Fomaríamos um Maravilhoso Nós
37 Mar revolto - Part I
A cada onda que estourava na beira da praia, parecia um terremoto nos meus ouvidos. Tudo ao meu lado parecia tremer e meu corpo não reagia aos impulsos enviados pelo meu cérebro para fazer algo, como fugir ou encarar a realidade que me cerca.
De pé na frente da porta envidraçada, a paisagem da praia noturna dava vez com os coqueiros balançando e tomando uma forma escura por estar contra a lua iluminada, no entanto, esse foi um detalhe que eu notei antes, pois agora, a única coisa que roubava completamente minha atenção, era o seu reflexo no vidro, seu corpo em matéria física, a uma pequena distância de mim.
Meu coração estava louco, acelerado como um motor veloz, querendo saltar para fora do meu peito. Suas batidas frenéticas batucavam no meu ouvido me ensurdecendo, me deixando alheia de qualquer outro som que emanasse do ambiente.
Eu paralisei, meus olhos se arregalaram, assim como minhas pupilas dilataram com a imagem perfeita dele projetada naquele vidro lustrado. Meus lábios batiam um contra o outro, enviando sinais de tremores para minhas mãos. Sinto que qualquer movimento que eu fizer, minhas pernas vacilarão, me levando de encontro ao chão, porque a surpresa, foi enorme.
— America.
Fechei meus olhos, quebrando aquele contato que meus olhos tinham com o reflexo dele quando ele me chamou. Eu não podia acreditar. Ele estava ali, ali atrás de mim. Depois de todo esse tempo, quando eu menos esperei ele apareceu. Ali! Atrás de mim!
— Maxon! — estremeci como se uma adaga de gelo tivesse penetrado em mim quando Marlee exclamou o nome dele, em alto e bom tom, para finalmente provar para mim mesma, que não, eu não estava sonhando. Sim ele estava ali.
Aguardei a resposta dele, ansiando por ouvir sua voz como se eu precisasse de mais uma confirmação, mas não, ele não disse nada. Engoli em seco, temendo estar delirando, vendo coisas, o que facilmente eu comprovaria se tivesse coragem de me virar e ficar cara a cara com ele.
— Vamos deixá-los a sós — Carter soprou com cuidado. Por um breve minuto, eu esqueci que todos os meus amigos estavam por perto.
— Vamos ter uma séria conversa depois. Entendeu? — vi Aspen cochichar num tom ameaçador bem próximo ao ouvido de Maxon, que não fez nada além de concordar com um aceno. — Meri — Aspen se aproximou e tocou meu braço — tudo bem? — fiz que sim com a cabeça — eu vou estar lá fora, qualquer coisa me chama.
Sorri fraco para Aspen, finalmente conseguindo soltar o ar que estava preso me sufocando, dando a coragem necessária para me virar e encará-lo, finalmente. Aspen se afastou e quando ouvi a porta bater, deduzi que estávamos a sós, e eu nunca me senti mais apavorada, mas era hora, hora de encarar.
Foi até cômico, me virei para ele e não conseguia vê-lo, minha vista estava embaçada, enxergava apenas um borrão se aproximando. Recuei pela incerteza de querer proximidade, mas acabei batendo as costas no vidro, o que fez as gotas de água que me cegavam, saltar dos meus olhos, e então, tudo ficou nítido.
Maxon estava na minha frente, lindo como sempre, atraente como só ele é, apaixonante como só ele sabe ser, vestindo uma camiseta cinza, uma bermuda preta, o cabelo totalmente despenteado, mas mal sabe ele que isso é um atributo forte do seu charme. Seus braços claramente tensionados ao lado do seu corpo, evidenciando sua musculatura forte e definida.
Senti meu mundo desabar quando encontrei seu olhar: triste, desesperado e perdido. Mantemos o meu azul e o seu castanho em uma fitada intensa, onde absolutamente tudo era dito, mas nada era entendido. Maxon não estava nos seus melhores dias, e eu via em sua postura a mesma emoção que se espalhava pelos meus sentidos.
Iria completar quase um mês que eu sonhava com esse dia, onde eu poderia matar essa saudade infernal que sentia, que eu diria o quanto o amo, que eu finalmente me perderia em seus braços e que eu receberia minhas explicações.
Era isso o que eu mais desejava, no entanto, a principal reação do meu corpo ao digerir que realmente, meu Maxon está aqui agora… foi trincar minha mandíbula e incendiar meus olhos com uma raiva sem tamanho.
Absolutamente tudo, tudo o que eu passei essas semanas sem notícias, sem sinais de vida e com as certezas de que, ele foi atrás da outra, me deram uma bela chacoalhada para que eu acordasse para a vida.
