por mim — de uma garota… uma garota chamada Daphne…

— Daphne? — Amberly pareceu reconhecer o nome. Balancei a cabeça em afirmação. Ela pareceu refletir por uns instantes — O garoto com quem ele brigou, por acaso se chama Nicholas?

— Sim, foi com ele sim — eu não estava surpresa, nada me surpreendia mais. Amberly deu sinal para que eu continuasse a contar. — Bem, depois que Nicholas acusou Maxon de… — merda! Como é difícil falar isso. — De, ainda estar apaixonado por ela… Maxon deu as costas a ele e saiu do colégio, desapareceu e não tem dado notícia desde então.

Amberly ouviu tudo com muita atenção. Ela tinha os olhos pregados em mim e sentia sua compaixão através deles. A maciez do toque de sua mão sobre a minha é tão caloroso, assim como o cheiro nobre de suas roupas, que são tão semelhantes ao cheiro das roupas de Maxon

— Eu não sei o que faço Amberly, não sei o que faço, não sei o que penso — lágrimas e mais lágrimas — eu não entendo o porque ele fez isso, porque não dá notícias — larguei sua mão para gesticular, precisava manifestar o tamanho do meu desespero — e-e, e se ele sofreu um acidente? E se aconteceu algo grave? E se… e se?

— America, querida… — Amberly segurou minhas mãos com força — eu sinto muito, muito mesmo que você esteja passando por isso — ela sorri e acaricia a maçã do meu rosto delicadamente — saiba que vou dar um belo peteleco em Maxon por te submeter a isso.

Encarei Amberly pasma.

— Vo-você sabe onde ele está? — levantei num pulo. Suas palavras foi como uma chama de esperança.

— Não, não sei — a chama se apagou. Amberly novamente me segurou e fez com que sentasse ao seu lado — mas entendo a atitude do irresponsável do meu filho, não é a primeira vez que ele faz algo assim.

Meus olhos seguiam cada palavra de Amberly, captando todas para que nenhuma fugisse dos meus ouvidos. Ela disse que sabia o porquê de Maxon sumir, e eu queria entender.

— Maxon desde pequeno recebia muita pressão da parte de Clarkson — Amberly abaixou a cabeça, parecia se sentir culpada. — Então ele cresceu sempre com uma carga muito grande de responsabilidade. Ainda pequeno, fugia para sua toca no meio dos arbustos do jardim, para refletir sobre seus erros… pobrezinho… — ela suspirou — ele não tinha culpa de nada, eu tentava dizer isso a ele mas, ele sempre levou mais em conta as palavras duras do pai.

Olhei para nossas mãos unidas. Eu sabia que Clarkson era um idiota, mas não sabia que ele era um idiota até quando o filho era pequeno. Me pergunto se esse homem inescrupuloso já demonstrou afeto pelos filhos alguma vez na vida. Me pergunto como Amberly pode se envolver com ele.

— Eu sempre o encontrava lá quando ele sumia por horas — ela sorriu triste com a lembrança. — Com o passar dos anos, as coisas apenas pioraram, a toca nos arbustos se tornou pequena demais para ele e as exigências de Clarkson maiores. Ele precisava de um outro refúgio para aturar o pai, um deles, é esse apartamento — Amberly olha ao redor. — Clarkson havia comprado aqui por outras razões que envolviam Maxon — ela franziu a testa. — Digamos que… eu comecei a dar bom dia a muitas moças que tentavam sair de fininho completamente descabeladas da minha casa pelas manhãs.

Isso bastou para entender. Amberly parecia esperar uma reação negativa da minha parte, mas eu já sabia que Maxon se envolvia com várias garotas. Não era surpresa que ele as levava para sua casa.

— Mas a pressão continuou sendo tanta sobre ele, que Maxon praticamente passou a morar aqui, com o objetivo de sumir da vida do pai, além de, acreditar que isso é melhor para mim e para Brice. As brigas estavam cada vez mais agressivas em nossa casa, fazendo mal a todos e Maxon se sente culpado por isso.

— Eu sinto muito Amberly — firmei ainda mais o aperto de nossas mãos assim que ela deixou uma lágrima escapar.

Eu entendi o que ela quis dizer. Maxon quando recebe uma carga muito grande não vê forma melhor de lidar do que se isolando de tudo e de todos. Não vou mentir em dizer que isso me magoa ainda mais. Eu queria ser o porto seguro dele quando precisasse enfrentar uma tempestade.