Rangia meus dentes, mastigando a raiva que a presença dele me causava. Fui abandonada. Fui deixada de lado para ele ter tempo de pensar em outra garota, ou encontrar ela. Me deixou assim por quase um mês, um mês!
— E então? — disse finalmente, sorrindo falsamente para a cara derrotada dele.
— America — ele deu um passo, e eu amaldiçoei o vidro atrás de mim.
— Não se aproxime — desprezo era o que minha voz emitia, e ele sentiu, sei que sentiu pois suspirou e levou as mãos a cabeça, como se estivesse desesperadamente perdido.
Meu rosto estava lavado em lágrimas, elas caíam sem permissão, como se tivessem vida própria, e eu tinha que aceitar isso, não dava para evitar. Maxon estava nervoso, ele não sabia por onde começar a falar, isso estava claro, e devo admitir, eu esperei tanto tempo por uma explicação, mas sinto que não estou preparada.
Talvez seja o choque em reencontrá-lo, provavelmente é isso. Não estou com cabeça, não agora. A única coisa que sinto que preciso é descontar toda essa raiva que do nada se acumulou dentro de mim.
— Quer saber? — soltei finalmente, Maxon me olhou desesperado. — Vai pro inferno — abri a porta de vidro — vai pro inferno Maxon.
— America! — ele gritou assim que saí correndo.
Eu mataria ele se continuasse lá, minha vontade de esganá-lo, arrancar sua cabeça, encher-lhe de chutes e socos, era o que eu devia fazer, continuar lá e fazer isso, pois ele merecia. No entanto, me odeio por também querer me jogar naqueles braços e beijar sua boca sedentamente, deitar naquele chão mesmo e fazer amor com ele a noite toda, pois é isso, eu sentia sua falta.
O gramado até o portão de acesso a praia era extenso, então já estava ofegante quando finalmente senti a areia macia sob meus pés. E me propus a correr… correr e correr pois precisava extravasar essa raiva que me consome, e toda essa energia que a surpresa de Maxon estar novamente em minha vida me trouxe.
Mas precisava principalmente pensar… pensar longe dele.
Foi um baque para a minha sanidade revê-lo assim de surpresa. Ele sabia que eu estaria ali, e eu não sabia dele, aliás eu não sabia nada dele. Enquanto isso, ele sabia tudo de mim, porque eu dizia a ele todo dia. Todo santo dia como uma idiota eu lhe contava como estava me sentindo e esse filho da puta não dava a mínima, e agora, ele aparece.
Caio de joelhos, deixando a brisa suave limpar meu rosto dos fios alaranjados que estavam grudados na pele suada e molhada de lágrimas salgadas. A ficha ainda não havia caído. E eu preciso meditar sobre tudo.
— America! — senti meu sangue ferver quando ele me chamou.
Ele não entendeu? Não entendeu que eu não soube lidar com essa aparição? Não entendeu que não suporto olhar na cara dele? Que sinto raiva?
Maxon voltou a me chamar, e essa raiva acumulada serviu como um combustível. Já que eu não poderia desabafar sozinha, seria com ele então.
Me levantei e o avistei correndo na minha direção, corri de encontro e quando estávamos perto o suficiente, o ataquei com socos. Disparei golpes com toda a força que me era permitida por todo o seu peitoral duro como uma pedra. Ele não tentou me parar, aceitou minhas agressões sem intervir ou protestar.
— SEU FILHO DA PUTA! — Berrei desferindo meu punho fechado frenéticamente contra ele — SEU IDIOTA! EU TE ODEIO! EU TE ODEIO!
— Amor, por favor… — parei e encarei a cara dele, minhas narinas alargadas fumegando de raiva. Não pensei mais de uma vez em lhe dar um belo tapa na cara.
— AMOR?! — gritei indignada, Maxon apoiou sua palma no local que acertei — AMOR SEU INFELIZ?
— Eu sei que você está irritada agora, mas por favor…
— IRRITADA?! — Esbravejei com raiva — EU ESTOU POSSESSA MAXON, ESTOU QUERENDO MATAR VOCÊ.
— Linda, vamos conversar com…
— NÃO ME CHAME ASSIM! — Voltei a lhe acertar com força total.
Eu não sabia o que Maxon estava pensando. Ele poderia achar, e até mesmo eu achei que nosso encontro seria pacifico, que conversaríamos e colocaríamos os pingos nos “is”. Mas não, o que cresceu dentro de mim não permite. Eu quero acabar com ele, fazê-lo sofrer o que me fez sofrer.
Maxon tentou me conter mais algumas vezes, sua voz tentava me acalmar, mas eu estava impassível. Descontando tudo, tudo o que eu podia causar em dor física nele. A areia não era um bom lugar para brigar, eu sentia grãos na minha boca e a sensação era ruim. Espero muito que todo meu esforço tenha gerado dor nele, porque já estava me cansando.
Meus golpes contra ele já não eram tão intensos, eu não tinha mais forças nem energia, minha fúria foi embora, porém a raiva ainda presente. Me senti a maior otária quando me vi apoiada com o rosto em seu peito, chorando como uma madalena lhe dando socos inofensivos.
Me odiei infinitas vezes mais quando Maxon passou seus braços em volta de mim, e eu adorei a sensação, principalmente quando esse deagraçado afagou meu cabelo, afundando seu rosto no mesmo, sugando o cheiro doce dos meus fios, como se aquilo fosse o tônico da sua vida.
— Me perdoa… — sua voz estava embargada.
— Po-porque Maxon? — a minha também embargou — Porque me deixou? Porque fez isso comigo?
Um minuto de silêncio se deu entre nós. Eu escutava sem muita comoção os soluços de Maxon no meu ouvido, assim que o questionei. Ele sentia-se culpado, e para mim, isso ainda era pouco.
— Amor eu juro que não queria ter feito isso — Maxon me apertou mais contra ele, quase me sufocando. Seu rosto afundado no meu pescoço me dava calafrios.
Eu encharcava sua camiseta com meu choro em meio ao seu abraço, pensando o quanto sentia falta dele, e agora, eu teria as respostas que eu tanto me perguntava e sofria em pensar. E a primeira coisa que ele me responde, é que não queria ter feito o que fez. Não sei dizer exatamente o porquê, mas isso me enfureceu.
— Mas fez! — o afastei com um empurrão. Via a dor em seus olhos, mas era pouca comparado ao que eu senti. — VOCÊ TEM IDEIA DO QUE EU PASSEI? — O ordinário abaixou a cabeça. — Você desaparece POR UM MÊS! UM MÊS MAXON!
A praia por sorte estava vazia, havia uns postes de luz nas calçadas, mas o campo de areia era extenso, então onde estávamos não era iluminado. Eu via seu rosto coberto pelas sombras e a luz da lua iluminava os rastros de água em seu rosto perfeito, marcado com uma mancha vermelha que recebeu dos meus dedos.
O mar parecia acompanhar minha fúria, ondas imensas se quebravam uma atrás da outra, emitindo um som que acompanhava perfeitamente meus ataques de raiva, destinados ao loiro na minha frente.
— E porque? — eu tinha um sorriso debochado estampado na minha cara, ignorando o olhar de dor dele pesando em mim. — É isso o que eu me perguntei todos os dias, todos os caralhos dos dias eu me perguntei porque! PERGUNTEI A VOCÊ!!! — o empurrei com ódio — PERGUNTEI TODO DIA A VOCÊ SEU CRETINO! — o empurrei, e empurrei, e empurrei. — VOCÊ FOI ATRÁS DELA! NÃO É?! — ele não respondeu, chorava mas não me respondia. — VOCÊ FOI — concluí com dor e muito choro — VOCÊ FOI! — acusei.
Caí na areia derrotada, destruída. Eu tinha jogado o que mais me atormentava em sua cara, eu desabafei o que eu sentia. Essa raiva escondida, acumulada por cada minuto que fui ignorada, depois de receber juras de amor, declarações, depois de me presentear com momentos mágicos e inesquecíveis. Depois de estarmos bem!
— E-eu, posso explicar — disse choramingando, agachando-se ao meu lado — e-eu, ju-juro que posso explicar meu amor, só me ouve. Por favor — suplicou.
— Eu estou ouvindo Maxon — disse com desdém — estou pronta para te ouvir desde que te conheci, porque eu sempre estive para você. Sempre me dediquei a você! EU EXISTIA PRA VOCÊ!
Maxon sentou na areia trazendo os joelhos para o peito, apoiando os cotovelos no mesmo enterrando os dedos no seu cabelo. Estava claro em sua postura a dor que minhas palavras lhe causaram. Eu não estava feliz com isso, mas estava minimamente satisfeita.
Que ele fique encolhido nesse monte de areia, como eu fiquei encolhida sozinha em qualquer canto que eu me arrastava enquanto vivi preocupada, angustiada, atormentada pelo amor da minha vida, ter corrido atrás de outra.
— Aonde você está indo? — ele perguntou quando me levantei, determinada a não ficar ali.
— Isso interessa para você agora? — que ele receba essa indireta como um chute nas bolas.