No entanto, a tempestade da vez, é uma tormenta para mim. A razão pela qual ele precisou tirar um tempo para refletir é extremamente incômoda, talvez até, para o nosso relacionamento.

— Antes mesmo de garotas aparecerem aos montes na minha casa e desse apartamento ser comprado... ela era refúgio dele.

As palavras de Amberly trancaram minha garganta. Senti meus olhos arderem pelo tempo que fiquei sem piscar. Esse relato, era o que eu vinha evitando ouvir. Essa é a verdade que eu tanto tenho temido.

Sim, ela significou muito. Sim, ele amou ela.

— Não chore querida — fui abraçada.

— Ele foi atrás dela, não foi? — derrota, é isso o que sinto, derrota.

— Ela está bem longe daqui America, não acho que Maxon tenha ido atrás dela — Amberly afagou minhas costas, tentativa falha de me acalmar.

— Maxon não superou ela? Por isso que quis dar um tempo? Está se escondendo de mim por ainda amar ela? — Perguntei tudo o que me atormentava, talvez Amberly não tivesse as respostas, mas eu desabafei.

— Não se martirize assim, por favor… — ela me aperta mais contra si. — Tenho certeza que você não tem nenhuma relação com a atitude do Maxon. Ele ama você, eu sei disso. Te ama muito — eu sorri por pelo menos alguém ter essa certeza. — Maxon não teve boas experiências com Daphne.

Parei com o choro e me concentrei no que Amberly disse. Não teve?

— Ela foi a primeira namoradinha dele — ela começou a contar, mas eu não tinha certeza de querer saber, contudo, continuei ouvindo. — Maxon tinha quinze anos quando ele e ela começaram de namorinho — é uma merda saber disso, uma grande merda. — Ele não me contou, mas tenho certeza que foi com ela que ele viveu as primeiras experiências com uma garota.

Eu sabia que seria assim, que eu sentiria raiva e morreria de ciúmes ao ser proclamado em voz alta que foi com ela que Maxon teve sua primeira vez. Que tudo o que ele me fez conhecer, um dia ele conheceu primeiro com ela.

— Além de, ela ser uma distração para os problemas com Clarkson. Ela fazia ele se sentir bem, esquecer os problemas, era o seu novo refúgio — ela fez uma pausa. — Mas como qualquer casal jovem e imaturo, eles brigavam bastante. Maxon já chegou muitas vezes tarde em casa e aborrecido, e sabia que era por conta dela. Nem sempre ele era aberto comigo, mas de vez em quando, desabafava sobre as discussões bobas deles. Perdi as contas de quantas vezes eles terminaram e voltaram.

Eu imagino a pessoa supérflua que essa Daphne deve ser. É errado julgar sem conhecer, a hipócrita da minha mãe diz isso, mas eu não consigo não odiar essa garota sem nem mesmo saber qual é a cor da sua íris.

— O que Nicholas tem a ver com os dois? — Amberly parecia disposta a contar toda a trajetória da vida deles, e eu realmente, não estava confortável em saber.

— Nós tivemos que acompanhar Clarkson em uma viagem de negócios — Amberly suspirou cansada. A essa altura, já tínhamos nos soltado do abraço e descansávamos, tensas, no encosto do sofá — ficamos um pouco mais de dois meses fora, Maxon aproveitou para fazer um intercâmbio e ficou um pouco mais. Digamos que… ela não teve paciência para esperar ele voltar e Nicholas, mesmo antes da viagem, pelo que Maxon me contou, tinha interesse em Daphne e estava disposto a amenizar a impaciência dela, se é que me entende…

Claro… assenti a Amberly. Ela não passa de mais uma ordinária sem caráter que passou pela vida dele. Agora entendo o receio de Maxon sempre que me aproximei de Nicholas, ele deve o odiar por roubar sua amada.

— A primeira coisa que ele fez assim que voltou foi ir atrás dela, contar as novidades e matar a saudade… me lembro desse dia com muita clareza, ele mal chegou em casa para já sair, como se a vida dele dependesse de ver ela. Não muito tempo depois, vi ele entrar pela porta da frente completamente arrasado, o rosto inchado e sangue saindo pelo nariz, além das lágrimas que lavavam o rosto dele.