Voltei cambaleando para a casa. Minhas pernas moles, sem energia, meu corpo sem vontade de viver e minha alma despedaçada. Eu gritei, eu explodi, eu soltei o que eu nem sabia que estava guardando, e isso me deixou despreparada para o que eu ainda iria receber.
Não estou me sentindo bem para escutar a verdade, na realidade, talvez eu nunca esteja pronta para ouvir Maxon e suas explicações. Escutar da sua própria boca que ele foi procurar Daphne para sei lá o que, não será fácil, e eu quero estar forte para quando essa hora chegar, quero meus olhos firmes e minhas lágrimas bem contidas para o que poderá vir em seguida.
Não ousei olhar para trás durante minha árdua caminhada até entrar pelos portões, descalçando os sapatos no meio do caminho para sentir a grama fresquinha fazer cócegas nos meus pés, uma terapia natural de relaxamento para meus nervos a flor da pele.
Mas foi inútil, o caminho todo até chegar a porta de vidro, eu chorei. Meus amigos estavam todos reunidos na enorme mesa em silêncio, encarando suas próprias mãos tensos, provavelmente para saber o desfecho da discussão que se iniciou entre mim e o amigo deles.
O rangido dos trilhos da porta assim que eu a abri acordou todos dos seus devaneios. Levantaram suas cabeças esperançosas e caíram de preocupação quando viram meu estado deprimente. A primeira a se levantar foi Marlee. Correndo para me abraçar. Mas, por cima do ombro dela, eu fitava com fúria duas pessoas ainda sentadas à mesa. E eles sabiam o porquê, por isso abaixaram a cabeça ao verem que eu os olhava.
— Oh Meri, o que aconteceu? — Marlee perguntou receosa, mas eu a ignorei.
— Vocês dois sabiam, não é? — eles engoliram em seco. — Vocês dois sabiam o tempo todo onde ele estava, não sabiam?! — perguntei, raiva pura na minha voz.
Os dois pareciam não ter coragem de abrir a boca. Arrependimento talvez? Acho que não.
— ME RESPONDAM!
— Sabíamos — Carter respondeu com a voz fraca.
— Como puderam?! — perguntei chorando — Como puderam fazer isso comigo depois de terem acompanhado todo o meu sofrimento? Como você pôde Celeste?
Como eu concluí isso? Fácil.
Maxon esteve aqui, por quanto tempo, não sei. Mas a casa é de Carter, e para ele ter se hospedado, Carter tinha que ter conhecimento. Celeste parecia saber exatamente o que passava na cabeça dele durante esse tempo todo, além de sempre me dizer coisas boas de Maxon, sendo que ela, era quem eu mais esperava que quisesse acabar com a raça dele.
Eu me senti enormemente traída pelos dois. Eles viram de perto o que passei. Me deram o ombro para chorar e toda a verdade estava gravada na mente deles. Permitiram que eu sofresse como sofri. E pra que?
— Amiga, vamos conversar com calma, você está muito exaltada — Celeste usou sua voz mansa, mas isso só me fez sentir mais raiva.
— Vocês são todos uns traidores! Todos vocês!
Corri para a porta por onde entrei, mas não fazia ideia de onde estava, e eu ainda tinha um pouco de dignidade e amor pela minha vida para sair por um lugar desconhecido à noite, sem saber onde ir ou a quem recorrer. E mesmo que eu não me importasse com isso, não poderia. Aspen estava segurando meu braço, dizendo apenas com o olhar que não permitiria que eu botasse um pé para fora de casa.
— Onde fica o meu quarto? — perguntei seca, me arrependendo amargamente de olhar na direção dos meus amigos e ver Maxon em pé na porta, exatamente onde eu estava agora a pouco.
— Terceira porta à direita — falou Carter.
Me soltei do aperto de Aspen e corri escada acima, sem olhar para trás, para os lados, para cima, para nada. Só queria encontrar a maldita porta à direita e me esconder naquele muquifo luxuoso e lá permanecer, até descobrir o que fazer.
Minhas malas estavam sobre aquela enorme cama de casal, que era pequena comparada ao tamanho do quarto que me instalaram. Eu queria chutar tudo à minha frente, desarrumar a cama, destruir as decorações, quebrar os espelhos, enfim, eu queria acabar com tudo por conta da frustração extrema que sentia.
Eu estava magoada. Magoada com meus amigos, magoada com Maxon, magoada até comigo mesma.
Pensava nisso quando comecei a ouvir os gritos abafados pela porta, vindos do andar de baixo. Era Celeste.
— Eu falei pra você! — ela gritou — Eu falei para não continuar com isso! Olha só a merda que deu! Por você ser um idiota! Um burro!
— Celeste, se acalma — Aspen interviu.
Tinha certeza que ela reclamava com Maxon, que provavelmente escutava tudo calado, como fez comigo enquanto eu jogava o que me vinha na cabeça em cima dele.
— Porque fizeram isso? — agora Marlee deu a voz — Qual o problema de vocês?! Parecem até que não viram como a America ficou todo esse tempo! Maxon! O que você estava pensando?!
— Lee, agora não é hora…
— Cala a boca Carter! Minha amiga está lá em cima, magoada comigo por culpa de vocês! Três idiotas! Espero que haja uma explicação muito boa para tudo isso, se não… eu mando todos vocês a merda e pra casa do caralho!
Os gritos cessaram, o que ouvi a seguir foram passos subindo a escadaria, silenciados próximos a minha porta. Me encolhi na cama, com medo de quem poderia ser. Não queria falar, não conseguia falar com ninguém agora.
— Meri — relaxei quando ouvi a doce voz de Marlee — amiga, eu posso entrar?
— Pode — minha voz soou fraca, mas dava para ouvir.
Marlee abriu a porta com cuidado, passando primeiro somente sua cabeça pela abertura, se certificando que o território era seguro. Ela me encontrou sentada na cama abraçando minhas pernas. Sorriu e entrou fechando silenciosamente a porta logo em seguida.
— Não se preocupe, não vou perguntar como você está — ela sorri fraco.
— Obrigada — retribui curvando levemente minha boca.
— Meri — Marlee se aproximava, torcendo os dedos — eu juro que não sabia nada do Maxon, eu nunca conseguiria esconder isso de você.
— Eu sei — ela pareceu tirar um peso enorme das coisas. — Deve ser por isso que eles não te contaram nada — Marlee chacoalhou a cabeça em afirmação, ela ficou magoada também.
— O que pretende fazer? — perguntou e sentou na ponta dos meus pés.
Suspirei cansada. O que eu pretendo fazer?
Nem eu sei.
— Não faço ideia Lee — puxei o ar, sentindo uma angústia enorme a cada unidade de oxigênio que eu inalava — não sei mesmo — agarrei os cabelos — não faço ideia — novamente gotas caindo dos meus olhos — estou perdida, desorientada, magoada. Não sei de nada.
Marlee veio ao meu lado e me abraçou. Eu me enlacei em minha amiga, dividindo todo o meu peso com ela. Agradecendo por ter alguém em quem confiar, pois lidar com tudo sozinha tem sido difícil e desgastante.
— Maxon está chorando horrores lá embaixo — o ar desceu rasgando minha garganta assim que o engoli.
— Pois é pouco! — disse seca. Raiva de novo. — Esse desgraçado! Some, aparece sem mais nem menos depois de semanas, e ele queria o que?! Que eu o recebesse de braços abertos?
— Falou com ele? Perguntou porque fez isso? — Marlee passava a mão em meu cabelo quando soltei nosso abraço e voltei a encostar na cabeceira.
— Não chegamos a conversar de fato — comecei a brincar com minhas unhas — perguntei, mas não dei a chance dele falar.
— Pois então devia.
— Eu sei Marlee! — respondi aborrecida dando um tapa em minhas coxas — Eu sei! Mas estou cheia de raiva. Eu olho pra ele e sinto meu sangue ferver.
— Eu entendo — acariciou minha perna — mas não deixe essa raiva atrapalhar tanto. Você deve falar com ele. Merece explicações.
— Sim, eu sei — apertei as pontas dos dedos, nervosa. Sim, eu preciso esclarecer tudo, como Marlee disse, eu mereço explicações e eu as quero. — Quem sabe amanhã.
Marlee compreendeu. Acho que todos concordam que hoje nada seria resolvido e esclarecido. Eu entendia que devia acalmar os ânimos para conversar e ouvir. Encontrar Maxon para os meus sentimentos, foi como encontrar uma bomba, tudo explodiu de uma vez, e para reconstruir o estrago, seria necessário muita paciência.
Ninguém ousou tocar ou sequer passar na frente da minha porta. Marlee está comigo desde então, recebendo toda a carga dos meus desabafos. Não sei que horas são, mas um sono começou a bater.
— Quer comer alguma coisa? — minha amiga perguntou após desfazer minhas malas, guardando todas as minhas roupas na gaveta da cômoda. Ela é incrível.
— Não obrigada, não estou com fome — sorri em agradecimento.
— Mas acho que um banho você devia tomar — sugeriu — seu cabelo está cheio de areia.
— Acho que um banho será bem-vindo mesmo — de fato. Minha pele estava grudenta do suor pela minha pequena corrida mais cedo, além dos grãos de areia em todo o canto.