— Ele encontrou os dois juntos? — perguntei o óbvio.

— Sim — Amberly deu um sorriso amarelo — encontrou os dois juntos, e ao que parecia, não foi um encontro muito amistoso — uma pausa. — A dor que Maxon sentiu foi enorme, eu estava lá, dia após dia vendo ele sofrer por ela. Apesar do relacionamento imaturo, ele gostava muito dela. Daphne apareceu mais de uma vez buscando perdão, na maioria das vezes, Maxon me pedia para que a expulsasse de nossa casa. Um tempo depois, ele começou a reagir graças aos seus amigos que estavam o tempo todo com ele.

Isso não é novidade, temos um combo de amigos que inegavelmente, é para a vida inteira. Curvei o lábio em um meio sorriso por pelo menos, ter essa certeza.

— Ele ia perdoá-la — meu meio sorriso desabou com essa revelação. — Não vou esconder isso de você America, ele ia perdoar, foi atrás dela, no entanto, ele foi tarde. Daphne junto com a família se mudaram para outro país e isso foi outro acontecimento que arrasou com as esperanças dele.

Senti minha cara indo para o chão. Se, ele ia perdoar, é porque ainda amava. Se, lembrar dela o fez querer sumir, é porque ainda sente algo. Eu não poderia estar me sentindo pior, como uma perdedora, uma derrotada. Eu sei que Amberly não disse nada de má fé. Ela só me deu o direito que tinha de entender as razões de Maxon, mesmo que isso tenha lacerado minha alma.

— Querida, não chore, por favor… — ela me abraçou novamente.

— Quanto tempo faz que isso aconteceu? — foi a única coisa que consegui perguntar.

— Irá fazer dois anos — engoli em seco. Esse seria tempo suficiente para superar um amor oprimido? — Foi nesse meio tempo que comecei a dar bom dia a várias moças na minha casa e que Maxon praticamente se mudou para cá, e que… — Amberly pausou, fez com que nos olhássemos e sorriu — ele conheceu você…

Sorri fraco em resposta pela parte que me toca, mesmo não tendo certeza se isso importa agora ou não.

— Ele vai voltar querida — meus olhos se encheram, agora nadando em lágrimas sem coragem de olhar para Amberly. — Daphne marcou muito a vida dele e o que aconteceu o atingiu profundamente. Ser lembrado de tudo foi como voltar no passado e ele só está buscando se reorganizar. Mas ele ama você, eu sei disso.

Era o que eu queria acreditar. Juro que é, mas só irei conseguir quando Maxon decidir dar sinal de vida e esclarecer tudo, e me tirar dessa escuridão a qual estou perdida.

— Eu não sei o que pensar… — desabafei, surpresa pelo meu estoque de água nos olhos parecer infinito.

— Eu entendo America, mas não deixe de confiar em Maxon, acredite quando digo que nunca o vi mais feliz como agora, que ele tem você iluminando os dias dele. Não duvide, de verdade.

Minha sogra é uma pessoa maravilhosa. Apesar do nosso encontro não me trazer a tranquilidade e o alívio que eu buscava, foi muito esclarecedora. Esse foi o único lado positivo. Por mais que ela garanta coisas boas, meu inconsciente ainda me detona me levando a pensar o pior.

Não sei quanto tempo eu e Amberly passamos a mais conversando. Sei que foi ótimo para me distrair pois ela começou a contar histórias agradáveis de quando Maxon era criança e quando menos esperamos, já estávamos até cozinhando juntas um belo almoço com o que tinha de comida nos armários.

Minha cabeça desligou do assunto do Maxon e dessa Daphne por um tempo, mas não adianta, esse é o caso atual da minha vida, que envolve a pessoa mais importante para mim, não iria conseguir fugir disso por muito tempo.

— Você realmente não faz ideia de onde ele esteja? — Perguntei a Amberly enquanto esperávamos o elevador chegar ao hall.

— Não sei querida, e isso me angustia de uma forma que você não imagina. Mas meu filho não é imprudente — eu senti que ela disse aquilo para convencer ela mesma. Ela queria ser forte por ela e por mim, mas no fundo, ambas estamos à flor da pele.

A porta do elevador se abre, e quem eu menos esperava, estava lá.

— Aspen?