— Celeste se livrou de todos os pijamas fofos que coloquei na sua mala — eu e Marlee rimos um pouco — vai ter que usar um baby doll sensual por esses dias.
— Se eu ficar aqui por esses dias — dei um sorriso amarelo. Marlee me olhou furiosa.
— Você vai ficar até o último dia sim! — Até que é divertido ver ela irritada por isso. — Pode não ter sido como eu esperava a nossa chegada, mas nem que eu e você tenhamos que nos divertir sozinhas, mas nós vamos. E eu vou começar deixando Carter sem sexo por me esconder as coisas.
Acabei rindo alto. Se eu fosse uma pessoa vingativa, minha amiga castigaria Carter por mim.
— Obrigada pelo apoio Lee — segurei suas mãos quando fui até ela.
— Você pode contar sempre comigo — sorrimos uma para a outra — agora vai — ela me empurrou — vai tomar um banho, coloca esse pijama que te deixa gostosona e vai dormir.
— Tá bom.
Tinha uma banheira em minha suíte, fiquei com vontade de enchê-la e tomar um belo banho de imersão, mas estava tão cansada que deixei a ideia de lado. A água do chuveiro está tão boa quanto estaria minha piscina particular. A janela do banheiro não era nada convencional, cobria uma parede inteira dando vista para o mar, e não está escrito o quanto aquilo era lindo.
Acho que o banho é um dos melhores momentos para pensar. É tão particular, relaxante e íntimo. Os pensamentos se organizam e os sentimentos se estabilizam. Estou mais calma, mas não nego que posso explodir novamente, aliás, estou prestes a negar tudo o que disse sobre banhos relaxarem, pois quanto mais eu penso, mais meu corpo se treme.
Maxon está aqui, debaixo do mesmo teto que eu estou. Eu falei com ele, toquei nele. Eu vi ele.
Na hora eu surtei tanto que nem notei o quanto tudo era real. Me sinto tão perdida, angustiada, sem saber o que fazer ou como agir. Uma parte de mim quer apenas quebrar sua cara, e a outra, quer respostas, ouvir o que ele tem a dizer. Contudo, meu lado que quer massacrá-lo, é quem prevaleceu até o momento.
Marlee havia saído assim que entrei no banho, então, o quarto era só meu outra vez. Com a toalha enrolada no corpo, pego em cima da cama o pijama que Marlee escolheu. Maldita seja Celeste por ter preparado uma mala para uma protituta de primeira classe.
Visto o conjunto de cetim rosa claro, rendado, curto e decotado. Lindo, porém mega inadequado para o meu clima fúnebre. Com o cabelo seco e dentes escovados, sento-me na cama e pego o celular, na tela indicava que já passava de meia noite, porém, não era apenas o horário que aparecia, também tinha uma notificação. Dele.
Ri enfada. O xingando mentamente de tudo o que eu podia após ler a sua milagrosa mensagem: “Podemos conversar?”
Idiota! Idiota! Idiota!
Isso apenas prova que ele recebia e lia tudo o que eu mandava para ele. Que ele não respondia porque não queria!
Quer saber então Maxon?
Não quero te responder e não vou!
Quantos dias eu passei aguardando uma notificação dele? Quantos malditos dias?! E agora, elas deram de aparecer, não é mesmo? Muito engraçado.
Apaguei a luz do quarto e joguei meu celular dentro da gaveta, no meio das minhas roupas. Não quero receber nada agora, eu queria antes! Antes eu estava desesperada para ser convidada a conversar, agora não mais.
Me joguei na cama, tendo a noção que perdi completamente o sono depois do frio na barriga que a mensagem dele me causou. Mas estava errada. Deitar a cabeça no travesseiro deixou minha mente avoada, o som das ondas se levantando e depois se quebrando é como um calmante injetado direto na veia.
Nem percebi quando adormeci.
[...]
Eu estava nas nuvens, tudo ao redor era macio e aconchegante, as fumacinhas menos densas escorregavam pela minha pele, me causando cócegas. Eu sorria contente pela sensação gostosa. Era tão suave ao mesmo tempo tão arrepiante e de certa forma tão… familiar!
— O que está fazendo?! — acordei num pulo. Estava de bruço na cama e me atrapalhei toda para me levantar e sentar depois do susto.
— Desculpa! E-eu não queria acordar nem assustar você — meu coração estava acelerado, eu tentava acalmar mas Deus! Eu estava quase sufocando.
— O-o que está fazendo aqui Maxon? Que horas são? — perguntei ao ver que ainda estava escuro lá fora.
— Quase quatro — ele me deu um leve sorriso.
Eu estava completamente desorientada e bêbada de sono, o que limitava meu raciocínio e até meus movimentos. Parecia que não estava vendo direito, mas… Maxon estava em minha cama… próximo… muito próximo. Ele está sentado ao meu lado, olhando para mim de uma forma que estava me deixando completamente sem ar.
— O que faz aqui? — perguntei me encolhendo.
Meu corpo tremia, não pelo susto, mas porque eu sentia a intensidade de sua presença, eu não conseguia vê-lo com clareza, pois o quarto estava pouco iluminado, apenas algumas faixas de luz vindas da janela aberta me dava um pouco de vislumbre do seu rosto. Podia ver seus olhos avermelhados, nota-se que ele chorava. Mas ainda assim, estava lindo.
Seu cabelo bagunçado do jeito que eu tanto amo. Seu perfume… ah seu perfume me entorpece. Eu fiz questão de respirar um pouco mais fundo apenas para sentir sua fragrância masculina com mais precisão. Seu abdômen e peitoral maldosamente e apelativamente em evidência na sua camiseta branca.
Desgraça, parece que ele veio vestido para me enlouquecer.
— Eu só… só queria — ele suspirou e se calou, acabando com nossa troca de olhares quando abaixou a cabeça.
— Só queria? — me odiei por perguntar, eu ainda sentia raiva dele.
No entanto, estava calma o suficiente, na verdade, estava cansada o suficiente para voltar a descontar tudo o que ele me faz sentir. Contudo, me arrepiei quando percebi o que ele estava me fazendo sentir… naquele momento.
— Por favor — inesperadamente Maxon se aproximou mais, foi um avanço muito ousado diante das circunstâncias — por favor, eu preciso disso. Me bata se quiser, me mate, mas antes…
Meu pulmão virou um motor, eu ofegava descompassadamente, minha boca seca e meu coração parecia querer saltar do meu peito quando Maxon segurou meu rosto com sua mão, arrastando-a para minha nuca, fazendo-me querer revirar os olhos de tanto arrepio que aquilo me causou. Mas eu mantinha meus olhos firmes no castanho que me hipnotizava.
Nossos rostos estavam a centímetros de distância. Meu peito subia e descia com as investidas fortes da minha respiração. A pele nua do meu decote entrou em contato com o tecido de sua camisa, o simples toque me causou uma excitação sem tamanho.
O pior, é que me sentia encurralada.
Eu queria estar nessa situação?
Com Maxon se aproximando cada vez mais? Com nossas respirações se misturando? Com seus lábios roçando levemente nos meus? Com sua mão firme na minha nuca e outra subindo suavemente em minha cintura?
Eu queria?
A resposta nunca foi mais fácil: sim, eu queria.
Eu sinto raiva. Sim. Mas eu também sinto um desejo enorme por esse cara, eu sinto uma saudade imensa disso, e me enlouquece ver que ele também. Eu vejo a sede que ele tem de mim em seu olhar grudado no meu, e eu me abro para ele porque eu quero matar essa sede dele e a minha também. Porque eu preciso disso.
— Me deixe beijar você America, eu preciso disso de uma forma que você não tem noção — Maxon ditou essas palavras com a mão firme no meu pescoço, seu nariz trocando carícias com o meu e seus olhos apertados, mostrando-me o grau de fervor que ele tem dentro de si.
Eu não respondi seu pedido, não conseguia. Eu estava em um delírio interno com seu toque eletrizante e com sua boca entreaberta pronta para atacar a minha. Eu olhava para ela, sentindo uma enorme ansiedade porque eu a queria, queria na minha logo.
Bastou eu levantar meu olhar, para encontrar o de Maxon suplicante, e nada mais precisou e nem poderia ser dito. Maxon na maior ansiedade já vista, me beijou.
Deus do céu! Eu gritava por dentro, surtava!
Sua mão na minha nuca me puxava para ele com muita, muita força. Nossas bocas coladas sem se mover. Apenas sentindo o toque e as descargas elétricas emitida pelo contato. Eu não consegui evitar o gemido de alívio, de prazer em tê-lo. Me agarrei ao seu pescoço, fazendo nosso contato ser ainda maior.
Deus! Eu precisava tanto dele!
Eu estava ficando sem ar, mas Maxon não queria me soltar, ele parecia disposto a morrer sem fôlego, mas eu precisava de um espaço, queria sentir minha língua na boca dele, e para isso eu tinha que cortar seu longo selinho. Mas quando fiz menção de me afastar, foi então que ele me apertou mais ainda.
Eu respirava pelo nariz assim como ele, soltamos nosso ar pesado junto com nossos grunhidos de satisfação e prazer. Aquilo estava maravilhoso, apesar de sufocante, mas não importava. Não importava mesmo.
Com muita, mas muita relutância Maxon se afastou, mas apenas o necessário para nossas bocas desgrudarem e o ar passar livre. Ele ainda me prendia colando nossas testas. Eu senti um calor imenso subir pelas minhas veias, eu queria mais, não queria apenas um selinho longo. Quero nossos beijos sedentos, quero minha língua se perdendo nos cantos da boca dele.
E foi isso que eu fiz. Me remexi na cama ficando de joelhos, um pouco mais alta que ele, não desgrudando nossas testas, passei uma perna por cima do seu colo e lá me acomodei. Me peguei sorrindo junto com ele pela minha audácia, no entanto, o sorriso se foi quando ataquei sua boca do jeito que eu queria.
Eu gemia durante o beijo e Maxon também. Nossas línguas matando a saudade uma da outra com loucura e com paixão. Não era um beijo fofo, muito menos romântico. Nós éramos como dois animais brigando por um pedaço de carne.
Eu sentia vontade de gritar com as mãos maravilhosas dele passeando pelo meu corpo, ele enfiava por baixo da minha camisa e passeava com as mãos nas minhas costas nuas, aquilo me queimava, me deixava quente e sedenta por mais. Nosso beijo completamente obsceno teve que se encerrar. Ar!
Maldito Ar!
Em compensação Maxon desce seus lábios, deixando beijos chupados no meu pescoço, em minha mandíbula fazendo um tesão enorme me deleitar. Tudo ficou melhor quando senti a protuberância do seu pau no meio das minhas pernas, porém, ficou melhor ainda quando Maxon gemeu por eu rebolar no seu colo, querendo sentir toda a extensão do seu membro na minha intimidade, que sente tanta falta dele tanto quanto minha boca.
— Aaah — suspirei alto demais quando suas mãos possessivas se enfiaram por dentro do meu short apertando forte minha bunda.
Maxon segurava ela beliscando minha carne, ele estava impondo um movimento para eu seguir de ir para frente e para trás, fazendo-me esfregar sobre sua potente ereção, e assim eu fazia, como ele queria e como eu adorei fazer. Tenho certeza que minha umidade molhou até sua bermuda, do tanto que eu estava molhada e que eu dançava sobre ele, deitando minha cabeça para trás, dando espaço para sua boca beijar meu pescoço e meu colo o tanto que ele quisesse.
Com raiva eu me livrei de sua camiseta, e tomei como meta da minha vida passar minhas unhas por aquele abdômen e aquele peito dos deuses. Mas não conseguia me concentrar na missão com ele segurando a raiz da minha nuca, movimentando minha cabeça ora para beijar a minha boca, ora para chupar meu pescoço.
Ele é minha perdição. Maxon é o meu fundo do poço.
Poço que eu me jogo de cabeça.
— Quero fazer amor com você — sua voz estava rouca no meu ouvido.
— Hmm… — manhosa, eu gemi com sua mão boba que alcançou meu seio esquerdo por dentro da camisa.
— Eu sinto tanto a sua falta America — disse de um jeito dominante, mordendo o nódulo da minha orelha.
Eu sorria com suas declarações, e elas voavam na minha mente como borboletas intrusas. Eu também quero fazer amor com ele, eu também sinto a falta dele assim como ele… sente… a minha.
Inevitavelmente, meu corpo se enrijeceu e eu parei de sorrir. As razões pelas quais eu sentia falta dele e que ele, a minha, me despertam dessa luxúria que eu estava me perdendo.
Ele sumiu da minha vida por semanas, por conta de outra garota. Me abandonou por semanas, sem um pingo de consideração por outra.
— Não — disse, afastando meu pescoço dos beijos dele.
— O que foi? — cínico infeliz! Aproveitador idiota! Imbecil!
— Sai do meu quarto — exigi descendo do colo dele indo abrir a porta.
— America? — o olhei furiosa, bastou para ele entender que a America trouxa a qual ele chamava, já não estava mais aqui.
— Anda logo, saia! — queria arrancar meus olhos por decidirem começar a chorar justo agora.
Maxon me olhou por mais alguns segundos, sua postura enrijecida também. Mas ele não insistiu em me contrariar, pegou sua camisa, vestiu e se aproximou.
— Amanhã conversamos.
Não olhei em sua cara. Foi tão ridículo da parte dele fazer isso comigo. Invadir meu quarto, me beijar daquela forma e ainda querer mais depois de tudo!
Mas quem eu estava querendo enganar? Eu também queria. Estava maluca por ele, minha saudade falou mil vezes mais alto e não posso me arrepender, não quando foi tão maravilhoso estar em seus braços, e ser desejada daquela forma alucinante.
Não, eu não me arrependo.
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